A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Padre Gigio - Alberto Landi

 



O Padre Gigio

Alberto Landi


O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se tornado insuportável e até constrangedor.

Decidido a dar um basta, ele subiu ao altar e estabeleceu normas rígidas: as confissões seriam sempre após a missa, com a igreja em sua plenitude. Criou um calendário temático: as segundas-feiras para as fofoqueiras, as terças para as ladras de maridos, as quartas para as hipócritas, as quintas para as beberronas, sextas para as feiticeiras e, por fim, as traidoras seriam atendidas logo após a missa de sexta-feira.

O anúncio causou um rebuliço, mas ninguém notou o sorriso malicioso do canto da boca de Tião, o sacristão. Ele limpava os castiçais com a precisão de um cirurgião, via tudo das sombras da sacristia.

Tião sabia que Clotilde, a beata chefe, não liderava o grupo de oração por pura fé, mas para controlar quem entrava e saía do confessionário.

Ela vigiava as outras com um olhar de águia, como se estivesse peneirando as almas antes mesmo de chegarem ao confessionário.

Naquela fatídica sexta-feira, o ar estava pesado, Clotilde estava impecável, o terço de madeira batendo contra o peito, mantendo a fila das traidoras organizada.

O plano de Gigio tinha uma falha, em sua simplicidade não contava com a vaidade dos homens que jamais havia previsto. O seu Juvenal, marido da beata chefe, cansado de esperá-la para o almoço, foi para a igreja, cruzou o umbral com o chapéu nas mãos. A face marcada pelo sol forte não conseguia esconder a tensão que lhe contraía os músculos do rosto.

— Clotilde! Ele chamou, a voz ecoando pela nave da igreja. O almoço está pronto! O que você está fazendo nessa fila?

O silêncio que se formou foi absoluto. As outras mulheres que esperavam na fila da confissão olharam para Juvenal, depois para Clotilde e, em seguida, para o confessionário.

A máscara da santidade dela começou a desmoronar.

Tião, lá do fundo, deu um sorriso discreto enquanto lustrava os objetos do altar, deixando o metal brilhar sob a luz fraca. Ele guardava a chave do enigma: Juvenal não era apenas um homem tenso, era um homem que sabia de tudo, mas preferia o silêncio para manter a paz no lar. 

— Juvenal, saia daqui, sussurrou Clotilde, tentando manter o tom de voz cristão, mas falhando miseravelmente.

— Não saio! — Retrucou Juvenal, dando um passo à frente. Se você vai se confessar, quero ouvir o que você tem a dizer. Após tantos anos, acho que mereço saber por que você não sustenta o meu olhar?

Gigio abriu a porta do confessionário, não parecia surpreso, mas sim satisfeito. Ele olhou para Tião, que apenas deu de ombros, como quem diz: o espetáculo começou.

A igreja que deveria ser um lugar de silêncio tornou-se um palco.

As outras mulheres, vendo a beata chefe ser confrontada, começaram a cochichar. O segredo de uma era o combustível de outra.

Clotilde, acuada, olhou para o confessionário, depois para o marido e finalmente para as vizinhas que julgavam. Ninguém teve coragem de se confessar.

Gigio, vendo aquele mar de gente se encarando, as traidoras de sexta-feira, as ladras de terça, as fofoqueiras de segunda, todas misturadas, soltou um suspiro de alívio. Ele percebeu que, ao expor os pecados de forma tão organizada, ele havia criado um impasse coletivo.

Naquela noite, a igreja esvaziou-se em um silêncio muito mais respeitoso do que qualquer sermão poderia alcançar. Gigio voltou para a sacristia, serviu-se de um chá de camomila e, pela primeira vez em meses, dormiu com a paz de quem não precisa mais vigiar o amanhã. 

Meses depois, as normas do padre continuavam afixadas na porta do confessionário.

As filas diminuíram, os suspiros também.

Mas, segundo as senhoras da paróquia, havia um novo motivo para frequentar a missa das oito.

Afinal, normas controlavam o confessionário, milagres, nem sempre.  

O assédio não acabou por completo.  Apesar das regras impostas pelo padre Gigio, o fascínio que ele despertava nas fiéis continuava a existir, mas a paróquia nunca foi a mesma, agora todos se olhavam com uma desconfiança saudável e o confessionário ironicamente ficou às moscas! 



