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quinta-feira, 4 de maio de 2017

QUEBRA DA INOCÊNCIA! AMORA


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QUEBRA DA INOCÊNCIA!
AMORA 

REMEXE-SE NA CAMA, VIRA DUM LADO, DO OUTRO, NADA, NÃO CONSEGUE DORMIR.

AS EMOÇÕES DO SEU PRIMEIRO BAILE FORAM MUITAS. PERDEU O SONO.

SEU LINDO VESTIDO DE MUSSELINE AZUL CLARO, ESVOAÇANTE COMO  BORBOLETA, GIRA AO COMPASSO DO FOX ROMÂNTICO. RAY CONIFF E SUA ORQUESTRA, VISITANDO O CLUBE PELA PRIMEIRA VEZ.

RECEBE UM APELIDO: “A NUVEM”, COMPARECENDO AO BAILE HOJE. MAS NÃO FOI A MÚSICA NEM O VESTIDO QUE TIROU  SEU SONO.

SENTE-SE APAIXONADA PELO PAR CONSTANTE. UM SIMPÁTICO RAPAZ, MEIO BAIXO E GORDO, MAIS FEIO QUE BONITO, DE UM CHARME TODO ESPECIAL. CATIVANTE, ROMÂNTICO, OLHAR APAIXONADO E ELEGANTE, VOZ MACIA, DE LEVE SOTAQUE ITALIANO. PERSONALIDADE ATRAENTE ESCONDIDA NUMA FIGURA SIMPLES. SENTE-SE REALMENTE NAS NUVENS.

QUANDO O ENCONTRARIA NOVAMENTE, TALVEZ NUM PRÓXIMO BAILE. QUEM SABE A PROCURE ANTES.

LEVANTA-SE, VAI AO JARDIM. SENTA-SE NA ESCADINHA DO TERRAÇO E ESPERA AMANHECER. SEU PRIMEIRO BAILE, SEU PRIMEIRO AMOR. ATRAÍDA PELO ÚNICO PROFESSOR DE INGLÊS DA CIDADE. UM CIÚME DOENTIO APARECE DE REPENTE. MUITAS ALUNAS DEVEM SE INTERESSAR POR ELE. CONVERSA BEM, RI MUITO, APRESENTA  CERTO TRAQUEJO QUE OS OUTROS  RAPAZES DA CIDADE NÃO TÊM.

DIA CLARO.  AINDA SEM SONO, NÃO SE AFASTA DO TELEFONE. QUANDO TOCA, SENTE  CERTO RECEIO. SE FOR ELE, O QUE FALAR. DIZER QUE GOSTOU MUITO DO BAILE, DA SUA PRESENÇA, DA VOZ QUENTE QUE ADORARIA TORNAR A OUVIR. COMO EXPRESSAR CORRETAMENTE OS SENTIMENTOS QUE SENTE.

ATENDE, TRÊMULA,  O TELEFONE. É UMA AMIGA QUE A VIU NO BAILE, PERGUNTANDO LOGO SE GOSTOU DA COMPANHIA. “SIM, MUITO”  RESPONDE, COLOCANDO TAMBÉM NA VOZ TODO O ENTUSIASMO CALOROSO DA VÉSPERA.“ QUE PENA” RESPONDE A OUTRA. ELE É MUITO CONHECIDO NA CIDADE PELO CASO COM UMA MULHER CASADA, A NORTE AMERICANA, DONA DA ESCOLA. DIVERTE-SE, DANÇANDO, COM TODA MOÇA BONITA QUE ENCONTRA, PARA DISFARÇAR.


EMUDECIDA, DESLIGA O TELEFONE, CORAÇÃO DESPEDAÇADO POR DENTRO. PERCEBE A FLECHA. A PRIMEIRA DECEPÇÃO, A PRIMEIRA DOR ANTES MESMO DE UM RELACIONAMENTO. VERDADE OU NÃO, EM CIDADE PEQUENA, TUDO SE FALA, TUDO SE SABE. UM SENTIMENTO QUE TERMINA ANTES MESMO DE INICIAR. JÁ NÃO CONSEGUE LEMBRAR-SE DE SEU ROSTO COM O MESMO ENTUSIASMO DE ONTEM.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Coelhinho Digital - Rejane Martins


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Coelhinho Digital
Rejane Martins

Maria Rita sempre preservou as ilusões doadas pelas lendas infantis, que promovem a felicidade da criançada.

