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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tempos de Guerra - Adelaide Dittmers

 




Tempos de Guerra Adelaide Dittmers José acordou assustado. O som agudo de uma sirene avisou que um novo bombardeio iria atingir a cidade. Estava naquele país para uma reunião sobre mudanças climáticas causadas por vários tipos de poluentes, que contribuem para o aquecimento global, quando estourou uma guerra. A região sempre foi palco de várias disputas pelas riquezas entranhadas em seu solo. Agora representantes de vários países estavam presos no lugar porque os voos foram suspensos. Ele colocou um roupão, pegou o celular e saiu do quarto do hotel como uma flecha disparada por um arco. No corredor, pessoas apavoradas corriam para alcançar o subsolo e tentar sobreviver ao ataque. José nunca teve que enfrentar uma situação como essa. Morava em uma região com muitas carências, mas pacífica. Vários bombardeios já tinham atingido a cidade em pontos diferentes, mas este, pelo jeito, poderia alcançar o hotel. A garagem já estava fervilhando de pessoas quando chegou. Os rostos assemelhavam-se a máscaras franzidas pelo medo. Ele observou uma menina que, agarrada à mãe, chorava assustada pela situação desconhecida e incompreendida. Seu pensamento fez o voo, que ele não podia fazer, para voltar para sua esposa e a filha de seis anos. Precisava, mais uma vez, manter a calma e a lucidez para superar a ansiedade, que lhe tomava a alma. Num impulso instintivo, José aproximou-se da criança e a pegou no colo, tentando acalmá-la, cantando uma música infantil e a balançando como se estivesse brincando. A criança parou de chorar. Os olhos apavorados da mãe o atingiram e o obrigaram, comovido, a usar o idioma inglês para apaziguar a menina. De repente, vários estouros se seguiram, acompanhados pelas sirenes enlouquecidas pelo ataque, no entanto, naquele subsolo, o silêncio reinava, como se as pessoas quisessem se tornar invisíveis e invulneráveis. Subitamente, o som ensurdecedor do bombardeio foi diminuindo. As pessoas ergueram os olhos para o alto, como se pudessem ver o céu, onde os drones mortíferos haviam passado, destruindo tudo o que havia abaixo deles. José entregou a criança à mãe e percebeu que as mãos dela tremiam incontrolavelmente. A impotência e a piedade por aquela mulher indefesa fizeram com que mordesse seus próprios lábios. Aos poucos, os hóspedes e os funcionários do hotel foram se movendo calados. Estavam vivos, mas sobreviveriam se houvesse outros bombardeios?. José subiu para seu quarto. O celular tocou. Era a esposa. Ele deu um profundo suspiro e modulou a voz para disfarçar o perigo que havia enfrentado e disse estar tudo bem. Quando desligou, uma lágrima desceu sorrateira por sua face. Quando sairia daquele caos. Viera para um encontro, que almejava melhorar e mesmo preservar o planeta de desastres naturais, mas o homem, em busca de mais poder e riquezas, fazia guerras e destruía o que estivesse em seu caminho para conseguir o que queria. Com gestos automáticos, tirou o pijama e foi tomar um banho. A água tépida caiu como um bálsamo em seu corpo, lavando e levando para o ralo o medo, que lhe tolhia a alma. Vestiu-se e desceu para tomar o café da manhã. Os garçons corriam de um lado para o outro como se nada tivesse acontecido. Ele pensou, sacudindo a cabeça, como os homens conseguem disfarçar seus medos mais profundos. Sentou-se a uma mesa perto da janela e olhou para o jardim florido, um pássaro pousou em uma folha, na sua inconsciência não havia percebido o perigo que correu. O celular tocou. O promotor do encontro sobre as mudanças climáticas avisava que em uma hora passaria um microônibus para levá-los até a fronteira, onde entrariam no país vizinho que não estava em guerra e embarcariam em um avião, que os levaria a um país neutro, de onde seguiriam para casa. José inspirou fundo e soltou o ar pela boca. O alívio amenizou sua expressão contraída. Levantando os olhos, viu a jovem mãe e a criança, que acabara de entrar no salão. Sem hesitar, levantou-se e dirigiu-se a ela, perguntando se ela queria sair do país, explicando como era o esquema escolhido. Um sorriso emocionado iluminou o rosto da moça e ela apenas moveu a cabeça para dizer que sim. Uma hora depois, estavam no veículo, que os levaria para longe daquele inferno. O grupo estava calado, cada um imerso em seus pensamentos. A tensão pairava no ar. O pequeno ônibus ia avançando pela estreita estrada e só se ouvia o roncar do motor. O grupo permanecia em silêncio, os olhos rondavam a redondeza. O medo de outro ataque era visível no rosto sério de cada um. A criança era a única passageira, que apontava para os campos, que corriam velozes pelas janelas, onde carneiros pastavam indiferentes e inconscientes ao que podia ocorrer a qualquer momento. Outro bombardeio eclodiu. Os fugitivos olharam-se assustados, as palavras ficaram guardadas dentro deles, mas os olhos disseram tudo o que a voz não conseguia articular. O motorista virou para trás e gritou em um inglês tosco que o ataque estava sendo muito longe, atrás deles. O medo, porém, é um algoz, que altera o raciocínio dos seres humanos e os prende em uma teia de emoções desencontradas. O grupo ficou rígido, os músculos contraídos. Enfim, a estrada foi sendo vencida e longe surgiu uma ponte fortemente vigiada por militares do país vizinho. Os passageiros levantaram a cabeça e um 'graças a Deus' saiu da boca de um deles. O micro-ônibus parou no começo da ponte e todos desceram para apresentar os documentos e explicar por que estavam no país em guerra. O motorista também apresentou os seus. Não queria voltar para aquele inferno. Era um imigrante e não tinha família lá. Os soldados autorizaram o veículo a continuar a viagem até uma cidade próxima. Depois de cerca de quarenta minutos, chegaram à cidade, em que pegariam um voo, que os levaria a outro país neutro. Duas horas depois, estavam aterrissando no país, em que tomariam o rumo de casa. José despediu-se emocionado do grupo, que almejava um mundo melhor e que fora pego pelo pior que o homem pode causar: uma guerra para ter mais poder. Ao se despedir da mãe e da criança, lágrimas de gratidão molharam o sorriso dela e, com a voz embargada, ela se apresentou: Sou Catherine e ela é Mary e ele também disse o seu nome. No voo para o seu país, José enviou um WhatsApp para a esposa. “Estou voltando.” Um ícone sorrindo e um coração tentaram traduzir sua alegria de voltar para casa.