O Dia em que Roma Roubou… Roubou o Quê? O Padre! - Hirtis Lazarin

 



O Dia em que Roma Roubou…

Roubou o Quê?                                                                              

O Padre! 

Hirtis Lazarin

  


Durante quarenta e sete anos, a paróquia de Alberobello foi comandada pelo Padre Agostino. Ele era um homem santo, mas infelizmente as rugas e manchas castanhas espalhadas na pele traziam o sol de quase um século.  Andava curvado e sofria de uma rinite crônica que transformava os sermões em festivais de espirros. 

Tudo mudou quando o velho clérigo partiu pra Roma e ganhou uma aposentadoria decente; viveria ali de papo pro ar e a desfrutar da presença do gênio renascentista, Leonardo da Vinci. 

A diocese logo tratou de enviar um substituto. No período de menos de um mês, recebeu um milhão de cartas das beatas que cuidavam da igreja e frequentavam as cerimônias religiosas quase todos os dias.


— Temos que cumprir nossas obrigações religiosas. Ficar sem assistir às missas de domingo é “pecado mortal”.  E, cá entre nós, o grande temor delas era o castigo do inferno.

Dona Immacolata, a fofoqueira oficial da cidade, fez, secretamente, plantão na rodoviária, à espera do novo vigário. Até hoje, ninguém sabe como ela conseguiu tais informações. É um dos segredos que prometeu a San Gennaro levar pro caixão. 

Eram 21 horas e alguns minutos quando o padre Francesco desceu do ônibus do “Trasporti Colline D'Oro”. 

Aos olhos da beata, ele não parecia um padre; parecia o protagonista de novela em horário nobre. Tinha dentes perfeitamente brancos — não sei como ela conseguiu ver, tão logo ele desceu do ônibus — cabelos que desafiavam a gravidade e um perfume que misturava sândalo com “pecado perdoado”.

A missa de posse atraiu não só os fiéis assíduos, como outros que só entravam na igreja em dia de casamento ou missa de sétimo dia.

E a chegada do novo líder religioso virou de cabeça pra baixo a rotina da pequena cidade.

Em menos de vinte e quatro horas, o vilarejo sofreu uma pane no sistema: os bancos da paróquia, antes vazios, passaram a registrar recordes de público. Os mais jovens sentavam no chão e com cara de felicidade; mulheres que não pisavam na igreja desde o batizado, de repente, descobriram uma “crise espiritual urgentíssima”; o confessionário virou ponto disputadíssimo, com direito a senha e empurra-empurra; os fiéis redescobriram pecados antigos só pra ficar perto do confessor; a pastoral da juventude e o coral receberam dezenas de novas inscrições em tempo recorde; os jantares beneficentes e o dízimo aumentaram significativamente, patrocinados pelas famílias tradicionais da região. O estoque de velas da cidade evaporou, tantas eram as promessas ao santo padroeiro.


O Padre Francesco não era apenas bonito de rosto; ele tinha o porte físico de quem parecia carregar nas costas o peso dos pecados do mundo. Alto, ombros largos e postura tão alinhada que fazia o coroinha parecer o Corcunda de Notre Dame. Transformava o simples ato de caminhar pela calçada em um desfile de moda sacra.

A admiração quase secreta consolidou-se através de duas situações específicas: a primeira referia-se ao tecido da batina, que no antigo padre sobrava como uma lona de circo; no atual, ficava perfeitamente ajustado nos braços fortes e no peito definido. Luna, a filha chorona do padeiro, com medo de ficar pra “titia”, jurava que o botão superior da roupa clamava por misericórdia toda vez que o padre respirava fundo durante o sermão.

A segunda aconteceu poucas semanas após sua chegada: o pneu do fusquinha velho da paróquia furou bem no meio da praça central. Em vez de chamar um mecânico, o padre simplesmente arregaçou as mangas da camisa clerical — revelando antebraços musculosos — e suspendeu o carro sozinho para encaixar o macaco. O fã-clube das beatas, que assistia a tudo da padaria, quase precisou de atendimento médico de emergência.

O padre Francesco, coitado, era de uma inocência quase angelical. Ele achava que o povo da cidade era apenas extremamente fervoroso e devoto. Mal sabia ele que cada bênção com água benta era recebida como um refresco no calor daquele alvoroço. 

