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quarta-feira, 18 de março de 2026

A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 




A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA

PEDRO  HENRIQUE


       Sob o manto denso e caloroso da cidade grande residem os múltiplos edifícios que beijam o céu com sua glória. Dentro deles se desenrola o cotidiano laborioso das cansadas almas que buscam um dia melhor para seus corpos.

       Entre esses prédios, se destaca o rosto irritado de Ricardo. Ele corre, xinga e olha o relógio com uma velocidade surreal. Isso que dá querer arrumar a mala faltando pouco tempo para seu ônibus partir.

       O rapaz decidiu desfrutar um pouco do ar fresco que só uma cidade do interior pode proporcionar.

       Ficará uns dias no sítio de sua família. Aquela que não larga, nem sob tortura, a criação de galinhas, a ordenha das vacas, muito menos o subir nas árvores frutíferas. Nunca abandonariam este paraíso para se sublevarem com o trânsito das grandes metrópoles.

Já pensou? Buzinas pra cá e pra lá. Gritos e engarrafamentos. Não. Deus me livre.

       Para eles, não há nada como pôr o pé no chão e sentir a vida correndo.

       Ricardo sabe que precisa disso. Os últimos dias foram de extrema exaustão. Passava-os sentado defronte à tela do computador, revisando documentos e fazendo reuniões.

Isso não é vida.

       Ricardo fecha a porta e corre para a rodoviária a tempo de pegar seu ônibus. Em poucas horas verá todos os seus afetos: pai, mãe, irmãos e primos. Além das antigas paixões que outrora lhe descortinaram sentimentos, vontades…

       Lembra-se de quando era pequeno? Quando, junto aos irmãos mais velhos e primos, mergulhava nas águas do rio que ficava a poucos metros de sua casa. Nelas, Ricardo tinha o infinito bem na palma de suas mãos.

       Como gostava de tudo aquilo: correr junto aos cachorros, exigir dos cavalos a velocidade de um automóvel de Fórmula 1, furtar frutas dos sítios vizinhos e saber que no dia seguinte tudo começa outra vez com o mesmo nome e aroma.

       Queria tudo que a terra podia oferecer, queria tudo que a infância tinha. Tristeza é saber que um dia chegou a tal vida adulta e todo seu íntimo infinito ruíu por seus olhos feito uma casa que, durante uma enchente, não vislumbra em si estrutura para manter-se de pé, e não havendo outra opção, desaba.

       Ricardo seca uma lágrima que abraça seu rosto paulatinamente. Até os mais brutos choram.

       O ônibus para e, ao chegar na saída da rodoviária, vê, como quando menino, os braços fraternos de sua mãe estendidos, aguardando para lhe revelar que, apesar dos anos, sempre será aquela coisinha singela e chorona que saíra de seu ventre.

       “Oh, meu amor.”

       “Mãe.”

Abraço.

 

       “Filho.”

       “Pia.”

Abraço.

       “Vamos, vamos, o pessoal está nos esperando.”

       Ao chegarem à casa, toda a família estava reunida para receber o homem que retornou às suas raízes. Faz um certo tempo que não conseguiam juntar todos assim.

       Foram tantos abraços, apertos de mão, beijos e “como você está diferente” que o rapaz ficou um pouco enjoado.

       A felicidade enfim debutava nos rostos daqueles que, por Ricardo, nutriam amores e saudades.

       Saudade talvez seja o que o nosso formoso moço sentirá da última pessoa a cumprimentá-lo. Trata-se da filha de uma vizinha querida pela família, que há pouco tempo havia se mudado para o sítio ao lado.

       É uma moça edênica, olhos de felina, rosto de mulher feita e personalidade de alguém que sabe o que quer e não tem medo de chegar e dizer “eu quero”. Ela vai e pega. E como pegou.

       Ofereceu ao rapaz um beijo na bochecha, que este retribuiu com uma certa fraternidade que não é entregue àqueles a quem não se deseja profundezas.

       “Olá.”

       “Olá.”

