A TEMPESTADE DE NEVE
Adelaide Dittmers
Amanheceu escuro. Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.
Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.
As ruas estreitas estavam vazias. O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.
Tom acordou assustado. Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania. Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.
Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor. Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação. Nunca viu uma nevasca tão assustadora. O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto. Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.
Um celular tocou. Era Robert, um vizinho e amigo. A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.
Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine. Tom abraçou a mulher e o filho. As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.
Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.
Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade. Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.
Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara. Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.
Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se. De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou. Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.
Tom acionou o seu celular. Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou. Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.
O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos. Os gestos falavam mais do que as palavras.
Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.
Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.
Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora. Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.
Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores.
Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria. A tristeza do que acontecera emudecera a cidade. E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade.