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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

 



“O Sapo não lava o pé.

Não lava porque não quer”

Hirtis Lazarin

 

Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticulosos. Senta-se na cama, de olhos fechados e bem concentrada, reza uma porção de ave-marias. “Quantas você reza?” “Um monte”.  É devota de Nossa Senhora de Fátima. A Santa fica num pequeno altar forrado com seda, onde não pode faltar uma rosa branca fresquinha.

 

Só deixa o quarto com a cama bem arrumada. Casa desorganizada, desorganiza a vida.

 

 E o marido está lá na cozinha resmungando, há mais de uma hora, à espera do café com pão. 

 

Para ela, gatos pretos não dão azar; eles são o azar. Ela desvia quarteirões inteiros para evitar cruzar com um.

 

Semana passada, fiquei preocupada porque a encontrei chorando desconsoladamente. O motivo? Naquela manhã, acordou assustada com a campainha da porta tocando desesperadamente. Saltou rápido da cama e o primeiro pé que tocou o chão foi o esquerdo. Tinha certeza de que, mais dia, menos dia, algo muito ruim aconteceria.

 

Já pesquisei bastante sobre superstições, já conversei, já expliquei pra ela milhões de vezes. Desisti porque Dona Elvira tem hoje setenta anos e a cabeça não vai mudar. Os filhos contam que se cansaram de contestá-la e acabaram se acostumando com as doidices da mãe.

 

Naquela terça-feira chuvosa, saiu de casa pra visitar a netinha doente que morava do outro lado da cidade.

 

O trajeto até o ponto de ônibus exigia que ela passasse por baixo de uma escada de manutenção que a prefeitura havia instalado na calçada estreita.

 

Elvira parou… Examinou… Passar por baixo da escada, jamais; era um presságio terrível, um convite aberto ao azar.

 

Olhou pra rua molhada, esburacada e cheia de poças d’água.  A única alternativa seria desviar para a sarjeta, dar a volta ao obstáculo e pisar diretamente na água suja. Adeus à sapatilha de “ir à missa”. Calculou que meia dúzia de passos largos a trariam de volta à calçada.

 

Toda cuidadosa, mas receosa e de cara feia, tampou o nariz e enfrentou a situação; deu dois passos no asfalto da rua e, já no terceiro ou quarto, não sentiu o chão. A poça traiçoeira pegou-a de surpresa. O pé direito atolou, o sapato ficou preso e a água chegou até metade da canela. Um grito dolorido soou no silêncio da rua vazia. Eram quase cem quilos de gente estatelada no chão.

 

E, pra completar, num movimento espalhafatoso, saltou do buraco um sapo de olhos esbugalhados, jogando água suja pra todos os lados. Graças a Deus que ela nem viu, já estava desmaiada.

 

Dona Elvira está hoje com a perna imobilizada e assim ficará por três meses. Impossibilitada de colocar os pés no chão, resolveu ler pra preencher o tempo vazio. “Crendices e superstições” foi o primeiro livro escolhido.

 

Que moral tenho eu, agora, pra dizer a ela que superstição é crença  sem fundamento lógico ou científico?

 

 

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