As Linguarudas do bairro - Adelaide Dittmers

 


   



As Linguarudas do bairro

Adelaide Dittmers


Cristina entrou na casa, esbaforida.  Não podia acreditar no que acabara de ouvir.  Duas vizinhas conhecidas por suas línguas venenosas estavam se deliciando com a história da traição de Mario, um homem respeitado por todos, que sempre lutava para melhorar o bairro em que viviam.  Discreto e educado, agia sem alardes para conseguir um asfaltamento em alguma rua ou para limparem os bueiros, que podiam causar um alagamento nas épocas de chuva.  

Segundo elas, houve uma briga feia entre ele e a mulher. Os gritos dos dois foram ouvidos por toda a vizinhança e o estampido de algo que caiu com violência no chão assustou todos.

A mãe, ao ver a agitação da filha e ao escutar o que ela acabara de contar, ponderou que aquela história não era confiável porque as duas mulheres eram conhecidas pelos seus mexericos e adoravam cornetear tudo o que poderia ser errado, verdadeiro ou falso na vida alheia,

— Será verdade? A mãe questionou. Ele sempre me pareceu um homem tão sério.

— Também fiquei na dúvida! Diz Cristina.

— Não sei não.  Essas duas são tão fofoqueiras… ele não é uma pessoa briguenta.  Ao contrário, sempre tão centrado e gentil.  Não consigo acreditar!

O pai, que estava no escritório trabalhando em um processo, aparece na sala.

— O que está acontecendo? 

Cristina repete o que ouviu das vizinhas.  

— Vocês vão acreditar no que dizem essas duas.  Elas aumentam tudo o que ouvem por aí. E muitas vezes já espalharam notícias falsas.  São duas solteironas infelizes e frustradas.  E prosseguiu: Mario é uma boa pessoa e a sua vida particular só interessa a ele.

— Então você aprovaria se, por acaso, ele tivesse uma relação fora do casamento? Diz a mãe, já com as garras de fora.

— Não disse isso.  É que não temos o direito de meter o nariz na vida dos outros.  Seja considerado certo ou errado o que fazem. E digo mais: quem muito acusa é que pode ter o rabo preso.

— Ah! Júlio, você quer dizer que elas… Não, não posso acreditar! São duas linguarudas, mas… será que seriam capazes de ter uma vida… nem ouso falar…

— Aqueles de quem a gente menos espera…

— Você está sabendo de alguma coisa dessas duas?

— Tudo é possível.  Nunca se sabe… Às vezes, quem só olha para o lado… quer desviar a atenção de seus feitos desonestos.

Cristina olhou para os pais e, com um sorriso maroto, disse:

— Nossa! Acho que se remexerem a vida de todo o mundo.  Sei lá… o que vamos descobrir.

