Fora do meu CEP
Hirtis Lazarin
Faz
mais de dois anos que Frederico decidiu morar sozinho, entre o concreto e o silêncio.
Nasceu numa família barulhenta onde não existia privacidade e os conflitos eram
constantes. Ter uma chave que só ele possuía e encontrar a xícara de café
sempre na mesma posição trazia-lhe estabilidade emocional.
Era
um domingo à tardinha.
O vento entrava pela fresta da janela como um fantasma de seda, gelado e invisível. Sobre uma mesa pequena, ao lado do sofá de um lugar só, estava uma xícara de chá que não fumegava mais; o que restou foi apenas uma mancha no fundo da porcelana.
O telefone tocou diversas vezes. É claro que ele sabia quem estava do outro lado da linha, era um amigo que falava demais, tinha hora pra iniciar a conversa, mas não tinha hora pra acabar. Queria apenas terminar o dia assistindo a um bom filme na tv. Ele adorava os coreanos, já tinha assistido a três deles e adorou! O difícil era decorar os nomes compostos dos personagens: Y-seo, Seo-ha, Do-yom, Si-woo. Imagine um filme com meia dúzia de gente… Só mesmo escrevendo os nomes num papel.
A tarde escureceu de chuva. Sentiu frio e se enrolou na manta que cobre o tecido rasgado do sofá — não sobrou ainda dinheiro pra comprar um novo — era mais prático e mais rápido do que buscar um casaco no quarto. Na verdade, acredito que Frederico é uma alma que cultiva a imobilidade.
Com o controle remoto nas mãos, percorreu o Netflix e, rapidinho, o filme já estava rolando. Ali, no calor do tecido e no silêncio da noite, o sono não veio como um cansaço, mas como uma extensão da paz. Ele fechou os olhos e dormiu ali mesmo no sofá. Acordou apenas quando a luz pálida da segunda-feira chegou ao quarto.
Pra ele, não havia o peso da “segunda-feira”, já que domina o próprio tempo. O despertar foi, simplesmente, o retorno à rotina. Com exatidão, ele estendeu a manta no sofá e preparou o corpo para o mundo externo: repetiu uma sequência de exercícios até sentir-se em plena forma pra enfrentar o dia. Escolheu cada peça de roupa sem vaidade, apenas como uma armadura necessária para atravessar o caos urbano.
Ao fechar a porta do apartamento e ouvir o estalo metálico da fechadura, deixou para trás o seu santuário de concreto. Caminhou pelo corredor do prédio com a coluna ereta, levando consigo o mesmo silêncio que cultivara no final de semana. Ele não ia ao trabalho como quem é arrastado pela obrigação e, por mais barulhenta que fosse a rua, ele carregava no peito o silêncio do seu próprio apartamento.
Como se seguisse um roteiro invisível, ele cruza a porta da padaria-de-todos-os-dias. O cheirinho do pão quente é irresistível. Sem precisar dizer uma palavra, recebe do atendente o mesmo café curto e a média na chapa caprichada. Senta-se na banqueta do canto e observa o vai-e-vem da rua. É um momento silencioso, o último respiro de calma antes que a engrenagem do dia de trabalho comece a girar.
Mas
houve um dia na semana em que ele deixou o trabalho todo atrapalhado. Tomou o
ônibus errado e, quando percebeu, já era o ponto final. Estava igual barata tonta, batendo nas paredes e
tentando decidir se vira de perna pra cima ou se continuava correndo. Entra num
boteco e consome várias doses de cachaça.
Afinal, o que aconteceu naquele dia?
A empresa onde ele trabalha, ao final de cada ciclo de metas, faz um sorteio entre os funcionários. O RH havia decidido que, daquela vez, o prêmio máximo não seria em dinheiro, mas em “experiência” — uma palavra que soava perigosa para alguém que passara os dois últimos anos vivenciando nada além do necessário.
Entre copos de plástico e muita alegria, o nome foi anunciado pelo chefe. O silêncio foi subitamente estilhaçado por gritos e aplausos acompanhados por olhares sem rumo que buscavam o sortudo do dia: Frederico, o premiado, era o homem mais reservado da empresa.
Com
o mesmo desapego com que alguém caminha para um interrogatório, ele buscou o
envelope-surpresa. Pensou em não abrir, mas não houve jeito diante da gritaria
curiosa dos colegas. Gaguejou cada palavra que leu: “uma semana numa
fazenda”.
Por um segundo, o mundo ao redor — o cheiro de café, o burburinho das conversas paralelas e a luz fluorescente do escritório — tudo pareceu perder a nitidez. Ele sentiu uma espécie de vertigem. Enquanto os colegas celebravam a 'sorte' com tapinhas nas costas, ele sentia apenas o peso de uma engrenagem quebrar dentro de si. A ordem que ele levara tempo para edificar no concreto de sua casa, acabara de ser atropelada pelo capricho do acaso.
