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quarta-feira, 18 de março de 2026

O Garoto que Enxergava pelas Frestas - HIRTIS

 

O Garoto que Enxergava pelas Frestas

HIRTIS


Alguns garotos brincam no quintal. Outros encontram pistas em lugares onde ninguém pensaria em procurar. Ele era assim — sempre atento, sempre curioso. E foi por isso que percebeu algo estranho antes de todo mundo. O grupo de viagem da escola estava eufórico: era a primeira vez que viajavam pro exterior. Enquanto alguns garotos tentavam captar sinal pra postar uma story, ou trocavam  fotos e mensagens pelo WhatsApp,  Pedro não participava. Tinha o celular guardado na mochila e observava o comportamento irritadiço, agastado do motorista do transfer que os levava do aeroporto ao hotel em Roma.... Havia algo estranho ali.

A primeira coisa estranha que Pedro notou foi o bloqueio de saída: o motorista acionou a trava de segurança infantil nas portas traseiras, assim que todos entram, algo incomum para um transfer de adolescentes.

Sentado  logo atrás do banco do motorista, Pedro não se descuida e mantém os olhos fixos na sua nuca. O homem está inquieto, incomodado e não pára de se ajeitar no banco.  As mãos grandes e apertadas no volante de couro revelam nós em seus dedos compridos e grossos. É um homem forte.

Ele finge ignorar  as piadas e a barulheira dos garotos, mas  Pedro percebe que ele presta atenção em tudo. Constantemente ajusta o retrovisor.

O volume do rádio estava zerado, mas o menino podia ver a luz do visor oscilando, conforme alguém falava do outro lado. Ele não respondia, mas assentia com a cabeça como se estivesse recebendo ordens que os garotos não deviam ouvir.

Apesar do trânsito fluir normalmente, ele sai da via principal e entra em ruelas estreitas e desertas com os olhos cravados no retrovisor pra ver se algum carro os seguia.  Quando questionado, mal humorado, responde em italiano. 

Mas o sangue de Pedro gelou quando a tela do celular dele, jogado no console central, brilhou. Pedro se levantou, deu dois passos à frente como se estivesse se espreguiçando e esticou o pescoço como um avestruz em alerta. Conseguiu ver na tela a foto do colégio onde eles estudam e uma única palavra: “Presi”.

Nesse momento, uma criança surge do nada e atravessa a rua bem na frente do ônibus. O motorista pisa no freio com tudo e os pneus cantam no asfalto. Lá dentro, o impacto foi imediato: a molecada é  arremessada pra frente num bolo só; celulares e mochilas voam. A  meninada abriu um berreiro  comprido. Imagina o choque de quem pensa que a vida acabaria aí.  Mas, como eram adolescentes, o susto durou menos que a freada e logo veio o primeiro grito: “Ei motorista, quer matar a gente”? O gelo foi quebrado e o ônibus explodiu em gargalhadas, zoação e gente se empurrando de volta aos bancos como se nada tivesse acontecido.

Algo chama a atenção do garoto: na confusão, o paletó  do motorista se movimenta e Pedro vê o brilho metálico de uma arma presa firmemente entre o cinto e o cós da sua  calça.

E cada vez que o motorista fazia uma curva mais brusca ou se inclinava para conferir o retrovisor, o paletó se abria  e mostrava o cabo da arma. O motorista, desconfortável, ajusta o objeto o tempo todo como se estivesse pronto para sacá-lo a qualquer segundo, algo totalmente incompatível com um simples guia de excursão escolar.

Reinava dentro do ônibus um contraste brutal: de um lado, seus amigos dividiam pacotes  de biscoito, trocavam fones de ouvido, batucavam no banco de trás acompanhando uma música que tocava em algum celular;  do outro lado, o perigo da morte escondida  no avesso do paletó do motorista. 