— É melhor então nos fixarmos na nossa própria vida.  Disse a mãe. E deixarmos os outros resolverem seus problemas, suas desavenças e não sei mais o que…

— A não ser que estejamos na berlinda.  Completou o pai.

E, com um sorriso zombeteiro, acrescentou: 

De repente, vão dizer que o meu escritório de advocacia também está envolvido nesse caso do Vorcaro.

E os três caíram na gargalhada.




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA - Henrique Schnaider




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Henrique Schnaider


João era o tipo de sujeito teimoso, não cedia em nada, tanto nas discussões com os seus familiares quanto em qualquer outro tipo de situação.

Sua fama já corria longe e ele acabava sempre se dando mal pela sua forma de ser. Tinha dificuldade para ter amigos, já que ninguém aguentava sua teimosia.

Certo dia, lá ia o João até a esquina da sua rua, onde se reuniam algumas pessoas que ficavam ali conversando. Foi chegando, se acercando das pessoas que estavam conversando, e, devido à sua fama de sujeito teimoso e sempre dono da razão, olharam para ele com desconfiança, mas continuaram a conversa.

 Estavam discutindo sobre a educação dos filhos e havia um consenso de que os pais deveriam ser rígidos com os filhos, já que achavam que é de pequeno que se torce o pepino.

João, enxerido, se meteu na conversa e só para ser do contra, já que em casa era bem durão com seus dois filhos, começou a dizer para as pessoas que na educação deles, os pais deveriam ser bonzinhos e permitir tudo a eles.

As pessoas que ali estavam começaram, irritadas com o João, a discutir com ele. Logo viram que ele deu aquela opinião só para ser do contra. E, o pior é que nesse momento chega, na esquina, o filho mais velho de João, de nome Ronaldo, pedindo ao pai algum dinheiro para comprar um sorvete. João ficou vermelho de tão nervoso e gritou para o filho que fosse embora, antes de dar uns tapas, como era de costume.

Gargalhadas do grupo, pois naquele instante, João agiu exatamente ao contrário do que havia falado para as pessoas. E assim, completamente desmoralizado, se afastou dali com a cara no chão.



PAM PAM ESTOROU A BOMBA NA CASA DELA, ELA FALAVA DA VIDA DOS OUTROS, ACABAVA FALANDO DA VIDA DELA

Margarida era uma mulher que não media esforços para falar mal dos outros e, assim, com essa fama, ficou conhecida das pessoas.

Ela morava numa casa simples de uma cidade pequena do interior e, justamente por isso, era mal falada pela maioria das pessoas do lugar.

Margarida morava com sua mãe e avó, que eram farinha do mesmo saco, então, quando juntavam as três, era um Deus nos acuda.

E assim ela foi levando a vida e, à medida que os anos passavam, ela ficava com a língua cada vez mais afiada.

Quem mexe com fogo, um dia pode sair queimado, e assim aconteceu com Margarida, a mãe e a avó.

Certo dia, sempre tem um dia, Margarida foi falar mal da mãe e da avó para uma vizinha delas de nome Salete, que ficou ouvindo calada todo veneno que a Margarida despejou sobre elas.

Salete não perdeu tempo, pois era da mesma laia que Margarida, e foi à casa dela e contou tudo o que Margarida havia falado de mal da mãe e da avó. Ambas ficaram furiosas e chamaram a Margarida para tirar satisfação, e ali na casa, o circo pegou fogo, foi uma tremenda briga, onde panelas e outros objetos voaram para tudo que foi lado. 

As três tiveram que ir ao pronto-socorro por saírem machucadas daquela briga. Mas nenhuma delas aprendeu a lição, pois na semana seguinte, lá estavam elas falando mal da vida dos outros e ninguém pode garantir que também voltariam a falar mal umas das outras.



QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COMO GATO

Ernestino era um sujeito que passou muita necessidade desde pequeno, e ainda continuava pobre, lutando para melhorar de vida.

Ele era casado com Maria e tinha dois filhos, Arlindo e Josemar. A luta era difícil para trazer o pão nosso de cada dia, e assim Ernestino, que era catador de coisas que as pessoas jogavam fora e depois ia no ferro-velho ver o que conseguia amealhar, recebia muito pouco do que recebia em troca.

Maria, sua esposa, ajudava no sustento da família, fazendo faxina em algumas casas. Os filhos, ainda pequenos, estavam estudando o curso primário e assim não podiam ajudar a família. 

Ernestino ficava sempre pensando numa maneira de melhorar de vida e pelo menos que não faltasse comida na sua casa.

Dessa maneira, nosso herói achou uma maneira de sobrar mais dinheiro e melhorar de vida.

