CONTOS DO ICAL
OFICINA DE CRIAÇÃO DE TEXTOS DESDE 2009 - COORDENAÇÃO ANA MARUGGI
A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023
VINGANÇA A QUALQUER CUSTO
AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011
FIGURAS DE LINGUAGEM
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FERRAMENTAS LITERÁRIAS
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quarta-feira, 29 de abril de 2026
Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin
O Sequestro
Adelaide Dittmers
Juliana acordou e tentou olhar ao seu redor. Estava tudo meio nublado. Ela piscou várias vezes para tentar enxergar com mais nitidez. Onde estava? Um cinto a prendia. Que barulho era este? A consciência foi se iluminando pouco a pouco. Estava em um avião. Como chegara aí? Sacudindo a cabeça, como se quisesse pôr em ordem os seus pensamentos, olhou pela janela. Nuvens brancas passavam rapidamente, deixando entrever um céu azul.
A lembrança foi aparecendo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Estava em casa, quando surgiu um homem que colocou um lenço no seu nariz. Ela tentou se soltar, mas ele era muito forte, agora estava em um avião e ainda sentia o cheiro da droga, que a havia apagado.
Quis se desvencilhar do cinto, mas não conseguiu, ainda estava fraca. E, desesperada, gritou, enquanto sacudia a amarra que a prendia.
— Aonde estão me levando?
Imediatamente, um homem apareceu ao seu lado. Atrás da máscara, dois olhos verdes penetrantes a olhavam e o franzir da testa denunciava a sua frieza.
— Calma! Disse alterado. Atrás dele, outro mascarado surgiu.
— O que vocês querem de mim?
— Nada de mais. E um sorriso cínico apareceu nos olhos do primeiro a aparecer. Apenas 30 milhões de dólares.
— Vocês estão loucos! Não tenho esse dinheiro. A surpresa e o pavor contraíram suas feições.
— Mas seu marido tem até muito mais do que isso. Um olhar carregado de desprezo caiu sobre ela.
Juliana mordeu os lábios. Seu marido era muito rico, mas ele daria essa quantia absurda para salvá-la? Não tinha certeza, porque antes de tudo, era um ferrenho homem de negócios. Ela sempre se sentira uma boneca, que ele exibia a todos como se ela fosse um troféu. Mas a vida de luxo a seduziu e ela se deixou levar pela vaidade dele.
O coração dela galopava no seu peito. Os pensamentos atropelavam-se. O que iriam fazer com ela? Roger estava na Europa tratando de negócios. Pareceu que o homem leu seu pensamento, porque, com uma voz dura, disse saber da viagem do marido e que já tinham se comunicado com ele. E que a tinham em seu poder.
Juliana não conseguia chorar. Os olhos estavam secos pelo horror da situação em que estava. Com certeza, Roger ofereceria uma grande quantidade de dinheiro para eles, mas iria negociar até o que fosse possível. E eles aceitariam?
Ela os encarou.
— Para onde estão me levando? — perguntou novamente com voz trêmula.
Um dos homens respondeu que era para um lugar onde nunca a achariam. Juliana encolheu-se na poltrona. O que eles queriam era uma quantia absurda. Será que ela valia tanto assim para Roger?
— Se meu marido der a quantia que estão exigindo, o que farão comigo?
Os dois homens se entreolharam.
— Aí vamos pensar o que fazer com você.
— Ela estremeceu. Mas, de repente, resolveu jogar com eles. Talvez sairia viva de tudo isso. Encarou ambos e, pela primeira vez, sua voz soou firme.
— Na verdade, meu casamento está por um fio. Meu marido só pensa nos grandes negócios dele e eu sou a bela mulher que exibe para todos. Vou fazer duas perguntas: se ele pagar o resgate, vocês me deixariam em um lugar qualquer, onde eu possa me virar e sumir da vida dele, ou se ele recusar de dar essa alta quantia, eu vou com vocês.
Os dois homens se entreolharam. Os olhos falavam mais do que qualquer palavra.
— Você está blefando!
— Não estou blefando. Disse com voz convincente.
Horas depois, o avião pousou em uma pista precária. Eles a conduziram para fora. Havia uma casa rústica à frente de uma floresta.