Pedro não disse uma única palavra, engoliu em seco, sentindo o gosto metálico do medo na boca; encolheu-se no banco com a mochila agarrada ao peito como um escudo improvisado.  Tenta desviar o olhar para não ser descoberto, mas seus olhos voltam magneticamente para aquele volume rígido sob o avesso do paletó; a percepção de que todos ali estão em perigo iminente cria um nó insuportável na sua garganta, uma náusea súbita o domina, misturando o cheiro de diesel do ônibus com o  terror paralisante de estar preso em uma armadilha em movimento.

que os aguardavam no hotel — “O motorista do ônibus está armado. Socorro!” —Torcia para que o sinal de internet fosse mais rápido que qualquer movimento estranho Com as mãos tremendo por baixo da mochila, ele desbloqueia o celular. Digita rápido, quase sem olhar pra tela, uma mensagem enviada ao grupo de monitores do motorista. 

Enquanto os adolescentes,  apinhados nas janelas do lado direito do ônibus, apontam para o Coliseu, a mensagem de Pedro disparou um alerta imediato  no grupo de monitores. Em contato direto com a Polizia di Stato, orientaram Pedro: 'Fique calmo. Não olhe para ele. Falta pouco”.

Quando o ônibus finalmente manobrou na frente do hotel, a cena parecia saída de um filme. Antes mesmo que o motorista percebesse o que estava acontecendo, três viaturas discretas cercaram o coletivo. Policiais à paisana, que já aguardavam na calçada fingindo ser turistas, entraram com armas em punho e cercaram a cabine com uma precisão cirúrgica. — “Mani in alto”! — a ordem era firme. O motorista foi imobilizado e algemado, com cara de quem não sabia o que estava acontecendo.

 

O pânico foi geral. Os estudantes que, segundos antes, estavam brincando, mergulharam entre os bancos. O som da batucada deu lugar a um silêncio aterrorizante. Ninguém entendia por que a polícia italiana fazia  ali. O ônibus virou uma bolha de tensão e de rostos emoldurados com pontos de interrogação.

 

Mas  o clima mudou instantaneamente, assim que um dos monitores subiu no veículo e explicou, ainda ofegante: — 'Gente, está tudo bem... O Pedro viu que o motorista estava armado e avisou a gente pelo WhatsApp. 

 

O medo evaporou como se nunca tivesse existido — 'NÃO ACREDITO! O CARA TAVA ARMADO?!' — gritou um, já com o celular na mão gravando a cena. — 'PEDRO, TU É UM MITO!' — berrou outro, puxando uma salva de palmas.

 

Todos vibravam com a prisão como se estivessem participando de um filme de ação; o que até então era um trauma em potencial virou o evento épico da viagem.  Entre gritos de comemoração e assobios, desceram do ônibus, não como vítimas, mas como protagonistas de uma história que renderia meses de postagens.

 

 

A  adrenalina  estava no teto. O medo tinha virado euforia pura. —  “Mano, olha o tamanho dessa metralhadora! Deixa eu tirar uma foto aqui!”! — gritou um dos meninos, já esticando o braço com o celular em modo selfie na direção de um dos agentes da Polizia di Stato. Mas a recepção não foi a que eles esperavam. Os policiais italianos, com seus uniformes impecáveis e rostos de pedra, nem piscaram. Um deles apenas levantou a palma da mão, um gesto seco e autoritário que paralisou o grupo na hora.

—”'No foto” — ordenou o agente, com uma voz grossa que não aceitava réplica.

A molecada que já imaginava o post perfeito com a legenda “Sobrevivi a um motorista armado em Roma”, deu um passo atrás, sem jeito. Os policiais, imperturbáveis, mantinham o perímetro isolado, ignorando sorrisos e câmeras. Para eles era uma operação de risco; para os meninos, um conteúdo de redes sociais que acabava de ser censurado pela autoridade européia.

— “Nossa, os caras são brutos mesmo…” — sussurrou Lucas, guardando o celular no bolso com um sorriso amarelo.

 

Enquanto o motorista era jogado no banco de trás da viatura e as sirenes voltavam a ecoar pelas ruas de paralelepípedos, os estudantes finalmente seguiram para o hotel.

