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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin

 



Eram cinco horas… 
Hirtis Lazarin

O brechó cheirava a poeira acumulada. Ali o tempo foi esquecido e as identidades se misturavam. Entre os cabides de metal que rangiam sob o peso de tecidos, as peças de roupas pareciam esperar, com paciência resignada, que alguém as levasse dali. Não eram apenas roupas, eram a soma de momentos que já não pertenciam a mais ninguém.
 
Lívia caminhava entre as fileiras de lã e linho, até que seus olhos pousaram naquele blazer bem modelado. Era de um cinza profundo, quase fustigado, como se tivesse absorvido muita fumaça de cigarro antes de ser deixado ali, por um preço irrisório. 

Tirou a peça do cabide, examinou o tamanho e o preço anotados na etiqueta: estava compatível com o que ela tinha na carteira. Aliás, ali estava tudo que restava da sua parca aposentadoria. O frio acabava de pôr as manguinhas de fora e o seu guarda-roupa estava vazio de peças quentes.

Ela fechou a porta do apartamento, deixando o ruído das ruas pra trás. Vestiu o blazer, a lã era áspera, mas trazia um calor que parecia vir de dentro das fibras, uma temperatura que não era dela. Diante do espelho, observou que a estrutura da peça moldava seu corpo, preenchendo vazios que ela nem sabia existirem. Ao ajeitar a lapela, num gesto automático de quem busca conforto, sentiu um pequeno volume estranho. Estava por trás do forro descuidado, preso por um fio de linha que insistia em não partir.


Lívia não hesitou; a curiosidade era bem mais forte que o pudor de mexer no passado alheio. Puxou o objeto, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Era uma chave pequena, de latão leve e gasto, com uma etiqueta plastificada, onde se liam: o número 32 e o endereço de um antigo terminal ferroviário da cidade, um lugar que agora só abrigava sombras e o eco de trens que não passavam mais.

Enquanto a maioria das pessoas guardaria a chave numa gaveta como curiosidade de antiquário, ela não era dada a hesitações. Não tirou o blazer, sentindo que a peça era agora seu uniforme de investigação e, cinco minutos depois, já estava no carro. 

Enquanto o metal da chave queimava em seu bolso, a ansiedade apertava seu estômago como o marinheiro aperta o nó da corda grossa. Respirava com tamanha dificuldade, que foi obrigada a encostar o carro por alguns minutos.

Ao chegar, o cenário vazio da estação era de uma beleza estática: as plataformas vazias e o relógio parado pareciam suspensos num tempo que não avançava mais. Lívia olhou pra baixo e viu os trilhos. Eles repousavam ali, entregues à própria sorte, como serpentes de ferro paralisadas pelo tempo. O ferro estava sendo devorado por uma ferrugem faminta, que vestia o metal com uma pele alaranjada e ressecada; e o mato crescia e se esparramava entre os dormentes de madeira podre, num esforço silencioso de apagar o caminho. E bem lá no meio do mato, um punhado de florzinhas pintou de amarelo aquele verde intenso.

Não havia mais o tremor do chão, nem o apito cortante, apenas o silêncio pesado de quem não tem mais pra onde ir.
 
Lívia caminhou decidida entre os ecos de seus passos até encontrar a fileira de armários metálicos, ainda organizados em numeração crescente. O 32 estava bem à sua frente. A tinta descascada revelava cicatrizes de décadas de partidas e chegadas. 

A poeira acumulada em tudo que se via castigou seus pulmões e um acesso de tosse seca e persistente interrompeu o que ela pretendia fazer.

Depois de, aproximadamente, meia hora, ela pôde se posicionar à frente do armário.  Seus dedos gelados, transformados em hastes rígidas de vidro, tremiam ao aproximar a chave da fechadura. Ela sentia que, ao girar aquele cilindro, não estaria apenas abrindo um armário, mas rasgando o véu que separava o seu presente do passado de um fantasma.

