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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Encontro misterioso - Alberto Landi

 


Encontro misterioso

Alberto Landi


A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subir até o céu.

A luz colorida dos vitrais atravessava o espaço e pintava o chão de vermelho, azul e dourado.

No centro, o labirinto se espalhava pelas pedras como um caminho misterioso, convidando os visitantes a seguir suas curvas.

Pierre chegou a Chartres numa tarde fria e chuvosa, carregando apenas uma maleta e uma bengala de madeira escura. Caminhava devagar pelas ruas bem antigas, como se cada pedra conhecesse um segredo que ele ainda não estava pronto para ouvir.

Havia trinta anos que não retornava à cidade.

Na juventude, ele trabalhava como aprendiz de restaurador de afrescos e esculturas na catedral de Chartres. 

Foi nesse local que conheceu Jade, uma moça que vendia flores próximas da entrada norte da catedral. 

Eles se apaixonaram e planejavam casar, mas Pierre teve receio. Numa noite chuvosa, desapareceu sem se despedir de Jade.

Agora, com certa idade, ele retornava para devolver uma coisa que guardara durante toda a vida: um pequeno medalhão azul que ela havia perdido no interior da catedral.

Ele entrou pelo portal principal; a luz colorida dos vitrais caiu sobre sua face, e ele sentiu o peso dos anos. Caminhou até o labirinto desenhado no chão, onde os peregrinos costumavam andar em silêncio.

Foi então que ouviu uma voz.

— Você demorou!

Ele se virou; Jade estava ali, exatamente como ele se lembrava, com os cabelos presos e um ramo de flores nas mãos.

— Jade, que surpresa! Continua bela e viva!

Ela sorriu, mas seus olhos pareciam pertencer a outro tempo. Para alguns, o tempo passa; para outros, ele apenas espera.

Ele apertou o medalhão, dizendo:

— Vim devolver isto.

— Não é o medalhão que você precisa devolver. É a verdade!

As portas da catedral se fecharam atrás dele, o vento desapareceu, e até os sinos ficaram mudos.

Ela apontou para um beco estreito entre duas colunas. 

Ele nunca havia percebido aquela passagem; com dificuldade, apoiou-se na bengala e entrou.

No fim do beco havia uma pequena sala iluminada por uma única vela e, sobre a mesa, encontrava-se uma carta amarelada pelo tempo, cuja letra ele reconheceu. Abriu o envelope com mãos trêmulas.

“Pierre, esperei por você naquela noite. Depois descobri que você partira porque acreditava que não o amava o suficiente para casarmos. Meus pais ficaram indignados com sua atitude, quiseram até ameaçá-lo, mas pedi que o deixassem ir. Todos acreditaram que você me abandonou.”

Ele sentiu as pernas fraquejarem.

— Por que nunca me contou?

Ela apareceu atrás dele, dizendo: 

— Porque você nunca voltou para perguntar e nem sequer uma carta ao longo de todos esses anos.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Pierre.

Durante décadas, ele havia carregado a culpa como quem leva uma pedra sobre os ombros. Agora percebia que sua vida inteira fora construída sobre um grande mal-entendido.

— Sinto muito — sussurrou.

Ela tocou o medalhão, dizendo:

— Então devolva-o ao lugar onde tudo começou.

Eles voltaram ao labirinto, colocaram o medalhão sobre uma pequena marca no centro do desenho e cerrou os olhos. No mesmo instante, os vitrais se iluminaram novamente.

Os sinos tocaram.

Quando ele tornou a abri-los, estava sozinho; ela havia desaparecido, deixando no chão apenas uma flor branca.

Na manhã seguinte, os frequentadores o encontraram no interior da catedral, sentado próximo ao beco, com a bengala ao lado e um sorriso nervoso na face.

Finalmente havia encontrado o caminho para sair daquele lugar.

E, pela primeira vez em trinta anos, sentiu que poderia seguir em frente.

Depois daquela noite, Jade nunca mais apareceu como fantasma. Ela havia permanecido ligada à catedral porque esperava que um dia ele voltasse para descobrir a verdade e devolver o medalhão.

Ao amanhecer, os primeiros raios de sol atravessaram os vitrais e iluminaram o medalhão no centro do labirinto. Ele sorriu, pois sabia que “ela finalmente estava em paz”

Dizem que, desde então, uma flor branca surge todos os anos no centro do labirinto, sempre no mesmo dia. Ele acreditava que era ela se despedindo.

E, quando o sino da catedral tocava ao entardecer, ele sabia que, em algum lugar além do tempo, ela finalmente estava em paz!


Elias e Daniel - Alberto Landi

 



Elias e Daniel

Alberto Landi


Quando eram meninos, fizeram uma promessa, se um dia um deles precisasse do outro, nenhum dos dois abandonaria.

Era uma promessa simples, realizada num dia de verão, sentados no muro atrás de uma capela.

Naquele tempo, acreditavam que amizade era uma coisa que o tempo não conseguiria quebrar.