 

O herói era o Pedro, as fotos com a polícia não rolaram, mas a história que eles teriam pra contar no jantar  —- e pelo resto da vida — já estava garantida..



O JOVEM ALTAIR - HENRIQUE

 O JOVEM ALTAIR

HENRIQUE



O Jovem Altair sempre foi diferente dos seus colegas, geralmente não brincava aquelas brincadeiras infantis que toda criança adora, seus interesses eram outros, era tremendamente curioso e ia atrás de coisas diferentes e misteriosas.

Ao que tudo indica puxou a personalidade de seu pai, que também era dado a investigações de mistério, tal pai tal filho, o fruto nunca cai longe do pé.

O quarto de Altair era cheio de coisas que impressionavam: bonecos com aparência um tanto estranha e na verdade, só o menino entendia o significado daqueles bonecos um tanto quanto sombrios e assustadores. Havia também certo bichos que Altair cassava e mumificava” os bichinhos pareciam ter vida”.

A mãe dele reclamava muito da bagunça que sempre estava naquele quarto. Mal podia ela entrar naquele circo de horrores, e as vezes ralhava com ele para ver se as coisas melhoravam, mas em vão, não conseguia sucesso na tentativa de mudar as coisas no quarto do filho.

Todo santo e sagrado dia lá ia Altair fazer uma caça as bruxas com a finalidade de levar algo novo para seu circo de horrores.

Determinado dia sedento de novidades, entrou mata adentro que existia ao lado de sua casa. A mata era bem cerrada, mas o menino era corajoso e ia em frente com o coração batendo aos pulos, não por medo, mas sim na emoção doque iria achar para seu zoológico uma ou duas ou mais coisas interessantes para pegar e levar.

Em determinado ponto da procura Altair para estático praticamente emocionado, tinha avistado um bicho, completamente diferente dos tantos que já pegara. Tinha um corpo estranho, um olho só, tinha o tamanho de um coelho pequeno, andava só com três patinhas e era muito peludo. A sua aparência assustava um pouco, mas o menino não desistiu e com um puçá pegou o bicho que não se debateu muito.

Altair se deu por satisfeito com seu achado e resolveu voltar para casa já que com sua descoberta, ficou satisfeito por esse dia.

Voltou para casa e como todo menino sapeca tentou esconder da mãe oque estava trazendo. Arrumou uma gaiolinha e colocou o bicho dentro que estava imóvel parecendo sem vida. Altair ficou ali a observar a criatura por muito tempo.

Depois saiu para a cozinha da casa atraído pelo aroma muito gostoso da comida que sua mãe estava fazendo, ele adorava tudo o que a mãe fazia, já que ela era excelente cozinheira de doces e salgados.

Almoçou e no final “lambeu os beiços” e saiu para o quintal da casa de seus pais que era muito grande, cheio de arvores com frutas e lindas flores. Assim o dia passou para Altair alegre e satisfeito.

A noite se recolheu cedo para o seu quarto, para observar os seres estranhos que lá existiam. E mais curioso ainda com a novidade que era o bichinho que pegou naquele dia, quando de repente para estático e se arrepiando todo, pois a gaiolinha estava com a porta aberta e bicho saiu e o menino ficou todo arrepiado. O que aconteceu?  Onde ele está? Começou a procurar amedrontado, tentando achar o danadinho do bichinho.

Com o corpo tremulo, começou a procurar no quarto grande, onde estava o fujão. De repente sai debaixo da cama o procurado. Todo se balançando, inclusive o pequeno rabinho e chegou próximo de Altair, lambendo suas pernas num gesto de carinho.

Altair se emocionou com a atitude do animalzinho, que o pegou no colo e o acarinhou, logo lhe deu o nome de Peludo. Essa amizade cresceu e onde Altair estava, lá estava o Peludo ao dele pedindo colo. Os pais a princípio ficaram incomodados com aquela situação, mas com o tempo aceitaram e até passaram a gostar do Peludo que se tornou um membro da família.

E assim viveram felizes por muito tempo Altair, Peludo e seus pais.

