Preto velho
Pedro
Henrique
“Você será pai.” Esta é uma notícia que abala
qualquer homem que não esteja preparado para a tarefa. É indubitavelmente andar
na calçada do planejado e receber em sua mão um fio desencapado do inesperado.
Imagine,
leitor, imagine comigo, você chega exausto do EJA, vai até a cozinha e vê sobre
a mesa um pirex com risoto de frango, uma garrafa de cerveja e sua esposa de
camisola sorrindo para você.
Você
se aproxima, a beija na boca e se senta à mesa, servindo-se daquele delicioso
risoto.
Ela
te pergunta como foi no trabalho. Você responde que está sendo um saco como
sempre, afirma que o irmão dela parece te odiar, que sempre te designa os
piores serviços e faz com que você nunca se esqueça de que ele não nutre uma
gota minúscula sequer de estima por você.
Ela
te consola dizendo que o irmão sempre foi ranzinza. Conta como ele era com a
família, sempre brigando com o pai, respondendo à mãe e arrumando confusão na
rua.
Mesmo
assim, você não deixa morrer a raiva colossal que sente daquele idiota, mas, em
respeito à sua esposa, que não merece saber dos conflitos do seu trabalho, você
encerra o assunto.
Depois,
quando terminam o jantar, sua esposa vai até o quarto e traz nas mãos uma
caixinha com um laço rosa e te entrega. Você abre e lá dentro está um teste de
gravidez dando positivo.
Seu
mundo naquele momento aflora e as rosas ganham forma e espinhos. De cada pétala
jaz sobre ti o abismo e o louvor.
E, por um
momento, por um breve momento, você acha que nada daquilo tem raízes no real.
Na sua cabeça, é tudo invenção, mentira, sua esposa está brincando.
Porém,
ao olhar em seus olhos que já abrigam um manancial de lágrimas, você se
vislumbra na obrigação de pegar aquela verdade e bebê-la, ainda que seu sabor
não seja dos melhores.
Vocês
vão dormir e aquilo continua se ramificando em seus pensamentos, ambicionando
espaço, preenchendo cada milímetro que consegue até não restar mais nada a não
ser aquele teste e a repulsa.
No
dia seguinte, após ouvir todas as piadas chatas e ofensivas de seu cunhado a
seu respeito, você vai à escola, se assenta na penúltima cadeira da fileira do
canto direito ao lado de José e conta tudo para ele.
José
trabalha como gari e também teve uma infância marcada pelo horror. Ele passa
boa parte do tempo reclamando da vida, do sistema, da política e de sua esposa.
Porém, quando o assunto é sua fé, recolhe-se em um casulo de gratidão.
Ele
frequenta um terreiro de umbanda e, quando você confessa seus temores em
relação à paternidade, ele te revela a um tal de Preto Velho.
Você
pergunta quem é, e ele responde ser uma entidade que orienta as pessoas. José
sugere que você vá conversar com ele. De imediato, você recusa, argumentando
que não vai “falar com o demônio”. Ele ri e explica que não é nada disso. Diz
que os Pretos Velhos são espíritos de antigos escravizados que ajudam as
pessoas por meio de conselhos.
Mesmo
assim, você não se convence. José, percebendo sua resistência, diz que
conversar com o Preto Velho pode te ajudar a lidar com o medo de ser pai.
E,
para ser sincero, caro leitor, não sei se foi o peso do medo ou os toques da
curiosidade que te levaram a ir, mas o fato é que foste.
Você
recorda de cada detalhe: do lugar bem simples, do chão de terra batida, das
muitas folhagens e de uma casa que tinha ao lado um pequeno cômodo onde o Preto
Velho atendia.
Lembra-te,
como se fosse hoje, do cheiro que pairava no ar, uma mistura de cerveja,
cigarro e chuva. Do lado de fora do cômodo onde você e José estavam sentados,
podia-se escutar a voz nítida e audível da entidade dando opiniões sobre os
relatos daqueles que o procuravam.
Havia
duas moças à sua frente. Uma delas ficou quase uma hora conversando com ele.
Pelo que escutou, ela buscava um conselho sobre um rapaz que havia acabado de
conhecer.
A
entidade disse haver coisas na vida que são convidativas aos olhos e que, por
esse motivo, consideramos ser a coisa apropriada para nós.
Contudo,
devemos manter os olhos bem abertos, não para o externo, mas para o interno,
por ser lá que residem todas as bênçãos e maldições de um ser humano.
Em
seguida, a outra moça que estava à sua frente foi chamada e, lá de fora,
ouviu-se apenas sua voz embargada. Havia acabado de perder a filha de
quatro anos para o câncer e questionava a entidade do porquê.