Ele não fingia inocência; ele era genuinamente alienado em relação ao próprio impacto visual. Essa pureza quase infantil tinha explicações muito claras e hilárias: Francesco foi entregue ao seminário ainda muito jovem e passou os últimos quinze anos num mosteiro de clausura no interior da Puglia. Lá, os únicos espelhos permitidos eram do tamanho de uma caixa de fósforos — usados apenas para não se cortarem ao fazer a barba. Acreditava que seu corpo era apenas uma ferramenta de trabalho para carregar peso e capinar o mato crescido no pátio da igreja. 


Enquanto os jovens de sua idade criavam perfis em aplicativos de relacionamento, ele passava as noites em claro decifrando manuscritos de São Tomás de Aquino em latim medieval. 


Se uma paroquiana suspirava profundamente no confessionário, olhando para os ombros dele, e dizia: “Ai, padre, sinto um calor sufocante no peito quando olho pro senhor…”, ele respondia prontamente com um sorriso angelical: “Isso é o fogo do Espírito Santo agindo em sua alma, minha irmã! Vamos rezar três Ave-Marias para acalmar esse coração ansioso.”

Era o único homem na cidade que conseguia receber uma piscadela bem maliciosa de uma jovem sensual e achar que ela estava apenas sofrendo com um tique nervoso; e já fazia junto dela uma oração. 

Essa blindagem moral contra a vaidade e o pecado deixava as mulheres ainda mais desesperadas e os maridos locais secretamente aliviados, acreditando que o “adversário” não jogava no “campo dos machos”.

Quem estava adorando tudo isso era seu Giuseppe, o farmacêutico. Ele nunca vendeu tantos medicamentos…

O Padre Francesco não conhecia realmente a malícia do mundo, apenas a dor do mundo. Agradecia a Deus pelo reavivamento da fé no vilarejo. Trabalhava dezesseis horas por dia. Com a epidemia de confissões, passava horas trancado no confessionário. Levava cada relato tão a sério que jejuava e passava noites em claro rezando pelas pecadoras. Subia colinas sob sol escaldante em visita aos enfermos e passava horas correndo ladeira abaixo e ladeira acima levando alimentos aos pobres. E assim foi durante mais de um ano: sem folga nem descanso. Tudo por amor aos paroquianos.

O colapso veio numa manhã de terça-feira. No calor abafado do confessionário, quando ouviu o terceiro pecado inventado do dia, o ar lhe faltou. Uma onda de frio cortou seu peito e o som dos sussurros do outro lado se transformou num eco distante. Tentou se levantar, o chão de pedra da igreja subiu ao seu encontro. Francesco desabou, a batina negra espalhada pelo chão, o rosto pálido coberto de suor.

Após examiná-lo sob os olhares aflitos das beatas, o médico deu o veredito: o bom padre está sofrendo de uma “estafa mística e avassaladora” provocada pelo esforço sobre-humano de carregar nas costas tantos pecados de toda a população.

O tratamento prescrito foi drástico e, se não cumprido imediatamente, o enfermo poderia vir a óbito: internação hospitalar e isolamento absoluto, caldos   fortificados de carne e, para desespero do fã-clube, a proibição de visitas. 

A transferência do pároco pro hospital da comarca vizinha foi feita na calada da noite, enquanto todos dormiam e com a ajuda do prefeito. O vilarejo mergulhou num luto profundo e doloroso. As beatas transformaram a igreja local num quartel-general de clamor divino: grupos de oração revezavam-se dia e noite e tantas velas foram acesas no altar que o calor ameaçava derreter as imagens dos santos. Mulheres mais velhas, de tanto tempo ajoelhadas, chorando e orando aos céus, não conseguiam mais andar, tamanha era a dor nas pernas.

No entanto, para o mistério da medicina e desespero dos fiéis, as semanas passavam e o padre não melhorava. A febre persistia, as bochechas continuavam pálidas, sem contar que, enquanto dormia, o padre repetia choramingando uma sequência de nomes femininos: Beatrice, Constança, Caterina, Ginevra, Rosa, Ágata… O médico conhecia todas elas: eram as moças mais bonitas e sensuais da paróquia.