Depois de um estalo seco, o armário se abriu. Lá dentro, uma caixa de madeira gasta e sem brilho. Ao abrir, um susto: sobre um maço de cartas amarradas com barbante, repousava um relógio de pulso com o vidro trincado, parado às cinco horas. Cinco da manhã ou da tarde? 

Sentada no chão frio da estação, com o blazer ainda abraçando seus ombros, Lívia abriu o primeiro envelope. No topo da carta, uma caligrafia pequena e apertada: “14 de dezembro de 1972”. A carta foi escrita numa noite de domingo, quase quarenta anos atrás.

À medida que lia, uma dor forte crescia no seu peito… Ela ainda era uma criança e o autor solitário sofria as dores da indiferença e do abandono. 

Naquelas cartas não havia crimes ou perigos, apenas os destroços de alguém que insistia em não ser esquecido. As cartas não tinham selo; eram endereçadas a alguém que nunca as recebeu. Eram monólogos de um homem solitário e apaixonado. Agora, ela e aquele estranho compartilhavam o mesmo silêncio, separados pelo tempo. Lívia não havia adquirido, num brechó, apenas um blazer de boa qualidade; a sua curiosidade invadiu a privacidade de um estranho.


Subitamente, ela interrompeu a leitura e um peso denso abateu sobre ela: a curiosidade que antes a movia parecia agora uma invasão cruel, um sacrilégio contra a intimidade de quem nada mais tinha além daquele silêncio. Devolveu as cartas e o relógio ao seu repouso. Fechou o armário com o pesar de quem encerra um túmulo. 

Ao sair da estação, jogou a chave num bueiro, ouvindo o tilintar final de um segredo que não lhe pertencia. Já na rua, sob a luz indiferente dos postes, despiu-se do blazer e o entregou à primeira pessoa necessitada que encontrou encolhida contra o frio.

Estacionou o carro em frente ao “Bar do Nenê” e pediu duas doses de uísque. À medida que o copo se esvaziava, o peso das cartas e do casaco ia diminuindo. 

E o vento da noite, pela primeira vez, parecia soprar só pra ela.

 






 





O Sequestro

Adelaide Dittmers


Juliana acordou e tentou olhar ao seu redor.  Estava tudo meio nublado.  Ela piscou várias vezes para tentar enxergar com mais nitidez. Onde estava?  Um cinto a prendia. Que barulho era este? A consciência foi se iluminando pouco a pouco.  Estava em um avião. Como chegara aí? Sacudindo a cabeça, como se quisesse pôr em ordem os seus pensamentos, olhou pela janela. Nuvens brancas passavam rapidamente, deixando entrever um céu azul.

A lembrança foi aparecendo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Estava em casa, quando surgiu um homem que colocou um lenço no seu nariz. Ela tentou se soltar, mas ele era muito forte, agora estava em um avião e ainda sentia o cheiro da droga, que a havia apagado.

Quis se desvencilhar do cinto, mas não conseguiu, ainda estava fraca.  E, desesperada, gritou, enquanto sacudia a amarra que a prendia.

— Aonde estão me levando?

Imediatamente, um homem apareceu ao seu lado. Atrás da máscara, dois olhos verdes penetrantes a olhavam e o franzir da testa denunciava a sua frieza.

— Calma! Disse alterado. Atrás dele, outro mascarado surgiu.

— O que vocês querem de mim?

— Nada de mais.  E um sorriso cínico apareceu nos olhos do primeiro a aparecer.  Apenas 30 milhões de dólares.

— Vocês estão loucos! Não tenho esse dinheiro. A surpresa e o pavor contraíram suas feições.

— Mas seu marido tem até muito mais do que isso. Um olhar carregado de desprezo caiu sobre ela.

