quinta-feira, 27 de abril de 2017

Enorme é a falta que você me faz - Hirtis Larazarin

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Enorme é a falta que você me faz
Hirtis Larazarin

            Meu coração era um bloco de gelo, envolto numa armadura medieval pra me proteger desse mundo que eu conhecia bem.   Foram anos e anos juntando pedacinhos metálicos.

          Até que, numa tarde qualquer, eu saia  do Mappin, atravessava apressadamente o viaduto do Chá pendurada de sacolas,  silencioso feito um gato pronto pra abocanhar sua presa, alguém aproximou-se de mim e apoderou-se de minhas compras.

          Eu me virei e já ia gritar quando vi um homem vestindo terno e gravata, com um sorriso aberto e espontâneo, como se já nos conhecêssemos.  Comunicativo e falante.

           Não resisti a sua voz tipo FM e a tanta simpatia.  Caminhamos juntos até o ponto de ônibus.

          Por momentos até me esqueci que estava atrasada pro trabalho, que minha conta bancária estava zerada, que eu fugia dos homens e por aí vai...

          Posso afirmar, hoje, que foi ali no viaduto que tudo começou entre nós.  Eu que me achava imune aos ataques masculinos.

           A  cada telefonema, a cada encontro, meu coração disparava mais e mais e tropeçava de tanta emoção.  Senti medo, não sabia onde isso ia parar.  Foi então que  me deixei levar e aprendi:  na alma a gente não manda, ela fica onde se encanta.

           E assim, leve e solta,  encaixei-me no seu cheiro.  Depois minha boca encaixou-se na sua boca e num piscar de olhos, nossos corpos se encaixaram. Não tinha mais jeito: nossas vidas estavam seladas.

          Sabemos todos que o tempo assopra e apaga o fogo da paixão, mas se o sentimento é verdadeiro vem o amor, a amizade e o respeito.  E é no dia-a-dia, quando a rotina se instala, que veem à tona qualidades e defeitos.  E com a gente não foi diferente.

          Mas foi nesse período que nasceu em mim admiração profunda por esse homem.  Aprendi valores que me eram despercebidos.

          O desapego aos bens materiais, ao supérfluo, numa sociedade consumista e egoísta tornava-o um homem livre.  Tinha controle sobre o que comprava e não se deixava possuir pelo que possuía.  Não colocava a felicidade nas coisas nem nas contas bancárias.

         Ao desapego juntava-se a simplicidade.  Aprendi que a simplicidade não é ignorante.  Ela valoriza o essencial e o essencial não é visível aos olhos.
          O essencial é a cama quentinha onde dormimos todas as noites, o cafezinho de manhã

coado na hora, a água limpa da pia, o orvalho que acaricia a flor, a cor colorida do amor.

          Era dono da alma mais generosa que já conheci.  Fazia coisas não por obrigação, mas pra deixar o outro um pouquinho mais feliz.  Não economizava adjetivos para um elogio sincero, seu abraço era apertado, seu bom dia era verdadeiro.  Eu me perguntava: como alguém  pode acordar sempre feliz, mesmo tendo tantos problemas pra resolver?

          Reconhecia o poder e o valor das mulheres. Fez de mim sua princesa.

          Foi embora cedo demais.  Às vezes, sinto sua presença e até seu cheiro.  Agradeço a Deus ter convivido com ele.   E só me resta, fazer-lhe uma oração;

        

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