A Fadinha Pop
Hirtis Lazarin
A fada Lily vivia no “Reino das Asas Brilhantes”. Ela não era famosa pelo seu brilho ou pelas
mágicas surpreendentes que fazia com a varinha mágica.
Enquanto as outras fadas pousavam
graciosamente nas pétalas de rosa e nos lírios brancos, Lily, toda desajeitada,
enterrava o nariz na toca do Jaime, o esquilo mais agitado e impaciente da
floresta; ou então, quando voava mais alto, lá onde o vento sopra mais forte,
ela perdia o controle de suas asas e acabava num verdadeiro pesadelo:
presa nas teias de aranha. O toque pegajoso dos fios de seda prendendo
seus pés e o medo de ser picada por uma aranha eram apavorantes. Cada movimento
deixava-a ainda mais presa naquela armadilha invisível. Numa hora dessas, só
restava uma saída: acalmar-se, ficar paradinha no ar pra que nada desse errado
e acionar a varinha mágica.
Era de manhãzinha e sua missão naquele dia era
simples: transformar o orvalho matinal em diamantes coloridos, mas após um
espirro exagerado, esqueceu de acionar o freio das botas mágicas e transformou
o rabo do gato Grandalf num enorme algodão-doce azul.
Dona Mel, a fada-chefe que usa os óculos na
pontinha do nariz, toda paciente, nunca dá broncas em Lily e sempre repete:
“Oh, querida! Acho que precisamos calibrar novamente a sua varinha. Ela está
com algum parafuso solto. Acho que, solto está um parafuso na cabecinha da
fada.
E, mesmo quando ela deveria se aquietar na
biblioteca estudando mágicas, o livro que, aberto em suas mãos, ficava
estacionado o tempo todo numa página só.
E onde estava a sua cabecinha?
Viajando num flashback, revivendo, em câmara
lenta, cenas de suas trapalhadas.
Vamos lembrar juntos:
Lily passava perto de um formigueiro e sentiu um
cheirinho desagradável — “Vou dar um jeito nisso” — e, ao tentar perfumar o
local, ela apertou um botão errado e a varinha disparou um jato de glitter
colante, transformando o exército de operárias em minúsculos pontos de luz.
As formigas, antes de cor marrom e discretas
no vai-e-vem monótono de carregar folhas, decidiram aproveitar o novo visual:
organizaram uma festa numa competição com a luz cheia da lua.
Descobriram que, com aquele brilho todo, nenhum tamanduá teria coragem de
chegar perto. Afinal, quem comeria um lanche que brilha mais que um poste?
E o vexame das xícaras saltitantes?
Lily foi incumbida de separar xícaras para o
chá da tarde. Distraída com um bando de borboletas amarelas, trocou as palavras
mágicas e deu “pernas de grilo” para a louça de porcelana.
Sentindo-se livres e eufóricas --- sozinhas, nunca haviam saído do mesmo
lugar ---- pularam a janela da cozinha e correram para o jardim. O resultado
foi uma perseguição digna de cinema. A fada corria desesperada na tentativa de
consertar a trapalhada e as xícaras, numa sequência de “poc-poc-poc”, saltavam
por cima das margaridas e dos girassóis. Algumas ficaram arrebentadas e
acabaram no lixo.
Num outro momento, Lily resolveu que as
margaridas do jardim estavam muito pálidas e precisavam de uma cor toda
especial. Sacudiu a varinha com elegância, mas bem na hora do feitiço, um
beija-flor passou zunindo no seu ouvido.
O resultado? Em vez de dar um brilho perolado
às pétalas brancas, transformou-as em pipocas gigantes que, ao calor do
sol, saltitavam enlouquecidas. O gato Grandalf, que tirava uma soneca todo
esparramado sob o sol, deu um mortal pra trás e uma flor-pipoca estourou na
ponta do seu nariz. Outra, ah! Outra gigante! Grudou e tapou seu ouvido.
Indignado e com seus pelos arrepiados, miou tão forte que mais parecia o rugido
de um leão em miniatura.
Lily, paralisada e com a varinha na mão, não
sabia se pedia desculpas ou se saía correndo antes que o felino resolvesse que
ela seria a próxima coisa que ele iria caçar.
Bem nessa hora, a dona Mel surgiu flutuando,
calma que só ela só. Não gritou nem se desesperou com o cenário de cinema
montado no jardim. Tirou do bolso um saquinho de “biscoitos de erva-de-gato” e
estendeu a mão. “Ora, ora, meu grande guerreiro, acalme-se. É apenas a Lily
sendo a Lily”. Ele cheirou o petisco, disfarçou uma cara de mal e... Não
é que ele gostou?
Dona Mel, olhando por cima dos óculos de
cristal, encontrou Lily escondida atrás da samambaia-de-metro.
Dessa vez, Dona Mel olhou firme pra Lily e deu
seu veredicto: “Querida, já que você transformou nosso jardim nessa confusão,
sua missão será organizar o primeiro “Festival de Pipoca Alada” do Reino. Vai
guiar o gato Grandalf e as formigas brilhantes pra colherem todas as
flores-pipocas antes que elas estourem. Vai também pentear cada fio do bigode
do gato até ele recuperar sua dignidade real”.
A fadinha deu pulinhos de alegria por não
estar de castigo, mas, logo à frente, tropeçou nos próprios pés, enquanto
tentava convencer o esquilo de rabo azul de que ser colhedor de pipoca era a
profissão mais importante do mundo.
No final do dia, o jardim estava calmo,
exalando um cheirinho doce de milho que atraía fadas de todos os cantos. Lily,
exausta e com glitter nas bochechas, sentiu-se orgulhosa por cumprir a missão.
Percebeu que, apesar de suas mágicas nunca
saírem como planejado, elas acabavam criando histórias muito mais coloridas e
divertidas do que qualquer feitiço perfeito.
Satisfeita da vida, a fadinha atrapalhada
fechou os olhos, torcendo para que, no dia seguinte, sua varinha criasse juízo.
Mas lá no fundinho sabia que com ela por perto, o “Reino das Asas Brilhantes”
nunca teria um dia monótono.
Moral da História: Às vezes, um erro atrapalhado e barulhento é muito mais divertido
do que um acerto silencioso e perfeito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.