Passaram dias ali, negociando com Roger, que era tão frio e calculista como os sequestradores. Uma senhora fazia a refeição de todos. Juliana podia passear pelos arredores, sempre com a companhia de um deles.
Finalmente, chegaram a um acordo com o marido, que mandaria o dinheiro para um banco fora do país. Ela perguntou o que realmente fariam com ela. Eles responderam que a deixariam em uma cidade próxima. Na manhã em que partiriam, ela levantou muito cedo. Estava ansiosa, que não dormira quase nada. Ao chegar à cozinha, os três homens estavam tomando café sem máscaras. Ela parou assustada. E gaguejou que não iria dizer a ninguém sobre suas fisionomias. Eles sorriram, iam mesmo sair do país, então não tinha importância.
Juliana soltou um suspiro de alívio. Eram homens bonitos, não pareciam bandidos. E um deles que chamou mais a sua atenção era o de olhos incrivelmente verdes.
— Vocês nem parecem, como direi, homens capazes de praticar um crime como um seqüestro.
— E seu marido parece um homem que, para ganhar mais dinheiro, pode vender até a sua alma ao diabo.
— Mas meu marido ganha o dinheiro de forma legal, trabalhando.
— Como você está enganada! Ninguém que tem uma fortuna como a dele ganhou o dinheiro sem prejudicar ninguém.
Ela ficou calada, mas no fundo concordou com o que disseram. O medo havia evaporado. E, com uma voz pausada, ela disse:
— A boneca de Roger virou gente. E se vocês aceitarem, quero ir com vocês, como já tinha dito. E olhou longamente para o homem de olhos verdes.
Os homens abriram a boca espantados. E ela completou:
— Quero recomeçar uma nova vida, em que serei dona de mim mesma e do meu destino, seja ela qual for.
Os três homens ficaram em silêncio, até que um deles disse
— Tudo bem! Até já nos acostumamos com sua companhia.
E os três levantaram e deram a mão para ela.
VIRE A FOTO - PEDRO HENRIQUE.
O BILHETE - Adelaide Dittmers
O BILHETE
A Última Página - Hirtis Lazarin
A Última Página
Hirtis Lazarin
Joana acorda com a visão turva, como se uma película de vidro fosco estivesse entre ela e a realidade. Esfregou as pálpebras, esperando que as formas ao seu redor ganhassem nitidez.
A névoa dos seus olhos finalmente se dissipou, mas o alívio durou pouco. Em vez das paredes familiares do seu quarto, o que apareceram foram fileiras apertadas de poltronas e o brilho das luzes de um avião.
Assustadíssima, ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente, tentando se localizar. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.
O zumbido constante das turbinas parecia vir de dentro da sua própria cabeça, uma nota única e persistente que a impedia de organizar os pensamentos; sentiu as mãos frias. Na bandeja à frente, um copo plástico com sobras de água e um guardanapo sujo.
Para onde estou indo?
Ela não lembrava de ter embarcado, nem para onde estava indo. Tentou se mexer e seu braço esbarrou em algo sólido. Ao olhar para o lado, seu coração falhou numa batida e o ar lhe faltou. Um homem de ombros largos e expressão estranha ocupava o assento ao seu lado. Ele fechou o jornal que lia e a encarou. Tinha olhos cansados e uma expressão de quem já cruzara o mundo vezes demais.
Percebendo o estado confuso da mulher…” Estamos sobrevoando o oceano. Vamos fazer uma escala em Doha, Qatar”.
A fala do homem não trouxe o alívio que ela esperava. Ao contrário, as palavras “Doha” e “Qatar” ecoaram como um idioma estrangeiro. Ela nunca havia planejado sair do país, tinha medo de avião.
— Qatar? A voz dela saiu pequena, sem força, quase um sussurro sufocado pelo ruído da pressurização.
— Sim. Escala em Doha antes do destino final. O voo é longo, melhor tentar dormir um pouco.
Sem esperar uma resposta, o homem virou-se pro outro lado, abriu novamente o jornal, agindo como se não tivesse acabado de dizer algo aterrorizante.
A cabeça de Joana entra em parafuso. Vira-se para o estranho e, antes de falar qualquer coisa, seus olhos recaem sobre a primeira página do jornal. O papel está levemente amarelado nas bordas e o cheiro de tinta virou cheiro de coisa velha guardada. No topo da página, em letras garrafais, a data salta aos olhos: 15 de maio de 2006. O jornal é de vinte anos atrás. As notícias falam de um mundo em que ela já viveu, de políticos que já se aposentaram e de tecnologias que hoje parecem pré-históricas.