O
Preto Velho consolou aquela mãe desesperada e, ao final, chamou um médium para
acompanhá-la até a saída. Enquanto ela passava pela cortina que fazia o papel
de porta, você escutou a entidade dizer: “Vá em paz, filha”, e logo em seguida
ouviu a palavra “próximo”.
José
fez um sinal para que você entrasse no quartinho. A princípio, mil coisas
circulavam pela sua cabeça e, por um triz, você pensou em não entrar, em
correr. Ainda dava tempo. Entretanto, já estava ali, qual seria o mal em ir?
Nenhum. Portanto, foi.
Logo
quando entrou, surpreendeu-se ao ver um homem que aparentava ter entre trinta e
cinco e quarenta anos.
Você
esperava encontrar um velho, e não um homem tão jovem. Ainda assim, senta-se na
cadeira reservada para quem ia conversar com ele e não questiona sua idade.
—
Não olhe para o cavalo, filho. É a mim que deve ver — disse o Preto Velho.
Você
não entende o que aquilo significa, mas também não pergunta. Apenas aproveite
os primeiros segundos para observar os detalhes ao seu redor. A atmosfera do
lugar te causa certo espanto.
Você
olha à direita do cômodo e se depara com diversas imagens de orixás e entidades
feitas de argila. Também havia uma mesa com cachaça, uma Bíblia, charutos e,
curiosamente, um copo com um líquido que você julga ser água, dentro do qual
havia uma faca.
Você
lembra da orientação de José: deveria pedir bênção à entidade e chamá-lo de
“vovô”. Assim o faz. Quando termina de cumprimentá-lo, percebe que ele a olha
fixamente, como se estivesse examinando cada átomo dentro do seu corpo.
Você
não sabe como, mas um simples olhar te fragmentou, e parecia que toda a água
que nutria um amaldiçoado passado estava prestes a inundar tudo ao seu redor.
—
É, filho, é...
Bastaram
essas palavras para as lágrimas emergirem solitárias dos seus olhos como uma
chuva inesperadamente brutal. Ele mantém o olhar fixo em você e, após algum
tempo, você diz o que busca ali.
A
priori, ele parecia indiferente ao que você dizia, focando sua atenção na
cachaça que colocava em um recipiente raso e bebia.
Enquanto
isso, sua mente já xingava José por ter te persuadido a vir. Estava prestes a
se levantar e ir embora, quando aquele olhar que havia te desmembrado voltou,
perfurando ainda mais fundo a ferida.
—
Você sofreu muito, não é, filho?
E
foi ali que cada pedaço de ti revelou sua identidade.
—
Você não tem medo de ser pai; você tem medo de si mesmo.
Pronto,
inundou: anos atrás, o barracão de madeira, a plantação de mandioca e o passado
infeliz projetado no presente temeroso. Socos, cuspes, chicote, choro. Seu pai
arrancando sua roupa, manchada pelo vermelho vivo que escoava à medida que o
bico do boi rasgava sua carne.
Raiva
de você mesmo por não ter corrido mais, por não ser mais forte. Raiva dele por
lançar o peso covarde de seu corpo contra o teu, e você nada poder fazer. Ainda
mais raiva, porque, mesmo se debatendo, você não consegue sair debaixo dele.
Uma
raiva ainda maior quando as costas já estavam em carne viva e, mesmo assim,
cada nova chicotada parecia arder um pouco mais. Paulatinamente, a dor
tornava-se mais insuportável, forçando-te no estopim a seguir seus mandos.
Ele te enforca. Arranca com suas mãos atrozes o ar que confere vida ao seu corpo e o faz com gosto. Você se debate e só vê sua mãe vir com uma garrafa de cerveja quebrada nas mãos, com as pontas pontiagudas babando o resto do líquido e ambicionando dar ao seu algoz o destino cruel que ele merece.
Ela introduz, com toda força de seu ser, o objeto nele, bem na sua frente,
e seu corpo é consumido pela chama da paralisia e você desmaia. Quando acorda,
está na cama de um hospital com uma assistente social ao seu lado e sua mãe
presa.
Você
se levanta e sai. Não é obrigado a passar por isso. Não querer passar por
isso. Não merece passar por isso.
Você
sai com uma raiva tão feroz caminhando por suas entranhas, que nem olha para
José, contudo sabe que ele está vindo atrás de você. E, antes que consiga se
afastar o suficiente daquele cômodo, você escuta a voz do Preto Velho dizer:
— O
medo é um homem encapuzado de invisível que rouba aquilo que temos de melhor,
filho.
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