Na mais tenra idade de sua filha Beatriz, ela se incumbia juntamente com a menina de no sábado de aleluia à noite, preparar um ninho para o coelho da páscoa.

Fazia questão de alertar que era imprescindível abastecer com uma cenoura e água, o suficiente para que o coelho, então um animal muito cansado de tanto trabalhar, pudesse restabelecer suas forças e assim cumprir sua missão e atender a todas as crianças naquela noite.

Assim que Bia pegava no sono, Maria Rita mordiscava a cenoura, e deixava um pedaço cheio de marcas de dentes jogadas no ninho, a água era despejada na pia e o pote colocado displicentemente no local. Mas no lugar mais importante do ninho o Ovo de Chocolate imperava, esperando pelas mãozinhas que logo acabariam com toda aquela imponência.

Bia adorava todo aquele ritual, acreditava piamente na sua existência assim como a do Papai Noel, era gratificante para sua mãe ver os olhinhos brilhando quando indagava se ela tinha visto o coelhinho entrar em sua casa.

Quando Bia já estava alfabetizada, a mãe decidiu que chegara o momento da elaboração uma gincana.  Espalhou pela casa várias pistas, cada uma encontrada  indicava o local da próxima, até o “gran finale” que era uma cesta com o ovo de chocolate e uma carta do Coelhinho da Páscoa endereçada especialmente para a garota.

A manhã daquele domingo foi especial para todos na casa. Empenhados em decifrar as pistas,  todos corriam para o local da próxima e se divertiam com a brincadeira.

Ao final, Beatriz abriu a carta leu o texto, que sem sombra de dúvida fora escrito pelo representante da Páscoa, pois estava assinada com sua patinha direita.

Terminada a leitura, a menina meio desapontada, virou-se para seus pais e comentou:


— Como poderei agradecer, ele esqueceu de anotar o seu e-mail na carta.    

Enorme é a falta que você me faz - Hirtis Larazarin

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Enorme é a falta que você me faz
Hirtis Larazarin

            Meu coração era um bloco de gelo, envolto numa armadura medieval pra me proteger desse mundo que eu conhecia bem.   Foram anos e anos juntando pedacinhos metálicos.

          Até que, numa tarde qualquer, eu saia  do Mappin, atravessava apressadamente o viaduto do Chá pendurada de sacolas,  silencioso feito um gato pronto pra abocanhar sua presa, alguém aproximou-se de mim e apoderou-se de minhas compras.

          Eu me virei e já ia gritar quando vi um homem vestindo terno e gravata, com um sorriso aberto e espontâneo, como se já nos conhecêssemos.  Comunicativo e falante.

           Não resisti a sua voz tipo FM e a tanta simpatia.  Caminhamos juntos até o ponto de ônibus.

          Por momentos até me esqueci que estava atrasada pro trabalho, que minha conta bancária estava zerada, que eu fugia dos homens e por aí vai...

          Posso afirmar, hoje, que foi ali no viaduto que tudo começou entre nós.  Eu que me achava imune aos ataques masculinos.

           A  cada telefonema, a cada encontro, meu coração disparava mais e mais e tropeçava de tanta emoção.  Senti medo, não sabia onde isso ia parar.  Foi então que  me deixei levar e aprendi:  na alma a gente não manda, ela fica onde se encanta.

           E assim, leve e solta,  encaixei-me no seu cheiro.  Depois minha boca encaixou-se na sua boca e num piscar de olhos, nossos corpos se encaixaram. Não tinha mais jeito: nossas vidas estavam seladas.

          Sabemos todos que o tempo assopra e apaga o fogo da paixão, mas se o sentimento é verdadeiro vem o amor, a amizade e o respeito.  E é no dia-a-dia, quando a rotina se instala, que veem à tona qualidades e defeitos.  E com a gente não foi diferente.

          Mas foi nesse período que nasceu em mim admiração profunda por esse homem.  Aprendi valores que me eram despercebidos.

