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quarta-feira, 18 de março de 2026

O prazo acabou. - Hirtis Lazarin

 



O prazo acabou.

Hirtis Lazarin 

 

O escritório do Dr. Marcos Vinícius de Albuquerque Júnior, localizado no quadragésimo andar, tinha vista privilegiada pra toda a cidade, mas ele preferia olhar para a pequena cicatriz circular no pulso sob o relógio Ômega. Para os filhos, ele era o titã da empresa e, para a esposa, o porto seguro que nunca levantava a voz.

 

O silêncio da cobertura foi interrompido pela vibração de um celular antigo, guardado numa gaveta de fundo falso que nenhum sensor de segurança jamais detectaria. Na tela, apenas três palavras aparecem: “O prazo acabou.”

 

Marcos sabia que a frase “O prazo acabou” não se referia a um contrato de banco ou a uma dívida financeira comum. Era um ultimatum.

 

Ele fechou as cortinas de seda e, pausadamente, acendeu um cigarro, depois outro, depois outro… Enquanto a sala se enchia de fumaça, a mensagem do celular antigo queimava sua mente. O que vai acontecer com seu império imobiliário?

 

Aquele não era um alerta de dividendos ou uma fusão corporativa. Era o eco de uma vida que ele acreditava ter enterrado há quase vinte anos. Soube, então, que o muro de vidro que o protegia  estava prestes a cair.

 

Olhou as horas e levou um susto. Não percebera que o tempo havia passado tão rápido. Já estava bem atrasado para o jantar de aniversário que a esposa havia preparado para o tio Luizinho, o mais velho e o mais querido da família.

 

Saiu tão às pressas que, ao chegar à garagem, não pôde entrar no automóvel. As chaves estavam no bolso do paletó esquecido no escritório. Quem olhasse para Marcos, naquele momento, não o reconheceria: sobrancelhas franzidas, olhos fixos e injetados, mandíbulas cerradas e a boca aberta pronunciando uma sequência de palavrões. Pense bem: eram quarenta andares pra subir… e quarenta pra descer… 

 

Quase uma hora de atraso e o verbo “atrasar” nunca fez parte do seu vocabulário. As mãos suavam no volante do veículo e do rosto escorria suor em gotas.  O celular vibrava insistentemente com mensagem de Lena: “As velas já estão acesas. Onde você está?” Ele sabia que não era verdade.

 

Marcos é casado com Helena e tem dois filhos:  Christina, que estuda nos Estados Unidos, e Vitor, que estuda e se prepara pra trabalhar na empresa do pai. A mãe vem de uma família tradicional que perdeu prestígio financeiro, mas manteve o sobrenome. Quando conheceu Marcos, ela viu nele a força e a estabilidade que faltavam em sua casa. Ela não é apenas uma socialite envolvida em causas beneficentes, mas uma mulher estrategista atenta aos negócios da família.

 

Ao chegar, Marcos entra no lavabo, lava o rosto com água fria e sabonete de perfume suave; penteia os cabelos grisalhos e fartos; faz exercícios faciais para “destravar” aquela expressão de tensão e só se dá por satisfeito quando o espelho mostra um homem disfarçado de suas preocupações.

 

O cenário da sala de jantar é digno de uma revista de decoração. A mesa está posta com cristais e flores; o cheiro do jantar preparado por chefs profissionais faz a boca faminta salivar.

 

O empresário entra pedindo desculpas pelo atraso. “Incidentes acontecem”, beija a testa de Helena, dá um toque nas costas do filho e saúda com um forte abraço o aniversariante do dia.  O tio Luizinho levanta-se com dificuldade, mas o sorriso rasga-lhe o rosto.

 

Marcos Vinícius tenta se comportar como se não tivesse acabado de ser ameaçado por um fantasma do passado. Sorri, abre um vinho de cinco mil reais e agradece pela vida que a família tem.

 

Helena conhece cada trejeito, cada expressão do marido. Sabe que algo importante o aflige. Não é o momento pra explicações. 

 

O jantar transcorre normalmente em clima de festa. Os assuntos são atualizados; até a política do país e o nome do presidente americano entraram num debate acalorado.

 

O interfone toca e Marcos, que já estava em pé pra ir ao banheiro, corre até a cozinha e atende. “Doutor, peço desculpas pela hora, mas um entregador tem um pacote pro senhor e diz que é urgente. Ele disse que o senhor esqueceu isso no banco há vinte anos”.

