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quarta-feira, 6 de maio de 2026
LARISSA, A INTROMETIDA - Henrique Schnaider
Fim de um ciclo - Hirtis Lazarin
Fim de um ciclo
Hirtis Lazarin
A porta da mansão rangeu com um protesto metálico, revelando um interior onde o tempo parecia estar congelado.
Sob uma camada de poeira cinzenta, a mobília sobrevivente emergia como esqueleto de uma época de trinta anos atrás: poltronas de veludo puído, na cor carmim, conservam marcas de corpos ausentes. A maior… era onde o senhor Nicolau bebia os mais finos vinhos.
“No centro da sala grande, a mesa de mogno estende-se, cercada por cadeiras de encosto alto que guardam a postura solene de quem ainda espera pelos donos da casa. Sobre ela, coberta de poeira, ficou um livro aberto. Rui se aproxima: é um livro de poesias, as páginas amareladas e curvas pela umidade de trinta invernos; uma pétala de rosa seca, agora transparente e quebradiça como asa de inseto, marca um verso interrompido. “Minha avó sabia um monte de poesias de cor e, do nada, começava a recitar com a eloquência que só ela sabia impor”.
O ar pesado, com o cheiro de madeira podre, passeava por todo o recinto, expulsando a intromissão de almas intrometidas.
Na parede de reboco descascado e sem cor, um calendário ainda resistia, preso por um prego enferrujado. Um círculo vermelho envolvia os dias 15 e 16 de abril de 1986.
Rui ajustou o nó da gravata, sentindo o ar rançoso pinicar sua garganta. Enquanto o corretor lutava com a fechadura de um dos cômodos, ele caminhou até uma segunda sala. Numa das paredes do afresco pintado, sobraram apenas manchas de tinta. Olhou pro teto e vislumbrou o imenso lustre de cristal que iluminou as glórias da família. “Trinta anos”, pensou ele, “é tempo demais pra uma estrutura permanecer tão firme e guardar tanta mágoa”.
Subiu as escadas e, no topo, parou diante do grande retrato coberto por um lençol amarelado. Ele nem precisava puxar o pano pra saber quem estava ali; os olhos do seu avô ainda pareciam queimar através do tecido podre. O corretor tagarelava sobre a fundação da casa, sem saber que Rui conhecia cada tijolo e as histórias que eles contavam.
Ele não queria a mansão só para restauro. Ele a queria pra garantir que certas portas continuassem trancadas. Enquanto caminhava, sentiu o peso imaginário da chave de ferro em seu bolso, a mesma que roubara vinte anos atrás, na noite em que o silêncio venceu os gritos. Restaurar a propriedade era o único jeito de impedir que escavassem o jardim ou derrubassem as paredes que guardavam o segredo que, há tantos anos, o atormentava nas noites de insônia. Rever cada canto daquela mansão fazia um suor frio escorrer pela sua nuca — a gola da camisa já estava molhada.
— Uma estrutura sólida — dizia o homem, batendo descuidadamente na parede. Rui queria gritar pra ele parar, mas sua voz ficou presa na garganta, seca de poeira e pânico.
Entraram na biblioteca. O herdeiro parou diante da poltrona, que repousava solitária como uma sentinela de frente pra janela alta. A luz do entardecer atravessava as cortinas desfiadas, projetando sombras longas sobre o couro craquelado que um dia abrigou o corpo frágil da avó. Era estranho como, mesmo após três décadas de abandono, o móvel ainda parecia manter a forma de quem o ocupava, com o assento levemente afundado e os braços de jacarandá gastos pelo toque obsessivo de mãos. Era ali que ela passava parte do dia enfiada entre livros; tinha o hábito de riscar com lápis as passagens do texto que mais lhe interessavam.
Daquele ângulo, quem estivesse sentado ali teria a visão perfeita de todo o jardim.
O corretor deslizou a mão pelo encosto da poltrona e mais nuvem de poeira se levantou. — “Veja esta peça, é jacarandá legítimo” —-- comentou com um sorriso comercial, ignorando o cheiro de mofo. —-- “Coisas assim não se fazem mais hoje em dia; a cadeira de sua avó foi feita pra durar pela vida toda”. Enquanto ele falava, soltou um suspiro de cansaço e deixou o corpo cair sobre a poltrona. O jacarandá rangeu sob o peso exagerado e um som seco ecoou pelas estantes vazias da biblioteca. — Ah, eles sabiam o que era conforto naquela época — exclamou o homem, ajeitando as costas contra o encosto rígido.
Ao se acomodar, ele franziu o cenho e remexeu-se para o lado, tateando a lateral do assento. — Tem algo aqui embaixo me cutucando, algo duro. Deve ser uma mola quebrada, ou quem sabe um daqueles reforços de ferro antigo".
O herdeiro mantinha os olhos fixos no forro lateral, onde algo rígido parecia forçar a costura por dentro. O mundo lembrava da avó como uma senhora devota e gentil, mas o neto guardava a verdade fria, o segredo que sustentava o nome daquela família. Só ele sabia. Só ele carregava a imagem nítida daquela noite do dia 15 de abril, trinta anos atrás, quando viu, pela fresta da porta, a velha senhora costurando o forro, após guardar um livro pequeno no interior da poltrona.
Enquanto o corretor tateava o remendado no tecido, os dedos quase alcançando o que estava oculto, a voz do herdeiro cortou o silêncio. — “Levante-se. Eu não quero que você se acomode nas antiguidades da minha família. Se o senhor está aqui pra avaliar a estrutura, foque nas paredes, no teto e nos cômodos”.
