O
prazo acabou.
Hirtis
Lazarin
O
escritório do Dr. Marcos Vinícius de Albuquerque Júnior, localizado no
quadragésimo andar, tinha vista privilegiada pra toda a cidade, mas ele
preferia olhar para a pequena cicatriz circular no pulso sob o relógio Ômega.
Para os filhos, ele era o titã da empresa e, para a esposa, o porto seguro que
nunca levantava a voz.
O
silêncio da cobertura foi interrompido pela vibração de um celular antigo,
guardado numa gaveta de fundo falso que nenhum sensor de segurança jamais
detectaria. Na tela, apenas três palavras aparecem: “O prazo acabou.”
Marcos
sabia que a frase “O prazo acabou” não se referia a um contrato de banco ou a
uma dívida financeira comum. Era um ultimatum.
Ele
fechou as cortinas de seda e, pausadamente, acendeu um cigarro, depois outro,
depois outro… Enquanto a sala se enchia de fumaça, a mensagem do celular antigo
queimava sua mente. O que vai acontecer com seu império imobiliário?
Aquele
não era um alerta de dividendos ou uma fusão corporativa. Era o eco de uma vida
que ele acreditava ter enterrado há quase vinte anos. Soube, então, que o muro
de vidro que o protegia estava prestes a
cair.
Olhou
as horas e levou um susto. Não percebera que o tempo havia passado tão rápido.
Já estava bem atrasado para o jantar de aniversário que a esposa havia
preparado para o tio Luizinho, o mais velho e o mais querido da família.
Saiu
tão às pressas que, ao chegar à garagem, não pôde entrar no automóvel. As
chaves estavam no bolso do paletó esquecido no escritório. Quem olhasse para
Marcos, naquele momento, não o reconheceria: sobrancelhas franzidas, olhos
fixos e injetados, mandíbulas cerradas e a boca aberta pronunciando uma
sequência de palavrões. Pense bem: eram quarenta andares pra subir… e quarenta
pra descer…
Quase
uma hora de atraso e o verbo “atrasar” nunca fez parte do seu vocabulário. As
mãos suavam no volante do veículo e do rosto escorria suor em gotas. O celular vibrava insistentemente com
mensagem de Lena: “As velas já estão acesas. Onde você está?” Ele sabia que não
era verdade.
Marcos
é casado com Helena e tem dois filhos:
Christina, que estuda nos Estados Unidos, e Vitor, que estuda e se
prepara pra trabalhar na empresa do pai. A mãe vem de uma família tradicional
que perdeu prestígio financeiro, mas manteve o sobrenome. Quando conheceu
Marcos, ela viu nele a força e a estabilidade que faltavam em sua casa. Ela não
é apenas uma socialite envolvida em causas beneficentes, mas uma mulher
estrategista atenta aos negócios da família.
Ao
chegar, Marcos entra no lavabo, lava o rosto com água fria e sabonete de
perfume suave; penteia os cabelos grisalhos e fartos; faz exercícios faciais
para “destravar” aquela expressão de tensão e só se dá por satisfeito quando o
espelho mostra um homem disfarçado de suas preocupações.
O
cenário da sala de jantar é digno de uma revista de decoração. A mesa está
posta com cristais e flores; o cheiro do jantar preparado por chefs
profissionais faz a boca faminta salivar.
O
empresário entra pedindo desculpas pelo atraso. “Incidentes acontecem”, beija a
testa de Helena, dá um toque nas costas do filho e saúda com um forte abraço o
aniversariante do dia. O tio Luizinho
levanta-se com dificuldade, mas o sorriso rasga-lhe o rosto.
Marcos
Vinícius tenta se comportar como se não tivesse acabado de ser ameaçado por um
fantasma do passado. Sorri, abre um vinho de cinco mil reais e agradece pela
vida que a família tem.
Helena
conhece cada trejeito, cada expressão do marido. Sabe que algo importante o
aflige. Não é o momento pra explicações.
O
jantar transcorre normalmente em clima de festa. Os assuntos são atualizados;
até a política do país e o nome do presidente americano entraram num debate
acalorado.
O
interfone toca e Marcos, que já estava em pé pra ir ao banheiro, corre até a
cozinha e atende. “Doutor, peço desculpas pela hora, mas um entregador tem um
pacote pro senhor e diz que é urgente. Ele disse que o senhor esqueceu isso no
banco há vinte anos”.