Ali perto de sua casa tinha um parque que não tinha nenhuma fiscalização e ele percebeu que lá tinham muitas pombas e pensou em caçá-las. Não perdeu tempo, armou uma arapuca e conseguiu dessa maneira pegar dezenas de pombas. Levou-as para casa, sacrificou as aves e limpou e preparou um belo almoço de pombas assadas para muitos dias, e ele, a esposa e os filhos comeram por vários dias até se fartar. Era só ir lá caçar de novo.

Como Ernestino achou uma forma de sustento, comida não faltou mais na sua casa e o dinheiro que ganhavam dava para melhorar um pouco de vida. 

E assim ele provou que, usando a sua inteligência e astúcia, encontrou um meio de melhorar a sua vida e a de seus familiares. Assim, ele provou que sempre tem uma maneira de resolver os problemas, pois quem não tem cão caça como gato. 



GIZA, a investigadora - Alberto Landi

 



GIZA, a investigadora

Alberto Landi


Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como sombra, com roupas gastas e passos firmes.

A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos. 

Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.

Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.

 Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.

Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.

E, quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.

Naquela noite, ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.

Finalmente encontrei-o, Antonio Benevides, murmurou. Empurrou a porta devagar e entrou no apartamento envolto em penumbra.

--Quem é você para entrar desse jeito em minha casa? — Perguntou, apertando o charuto cubano entre os dedos grossos.

Ele era moreno, de estatura mediana, cabelos grisalhos em um rabo de cavalo e correntes de ouro no pescoço.

A fumaça subia lenta pelo apartamento de paredes úmidas e luz amarelada.

Giza permaneceu imóvel na porta descascada. A velha mochila pendia dos ombros como se carregasse apenas roupas velhas, mas seus olhos atentos examinavam cada detalhe do cômodo.

— Curioso — disse em voz baixa.

Homens culpados sempre perguntam: quem sou eu? Os inocentes perguntam o que aconteceu.

Antonio soltou uma risada curta, nervosa, e tomou outro gole de rum.

— Você entrou no apartamento errado, sua velha.

— Não. Passei meses procurando este endereço.

O silêncio endureceu o ambiente. O ponteiro do relógio velho de parede parecia bater mais alto.

— O que você quer? Dinheiro? — Perguntou ele, tentando recuperar a arrogância.

Giza aproximou-se devagar.

— Quero nomes. Quero saber onde estão os documentos e quem mandou apagar Celso Ferreira.

Antonio desviou o olhar pela primeira vez.

— Não sei do que está falando.

Giza então retirou do bolso um pequeno isqueiro de metal riscado pelo tempo e colocou-o sobre a mesa.

Antonio empalideceu.

— Esse isqueiro estava no apartamento do homem que você assassinou há sete anos — disse E. Desde então, venho seguindo o rastro da fumaça que você deixou pelo caminho.

Antonio apagou nervosamente o charuto no cinzeiro, encolhendo-se no sofá, parecendo menor em sua estatura do que realmente era.

Ele passou as mãos pelos cabelos, agora úmidos de suor. O cheiro de rum, tabaco e mofo parecia sufocar o pequeno apartamento.

— Você não percebe com quem está mexendo — murmurou.

Giza puxou uma cadeira e sentou-se diante dele como quem visita um velho conhecido.

— Entendo mais do que imagina.

Ela abriu a mochila gasta e retirou uma pasta fina, amarelada pelo tempo. Fotografias escorregaram sobre a mesa: notas fiscais, rostos desfocados, placas de carros, um retrato antigo de Celso Ferreira sorrindo ao lado da esposa e de uma menina pequena.

Antonio observou tudo em silencio.

— A menina cresceu sem pai — disse Giza. A esposa faleceu esperando justiça, e você continuou fumando charutos caros como se o passado tivesse apodrecido sozinho.

Ele tentou manter a firmeza.

— Eu apenas obedecia ordens.

— Todo covarde diz isso em algum momento.

Do lado de fora, ouviu-se uma sirene bem distante cruzando a madrugada. Ela não desviou os olhos dele.

— Quem mandou matar Celso?

Ele hesitou, as mãos tremiam levemente ao alcançar o copo de rum.

— Se eu informar, eles me matam.

Giza inclinou-se para frente, e se não falar, continuará morrendo um pouco toda a noite.

O velho ventilador girava no teto com um ruído metálico insistente.

Finalmente, ele respirou fundo. Foi por causa dos arquivos do porto. Celso descobriu desvios de carga, armas, documentos falsos, gente importante envolvida.

— Nomes — exigiu Giza.

Ele fechou os olhos por um momento como quem atravessava uma porta sem retorno.

Alguns políticos e empresários estavam envolvidos, mas havia um homem, o chamavam de dom Álvaro.

Ela permaneceu imóvel, mas seus dedos apertaram discretamente a borda da mochila.

Aquele nome estava escrito havia anos em uma folha dobrada no fundo do bolso interno.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava perto do verdadeiro inimigo.

