sexta-feira, 12 de maio de 2017

Uma pessoa do mal - Henrique Schnaider


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Uma pessoa do mal
Henrique Schnaider

Hildebrando nasceu como algumas crianças nordestinas em uma família abastada, filho de um Coronel, destes que, mandar matar era quase como um habito diário. O menino cresceu observando todas as maldades que o pai cometia, inclusive a forma como tratava seus empregados, verdadeiros escravos.

Certo dia Brando estava cavalgando, e mesmo sentindo a respiração apressada do animal, não estava satisfeito, e já demonstrando o que aprendera com o velho Coronel,  rolava as esporas de sua bota na barriga da égua que toda ligeirinha relinchava e não gostava daquela situação desagradável.

De repente Brando ouve barulho na mata e gritos desesperados. Freou o cavalo e cheio de curiosidade aproximou-se vagarosamente, procurando não fazer barulho para não chamar atenção. Sentiu um frio na barriga, pressentindo o que iria presenciar. O suor escorria pelo seu rosto e costas, tal a ansiedade de decifrar os gritos horrorizados que ouvia. De repente deu de cara com o capataz Tibúrcio que usava um motosserra para esquartejar vivo Antônio de Jesus vizinho da fazenda, que teria se recusado a vender o pequeno sitio onde tinha uma plantação de mandioca, para seu pai que pretendia aumentar a propriedade.  

Estranhamente, o rapaz não sentiu pena do pobre Antônio que estrebuchava dando os últimos suspiros antes da morte, pelo contrario, sentiu certo prazer sádico ao presenciar aquela cena pavorosa. O sangue, os gritos, a morte com a motosserra, tudo lhe dava prazer. Uma indecifrável alegria o dominou. Teve uma vontade incontrolável de algum dia cometer essa mesma barbaridade com suas próprias mãos. Brando olhava para Tibúrcio que sorria não demonstrando o menor arrependimento da barbárie que acabara de cometer,  aliás, possuía o olhar frio de um assassino sanguinário.

Hildebrando Paschoal tornou-se um adulto inescrupuloso como era de esperar. E, por desejo de seu pai, entrou na politica e não demorou muito tempo para que realizasse seu desejo íntimo e há tanto tempo acalentado.

A política de Cabrobó dos Montes era dominada por duas famílias, Oliveira e os Paschoal sendo que ao longo de tantos anos os assassinatos ocorriam entre as duas famílias.

Brando candidatou-se a Prefeito nas eleições daquele ano,  tendo como concorrente João Oliveira, o que demonstrava que agora as duas famílias mais ricas do lugar não disputariam apenas propriedades e dinheiro, mas também poder político.  

A disputa estava extremante acirrada,  cada vez mais inimizando Paschoal e Oliveira. Na cabeça de Brando começou a se repetira ideia alimentada desde garoto, pois matar alguém com a motosserra era ainda seu maior desejo. Começou a traçar um plano que julgava infalível,  tratava-se de uma tocaia para esquartejar seu concorrente João Oliveira. Naquela semana nenhum outro assunto o tocava, nada lhe atraía mais que planejar sua realização. Até que chegou o dia em que tudo poderia dar certo. Pegou o velho motosserra.  de seu pai, lubrificou-a enquanto matutava e sorria. Depois seguiu para o ponto de encontro,  e pôs-se aguardando escondido na estrada vazia, onde sabia que seu inimigo passaria.



João surgiu na curva empoeirada, estava sozinho, como sempre fazia. Tinha na cabeça as eleições que estavam por alguns dias. Tinha como certa sua vitória, pensava enquanto abria um sorriso plano. Vinha montado num trote lento completamente distraído sem ver nada a sua volta. Nem percebeu o inimigo por perto. Brando  aproveitando-se da absorção de Oliveira, rendeu-o  obrigando-o a ir para a mata fechada, lugar que bem conhecia desde quando assistiu o serviço de Tibúrcio, e lá sob o silêncio das copas, praticou o bárbaro crime matando seu concorrente com a motosserra, tendo assim realizado o maléfico sonho de muitos anos.

Sem ninguém para opor a ele, Hildebrando Paschoal ganhou a eleição daquele ano,  e exerceu sua gestão a ferro e fogo eliminando todos os inimigos que se interpunham no caminho.

Sua carreira foi meteórica e logo foi eleito Deputado Federal, cargo em que se deu muito bem, já que o ambiente no Congresso Nacional é propício para todo tipo de politico.

Chegou facilmente a Presidência da Câmara e cometeu todos os tipos de barbaridades que se possa imaginar para chegar onde queria:  intimidou parlamentares e empresários, corrompeu, chantageou, e assassinou.

Mas Brando não contava com inimigos no Congresso, tão ou mais criminosos que ele. E, finalmente, fez-se a Justiça ainda que por vias tortas, Hildebrando Paschoal foi desmascarado, cassado, preso julgado e condenado.


Atualmente depois de longos quinze anos de prisão, conseguiu direito a prisão domiciliar e passa seus últimos dias de vida em casa sofrendo de um câncer incurável.       

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