Helena
fica em alerta. Antes do casamento, Marcos contou-lhe, em detalhes, toda sua
vida pregressa. Não escondeu nada, queria realmente construir uma família. Ela
acredita que todos merecem uma nova chance na vida. E por que não o homem que amava tanto?
O
empresário autoriza a entrega do pacote e fica paralisado; os olhos fixos num
ponto vazio enquanto o passado lateja em suas têmporas. A respiração é curta,
errática, como se o ar tivesse se tornado subitamente pesado demais para seus
pulmões. Cada vez que fecha os olhos, a cena do que fez se repete num looping
cruel, nítido e implacável. Sente o estômago revirar e uma náusea ácida
enche-lhe a boca. É a certeza de que o segredo poderá deixar de ser segredo.
Ao abrir
o pacote na biblioteca, encontra algo aterrorizante: uma fita cassete e uma
foto antiga, quase sem cor. Era do estacionamento de um banco, onde um jovem
desesperado e sem máscara foge carregando uma maleta. Era a foto de Marcos dos
tempos da malandragem, uma época em que ele e o amigo Vitor fugiram pra outro
Estado. Abandonaram a vida regrada de estudo e trabalho e ingressaram numa
outra, perigosa e cheia de adrenalina: o mundo do crime.
Começaram
com pequenos assaltos e, numa carreira vertiginosa, se especializaram em
assaltos a banco, até o dia em que se desentenderam numa briga que quase acabou
em morte. Marcos Vinicius apanhou muito e ficou machucado: um corte profundo no
punho esquerdo que sangrava e um braço quebrado. Vingou-se e denunciou o
parceiro. Vitor foi preso e o traidor fugiu com todo o dinheiro roubado. Era
muito dinheiro.
Marcos
viveu de forma anônima até que a poeira se assentasse, pois os riscos eram
constantes. Nesse período, não perdeu tempo e se preparou para voltar à vida
normal. Dinheiro não lhe faltava. Ajudado por uma equipe de advogados
competentes, trocou de identidade e montou uma pequena empresa imobiliária.
Vida nova que exigia muita cautela.
Após
quinze anos de prisão, Vitor estava livre, leve e solto. A frase: “Seu tempo
terminou” era um aviso de que a hora do acerto de contas chegara: ele queria a
participação na empresa como sócio com cinquenta por cento do valor
total. isso ou a entrega das provas dos crimes para a polícia e para a
imprensa.
A
conta chegou e ele não sabe como vai pagar.
Os
dias seguintes foram, para o empresário, dias de descontrole emocional e
pânico. Levantava mais cedo, comia pouco e não saía do escritório. Ligava mais
vezes à esposa, pois temia que ela fosse atacada pelo seu inimigo. “São
negócios que não estão dando certo”, era sua explicação à família. Helena foi
orientada, mas ainda não sabia quão grande era o perigo do que poderia vir.
Era
uma segunda-feira e amanheceu cinzento na Avenida Faria Lima. Marcos, num terno
impecável, entrou no prédio da empresa com olheiras profundas. Estava sempre de
alerta, esperando uma ligação, uma ameaça por mensagem ou até a polícia. Mas o
que encontrou foi muito mais perturbador.
Vitor
não estava escondido num beco. Ele estava sentado na cadeira de couro da sala
de espera, lendo calmamente o jornal “Valor Econômico”. Não usava terno, mas
uma jaqueta gasta que cheirava a cigarro barato, um contraste violento com o
luxo do ambiente. Ele olhou para Marcos e sorriu de um jeito que fez o homem
recuar.
Levantou-se
com um sorriso largo e fingido. Cumprimentou-o como se fossem melhores amigos.
“Bom dia, sócio! Dormiu bem depois daquele presente que te mandei?” Ele falava
alto o suficiente para que a secretária e os estagiários ouvissem.
Após
uma conversa curta, Vitor passou o dia caminhando pelos corredores da empresa e
bebericando café. Observava os funcionários e fazia perguntas sobre o
faturamento. Sentia-se dono da empresa,
usando o medo de Marcos como um passe livre.
O
momento mais tenso foi quando entrou na
sala de Marcos, sentou-se na borda da mesa e
começou a folhear relatórios em
pastas abertas. “Sei que você é bom com números. Pena que os números do seu
passado não batem com a honestidade que
prega hoje, não é?”