          O desapego aos bens materiais, ao supérfluo, numa sociedade consumista e egoísta tornava-o um homem livre.  Tinha controle sobre o que comprava e não se deixava possuir pelo que possuía.  Não colocava a felicidade nas coisas nem nas contas bancárias.

         Ao desapego juntava-se a simplicidade.  Aprendi que a simplicidade não é ignorante.  Ela valoriza o essencial e o essencial não é visível aos olhos.
          O essencial é a cama quentinha onde dormimos todas as noites, o cafezinho de manhã

coado na hora, a água limpa da pia, o orvalho que acaricia a flor, a cor colorida do amor.

          Era dono da alma mais generosa que já conheci.  Fazia coisas não por obrigação, mas pra deixar o outro um pouquinho mais feliz.  Não economizava adjetivos para um elogio sincero, seu abraço era apertado, seu bom dia era verdadeiro.  Eu me perguntava: como alguém  pode acordar sempre feliz, mesmo tendo tantos problemas pra resolver?

          Reconhecia o poder e o valor das mulheres. Fez de mim sua princesa.

          Foi embora cedo demais.  Às vezes, sinto sua presença e até seu cheiro.  Agradeço a Deus ter convivido com ele.   E só me resta, fazer-lhe uma oração;

        

Justiça ou Misericórdia - Ana Catarina SantAnna Maues

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Justiça ou Misericórdia
Ana Catarina SantAnna Maues

      Pessoas entram e saem de nosso convívio a todo tempo, acontecendo isto de forma natural ou traumática. Para algumas, damos graças e aleluia, quando vislumbramos a possibilidade de perder o contato em definitivo com elas, já outras,  aquelas que funcionam como bálsamo em nossas vidas, fazemos questão de tê-las por perto, basta a proximidade e já tem alento o coração, mas isto não é garantia de que nunca as perderemos.

      Presenciei um episódio curioso, com relação e este assunto, envolvendo três personagens, Camila, Sara e Bernadeth, adolescentes com personalidades bem distintas, colegas da mesma sala de aula.

Tudo ocorreu numa tarde quente em que iríamos prestar o exame final do colégio.  Lembro que Camila chegou esbaforida, com a blusa colada no corpo de tanto suor. Aluna nada aplicada, precisava de nota azul ou repetiria o ano. Chegou ansiosa, seus olhos caçavam Sara que bem quietinha no seu canto, aguardava o momento do professor chegar com as provas. Chegou ao pé do ouvido da colega, cochichou qualquer coisa e sentou-se ao lado. Bernadeth observava de longe e veio imediatamente ter com Sara, indagar  sobre o segredinho, que  sem maldar revelou. Bernadeth na mesma hora foi até a frente dos demais colegas  e iniciou um discurso:

— Amigos, todos aqui estão prestes a realizar o exame final. Estudamos  muito, pois temos noção de quanto o conhecimento é importante. Queremos ser pessoas de bem, melhores para nós mesmos, para nossas famílias e para o mundo. Os que não forem cursar universidade,  logo logo enfrentarão o mercado de trabalho. Temos que ser capazes por nós mesmos. Estou falando isto porque quero dividir com vocês algo que está para acontecer novamente aqui na sala. Camila quer que Sara responda as questões da prova por ela. Isto aconteceu  o ano todo, vem despreparada e sempre se encosta em alguém. Coloco aqui pra turma decidir, vamos novamente fazer vista grossa?  E voltando-se pra Camila continua. Faço isto pro seu bem colega, quero que seja responsável pelos seus atos, quero que aprenda de uma vez por todas a não fazer pouco caso de coisas sérias. Temos a mesma idade, se fomos capazes de aprender a matéria por que você não foi? Seu comportamento parasita incomoda

    Neste instante o burburinho foi geral com todos  entreolhando-se e balbuciando uns com os outros. Camila olhava fuzilando Sara e Bernadeth. Sara por sua vez, com os olhos esbugalhados, fitava a eloquente oradora. A confusão formada, um alvoroço colossal e entra na sala o professor. Camila levanta da cadeira e indo encontrar com ele participa que não fará a prova naquele dia. Sara por sua vez levanta também, e solidária com a colega, informa a mesma decisão.