Daniel acreditava mais nisso do que Elias.

Anos depois, numa tarde de inverno, os dois voltavam para casa por um beco estreito quando ouviram passos atrás deles.

Daniel olhou para Elias e percebeu o perigo.

— Corre! — gritou. Elias correu, mas correu sozinho. Daniel ficou para trás.

Na esquina, Elias ainda ouviu a voz de Daniel chamando seu nome. Por um instante parou, sabia que deveria voltar, mas teve medo. Elias não voltou, continuou correndo, deixando Daniel para trás. 

Foi esse o instante que dividiu suas vidas.

Daniel ficou, o outro continuou correndo.

Naquele dia, ninguém falou sobre o que acontecera. Daniel desapareceu da cidade pouco tempo depois, Elias permaneceu, mas nunca mais foi o mesmo.

Durante anos, tentou convencer a si próprio de que era apenas um menino, que tivera medo, e considerou que não poderia ter feito nada ao amigo Daniel, mas a memória não aceitava desculpas.

Daniel não esperava que Elias o salvasse, apenas que não o abandonasse.

O tempo passou.....

Elias se casou, teve filhos, construiu uma casa e aprendeu a sorrir nas fotografias, mas, por fora, sua vida parecia inteira. Mas, por dentro,   carregava uma pedra.

Às vezes, acordava durante a noite e tinha a impressão de ouvir os passos daquele beco.

Decorridos muitos anos, recebeu uma carta. Daniel estava vivo e voltaria à cidade.

Elias guardou a carta na gaveta por alguns dias. No quarto dia, foi até a estação.

Daniel desceu do trem lentamente; estava mais velho, cabelos grisalhos e uma bengala nas mãos.

Os dois se reconheceram de imediato.

Nenhum deles sorriu.

— Você voltou — disse Elias.

—Voltei.

Ficaram em silêncio, então Daniel perguntou:

Você ainda se lembra daquela tarde?

Elias sentiu a pedra no peito, sim, todos os dias.

Daniel apertou a bengala; eu também!

Elias respirou fundo: “Abandonei você.”

Daniel balançou a cabeça. — Não. Você abandonou a pessoa que era naquele dia.

A frase atingiu Elias mais profundamente do que qualquer acusação.

— E o que você perdeu? Perguntou.

Daniel demorou a responder.

— Perdi a certeza de que alguém ficaria quando eu precisasse.

Elias baixou os olhos. E eu?

Daniel olhou para ele, dizendo: “Você perdeu a paz! E passou o resto da vida tentando pagar uma dívida que ninguém lhe cobrou”.

Elias sentiu os olhos marejarem. Naquele instante, compreendeu que ambos haviam saído daquela tarde carregando perdas diferentes.

Daniel perdera a confiança, Elias perdera a inocência, passou a vida carregando a pedra. Daniel voltou para os dois poderem finalmente colocá-la no chão.

Um havia sido deixado para trás, o outro nunca conseguiu deixar aquela tarde para trás.

Daniel se aproximou. “Eu não vim para perdoar você”, disse.

Elias baixou os olhos. — Eu sei.

— Vim porque cansei de carregar sozinho aquilo que aconteceu.

Elias levantou os olhos; Daniel colocou a mão sobre seu ombro.  

Não houve abraço. Mas, naquele gesto, havia algo que Elias não esperava: não o perdão, mas a possibilidade de recomeçar. Sentiu que a pedra dentro dele começava a perder peso.

Algumas culpas não desaparecem quando somos perdoados; desaparecem quando finalmente temos coragem de olhar para elas sem fugir.

Elias olhou para o amigo. Desta vez, ficou!

 

 


Capela Sistina - Alberto Landi

 



 Capela Sistina

Alberto Landi


Antes de se tornar famosa pelo teto de Michelangelo, a Capela Sistina era apenas um espaço que ainda não conhecia o próprio destino.

Nasceu no coração do Vaticano, sob o pontificado de Sisto IV, o papa que lhe daria o nome.

Pedras foram colocadas umas sobre as outras, paredes erguidas, janelas abertas para deixar entrar a luz de Roma.

Ninguém podia imaginar que, um dia, aquele recinto guardaria uma das mais extraordinárias histórias da humanidade.

Primeiro vieram os pintores, Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli e outros mestres. Em suas paredes, começaram a conversar duas grandes histórias: de um lado, a vida de Moisés, do outro, a vida de Cristo. A antiga lei e a nova. Moisés e Jesus, promessa e cumprimento.

Durante anos, a Capela viveu assim, cercada por histórias. Suas paredes falavam, mas o teto permanecia em silêncio.

Era um silêncio branco e imenso, até chegar Michelangelo. 

Ele não queria pintar, era escultor. Pensava o mundo em mármore, via na pedra as figuras que esperavam ser libertadas.

Mas o papa Júlio II tinha outros planos. Michelangelo olhou para o alto.

Talvez não soubesse, naquele instante, que pisaria num território onde nenhum artista havia estado antes.