 

Helena fica em alerta. Antes do casamento, Marcos contou-lhe, em detalhes, toda sua vida pregressa. Não escondeu nada, queria realmente construir uma família. Ela acredita que todos merecem uma nova chance na vida.  E por que não o homem que amava tanto?

 

O empresário autoriza a entrega do pacote e fica paralisado; os olhos fixos num ponto vazio enquanto o passado lateja em suas têmporas. A respiração é curta, errática, como se o ar tivesse se tornado subitamente pesado demais para seus pulmões. Cada vez que fecha os olhos, a cena do que fez se repete num looping cruel, nítido e implacável. Sente o estômago revirar e uma náusea ácida enche-lhe a boca. É a certeza de que o segredo poderá deixar de ser segredo.

 

Ao abrir o pacote na biblioteca, encontra algo aterrorizante: uma fita cassete e uma foto antiga, quase sem cor. Era do estacionamento de um banco, onde um jovem desesperado e sem máscara foge carregando uma maleta. Era a foto de Marcos dos tempos da malandragem, uma época em que ele e o amigo Vitor fugiram pra outro Estado. Abandonaram a vida regrada de estudo e trabalho e ingressaram numa outra, perigosa e cheia de adrenalina: o mundo do crime.

 

Começaram com pequenos assaltos e, numa carreira vertiginosa, se especializaram em assaltos a banco, até o dia em que se desentenderam numa briga que quase acabou em morte. Marcos Vinicius apanhou muito e ficou machucado: um corte profundo no punho esquerdo que sangrava e um braço quebrado. Vingou-se e denunciou o parceiro. Vitor foi preso e o traidor fugiu com todo o dinheiro roubado. Era muito dinheiro.

 

Marcos viveu de forma anônima até que a poeira se assentasse, pois os riscos eram constantes. Nesse período, não perdeu tempo e se preparou para voltar à vida normal. Dinheiro não lhe faltava. Ajudado por uma equipe de advogados competentes, trocou de identidade e montou uma pequena empresa imobiliária. Vida nova que exigia muita cautela.

 

Após quinze anos de prisão, Vitor estava livre, leve e solto. A frase: “Seu tempo terminou” era um aviso de que a hora do acerto de contas chegara: ele queria a participação na empresa como sócio com cinquenta por cento do valor total. isso ou a entrega das provas dos crimes para a polícia e para a imprensa.

 

A conta chegou e ele não sabe como vai pagar.

 

Os dias seguintes foram, para o empresário, dias de descontrole emocional e pânico. Levantava mais cedo, comia pouco e não saía do escritório. Ligava mais vezes à esposa, pois temia que ela fosse atacada pelo seu inimigo. “São negócios que não estão dando certo”, era sua explicação à família. Helena foi orientada, mas ainda não sabia quão grande era o perigo do que poderia vir.

 

Era uma segunda-feira e amanheceu cinzento na Avenida Faria Lima. Marcos, num terno impecável, entrou no prédio da empresa com olheiras profundas. Estava sempre de alerta, esperando uma ligação, uma ameaça por mensagem ou até a polícia. Mas o que encontrou foi muito mais perturbador.

 

Vitor não estava escondido num beco. Ele estava sentado na cadeira de couro da sala de espera, lendo calmamente o jornal “Valor Econômico”. Não usava terno, mas uma jaqueta gasta que cheirava a cigarro barato, um contraste violento com o luxo do ambiente. Ele olhou para Marcos e sorriu de um jeito que fez o homem recuar.

 

Levantou-se com um sorriso largo e fingido. Cumprimentou-o como se fossem melhores amigos. “Bom dia, sócio! Dormiu bem depois daquele presente que te mandei?” Ele falava alto o suficiente para que a secretária e os estagiários ouvissem.

 

Após uma conversa curta, Vitor passou o dia caminhando pelos corredores da empresa e bebericando café. Observava os funcionários e fazia perguntas sobre o faturamento. Sentia-se   dono da empresa, usando o medo de Marcos como um passe livre.

 

O momento mais tenso foi quando  entrou na sala de Marcos, sentou-se na borda da mesa e  começou a folhear  relatórios em pastas abertas. “Sei que você é bom com números. Pena que os números do seu passado  não batem com a honestidade que prega hoje, não é?”