      Não sei dizer se Camila entendeu o valoroso conselho que recebera, por isso não fez a prova no dia,  ou se  ficou  foi com muita raiva de tudo aquilo. Também não sei informar se  colou de Sara na prova substitutiva ou se manteve a amizade com ela e Bernadeth. Fui um mero espectador do inusitado fato. Vez por outra lembro e reflito, terá sido  Camila o bandido da estória,  qual a conduta mais  correta, Sara com sua misericórdia ou Bernadeth em sua justiça. Com o tempo formei opinião, e não exporei aqui, evitando influenciar o leitor, prefiro que cada um avalie e faça seu julgamento.

SEGREDINHOS INOCENTES - Do Carmo


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SEGREDINHOS INOCENTES
Do Carmo


Na época em que eu estava na adolescência, era muito comum a garota ter um “Diário Secreto”, onde confessava seus flertes, seus inocentes amores e sonhos românticos. Comigo não foi diferente.

Sempre gostei de escrever e ter essa oportunidade de relatar meus devaneios juvenis, foi uma maravilha.

Todas as noites, ao recolher-me em meu quarto,  pegava meu Diário  que era como um caderno, porém com a capa da frente almofadada e colorida com a inscrição em letras douradas – MEU DIÁRIO -.

Eu o mantinha em máxima segurança, bem escondido no meio de minhas roupas de dormir, ninguém mexia nessa gaveta, pois mamãe nos ensinou, minha irmã e eu, desde pequenas a cuidar de nossas coisas. Ela sempre supervisionava, mas nunca vasculhava, então, meus segredos estavam a salvo.

Porem certa vez, uma amiga de minha irmã, veio passar férias em casa, que  muito atrevida, bisbilhotou em meu guarda roupas, sem consulta a amiga.

Ah! Yeow! Uau! Que surpresa ao abrir minha gaveta para pegar meu querido Diário! Meus pijamas estavam todos revirados e meu precioso amigo bem a vista e aberto, com algumas folhas amassadas.

Atônita, comecei a chorar. Minha irmã, também com olhos molhados de remorso, veio ao meu quarto e abraçando-me ternamente pediu desculpas pelo atrevimento de sua amiga. Disse-me muito comovida que a proibira de comentar sobre o que havia lido, com a promessa de revelar aos seus pais o verdadeiro motivo do rompimento da amizade tão antiga.

Envergonhada e sinceramente arrependida, desculpou-se e prometeu que sequer pensaria no que havia lido. Disse também que essa sua atitude abusiva, serviu para que ela revisse seu comportamento. Não romper a amizade.

Aliviada com o desfecho desse episódio, comentei vagamente, com minha irmã e minha mãe, o que eu mantinha em segredo.

Pelos olhares que elas trocaram, senti que o fato de relatar meus dias, para nunca esquecer o quanto foi feliz minha juventude, colocou um ponto final amigável no assunto.


Felizmente, tudo o que eu senti e vivi na adolescência, somente a mim continua pertencendo.

MINHA AFLIÇÃO - Do Carmo


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MINHA AFLIÇÃO
Do Carmo



Finalmente encontrei o que tanto procurava: meu diário de adolescente.

Jamais poderia imaginar que estivesse em lugar tão óbvio, tão fácil de ser encontrado, tanto que hoje, casualmente o encontrei. Para minha felicidade  fui eu que encontrei, poderia ser qualquer pessoa daqui de casa. Ufa! Que sufoco!

Pensando bem, até que na estante de livros do escritório de meu marido, não seria um esconderijo seguro, mesmo nunca esses livros são consultados.

Agora, depois do mar revolto de pensamentos, que meu coração passa,  por tê-lo encontrado tão à vista, de inquieto torna-se nostálgico.

Folhei-o e a garota de dezesseis anos, toma conta desta senhora, revive momentos de floridas alegrias, românticos encontros, amorosos passeios, bem como, festas e bailes, ardentemente esperados e sonhados mesmo com as angustiantes expectativas de ver meus sonhos desmoronados, pela ausência do meu flerte.

