quinta-feira, 1 de junho de 2017

A saga de Luiza - Hirtis Lazarin


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A saga de Luiza
Hirtis Lazarin

Já faz mais de cinco anos que Luíza e Beto se casaram.  Foi um romance rápido.  Duas pessoas que se identificaram quanto aos planos e objetivos para uma vida compartilhada.

          Beto é homem de raciocínio rápido e pensamento lógico, chegando ao cargo de diretor de multinacional francesa.

          Luíza é cardiologista, mesmo envolvida na parafernália de aparelhos biomédicos, guarda ainda um "quezinho" de romantismo, sempre disposta a apimentar a relação.  Rotina jamais.

          Podemos afirmar que os dois dedicados e esforçados atingiram juntos parte da meta pré-estabelecida.  Fazem o que gostam de fazer e, financeiramente, desfrutam de situação privilegiada.

          Acabam de se mudar pra casa dos sonhos, num condomínio amplo e arborizado.  Ideal pra criação dos filhos.  À entrada e à saída de cada rua, há uma árvore frutífera, cujo  fruto dá nome à rua.  É onde a passarada faz a festa e as crianças se divertem.

          Chegou, então, o momento pra se pensar em filhos.  Beto  é apaixonado por crianças, se derrete todo pelos sobrinhos e pinta o sete com eles.

          Os meses passam... e nada de gravidez.  Luíza só tem trinta e quatro anos, jovem e saudável.  Repetiu os exames médicos em laboratórios diferentes e todos comprovam uma mulher em pleno vigor físico e fértil.   Duas inseminações artificiais e nada também.

           A esperança vai se esvaindo e as coisas naquele casarão vão se modificando.  Os diálogos se resumem a "sim" ou "não" por um bom tempo.

          Luíza sai cada vez mais cedo e volta do trabalho cada vez mais tarde. 

          Beto dividiu-se em dois homens completamente diferentes.  No escritório, vira e mexe, tem ataques de mau humor.  Grita com assessores, reprime a secretária por conta de uma vírgula mal colocada, tranca-se na sala e não atende telefone.

          Em casa, surpreende a esposa cada dia mais.  Ou chega altas horas da noite alcoolizado ou traz maços de flores.  Os vasos da casa nunca mais sentiram solidão.  Outras vezes, sem avisar, passa no consultório para um jantar à luz de velas e som de piano.

          Luíza pensa logo em traição, mas um detetive contratado prova que não.  Procura respostas por todos os cantos, mas elas não vêm.

          Há alguns dias Luíza não se sente bem. Começou com náuseas e falta de apetite.  Depois vômito e diarreia.  O diagnóstico é o de sempre, comum nos dias de hoje: virose.  Semanas passam, os sintomas vão se agravando e Luíza não sai mais da cama.   Exames e mais exames e os médicos não chegam a um resultado.  Ela perde peso e os olhos profundos e vazios vagam num rosto amarelo-sofrimento.

          Dona Maria, a governanta, sem querer, viu Beto colocando um pó no chá da esposa. Estranhou e, sem ser notada, acompanhou-o fazendo o mesmo todas as vezes em que servia-lhe algum alimento.

          Vasculhou os armários todos da cozinha até encontrar, bem escondidinho, um frasco contendo um pó acinzentado.  Separou uma porção bem pequena e levou ao laboratório para análise.  O resultado foi arrasador: chumbinho para matar ratos.  Beto estava assassinando Luíza aos pouquinhos.

          A serviçal substituiu o veneno por um pó neutro, semelhante na cor e na textura.  Ensaiou várias vezes para contar à patroa, mas na hora "H" faltavam as palavras.  Assim que percebeu que Luíza aparentava uma pequenina melhora, criou coragem.  Não só relatou os fatos, como mostrou as provas do laboratório.

          Que momento difícil para as duas!  Desespero e uma cachoeira de lágrimas.  Como acreditar que o homem da sua vida a matava devagarinho?  Por que não pedir a separação?  Por quê?  Muitos porquês...

         A fase da incredibilidade passou.  Veio a certeza da veracidade e, o mais difícil, a aceitação dos fatos.   O momento agora seria de fingimento.  Só fingir.... Fingir.... Até decidir o que fazer.

           Nasce ali uma "FERA FERIDA".

          Uma "FERA" com unhas e dentes afiadíssimos capazes de estraçalhar um homem.  "FERIDA", precisava se recuperar emocional e fisicamente.

          Cada dia um pouquinho melhor, até que conseguiu lidar com o "notebook".  Transferiu dinheiro da sua aplicação e todo dinheiro de uma conta conjunta para outra aberta fora do Brasil.  Era dinheiro que não acabava mais. Se quisesse, daria para viver de papo pro ar pro resto da vida.

     Naquela mesma noite, enquanto Beto, embriagado, dormia profundamente, Luíza, pé ante pé, lotou o porta-malas do carro com malas e mais malas de roupas, tirou-o da garagem, espalhou álcool ao redor da casa toda.  Um só fósforo riscado.  Labaredas, sem dó nem piedade, invadiram todos os cômodos simultaneamente.

         Ao amanhecer do dia, Luíza sobrevoava o Atlântico em direção às Ilhas Malvinas.

          Quando um ser humano é traído, enganado, no mais profundo de sua alma, é extremamente difícil até para a justiça condená-lo.


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