Juliana mordeu os lábios.  Seu marido era muito rico, mas ele daria essa quantia absurda para salvá-la? Não tinha certeza, porque antes de tudo, era um ferrenho homem de negócios. Ela sempre se sentira uma boneca, que ele exibia a todos como se ela fosse um troféu. Mas a vida de luxo a seduziu e ela se deixou levar pela vaidade dele.

O coração dela galopava no seu peito. Os pensamentos atropelavam-se. O que iriam fazer com ela? Roger estava na Europa tratando de negócios.  Pareceu que o homem leu seu pensamento, porque, com uma voz dura, disse saber da viagem do marido e que já tinham se comunicado com ele. E que a tinham em seu poder.

Juliana não conseguia chorar. Os olhos estavam secos pelo horror da situação em que estava. Com certeza, Roger ofereceria uma grande quantidade de dinheiro para eles, mas iria negociar até o que fosse possível. E eles aceitariam? 

Ela os encarou. 

— Para onde estão me levando? — perguntou novamente com voz trêmula.

Um dos homens respondeu que era para um lugar onde nunca a achariam. Juliana encolheu-se na poltrona.  O que eles queriam era uma quantia absurda. Será que ela valia tanto assim para Roger? 

— Se meu marido der a quantia que estão exigindo, o que farão comigo?

Os dois homens se entreolharam.  

— Aí vamos pensar o que fazer com você.

— Ela estremeceu.  Mas, de repente, resolveu jogar com eles.  Talvez sairia viva de tudo isso. Encarou ambos e, pela primeira vez, sua voz soou firme.

— Na verdade, meu casamento está por um fio.  Meu marido só pensa nos grandes negócios dele e eu sou a bela mulher que exibe para todos. Vou fazer duas perguntas: se ele pagar o resgate, vocês me deixariam em um lugar qualquer, onde eu possa me virar e sumir da vida dele, ou se ele recusar de dar essa alta quantia, eu vou com vocês.

Os dois homens se entreolharam.  Os olhos falavam mais do que qualquer palavra.

— Você está blefando!

— Não estou blefando.  Disse com voz convincente.

Horas depois, o avião pousou em uma pista precária.  Eles a conduziram para fora. Havia uma casa rústica à frente de uma floresta. 

Passaram dias ali, negociando com Roger, que era tão frio e calculista como os sequestradores. Uma senhora fazia a refeição de todos.  Juliana podia passear pelos arredores, sempre com a companhia de um deles. 

Finalmente, chegaram a um acordo com o marido, que mandaria o dinheiro para um banco fora do país. Ela perguntou o que realmente fariam com ela. Eles responderam que a deixariam em uma cidade próxima.  Na manhã em que partiriam, ela levantou muito cedo.  Estava ansiosa, que não dormira quase nada.  Ao chegar à cozinha, os três homens estavam tomando café sem máscaras. Ela parou assustada.  E gaguejou que não iria dizer a ninguém sobre suas fisionomias. Eles sorriram, iam mesmo sair do país, então não tinha importância.

Juliana soltou um suspiro de alívio.  Eram homens bonitos, não pareciam bandidos. E um deles que chamou mais a sua atenção era o de olhos incrivelmente verdes.

— Vocês nem parecem, como direi, homens capazes de praticar um crime como um seqüestro.

— E seu marido parece um homem que, para ganhar mais dinheiro, pode vender até a sua alma ao diabo.

— Mas meu marido ganha o dinheiro de forma legal, trabalhando.

— Como você está enganada! Ninguém que tem uma fortuna como a dele ganhou o dinheiro sem prejudicar ninguém.

Ela ficou calada, mas no fundo concordou com o que disseram.  O medo havia evaporado.  E, com uma voz pausada, ela disse:

— A boneca de Roger virou gente. E se vocês aceitarem, quero ir com vocês, como já tinha dito. E olhou longamente para o homem de olhos verdes.

Os homens abriram a boca espantados.  E ela completou:

— Quero recomeçar uma nova vida, em que serei dona de mim mesma e do meu destino, seja ela qual for.

