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quarta-feira, 10 de junho de 2026

A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

 



A TEMPESTADE DE NEVE

Adelaide Dittmers


Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.

Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.

As ruas estreitas estavam vazias.  O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.

Tom acordou assustado.  Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania.  Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.

Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor.  Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação.  Nunca viu uma nevasca tão assustadora.  O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto.  Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.

Um celular tocou.  Era Robert, um vizinho e amigo.  A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.

Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine.  Tom abraçou a mulher e o filho.  As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.

Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.

Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade.  Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.

Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara.  Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.

Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se.  De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou.  Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.

Tom acionou o seu celular.  Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou.  Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.

O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos.  Os gestos falavam mais do que as palavras.  

Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.

Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.

Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora.  Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.

Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores. 

Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria.  A tristeza do que acontecera emudecera a cidade.  E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade. 





Joaquina - Alberto Landi

 



Joaquina

Alberto Landi


Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.

Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.

Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.

Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.

Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?

Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.

O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.

Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.

Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho. 

Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.

Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.

Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.

E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.

E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.


Agarrado aos retratos - Hirtis Lazarin

 



O céu havia engolido o sol horas atrás, substituindo-o por uma massa de nuvens cor de chumbo que girava como um redemoinho vivo.  O vento não soprava, ele golpeava, arremessando tudo que via à sua frente. O som parecia tiros de fuzil.

Agarrado ao batente da janela com os nós dos dedos brancos de tanta força, Tomás viu a escuridão da tarde ser rasgada por relâmpagos que revelavam a silhueta do furacão avançando pelo vilarejo.

O mar já havia sustentado o pescador por trinta anos, desde quando deu as costas ao asfalto e aos arranha-céus cinzentos, guiado pelo desejo de encontrar refúgio num velho e pacato vilarejo.  

Ele já havia sobrevivido a tempestades brutais e marés violentas, mas o monstro que engolia céu e mar era algo além da sua compreensão. O monstro não estava só zangado, havia se tornado um inimigo impossível de vencer.

Tomás sabia que cada segundo preso àquele batente de madeira reduzia suas chances de sobrevivência. Mas, paralisado pelo medo — ou talvez pelo cansaço da alma — tinha duas alternativas: correr para o porão da velha igreja ou arriscar a subida a pé em direção às colinas.

Ao longe, o caos já havia engolido parte do vilarejo. Via vultos desesperados — vizinhos de uma vida inteira — correndo contra o vento, arrastando crianças pelo braço, abandonando tudo pra trás.  Algumas famílias tentavam pregar as últimas tábuas nas portas franzinas, enquanto os mais jovens, de mãos vazias, fugiam em direção à estradinha de terra. 

As embarcações ancoradas batiam umas contra as outras como brinquedos quebrados, estraçalhando cascos e partindo mastros ao meio. Algumas foram arrancadas da areia e arrastadas para o fundo do mar, sumindo na espuma branca, enquanto outras foram arremessadas contra as pedras da encosta. As redes de pesca, tecidas à mão por gerações, transformaram-se num emaranhado caótico de nylon, nós e algas, presas a destroços flutuantes.

O estalo da madeira do teto arrancou Tomás do transe. Não havia mais tempo pra lamentar os barcos destroçados. A própria casa começava a gemer sob a pressão do vento e o vidro da janela trincou de ponta a ponta. 

Qual decisão tomar?  Agarrar a lanterna e vestir a velha capa de chuva impermeável pendurada atrás da porta e fugir? Ou não mover um milímetro e se abandonar à própria sorte? 

Desde que o câncer levara sua esposa há poucos meses, o silêncio daquela casa de madeira havia se tornado insuportável. Seu único filho, que construíra sua vida longe dali, nos Estados Unidos, era, agora, apenas uma voz distante preocupada em ligações de telefone que pareciam vir de outro planeta. 