Subiu aos andaimes e começou.

No princípio, pintou a separação da luz e das trevas, depois vieram o Sol, a Lua, as águas, a terra, os animais.

E finalmente o homem. Um dedo se aproximou de outro.

E entre os dois permaneceu uma distância tão pequena que cabia nela todo o mistério da humanidade.

Adão recebeu a vida, ao redor dele surgiram profetas e sibilas, homens e mulheres que haviam esperado, sonhado ou anunciado o futuro. E, entre eles, jovens de beleza impossível sustentavam guirlandas, medalhões e a própria energia da Criação.

A capela já não era a mesma, suas paredes continuavam contando histórias, mas agora o teto contava o universo.

Os anos passaram, os papas morreram, outros ocuparam o trono de São Pedro, Michelangelo envelheceu.

Então ele voltou. Diante dele estava a parede do altar. Mais uma vez, ele levantou os olhos, mas já não era o jovem que havia pintado a Criação.

Agora conhecia a guerra, a morte, a perda, a solidão e o peso dos anos.

E, diante daquela parede, não pintou o começo, mas, sim, o fim.

O Cristo do Juízo Final apareceu no centro da Capela como uma força que colocava o universo em movimento.

Os mortos se levantavam, os salvos subiam, os condenados caíam. Os santos mostravam os instrumentos de seus martírios.

E, em algum lugar daquela multidão de corpos, estava o próprio mestre, como se também perguntasse o que aconteceria com um homem depois que sua última obra estivesse terminada.


Então a Capela ficou completa.

Nas paredes, a história da humanidade antes e depois de Cristo; no teto, a Criação; no altar, o Juízo.

O começo, o caminho e o fim.

Talvez seja esse o grande segredo da Capela.

Ela não é apenas um lugar onde se encontram algumas das principais pinturas do mundo, ela é uma viagem.

Entramos por um lado da história e, pouco a pouco, somos levados para outro.

O homem nasce, recebe a liberdade, erra, sofre, espera.

E um dia, o homem se encontra diante do mistério final.

Ele pintou Deus dando vida a Adão.

Depois, muitos anos mais tarde, pintou Cristo julgando os filhos de Adão.

Entre o dedo de Deus e os olhos de Cristo, estava toda a história da humanidade.

E a Capela, silenciosa, permaneceu ali, guardando para sempre o universo que os homens haviam pintado em suas paredes.

Entrei na Capela Sistina, mas saí atravessando a história da humanidade!

 


A FIDELIDADE - Henrique Schnaider

 



A FIDELIDADE

Henrique Schnaider


Ele nasceu numa família extremamente religiosa na fé católica. Seus pais sempre o educaram para no futuro se ordenar Padre.  Para isso, frequentava diariamente junto com seus pais, a paróquia do bairro.  

Otavio era diferente dos meninos dali da rua, pouco brincava com eles e era muito retraído, era caseiro, lia muitos livros de ensinamento católico. 

Ao atingir a maioridade, entrou para o seminário com o firme propósito de atender sua vocação sacerdotal. 

Foram anos difíceis de estudo, dedicação e aprimoramento de seu processo de formação. 

Até que, finalmente, foi consagrado, e Otavio foi recompensado pelos dirigentes que o designaram para a Paróquia do seu bairro, local que tantas vezes frequentou,  logo após o pároco Monsenhor Ribeiro ter se aposentado.  

No dia de sua primeira missa a Igreja estava lotada, já que todos os paroquianos presentes conheciam o Otavio, alguns desde que ele era menino.

A Igreja teve um desenvolvimento muito grande, sempre com muitos fiéis nas missas e nos eventos religiosos. Eram tantas pessoas que quase não cabiam no salão. 

Com o passar do tempo os problemas começaram. Principalmente em relação a algumas fiéis que  passaram a demonstrar interesse físicos no religioso. Isso, porém não o abalava,  ele continuava firme na fé e fidelidade total à Igreja Católica.

Decidiu que deveria resolver a situação que já estava ficando constrangedora. Para isso teria que adotar uma alternativa que trouxesse paz ao seu coração, paz que aquelas mulheres estavam lhe roubando.  

Finalmente, no sermão do domingo após a missa, Padre Otavio transmitiu as novas regras de confissão para todas as mulheres: as fofoqueiras, as beberronas, as preguiçosas, as linguarudas, cada qual teria seu dia apropriado para confessar.

Assim, as mulheres que tinham intenção de trair seus maridos, Padre Otavio as receberia às sextas-feiras, e teriam que vir acompanhadas dos respectivos esposos. 

O efeito que Padre Otavio causou, foi surpreendente! Já na primeira sexta feira, não apareceu ninguém para confessar.  Evidentemente, daquele dia em diante, nenhuma mulher mais o assediou.

E assim, o Padre dirigiu por muitos anos a sua querida paróquia sem que ninguém mais tirasse a sua paz.


Encontro misterioso - Alberto Landi

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