Os três homens ficaram em silêncio, até que um deles disse

— Tudo bem! Até já nos acostumamos com sua companhia.

E os três levantaram e deram a mão para ela.




VIRE A FOTO - PEDRO HENRIQUE.

 




VIRE A FOTO PEDRO HENRIQUE. Os gestos sutis do vento abraçam o corpo inerme de Arthur, prendendo-o em seu íntimo, de modo que, antes de o rapaz ir à entrevista, ele passa em um brechó perto do centro comercial onde reside o escritório do Dr. Leonardo Lacerda. Quando entra no estabelecimento, vê-se defronte a uma senhora um tanto idiossincrática: cabelos cor-de-rosa, brincos de abacaxi, saia colorida e óculos no formato de morango. “Ora, ora! Olá, bonitão! O que procuras aqui? Ah, já sei. Veio pedir meu número? Não, espera: veio me pedir em casamento?” A senhora o encara com um olhar provocativo. O garoto ri. “Acho que hoje não”. “Ah, sério! Ok, é você quem perde. Tá, chega de perder tempo. Nem te achei tudo isso mesmo. O que quer?” “Você é engraçada. Bom, queria um casaco, um blazer de preferência. Hoje é um dia importante. “Dia importante, bonitão?” Ela arqueia a sobrancelha. “Agora, você me lembrou da minha avó; ela dizia que todos os dias são importantes. Sabia que a velha morreu com cento e três anos de idade? Quem morre com cento e três anos? Mas deixa isso para lá. Vamos, vamos, se não estou velha demais para me lembrar, os blazers estão aqui. Ah! Como sou mal-educada. Você havia dito que hoje é um dia importante. O que fará? O rapaz a segue pelos corredores daquele pequeno lugar. “Tenho uma entrevista de emprego com um advogado que admiro muito”. “Que coisa chata.” Arthur fica boquiaberto, não acredita no que aquela pequena senhora tão peculiar acabou de dizer, entretanto leva tudo com muita tranquilidade. “Por quê?” “Achei! Tenho estes aqui. Ah, sim. Não leve a mal: acho Direito uma coisa chata. Sou mais da música, do teatro, das artes… Gosto de cor, de vida, de alegria.” O rapaz olha os blazers, avaliando não só o tecido, mas também o que a senhora acabou de afirmar. Pega um modelo azul-marinho e o coloca, olhando-se no espelho, verificando se a peça lhe caiu bem. “Bom, de fato não é uma área na qual os profissionais darão pulos de alegria diariamente; acredito ser justamente o contrário, porém, para quem gosta, pode ser um pouco divertido. Vou ficar com este. “É, pode ser, bonitão. Vamos, vamos, vou pôr em uma sacola para você”. Já no caixa, Arthur sinaliza que não precisa de saca, pois irá com o blazer à entrevista. Ele paga a peça e se dirige à saída; entretanto, antes, olha para a senhora que está com as duas mãos formando um coração para ele. “Volte quando quiser e não ligue para mim. Sou assim mesmo. Depois que se envelhece desta forma, é difícil mudar, entende?” Arthur ri genuinamente e, com certo afago por aquela moça engraçada, retribui o coração. *** A entrevista foi um sucesso. Dr. Lacerda não pestanejou quando apreciou o currículo do rapaz. A contratação foi inexorável. Agora, Arthur, finalmente, pode ligar para a mãe e contar que trabalhará com um dos advogados mais renomados da grande São Paulo. Antes, porém, há de ceifar a rigidez que os ambientes jurídicos reivindicam. Tira sapato, gravata, desabotoa os primeiros botões da camisa e retira o blazer e, quando o faz, percebe uma imagem no chão. Deve ter caído do casaco — pensa. Não demora para seus dedos tocarem a imagem, dando a ela a vida necessária para adentrar sua íris e despertar curiosidade. Reside na tela uma linda moça de mãos para o