A chuva começou a bater nas janelas do prédio com violência, espalhando goteiras pelas paredes descascadas do apartamento.

Benevides parecia envelhecer diante dela a cada segundo.

— Onde encontrou dom Álvaro? Perguntou Giza.

Ele demorou a responder. O medo agora falava mais alto do que a arrogância.

— Ninguém encontra aquele homem, ele aparece quando menos se espera.

Giza levantou-se lentamente. Seus joelhos estalaram discretamente, mas a sua presença continuava firme e ameaçadora.

— Todo homem deixa rastros, Antonio.

Ela guardou as fotografias na pasta enquanto ele acendia outro charuto com mãos tremulas.

— Você não faz ideia do tamanho disso. . O porto era só uma parte. Havia muita gente envolvida. Celso tentou entregar tudo aos federais.

— E alguém entregou Celso antes!  Ele baixou a cabeça, o silêncio confirmou o que as palavras evitavam.

Ela caminhou até a janela, e lá embaixo a cidade seguia indiferente: ônibus vazios, faróis cortando a chuva, pessoas correndo sob marquises. 

— Quem puxou o gatilho? Perguntou ela sem se virar.

Ele demorou para responder.  Fui eu.

A frase caiu pesada no apartamento.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas o ventilador cansado e a chuva.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, não havia surpresa em seu rosto, apenas um cansaço antigo profundo.

— Celso pediu para viver?  

Antonio apertou os dedos ao redor do copo. Pediu.

— E mesmo assim você atirou.

— Eu tinha uma filha pequena, eles ameaçaram minha família.

Ela virou-se devagar. O medo explica muita coisa, Antonio, mas não apaga o sangue.

Ele tentou dizer algo, mas parou ao vê-la abrir novamente a velha mochila.

De dentro dela, ela retirou um pequeno gravador portátil. A luz vermelha ainda piscava.

Ele empalideceu. Você gravou tudo, cada palavra.

Nesse instante, ouviu-se um ruído seco no corredor e passos.

Ela ergueu os olhos para a porta descascada e percebeu imediatamente que alguém mais havia chegado.

Celso Ferreira era um funcionário ligado ao porto, discreto, metódico e aparentemente comum. Trabalhando entre documentos de carga, registros de navios e autorizações alfandegárias, acabou descobrindo um esquema criminoso muito maior do que imaginava.

Ele percebeu desvios de mercadorias, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro envolvendo políticos e empresários. Diferente de outros que preferiram o silêncio, ele decidiu reunir provas.

Mas a sua maior tragédia foi acreditar que ainda existiam pessoas honestas suficientes para protegê-lo.

Antes de morrer, ele tentou entregar os arquivos às autoridades. Passou semanas escondendo documentos, fazendo cópias e mudando rotinas para proteger a esposa e a filha. Mesmo assim, acabou traído.

Ele era o tipo de homem tímido, educado, sempre carregando pastas debaixo do braço e falando baixo demais. Porém, justamente por isso, ninguém imaginava que teria coragem de enfrentar gente tão poderosa.

Para Giza, o caso nunca foi apenas sobre um assassinato.

Celso representava algo raro, alguém comum que escolheu não se vender. E talvez por enxergar nisso uma dignidade quase esquecida.

Na velha fotografia que Giza guardava na mochila, Celso aparece sorrindo ao lado da família num domingo simples de verão. É essa imagem, mais do que os documentos, que a faz continuar caminhando pelas ruas atrás dos nomes da lista.

Os passos no corredor pararam diante da porta descascada. Antonio empalideceu.

— Eles me encontraram, sussurrou.

Mas, antes que pudesse reagir, ouviu-se uma batida forte.

— Polícia! Abram a porta!

Ele levou a mão ao peito, sem saber se sentia alívio ou pavor. Giza continuou imóvel. 

Outra batida mais insistente.

Giza caminhou lentamente até a entrada e abriu. Três policiais entraram com armas erguidas, o cheiro da chuva entrou com eles.

— Ninguém se mexe! 

— Antonio levantou as mãos imediatamente.

Um dos policiais olhou para ela com estranheza. A velha mochila, os sapatos gastos, o rosto marcado pelo tempo, nada nela lembrava alguém capaz de desmontar anos de silêncio criminoso.

— A senhora chamou a polícia? Perguntou um dos oficiais.

Ela apenas apontou para o gravador sobre a mesa.

— A confissão está inteira aí.

O oficial aproximou-se devagar, apertou o botão e ouviu a voz trêmula de Antonio.

Fui eu.

O ambiente mergulhou num silêncio pesado. Do lado de fora, a chuva começava a diminuir.

Antonio foi algemado sem resistência. 