— “Esse jornal…” — ela balbucia, apontando o dedo trêmulo. — Por que o senhor está lendo algo de duas décadas atrás? Ele finge não ouvir a pergunta.
Com sintomas de vertigem, Joana gira bruscamente o corpo em direção à pequena janela oval, buscando desesperadamente o seu próprio reflexo no vidro escuro. O rosto que a encarava de volta, emoldurado pelo azul profundo do oceano lá fora, não era o seu: a imagem mostrava uma mulher muito mais velha, com marcas de expressão que ela nunca tivera e um olhar de cansaço. — “Meus cabelos… Por que estão brancos”?
Precisava de alguém que lhe dissesse que aquilo era um delírio. Procurou a bolsa de mão e não a encontrou. Livrou-se do cinto de segurança e não conseguiu se levantar. As pernas pesavam como chumbo, desacostumadas com o próprio corpo. Apoiou-se nos braços da cadeira pra ganhar impulso e o homem ao lado nem sequer ergueu os olhos do jornal.
Ao ficar em pé, a cabine rodopiou; olhou pro corredor e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ronco abafado das turbinas que os levavam a Doha, num tempo que claramente não era mais o seu. Sentiu-se só, dentro de um tubo de metal suspenso sobre o oceano, presa entre um homem que lia o passado e um exército de sombras que não pertenciam ao presente.
O homem olhou-a com reprovação e fechou o jornal tão bruscamente — os ouvidos dela estavam muito sensíveis — que o estalo do papel velho ecoou na cabine. Joana franziu a testa, escondeu o som com as mãos e gemeu. Ele não se apressou; dobrou a folha amarelada e a colocou sobre o colo; as mãos eram tão grandes e enrugadas que até cobriam a manchete de vinte anos atrás.
“Sente-se, Bequinha” — um apelido que ela não ouvia há anos e que confundiu sua memória esquecida. — “O oceano é profundo demais pra quem fica em pé antes da hora. Doha é apenas o começo da sua… sua devolução”.
Antes que ela gritasse, suas forças se foram; desabou na poltrona que não era tão macia assim. O choro chegou de forma convulsiva; um soluço violento sacudia seus ombros e a deixava sem ar. Ela chorava pela lembrança da infância invocada naquele apelido e pelo terror de estar à mercê daquele desconhecido que parecia indiferente ao seu sofrimento.
Sem dizer uma única palavra, ele tira algo do bolso e estende a mão direita em sua direção. Os dedos compridos seguram firme um ursinho de pelúcia com as orelhas descosturadas; era o seu brinquedo favorito, aquele que ela acreditava ter perdido num incêndio há trinta anos.
“Você o esqueceu no jardim, Bequinha”. — A voz, agora, era suave como uma canção de ninar distorcida. — “Não se preocupe, em Doha você poderá segurá-lo novamente.”
O toque de pelúcia, áspero em seus dedos, disparou uma última centelha de memória; o avião, subitamente, mergulhou numa turbulência violenta e, aos poucos, já planava leve feito uma pena. As luzes da cabine piscaram e o azul profundo da janela foi substituído por um branco-calmante; o ronco das turbinas foi se transformando num som rítmico e eletrônico: bip… bip… bip… A voz fraquinha da aeromoça, vestida de branco, não falava de escalas ou destinos; sussurrava um adeus carregado de choro. — “Ela está indo”.
“Será que já chegamos a Doha”? — Ela ainda conseguiu perguntar. — O jornal velho, o corpo cansado, o brinquedo perdido foram desaparecendo…
O homem, que a acompanhava há mais de um ano, levantou-se, fez uma prece e, delicadamente, alisou seus cabelos.
O registro no monitor, que controla os batimentos cardíacos, tornou-se uma linha contínua, anunciando que Joana, finalmente, havia chegado ao seu destino.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
UMA AVENTURA NA SERRA DO MAR - Henrique Schnaider
UMA AVENTURA NA SERRA DO MAR
Henrique Schnaider
Certo dia,
combinei com mais três amigos de infância, um deles cego, de sairmos bem
cedinho para fazer uma trilha na Floresta da Serra do Mar. Sabíamos que não
seria fácil, mas, ao mesmo tempo, seria maravilhoso ver tudo o que os nossos
olhos poderiam alcançar.
