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quarta-feira, 18 de março de 2026

A Fadinha Pop - Hirtis Lazarin

 




A Fadinha Pop

Hirtis Lazarin

 

A fada Lily vivia no “Reino das Asas Brilhantes”. Ela não era famosa pelo seu brilho ou pelas mágicas surpreendentes que fazia com a varinha mágica.

 

Enquanto as outras fadas pousavam graciosamente nas pétalas de rosa e nos lírios brancos, Lily, toda desajeitada, enterrava o nariz na toca do Jaime, o esquilo mais agitado e impaciente da floresta; ou então, quando voava mais alto, lá onde o vento sopra mais forte, ela perdia o controle de suas asas e acabava num verdadeiro pesadelo:  presa nas teias de aranha. O toque pegajoso dos fios de seda prendendo seus pés e o medo de ser picada por uma aranha eram apavorantes. Cada movimento deixava-a ainda mais presa naquela armadilha invisível. Numa hora dessas, só restava uma saída: acalmar-se, ficar paradinha no ar pra que nada desse errado e acionar a varinha mágica.

 

Era de manhãzinha e sua missão naquele dia era simples: transformar o orvalho matinal em diamantes coloridos, mas após um espirro exagerado, esqueceu de acionar o freio das botas mágicas e transformou o rabo do gato Grandalf num enorme algodão-doce azul.

 

Dona Mel, a fada-chefe que usa os óculos na pontinha do nariz, toda paciente, nunca dá broncas em Lily e sempre repete: “Oh, querida! Acho que precisamos calibrar novamente a sua varinha. Ela está com algum parafuso solto. Acho que, solto está um parafuso na cabecinha da fada.

 

E, mesmo quando ela deveria se aquietar na biblioteca estudando mágicas, o livro que, aberto em suas mãos, ficava estacionado o tempo todo numa página só.

 

E onde estava a sua cabecinha?

 

Viajando num flashback, revivendo, em câmara lenta, cenas de suas trapalhadas.

 

Vamos lembrar juntos:

 

Lily passava perto de um formigueiro e sentiu um cheirinho desagradável — “Vou dar um jeito nisso” — e, ao tentar perfumar o local, ela apertou um botão errado e a varinha disparou um jato de glitter colante, transformando o exército de operárias em minúsculos pontos de luz.

 

As formigas, antes de cor marrom e discretas no vai-e-vem monótono de carregar folhas, decidiram aproveitar o novo visual: organizaram uma festa numa competição com a luz cheia da lua.   Descobriram que, com aquele brilho todo, nenhum tamanduá teria coragem de chegar perto. Afinal, quem comeria um lanche que brilha mais que um poste?

 

E o vexame das xícaras saltitantes? 

 

Lily foi incumbida de separar xícaras para o chá da tarde. Distraída com um bando de borboletas amarelas, trocou as palavras mágicas e deu “pernas de grilo” para a louça de porcelana. Sentindo-se livres e eufóricas --- sozinhas, nunca haviam saído do mesmo lugar ---- pularam a janela da cozinha e correram para o jardim. O resultado foi uma perseguição digna de cinema. A fada corria desesperada na tentativa de consertar a trapalhada e as xícaras, numa sequência de “poc-poc-poc”, saltavam por cima das margaridas e dos girassóis. Algumas ficaram arrebentadas e acabaram no lixo.

 

Num outro momento, Lily resolveu que as margaridas do jardim estavam muito pálidas e precisavam de uma cor toda especial. Sacudiu a varinha com elegância, mas bem na hora do feitiço, um beija-flor passou zunindo no seu ouvido.

 

O resultado? Em vez de dar um brilho perolado às pétalas brancas, transformou-as em pipocas gigantes que, ao calor do sol, saltitavam enlouquecidas. O gato Grandalf, que tirava uma soneca todo esparramado sob o sol, deu um mortal pra trás e uma flor-pipoca estourou na ponta do seu nariz. Outra, ah! Outra gigante! Grudou e tapou seu ouvido. Indignado e com seus pelos arrepiados, miou tão forte que mais parecia o rugido de um leão em miniatura.

 

Lily, paralisada e com a varinha na mão, não sabia se pedia desculpas ou se saía correndo antes que o felino resolvesse que ela seria a próxima coisa que ele iria caçar.

 

Bem nessa hora, a dona Mel surgiu flutuando, calma que só ela só. Não gritou nem se desesperou com o cenário de cinema montado no jardim. Tirou do bolso um saquinho de “biscoitos de erva-de-gato” e estendeu a mão. “Ora, ora, meu grande guerreiro, acalme-se. É apenas a Lily sendo a Lily”. Ele cheirou o petisco, disfarçou uma cara de mal e...  Não é que ele gostou?

 

Dona Mel, olhando por cima dos óculos de cristal, encontrou Lily escondida atrás da samambaia-de-metro.

 

Dessa vez, Dona Mel olhou firme pra Lily e deu seu veredicto: “Querida, já que você transformou nosso jardim nessa confusão, sua missão será organizar o primeiro “Festival de Pipoca Alada” do Reino. Vai guiar o gato Grandalf e as formigas brilhantes pra colherem todas as flores-pipocas antes que elas estourem. Vai também pentear cada fio do bigode do gato até ele recuperar sua dignidade real”.

 

A fadinha deu pulinhos de alegria por não estar de castigo, mas, logo à frente, tropeçou nos próprios pés, enquanto tentava convencer o esquilo de rabo azul de que ser colhedor de pipoca era a profissão mais importante do mundo.

 

No final do dia, o jardim estava calmo, exalando um cheirinho doce de milho que atraía fadas de todos os cantos. Lily, exausta e com glitter nas bochechas, sentiu-se orgulhosa por cumprir a missão.

 

Percebeu que, apesar de suas mágicas nunca saírem como planejado, elas acabavam criando histórias muito mais coloridas e divertidas do que qualquer feitiço perfeito.

 

Satisfeita da vida, a fadinha atrapalhada fechou os olhos, torcendo para que, no dia seguinte, sua varinha criasse juízo. Mas lá no fundinho sabia que com ela por perto, o “Reino das Asas Brilhantes” nunca teria um dia monótono.

 

Moral da História: Às vezes, um erro atrapalhado e barulhento é muito mais divertido do que um acerto silencioso e perfeito.

 

 

 

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