       Um pouco de conversa. Nome: Helena. É nova por aqui? Sim.

Silêncio.

       Mais conversa e depois a vida segue com lampejos de um desejo submerso, mas que logo invade a terra já arada e firma seu império na mente, no peito, na língua…

       Ricardo se dirige aos irmãos e antigos amigos. Relembram juntos os velhos fragmentos do tempo. Riem, refletem, zoam.

       Muitos já haviam se tornado pais. O pelo havia tomado o corpo, trazendo barba e responsabilidades. Tornaram-se pessoas que cuidam de outras pessoas.

       Um dos antigos amigos chama uma garotinha de cabelos castanhos saltitantes que vem correndo e o abraça. Ele a pega no colo, vira para Ricardo, que não precisa de palavras para decodificar.

       “É a sua cara.”

       “É. Durante os primeiros meses, acreditávamos que era menino, mas depois…”

       Ricardo acaricia o rosto da garota antes de o pai colocá-la no chão para que faça do jardim um sublime laboratório de fantasia e criação.

       Eis o cerne da infância: criar.

       À tarde, segue e com ela muitos olhos. Olhos de Helena. Olhos de Ricardo. Olhos dos pais que começaram a perceber que, pelo visto, teriam mais do filho do que imaginavam.

       Ah, as paixões têm disso: permanência.

       Os dois iam e vinham, entre conversas e risadas. Pareciam uma canção tão congruente e afável de se ouvir.

       Não demorou muito para o sol morrer entre as montanhas.

       Pouco a pouco, a família foi se dissolvendo, não sabendo quando iriam se ver de novo, mas Helena estava lá. Ela sempre esteve lá.

       Ela conversava e Ricardo observava. Ele brincava com as crianças e ela sentia. Eles riam um para o outro e a alma girava e girava, dançando como uma bailarina, que por um instante esquece que é humana e brinda a Terra com seus passos angelicais.

       O rapaz vai ao antigo quarto, toma um banho. Descobriu que a moça fez de sua antiga residência a casa dela. Ela tem liberdades aqui. Tudo é dela. Tudo.

       Assim que termina de pôr a roupa, vê, lá do alto, o cabelo de um anjo ganhando o abraço afagoso dos ventos.

Vou lá. 

       “Oi.”

Ela olha.

       “Oi.”

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

       “Senta aqui.”

       Ricardo encara o espaço ínfimo que tem no banco.

       “Acho que não dá para me sentar aí.”

       Helena o observa e seus olhos transpassam a alma daquele rapaz que não sabe se é mais fácil ser atacado por uma onça ou sentir o peso daquele olhar sobre si. De todo modo, preferiria a onça.

       “Por que não?”

Irônica.

       “Olha para mim.”

Sedutor.

        A moça o analisa.

De fato, é um homem.

       Braços que brigam com a camisa para saber quem aguenta quem. Ombros proeminentes, mãos que dariam duas dela. Sem considerar o rosto que desafia a pulcritude de muitos atores.

       Helena se levanta, ousada, firme, faminta…

       “Sente-se.” Ricardo olha para ela, não compreendendo sua atitude, mas a alma arrepia e ele gosta. Como gosta.

          “Sente-se.” Ela aponta com os olhos para o pequeno banco.

       Sem pestanejar e incapaz de qualquer reação, o rapaz obedece.

       Assim que suas nádegas encontram a superfície rígida da pedra, Helena se põe no colo dele com uma delicadeza que o faz desejar o mundo com aquela mulher.

          Helena acariciou delicadamente o rosto de Ricardo. Bochecha, barba, clavícula…

       Tensão?

       Sim.

       Há lábios, lábios que há poucas horas sorriam um para o outro. Agora, encontra-se nesta noite de muitas promessas para uma dança fermentada de voluptuosidades.

       E lá de cima, lá do quarto que um dia aguardava limpo, o pequeno Ricardo emerge os rostos de seus pais que, abraçados, contemplam que o pequeno se tornou homem.

 

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