Na manhã seguinte, abriu uma mala grande e dobrou suas roupas com precisão matemática, preparando-se para o embate entre a sua ordem de cimento e o caos orgânico da terra.
O veículo percorreu muitos quilômetros em três horas de viagem e parou. Quando Frederico abriu a porta, o ar não pediu licença e invadiu seus pulmões com uma densidade de terra molhada e mato que o concreto jamais permitira. O homem de cinza desceu do carro e sentiu, pela primeira vez em anos, a incerteza do solo. O cascalho rangia sob seus sapatos de sola lisa e não aceitava a sua pisada enérgica. Ele estava diante da sede da fazenda, mas seus olhos não buscavam a arquitetura, eles se perdiam na ausência de quinas. No campo, o céu não era pedaços entre prédios, era uma majestade esmagadora que o fazia sentir-se perigosamente pequeno.
Ele caminhou em direção à varanda carregando a mala como quem carrega um escudo. O silêncio da fazenda não era o silêncio limpo do seu apartamento, era um silêncio povoado. Havia o estalar da madeira que ficava ao sol, o farfalhar das folhas de uma imensidão de árvores e o som de pássaros que ele nunca viu.
Ao entrar no quarto que lhe fora destinado, buscou imediatamente os limites. Passou a mão pela parede de alvenaria grossa, procurando a frieza que o confortava na cidade, mas encontrou apenas calor vivo. O quarto não era grande, mas confortável e os lençóis cheiravam a amaciante. Abriu a mala e começou a organizar seus pertences lentamente, tentando imprimir sua organização naquele ambiente rústico. Enquanto empilhava suas camisas sobre a cômoda de madeira antiga, ele percebeu o contraste: ele era uma linha reta e o mundo era feito de curvas.
Durante o jantar, Frederico sentia-se exposto na imensidão daquela cozinha de teto alto. Entre as diversas opções de comida, serviu-se de caldo verde e mantinha os olhos fixos no vapor cheiroso que subia do prato de cerâmica; usava a colher com cuidado pra evitar que o metal batesse na louça e incomodasse aquela quietude. Quando os anfitriões tentavam uma investida — um comentário sobre o tempero ou o cansaço da viagem —, ele apenas oferecia um sorriso curto, apertado, e um aceno de cabeça que morria antes de virar frase.
"Por que as pessoas aqui falam tão alto?”, ele se perguntava, enquanto o som da risada do anfitrião corria longe. No subúrbio onde morava, o silêncio era uma regra de convivência; ali, o silêncio era uma entidade viva que ele tentava preencher mastigando devagar, contando cada movimento da boca. Ele sentia o peso do olhar dos outros sobre sua mudez, uma pressão que o fazia desejar o barulho de um escapamento de moto ou a sirene de uma ambulância, qualquer coisa que justificasse sua vontade de se encolher.
Frederico deitou cedo, esperando o silêncio absoluto, mas a cada estalo da madeira da casa antiga ou o barulho de gato andando nas telhas soava como uma invasão. O pior de tudo eram os grilos e esperanças lá fora que pareciam estar fazendo um ensaio de bateria no quarto.
Vira e revira na cama e, quando consegue pegar no sono, um galo, posicionado com precisão sádica logo abaixo de sua janela, soltou seu primeiro grito pra quebrar o silêncio da madrugada. Eram cinco horas da manhã. O homem encarou o teto do quarto tentando manter a serenidade, mas a ave que mal começara sua função, encheu os pulmões e soltou outro grito, tão estridente, que terminou num engasgo cômico.
O homem levantou, abriu a janela, não mais com sua habitual calma, e encarou a ave. O galo, por sua vez, inclinou a cabeça, olhou-o com um olhar lateral e cínico, e soltou mais um brado, como se dissesse que, ali, quem ditava a pauta da manhã não era a disciplina, mas o instinto.
Incrédulo, debruçou-se sobre a janela e acompanhou os passos da ave que caminhava com o peito estufado e arrogante como ela só. Sente, então, um cheiro forte que não é de café, mas sim de esterco vindo direto do curral, espalhado pelo vento da manhã. “Acho que o “presente” de passar uma semana aqui foi, na verdade, uma pegadinha”.
E
o dia de Frederico mal começou.
A mesa do café era um convite ao aconchego, farta com o cheirinho adocicado do café coado na hora e o brilho do queijo mineiro curado. Entre fatias de bolo de fubá úmido e pães caseiros ainda quentes, o cenário simples e rústico era um convite à gulodice isenta de questionamentos.