 

 

Uma família - Elidamares Bianchi Rosa

 




Uma família

Elidamares Bianchi Rosa

 

No final da minha rua, havia uma família estranha. Todas as tardes, saíam de casa, andavam sempre juntos, as três meninas na frente, a mãe e o pai de mãos dadas atrás. Quase não olhavam para as outras pessoas ou para trás. Raramente se falavam. Caminhavam firmes, com determinação, e desapareciam na esquina.

Observando bem, percebia-se haver muito amor envolvido, mas havia medo. Caminhavam como se o lugar para onde iam fosse o único refúgio além da casa onde moravam, no final da rua.

Sei que voltavam tarde, depois que já havia escurecido bastante. Nunca soube para onde iam, poucas vezes os vi voltando, sempre com a mesma sensação de cuidado e medo.

Por longo tempo observei essa rotina cotidiana, até que certo dia, depois de perceber que não passavam mais, soube que mudaram, partiram para outro lugar que ignoro, desapareceram do meu mapa.

 



A Fadinha Pop - Hirtis Lazarin

 




A Fadinha Pop

Hirtis Lazarin

 

A fada Lily vivia no “Reino das Asas Brilhantes”. Ela não era famosa pelo seu brilho ou pelas mágicas surpreendentes que fazia com a varinha mágica.

 

Enquanto as outras fadas pousavam graciosamente nas pétalas de rosa e nos lírios brancos, Lily, toda desajeitada, enterrava o nariz na toca do Jaime, o esquilo mais agitado e impaciente da floresta; ou então, quando voava mais alto, lá onde o vento sopra mais forte, ela perdia o controle de suas asas e acabava num verdadeiro pesadelo:  presa nas teias de aranha. O toque pegajoso dos fios de seda prendendo seus pés e o medo de ser picada por uma aranha eram apavorantes. Cada movimento deixava-a ainda mais presa naquela armadilha invisível. Numa hora dessas, só restava uma saída: acalmar-se, ficar paradinha no ar pra que nada desse errado e acionar a varinha mágica.

 

Era de manhãzinha e sua missão naquele dia era simples: transformar o orvalho matinal em diamantes coloridos, mas após um espirro exagerado, esqueceu de acionar o freio das botas mágicas e transformou o rabo do gato Grandalf num enorme algodão-doce azul.

 

Dona Mel, a fada-chefe que usa os óculos na pontinha do nariz, toda paciente, nunca dá broncas em Lily e sempre repete: “Oh, querida! Acho que precisamos calibrar novamente a sua varinha. Ela está com algum parafuso solto. Acho que, solto está um parafuso na cabecinha da fada.

 

E, mesmo quando ela deveria se aquietar na biblioteca estudando mágicas, o livro que, aberto em suas mãos, ficava estacionado o tempo todo numa página só.

 

E onde estava a sua cabecinha?

 

Viajando num flashback, revivendo, em câmara lenta, cenas de suas trapalhadas.

 

Vamos lembrar juntos:

 

Lily passava perto de um formigueiro e sentiu um cheirinho desagradável — “Vou dar um jeito nisso” — e, ao tentar perfumar o local, ela apertou um botão errado e a varinha disparou um jato de glitter colante, transformando o exército de operárias em minúsculos pontos de luz.

 

As formigas, antes de cor marrom e discretas no vai-e-vem monótono de carregar folhas, decidiram aproveitar o novo visual: organizaram uma festa numa competição com a luz cheia da lua.   Descobriram que, com aquele brilho todo, nenhum tamanduá teria coragem de chegar perto. Afinal, quem comeria um lanche que brilha mais que um poste?

 

E o vexame das xícaras saltitantes? 

 

Lily foi incumbida de separar xícaras para o chá da tarde. Distraída com um bando de borboletas amarelas, trocou as palavras mágicas e deu “pernas de grilo” para a louça de porcelana. Sentindo-se livres e eufóricas --- sozinhas, nunca haviam saído do mesmo lugar ---- pularam a janela da cozinha e correram para o jardim. O resultado foi uma perseguição digna de cinema. A fada corria desesperada na tentativa de consertar a trapalhada e as xícaras, numa sequência de “poc-poc-poc”, saltavam por cima das margaridas e dos girassóis. Algumas ficaram arrebentadas e acabaram no lixo.

