O Som do Vazio
Hirtis Lazarin
“Quando o
sino da igreja bateu, como bate às 18 horas, todos os dias, desde que nasci,
notei que a sonoridade estava mais frágil…”
- “O bronze da igrejinha derramava sobre a vila a mesma nota, exausta
de tanto repetir-se.”
As badaladas do sino da igrejinha de Santo Antônio,
sempre metódicas e idênticas, expandiam-se pelas ruas, pela praça e entravam em
todas as casas. Hoje, porém, ouvi um chiado metálico ao final, como se algo
estivesse raspando no bronze. Ou pior, como se o sino estivesse tentando
pronunciar uma sílaba. Estariam as badaladas exaustas de tanto se repetir?
Desci os degraus da varanda — eram muitos — e não
esperei o jantar, como eu fazia há dezoito anos. Caminhei em direção à torre,
sentindo que aquele som não era um chamado para a oração. Seria um pedido de
socorro?
Caminhei até a praça e sentei-me num
banco de madeira descascada, exatamente de frente pra torre de pedra. Olhei
primeiro para o alto e o sino estava lá, tranquilo; depois olhei pra
todos os lados e era um vazio de gente.
Apenas um pequeno pardal ciscava a grama a poucos
passos de mim, alheio ao peso do que eu acabara de sentir.
Olhei pras minhas mãos vazias e depois para o
pássaro. Ele buscava o sustento na terra seca — há meses não chovia —
indiferente a mim e à engrenagem que havia acabado de desafinar. Invejei sua
inocência. Pra ele, o som do sino era apenas um ruído de fundo, tal qual um
vento leve que passa imperceptível e só balança a ponta das folhas.
Aquele semitom abaixo do tom me atingiu como
um diagnóstico: senti um nó no estômago. Ninguém estranhou nem apareceu
nas janelas; e o cheiro do café forte continuou, indiferente, subindo das
cozinhas. Mas, para mim, aquele som desafinado era o sinal de que a fachada de
perfeição da nossa vila havia rachado. O sino sabia de algo que eu ainda não
tinha coragem de admitir.
Durante toda a minha vida, eu fui como aquele
bronze: um objeto para cumprir uma função, apática ao tempo que passava. O sino batia porque era sino; eu acordava,
trabalhava e voltava pra casa porque era o que se esperava de mim. Mas hoje, ao ouvir aquela nota imperfeita, percebi
que a minha própria ressonância também havia mudado. Eu não era mais o eco
limpo das expectativas dos meus pais. Havia um desgaste, uma rachadura interna
que eu vinha ignorando, mas que o sino acabara de denunciar para quem quisesse
ouvir. Aquele som não era apenas um erro na torre; era o aviso de que a minha
armadura de rotina tinha finalmente trincado.
Levantei-me do banco, deixando o
passarinho pra trás, e caminhei até o portal de carvalho desbotado. A madeira
estava fria sob meus dedos, uma frieza que contrastava com o mormaço da tarde.
Ao empurrar a porta, o rangido das dobradiças ecoou pelo vão da nave vazia,
soando como um protesto.
Lá dentro, o cheiro de parafina
escorrida nas velas apagadas e do incenso antigo parecia parado no tempo,
exatamente como a minha vida. Enquanto eu avançava pelo corredor central, meus
olhos não buscavam o altar principal, nem as imagens familiares, nem a
capelinha do meu santo preferido. Eles se voltaram para a corda que ainda
balançava levemente no fundo da torre, como se a mão que a soltou tivesse
acabado de desaparecer na sombra.
Meus passos ecoavam no mármore
frio e cada batida do meu sapato soava como um julgamento naquele silêncio
absoluto. Aproximei-me do canto escuro onde a corda do sino pendia do teto,
ainda oscilando num balanço preguiçoso. Foi quando meus olhos captaram um
brilho opaco no chão de pedra. Inclinei-me e uma pena negra, longa e
perfeitamente preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela
não parecia ter caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com
um reflexo furta-cor que lembrava óleo sobre a água. Lembrei-me,
então, da minha nona Josefina que acendia uma lamparina — ela misturava
água com óleo — pra iluminar o nicho de Nossa Senhora de Fátima.
Ao tocá-la, senti um calafrio
que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena seria o “defeito” no
som do sino? Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas encontrando um objeto,
mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida inteira fingindo que
não existia.
Guardei-a no bolso e,
automaticamente, meus olhos se voltaram pra abertura estreita na base da torre,
onde a escada em caracol se perdia na escuridão. Eu pressentia que, se subisse
aquele primeiro degrau, a rotina dos meus últimos dezoito anos morreria
ali, no mesmo chão da nave.