alto, sorridente e espontânea, no Cristo Redentor. Seu olhar parece um singelo sussurro que convoca Arthur a indagar-se: “Quem é?” *** Mal chegou ao escritório, Dr. Lacerda começa a pedir ao novo funcionário que leia os processos, dê início à escrita dos documentos e responda às toneladas de e-mails que parecem aumentar mais e mais. Todavia, há um certo olhar, sorriso e rosto que não se obliteraram da memória do advogado. Quem é aquela moça? Qual é seu nome? Seu cheiro? Seus gostos? Quando a tarde chega, Arthur levanta-se da sua mesa e segue rumo ao brechó. Se há alguém que pode ter alguma informação sobre a foto, esse alguém é aquela senhora louca. Assim que entra, ele ouve um grito espontâneo e logo em seguida: “Olá, bonitão! Sabia que você voltaria. Agora sim: veio me pedir em casamento?” Arthur leva tudo com muito humor. “Outra vez: hoje não. Na verdade, vim aqui porque queria saber a quem pertence esta foto”. A senhora para, respira e repousa os olhos sutilmente sobre a imagem. Investiga o rosto da jovem, seus singelos e pulcros traços, então, como quem viu um anjo e não vislumbra em si estrutura para subjugar a emoção, ela concede vênia a uma lágrima que caminha por sua bochecha. “É uma bela moça, não acha?” Afirma, secando o rosto. “Você sabe algo sobre ela? Achei esta foto no blazer que comprei ontem.” “Ah, sim, sim. Bom, não sei. Nunca vi essa moça”. “Tem certeza?” Ela o encara por alguns segundos, completamente séria, destoante daquela senhora afável e sorridente que ele conheceu. “Diga-me, garoto: o que tem nela que te seduz tanto?” “Não, não é isso, eu só queria saber quem é?” “Sei. Então, você está aqui só por curiosidade, bonitão?” Arthur olha para os lados pensando em correr para o mais longe que conseguir dali, mas de repente descobre que não sabe nada sobre aquela moça, então pergunta: “Qual é seu nome?” “Margarida e o seu?” “Arthur”. “Está aí um bom nome.” “Já que você não sabe nada sobre ela, vou deixá-la em paz; entretanto, vou te passar meu número. Se você se recordar de algo, qualquer informação que for, me manda mensagem contando; preciso saber mais sobre ela. Dito isso, o rapaz escreve seu contato, coloca sobre o balcão e vai embora. Margarida fica lá, boiando em seus devaneios, se perguntando o que foi que conheceu. *** Chegando à casa, o rapaz tira o paletó, afrouxa a gravata, prepara algo para comer e vai analisar processos em seu escritório. A noite há muito colocou seu manto sobre a Terra e os grilos já estão ensaiando sua ópera, no entanto, mesmo que tente, Arthur não consegue apagar a moça de sua cabeça. É como uma sentença perene e peremptória que os deuses lançaram sobre ele: você será condenado a ter em seus pensamentos a moça dos olhos bonitos, os quais sussurram seu nome nas madrugadas, e você será obrigado a descer as escadas desse olhar e lá, lá no fundo, encontrarás as respostas que tanto buscas. E, quando a elucubração dorme, ele tem uma epifania. Pega a foto, analisa-a novamente, vira-a no verso e lê: Rio de Janeiro, treze de julho de mil novecentos e cinquenta e sete. Ao observar, outra vez, a moça, sua mente é levada à Margarida. Olhos, sorriso, a lágrima escorrendo pela bochecha dela ao se deparar defronte à imagem. Ele averigua a roupa da garota. Tudo tão peculiar: muitas pulseiras, brincos grandes e extravagantes, um estilo meio hippie. Uma risada sai de sua boca. No dia seguinte, antes de submergir ao labor diário, entrará no brechó com um ramo de rosas e uma aliança.

