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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A SAGA DE UMA FAMÍLIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Existem fatos em nossa vida que não conseguimos explicar. Presenciamos, comentamos, a única coisa que conseguimos exclamar: Parece uma saga familiar!

Compareci ao velório de uma filha de uma sobrinha, falecida muito jovem, de um Câncer maligno. Verdade que, atualmente, essa doença está invadindo muitas famílias!

Quando fui desejar os meus sentimentos tristes ao pai dela, a única coisa que conseguimos exclamar foi: “Parece mesmo uma saga!”

Nunca nos vemos, a não ser nos funerais da família.

A mãe da jovem, minha sobrinha, grande professora da USP, lutou bravamente, também falecendo da mesma doença.

Lembrei-me que a mãe dela, minha cunhada, também notável professora, de grande conhecimento dos problemas sociais e muito amada por seus alunos, deixou vários livros escritos e ainda estudados, morreu também, muito cedo, da mesma doença, iniciando essa série de falecimentos na família, todas lutando bravamente contra o terrível e maléfico Câncer.

Um pai, filhos e netos, sofrendo a dor de parentes chegados devido ao grande mal!

Nesse momento, meio boquiaberta, fiquei sem saber como me expressar ou comunicar os meus sentimentos. Nunca os vejo, são do lado do meu falecido marido, que também morreu de Câncer, mas fiquei sensibilizada e comovida com essas mortes tão prematuras e tristes. Realizaram um grande esforço, mas não conseguiram vencê-la.

Falando sobre sagas, não consegui viajar através da ficção. Existem mesmo em nossa vida real! Grande tristeza!


A Saga da Família Vargas - Hirtis Lazarin

 



A Saga da Família Vargas

Hirtis Lazarin

 

Tudo começou no ano de 1880, com Elias Vargas, pescador de uma aldeia remota.

O céu ficou cor de chumbo. Ondas brutais e devastadoras jogaram o barco ocupado por três pescadores contra as pedras pontudas de uma costa esquecida. Apesar de habituados às condições austeras, ao sol, ao sal e ao frio, apenas um deles se salvou. Atirado por ondas revoltas e selvagens contra pedras afiadas, seu corpo sangrava. As feridas, expostas ao sol e sal, queimavam, sem pena nem dó.

Apesar dessa fúria desenfreada do mar, ele não sucumbiu. Feito um réptil à beira da morte, debateu-se e rastejou do jeito que pôde até alcançar a areia da costa. Agonizando ficou, por quanto tempo nunca conseguiu saber.

Febril e já à beira da morte, Elias começou a alucinar. Via os companheiros, que o mar levou, caminhando sobre as águas. Grita o nome deles, mas cadê sua voz? A árvore de sua linhagem aparece-lhe, sucessivamente, à frente. As raízes expandem-se a partir do amontoado dos seus ossos. Dois galhos crescem… crescem… até onde seus olhos não alcançam mais. Em vez de folhas, ela produz engrenagens de ferro.

Foi quando, num desses delírios em que se arrastava sem rumo, tropeçou e caiu numa depressão no centro da ilha. Ao tentar se levantar, seus dedos compridos e calejados cravaram numa lama cinzenta: era sal puríssimo misturado a um mineral metálico desconhecido.

À custa de frutos silvestres, algas marinhas e coco, conseguiu recobrar a consciência e sobreviveu. A sua vivência de cinquenta anos em contato com o mar dava-lhe esperança de que, mais dia, menos dia, sairia desse encarceramento. Utilizou restos de óleo de baleia e madeiras secas, que o mar trazia à costa, para manter uma pequena chama acesa no ponto mais alto da ilha. No entanto, ele não buscava apenas socorro, mantinha guarda, obsessivamente, à jazida que havia descoberto.

Um navio de patrulha costeira avistou a coluna de fumaça persistente. Ao desembarcarem, os marinheiros não encontraram um náufrago desesperado, mas um homem magro e febril, sentado sobre montes de sal e minerais que ele mesmo havia organizado em pilhas geométricas.

Elias estava com as mãos em carne viva de tanto cavar, mas se recusava a sair da ilha sem suas “amostras”. Foi resgatado carregando apenas uma bússola quebrada, salva dos destroços, e os bolsos cheios daquela terra cinzenta e salina.

Durante toda a viagem de volta ao continente, não disse uma única palavra sobre os companheiros que faleceram. Permaneceu no convés, afastado dos tripulantes, olhando fixamente para o oceano. Um olhar de quem não estava só sendo salvo, mas sim de quem estava partindo para uma guerra de conquista. Olhos frios de quem imaginava que o sofrimento pode ser transformado em moeda.