Aceitei o desafio.
Coloquei a mão na parede fria e
áspera. A escada era tão apertada que o ar parecia mais denso a cada volta. O
som dos meus passos não era mais o eco limpo da igreja; agora era um baque
abafado, sufocado pelo espaço exíguo. Enquanto eu subia, o cheiro de incenso
era substituído pelo odor de metal frio e algo mais… um cheiro de céu antes da
tempestade.
Olhei no relógio e já havia
passado das vinte horas; a luz da pracinha lá fora diminuía a cada curva da
espiral e eu sentia, que a vibração do sino nos meus dentes ficava mais forte.
Eu não estava apenas subindo uma torre; eu estava escalando o meu próprio medo
pra ver o que, afinal, tinha a audácia de desafinar o meu mundo.
Cheguei ao topo da torre,
mas o que encontrei ali foi um vazio impossível. Não havia mãos, não havia
cordas sendo puxadas, não havia nada. Apenas o grande sino oscilando num ritmo
imaginário, como se o próprio ar estivesse empurrando o metal.
Aproximei-me do sino. Deduzi que
o som diferente que ouvi lá embaixo era o sino tentando se libertar de sua
função de marcar as “seis horas da tarde”. Ele não queria mais avisar o
tempo da cidade. Peguei a pena negra do meu bolso, apertei-a e senti o seu
calor pulsar contra a palma da minha mão. Olhei à minha volta. Eu estava
ali sozinho, mas nunca me senti tão observado.
Uma janela estreita e sem vidro
estava aberta. Por ela entrava um vento frio e cortante, um sopro de inverno em
contraste com o verão que existia lá embaixo. Debrucei sobre o parapeito de
pedra e a cidade que eu conhecia parecia uma maquete esquecida, pequena
demais comparada ao tamanho do que eu sentia agora. O sino continuava seu
balanço fantasmagórico às minhas costas, mas o ruído não me incomodava mais.
Apertei a pena negra e senti seu calor pulsar contra a palma da minha mão.
Procurei… Procurei… lá embaixo e não enxerguei o pardalzinho.
O silêncio da praça vazia e o
vazio impossível desta torre, com certeza, ofereciam-me um presente: a
possibilidade de enfrentar desafios. Minha vida, antiga e previsível como “as
badaladas das seis da tarde”, estava ficando por ali. Respirei fundo e, pela primeira vez,
não esperei pelo próximo badalo. Eu não precisava mais que o ferro me dissesse
quem eu era. Eu era o vento, a pena e o caminho que se abria além daqueles
muros de pedra. O sino podia tocar do jeito que ele quisesse e eu, finalmente,
descobri que poderia ouvir o meu próprio som.
Por dezoito anos, eu fui o eco
do que não queria ser. Eu não serei mais o operário do tempo, o escravo das
seis da tarde. Sei que a mudança será lenta e barulhenta, mas terei todo
o tempo do mundo. A vida diferente que me espera não terá horários, nem
badaladas; ela terá o som dos passos que escolhem o próprio rumo.
Guardei a pena, dei as costas ao
sino e desci os degraus, sabendo que, lá embaixo, a praça continuava vazia, mas
eu estaria, pela primeira vez, plenamente ocupado comigo mesmo.
Procurei o pardalzinho por todos
os lados… Ele não estava mais ali e senti a sua falta.
Inclinei-me e, entre as sombras,
vi o que o sino tentara me dizer: uma pena negra, longa e perfeitamente
preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela não parecia ter
caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com um reflexo
furta-cor que lembrava óleo sobre a água.
Ao tocá-la, senti um calafrio
que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena era o 'defeito' no
som do sino. Ela era o intruso. Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas
encontrando um objeto, mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida
inteira fingindo que não existia.”
Dicas para a “Previsão” (Antecipação):
Para o seu narrador se antecipar ao que vai
acontecer, você pode utilizar os sentidos dele:
- O Tato: Quando ele toca a pena, ele sente um calor ou uma vibração? Isso
indicaria que o mistério é “vivo”.
- O Olhar: Ele olha para cima, para o buraco por
onde a corda sobe para a torre, e percebe que o silêncio lá em cima é
“diferente”?
- A Intuição: Ele sente que, se sair
da igreja agora, sua vida nunca mais voltará ao som “normal” de antes.
Como você quer que ele reaja? Ele guarda a pena no bolso e foge, ou ele decide
subir a escada em caracol para ver de onde aquela pena caiu?