Ele
sentou-se à mesa e, enquanto tentava cortar uma fatia de queijo, uma mosca
varejeira iniciou um voo rasante. Ele parou o garfo no ar, esperando a intrusa
se retirar por vontade própria, mas o inseto pousou primeiro no queijo,
depois lambeu a goiabada e finalmente descansou na ponta do seu nariz. O
homem que nunca piscava diante de uma planilha de crise, viu-se cruzando
os olhos num esforço patético para ignorar o inseto. E lá, do lado de fora, uma
criança, que observava a cena, soltou uma gargalhada e saiu correndo.
“Frederico, você foi afrontado por uma mosca?”
Não, ele vai acabar com ELA.
Ele
não aceitaria aquela invasão. A mosca era a desordem que, em pleno voo,
zombava de um homem estritamente suburbano. Abandonou o garfo e monitorou o
trajeto do inseto desde que saiu do seu nariz. Quando a intrusa pousou na
borda da mesa, o estalo foi seco: a mão que assinava relatórios desceu
como um tijolo de concreto.
Houve um silêncio súbito. Ele levantou a palma da mão e encarou o pequeno ponto negro esmagado contra a madeira rústica. Não houve culpa, apenas satisfação por cumprir uma tarefa. Limpou a mão no guardanapo de pano, sentindo que, naquela pequena execução, havia retomado o autocontrole. Com calma gélida, ele espetou o garfo no queijo, atento apenas às delícias que estavam sobre a mesa.
Mais tarde, ao tentar realizar uma caminhada pelo pasto, uma vaca que bloqueava o caminho como se fosse um pilar de sustentação. Ele parou a uma distância considerável, não teve medo, só esperando que o animal saísse amigavelmente da sua frente. “Com licença”, ele quase disse. A vaca, no entanto, interrompeu a mastigação para encará-lo com a mesma lentidão com que foi encarada. Ele tentou contorná-la pela esquerda e depois pela direita. Ela não saiu do lugar e balançou a cabeça. Um enxame de moscas, incomodado pelo movimento, migrou do corpo peludo diretamente para o rosto dele. O homem que não perdia a compostura nem no empurra-empurra do metrô lotado, nem no trânsito parado, viu-se, de repente, agitando os braços, desajeitados, contra insetos invisíveis. A vaca olhava-o com profundo desprezo.
Mas foi no galinheiro que aconteceu o ápice do dia. Ele se voluntariou para colher os ovos. Chegou ao recinto com a postura de um inspetor de obras, segurando uma cesta de vime como se fosse uma pasta de couro. O cheiro de palha acumulada atingiu suas narinas e ele começou a espirrar sem parar. Era alérgico. Para as galinhas, aquele homem era um intruso desajeitado que invadiu sua privacidade.
Ao esticar a mão para alcançar um ovo branco sob uma galinha carijó, ele sentiu o golpe: uma bicada seca e precisa diretamente no nó do seu dedo. Sobressaltado, recolheu a mão e o movimento brusco foi o sinal de guerra que o galinheiro esperava. Em segundos, o ar se encheu de penas e cacarejos histéricos. As aves batiam as asas contra suas canelas e, contra seus pés, desferiam bicadas impiedosas e vigorosas, causando uma dor aguda a cada golpe certeiro. O terror se completou quando o galo se juntou ao massacre. Ergueu sua crista vermelha-escarlate como um estandarte de guerra e golpeou com fúria selvagem os pés do coitado.
O homem do concreto, na tentativa de fuga, viu-se executando uma dança de passos desencontrados, em meio àquela nuvem de poeira e palha. A cesta de vime foi jogada longe e, enquanto ele recuava em direção à saída, tropeçou num poleiro e depois em outro. E quando pisou, literalmente, em ovos, muitos ovos, sentiu que seria trucidado pelo bando enfurecido. Ofegante e sem forças, conseguiu trancar a grade por fora. A camisa estava rasgada e manchada de penugem. Deu alguns passos e olhou pra trás: o galo e as galinhas o encaravam vitoriosos. Ele saiu dali arrasado.
Frederico olhou para o relógio. O vidro estava quebrado e o mostrador ainda marcava o ritmo acelerado da cidade, mas o sol da fazenda não tinha pressa. Faltavam seis dias. Seis dias de embates com moscas burocráticas, vacas filosóficas e aves de rapina domésticas.
Voltou
para o quarto, dobrou suas camisas e fechou a mala com um estalo seco. Ele
não esperaria o fim da semana. Sua paz dependia do isolamento acústico e
da frieza das paredes que não respiram. Ao caminhar de volta para o automóvel,
ignorando o galo que parecia ensaiar um último deboche, o alívio de quem
retorna ao exílio voluntário.