 

Num outro momento, Lily resolveu que as margaridas do jardim estavam muito pálidas e precisavam de uma cor toda especial. Sacudiu a varinha com elegância, mas bem na hora do feitiço, um beija-flor passou zunindo no seu ouvido.

 

O resultado? Em vez de dar um brilho perolado às pétalas brancas, transformou-as em pipocas gigantes que, ao calor do sol, saltitavam enlouquecidas. O gato Grandalf, que tirava uma soneca todo esparramado sob o sol, deu um mortal pra trás e uma flor-pipoca estourou na ponta do seu nariz. Outra, ah! Outra gigante! Grudou e tapou seu ouvido. Indignado e com seus pelos arrepiados, miou tão forte que mais parecia o rugido de um leão em miniatura.

 

Lily, paralisada e com a varinha na mão, não sabia se pedia desculpas ou se saía correndo antes que o felino resolvesse que ela seria a próxima coisa que ele iria caçar.

 

Bem nessa hora, a dona Mel surgiu flutuando, calma que só ela só. Não gritou nem se desesperou com o cenário de cinema montado no jardim. Tirou do bolso um saquinho de “biscoitos de erva-de-gato” e estendeu a mão. “Ora, ora, meu grande guerreiro, acalme-se. É apenas a Lily sendo a Lily”. Ele cheirou o petisco, disfarçou uma cara de mal e...  Não é que ele gostou?

 

Dona Mel, olhando por cima dos óculos de cristal, encontrou Lily escondida atrás da samambaia-de-metro.

 

Dessa vez, Dona Mel olhou firme pra Lily e deu seu veredicto: “Querida, já que você transformou nosso jardim nessa confusão, sua missão será organizar o primeiro “Festival de Pipoca Alada” do Reino. Vai guiar o gato Grandalf e as formigas brilhantes pra colherem todas as flores-pipocas antes que elas estourem. Vai também pentear cada fio do bigode do gato até ele recuperar sua dignidade real”.

 

A fadinha deu pulinhos de alegria por não estar de castigo, mas, logo à frente, tropeçou nos próprios pés, enquanto tentava convencer o esquilo de rabo azul de que ser colhedor de pipoca era a profissão mais importante do mundo.

 

No final do dia, o jardim estava calmo, exalando um cheirinho doce de milho que atraía fadas de todos os cantos. Lily, exausta e com glitter nas bochechas, sentiu-se orgulhosa por cumprir a missão.

 

Percebeu que, apesar de suas mágicas nunca saírem como planejado, elas acabavam criando histórias muito mais coloridas e divertidas do que qualquer feitiço perfeito.

 

Satisfeita da vida, a fadinha atrapalhada fechou os olhos, torcendo para que, no dia seguinte, sua varinha criasse juízo. Mas lá no fundinho sabia que com ela por perto, o “Reino das Asas Brilhantes” nunca teria um dia monótono.

 

Moral da História: Às vezes, um erro atrapalhado e barulhento é muito mais divertido do que um acerto silencioso e perfeito.

 

 

 

O prazo acabou. - Hirtis Lazarin

 



O prazo acabou.

Hirtis Lazarin 

 

O escritório do Dr. Marcos Vinícius de Albuquerque Júnior, localizado no quadragésimo andar, tinha vista privilegiada pra toda a cidade, mas ele preferia olhar para a pequena cicatriz circular no pulso sob o relógio Ômega. Para os filhos, ele era o titã da empresa e, para a esposa, o porto seguro que nunca levantava a voz.

 

O silêncio da cobertura foi interrompido pela vibração de um celular antigo, guardado numa gaveta de fundo falso que nenhum sensor de segurança jamais detectaria. Na tela, apenas três palavras aparecem: “O prazo acabou.”

 

Marcos sabia que a frase “O prazo acabou” não se referia a um contrato de banco ou a uma dívida financeira comum. Era um ultimatum.

