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quarta-feira, 10 de junho de 2026

A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

 



A TEMPESTADE DE NEVE

Adelaide Dittmers


Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.

Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.

As ruas estreitas estavam vazias.  O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.

Tom acordou assustado.  Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania.  Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.

Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor.  Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação.  Nunca viu uma nevasca tão assustadora.  O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto.  Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.

Um celular tocou.  Era Robert, um vizinho e amigo.  A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.

Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine.  Tom abraçou a mulher e o filho.  As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.

Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.

Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade.  Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.

Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara.  Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.

Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se.  De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou.  Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.

Tom acionou o seu celular.  Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou.  Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.

O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos.  Os gestos falavam mais do que as palavras.  

Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.

Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.

Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora.  Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.

Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores. 

Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria.  A tristeza do que acontecera emudecera a cidade.  E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade. 





Joaquina - Alberto Landi

 



Joaquina

Alberto Landi


Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.

Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.

Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.

Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.

Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?

Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.

O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.

Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.

Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho. 

Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.

Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.

Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.

E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.

E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.


Agarrado aos retratos - Hirtis Lazarin

 



O céu havia engolido o sol horas atrás, substituindo-o por uma massa de nuvens cor de chumbo que girava como um redemoinho vivo.  O vento não soprava, ele golpeava, arremessando tudo que via à sua frente. O som parecia tiros de fuzil.

Agarrado ao batente da janela com os nós dos dedos brancos de tanta força, Tomás viu a escuridão da tarde ser rasgada por relâmpagos que revelavam a silhueta do furacão avançando pelo vilarejo.

O mar já havia sustentado o pescador por trinta anos, desde quando deu as costas ao asfalto e aos arranha-céus cinzentos, guiado pelo desejo de encontrar refúgio num velho e pacato vilarejo.  

Ele já havia sobrevivido a tempestades brutais e marés violentas, mas o monstro que engolia céu e mar era algo além da sua compreensão. O monstro não estava só zangado, havia se tornado um inimigo impossível de vencer.

Tomás sabia que cada segundo preso àquele batente de madeira reduzia suas chances de sobrevivência. Mas, paralisado pelo medo — ou talvez pelo cansaço da alma — tinha duas alternativas: correr para o porão da velha igreja ou arriscar a subida a pé em direção às colinas.

Ao longe, o caos já havia engolido parte do vilarejo. Via vultos desesperados — vizinhos de uma vida inteira — correndo contra o vento, arrastando crianças pelo braço, abandonando tudo pra trás.  Algumas famílias tentavam pregar as últimas tábuas nas portas franzinas, enquanto os mais jovens, de mãos vazias, fugiam em direção à estradinha de terra. 

As embarcações ancoradas batiam umas contra as outras como brinquedos quebrados, estraçalhando cascos e partindo mastros ao meio. Algumas foram arrancadas da areia e arrastadas para o fundo do mar, sumindo na espuma branca, enquanto outras foram arremessadas contra as pedras da encosta. As redes de pesca, tecidas à mão por gerações, transformaram-se num emaranhado caótico de nylon, nós e algas, presas a destroços flutuantes.

O estalo da madeira do teto arrancou Tomás do transe. Não havia mais tempo pra lamentar os barcos destroçados. A própria casa começava a gemer sob a pressão do vento e o vidro da janela trincou de ponta a ponta. 

Qual decisão tomar?  Agarrar a lanterna e vestir a velha capa de chuva impermeável pendurada atrás da porta e fugir? Ou não mover um milímetro e se abandonar à própria sorte? 

Desde que o câncer levara sua esposa há poucos meses, o silêncio daquela casa de madeira havia se tornado insuportável. Seu único filho, que construíra sua vida longe dali, nos Estados Unidos, era, agora, apenas uma voz distante preocupada em ligações de telefone que pareciam vir de outro planeta. 

Sozinho, cercado pelo luto e pela solidão, Tomás percebeu que não temia a fúria do furacão; na verdade, sentia uma calma melancólica.  Olhando para os estragos provocados pela natureza revoltada, ele soltou o ar devagar, aceitando que se o mar ia levar embora os trinta anos de sua história, que levasse também o que restava dele.

O oceano, finalmente, cobriu a rua e golpeou a estrutura da casa com a força de um naufrágio. A parede da frente cedeu e a água escura invadiu a sala; subiu rapidamente pelas canelas de Tomás e arrastou os móveis como se fossem feitos de papel.  Ele apenas olhou para as paredes do fundo, onde duas fotografias emolduradas começavam a flutuar na água que subia: o retrato amarelado de seu casamento na praia, o símbolo máximo de sua vida construída à beira do mar, e a imagem digital enviada pelo seu filho, sorrindo timidamente do outro país.  Duas Américas separadas por um abismo de distância e água, que agora se misturavam no mesmo turbilhão que engolia o chão sob seus pés.

Quando as vigas do teto começaram a estalar, a água já alcançava o peito de Tomás. Num último esforço, esticou os braços e resgatou os dois porta-retratos. Agarrou e colou-os contra o peito. Uma onda massiva e escura arrombou o restante da estrutura e cobriu completamente o pescador. 

Tomás afundou num silêncio profundo.


A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

  A TEMPESTADE DE NEVE Adelaide Dittmers Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violênci...