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quarta-feira, 18 de março de 2026

O Garoto que Enxergava pelas Frestas - HIRTIS

 

O Garoto que Enxergava pelas Frestas

HIRTIS


Alguns garotos brincam no quintal. Outros encontram pistas em lugares onde ninguém pensaria em procurar. Ele era assim — sempre atento, sempre curioso. E foi por isso que percebeu algo estranho antes de todo mundo. O grupo de viagem da escola estava eufórico: era a primeira vez que viajavam pro exterior. Enquanto alguns garotos tentavam captar sinal pra postar uma story, ou trocavam  fotos e mensagens pelo WhatsApp,  Pedro não participava. Tinha o celular guardado na mochila e observava o comportamento irritadiço, agastado do motorista do transfer que os levava do aeroporto ao hotel em Roma.... Havia algo estranho ali.

A primeira coisa estranha que Pedro notou foi o bloqueio de saída: o motorista acionou a trava de segurança infantil nas portas traseiras, assim que todos entram, algo incomum para um transfer de adolescentes.

Sentado  logo atrás do banco do motorista, Pedro não se descuida e mantém os olhos fixos na sua nuca. O homem está inquieto, incomodado e não pára de se ajeitar no banco.  As mãos grandes e apertadas no volante de couro revelam nós em seus dedos compridos e grossos. É um homem forte.

Ele finge ignorar  as piadas e a barulheira dos garotos, mas  Pedro percebe que ele presta atenção em tudo. Constantemente ajusta o retrovisor.

O volume do rádio estava zerado, mas o menino podia ver a luz do visor oscilando, conforme alguém falava do outro lado. Ele não respondia, mas assentia com a cabeça como se estivesse recebendo ordens que os garotos não deviam ouvir.

Apesar do trânsito fluir normalmente, ele sai da via principal e entra em ruelas estreitas e desertas com os olhos cravados no retrovisor pra ver se algum carro os seguia.  Quando questionado, mal humorado, responde em italiano. 

Mas o sangue de Pedro gelou quando a tela do celular dele, jogado no console central, brilhou. Pedro se levantou, deu dois passos à frente como se estivesse se espreguiçando e esticou o pescoço como um avestruz em alerta. Conseguiu ver na tela a foto do colégio onde eles estudam e uma única palavra: “Presi”.

Nesse momento, uma criança surge do nada e atravessa a rua bem na frente do ônibus. O motorista pisa no freio com tudo e os pneus cantam no asfalto. Lá dentro, o impacto foi imediato: a molecada é  arremessada pra frente num bolo só; celulares e mochilas voam. A  meninada abriu um berreiro  comprido. Imagina o choque de quem pensa que a vida acabaria aí.  Mas, como eram adolescentes, o susto durou menos que a freada e logo veio o primeiro grito: “Ei motorista, quer matar a gente”? O gelo foi quebrado e o ônibus explodiu em gargalhadas, zoação e gente se empurrando de volta aos bancos como se nada tivesse acontecido.

Algo chama a atenção do garoto: na confusão, o paletó  do motorista se movimenta e Pedro vê o brilho metálico de uma arma presa firmemente entre o cinto e o cós da sua  calça.

E cada vez que o motorista fazia uma curva mais brusca ou se inclinava para conferir o retrovisor, o paletó se abria  e mostrava o cabo da arma. O motorista, desconfortável, ajusta o objeto o tempo todo como se estivesse pronto para sacá-lo a qualquer segundo, algo totalmente incompatível com um simples guia de excursão escolar.

Reinava dentro do ônibus um contraste brutal: de um lado, seus amigos dividiam pacotes  de biscoito, trocavam fones de ouvido, batucavam no banco de trás acompanhando uma música que tocava em algum celular;  do outro lado, o perigo da morte escondida  no avesso do paletó do motorista. 