Toc! toc! Alguém está chegando, vou colocá-lo onde estava e fingir que procuro um livro qualquer.


Arre! Deu tempo! Mas que tola sou. Não notei que os passos que ouvi vinham das patinhas do Dunga, o cãozinho do meu neto Rodrigo.

Minha Culpa, Minha Culpa, Minha Máxima Culpa - Rejane Martins


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Minha Culpa, Minha Culpa, Minha Máxima Culpa
Rejane Martins

O final do ano aproximava-se e Bel tinha mais uma vez a incumbência de avaliar e separar os objetos da casa que não tinham mais utilidade. Começava sempre pelo sótão, pois se o deixasse por último tinha certeza de que esse trabalho se postergaria para o ano seguinte.

Naquela segunda-feira, acordou cedo e cheia de disposição, nem arrumou a cozinha do café da manhã, subiu com sacos de lixo grandes, para iniciar a triagem, verificar as condições dos das peças e decidir quais se converteriam em donativos. Gostava da sensação de doar objetos impregnados de significados para outra família.

Começou pelo que estava no meio do caminho, assim executaria dois trabalhos concomitantemente, a triagem e a abertura de picadas naquele espaço abafado e sem muita iluminação.

Percebeu que no meio dos tapetes, que outrora enfeitavam a sala, havia algo mal escondido. Para recuperá-lo, pisou sobre caixas depositadas no chão e se segurou em apoios um pouco mais elevado. Quando conseguiu identificar a peça, seu coração congelou. Aquele diário que ela não destruiu no passado, estava alí assombrando-a novamente.      
Quem será que o encontrou? Será que o leu? Como saber se alguém tem o conhecimento daqueles relatos? E se esta pessoa não se identificar, Bel terá esta espada apontada para ela até quando?

Depois de todos esses anos Bel finalmente seria condenada pelos seus atos? Como explicar agora, que foi o resultado de uma atitude impensada daquela adolescente irresponsável? Foi um momento de fraqueza que na hora pareceu até uma boa ideia.

Resoluta, Bel desceu as escadas correndo e se salvando de vários tropeços. Chegou ao quintal tirou todas as tralhas da churrasqueira, despejou um litro inteiro de álcool sobre o livro e ateou fogo. Enquanto se certificava da destruição da prova que a incriminava, rezava para que não fosse tarde demais.  

À noite, durante o jantar Ricardo seu marido, comentou que no final de semana subira ao sótão para pegar uma ferramenta e encontrou o diário da Márcia, uma antiga amiga do casal. Ele deixou à vista para que Bel o devolvesse a sua real proprietária, apesar de não terem mais contato há tantos anos.


Bel confessou que já havia destruído o objeto. Sentiu muita envergonha de si mesma, não por ter destruído, mas por tê-lo roubado no passado, necessitava conhecer os pormenores do então namorado de Márcia e assim conquistá-lo. Afinal pelo Ricardo, valia a pena cometer o crime.

APEGO, NÃO ! CARINHO, SIM ! Do Carmo


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APEGO, NÃO !
CARINHO, SIM !
Do Carmo

 É voz corrente ser próprio dos idosos, o conceito de apego a objetos ou lugares.

Sob meu ponto de vista, julgo muito radical essa afirmação, uma vez que eu, orgulhosamente, sinto-me desapegada  de coisas materiais, mesmo contando com os setenta e oito anos vividos, muito felizes.

Eu tenho, aqui em minha casa, três objetos que guardo com muito carinho, pois eles me foram dados um pelo meu pai e outro por minha mãe.

 Em destaque, logo na entrada social do meu apartamento, este pendurado um relógio cuco, entalhado em madeira com cachos de uvas o qual foi presente de meu pai para minha mãe, quando completaram quinze anos de casados, em mil novecentos e trinta e cinco. Eu ainda não havia nascido. Sempre ele dizia que seria meu um dia.

 Na parede oposta ao relógio, na entrada da sala, tem uma mesinha, com um camelo sobre ela, carregando uma tendinha nas costas, entalhados igualmente em madeira de lei. Mamãe ganhou como lembrança de umas amigas, nossas vizinhas, com as quais eu muito me diverti quando pequena, pois as tardes eu ia a casa delas e entre biscoitos, bolos e refresco, eu ouvia histórias, algumas lidas outras inventadas. A mais velha sempre dizia que essa mesinha com o camelo, seriam meus.