 

Ele fechou as cortinas de seda e, pausadamente, acendeu um cigarro, depois outro, depois outro… Enquanto a sala se enchia de fumaça, a mensagem do celular antigo queimava sua mente. O que vai acontecer com seu império imobiliário?

 

Aquele não era um alerta de dividendos ou uma fusão corporativa. Era o eco de uma vida que ele acreditava ter enterrado há quase vinte anos. Soube, então, que o muro de vidro que o protegia  estava prestes a cair.

 

Olhou as horas e levou um susto. Não percebera que o tempo havia passado tão rápido. Já estava bem atrasado para o jantar de aniversário que a esposa havia preparado para o tio Luizinho, o mais velho e o mais querido da família.

 

Saiu tão às pressas que, ao chegar à garagem, não pôde entrar no automóvel. As chaves estavam no bolso do paletó esquecido no escritório. Quem olhasse para Marcos, naquele momento, não o reconheceria: sobrancelhas franzidas, olhos fixos e injetados, mandíbulas cerradas e a boca aberta pronunciando uma sequência de palavrões. Pense bem: eram quarenta andares pra subir… e quarenta pra descer… 

 

Quase uma hora de atraso e o verbo “atrasar” nunca fez parte do seu vocabulário. As mãos suavam no volante do veículo e do rosto escorria suor em gotas.  O celular vibrava insistentemente com mensagem de Lena: “As velas já estão acesas. Onde você está?” Ele sabia que não era verdade.

 

Marcos é casado com Helena e tem dois filhos:  Christina, que estuda nos Estados Unidos, e Vitor, que estuda e se prepara pra trabalhar na empresa do pai. A mãe vem de uma família tradicional que perdeu prestígio financeiro, mas manteve o sobrenome. Quando conheceu Marcos, ela viu nele a força e a estabilidade que faltavam em sua casa. Ela não é apenas uma socialite envolvida em causas beneficentes, mas uma mulher estrategista atenta aos negócios da família.

 

Ao chegar, Marcos entra no lavabo, lava o rosto com água fria e sabonete de perfume suave; penteia os cabelos grisalhos e fartos; faz exercícios faciais para “destravar” aquela expressão de tensão e só se dá por satisfeito quando o espelho mostra um homem disfarçado de suas preocupações.

 

O cenário da sala de jantar é digno de uma revista de decoração. A mesa está posta com cristais e flores; o cheiro do jantar preparado por chefs profissionais faz a boca faminta salivar.

 

O empresário entra pedindo desculpas pelo atraso. “Incidentes acontecem”, beija a testa de Helena, dá um toque nas costas do filho e saúda com um forte abraço o aniversariante do dia.  O tio Luizinho levanta-se com dificuldade, mas o sorriso rasga-lhe o rosto.

 

Marcos Vinícius tenta se comportar como se não tivesse acabado de ser ameaçado por um fantasma do passado. Sorri, abre um vinho de cinco mil reais e agradece pela vida que a família tem.

 

Helena conhece cada trejeito, cada expressão do marido. Sabe que algo importante o aflige. Não é o momento pra explicações. 

 

O jantar transcorre normalmente em clima de festa. Os assuntos são atualizados; até a política do país e o nome do presidente americano entraram num debate acalorado.

 

O interfone toca e Marcos, que já estava em pé pra ir ao banheiro, corre até a cozinha e atende. “Doutor, peço desculpas pela hora, mas um entregador tem um pacote pro senhor e diz que é urgente. Ele disse que o senhor esqueceu isso no banco há vinte anos”.

 

Helena fica em alerta. Antes do casamento, Marcos contou-lhe, em detalhes, toda sua vida pregressa. Não escondeu nada, queria realmente construir uma família. Ela acredita que todos merecem uma nova chance na vida.  E por que não o homem que amava tanto?