Logo cedo,
saímos ansiosos para descobrir o que teríamos pela frente. Com certeza, seria
algo deslumbrante e emocionante, pois havíamos pesquisado tudo sobre o percurso
e sabíamos que valeria a pena todo o esforço que iríamos fazer.
E lá fomos nós,
às seis horas de uma manhã fria, o que tornaria a caminhada ainda mais difícil.
Logo no início da aventura, demos de cara com uma floresta rica, de enormes
árvores e muita cantoria dos pássaros que ali habitavam, formando um coro
maravilhoso.
O trecho era
íngreme, mas enfrentamos as dificuldades com coragem, dando todo apoio ao nosso
colega cego.
A mata foi se
estreitando e a trilha ficando cada vez mais difícil. De repente, surgiu diante
de nós, deslumbrante, uma cachoeira forte e poderosa.
Emocionados,
achamos que já tinha valido todo o esforço feito até ali, diante da visão
inesquecível com que nos deparamos.
Ficamos ali por
um bom tempo, apreciando aquela beleza da natureza e descrevendo detalhadamente
ao nosso amigo Tiago toda aquela maravilha, que explodia em força e beleza à
nossa frente. O som da cachoeira era como o rugido de uma fera poderosa.
Falamos para
ele, com toda a emoção, sobre aquela visão esplendorosa, para que Tiago pudesse
sentir intensamente a força da cachoeira, uma verdadeira obra de Deus. Tiago
chorou de emoção e todos nós acabamos chorando junto.
Resolvemos
acampar ali e passar a noite diante daquela fera da natureza, a uma distância
segura, para não haver perigo, enquanto permanecíamos deslumbrados.
Aquele momento
da nossa caminhada foi, para todos nós, inclusive para o nosso amigo Tiago,
algo que jamais esqueceríamos. Sentíamos que todo o esforço para chegar até ali
tinha valido a pena.
Passamos a noite
acampados, mas, com aquele enorme rugido da natureza, mal conseguimos dormir.
Ainda assim, achamos que tinha valido a pena passar a noite naquele lugar.
No dia seguinte, iniciamos a volta para casa,
ansiosos para contar às nossas famílias a emoção que havíamos vivido naquele
lugar e tudo o que sentimos diante da inesquecível cachoeira na Serra do Mar,
verdadeira obra com que Deus nos presenteou.
ACHADO NO BRECHÓ - Henrique Schnaider
ACHADO NO BRECHÓ
Henrique Schnaider
Rui era uma pessoa tranquila
e, por isso, levava uma vida típica de uma família de classe média. Tinha a
companhia da esposa, Natalia, e ambos aproveitavam essa tranquilidade: saíam
sempre para desfrutar de todas as oportunidades que a cidade de São Paulo
oferecia.
Enquanto Natalia ia
diariamente ao clube social do qual eram sócios, para aulas com professores de
educação física, Rui, já aposentado, tinha todo o tempo disponível e, como
tinha certa preguiça de acompanhar a esposa ao clube, saía logo cedo para uma
longa caminhada, aproveitando para, no caminho, procurar novidades.
Durante o percurso, ia
parando nas lojas, principalmente naquelas do tipo brechó, pois Rui gostava de
colecionar documentos antigos. Assim, parava nas lojas que tinham esse tipo de
coisa, que ele apreciava, apesar das queixas da esposa sobre a “bagunça” que
acabava deixando em casa, já que sua coleção parecia não ter fim.
O dono do brechó já conhecia
esse hábito de Rui e sempre telefonava para ele, pedindo que viesse à loja para
ver as novidades que poderia adquirir.
Rui começou a olhar
detalhadamente tudo o que havia na loja, coisas novas que ainda não tinha
visto. O nosso herói se deliciava com tudo o que estava diante dele. Havia
inúmeros documentos antigos, verdadeiros tesouros à espera de serem explorados.
De repente, arregalou os
olhos ao ver uma caixa toda trabalhada, com detalhes dourados, pela qual se
encantou imediatamente. O senhor Viriato, porém, olhou sorridente para Rui e
lhe disse, marotamente, que ele só poderia ver o que aquela caixa escondia se
lhe pagasse antecipadamente a quantia de dois mil reais.
