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quarta-feira, 29 de abril de 2026
Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin
O Sequestro
Adelaide Dittmers
Juliana acordou e tentou olhar ao seu redor. Estava tudo meio nublado. Ela piscou várias vezes para tentar enxergar com mais nitidez. Onde estava? Um cinto a prendia. Que barulho era este? A consciência foi se iluminando pouco a pouco. Estava em um avião. Como chegara aí? Sacudindo a cabeça, como se quisesse pôr em ordem os seus pensamentos, olhou pela janela. Nuvens brancas passavam rapidamente, deixando entrever um céu azul.
A lembrança foi aparecendo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Estava em casa, quando surgiu um homem que colocou um lenço no seu nariz. Ela tentou se soltar, mas ele era muito forte, agora estava em um avião e ainda sentia o cheiro da droga, que a havia apagado.
Quis se desvencilhar do cinto, mas não conseguiu, ainda estava fraca. E, desesperada, gritou, enquanto sacudia a amarra que a prendia.
— Aonde estão me levando?
Imediatamente, um homem apareceu ao seu lado. Atrás da máscara, dois olhos verdes penetrantes a olhavam e o franzir da testa denunciava a sua frieza.
— Calma! Disse alterado. Atrás dele, outro mascarado surgiu.
— O que vocês querem de mim?
— Nada de mais. E um sorriso cínico apareceu nos olhos do primeiro a aparecer. Apenas 30 milhões de dólares.
— Vocês estão loucos! Não tenho esse dinheiro. A surpresa e o pavor contraíram suas feições.
— Mas seu marido tem até muito mais do que isso. Um olhar carregado de desprezo caiu sobre ela.
Juliana mordeu os lábios. Seu marido era muito rico, mas ele daria essa quantia absurda para salvá-la? Não tinha certeza, porque antes de tudo, era um ferrenho homem de negócios. Ela sempre se sentira uma boneca, que ele exibia a todos como se ela fosse um troféu. Mas a vida de luxo a seduziu e ela se deixou levar pela vaidade dele.
O coração dela galopava no seu peito. Os pensamentos atropelavam-se. O que iriam fazer com ela? Roger estava na Europa tratando de negócios. Pareceu que o homem leu seu pensamento, porque, com uma voz dura, disse saber da viagem do marido e que já tinham se comunicado com ele. E que a tinham em seu poder.
Juliana não conseguia chorar. Os olhos estavam secos pelo horror da situação em que estava. Com certeza, Roger ofereceria uma grande quantidade de dinheiro para eles, mas iria negociar até o que fosse possível. E eles aceitariam?
Ela os encarou.
— Para onde estão me levando? — perguntou novamente com voz trêmula.
Um dos homens respondeu que era para um lugar onde nunca a achariam. Juliana encolheu-se na poltrona. O que eles queriam era uma quantia absurda. Será que ela valia tanto assim para Roger?
— Se meu marido der a quantia que estão exigindo, o que farão comigo?
Os dois homens se entreolharam.
— Aí vamos pensar o que fazer com você.
— Ela estremeceu. Mas, de repente, resolveu jogar com eles. Talvez sairia viva de tudo isso. Encarou ambos e, pela primeira vez, sua voz soou firme.
— Na verdade, meu casamento está por um fio. Meu marido só pensa nos grandes negócios dele e eu sou a bela mulher que exibe para todos. Vou fazer duas perguntas: se ele pagar o resgate, vocês me deixariam em um lugar qualquer, onde eu possa me virar e sumir da vida dele, ou se ele recusar de dar essa alta quantia, eu vou com vocês.
Os dois homens se entreolharam. Os olhos falavam mais do que qualquer palavra.
— Você está blefando!
— Não estou blefando. Disse com voz convincente.
Horas depois, o avião pousou em uma pista precária. Eles a conduziram para fora. Havia uma casa rústica à frente de uma floresta.
Passaram dias ali, negociando com Roger, que era tão frio e calculista como os sequestradores. Uma senhora fazia a refeição de todos. Juliana podia passear pelos arredores, sempre com a companhia de um deles.