 

O empresário autoriza a entrega do pacote e fica paralisado; os olhos fixos num ponto vazio enquanto o passado lateja em suas têmporas. A respiração é curta, errática, como se o ar tivesse se tornado subitamente pesado demais para seus pulmões. Cada vez que fecha os olhos, a cena do que fez se repete num looping cruel, nítido e implacável. Sente o estômago revirar e uma náusea ácida enche-lhe a boca. É a certeza de que o segredo poderá deixar de ser segredo.

 

Ao abrir o pacote na biblioteca, encontra algo aterrorizante: uma fita cassete e uma foto antiga, quase sem cor. Era do estacionamento de um banco, onde um jovem desesperado e sem máscara foge carregando uma maleta. Era a foto de Marcos dos tempos da malandragem, uma época em que ele e o amigo Vitor fugiram pra outro Estado. Abandonaram a vida regrada de estudo e trabalho e ingressaram numa outra, perigosa e cheia de adrenalina: o mundo do crime.

 

Começaram com pequenos assaltos e, numa carreira vertiginosa, se especializaram em assaltos a banco, até o dia em que se desentenderam numa briga que quase acabou em morte. Marcos Vinicius apanhou muito e ficou machucado: um corte profundo no punho esquerdo que sangrava e um braço quebrado. Vingou-se e denunciou o parceiro. Vitor foi preso e o traidor fugiu com todo o dinheiro roubado. Era muito dinheiro.

 

Marcos viveu de forma anônima até que a poeira se assentasse, pois os riscos eram constantes. Nesse período, não perdeu tempo e se preparou para voltar à vida normal. Dinheiro não lhe faltava. Ajudado por uma equipe de advogados competentes, trocou de identidade e montou uma pequena empresa imobiliária. Vida nova que exigia muita cautela.

 

Após quinze anos de prisão, Vitor estava livre, leve e solto. A frase: “Seu tempo terminou” era um aviso de que a hora do acerto de contas chegara: ele queria a participação na empresa como sócio com cinquenta por cento do valor total. isso ou a entrega das provas dos crimes para a polícia e para a imprensa.

 

A conta chegou e ele não sabe como vai pagar.

 

Os dias seguintes foram, para o empresário, dias de descontrole emocional e pânico. Levantava mais cedo, comia pouco e não saía do escritório. Ligava mais vezes à esposa, pois temia que ela fosse atacada pelo seu inimigo. “São negócios que não estão dando certo”, era sua explicação à família. Helena foi orientada, mas ainda não sabia quão grande era o perigo do que poderia vir.

 

Era uma segunda-feira e amanheceu cinzento na Avenida Faria Lima. Marcos, num terno impecável, entrou no prédio da empresa com olheiras profundas. Estava sempre de alerta, esperando uma ligação, uma ameaça por mensagem ou até a polícia. Mas o que encontrou foi muito mais perturbador.

 

Vitor não estava escondido num beco. Ele estava sentado na cadeira de couro da sala de espera, lendo calmamente o jornal “Valor Econômico”. Não usava terno, mas uma jaqueta gasta que cheirava a cigarro barato, um contraste violento com o luxo do ambiente. Ele olhou para Marcos e sorriu de um jeito que fez o homem recuar.

 

Levantou-se com um sorriso largo e fingido. Cumprimentou-o como se fossem melhores amigos. “Bom dia, sócio! Dormiu bem depois daquele presente que te mandei?” Ele falava alto o suficiente para que a secretária e os estagiários ouvissem.

 

Após uma conversa curta, Vitor passou o dia caminhando pelos corredores da empresa e bebericando café. Observava os funcionários e fazia perguntas sobre o faturamento. Sentia-se   dono da empresa, usando o medo de Marcos como um passe livre.

 

O momento mais tenso foi quando  entrou na sala de Marcos, sentou-se na borda da mesa e  começou a folhear  relatórios em pastas abertas. “Sei que você é bom com números. Pena que os números do seu passado  não batem com a honestidade que prega hoje, não é?”

 

Marcos engole seco, sente  náusea  e nojo vendo o inimigo manuseando os relatórios. É como ver um lobo brincando com as roupas de uma ovelha. Para um empresário do seu nível, o escritório não é apenas um local de trabalho, é o local onde ele construiu sua nova identidade.