Rui ficou numa dúvida atroz:
pagar aquela quantia, sem saber o que havia dentro, parecia um risco enorme. E
se não houvesse nada de especial e ele gastasse seu dinheiro à toa, como num
jogo de cassino?
Mas a curiosidade de Rui era
tão grande que chegava a lhe dar comichão. Ele não resistiu e fez sua proposta:
— Pago mil e quinhentos
reais.
E aguardou, ansioso, a
resposta do proprietário da loja.
O senhor Viriato fez cara de
quem pensava seriamente na proposta e passou uns cinco minutos criando um
suspense enorme. Finalmente, disse ao cliente ansioso que fechariam o negócio
por mil e oitocentos reais.
Rui não resistiu e aceitou a
compra da caixa. Entregou o cartão de crédito ao senhor Viriato, pagou pela
peça e, explodindo de emoção, apoderou-se do tesouro conquistado, como se fosse
o maior achado de sua vida.
Não perdeu tempo. Abriu a
desejada caixa, curioso para ver o que havia dentro e se tinha valido a pena
gastar tanto dinheiro para satisfazer seu desejo.
Dentro havia, já embolorado
pelo tempo, um documento escrito à mão, que devia ter muitos anos. Rui,
emocionado, começou a ler o que estava escrito naquele documento histórico.
Entrou em estado de choque
ao perceber que o documento dava detalhes de um verdadeiro tesouro enterrado.
Descrevia uma grande fortuna: dinheiro antigo, joias e barras de ouro.
Qual não foi a surpresa de
Rui ao ver que o documento estava assinado por seu avô. Nele, o avô explicava
onde o tesouro estava enterrado e, para espanto ainda maior, o local era o
quintal da casa onde Rui morava, imóvel que havia herdado justamente dele.
Rui voltou para casa e, como
o avô havia descrito com precisão o lugar onde enterrara a caixa com toda
aquela fortuna, não foi difícil encontrá-la.
Com certeza, depois desse
acontecimento, a vida do nosso herói mudou completamente. Rui aproveitou toda
aquela fortuna para viver, ao lado da esposa, uma vida repleta de alegrias.
Papel e Alma - Hirtis Lazarin
Papel e Alma
Hirtis Lazarin
"O que você faria se descobrisse que, na pressa de mudar de vida,
jogou toda a sua história no lixo?"
O eco dos
meus passos no assoalho vazio era o sinal mais claro de que eu já não pertencia
mais àquele lugar. Entre pilhas de caixas de papelão e o cheiro acre de
fita adesiva, eu fazia uma triagem impiedosa. O que antes era essencial, agora
parecia apenas peso. Joguei fora papéis amarelados, utensílios que nunca
funcionaram e recordações que, pelo caminho, perderam o sentido. Cada saco de
lixo que eu levava para fora era um quilo a menos na bagagem emocional que eu
levaria pra nova cidade.
As
últimas coisas a serem descartadas estavam no meu quarto: algumas peças
de roupas fora de moda — acumulei vestidos desde quando era solteira — e uma
mala velha de couro, com o zíper quebrado e as alças esgarçadas. Ela já havia
percorrido muitos quilômetros comigo, mas estava cansada demais para essa nova
jornada. Ao descartá-la senti um misto de ingratidão e alívio. Algumas coisas
não foram feitas pra serem consertadas, apenas deixadas pra trás. Fechei a
última caixa com um golpe seco de fita, selando, não apenas meus pertences
pra descarte, mas um capítulo extenso da vida que eu levara ali.
Eu não
estava apenas mudando de cidade, estava tentando salvar um projeto de vida. Com
uma filha de dois anos, as decisões ganham um peso diferente. Olhava pra
ela enfeitiçada com aquela bagunça e me enchia de esperança. Eu voltava pra
cidade onde a família do meu marido fincou raízes, esperando que o solo de lá
fosse mais fértil do que o daqui.
O som do
caminhão de mudança, manobrando na calçada, interrompeu a expectativa da
manhã. Ver aquele baú enorme engolir nossos móveis, nossas caixas e o berço
desmontado da minha filha era como ver a nossa história sendo compactada para
caber em um espaço de metal. Cada móvel que os carregadores levavam deixava um
quadrado de poeira e uma marca no chão, revelando o quanto tínhamos ocupado
aquele lugar.