O BILHETE - Adelaide Dittmers

 



O BILHETE

Adelaide Dittmers O sábado amanheceu frio e chuvoso. Carmen anda com cuidado pela calçada irregular e escorregadia. Chega em frente a um brechó, que ela frequenta há muito tempo. Fecha o guarda-chuva colorido, que resguarda da garoa. E entra. Começa a vasculhar algo interessante nas araras cheias de roupas de todo tipo. Um casaco bege chama a sua atenção. Desliza a mão por ele e se encanta com a maciez do tecido. Tira-o do cabide e se surpreende pelo perfume suave que emana da peça. Veste-o e se olha no espelho. Está perfeito. O preço é inacreditável para um artigo tão especial. Minutos depois, sai feliz pela boa compra. Com passos rápidos, vai pela rua, desviando-se das poças de água, que se formam no calçamento mal feito. Depois de um bom tempo, serpenteando pelo bairro, chega à sua casa. Entra rapidamente, soltando os sapatos molhados no pequeno hall. E, com satisfação, sente o abraço quente e aconchegante de seu lar. Tira da sacola o grande pacote e o veste novamente. Enfia as mãos nos bolsos e em um deles há um papel amassado, que ela puxa e lê:”Por favor, não me persiga mais. Aceite minha decisão de nos separarmos. A sua revolta pode levá-lo a algo de que você se arrependa tarde demais. Nosso casamento estava em frangalhos. Você nunca enxergou que seu ciúme doentio acabou com nosso relacionamento. Estou cansada de sempre viver sobressaltada com o que você possa fazer. Estava endereçado para Fausto e a assinatura trêmula era de Lina. Por que ela não enviara aquele bilhete? Há quanto tempo teria sido escrito e deixado no brechó? Logo ela tinha que gostar desse casaco. O seu faro de investigadora policial lhe dizia que não podia ignorar o que estava escrito. Tinha que voltar ao brechó e tentar saber quem o deixou lá. Na manhã seguinte, entrou na loja e, com passos decididos, dirigiu-se à dona, perguntando se ela lembrava quem entregara o casaco. A mulher não escondeu o espanto e, com uma voz nervosa, perguntou por que ela queria saber. Carmen esclareceu que havia achado um bilhete muito estranho em um dos bolsos do casaco e que lhe parecia que a dona estava em perigo, confessando que era investigadora policial. A mulher então falou que fora uma cliente, que tanto trazia roupas como comprava muitas peças da loja. O nome dela era Carolina e disse ter o endereço dela. Em posse do endereço, Carmen agradeceu à mulher e saiu. O lugar era umas quatro quadras dali e ela percorreu esse percurso rapidamente. Parou em frente ao número indicado. Era uma bonita casa térrea, com um jardim bem cuidado, onde flores coloridas enchiam o lugar de vida. Tocou a campainha. Uma senhora atendeu e a investigadora perguntou se Carolina estava em casa. A mulher ficou paralisada. — Quem é você? Perguntou rispidamente. — Sou uma amiga. Faz muito tempo que não nos vemos. Mentiu. — Ela não está. Sofreu um acidente e está no hospital. — Muito grave? — Sim, mas está fora de perigo. — Meu Deus! Quero vê-la! Qual hospital, senhora? — São José. Carmen agradeceu e chamou um táxi. Meia hora estava lá. Mostrou a carteira de policial sendo liberada para ver Carolina. Entrou no quarto, fixando seu olhar na mulher, que estava recostada na cama. Não devia ter mais do que quarenta anos e era muito bonita, apesar dos hematomas que tinha no rosto. Ela se apresentou e Lina estremeceu. — Olá, Carolina! Quero saber como você se feriu. — Um, um assalto. Gaguejou. — Não minta para mim. Suponho que você foi ameaçada. — Como você descobriu? — Por um bilhete que você esqueceu no casaco que comprei no brechó. Lina começou a chorar. Não queria que ninguém soubesse, porque iria piorar a situação. Carmen pacientemente lhe aconselhou a não ter tanto medo. Que ela precisava ser protegida. Ela então confessou que o ex-marido era muito estourado e ciumento e cismava com qualquer um que se aproximasse dela e, quando ela quis a separação, ele ficou furioso. Ela escreveu aquele bilhete, mas não teve coragem de enviá-lo a ele. Preferiu sair de casa, aproveitando uma viagem dele, e ir para a casa dos pais, entregando o caso a um advogado da família. Quando ele voltou, telefonou dizendo que finalmente aceitava a separação. Era uma noite escura quando se encontraram para conversarem sobre isso. Ele aproveitou a escuridão e a espancou no jardim da casa dos pais, que, ouvindo seus gritos, saíram desesperados. E, antes de ir embora, ameaçou meus pais caso levassem o caso adiante. Carmen aconselhou-a a ficar alerta e nunca sair sozinha, e que ele iria ser preso. E, curiosa, perguntou por que havia vendido o casaco, e ela lhe disse que fora um presente dele e ela não queria nada que dele viesse. O bilhete iria ser entregue a uma amiga em comum para chegar a ele, mas na última hora não quis envolvê-la nessa história e o esqueceu no casaco.