O doutor aceitou sua derrota científica e diagnosticou o padre com uma fictícia e raríssima doença: “melancolia espiritual degenerativa”. Como única salvação, redigiu um laudo pra sede central da igreja, em Roma, exigindo a deportação imediata do enfermo pra um hospital em melhores condições de atendimento.

Despachar aquele rapaz de beleza magnética era a única forma de devolver a sanidade ao vilarejo e livrar-se de um mistério não resolvido que poderia arruinar sua reputação. E, de quebra, o seu consultório encontraria paz, já que vivia entupido de beatas adoentadas.

Quando foi colado na porta da igreja o aviso da deportação do clérigo, o vilarejo explodiu num histerismo coletivo que faria inveja às tragédias gregas. Mulheres rasgaram véus de renda, arrancaram os cabelos em praça pública, clamando pela volta do “único santo vivo da Terra”. A viúva mais rica da cidade ameaçou deserdar os filhos se o altar não ganhasse uma estátua em tamanho real de Francesco.

— Mas isso é uma traição, doutor Camilo! — Gritava Dona Immaculata. O senhor contrabandeou nosso santinho?

Doutor Camilo encostado na parede, limpando os óculos com um sorriso de alívio:

— Foi uma operação de resgate médico. O rapaz precisava de cuidados com especialistas em Roma, bem longe das garras devotas de vocês.

Dona Filomena, aos prantos, abanando-se com um lenço:

— Por que tão longe? Para Roma? E a minha pneumonia espiritual? Quem vai ouvir a minha confissão sobre a inveja que senti do bolo de fubá de minha cunhada? O senhor está condenando minha alma ao inferno.

O médico coloca os óculos e solta uma risada:

— Ah! Dona Filomena, o padre estava quase morrendo tentando carregar a culpa de todos os seus bolos.

— Não se preocupem, senhoras, o substituto chega logo. Ele tem noventa anos, é banguela e completamente surdo. Vocês terão que GRITARRRR  seus “pecados mortais” e os maridos e a vila inteira vão ouvir.

O misticismo religioso que envolvera a vila quebrou-se instantaneamente: no domingo seguinte, a igreja voltou a ficar às moscas; as fofocas voltaram a reinar nas janelas e portões; as mulheres, milagrosamente, foram curadas de suas tosses e pecados inventados; ninguém sofria de inveja por ninguém e o confessionário, na santa paz de Deus, foi trancado até a chegada do próximo pároco.


O MURCHAR DA ROSA VERMELHA - Pedro Henrique




O MURCHAR DA ROSA VERMELHA

Pedro Henrique


O sol derramava seu calor pelo chão do pequeno vilarejo escondido por trás das montanhas que cercavam Faletil. 

Os moradores, felizes e auspiciosos, saíam de suas residências com aspirações de tentar trazer o santo pão de cada dia para casa. 

É neste pequeno recanto de pobres almas de mentes nobres que vivem Eudes e seu maior afeto: Jacy. 

Ambos nutriam um pelo outro uma paixão genuína. Aquela que se engendra do mais profundo da alma. Conheceram-se ainda adolescentes. Jacy tinha prazer ao passar, deliberadamente, pela venda do pai de Eudes, senhor Jurandi. 

Todos os dias, às 15:30, vinha ela, com seus cabelos penteados, um pouco de maquiagem no rosto e com seu vestido roxo que, de forma muito sutil, delineava seus atributos corporais. 

Eudes tentou ignorá-la por um certo tempo. Dizia para si e para seus companheiros que não queria saber de relacionamento, queria sim era viver o melhor de sua “solteirice” para, quando se cansar, submergir no mais visceral amor. 

Todavia, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Sendo assim, em um belo dia, Eudes, como quem sofre uma abrupta epifania, viu Jacy passar em frente ao estabelecimento de seu pai e decidiu mexer com a moça. 

De repente, o rosto de Jacy começou a ganhar mais beleza, seus cabelos tinham um ar metafísico quando abraçavam o vento e sua boca parecia chamar docemente o nome do rapaz. 

Portanto, o que era para ser uma conversa se tornou um jantar a dois, jantar este que se tornou noivado. As águas deste rio foram fertilizando-se até o momento em que Helena surge para consagrar este santo amor conjugal que costura Eudes a Jacy. 