Sozinho, cercado pelo luto e pela solidão, Tomás percebeu que não temia a fúria do furacão; na verdade, sentia uma calma melancólica.  Olhando para os estragos provocados pela natureza revoltada, ele soltou o ar devagar, aceitando que se o mar ia levar embora os trinta anos de sua história, que levasse também o que restava dele.

O oceano, finalmente, cobriu a rua e golpeou a estrutura da casa com a força de um naufrágio. A parede da frente cedeu e a água escura invadiu a sala; subiu rapidamente pelas canelas de Tomás e arrastou os móveis como se fossem feitos de papel.  Ele apenas olhou para as paredes do fundo, onde duas fotografias emolduradas começavam a flutuar na água que subia: o retrato amarelado de seu casamento na praia, o símbolo máximo de sua vida construída à beira do mar, e a imagem digital enviada pelo seu filho, sorrindo timidamente do outro país.  Duas Américas separadas por um abismo de distância e água, que agora se misturavam no mesmo turbilhão que engolia o chão sob seus pés.

Quando as vigas do teto começaram a estalar, a água já alcançava o peito de Tomás. Num último esforço, esticou os braços e resgatou os dois porta-retratos. Agarrou e colou-os contra o peito. Uma onda massiva e escura arrombou o restante da estrutura e cobriu completamente o pescador. 

Tomás afundou num silêncio profundo.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tempos de Guerra - Adelaide Dittmers

 