Ao passar por Giza, evitou encará-la.

Ela ajeitou a mochila nos ombros.

Os policiais conduziram Antonio pelo corredor estreito do prédio. As luzes frias piscaram sobre as paredes úmidas enquanto vizinhos curiosos abriam portas apenas alguns centímetros.

Um dos oficiais voltou-se para Giza.

— A senhora deveria ir conosco prestar depoimento.

Ela deu um sorriso cansado, meu depoimento começou há muitos anos.

Antes que ele insistisse, ela já caminhava em direção às escadas.

Lá embaixo, a cidade ainda brilhava, molhada pela chuva da madrugada. Ônibus transitavam quase vazios, um jornaleiro abria sua banca, em algum lugar distante ouvia-se música de Nelson Gonçalves.

Ela desapareceu na calçada como mais uma figura anônima entre tantas outras.

Mas na mochila velha, ainda restavam nomes na lista.

E, enquanto a cidade despertava sem notar sua presença, ela já seguia em direção à próxima missão! 


Atrás da Cortina - Hirtis Lazarin



Atrás da Cortina

Hirtis Lazarin


Para os adultos, o condomínio “Residencial Villaggio” era um local seguro, protegido por portaria blindada, câmeras de alta definição e três regras sagradas: não andar de skate na calçada, não fazer barulho após as vinte e duas horas e fingir que todas as famílias são bem educadas.

Josefina — ela odiava esse nome — quebrava as duas primeiras regras por puro tédio e a terceira por pura desconfiança.

Pra ela, aquele lugar era um ninho de cobras engravatadas e, pra cada regra criada, tinha certeza de que havia um segredo que eles tentavam, desesperadamente, esconder dela.

Sentada bem camuflada no topo do muro de três metros, à espera da perua escolar, Josefina observa o SUV blindado do vizinho sair pelo portão duplo da portaria. O motorista sorri e acena cordialmente para o segurança da guarita.

De cara feia e olhos cerrados: “É, gente… Vocês acreditam…? Prestem atenção em quem sorri demais, às sete horas da manhã, num dia frio.  Pra mim, ou está mentindo, ou está prestes a cometer um crime. 


A única exceção no mundo hipervigilante de Josefina era o Leo, a única pessoa pra quem ela confessava seus pequenos “crimes” de condomínio. Enquanto o resto do mundo parecia fantasiado de comercial de margarina, Leo era real. Se Josefina decidisse invadir a casa do síndico na calada da noite apenas para provar uma teoria paranoica, ela sabia que não iria sozinha; ele estaria pronto pra aceitar e dividir as consequências.

Enquanto ela enxergava segredos perigosos em cada “bom dia” dos vizinhos, o amigo trazia leveza e uma coragem moleque que a fazia baixar a guarda.

Sentado no tapete do quarto da menina, Leo girava um chaveiro no dedo, assistindo à cena com um sorriso de canto.

— Pronto? — Perguntou ele, guardando o chaveiro no bolso. — O censo da zona oeste foi concluído?

— Não brinca, menino. Isso é segurança básica. — Josefina respondeu tão compenetrada e séria como um enxadrista em campeonato mundial.

Ela examina cada movimento das pessoas ao seu redor, antecipando ameaças que, com certeza, nunca acontecerão. 

— Dividi o prédio em três categorias cruciais: os Insuportáveis, os Suspeitos e os… Toleráveis.

Ela abriu o caderno na primeira página, mostrando uma caligrafia impecável com palavras escritas com canetas de três cores diferentes.

— Na lista vermelha… são os que eu não suporto, o topo vai para o Seu Ribeiro, do 42. Ele passa o dia olhando pelo olho mágico e finge que está regando as plantas no corredor só para ouvir a conversa dos outros. Um perigo. Logo atrás vem a Dona Marluce, do 61. Aqueles bolos que ela traz “por pura gentileza” têm cara de suborno. Ninguém é tão legal assim sem querer algo em troca.

Léo soltou uma risada alta, deitando-se no tapete.

— JOSEEEFINAAA… a mulher é tão doce! E a lista verde? Tem alguém que se salvou do seu tribunal?

Ela travou na hora quando ele pronunciou cada sílaba daquele nome odiado, com uma lentidão cruel. O som arrastado soou como uma provocação, fazendo o sangue dela ferver instantaneamente enquanto ela cravava as unhas na palma da mão, fuzilando-o com o olhar. 

— Quantas vezes vou ter que repetir? Eu não gosto desse nome. É uma relíquia herdada de minha bisavó paterna; deveria ter ficado no século passado. Parece nome de menina velha.   Fala sério… Você acha que Josefina combina comigo?

— Para de drama, Fininha — provocou-a novamente, sabendo qual apelido ela mais odiava. — Se você fosse personagem de uma história infantil, seria a vilã desconfiada que mora na torre. Combina com você.

