A
NATUREZA EFÊMERA DA VIDA
PEDRO HENRIQUE
Sob o manto denso e caloroso da cidade
grande residem os múltiplos edifícios que beijam o céu com sua glória. Dentro
deles se desenrola o cotidiano laborioso das cansadas almas que buscam um dia
melhor para seus corpos.
Entre esses prédios, se destaca o rosto
irritado de Ricardo. Ele corre, xinga e olha o relógio com uma velocidade
surreal. Isso que dá querer arrumar a mala faltando pouco tempo para seu ônibus
partir.
O rapaz decidiu desfrutar um pouco do ar
fresco que só uma cidade do interior pode proporcionar.
Ficará uns dias no sítio de sua família.
Aquela que não larga, nem sob tortura, a criação de galinhas, a ordenha das
vacas, muito menos o subir nas árvores frutíferas. Nunca abandonariam este
paraíso para se sublevarem com o trânsito das grandes metrópoles.
Já
pensou? Buzinas pra cá e pra lá. Gritos e engarrafamentos. Não. Deus me livre.
Para eles, não há nada como pôr o pé no
chão e sentir a vida correndo.
Ricardo sabe que precisa disso. Os
últimos dias foram de extrema exaustão. Passava-os sentado defronte à tela do
computador, revisando documentos e fazendo reuniões.
Isso
não é vida.
Ricardo fecha a porta e corre para a
rodoviária a tempo de pegar seu ônibus. Em poucas horas verá todos os seus
afetos: pai, mãe, irmãos e primos. Além das antigas paixões que outrora lhe
descortinaram sentimentos, vontades…
Lembra-se de quando era pequeno? Quando,
junto aos irmãos mais velhos e primos, mergulhava nas águas do rio que ficava a
poucos metros de sua casa. Nelas, Ricardo tinha o infinito bem na palma de suas
mãos.
Como gostava de tudo aquilo: correr junto
aos cachorros, exigir dos cavalos a velocidade de um automóvel de Fórmula 1,
furtar frutas dos sítios vizinhos e saber que no dia seguinte tudo começa outra
vez com o mesmo nome e aroma.
Queria tudo que a terra podia oferecer,
queria tudo que a infância tinha. Tristeza é saber que um dia chegou a tal vida
adulta e todo seu íntimo infinito ruíu por seus olhos feito uma casa que,
durante uma enchente, não vislumbra em si estrutura para manter-se de pé, e não
havendo outra opção, desaba.
Ricardo seca uma lágrima que abraça seu
rosto paulatinamente. Até os mais brutos choram.
O ônibus para e, ao chegar na saída da
rodoviária, vê, como quando menino, os braços fraternos de sua mãe estendidos,
aguardando para lhe revelar que, apesar dos anos, sempre será aquela coisinha
singela e chorona que saíra de seu ventre.
“Oh, meu amor.”
“Mãe.”
Abraço.
“Filho.”
“Pia.”
Abraço.
“Vamos, vamos, o pessoal está nos
esperando.”
Ao chegarem à casa, toda a família estava
reunida para receber o homem que retornou às suas raízes. Faz um certo tempo
que não conseguiam juntar todos assim.
Foram tantos abraços, apertos de mão,
beijos e “como você está diferente” que o rapaz ficou um pouco enjoado.
A felicidade enfim debutava nos rostos
daqueles que, por Ricardo, nutriam amores e saudades.
Saudade talvez seja o que o nosso formoso
moço sentirá da última pessoa a cumprimentá-lo. Trata-se da filha de uma
vizinha querida pela família, que há pouco tempo havia se mudado para o sítio
ao lado.
É uma moça edênica, olhos de felina,
rosto de mulher feita e personalidade de alguém que sabe o que quer e não tem
medo de chegar e dizer “eu quero”. Ela vai e pega. E como pegou.
Ofereceu ao rapaz um beijo na bochecha,
que este retribuiu com uma certa fraternidade que não é entregue àqueles a quem
não se deseja profundezas.
“Olá.”
