“O Sapo não lava o pé.
Não lava porque não quer”
Hirtis Lazarin
Dona Elvira nunca começa o dia sem uma
série de rituais meticulosos. Senta-se na cama, de olhos fechados e bem
concentrada, reza uma porção de ave-marias. “Quantas você reza?” “Um
monte”. É devota de Nossa Senhora de Fátima. A Santa fica num
pequeno altar forrado com seda, onde não pode faltar uma rosa branca
fresquinha.
Só deixa o quarto com a cama bem
arrumada. Casa desorganizada, desorganiza a vida.
E o marido está lá na cozinha
resmungando, há mais de uma hora, à espera do café com pão.
Para ela, gatos
pretos não dão azar; eles são o azar. Ela desvia quarteirões inteiros
para evitar cruzar com um.
Semana passada, fiquei preocupada
porque a encontrei chorando desconsoladamente. O motivo? Naquela manhã, acordou
assustada com a campainha da porta tocando desesperadamente. Saltou rápido da
cama e o primeiro pé que tocou o chão foi o esquerdo. Tinha certeza de que,
mais dia, menos dia, algo muito ruim aconteceria.
Já pesquisei bastante sobre
superstições, já conversei, já expliquei pra ela milhões de vezes. Desisti
porque Dona Elvira tem hoje setenta anos e a cabeça não vai mudar. Os filhos
contam que se cansaram de contestá-la e acabaram se acostumando com as
doidices da mãe.
Naquela terça-feira chuvosa, saiu de
casa pra visitar a netinha doente que morava do outro lado da cidade.
O trajeto até o ponto de ônibus exigia
que ela passasse por baixo de uma escada de manutenção que a prefeitura havia
instalado na calçada estreita.
Elvira parou… Examinou… Passar por
baixo da escada, jamais; era um presságio terrível, um convite aberto ao azar.
Olhou pra rua molhada, esburacada e
cheia de poças d’água. A única alternativa seria desviar para a sarjeta,
dar a volta ao obstáculo e pisar diretamente na água suja. Adeus à sapatilha
de “ir à missa”. Calculou que meia dúzia de passos largos a trariam de volta à
calçada.
Toda cuidadosa, mas receosa e de cara
feia, tampou o nariz e enfrentou a situação; deu dois passos no asfalto da rua
e, já no terceiro ou quarto, não sentiu o chão. A poça traiçoeira pegou-a de
surpresa. O pé direito atolou, o sapato ficou preso e a água chegou até metade
da canela. Um grito dolorido soou no silêncio da rua vazia. Eram quase cem
quilos de gente estatelada no chão.
E, pra completar, num movimento
espalhafatoso, saltou do buraco um sapo de olhos esbugalhados, jogando
água suja pra todos os lados. Graças a Deus que ela nem viu, já estava
desmaiada.
Dona Elvira está hoje com a perna
imobilizada e assim ficará por três meses. Impossibilitada de colocar os pés no
chão, resolveu ler pra preencher o tempo vazio. “Crendices e superstições” foi
o primeiro livro escolhido.
Que moral tenho eu, agora, pra dizer a
ela que superstição é crença sem fundamento lógico ou científico?
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