Josefina guardou um… dois… palavrões na garganta. A provocação de Leo ficou no ar, desafiadora. Qualquer outra pessoa que dissesse aquilo viraria inimiga mortal de Josefina, mas com ele era diferente. Eles ficaram ali parados, medindo forças em silêncio por alguns instantes, até que a faísca de briga perdeu o fôlego. O garoto desviou o olhar, mantendo na boca um sorriso maroto, e Josefina descruzou os braços, relaxando os ombros. Ninguém insistiu no assunto. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o jeito deles de dizer que estava tudo bem e que a amizade continuava intacta. 

E a conversa pode continuar tranquila.

— A lista verde…

— Apenas duas famílias são aceitáveis — apontou ela. — Os Oliveira, do 14. Eles têm três gatos, nunca fazem barulho e o filho deles passa o dia jogando videogame com fone de ouvido. Ou seja, zero interação, o que os torna vizinhos perfeitos. E a Dona Sônia, aquela senhora idosa do térreo que cuida do jardim. Ela não faz perguntas difíceis e uma vez me defendeu quando o Seu Ribeiro reclamou que a gente estava correndo no pátio.

— Sabe, amigo, morar em condomínio só me deu uma certeza: não dá para confiar em ninguém. Vivo cercada de muros e portões, mas os meus bloqueios mentais são ainda maiores. A única exceção é você, o único amigo que realmente me conhece e em quem confio de olhos fechados. De resto, mantenho distância. 

Josefina não confiava em ninguém; os vizinhos eram apenas rostos suspeitos atrás de janelas fechadas. Só o Léo tinha permissão para cruzar seus muros de desconfiança e, nos dias bons, era o único que conseguia fazê-la esquecer o peso daquele nome antiquado. 

Leo inclinou-se para frente, curioso — Onde entro nisso tudo?

— Você não está no dossiê, Leo — disse ela, guardando o caderno na gaveta com chave. — Você é o meu parceiro de equipe. E agora que mapeei o terreno, a gente precisa planejar como evitar o andar do Seu Ribeiro na hora de descer até o térreo.

Os dois entraram no elevador e foram até a quadra e se acomodaram no chão de cimento, com as costas apoiadas na grade de ferro. O silêncio estava confortável, até que o olhar afiado de Josefina travou num ponto no bloco da frente.

No terceiro andar, a cortina do apartamento 32 se moveu. Um homem de terno, segurando uma maleta escura, olhou para os lados antes de puxar o tecido fino.

— Muito estranho! O casal que mora ali — conheço os dois — trabalha muito e o imóvel permanece vazio o dia todo. 

Josefina sentiu o sangue ferver de desconfiança. Quem era aquele cara? Por que ele estava se escondendo? Ela deu um soco forte no joelho de Léo, sem tirar os olhos da janela, revoltada porque ninguém mais parecia notar que algo muito errado estava prestes a acontecer naquele condomínio.

Leo soltou um resmungo pelo soco no joelho, massageando o local, mas seus olhos seguiram a direção do dedo apontado de Josefina. Ele olhou pra janela do apartamento 32, agora com a cortina completamente fechada. Voltou a encarar a amiga com aquele sorrisinho de deboche.

— Josefina, você está assistindo a muitos filmes de espionagem — Léo sussurrou, embora estivesse achando graça. — Aquele apartamento está para alugar há meses. Deve ser só o corretor ou o dono limpando o lugar.

— Corretores não se escondem atrás da cortina parecendo fugitivos, Léo! — Ela rebateu, segurando o braço dele com força. — Conheço as pessoas deste condomínio. Aquele terno, aquela maleta… Tem alguma coisa muito errada ali e vai acontecer agora.

Enquanto discutem na quadra, o homem de terno sai do prédio principal a passos rápidos. (mais adiante essa expressão já é dita)

— Ele está saindo! —  Puxando Leo pela manga da camiseta antes que ele pudesse rebater.

O homem de terno cruzou o pátio a passos largos, sem olhar para os lados. A maleta escura balançava pesadamente ao lado de sua perna. Ele passou pela portaria, acenou de forma mecânica para o porteiro e ganhou a calçada da rua movimentada.

— A gente vai mesmo atrás dele?  O tom de deboche havia sumido, substituído por uma faísca de pura adrenalina. Aquele lado danado dele adorava quebrar a rotina pra acompanhar as maluquices da amiga.

— Claro que vamos.  — Josefina já estava correndo em direção à entrada principal.

Eles passaram pela saída do condomínio tentando parecer naturais — o que, para dois adolescentes de treze anos sem rumo, significava caminhar rápido demais e olhar para trás a cada cinco segundos. Quando pisaram na calçada da rua, o homem já estava a quase meio quarteirão de distância, dobrando a esquina perto da padaria.