A Última Página - Hirtis Lazarin

 


A Última Página   

Hirtis Lazarin                                                    


Joana acorda com a visão turva, como se uma película de vidro fosco estivesse entre ela e a realidade. Esfregou as pálpebras, esperando que as formas ao seu redor ganhassem nitidez.

A névoa dos seus olhos finalmente se dissipou, mas o alívio durou pouco. Em vez das paredes familiares do seu quarto, o que apareceram foram fileiras apertadas de poltronas e o brilho das luzes de um avião.

Assustadíssima, ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente, tentando se localizar. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.

O zumbido constante das turbinas parecia vir de dentro da sua própria cabeça, uma nota única e persistente que a impedia de organizar os pensamentos; sentiu as mãos frias. Na bandeja à frente, um copo plástico com sobras de água e um guardanapo sujo.

Para onde estou indo?

 Ela não lembrava de ter embarcado, nem para onde estava indo. Tentou se mexer e seu braço esbarrou em algo sólido. Ao olhar para o lado, seu coração falhou numa batida e o ar lhe faltou. Um homem de ombros largos e expressão estranha ocupava o assento ao seu lado. Ele fechou o jornal que lia e a encarou. Tinha olhos cansados e uma expressão de quem já cruzara o mundo vezes demais.

Percebendo o estado confuso da mulher…” Estamos sobrevoando o oceano. Vamos fazer uma escala em Doha, Qatar”.

A fala do homem não trouxe o alívio que ela esperava. Ao contrário, as palavras “Doha” e “Qatar” ecoaram como um idioma estrangeiro. Ela nunca havia planejado sair do país, tinha medo de avião.

— Qatar? A voz dela saiu pequena, sem força, quase um sussurro sufocado pelo ruído da pressurização.

— Sim. Escala em Doha antes do destino final. O voo é longo, melhor tentar dormir um pouco.

Sem esperar uma resposta, o homem virou-se pro outro lado, abriu novamente o jornal, agindo como se não tivesse acabado de dizer algo   aterrorizante.

A cabeça de Joana entra em parafuso. Vira-se para o estranho e, antes de falar qualquer coisa, seus olhos recaem sobre a primeira página do jornal.  O papel está levemente amarelado nas bordas e o cheiro de tinta virou cheiro de coisa velha guardada. No topo da página, em letras garrafais, a data salta aos olhos: 15 de maio de 2006.  O jornal é de vinte anos atrás. As notícias falam de um mundo em que ela já viveu, de políticos que já se aposentaram e de tecnologias que hoje parecem pré-históricas.

— “Esse jornal…” — ela balbucia, apontando o dedo trêmulo. — Por que o senhor está lendo algo de duas décadas atrás? Ele finge não ouvir a pergunta.