 

Foi no final da tarde que o inimigo  deu o  bote final. Não queria dinheiro escondido, queria legitimidade. Vitor entregou-lhe um contrato de consultoria  com um valor mensal astronômico. Era a sua proposta.

 

 

— “Se você assinar isso, o dinheiro sai limpo da sua conta para a minha. Eu me torno um consultor. Se não assinar…” e, apontando para o celular, “… aperto o 'enviar' naquele e-mail para a Polícia Federal. Acho que você já sabe o que vai acontecer. Vamos trabalhar juntos… Ou prefere ver a imprensa divulgando sua vida hoje à noite?”

 

O “prazo havia acabado”.  Vitor passou vinte anos em uma cela enquanto via, pelas capas de revista, o seu antigo parceiro se tornar um magnata.

 

Vinte anos atrás, ele não era  “Dr. Marcos Vinícios”.  Era “O Contador”, o homem que desenhava a logística para os assaltos. Crimes que deixaram mortos e feridos.

 

O empresário tem que resolver o problema de forma controlada. Precisa ser um estrategista frio, o mesmo que construiu um império. Na verdade, o primeiro pensamento foi matá-lo, mas sabia que isso criaria um problema policial imediato.

 

Aceita assinar o contrato de consultoria que Vitor exigiu. É colocado na folha de pagamento oficial, com um crachá e um espaço bem equipado ao lado da sala do presidente. O novo integrante da equipe é apresentado a todos os funcionários.

 

Depois de saber todos os detalhes da vida de Marcos e Vitor, Helena vai à empresa mais vezes do que costumava ir. Trata o desafeto, não com simpatia, mas com autocontrole para evitar conflitos. Limita-se a saudações básicas “bom dia, boa tarde”, alguns acenos e comunicações essenciais, sem abrir espaço para intimidade.

 

O casal pensa junto. Por que não aceitá-lo como sócio legítimo e transformar o inimigo em amigo? Afinal de contas, ele tinha direito à parte do dinheiro que deu início àquele empreendimento.

 

E por que não começar um bom convívio convidando-o para um jantar em família? A sugestão de Helena foi aprovada e, no sábado seguinte, receberam o convidado com zelo esmerado.

 

Helena é extremamente gentil e Marcos mostra-se arrependido do que fez, justificando seus atos como falta de maturidade. “Éramos jovens gananciosos”. Estava pronto para resgatar o tempo que Vitor perdeu na cadeia e pagar a dívida com juros e correção monetária.

 

O jantar prolongou-se até de madrugada, por conta do vinho de primeira qualidade. Sobre a mesa restavam quatro garrafas vazias e a quinta garrafa só não foi aberta porque Helena sugeriu terminar a noite com um licor digestivo cítrico, o mais recomendado após o jantar.

 

Ela se dirigiu ao aparador e foi lendo o nome dos licores cítricos para o convidado escolher. Ele escolheu “Limoncello Villa Massa”, um dos mais tradicionais da Itália, feito com limões sicilianos.

 

“Escolheu acertadamente. É um dos melhores que temos”. Antes de servi-los, Helena foi até a cozinha em busca de uma bandeja pequena; os criados já tinham sido dispensados  por conta do avançado da hora. Ela demorou minutos a mais, o gatinho da casa pedia água.

 

Helena serviu o licor numa bandeja espelhada que reproduzia em dobro as taças de cristal. Um gesto que selava o acordo que começava a se materializar.

 

Vitor está descontraído e feliz. Pega a taça e vira num gole só. Acho que não deu nem tempo pra apreciar o sabor. Estica os braços em direção a Helena: “Quero mais”. O tempo não foi suficiente pra que fosse atendido. Vitor solta um grito estridente e cai sobre a mesa.

 

Ele está morto.

 

Caro leitor, você acha que o plano de envenenamento foi combinado pelo casal? Ou o Dr. Marcos Vinícios não sabia?

 

 

O Garoto que Enxergava pelas Frestas - HIRTIS

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