Enquanto
o caminhão se enchia, eu olhava para a mala velha, agora, cercada pelo lixo que
eu decidira não levar e ela parecia pequena e patética perto da imensidão do
caminhão.. Com a pequena no colo, sentindo o peso do seu corpo adormecido e o
cheiro suave de bebê, observei a última porta do baú ser trancada com um
cadeado pesado. Tudo o que restava do nosso passado estava agora sobre rodas,
pronto para percorrer os quilômetros que nos separavam da cidade dos familiares
do meu marido.
Cada
quilômetro percorrido parecia filtrar o que restava do meu casamento e da minha
identidade. Eu estava me desfazendo da versão de mim que não tinha dado certo.
Com o balanço do carro e o sono tranquilo da minha filha na cadeirinha ao lado,
o aperto no peito foi, aos poucos, sendo substituído por pensamentos positivos
“Tudo vai dar certo”.
A
adaptação à nova cidade aconteceu com uma fluidez que eu sequer ousava esperar.
Em poucos meses, as ruas antes estranhas tornaram-se familiares e o sotaque
local já não me soava esquisito. A família do meu marido me acolheu com
generosidade e a cada café tomado na varanda da nossa casa confirmava que a
mudança havia sido a escolha certa. Eu estava tomada por uma serenidade
que me fazia acreditar que a vida, enfim, estava em ordem.
A
poeira da mudança já tinha baixado e a casa nova exalava o cheiro do lar
organizado; e Helena brincava feliz no quintal. Faltava apenas organizar
nossos livros e documentos nas estantes do escritório que acabara de ser
montado. Eu buscava uma pasta plástica onde estavam guardadas as fotos da minha
infância e adolescência e o álbum de casamento dos meus pais. Muitas fotos de
uma época em que os momentos mais importantes não ficavam armazenados num
celular que nem existia.
A cada
caixa aberta, meu coração acelerava mais. No instante em que meus dedos
tocaram o fundo liso e vazio da última caixa, um soluço rasgado escapou da
minha garganta. “As fotos…” eu tentei dizer, mas a voz sumia no peito apertado.
Minha sogra, confusa e apavorada, deu um passo atrás, e eu já
estava de joelhos no chão, as mãos enterradas no rosto, enquanto as lágrimas
inundavam tudo.
Era um
choro de pânico, um desespero. Foi então que a memória me atingiu com um soco
e, num flash cruel, surgiu à minha frente, a imagem daquela mala rasgada, com o
zíper quebrado, desprezada na calçada, sob sol forte, esperando pelo
caminhão do lixo. Revivi a cena de mim mesma, exausta e decidida,
abandonando-a. Eu não tinha descartado só papel e tinta, mas os únicos pedaços
de papel que provavam quem eu era, num passado distante.
O suor
frio escorreu pela minha nuca ao entender que, na minha pressa
desesperada de me livrar do velho pra abraçar o novo, eu não tinha descartado
só um objeto quebrado; eu tinha jogado no lixo o rosto da minha mãe jovem, o
meu sorriso de noiva e as únicas provas palpáveis de quem eu era antes de ser
esposa e mãe.
O
recomeço, que estava tão bom, desfolhou-se como as rosas amarelecidas do
vaso. Senti um vazio na minha alma. Os dias que se seguiram foram
nublados pelo arrependimento: “Por que eu não abri a mala”? Como não
percebi que ela estava pesada”?
Os dias
que se seguiram foram marcados por um silêncio pesado, onde cada canto da casa
—- tão limpa e organizada —- parecia gritar a minha imprudência. Eu caminhava
pelos cômodos assombrada pela imagem daquela calçada onde deixei meu passado
entregue à sorte. O brilho da mudança apagou-se; a alegria de decorar cada
cantinho deu lugar a um nó constante na garganta, pois os rostos que
deveriam habitar os porta-retratos estavam perdidos. Cada vez que o caminhão de
lixo passava, o barulho do motor possante anunciava a chegada do fantasma da
mala correndo pela minha casa. Eu me encolhia no sofá, mergulhada num luto
solitário.
Mas a
paciência do meu marido era o único sol que entrava pelas janelas da casa nova.