Com sintomas de vertigem, Joana gira bruscamente o corpo em direção à pequena janela oval, buscando desesperadamente o seu próprio reflexo no vidro escuro. O rosto que a encarava de volta, emoldurado pelo azul profundo do oceano lá fora, não era o seu: a imagem mostrava uma mulher muito mais velha, com marcas de expressão que ela nunca tivera e um olhar de cansaço. — “Meus cabelos… Por que estão brancos”? 

Precisava de alguém que lhe dissesse que aquilo era um delírio. Procurou a bolsa de mão e não a encontrou.  Livrou-se do cinto de segurança e não conseguiu se levantar. As pernas pesavam como chumbo, desacostumadas com o próprio corpo. Apoiou-se nos braços da cadeira pra ganhar impulso e o homem ao lado nem sequer ergueu os olhos do jornal. 

Ao ficar em pé, a cabine rodopiou; olhou pro corredor e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ronco abafado das turbinas que os levavam a Doha, num tempo que claramente não era mais o seu. Sentiu-se só, dentro de um tubo de metal suspenso sobre o oceano, presa entre um homem que lia o passado e um exército de sombras que não pertenciam ao presente.

O homem olhou-a com reprovação e fechou o jornal tão bruscamente — os ouvidos dela estavam muito sensíveis — que o estalo do papel velho ecoou na cabine. Joana franziu a testa, escondeu o som com as mãos e gemeu. Ele não se apressou; dobrou a folha amarelada e a colocou sobre o colo; as mãos eram tão grandes e enrugadas que até cobriam a manchete de vinte anos atrás. 

“Sente-se, Bequinha” — um apelido que ela não ouvia há anos e que confundiu sua memória esquecida. — “O oceano é profundo demais pra quem fica em pé antes da hora. Doha é apenas o começo da sua… sua devolução”.

Antes que ela gritasse, suas forças se foram; desabou na poltrona que não era tão macia assim. O choro chegou de forma convulsiva; um soluço violento sacudia seus ombros e a deixava sem ar. Ela chorava pela lembrança da infância invocada naquele apelido e pelo terror de estar à mercê daquele desconhecido que parecia indiferente ao seu sofrimento. 

Sem dizer uma única palavra, ele tira algo do bolso e estende a mão direita em sua direção. Os dedos compridos seguram firme um ursinho de pelúcia com as orelhas descosturadas; era o seu brinquedo favorito, aquele que ela acreditava ter perdido num incêndio há trinta anos.

“Você o esqueceu no jardim, Bequinha”. — A voz, agora, era suave como uma canção de ninar distorcida. — “Não se preocupe, em Doha você poderá segurá-lo novamente.”

O toque de pelúcia, áspero em seus dedos, disparou uma última centelha de memória; o avião, subitamente, mergulhou numa turbulência violenta e, aos poucos, já planava leve feito uma pena. As luzes da cabine piscaram e o azul profundo da janela foi substituído por um branco-calmante; o ronco das turbinas foi se transformando num som rítmico e eletrônico: bip… bip… bip… A voz fraquinha da aeromoça, vestida de branco, não falava de escalas ou destinos; sussurrava um adeus carregado de choro. — “Ela está indo”. 

 “Será que já chegamos a Doha”? — Ela ainda conseguiu perguntar. — O jornal velho, o corpo cansado, o brinquedo perdido foram desaparecendo…

O homem, que a acompanhava há mais de um ano, levantou-se, fez uma prece e, delicadamente, alisou seus cabelos. 

O registro no monitor, que controla os batimentos cardíacos, tornou-se uma linha contínua, anunciando que Joana, finalmente, havia chegado ao seu destino.


Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin

  Eram cinco horas…  Hirtis Lazarin O brechó cheirava a poeira acumulada. Ali o tempo foi esquecido e as identidades se misturavam. Entre os...