Diante disso, tenho certeza que o amor e carinho que sinto por essas três peças,  não são apegos compulsivos de idoso mas sim, uma lembrança muito querida.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Um presente de Deus - Ana Catarina SantAnna Maues

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Um presente de Deus
Ana Catarina SantAnna Maues

 No dia do casamento de Joaquim, Helena sua segunda mãe, relembra emocionada o inicio de tudo.  Escutava seu choro todas as tardes. Isto incomodava-me profundamente mas não sabia como aproximar-me. Sabia que haviam chegado a pouco no andar, éramos vizinhos de porta. Até que um dia não resisti e apertei a campainha deles. Demorou algum tempo para que aqueles grandes olhos verdes viessem espreitar na porta que abriu bem pouquinho. Era um menino de uns quatro anos de idade com grande cabeleira despenteada. Sorri e perguntei por sua mãe, ele respondeu que não estava. Conversando mais, descobri que chorava porque ficava sozinho quando a mãe saia para trabalhar só retornando tarde da noite. Fiquei parada sem pedir pra entrar até que ele resolveu mostrar seus brinquedos, depois a mochila, os livros escolares e  por último a tv ligada no canal de desenhos. Não consegui voltar ao meu apartamento e deixá-lo, certamente iria recomeçar a chorar, tínhamos nos dado bem.

   Por volta de onze da noite sua mãe chegou, tomou um susto comigo ali em sua sala e com a criança já adormecida. Fui logo avisando que era a vizinha do trinta e um e que o menino estava bem. Ela demonstrava tensão, mas com o ritmo da conversa acalmou-se e desmoronou, chorou de soluçar. Contou que era mãe solteira, que trabalhava numa loja no shopping próximo e que não tinha ninguém por ela. Comoveu-me profundamente tudo o que ouvi. Eu também não tinha ninguém por mim, e sem pensar duas vezes ofereci-me pra ficar as tardes com Joaquim. Essa proposta pegou-a de surpresa, porém cheia de alegria segurou-a como tábua de salvação. Foi assim que Joaquim entrou em minha vida. Hoje ele é médico, cobre-me de mimos e cuidados. Sua mãe não viu a formatura, faleceu jovem ainda.

    Um dia eu fui para ele um presente dos céus em sua vida, mas hoje ele é a benção de Deus na minha.


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O Encantamento das Águas
Rejane Martins

Não importa se conhecemos as explicações científicas ou até mesmo a incompreensão que permeia a Sandy Island, o Triângulo das Bermudas, a Atlântida, ou monstros marítimos. A verdade é que esta grande concentração de água, mexe com a imaginação e credulidade dos seres humanos. Parece até que se utiliza do canto de suas sereias para fascinar e hipnotizar, mesmo que ora se apresente cruel, ora plácida.

Os mais antigos relatos nunca negaram o poder deste líquido. As passagens de Moisés e Noé na bíblia relatam como a fúria das águas protegeu os inocentes e castigou os infiéis.

Os mares sempre abrigaram mistérios e desventuras. Na Odisseia escrita em 1.300 a.C., Homero descreve os 17 anos de desventuras vividas por Ulisses pelos mares, à mercê de toda a sorte.

E os vikings que por desbravar de peito aberto os oceanos, foram considerados pela mitologia nórdica os verdadeiros representantes da virilidade masculina.

Já na Idade Média, a supremacia marítima de países conferia-lhes poder e dominação, tamanho era o seu prestigio. As histórias advindas da corte invariavelmente exaltavam os feitos marítimos e seus heroicos protagonistas, agora endeusados pelos pobres mortais.

E quantos romances envoltos em mistérios e magnetismo iniciou-se sobre as águas. Quem não se comoveu com a fortuna de Jack e Rose passageiros do Titanic, o oceano interpretou o principal papel da trama guardando em suas profundezas o amor verdadeiro do casal até ser coroado com o diamante, que sem pudor algum havia roubado a cor mais pura daquelas águas.