Ele não me cobrou nem me julgou. Apenas me envolvia em abraços silenciosos,
enquanto eu chorava o luto da mala de couro. Ele não descansava e, à noite,
depois do jantar, mergulhava em grupos de moradores da nossa antiga
cidade, postando fotos da nossa casa e perguntando se alguém tinha visto aquela
mala ou se conhecia o pessoal da limpeza. Ele, na verdade, buscava um milagre
digital, um rastro que pudesse trazer de volta os papéis que, num momento de
correria, eu entreguei ao esquecimento.
Essa
busca não foi um estalo de sorte, mas uma verdadeira jornada de persistência
que se arrastou por semanas e semanas de incerteza. Eu já tinha perdido as
esperanças, mas ele se transformou num detetive digital, atravessando noites em
claro. Mergulhou em grupos de “Bota-fora”, páginas de achados e perdidos e até
em comunidades de bairros vizinhos. As mensagens se perdiam entre anúncios de
móveis usados e reclamações cotidianas, mas ele não desistia. Cada notificação
que chegava terminava com “Que pena, eu não vi” ou a pista era falsa. Mas
ele não desistia…
A
resposta veio de um perfil discreto, sem foto de capa, mas com uma mensagem que
me fez perder o fôlego:
"Eu
não podia deixar que esses olhares se perdessem no lixo”.
O
senhor que resgatou a mala não era um passante qualquer; era o Seu Arnaldo, um
fotógrafo que passou a vida capturando instantes, mas que nunca encontrou o
palco das grandes galerias. Para ele, as fotos não eram apenas papel velho;
eram composições, memórias vivas que ele considerava um tesouro.
Na
verdade, quando passou na rua, se interessou pela mala; precisava dela pra
guardar muitos documentos que há tempos estavam esparramados pela
casa.
Enquanto
eu via a mala como um objeto estragado, ele via-a como um objeto útil. E, ao
abrí-la, descobriu um museu particular. Saber que minha história passou meses e
meses sendo velada por alguém que amava a fotografia, trouxe-me tanta gratidão
que nem cabia dentro de mim.
O nosso
encontro com o Seu Arnaldo não aconteceu numa calçada fria, mas sob as luzes de
uma pequena galeria improvisada, onde o cheiro de papel antigo misturava-se ao
cheiro de café forte. Quando atravessei a porta, meu coração tropeçou: ali
entre molduras de madeira conservadas e registros em preto e branco que o
fotógrafo guardara por décadas, estavam os meus próprios fragmentos. O bigode
espesso do meu pai, o rosto jovem da minha mãe, o momento em que entrei na
igreja, meu bouquet de noiva… não eram papel e tinta descartados,
mas protagonistas de uma exposição sobre a perspectiva da memória. Os
visitantes é que determinariam a duração do evento.
Ao
conhecer o homem responsável pelo resgate, vi em seus olhos o brilho do
fotógrafo que o destino escolheu pra ser o guardião das minhas jóias. É isso
mesmo… Minhas jóias… Ele resgatou meus rubis e diamantes..
Ao
final da noite, antes de deixarmos o espaço, ele prometeu nos fazer uma
visita e despachar as fotos, organizadas na cronologia do tempo.
Caminhei na calçada até onde estava o carro e senti-me
inteira outra vez. Olhar para aquelas fotos na parede, resgatadas pela
sensibilidade de um estranho me fez sentir inteira outra vez.
Finalmente
as fotos estavam em minhas mãos. Retirei do envelope de seda a primeira delas:
o registro do casamento da minha mãe, a mesma imagem que Seu Arnaldo havia
destacado na exposição. Ao deslizar o papel antigo pra dentro do porta-retrato
que reservei para o aparador da sala — foi inacreditável— encaixe perfeito.
Olhei para o sorriso dela e depois para o meu marido e minha filha que
brincavam no jardim, visíveis pela janela. Depois de colocar o retrato no
devido lugar, respirei profundamente: tinha certeza de que o fantasma da mala
deixaria de correr dentro de mim.
Rock no brechó - Elidamares Bianchi Rosa
Rock no brechó
Elidamares Bianchi
Rosa
Era
uma viagem normal, igual tantas outras que já fizera com meus pais, mas naquele
dia, logo de saída, pegamos um congestionamento gigantesco, que nos custou
muitas horas parados na rodovia. Já passava das dez horas e minha mãe decidiu
que era melhor pararmos, dormirmos e depois continuaríamos a viagem.