O homem, sem graça, pigarreou e recuou em direção à janela, pedindo desculpas. Rui respirou fundo. Sabia que não poderia deixar aquele homem sozinho naquela sala. Com certeza, alguma dúvida foi implantada na sua curiosidade.
Nesse momento, entrou na biblioteca um gato feito de vento; seu gemido de fome, fraco e trêmulo, desviou a atenção dos homens. Não tinham ali qualquer alimento para oferecer, e o corretor, prontamente, acompanhou-o até o jardim. Lá de fora, gritou que iria até o carro estacionado na rua. “Não entendi o resto da frase.”
Nesse momento de pausa, Rui fechou os olhos e reviveu aquela cena: “Olhei firme pela fresta da porta e não estava ali a vovó que me contava histórias. Não era mais a vovó da pele macia com cheiro de pó de arroz. O jeito que ela olhava pros lados me lembrou os passarinhos que fogem do gato. Os olhos pareciam duas bolas de gude vazias. Ela gesticulava na frente do vovô e gritava, gritava alto e impedia que ele abrisse a boca.
Eu não entendia o que ela falava. Entendi uma única frase na qual as palavras foram valorizadas. — “Christina é mais uma de suas amantes”? — O rosto avermelhou de um jeito que me dava medo; as veias do pescoço saltaram como cordas. Vovô, com ar de desdém, ignorou-a e virou as costas. Ela se apoderou de um peso de cristal que ficava sobre a mesa — e eu nunca pude tocar.
Chegou mais perto dele e, com toda força, arremessou o peso com a intenção de acertá-lo na cabeça. Foi rápido. O som foi tão seco e oco como o som do coco jogado no chão. Vovô caiu desajeitado no assoalho.
Ela levou as mãos à boca. O vermelho do rosto sumiu na hora, ficando de um branco de papel. Ela se ajoelhou e chamou o nome dele baixinho: “Nicolau? Nicolau?”, mas ele não respondeu. Um fio de sangue escorreu da sua cabeça. Foi aí que o rosto dela mudou de novo. Ela não chorou. Olhou pra peça de cristal, agora suja de sangue; os olhos ficaram pequenos e gelados. Percebeu que ele não iria mais acordar.
O som dos passos do corretor ecoando pelo corredor de madeira anunciou o seu retorno, mas o neto estava mergulhado num tempo diferente. O homem trouxe consigo o cheiro do cigarro e o barulho das chaves balançando. Alheio ao fato de que o herdeiro mal o escutava, caminhava de um lado pro outro, gesticulando sobre possíveis reformas.
Exausto de lutar contra os fantasmas que o observavam de cada canto escuro da biblioteca, Rui ergueu a mão e, com um tom de voz seco, despediu-se do corretor, alegando precisar de ar e de tempo para processar a herança. Finalmente estava sozinho com a poltrona, pronto para enfrentar o que aquela agenda lhe contaria.
Aproximou-se da poltrona e deslizou os dedos até encontrar a costura. Não foi preciso força; o tempo já havia enfraquecido as linhas. Com apenas um puxão, ele trouxe a agenda de bolso preservada na escuridão de trinta anos. Ao abrir a primeira página, o cheiro de papel antigo subiu às narinas e ele espirrou repetidas vezes. Os garranchos elegantes da avó saltaram aos olhos. Ali, entre datas e nomes de mulheres, provavelmente amantes do avô, estava confessado o cálculo frio de como uma morte pode ser forjada com um silêncio bem planejado.
O que a avó nunca soube, enquanto costurava aquela agenda no interior do couro, é que segredos nunca morrem quando há testemunhas. Rui, encolhido no escuro do corredor, não apenas viu o golpe e o descaso de sua omissão; ele absorveu cada detalhe da transformação daquela senhora. Ele carregou um peso em sua própria consciência, assistindo ao mundo lamentar uma 'fatalidade' que ele sabia ser apenas um cálculo.
Agora, com a agenda aberta em mãos e o corretor já longe, leu cada página detalhadamente. E não eram tantas… Rui não se sentia chocado; ao contrário, sentiu um estranho alívio. O ciclo finalmente se fechava. Ele olhou para as páginas amareladas uma última vez, fechou o caderno e o guardou no bolso. A casa estava vazia, a avó se fora e, pela primeira vez em tantos anos, o silêncio da biblioteca não era mais um esconderijo, mas apenas silêncio.”
A morte do patriarca foi contada como uma fatalidade triste. No luto da família, a história contada foi sempre a mesma: o coração cansado do vovô havia falhado, fazendo-o desfalecer e bater a cabeça na quina da mesa. Era uma narrativa impecável, aceita por médicos e legistas, que justificava o sangue no tapete e o corpo estendido no chão. E a avó, com seu luto impecável e os olhos sempre úmidos de uma saudade ensaiada, tornou-se a guardiã oficial dessa mentira.
Caminhou até a lareira e arrancou cada página da agenda. Riscou um fósforo e a chama devorou cada folha. A confissão e a mentira foram se transformando numa fumaça cinzenta que subiu pela chaminé e se dispersou no céu vasto lá fora. Enquanto o fogo morria, um peso invisível desmoronou dos seus ombros. Ele não era mais o menino escondido atrás da porta; era um homem livre daquela herança maldita. Sem olhar pra trás, ele deixou a mansão e fechou a porta.
O segredo virou pó e, pela primeira vez, após tantos anos, finalmente, Rui respirou em paz.
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