Se a Sandy Island existe ou não, não tem a menor importância para a crença popular. Os oceanos continuam exercendo o fetiche, e permeando a imaginação das pessoas, o seu poder e mistério são tão implacáveis, que mesmo sem querer exige o respeito e admiração, ao mesmo tempo que promove o devaneio coletivo.

Recordação indesejável - Ana Catarina SantAnna Maues


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Recordação indesejável
Ana Catarina SantAnna Maues

  Fazia um bom tempo que Isis planejava descer ao porão e fazer uma faxina, pois lá estavam seus livros preferidos. Neste sábado  acordou animada para tal tarefa e descendo as escadas logo que os viu brincou:

— Pronto, queridos cheguei! Entre teias de aranha esperavam com paciência.

  Com carinho ela ia retirando um por um e como que acariciando-os afastava o pó e se derretia de alegria quando as cores de suas capas tornavam a reviver, os dourados mais dourados e assim por diante. Quando aconteceu de passando os olhos para retirar mais um, avistou um caderno  entre eles, o que estranhou muito. Pensou de imediato: “Será que é ele? Estava certa que o  havia destruído!”.   Seu coração veio na boca. Ao tomá-lo da estante confirmou, era sim o seu velho diário, aquele de sua juventude. Ela sabia muito bem o que estava alí, seus maiores segredos,  momentos mais  indignos, feitos que deveriam permanecer longe muito longe da Isis de agora.
 
As máscaras

     Nem em seu pior pesadelo Isis poderia supor que um dia ficaria frente a frente com seu passado sórdido. Encontrar aquele caderno que  serviu-lhe de diário causou grande constrangimento e além, quem teria encontrado e colocado alí  por certo o teria lido. Apenas o pensamento de tal possibilidade,  causava-lhe ânsia de vômito.  Tanto tempo construindo uma nova face um novo costume e agora isto, sentia-se como uma virgem deflorada. Alguém sabia de tudo e deixou propositalmente o caderno entre os pertences que ela considerava  como seu maior tesouro, os livros. Muito atormentada apressou-se em queimar uma por uma daquelas páginas, como se o ato pudesse apagar da história aquele tempo.

   Os dias corriam e ela os vivia de forma penosa. Olhava para o marido e filhos com a impressão de ter perdido a máscara. Sentia-se ameaçada, amedrontada. Avaliava toda e qualquer mudança de humor dos parentes como se tivesse chegado o momento das cartas na mesa,  associava ao que supunha ter sido desmascarada.  Todos estranhavam a aspereza de seu comportamento, e reclamavam cobrando a leveza e doçura de antes.

   Os meses passaram e com eles aquela  sensação terrível de ser punida a qualquer momento. Isis pouco a pouco foi aliviando a tensão e não se sentia mais como  se uma adaga fosse ser fincada em seu peito.


   Os filhos cresceram, teve netos e bisnetos, envelheceu, ficou viúva e nunca soube realmente quem colocara o diário ali.  Desconfiava mas não podia afirmar, pois a pessoa em questão nunca abordou o assunto. Talvez tivesse apenas colocado naquele lugar, como um objeto de valor entre os que sabia ter ela,  carinho especial, os livros, e não tivesse lido. Ela morreu e seus mistérios também.

Um objeto marcante - Ana Catarina SantAnna Maues

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Um objeto marcante
Ana Catarina SantAnna Maues


   Antes d'eu nascer ele já existia. Embalou meus sonhos, pois eu adormecia assim que uma nota e outra eram ouvidas. Razão de esperança durante muito tempo na vida da família. Com carinho as mãos o acariciavam e ele retribuía com os mais belos sons, pura emoção a cada chorinho, samba ou bossa nova. Acompanhou-me em muitas situações ora felizes ora nem tanto. Teve momentos de glória quando em apresentações no teatro era ovacionado enquanto as cortinas fechavam-se. O tempo passou, mas não para ele, conservou o bom estado, cor bem viva e brilho como novo. Hoje se encontra silencioso, de banda. Com as cordas sem afinação, espera por alguém que o valorize, mas triste não vive, está impregnado de boas recordações. Esta é a história do violão de meu pai.