Paramos
na próxima cidadezinha que chegamos e encontramos local para dormir em um
pequeno hotel no centro. Na manhã seguinte, enquanto meus pais tomavam café,
saí para espiar a redondeza. Ao lado do hotel, encontrei um brechó. Entrei. O cheiro de coisas antigas e guardadas
atingiram minhas narinas e espirrei. Sabia que tinha despertado minha alergia,
mas a curiosidade pelos itens ali expostos era mais forte que o incômodo da
rinite. Espirrando e me desculpando, fui entrando e olhando. De repente, vi uma
jaqueta de couro por um preço ínfimo. Voltei correndo para onde estavam os meus
pais e fui falando do meu achado. Minha mãe, que se assustou, inicialmente, com
a minha chegada efusiva, foi comigo e compramos a jaqueta. Saí todo feliz com a
minha aquisição.
Antes
de retomarmos a viagem, eu já queria vestir a jaqueta, mas os cuidados de mãe
me impediram: “Primeiro precisa higienizar”. No carro, ela me passou um
lencinho higiênico e comecei ao chato trabalho de limpeza supervisionada.
A
surpresa maior, porém, veio quando ao revistar a peça, encontrei no bolsinho
interior um papel. Ao desdobrá-lo para examinar do que se tratava, imaginem só:
era a entrada para o Rock in Rio, de 1991.
A
empolgação chegou ao ápice. Parecia que estava recebendo uma epifania.
Deixem-me
explicar: eu estava com quinze anos, e
desde os nove anos eu toquei violino na orquestra, mas também estava estudando
violão e guitarra. E agora, no colegial, tinha montado com alguns amigos uma
banda de punk rock, para desgosto do meu pai.
Era
uma banda autoral e cover dos Ramones. Encontrar aquela entrada de show de rock
era prenúncio de sucesso... A jaqueta passou a representar um talismã. E eu
passei a assíduo frequentador de brechós, garimpando bottons e afins que,
afixados no amuleto, valorizavam meu style.
Todas
as vezes que íamos participar de algum show, usava a jaqueta com a riqueza do
achado no bolsinho interno. Ela estava comigo quando toquei em shows
underground de rock punk, ou com grupos covers dos Ramones, e até quando toquei
guitarra com o baterista Richie Ramone. Felizmente, nunca engordei e a jaqueta
do século passado continuou a fazer parte das minhas vestimentas
artísticas-musicais, até começar a se
colapsar naturalmente, sem chances de vender em outro brechó para
iluminar a imaginação de outro menino sonhador.
UM DIA DIFERENTE! - Dinah Ribeiro de Amorim
UM DIA DIFERENTE!
Dinah Ribeiro de Amorim
O dia hoje amanhece
diferente, para Lana.
Sente-se ais alerta, seus
sentidos restantes, mais atentos.
Escuta com maior intensidade
as combinações de sua mãe com a tia Irma.
Irão levá-la à praia, para conhecer
o mar.
Escutou tantas vezes esse
planejamento que até se esqueceu do medo que isso poderá lhe causar.
Sabe que é feito de água
salgada, de tamanho imenso, produz movimentos ou ondulações que poderão
derrubá-la e, as crianças, amam brincar nele.
É chegada a hora.
O passeio é feito. Irá
conhecê-lo ou senti-lo, pela primeira vez.
Colocam-na sentada na água,
com areia em baixo, chamada rasinho.
Sente-se gelada, água fria.
Se não se firmar bem no
assento, essa água a empurra, tem ondulações, movimentos que vão e vem.
Pede a mãe para ficar junto,
certo medo desse vaivém a assusta.
De repente, uma espuma mais
alta, mais rápida, bate-lhe no rosto e quebra, voltando-se rápida.
Parece querer brincar. Ouve
risadas de crianças ao lado e percebe que não querem lhe fazer mal, só brincar
e fazer rir.
Sente o rosto todo molhado
de água salgada!
Que experiência diferente!
Conhecer o mar pela primeira vez, tão comentado e lido nos seus volumes
especiais.
Precisa descrever suas
experiências sobre isso.
Lana, cega de nascença,
conhece o mar pela primeira vez.
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