Tempos de Guerra Adelaide Dittmers José acordou assustado. O som agudo de uma sirene avisou que um novo bombardeio iria atingir a cidade. Estava naquele país para uma reunião sobre mudanças climáticas causadas por vários tipos de poluentes, que contribuem para o aquecimento global, quando estourou uma guerra. A região sempre foi palco de várias disputas pelas riquezas entranhadas em seu solo. Agora representantes de vários países estavam presos no lugar porque os voos foram suspensos. Ele colocou um roupão, pegou o celular e saiu do quarto do hotel como uma flecha disparada por um arco. No corredor, pessoas apavoradas corriam para alcançar o subsolo e tentar sobreviver ao ataque. José nunca teve que enfrentar uma situação como essa. Morava em uma região com muitas carências, mas pacífica. Vários bombardeios já tinham atingido a cidade em pontos diferentes, mas este, pelo jeito, poderia alcançar o hotel. A garagem já estava fervilhando de pessoas quando chegou. Os rostos assemelhavam-se a máscaras franzidas pelo medo. Ele observou uma menina que, agarrada à mãe, chorava assustada pela situação desconhecida e incompreendida. Seu pensamento fez o voo, que ele não podia fazer, para voltar para sua esposa e a filha de seis anos. Precisava, mais uma vez, manter a calma e a lucidez para superar a ansiedade, que lhe tomava a alma. Num impulso instintivo, José aproximou-se da criança e a pegou no colo, tentando acalmá-la, cantando uma música infantil e a balançando como se estivesse brincando. A criança parou de chorar. Os olhos apavorados da mãe o atingiram e o obrigaram, comovido, a usar o idioma inglês para apaziguar a menina. De repente, vários estouros se seguiram, acompanhados pelas sirenes enlouquecidas pelo ataque, no entanto, naquele subsolo, o silêncio reinava, como se as pessoas quisessem se tornar invisíveis e invulneráveis. Subitamente, o som ensurdecedor do bombardeio foi diminuindo. As pessoas ergueram os olhos para o alto, como se pudessem ver o céu, onde os drones mortíferos haviam passado, destruindo tudo o que havia abaixo deles. José entregou a criança à mãe e percebeu que as mãos dela tremiam incontrolavelmente. A impotência e a piedade por aquela mulher indefesa fizeram com que mordesse seus próprios lábios. Aos poucos, os hóspedes e os funcionários do hotel foram se movendo calados. Estavam vivos, mas sobreviveriam se houvesse outros bombardeios?. José subiu para seu quarto. O celular tocou. Era a esposa. Ele deu um profundo suspiro e modulou a voz para disfarçar o perigo que havia enfrentado e disse estar tudo bem. Quando desligou, uma lágrima desceu sorrateira por sua face. Quando sairia daquele caos. Viera para um encontro, que almejava melhorar e mesmo preservar o planeta de desastres naturais, mas o homem, em busca de mais poder e riquezas, fazia guerras e destruía o que estivesse em seu caminho para conseguir o que queria. Com gestos automáticos, tirou o pijama e foi tomar um banho. A água tépida caiu como um bálsamo em seu corpo, lavando e levando para o ralo o medo, que lhe tolhia a alma. Vestiu-se e desceu para tomar o café da manhã. Os garçons corriam de um lado para o outro como se nada tivesse acontecido. Ele pensou, sacudindo a cabeça, como os homens conseguem disfarçar seus medos mais profundos. Sentou-se a uma mesa perto da janela e olhou para o jardim florido, um pássaro pousou em uma folha, na sua inconsciência não havia percebido o perigo que correu. O celular tocou. O promotor do encontro sobre as mudanças climáticas avisava que em uma hora passaria um microônibus para levá-los até a fronteira, onde entrariam no país vizinho que não estava em guerra e embarcariam em um avião, que os levaria a um país neutro, de onde seguiriam para casa. José inspirou fundo e soltou o ar pela boca. O alívio amenizou sua expressão contraída. Levantando os olhos, viu a jovem mãe e a criança, que acabara de entrar no salão. Sem hesitar, levantou-se e dirigiu-se a ela, perguntando se ela queria sair do país, explicando como era o esquema escolhido. Um sorriso emocionado iluminou o rosto da moça e ela apenas moveu a cabeça para dizer que sim. Uma hora depois, estavam no veículo, que os levaria para longe daquele inferno. O grupo estava calado, cada um imerso em seus pensamentos. A tensão pairava no ar. O pequeno ônibus ia avançando pela estreita estrada e só se ouvia o roncar do motor. O grupo permanecia em silêncio, os olhos rondavam a redondeza. O medo de outro ataque era visível no rosto sério de cada um. A criança era a única passageira, que apontava para os campos, que corriam velozes pelas janelas, onde carneiros pastavam indiferentes e inconscientes ao que podia ocorrer a qualquer momento. Outro bombardeio eclodiu. Os fugitivos olharam-se assustados, as palavras ficaram guardadas dentro deles, mas os olhos disseram tudo o que a voz não conseguia articular. O motorista virou para trás e gritou em um inglês tosco que o ataque estava sendo muito longe, atrás deles. O medo, porém, é um algoz, que altera o raciocínio dos seres humanos e os prende em uma teia de emoções desencontradas. O grupo ficou rígido, os músculos contraídos. Enfim, a estrada foi sendo vencida e longe surgiu uma ponte fortemente vigiada por militares do país vizinho. Os passageiros levantaram a cabeça e um 'graças a Deus' saiu da boca de um deles. O micro-ônibus parou no começo da ponte e todos desceram para apresentar os documentos e explicar por que estavam no país em guerra. O motorista também apresentou os seus. Não queria voltar para aquele inferno. Era um imigrante e não tinha família lá. Os soldados autorizaram o veículo a continuar a viagem até uma cidade próxima. Depois de cerca de quarenta minutos, chegaram à cidade, em que pegariam um voo, que os levaria a outro país neutro. Duas horas depois, estavam aterrissando no país, em que tomariam o rumo de casa. José despediu-se emocionado do grupo, que almejava um mundo melhor e que fora pego pelo pior que o homem pode causar: uma guerra para ter mais poder. Ao se despedir da mãe e da criança, lágrimas de gratidão molharam o sorriso dela e, com a voz embargada, ela se apresentou: Sou Catherine e ela é Mary e ele também disse o seu nome. No voo para o seu país, José enviou um WhatsApp para a esposa. “Estou voltando.” Um ícone sorrindo e um coração tentaram traduzir sua alegria de voltar para casa.