A vizinha misteriosa - Christianne Vieira


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A vizinha misteriosa
Christianne Vieira


Mariluce era uma mulher linda sempre estava bem vestida. Era a sensação do seu quarteirão. Todas as vizinhas, a admiravam, a invejavam e gostariam de ser como ela.

O que ninguém sabia,era a razão de tanto glamour. Atrás da  máscara de altivez e elegância, existiam muitos mistérios.

Ela  vinha desfilando pela rua, parecia flutuar. Usava óculos escuros, e o queixo empinado.

D.Eugenia sua vizinha, atenta ao vê-la passar, correu logo para o parapeito da janela. Perguntou se ela sabia que Lucky, o cachorrinho da Marli,  que desaparecera.

Mariluce correu rapidinho e fechou o portão para não ter que responder  a vizinha. Elas moravam em uma rua bem tranquila, de um bairro calmo, todos se conheciam e cuidavam da vida alheia.

Artur, neto de Dona Eugenia, estava vindo pela rua e presenciou o acontecido. Para ele nada tinha importância, mas diante de tanta arrogância perguntou para a  avó sobre ela.

Sua avó sabia muito pouco. Que ela se mudara há poucos meses, vivia sozinha, saia todos os dias bem cedo, e retornava no meio da tarde. Suas janelas permaneciam sempre fechadas, e ela mal cumprimentava seus vizinhos.

Realmente, ela sabia muito pouco...

Artur, nada satisfeito, perguntou qual o sobrenome?

Montessanto. Pronto, já poderia buscar informações. Após alguns cliques já havia encontrado algumas notícias. Talvez, até a razão  dela ser tão metida.

Na sua pesquisa descobriu que Mariluce havia trabalhado como cuidadora de um rico empresário, e ele havia morrido envenenado. Sua fortuna havia desaparecido, e ela era a principal suspeita do crime, que estava sendo investigado. Segundo a reportagem, estavam a sua procura.

Ao saber da novidade Dona Eugenia não  se surpreendeu, imaginara que aquela vizinha escondia algum mistério. Se ela fosse a culpada, poderia estar correndo perigo ao viver ao lado de uma assassina.

A partir desse dia ela só pensava no crime. Imaginava um velhinho indefeso contorcendo de dor ao morrer.

Decidiu que ficaria de olho nela. Para sua surpresa no dia seguinte, ela viu um carro estacionando e desceram três homens de terno preto. Minutos depois, eles saíram da casa da Mariluce, e ela os acompanhava. Sairam apressados, entraram no carro, e partiram.

Vários dias passaram e nada de Mariluce, nem sinal dela. Depois de dez dias, uma senhora, abriu a sua porta e logo em seguida um caminhão de mudança estacionou. Empacotaram todos seus pertences, e em algumas horas a casa estava desabitada.

Dona Eugenia queria saber o que acontecera? Passado um mês, ela estava assistindo a televisão, e para a sua surpresa Mariluce apareceu, estava presa. Haviam encontrado suas contas, em bancos estrangeiros, e já tinham provas  de que ela tinha praticado o crime.


Mais tarde descobriram que Artur a teria denunciado temendo pela segurança de sua avó.

Meu pequeno amiguinho - Ana Catarina SantAnna Maues

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Meu pequeno amiguinho
Ana Catarina SantAnna Maues


     Vez por outra recebo a visita de Eduardo carinhosamente apelidado por mim de Dudu. Ele mora no andar de cima e sua mãe já explicou que se ele escuta  barulho de porta batendo no meu apartamento quer logo marcar presença e abelhudar por aqui, por isso tenho sempre a mão guloseimas para agradá-lo. Mas já notei que o que ele mais gosta é quando o coloco no colo e, afastando de sua testa o cabelinho suado, sento na cadeira de embalo, próximo a varanda e conto-lhe uma rápida história. Pode ser de herói, fada ou bruxa, de passarinho ou coelhinho, conhecida ou inventada, o certo é que quando resolve ir embora vai com os olhos faiscando de contente, e eu emocionada fecho a porta agradecida por tão preciosa amizade.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...