“Olá.”
Um pouco de conversa. Nome: Helena. É
nova por aqui? Sim.
Silêncio.
Mais conversa e depois a vida segue com
lampejos de um desejo submerso, mas que logo invade a terra já arada e firma
seu império na mente, no peito, na língua…
Ricardo se dirige aos irmãos e antigos
amigos. Relembram juntos os velhos fragmentos do tempo. Riem, refletem, zoam.
Muitos já haviam se tornado pais. O pelo
havia tomado o corpo, trazendo barba e responsabilidades. Tornaram-se pessoas
que cuidam de outras pessoas.
Um dos antigos amigos chama uma garotinha
de cabelos castanhos saltitantes que vem correndo e o abraça. Ele a pega no
colo, vira para Ricardo, que não precisa de palavras para decodificar.
“É a sua cara.”
“É. Durante os primeiros meses,
acreditávamos que era menino, mas depois…”
Ricardo acaricia o rosto da garota antes
de o pai colocá-la no chão para que faça do jardim um sublime laboratório de
fantasia e criação.
Eis o cerne da infância: criar.
À tarde, segue e com ela muitos olhos.
Olhos de Helena. Olhos de Ricardo. Olhos dos pais que começaram a perceber que,
pelo visto, teriam mais do filho do que imaginavam.
Ah, as paixões têm disso: permanência.
Os dois iam e vinham, entre conversas e
risadas. Pareciam uma canção tão congruente e afável de se ouvir.
Não demorou muito para o sol morrer entre
as montanhas.
Pouco a pouco, a família foi se
dissolvendo, não sabendo quando iriam se ver de novo, mas Helena estava lá. Ela
sempre esteve lá.
Ela conversava e Ricardo observava. Ele
brincava com as crianças e ela sentia. Eles riam um para o outro e a alma
girava e girava, dançando como uma bailarina, que por um instante esquece que é
humana e brinda a Terra com seus passos angelicais.
O rapaz vai ao antigo quarto, toma um
banho. Descobriu que a moça fez de sua antiga residência a casa dela. Ela tem
liberdades aqui. Tudo é dela. Tudo.
Assim que termina de pôr a roupa, vê, lá
do alto, o cabelo de um anjo ganhando o abraço afagoso dos ventos.
Vou
lá.
“Oi.”
Ela
olha.
“Oi.”
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
“Senta aqui.”
Ricardo encara o espaço ínfimo que tem no
banco.
“Acho que não dá para me sentar aí.”
Helena o observa e seus olhos transpassam
a alma daquele rapaz que não sabe se é mais fácil ser atacado por uma onça ou
sentir o peso daquele olhar sobre si. De todo modo, preferiria a onça.
“Por que não?”
Irônica.
“Olha para mim.”
Sedutor.
A moça o analisa.
De
fato, é um homem.
Braços que brigam com a camisa para saber
quem aguenta quem. Ombros proeminentes, mãos que dariam duas dela. Sem
considerar o rosto que desafia a pulcritude de muitos atores.
Helena se levanta, ousada, firme,
faminta…
“Sente-se.” Ricardo olha para ela, não
compreendendo sua atitude, mas a alma arrepia e ele gosta. Como gosta.
“Sente-se.” Ela aponta com os olhos
para o pequeno banco.
Sem pestanejar e incapaz de qualquer
reação, o rapaz obedece.
Assim que suas nádegas encontram a
superfície rígida da pedra, Helena se põe no colo dele com uma delicadeza que o
faz desejar o mundo com aquela mulher.
Helena acariciou delicadamente o
rosto de Ricardo. Bochecha, barba, clavícula…
Tensão?
Sim.
Há lábios, lábios que há poucas horas
sorriam um para o outro. Agora, encontra-se nesta noite de muitas promessas
para uma dança fermentada de voluptuosidades.
E lá de cima, lá do quarto que um dia
aguardava limpo, o pequeno Ricardo emerge os rostos de seus pais que,
abraçados, contemplam que o pequeno se tornou homem.
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