No entanto, depois que Helena veio ao mundo, Jacy começou a se sentir de outra forma; pouco a pouco, o mundo ganhava outra textura. O cinza preenchia o que antes era azul, verde, amarelo…

O almoço, que outrora era preparado com zelo e ternura para seu querido amor, agora era feito às pressas ou nem feito. A cama, que nas madrugadas a fundo era palco das encenações de afeto, tinha em seu vigente momento o frio congelante de algo que começou a decair. 

Pouco a pouco, um pensamento foi se solidificando na mente de Jacy. Pouco a pouco, ela se enojava mais. 

Um dia, sua filha, já crescida, com os anos a sufocando e seus cabelos já ganhando o grisalho que é presente da biologia aos Homo sapiens, seu marido quebra o braço após cair da escada enquanto arrumava o estoque da loja que herdara de seu pai, neste momento, já falecido. 

Jacy, então, se defrontou com a obrigação de dar banho no marido, ajudá-lo com as atividades mais basilares, tal qual sentar-se à mesa ou pegar para ele um copo d'água, até porque a visão de seu “amado” foi comida pelos anos. 

Em um momento, ao fazer sopa em um dia frio, foi alimentar Eudes, que não conseguia mexer o braço. 

Gole a gole, ela lhe deu na boca. Quando ia lhe dar o último, o quase velho homem, sem intenção, esbarra na tigela e derruba o pouco do conteúdo que ali havia em Jacy e, neste momento, pela primeira vez em muitos anos, os olhos de ambos se cruzam. Um mundo colide com outro mundo, duas histórias que se intercruzam e jorram nos olhos dos dois o peso de uma vida tão mal vivida. 

Eudes sente, em seu interior, galáxias se movimentando. Sente desejo de perguntar a Jacy como chegaram até ali. Aquele lugar inóspito no qual o afeto não tem direito ao mando.

Porém, sua vontade é cortada pelo veemente tapa que a mulher desfere em seu rosto. 

Jacy sai da cozinha angustiada e vai ao quintal da residência e, de dentro, com o cantarolar dos grilos lhe consolando, Eudes ouve o choro daquela que há muito lhe negou o mundo.

Com certa dificuldade, o rapaz volta ao quarto, mas antes entra no de sua querida Helena, contempla a pequena, hoje já grande, menina que, mais do que Jacy, ama no mundo. 

Ele rememora a primeira vez que foi à escola vê-la se apresentar na festa junina e sorri quando pensa no coração que sua filha lhe fez com seus ínfimos dedos naquele dia. Recorda-se de como era tudo aquilo que aprendeu a amar quando decidiu chamar Jacy para conversar naquele dia. Traz à sua memória como foi ver a mãe da melhor amiga de sua filha. Lembra do olhar dela e de seu sorriso.

Nunca poderá esquecer que ali, no banheiro do colégio de sua preciosa Helena, ele, Eudes Dos Santos Filho, provocou, em sua casa, uma nódoa fedida cujo odor o perseguiria pelos anos a seguir, pois não se obliterara de seus pensamentos o olhar de Jacy vendo o amor de sua adolescência sair de um sanitário sorrindo para outra que não aquela que, de bom grado e embriagada de paixão, durante um ano e dois meses, passou em frente a seu estabelecimento. 

FIM!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

 



A TEMPESTADE DE NEVE

Adelaide Dittmers


Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.

Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.

As ruas estreitas estavam vazias.  O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.

Tom acordou assustado.  Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania.  Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.

Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor.  Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação.  Nunca viu uma nevasca tão assustadora.  O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto.  Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.

Um celular tocou.  Era Robert, um vizinho e amigo.  A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.

Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine.  Tom abraçou a mulher e o filho.  As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.

Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.

Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade.  Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.

Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara.  Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.

Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se.  De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou.  Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.

Tom acionou o seu celular.  Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou.  Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.

O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos.  Os gestos falavam mais do que as palavras.  

Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.

Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.

Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora.  Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.

Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores. 

Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria.  A tristeza do que acontecera emudecera a cidade.  E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade. 





Joaquina - Alberto Landi

 



Joaquina

Alberto Landi


Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.

Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.

Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.

Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.

Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?

Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.

O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.

Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.

Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho. 

Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.

Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.

Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.

E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.