As Linguarudas do bairro - Adelaide Dittmers

 


   



As Linguarudas do bairro

Adelaide Dittmers


Cristina entrou na casa, esbaforida.  Não podia acreditar no que acabara de ouvir.  Duas vizinhas conhecidas por suas línguas venenosas estavam se deliciando com a história da traição de Mario, um homem respeitado por todos, que sempre lutava para melhorar o bairro em que viviam.  Discreto e educado, agia sem alardes para conseguir um asfaltamento em alguma rua ou para limparem os bueiros, que podiam causar um alagamento nas épocas de chuva.  

Segundo elas, houve uma briga feia entre ele e a mulher. Os gritos dos dois foram ouvidos por toda a vizinhança e o estampido de algo que caiu com violência no chão assustou todos.

A mãe, ao ver a agitação da filha e ao escutar o que ela acabara de contar, ponderou que aquela história não era confiável porque as duas mulheres eram conhecidas pelos seus mexericos e adoravam cornetear tudo o que poderia ser errado, verdadeiro ou falso na vida alheia,

— Será verdade? A mãe questionou. Ele sempre me pareceu um homem tão sério.

— Também fiquei na dúvida! Diz Cristina.

— Não sei não.  Essas duas são tão fofoqueiras… ele não é uma pessoa briguenta.  Ao contrário, sempre tão centrado e gentil.  Não consigo acreditar!

O pai, que estava no escritório trabalhando em um processo, aparece na sala.

— O que está acontecendo? 

Cristina repete o que ouviu das vizinhas.  

— Vocês vão acreditar no que dizem essas duas.  Elas aumentam tudo o que ouvem por aí. E muitas vezes já espalharam notícias falsas.  São duas solteironas infelizes e frustradas.  E prosseguiu: Mario é uma boa pessoa e a sua vida particular só interessa a ele.

— Então você aprovaria se, por acaso, ele tivesse uma relação fora do casamento? Diz a mãe, já com as garras de fora.

— Não disse isso.  É que não temos o direito de meter o nariz na vida dos outros.  Seja considerado certo ou errado o que fazem. E digo mais: quem muito acusa é que pode ter o rabo preso.

— Ah! Júlio, você quer dizer que elas… Não, não posso acreditar! São duas linguarudas, mas… será que seriam capazes de ter uma vida… nem ouso falar…

— Aqueles de quem a gente menos espera…

— Você está sabendo de alguma coisa dessas duas?

— Tudo é possível.  Nunca se sabe… Às vezes, quem só olha para o lado… quer desviar a atenção de seus feitos desonestos.

Cristina olhou para os pais e, com um sorriso maroto, disse:

— Nossa! Acho que se remexerem a vida de todo o mundo.  Sei lá… o que vamos descobrir.

— É melhor então nos fixarmos na nossa própria vida.  Disse a mãe. E deixarmos os outros resolverem seus problemas, suas desavenças e não sei mais o que…

— A não ser que estejamos na berlinda.  Completou o pai.

E, com um sorriso zombeteiro, acrescentou: 

De repente, vão dizer que o meu escritório de advocacia também está envolvido nesse caso do Vorcaro.

E os três caíram na gargalhada.




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA - Henrique Schnaider




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Henrique Schnaider


João era o tipo de sujeito teimoso, não cedia em nada, tanto nas discussões com os seus familiares quanto em qualquer outro tipo de situação.

Sua fama já corria longe e ele acabava sempre se dando mal pela sua forma de ser. Tinha dificuldade para ter amigos, já que ninguém aguentava sua teimosia.

Certo dia, lá ia o João até a esquina da sua rua, onde se reuniam algumas pessoas que ficavam ali conversando. Foi chegando, se acercando das pessoas que estavam conversando, e, devido à sua fama de sujeito teimoso e sempre dono da razão, olharam para ele com desconfiança, mas continuaram a conversa.