Como pescador e homem simples, Elias vivia, até então, em perfeita harmonia e respeito ao mar e a tudo que ele lhe oferecia. Entretanto, esse mesmo mar tentou arrebatar-lhe a vida. O naufrágio, os dias de horror na ilha e o medo da morte atormentaram-no durante meses. Tudo isso quebrou essa confiança. Ser “simples” significava ser “frágil” e frágil ele nunca mais seria, nunca mais estaria à mercê de forças maiores que ele — fosse o oceano, o governo ou a pobreza. Era a “fobia da impotência” em desenvolvimento.

Elias usou a pequena porção que trouxe nos bolsos para curar feridas de marinheiros no porto. A mistura mineral daquela ilha específica tinha propriedades antissépticas superiores a qualquer sal comum da época. Vendeu essas primeiras amostras como um “tônico milagroso”, conseguindo um capital inicial dez vezes maior do que o valor de uma carga comum de peixe.

Com o dinheiro das vendas, ele não comprou barcos novos, mas sim o título de posse daquela ilha deserta, que o governo considerava inútil. Ninguém entendia por que ele queria um pedaço de rocha salina, até que  começou a exportar o sal não só para a mesa, mas para a indústria de conservas e curtumes, que pagava fortunas por um produto que preservasse a carne por mais tempo sem estragar o sabor.

Para expandir, Elias precisava de infraestrutura. Ele atraiu dois investidores, prometendo sociedade eterna. Assim que o porto e as primeiras máquinas de extração foram instaladas, ele utilizou as dívidas acumuladas durante a construção para levar os sócios à falência, comprando as partes deles por uma fração do valor. Foi nesse momento que as “mãos sujas de terra e sal” deixaram de ser de um trabalhador e passaram a ser as de um empresário frio e ambicioso.

Em menos de uma década, ele controlava todo o fluxo de sal da região, criando o “Trono dos Vargas”, que, mais tarde, seria herdado e expandido pelo filho Artur.

“A moralidade é um luxo de quem tem o estômago cheio. Para que vocês jantem em prata, eu preciso ter as “mãos sujas de terra e sal''.  — Pensamento que Elias repetia sempre quando a família se reunia à mesa farta.

Mesmo após ficar rico, Elias nunca se sentiu seguro. Via o mundo como um lugar onde, para alguém ganhar, outro tem que perder. Isso o tornou um empresário solitário e paranóico. Não via concorrentes, apenas competidores que ainda não haviam sido derrotados.

O pescador que amava o horizonte morreu como um imperador que só conseguia olhar para o chão, contando cada grama de cristal que saía de suas terras.

Elias tinha três filhos: Edgar, Helena e Arthur.

Edgar Vargas, o mais velho, pensava diferente do pai e se recusava a trabalhar nas empresas da família. Queria estudar, viajar, desfrutar a vida e gastar o dinheiro disponível. Sabia quão grande era a fortuna acumulada. Jamais trabalharia nas minas de sal ou nos barcos, preferindo os livros. Para Elias, isso foi visto como covardia ou fraqueza. No dia em que Edgar decidiu partir para a capital e estudar, o pai cumpriu a promessa:  deserdou o filho e o declarou morto; queimou seus registros e proibiu Arthur e Helena de citarem seu nome. Dona Josefina, a esposa, coitada! Chorou o resto da vida.

Helena Vargas representava a consciência da família. Enquanto Artur construía, Helena via as rachaduras. Ela ouvia as vozes das comunidades e gerações sacrificadas para sustentar o luxo da mansão. Era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio.

Tentou usar a fortuna para curar as feridas sociais causadas pelo pai e pelo irmão, mas descobriu que o sistema dos Vargas era uma fortaleza e fora desenhado para corromper. Sua vida foi uma luta constante contra as correntes que a prendiam ao nome da família.

E foi Arthur Vargas, o filho do meio, quem assumiu as empresas da família.

Arthur transformou a ilha num complexo industrial.  Substituiu as pás de madeira por escavadeiras de ferro e correias transportadoras. As engrenagens enferrujadas foram trocadas por máquinas. Descobriu que o sal da ilha era essencial para a nova indústria de plásticos e produtos de limpeza que surgia na Europa. Parou de vender sal para cozinhas e passou a fornecer para as grandes fábricas do mundo, triplicando o valor do negócio. Financiou ferrovias e portos privados apenas para escoar sua produção. No seu mundo não havia espaço para a emoção. Tudo deveria ser funcional, produtivo e controlado. A família era uma máquina, tanto que a sua rigidez o impedia de validar qualquer sofrimento.