E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.


Agarrado aos retratos - Hirtis Lazarin

 



O céu havia engolido o sol horas atrás, substituindo-o por uma massa de nuvens cor de chumbo que girava como um redemoinho vivo.  O vento não soprava, ele golpeava, arremessando tudo que via à sua frente. O som parecia tiros de fuzil.

Agarrado ao batente da janela com os nós dos dedos brancos de tanta força, Tomás viu a escuridão da tarde ser rasgada por relâmpagos que revelavam a silhueta do furacão avançando pelo vilarejo.

O mar já havia sustentado o pescador por trinta anos, desde quando deu as costas ao asfalto e aos arranha-céus cinzentos, guiado pelo desejo de encontrar refúgio num velho e pacato vilarejo.  

Ele já havia sobrevivido a tempestades brutais e marés violentas, mas o monstro que engolia céu e mar era algo além da sua compreensão. O monstro não estava só zangado, havia se tornado um inimigo impossível de vencer.

Tomás sabia que cada segundo preso àquele batente de madeira reduzia suas chances de sobrevivência. Mas, paralisado pelo medo — ou talvez pelo cansaço da alma — tinha duas alternativas: correr para o porão da velha igreja ou arriscar a subida a pé em direção às colinas.

Ao longe, o caos já havia engolido parte do vilarejo. Via vultos desesperados — vizinhos de uma vida inteira — correndo contra o vento, arrastando crianças pelo braço, abandonando tudo pra trás.  Algumas famílias tentavam pregar as últimas tábuas nas portas franzinas, enquanto os mais jovens, de mãos vazias, fugiam em direção à estradinha de terra. 

As embarcações ancoradas batiam umas contra as outras como brinquedos quebrados, estraçalhando cascos e partindo mastros ao meio. Algumas foram arrancadas da areia e arrastadas para o fundo do mar, sumindo na espuma branca, enquanto outras foram arremessadas contra as pedras da encosta. As redes de pesca, tecidas à mão por gerações, transformaram-se num emaranhado caótico de nylon, nós e algas, presas a destroços flutuantes.

O estalo da madeira do teto arrancou Tomás do transe. Não havia mais tempo pra lamentar os barcos destroçados. A própria casa começava a gemer sob a pressão do vento e o vidro da janela trincou de ponta a ponta. 

Qual decisão tomar?  Agarrar a lanterna e vestir a velha capa de chuva impermeável pendurada atrás da porta e fugir? Ou não mover um milímetro e se abandonar à própria sorte? 

Desde que o câncer levara sua esposa há poucos meses, o silêncio daquela casa de madeira havia se tornado insuportável. Seu único filho, que construíra sua vida longe dali, nos Estados Unidos, era, agora, apenas uma voz distante preocupada em ligações de telefone que pareciam vir de outro planeta. 

Sozinho, cercado pelo luto e pela solidão, Tomás percebeu que não temia a fúria do furacão; na verdade, sentia uma calma melancólica.  Olhando para os estragos provocados pela natureza revoltada, ele soltou o ar devagar, aceitando que se o mar ia levar embora os trinta anos de sua história, que levasse também o que restava dele.

O oceano, finalmente, cobriu a rua e golpeou a estrutura da casa com a força de um naufrágio. A parede da frente cedeu e a água escura invadiu a sala; subiu rapidamente pelas canelas de Tomás e arrastou os móveis como se fossem feitos de papel.  Ele apenas olhou para as paredes do fundo, onde duas fotografias emolduradas começavam a flutuar na água que subia: o retrato amarelado de seu casamento na praia, o símbolo máximo de sua vida construída à beira do mar, e a imagem digital enviada pelo seu filho, sorrindo timidamente do outro país.  Duas Américas separadas por um abismo de distância e água, que agora se misturavam no mesmo turbilhão que engolia o chão sob seus pés.

Quando as vigas do teto começaram a estalar, a água já alcançava o peito de Tomás. Num último esforço, esticou os braços e resgatou os dois porta-retratos. Agarrou e colou-os contra o peito. Uma onda massiva e escura arrombou o restante da estrutura e cobriu completamente o pescador. 

Tomás afundou num silêncio profundo.


O Padre Gigio - Alberto Landi

  O Padre Gigio Alberto Landi O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se torna...