 

Marcos engole seco, sente  náusea  e nojo vendo o inimigo manuseando os relatórios. É como ver um lobo brincando com as roupas de uma ovelha. Para um empresário do seu nível, o escritório não é apenas um local de trabalho, é o local onde ele construiu sua nova identidade.

 

Foi no final da tarde que o inimigo  deu o  bote final. Não queria dinheiro escondido, queria legitimidade. Vitor entregou-lhe um contrato de consultoria  com um valor mensal astronômico. Era a sua proposta.

 

 

— “Se você assinar isso, o dinheiro sai limpo da sua conta para a minha. Eu me torno um consultor. Se não assinar…” e, apontando para o celular, “… aperto o 'enviar' naquele e-mail para a Polícia Federal. Acho que você já sabe o que vai acontecer. Vamos trabalhar juntos… Ou prefere ver a imprensa divulgando sua vida hoje à noite?”

 

O “prazo havia acabado”.  Vitor passou vinte anos em uma cela enquanto via, pelas capas de revista, o seu antigo parceiro se tornar um magnata.

 

Vinte anos atrás, ele não era  “Dr. Marcos Vinícios”.  Era “O Contador”, o homem que desenhava a logística para os assaltos. Crimes que deixaram mortos e feridos.

 

O empresário tem que resolver o problema de forma controlada. Precisa ser um estrategista frio, o mesmo que construiu um império. Na verdade, o primeiro pensamento foi matá-lo, mas sabia que isso criaria um problema policial imediato.

 

Aceita assinar o contrato de consultoria que Vitor exigiu. É colocado na folha de pagamento oficial, com um crachá e um espaço bem equipado ao lado da sala do presidente. O novo integrante da equipe é apresentado a todos os funcionários.

 

Depois de saber todos os detalhes da vida de Marcos e Vitor, Helena vai à empresa mais vezes do que costumava ir. Trata o desafeto, não com simpatia, mas com autocontrole para evitar conflitos. Limita-se a saudações básicas “bom dia, boa tarde”, alguns acenos e comunicações essenciais, sem abrir espaço para intimidade.

 

O casal pensa junto. Por que não aceitá-lo como sócio legítimo e transformar o inimigo em amigo? Afinal de contas, ele tinha direito à parte do dinheiro que deu início àquele empreendimento.

 

E por que não começar um bom convívio convidando-o para um jantar em família? A sugestão de Helena foi aprovada e, no sábado seguinte, receberam o convidado com zelo esmerado.

 

Helena é extremamente gentil e Marcos mostra-se arrependido do que fez, justificando seus atos como falta de maturidade. “Éramos jovens gananciosos”. Estava pronto para resgatar o tempo que Vitor perdeu na cadeia e pagar a dívida com juros e correção monetária.

 

O jantar prolongou-se até de madrugada, por conta do vinho de primeira qualidade. Sobre a mesa restavam quatro garrafas vazias e a quinta garrafa só não foi aberta porque Helena sugeriu terminar a noite com um licor digestivo cítrico, o mais recomendado após o jantar.

 

Ela se dirigiu ao aparador e foi lendo o nome dos licores cítricos para o convidado escolher. Ele escolheu “Limoncello Villa Massa”, um dos mais tradicionais da Itália, feito com limões sicilianos.

 

“Escolheu acertadamente. É um dos melhores que temos”. Antes de servi-los, Helena foi até a cozinha em busca de uma bandeja pequena; os criados já tinham sido dispensados  por conta do avançado da hora. Ela demorou minutos a mais, o gatinho da casa pedia água.

 

Helena serviu o licor numa bandeja espelhada que reproduzia em dobro as taças de cristal. Um gesto que selava o acordo que começava a se materializar.

 

Vitor está descontraído e feliz. Pega a taça e vira num gole só. Acho que não deu nem tempo pra apreciar o sabor. Estica os braços em direção a Helena: “Quero mais”. O tempo não foi suficiente pra que fosse atendido. Vitor solta um grito estridente e cai sobre a mesa.

 

Ele está morto.

 

Caro leitor, você acha que o plano de envenenamento foi combinado pelo casal? Ou o Dr. Marcos Vinícios não sabia?

 

 

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