Se ele foi a força que cimentou o império, foi também a marreta que estilhaçou sua relação com   Helena, a irmã altruísta e visionária. Ela era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio. Representava a consciência sufocada de uma dinastia que se perdeu na ganância. E para o irmão, a empatia dela era uma “falha mecânica” que ameaçava a estrutura dos Vargas.

Como não conseguia dobrar a vontade da irmã através da lógica empresarial, usou sua rigidez para cercá-la. Removeu-a das decisões da empresa e a confinou à vida doméstica e artística, acreditando que, se ela ficasse calada, o conflito deixaria de existir.

A moça não perdeu tempo. Num diário guardado a sete chaves, registrava, detalhadamente, os acontecimentos importantes do dia a dia e os segredos obscuros da família que ela descobriu em cartas antigas, abandonadas no sótão da mansão:

  O naufrágio original não foi um acidente do destino. O pai teria sabotado o barco da família rival para garantir a posse exclusiva da ilha de sal. A fortuna dos Vargas não nasceu do esforço, mas de uma traição que custou a vida de amigos próximos do patriarca.

— A expansão industrial dos empreendimentos causou a morte de centenas de trabalhadores por doenças respiratórias por conta da falta de segurança nas minas de sal. O irmão sabia dos riscos, mas ocultou os relatórios médicos pra não interromper a produção, tratando as pessoas como peças descartáveis.

  A jazida original estava em terras que pertenciam a uma comunidade nativa dizimada por negligência.  E documentos provavam que a fortuna era, legalmente, um roubo.

  Artur usou a fortuna para subornar cientistas e esconder que a extração intensiva estava matando a vida marinha local.

Helena escreveu também sobre o medo de ser internada à força e como o irmão interceptava suas cartas para advogados e ativistas.

“Um legado não é o que você deixa para os seus filhos, mas o que você deixa de carregar para que eles possam caminhar.” Essa frase aparecia em muitas páginas do diário.

Arthur não teve filhos e Helena nunca se casou.  Nenhum dos dois tinha herdeiros para aquele imenso patrimônio.  O homem trabalhou tanto que não teve tempo pra pensar nisso e Helena nunca se casou.

Quem herdaria esse patrimônio?

Helena vinha se preparando pra quando chegasse o momento em que a transmissão de poder se tornasse inevitável.  E esse momento havia chegado. Às escondidas da família, esteve sempre em contato com Edgar, o irmão deserdado. Manteve-o informado de tudo que acontecia nas empresas e o ajudou muito financeiramente. Ele morava em Londres, onde se estabilizou profissionalmente como advogado e construiu uma família linda com Emily e dois meninos, Jasper e Harry.

O ano era de 1965 e Arthur, que nunca se preocupou com a saúde e tinha a vida desregrada com mulheres e muita bebida, adoeceu. O diagnóstico foi o mais inesperado possível: câncer no fígado. Fez todos os tratamentos que a medicina tinha pra oferecer, mas antes de um ano veio a falecer.

Era, portanto, chegada a hora de Jasper, o filho mais velho de Edgar, entrar em cena. Desde pequeno, fora treinado por Helena para a missão de, um dia, se necessário fosse, assumir as rédeas do império “Vargas”. Ela sabia que isso aconteceria e que a única forma de salvar a alma da família era destruindo o “trono”. Ela previa que o sal acabaria por corroer a estrutura da mansão e da linhagem, e que o sobrinho seria a força que destruiria as engrenagens enferrujadas pela dor.

Jasper tornou-se, legalmente, não só o guardião legal e financeiro de Helena, como também assumiu o comando do patrimônio que a família havia construído. Mas, o conflito interno de Jasper começou ali: ele amava a tia e ouvia seu grito por justiça, mas também estava preso pelas engrenagens industriais que precisava operar para não deixar a família naufragar.

Ele passou quase dez anos tentando conciliar o legado de Arthur com a consciência de Helena. Até que, na década de 1970, deu início ao longo processo de cancelamento de contratos, venda do maquinário, devolução das terras ocupadas e indenização justa aos funcionários e às famílias que choravam pelos que morreram intoxicados pelo sal.

Helena foi a verdadeira responsável pela libertação da família. Foi através de seus escritos e do seu exemplo que Jasper encontrou a coragem para “deixar de carregar” o fardo. Ela plantou a semente da mudança e a semente, em mente fértil, floresceu.

A primeira manhã de Helena e Jasper, fora dos portões da mansão, não teve o brilho do ouro, mas a claridade ofuscante da verdade. Eles caminharam descalços pela areia, sentindo o sal secar na pele, não mais como uma maldição, mas como um batismo. Atrás dele, a mansão Vargas parecia encolher, tornando-se apenas uma sombra cinzenta contra os penhascos.

 

 

A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

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