Marcos
engole seco, sente náusea e nojo vendo o inimigo manuseando os
relatórios. É como ver um lobo brincando com as roupas de uma ovelha. Para um
empresário do seu nível, o escritório não é apenas um local de trabalho, é o
local onde ele construiu sua nova identidade.
Foi
no final da tarde que o inimigo deu
o bote final. Não queria dinheiro
escondido, queria legitimidade. Vitor entregou-lhe um contrato de consultoria com um valor mensal astronômico. Era a sua
proposta.
—
“Se você assinar isso, o dinheiro sai limpo da sua conta para a minha. Eu me
torno um consultor. Se não assinar…” e, apontando para o celular, “… aperto o
'enviar' naquele e-mail para a Polícia Federal. Acho que você já sabe o que vai
acontecer. Vamos trabalhar juntos… Ou prefere ver a imprensa divulgando sua
vida hoje à noite?”
O
“prazo havia acabado”. Vitor passou
vinte anos em uma cela enquanto via, pelas capas de revista, o seu antigo
parceiro se tornar um magnata.
Vinte
anos atrás, ele não era “Dr. Marcos
Vinícios”. Era “O Contador”, o homem que
desenhava a logística para os assaltos. Crimes que deixaram mortos e feridos.
O
empresário tem que resolver o problema de forma controlada. Precisa ser um
estrategista frio, o mesmo que construiu um império. Na verdade, o primeiro
pensamento foi matá-lo, mas sabia que isso criaria um problema policial
imediato.
Aceita
assinar o contrato de consultoria que Vitor exigiu. É colocado na folha de
pagamento oficial, com um crachá e um espaço bem equipado ao lado da sala do
presidente. O novo integrante da equipe é apresentado a todos os funcionários.
Depois
de saber todos os detalhes da vida de Marcos e Vitor, Helena vai à empresa mais
vezes do que costumava ir. Trata o desafeto, não com simpatia, mas com
autocontrole para evitar conflitos. Limita-se a saudações básicas “bom dia, boa
tarde”, alguns acenos e comunicações essenciais, sem abrir espaço para
intimidade.
O
casal pensa junto. Por que não aceitá-lo como sócio legítimo e transformar o
inimigo em amigo? Afinal de contas, ele tinha direito à parte do dinheiro que
deu início àquele empreendimento.
E
por que não começar um bom convívio convidando-o para um jantar em família? A
sugestão de Helena foi aprovada e, no sábado seguinte, receberam o convidado
com zelo esmerado.
Helena
é extremamente gentil e Marcos mostra-se arrependido do que fez, justificando
seus atos como falta de maturidade. “Éramos jovens gananciosos”. Estava pronto
para resgatar o tempo que Vitor perdeu na cadeia e pagar a dívida com juros e
correção monetária.
O
jantar prolongou-se até de madrugada, por conta do vinho de primeira qualidade.
Sobre a mesa restavam quatro garrafas vazias e a quinta garrafa só não foi
aberta porque Helena sugeriu terminar a noite com um licor digestivo cítrico, o
mais recomendado após o jantar.
Ela
se dirigiu ao aparador e foi lendo o nome dos licores cítricos para o convidado
escolher. Ele escolheu “Limoncello Villa Massa”, um dos mais tradicionais da
Itália, feito com limões sicilianos.
“Escolheu
acertadamente. É um dos melhores que temos”. Antes de servi-los, Helena foi até
a cozinha em busca de uma bandeja pequena; os criados já tinham sido
dispensados por conta do avançado da
hora. Ela demorou minutos a mais, o gatinho da casa pedia água.
Helena
serviu o licor numa bandeja espelhada que reproduzia em dobro as taças de
cristal. Um gesto que selava o acordo que começava a se materializar.
Vitor
está descontraído e feliz. Pega a taça e vira num gole só. Acho que não deu nem
tempo pra apreciar o sabor. Estica os braços em direção a Helena: “Quero mais”.
O tempo não foi suficiente pra que fosse atendido. Vitor solta um grito
estridente e cai sobre a mesa.
Ele
está morto.
Caro
leitor, você acha que o plano de envenenamento foi combinado pelo casal? Ou o
Dr. Marcos Vinícios não sabia?
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