Josefina apertou o passo, mantendo uma distância segura, usando os carros estacionados e os postes como escudo para os seus olhos atentos. Leo ia logo atrás, fingindo mexer no celular para disfarçar, mas com os olhos fixos nas costas do terno cinza.  Ela não sabia pra onde aquele homem estava indo, mas sua intuição dizia que o mistério do apartamento 32 estava prestes a ser revelado na próxima esquina.

O homem de terno diminuiu o passo de repente. Josefina empacou na calçada, puxando Léo pelo braço pra trás de uma banca de jornais. O homem olhou para trás e, com os olhos cerrados, varreu a rua com o olhar. Ele sabia que estava sendo seguido.

— Viu só? — Josefina sussurrou, o coração batendo na garganta. — Ele percebeu.

Antes que Léo pudesse responder, o homem acelerou o passo quase num trote, dobrou a esquina seguinte à esquerda e entrou numa rua bem mais estreita e movimentada por causa do comércio local.

— Vamos, corre! — Léo chamou, agora totalmente investido na missão.

Os dois dispararam e viraram a esquina logo atrás dele, mas a calçada ali estava cheia. O homem de terno usou a multidão a seu favor. Ele ziguezagueava entre as pessoas, jogando o corpo para o lado, sumindo e aparecendo entre os pedestres. Josefina tentava não perder o terno cinza de vista. 

De repente, o homem pegou um caminho inesperado: entrou numa galeria antiga de lojas, um lugar com várias saídas e corredores escuros.

— Ele entrou ali! — Josefina apontou, parando na entrada da galeria cheia de letreiros de neon piscando. — Se a gente perder ele de vista agora, nunca mais vamos saber o que estava acontecendo naquele apartamento.

Ela puxou o amigo pelo braço e os dois entraram na galeria, com os olhos bem abertos. O homem de terno fazia movimentos absurdamente exagerados: ele olhava para trás dramaticamente, fingia falar no relógio de pulso como se fosse um rádio e dobrava os corredores quase colando o corpo nas paredes, parecendo um vilão de desenho animado. Para a desconfiada, aquilo era a prova máxima de um crime internacional. Para o homem, era apenas uma quarta-feira divertida.

Ele entrou num corredor sem saída, perto dos banheiros antigos, e parou de costas. Josefina e Léo espiaram pela quina da parede, prendendo a respiração.  O homem colocou a maleta no chão, olhou para o teto de forma misteriosa e, devagar, começou a abrir os fechos metálicos: Clac! Clac!

— Não saia do lugar — Josefina gritou, não aguentando mais a ansiedade, dando um passo à frente com os punhos cerrados. Léo tentou puxá-la de volta, tarde demais.

O homem se virou devagar, com uma expressão séria que logo se desfez num enorme sorriso. Ele abriu a tampa da maleta misteriosa e revelou o conteúdo: não havia dinheiro falso, nem planos secretos e nem joias roubadas. A maleta estava completamente lotada de gibis antigos e brinquedos.

Ele tirou o paletó, totalmente relaxado. —Souu o tio do Léo! Seu pai me deu a chave do apartamento 32 — há tempo estava vazio — pra eu guardar, por alguns dias, minhas caixas de mudança. O Léo me mandou uma mensagem da quadra dizendo que a vizinha mais desconfiada do prédio estava de olho em mim, e eu resolvi entrar no personagem e brincar com você.

A garota cruzou os braços, com as bochechas vermelhas de vergonha e raiva. O mundo de Josefina desabou naquele segundo. Ela olhou para o lado e viu Léo se acabando de tanto rir, apontando pra ela, orgulhoso da peça que havia pregado com o tio. Para eles, era só uma piada. Para ela, uma humilhação pública. A única pessoa, pra quem ela desarmava os escudos havia usado o seu maior traço — a desconfiança — para transformá-la em piada.

Josefina ignorou as desculpas, não gritou, não chorou e não fez cena. Ela apenas deu um passo para trás e cravou os olhos em Léo. Foi um olhar de desprezo puro, frio e cortante, daqueles que desarmam qualquer um. Ele percebeu o erro na hora e o riso murchou.

Ela correu. Correu pela calçada movimentada, passou batido pela portaria do condomínio e só parou quando fechou a porta do próprio quarto. Aquela tarde mudou tudo. Josefina cortou Léo da sua vida de forma definitiva. O orgulho e a mágoa falaram mais alto e a brincadeira do menino custou caro.

Até hoje, eles moram no mesmo condomínio, cruzam-se pelos corredores, mas nunca mais se falaram.


Tempos de Guerra - Adelaide Dittmers

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