A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Preto velho - Pedro Henrique

 



Preto velho

Pedro Henrique

 

 “Você será pai.” Esta é uma notícia que abala qualquer homem que não esteja preparado para a tarefa. É indubitavelmente andar na calçada do planejado e receber em sua mão um fio desencapado do inesperado.

 Imagine, leitor, imagine comigo, você chega exausto do EJA, vai até a cozinha e vê sobre a mesa um pirex com risoto de frango, uma garrafa de cerveja e sua esposa de camisola sorrindo para você.

 Você se aproxima, a beija na boca e se senta à mesa, servindo-se daquele delicioso risoto.

 Ela te pergunta como foi no trabalho. Você responde que está sendo um saco como sempre, afirma que o irmão dela parece te odiar, que sempre te designa os piores serviços e faz com que você nunca se esqueça de que ele não nutre uma gota minúscula sequer de estima por você.

 Ela te consola dizendo que o irmão sempre foi ranzinza. Conta como ele era com a família, sempre brigando com o pai, respondendo à mãe e arrumando confusão na rua.

 Mesmo assim, você não deixa morrer a raiva colossal que sente daquele idiota, mas, em respeito à sua esposa, que não merece saber dos conflitos do seu trabalho, você encerra o assunto.

 Depois, quando terminam o jantar, sua esposa vai até o quarto e traz nas mãos uma caixinha com um laço rosa e te entrega. Você abre e lá dentro está um teste de gravidez dando positivo.

 Seu mundo naquele momento aflora e as rosas ganham forma e espinhos. De cada pétala jaz sobre ti o abismo e o louvor.

E, por um momento, por um breve momento, você acha que nada daquilo tem raízes no real. Na sua cabeça, é tudo invenção, mentira, sua esposa está brincando.

 Porém, ao olhar em seus olhos que já abrigam um manancial de lágrimas, você se vislumbra na obrigação de pegar aquela verdade e bebê-la, ainda que seu sabor não seja dos melhores.

 Vocês vão dormir e aquilo continua se ramificando em seus pensamentos, ambicionando espaço, preenchendo cada milímetro que consegue até não restar mais nada a não ser aquele teste e a repulsa.

 No dia seguinte, após ouvir todas as piadas chatas e ofensivas de seu cunhado a seu respeito, você vai à escola, se assenta na penúltima cadeira da fileira do canto direito ao lado de José e conta tudo para ele. 

 José trabalha como gari e também teve uma infância marcada pelo horror. Ele passa boa parte do tempo reclamando da vida, do sistema, da política e de sua esposa. Porém, quando o assunto é sua fé, recolhe-se em um casulo de gratidão.

 Ele frequenta um terreiro de umbanda e, quando você confessa seus temores em relação à paternidade, ele te revela a um tal de Preto Velho.

 Você pergunta quem é, e ele responde ser uma entidade que orienta as pessoas. José sugere que você vá conversar com ele. De imediato, você recusa, argumentando que não vai “falar com o demônio”. Ele ri e explica que não é nada disso. Diz que os Pretos Velhos são espíritos de antigos escravizados que ajudam as pessoas por meio de conselhos.

 Mesmo assim, você não se convence. José, percebendo sua resistência, diz que conversar com o Preto Velho pode te ajudar a lidar com o medo de ser pai.

 E, para ser sincero, caro leitor, não sei se foi o peso do medo ou os toques da curiosidade que te levaram a ir, mas o fato é que foste.

 Você recorda de cada detalhe: do lugar bem simples, do chão de terra batida, das muitas folhagens e de uma casa que tinha ao lado um pequeno cômodo onde o Preto Velho atendia.

 Lembra-te, como se fosse hoje, do cheiro que pairava no ar, uma mistura de cerveja, cigarro e chuva. Do lado de fora do cômodo onde você e José estavam sentados, podia-se escutar a voz nítida e audível da entidade dando opiniões sobre os relatos daqueles que o procuravam.

 Havia duas moças à sua frente. Uma delas ficou quase uma hora conversando com ele. Pelo que escutou, ela buscava um conselho sobre um rapaz que havia acabado de conhecer.

 A entidade disse haver coisas na vida que são convidativas aos olhos e que, por esse motivo, consideramos ser a coisa apropriada para nós.

 Contudo, devemos manter os olhos bem abertos, não para o externo, mas para o interno, por ser lá que residem todas as bênçãos e maldições de um ser humano.

 Em seguida, a outra moça que estava à sua frente foi chamada e, lá de fora, ouviu-se apenas sua voz embargada. Havia acabado de perder a filha de quatro anos para o câncer e questionava a entidade do porquê.