Pedro não disse uma única palavra, engoliu em seco, sentindo o gosto metálico do medo na boca; encolheu-se no banco com a mochila agarrada ao peito como um escudo improvisado.  Tenta desviar o olhar para não ser descoberto, mas seus olhos voltam magneticamente para aquele volume rígido sob o avesso do paletó; a percepção de que todos ali estão em perigo iminente cria um nó insuportável na sua garganta, uma náusea súbita o domina, misturando o cheiro de diesel do ônibus com o  terror paralisante de estar preso em uma armadilha em movimento.

que os aguardavam no hotel — “O motorista do ônibus está armado. Socorro!” —Torcia para que o sinal de internet fosse mais rápido que qualquer movimento estranho Com as mãos tremendo por baixo da mochila, ele desbloqueia o celular. Digita rápido, quase sem olhar pra tela, uma mensagem enviada ao grupo de monitores do motorista. 

Enquanto os adolescentes,  apinhados nas janelas do lado direito do ônibus, apontam para o Coliseu, a mensagem de Pedro disparou um alerta imediato  no grupo de monitores. Em contato direto com a Polizia di Stato, orientaram Pedro: 'Fique calmo. Não olhe para ele. Falta pouco”.

Quando o ônibus finalmente manobrou na frente do hotel, a cena parecia saída de um filme. Antes mesmo que o motorista percebesse o que estava acontecendo, três viaturas discretas cercaram o coletivo. Policiais à paisana, que já aguardavam na calçada fingindo ser turistas, entraram com armas em punho e cercaram a cabine com uma precisão cirúrgica. — “Mani in alto”! — a ordem era firme. O motorista foi imobilizado e algemado, com cara de quem não sabia o que estava acontecendo.

 

O pânico foi geral. Os estudantes que, segundos antes, estavam brincando, mergulharam entre os bancos. O som da batucada deu lugar a um silêncio aterrorizante. Ninguém entendia por que a polícia italiana fazia  ali. O ônibus virou uma bolha de tensão e de rostos emoldurados com pontos de interrogação.

 

Mas  o clima mudou instantaneamente, assim que um dos monitores subiu no veículo e explicou, ainda ofegante: — 'Gente, está tudo bem... O Pedro viu que o motorista estava armado e avisou a gente pelo WhatsApp. 

 

O medo evaporou como se nunca tivesse existido — 'NÃO ACREDITO! O CARA TAVA ARMADO?!' — gritou um, já com o celular na mão gravando a cena. — 'PEDRO, TU É UM MITO!' — berrou outro, puxando uma salva de palmas.

 

Todos vibravam com a prisão como se estivessem participando de um filme de ação; o que até então era um trauma em potencial virou o evento épico da viagem.  Entre gritos de comemoração e assobios, desceram do ônibus, não como vítimas, mas como protagonistas de uma história que renderia meses de postagens.

 

 

A  adrenalina  estava no teto. O medo tinha virado euforia pura. —  “Mano, olha o tamanho dessa metralhadora! Deixa eu tirar uma foto aqui!”! — gritou um dos meninos, já esticando o braço com o celular em modo selfie na direção de um dos agentes da Polizia di Stato. Mas a recepção não foi a que eles esperavam. Os policiais italianos, com seus uniformes impecáveis e rostos de pedra, nem piscaram. Um deles apenas levantou a palma da mão, um gesto seco e autoritário que paralisou o grupo na hora.

—”'No foto” — ordenou o agente, com uma voz grossa que não aceitava réplica.

A molecada que já imaginava o post perfeito com a legenda “Sobrevivi a um motorista armado em Roma”, deu um passo atrás, sem jeito. Os policiais, imperturbáveis, mantinham o perímetro isolado, ignorando sorrisos e câmeras. Para eles era uma operação de risco; para os meninos, um conteúdo de redes sociais que acabava de ser censurado pela autoridade européia.

— “Nossa, os caras são brutos mesmo…” — sussurrou Lucas, guardando o celular no bolso com um sorriso amarelo.

 

Enquanto o motorista era jogado no banco de trás da viatura e as sirenes voltavam a ecoar pelas ruas de paralelepípedos, os estudantes finalmente seguiram para o hotel.

 

O herói era o Pedro, as fotos com a polícia não rolaram, mas a história que eles teriam pra contar no jantar  —- e pelo resto da vida — já estava garantida..



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