Finalmente, chegaram a um acordo com o marido, que mandaria o dinheiro para um banco fora do país. Ela perguntou o que realmente fariam com ela. Eles responderam que a deixariam em uma cidade próxima. Na manhã em que partiriam, ela levantou muito cedo. Estava ansiosa, que não dormira quase nada. Ao chegar à cozinha, os três homens estavam tomando café sem máscaras. Ela parou assustada. E gaguejou que não iria dizer a ninguém sobre suas fisionomias. Eles sorriram, iam mesmo sair do país, então não tinha importância.
Juliana soltou um suspiro de alívio. Eram homens bonitos, não pareciam bandidos. E um deles que chamou mais a sua atenção era o de olhos incrivelmente verdes.
— Vocês nem parecem, como direi, homens capazes de praticar um crime como um seqüestro.
— E seu marido parece um homem que, para ganhar mais dinheiro, pode vender até a sua alma ao diabo.
— Mas meu marido ganha o dinheiro de forma legal, trabalhando.
— Como você está enganada! Ninguém que tem uma fortuna como a dele ganhou o dinheiro sem prejudicar ninguém.
Ela ficou calada, mas no fundo concordou com o que disseram. O medo havia evaporado. E, com uma voz pausada, ela disse:
— A boneca de Roger virou gente. E se vocês aceitarem, quero ir com vocês, como já tinha dito. E olhou longamente para o homem de olhos verdes.
Os homens abriram a boca espantados. E ela completou:
— Quero recomeçar uma nova vida, em que serei dona de mim mesma e do meu destino, seja ela qual for.
Os três homens ficaram em silêncio, até que um deles disse
— Tudo bem! Até já nos acostumamos com sua companhia.
E os três levantaram e deram a mão para ela.
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O BILHETE - Adelaide Dittmers
O BILHETE
A Última Página - Hirtis Lazarin
A Última Página
Hirtis Lazarin
Joana acorda com a visão turva, como se uma película de vidro fosco estivesse entre ela e a realidade. Esfregou as pálpebras, esperando que as formas ao seu redor ganhassem nitidez.
A névoa dos seus olhos finalmente se dissipou, mas o alívio durou pouco. Em vez das paredes familiares do seu quarto, o que apareceram foram fileiras apertadas de poltronas e o brilho das luzes de um avião.
Assustadíssima, ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente, tentando se localizar. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.
O zumbido constante das turbinas parecia vir de dentro da sua própria cabeça, uma nota única e persistente que a impedia de organizar os pensamentos; sentiu as mãos frias. Na bandeja à frente, um copo plástico com sobras de água e um guardanapo sujo.
Para onde estou indo?
Ela não lembrava de ter embarcado, nem para onde estava indo. Tentou se mexer e seu braço esbarrou em algo sólido. Ao olhar para o lado, seu coração falhou numa batida e o ar lhe faltou. Um homem de ombros largos e expressão estranha ocupava o assento ao seu lado. Ele fechou o jornal que lia e a encarou. Tinha olhos cansados e uma expressão de quem já cruzara o mundo vezes demais.
Percebendo o estado confuso da mulher…” Estamos sobrevoando o oceano. Vamos fazer uma escala em Doha, Qatar”.
A fala do homem não trouxe o alívio que ela esperava. Ao contrário, as palavras “Doha” e “Qatar” ecoaram como um idioma estrangeiro. Ela nunca havia planejado sair do país, tinha medo de avião.
— Qatar? A voz dela saiu pequena, sem força, quase um sussurro sufocado pelo ruído da pressurização.
— Sim. Escala em Doha antes do destino final. O voo é longo, melhor tentar dormir um pouco.
Sem esperar uma resposta, o homem virou-se pro outro lado, abriu novamente o jornal, agindo como se não tivesse acabado de dizer algo aterrorizante.