 O Preto Velho consolou aquela mãe desesperada e, ao final, chamou um médium para acompanhá-la até a saída. Enquanto ela passava pela cortina que fazia o papel de porta, você escutou a entidade dizer: “Vá em paz, filha”, e logo em seguida ouviu a palavra “próximo”.

 José fez um sinal para que você entrasse no quartinho. A princípio, mil coisas circulavam pela sua cabeça e, por um triz, você pensou em não entrar, em correr. Ainda dava tempo. Entretanto, já estava ali, qual seria o mal em ir? Nenhum. Portanto, foi.

 Logo quando entrou, surpreendeu-se ao ver um homem que aparentava ter entre trinta e cinco e quarenta anos.

 Você esperava encontrar um velho, e não um homem tão jovem. Ainda assim, senta-se na cadeira reservada para quem ia conversar com ele e não questiona sua idade.

 — Não olhe para o cavalo, filho. É a mim que deve ver — disse o Preto Velho.

 Você não entende o que aquilo significa, mas também não pergunta. Apenas aproveite os primeiros segundos para observar os detalhes ao seu redor. A atmosfera do lugar te causa certo espanto.

 Você olha à direita do cômodo e se depara com diversas imagens de orixás e entidades feitas de argila. Também havia uma mesa com cachaça, uma Bíblia, charutos e, curiosamente, um copo com um líquido que você julga ser água, dentro do qual havia uma faca.

 Você lembra da orientação de José: deveria pedir bênção à entidade e chamá-lo de “vovô”. Assim o faz. Quando termina de cumprimentá-lo, percebe que ele a olha fixamente, como se estivesse examinando cada átomo dentro do seu corpo.

 Você não sabe como, mas um simples olhar te fragmentou, e parecia que toda a água que nutria um amaldiçoado passado estava prestes a inundar tudo ao seu redor.

 — É, filho, é...

 Bastaram essas palavras para as lágrimas emergirem solitárias dos seus olhos como uma chuva inesperadamente brutal. Ele mantém o olhar fixo em você e, após algum tempo, você diz o que busca ali.

 A priori, ele parecia indiferente ao que você dizia, focando sua atenção na cachaça que colocava em um recipiente raso e bebia.

 Enquanto isso, sua mente já xingava José por ter te persuadido a vir. Estava prestes a se levantar e ir embora, quando aquele olhar que havia te desmembrado voltou, perfurando ainda mais fundo a ferida.

 — Você sofreu muito, não é, filho?

 E foi ali que cada pedaço de ti revelou sua identidade.

 — Você não tem medo de ser pai; você tem medo de si mesmo.

 Pronto, inundou: anos atrás, o barracão de madeira, a plantação de mandioca e o passado infeliz projetado no presente temeroso. Socos, cuspes, chicote, choro. Seu pai arrancando sua roupa, manchada pelo vermelho vivo que escoava à medida que o bico do boi rasgava sua carne.

 Raiva de você mesmo por não ter corrido mais, por não ser mais forte. Raiva dele por lançar o peso covarde de seu corpo contra o teu, e você nada poder fazer. Ainda mais raiva, porque, mesmo se debatendo, você não consegue sair debaixo dele.

 Uma raiva ainda maior quando as costas já estavam em carne viva e, mesmo assim, cada nova chicotada parecia arder um pouco mais. Paulatinamente, a dor tornava-se mais insuportável, forçando-te no estopim a seguir seus mandos.

 Ele te enforca. Arranca com suas mãos atrozes o ar que confere vida ao seu corpo e o faz com gosto. Você se debate e só vê sua mãe vir com uma garrafa de cerveja quebrada nas mãos, com as pontas pontiagudas babando o resto do líquido e ambicionando dar ao seu algoz o destino cruel que ele merece.

Ela introduz, com toda força de seu ser, o objeto nele, bem na sua frente, e seu corpo é consumido pela chama da paralisia e você desmaia. Quando acorda, está na cama de um hospital com uma assistente social ao seu lado e sua mãe presa.

 Você se levanta e sai. Não é obrigado a passar por isso. Não querer passar por isso. Não merece passar por isso.

 Você sai com uma raiva tão feroz caminhando por suas entranhas, que nem olha para José, contudo sabe que ele está vindo atrás de você. E, antes que consiga se afastar o suficiente daquele cômodo, você escuta a voz do Preto Velho dizer:

 — O medo é um homem encapuzado de invisível que rouba aquilo que temos de melhor, filho.

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

  “O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” Hirtis Lazarin   Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticuloso...