A FOTOGRAFIA
Adelaide Dittmers
A jovem entrou naquela casa há muito abandonada. Um mundo diferente e esquecido por anos a recebeu. Móveis de madeira de lei, cobertos por uma poeira grossa, exalando um cheiro sufocante de passado, fizeram-na espirrar e colocar a barra da blusa no nariz. Abriu, com dificuldade, as janelas e sentiu que estava acordando aquele ambiente de um sono profundo e repleto de histórias.
Percorreu cada cômodo devagar, apagando o escuro ao abrir as janelas, que pareciam gemer ao serem empurradas. Uma sala chamou sua atenção. Era ampla e tinha uma bonita escrivaninha antiga. Vários livros se enfileiravam em uma estante. Ela aproximou-se da escrivaninha e tentou puxar uma das gavetas, que emperrada quase caiu em seu colo.
Várias fotografias antigas e amareladas estavam jogadas ali dentro. Foi tirando uma a uma, sorrindo ao ver os trajes e o ar imponente daquelas pessoas de outra época. De repente, segurou uma que lhe chamou a atenção. Várias pessoas estavam reunidas em volta de uma mesa, provavelmente jantando tranquilamente. Mas haviam riscado o rosto de uma das mulheres presentes. Ela segurou a foto e virou-a, mas não tinha nada escrito no lado inverso. Quem fez isso? Por quê?
Os seus pensamentos se atropelaram pela curiosidade de saber o que aquele retrato, ao mesmo tempo que mostrava, escondia.
Suzana sentou-se em uma poltrona, que gemeu ao sentir seu peso. A briga pela posse da fortuna construída pelo bisavô fora proibida de ser mencionada. Seu avô silenciava qualquer indagação sobre isso. E ninguém ousava ir contra a sua vontade férrea.
Depois de muita discórdia, a casa ficou para seu avô, que viveu lá por apenas alguns anos, mas, quando se casou, a mulher se recusou a morar ali. Acreditava que espíritos malignos se arrastavam por ela. Achava que o peso da discórdia estava em cada parede, em cada canto. Resolveram então vendê-la, mas ninguém quis adquiri-la porque achavam que era mal-assombrada.
Agora, finalmente, uma grande construtora queria comprá-la por uma enorme soma de dinheiro. E seus pais ficaram felizes de se livrar dela e ainda ganharem uma grande quantia inesperada e polpuda.
Suzana nunca acreditou nas histórias que diziam sobre a maldição daquela casa e, naquele dia, foi lá para avaliar o que guardava, já que seria demolida. Subitamente, um mundo diferente e perdido nos anos a impressionou. E a fotografia da mulher riscada ocupava sua imaginação.
Ela sempre fora curiosa sobre o passado da família e nunca entendera a indiferença e o desconforto do pai pelo assunto. Quando perguntado, respondia que essas histórias do arco da velha deveriam ser esquecidas. Que, graças a Deus, viviam em outra época e longe dos mitos e mesquinharias de outrora. Quem era aquela mulher, por que fora riscada, como alguém indesejado? Ela colocou a foto de lado e começou a vasculhar aquela gaveta repleta de um passado distante. Havia cartas e papéis soltos, desbotados pelo tempo, que ela lia um a um, apesar da dificuldade de entender as letras rebuscadas da época.
Um grande envelope apareceu no meio da papelada. Ela o abriu devagar, como se quisesse se desculpar pela intromissão de estar tentando decifrar aquele passado tão distante. Dentro havia um papel, que ela começou a ler. Cada parágrafo era analisado com muita atenção. Parou muitas vezes para respirar. O incontável estava ali contado: a história da mulher, cujo rosto foi apagado.
Era uma carta direcionada a um padre, em que seu bisavô escrevia sobre a traição de sua esposa com um primo muito próximo a ele. Essa descoberta veio à tona anos depois, durante uma briga entre o casal. O mais incrível é que ela teve um filho com o amante e nunca revelou qual deles era o bastardo. Ele a havia espancado com violência, mas depois, quando a ira esfriou, resolveu encobrir o malfeito da mulher para evitar um escândalo, e viveram como dois estranhos, cada um representando seu papel. Uma assinatura que pareceu à Suzana feita com raiva terminava a confissão.
Ela soltou a carta e deu um profundo suspiro. Por que aquela carta tão íntima e secreta havia sido jogada em uma gaveta? Por que o bisavô não a enviou para seu confessor? Eram perguntas que nunca teriam uma resposta.
Suzana levantou-se e olhou pela janela para respirar o ar do presente, porque o de outrora estava sufocante. Nas mãos, a carta reveladora, que ela foi rasgando e jogou pela janela. Aquele era um segredo e tinha que continuar sendo.
Quem era realmente aquela mulher? Por que traíra o marido? Será que ela o escolheu ou foi um casamento forjado pelas duas famílias deles? Essas perguntas ficariam para sempre sem resposta.
E o seu avô, seria ele o filho bastardo?