quinta-feira, 8 de junho de 2017

Força da bondade - Ana Catarina Sant’Anna Maués

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Força da bondade
Ana Catarina Sant’Anna Maués

              Aprovado em concurso público Federal, dá para imaginar o humor de Beto. Contador recém-formado, obteve ótima classificação e preparava-se para o primeiro dia de trabalho, fazendo a barba em frente ao espelho. Ali sozinho, lembrava das noites em claro debruçado sobre livros, e nos milhares de exercícios praticados até a exaustão. Saiu de terno e gravata,  com peito empinado mostrando todo o orgulho.

              Chegou pontual, e após as apresentações de praxe, foi apontada sua mesa de trabalho, nela uma pilha de papéis. Ficou assustado, sem saber como começar. Um pouco atrapalhado pegava uma porção deles, olhava e largava, pegava outra, respirava e deixava ao lado. No segundo dia iniciou a leitura de um calhamaço qualquer, mas não deu saída. No terceiro, quarto, quinto e assim por diante, chegando à conclusão de que a teoria não tinha nada a ver com a prática. Esta conclusão foi estarrecedora.

           Conforme o tempo passava mais papéis iam sendo depositados na mesa, e seu desespero aumentava, pois não conseguia fazer nada, adiantar algo, progredir em dados, encaminhar; estava absolutamente paralisado. Começou a esconder os documentos dentro das gavetas, para que os colegas de sessão não percebessem o acúmulo. Nesta rotina de fingir trabalhar seguia Beto, até que outros setores começaram a cobrar informações, relatórios, despachos e ele dando desculpas esfarrapadas ia enrolando até que não deu mais, e resolveu sumir, não apareceu mais para o serviço.

             Os colegas ligavam para o celular, para o telefone residencial, e ele não atendia. Todos estavam preocupados com o sumiço, mas só seu Adamastor, um senhorzinho de cabeça bem branca, procurou o setor de recursos humanos, descobriu o endereço de Beto, e num final de semana tomou um ônibus e foi, pessoalmente saber o que tinha acontecido.

           Quem abriu a porta foi a mãe de Beto, que muito feliz recebeu o visitante, e convidou-o a ir até o quarto, dizendo que o filho estava em profunda depressão. Com muito custo seu Adamastor conseguiu fazê-lo falar. Beto contou tudo, falou sobre seu total fracasso no serviço.

            Seu Adamastor não tinha graduação alguma, ou qualquer curso importante. Era o mais humilde funcionário, porém com um conhecimento incrível de tudo, e colocou toda a sua experiência a disposição de Beto.

            Na segunda-feira Beto apareceu para trabalhar. Seu Adamastor cumpriu o prometido. Juntos foram retirando papéis importantes das gavetas e um a um, por grau de prioridade foram resolvendo os assuntos.


             Beto superou o trauma inicial, não sofreu constrangimento por parte dos colegas, e hoje é um contador muito respeitado.     

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