A cabeça de Joana entra em parafuso. Vira-se para o estranho e, antes de falar qualquer coisa, seus olhos recaem sobre a primeira página do jornal. O papel está levemente amarelado nas bordas e o cheiro de tinta virou cheiro de coisa velha guardada. No topo da página, em letras garrafais, a data salta aos olhos: 15 de maio de 2006. O jornal é de vinte anos atrás. As notícias falam de um mundo em que ela já viveu, de políticos que já se aposentaram e de tecnologias que hoje parecem pré-históricas.
— “Esse jornal…” — ela balbucia, apontando o dedo trêmulo. — Por que o senhor está lendo algo de duas décadas atrás? Ele finge não ouvir a pergunta.
Com sintomas de vertigem, Joana gira bruscamente o corpo em direção à pequena janela oval, buscando desesperadamente o seu próprio reflexo no vidro escuro. O rosto que a encarava de volta, emoldurado pelo azul profundo do oceano lá fora, não era o seu: a imagem mostrava uma mulher muito mais velha, com marcas de expressão que ela nunca tivera e um olhar de cansaço. — “Meus cabelos… Por que estão brancos”?
Precisava de alguém que lhe dissesse que aquilo era um delírio. Procurou a bolsa de mão e não a encontrou. Livrou-se do cinto de segurança e não conseguiu se levantar. As pernas pesavam como chumbo, desacostumadas com o próprio corpo. Apoiou-se nos braços da cadeira pra ganhar impulso e o homem ao lado nem sequer ergueu os olhos do jornal.
Ao ficar em pé, a cabine rodopiou; olhou pro corredor e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ronco abafado das turbinas que os levavam a Doha, num tempo que claramente não era mais o seu. Sentiu-se só, dentro de um tubo de metal suspenso sobre o oceano, presa entre um homem que lia o passado e um exército de sombras que não pertenciam ao presente.
O homem olhou-a com reprovação e fechou o jornal tão bruscamente — os ouvidos dela estavam muito sensíveis — que o estalo do papel velho ecoou na cabine. Joana franziu a testa, escondeu o som com as mãos e gemeu. Ele não se apressou; dobrou a folha amarelada e a colocou sobre o colo; as mãos eram tão grandes e enrugadas que até cobriam a manchete de vinte anos atrás.
“Sente-se, Bequinha” — um apelido que ela não ouvia há anos e que confundiu sua memória esquecida. — “O oceano é profundo demais pra quem fica em pé antes da hora. Doha é apenas o começo da sua… sua devolução”.
Antes que ela gritasse, suas forças se foram; desabou na poltrona que não era tão macia assim. O choro chegou de forma convulsiva; um soluço violento sacudia seus ombros e a deixava sem ar. Ela chorava pela lembrança da infância invocada naquele apelido e pelo terror de estar à mercê daquele desconhecido que parecia indiferente ao seu sofrimento.
Sem dizer uma única palavra, ele tira algo do bolso e estende a mão direita em sua direção. Os dedos compridos seguram firme um ursinho de pelúcia com as orelhas descosturadas; era o seu brinquedo favorito, aquele que ela acreditava ter perdido num incêndio há trinta anos.
“Você o esqueceu no jardim, Bequinha”. — A voz, agora, era suave como uma canção de ninar distorcida. — “Não se preocupe, em Doha você poderá segurá-lo novamente.”
O toque de pelúcia, áspero em seus dedos, disparou uma última centelha de memória; o avião, subitamente, mergulhou numa turbulência violenta e, aos poucos, já planava leve feito uma pena. As luzes da cabine piscaram e o azul profundo da janela foi substituído por um branco-calmante; o ronco das turbinas foi se transformando num som rítmico e eletrônico: bip… bip… bip… A voz fraquinha da aeromoça, vestida de branco, não falava de escalas ou destinos; sussurrava um adeus carregado de choro. — “Ela está indo”.
“Será que já chegamos a Doha”? — Ela ainda conseguiu perguntar. — O jornal velho, o corpo cansado, o brinquedo perdido foram desaparecendo…
O homem, que a acompanhava há mais de um ano, levantou-se, fez uma prece e, delicadamente, alisou seus cabelos.
O registro no monitor, que controla os batimentos cardíacos, tornou-se uma linha contínua, anunciando que Joana, finalmente, havia chegado ao seu destino.
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