 Estavam discutindo sobre a educação dos filhos e havia um consenso de que os pais deveriam ser rígidos com os filhos, já que achavam que é de pequeno que se torce o pepino.

João, enxerido, se meteu na conversa e só para ser do contra, já que em casa era bem durão com seus dois filhos, começou a dizer para as pessoas que na educação deles, os pais deveriam ser bonzinhos e permitir tudo a eles.

As pessoas que ali estavam começaram, irritadas com o João, a discutir com ele. Logo viram que ele deu aquela opinião só para ser do contra. E, o pior é que nesse momento chega, na esquina, o filho mais velho de João, de nome Ronaldo, pedindo ao pai algum dinheiro para comprar um sorvete. João ficou vermelho de tão nervoso e gritou para o filho que fosse embora, antes de dar uns tapas, como era de costume.

Gargalhadas do grupo, pois naquele instante, João agiu exatamente ao contrário do que havia falado para as pessoas. E assim, completamente desmoralizado, se afastou dali com a cara no chão.



PAM PAM ESTOROU A BOMBA NA CASA DELA, ELA FALAVA DA VIDA DOS OUTROS, ACABAVA FALANDO DA VIDA DELA

Margarida era uma mulher que não media esforços para falar mal dos outros e, assim, com essa fama, ficou conhecida das pessoas.

Ela morava numa casa simples de uma cidade pequena do interior e, justamente por isso, era mal falada pela maioria das pessoas do lugar.

Margarida morava com sua mãe e avó, que eram farinha do mesmo saco, então, quando juntavam as três, era um Deus nos acuda.

E assim ela foi levando a vida e, à medida que os anos passavam, ela ficava com a língua cada vez mais afiada.

Quem mexe com fogo, um dia pode sair queimado, e assim aconteceu com Margarida, a mãe e a avó.

Certo dia, sempre tem um dia, Margarida foi falar mal da mãe e da avó para uma vizinha delas de nome Salete, que ficou ouvindo calada todo veneno que a Margarida despejou sobre elas.

Salete não perdeu tempo, pois era da mesma laia que Margarida, e foi à casa dela e contou tudo o que Margarida havia falado de mal da mãe e da avó. Ambas ficaram furiosas e chamaram a Margarida para tirar satisfação, e ali na casa, o circo pegou fogo, foi uma tremenda briga, onde panelas e outros objetos voaram para tudo que foi lado. 

As três tiveram que ir ao pronto-socorro por saírem machucadas daquela briga. Mas nenhuma delas aprendeu a lição, pois na semana seguinte, lá estavam elas falando mal da vida dos outros e ninguém pode garantir que também voltariam a falar mal umas das outras.



QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COMO GATO

Ernestino era um sujeito que passou muita necessidade desde pequeno, e ainda continuava pobre, lutando para melhorar de vida.

Ele era casado com Maria e tinha dois filhos, Arlindo e Josemar. A luta era difícil para trazer o pão nosso de cada dia, e assim Ernestino, que era catador de coisas que as pessoas jogavam fora e depois ia no ferro-velho ver o que conseguia amealhar, recebia muito pouco do que recebia em troca.

Maria, sua esposa, ajudava no sustento da família, fazendo faxina em algumas casas. Os filhos, ainda pequenos, estavam estudando o curso primário e assim não podiam ajudar a família. 

Ernestino ficava sempre pensando numa maneira de melhorar de vida e pelo menos que não faltasse comida na sua casa.

Dessa maneira, nosso herói achou uma maneira de sobrar mais dinheiro e melhorar de vida.

Ali perto de sua casa tinha um parque que não tinha nenhuma fiscalização e ele percebeu que lá tinham muitas pombas e pensou em caçá-las. Não perdeu tempo, armou uma arapuca e conseguiu dessa maneira pegar dezenas de pombas. Levou-as para casa, sacrificou as aves e limpou e preparou um belo almoço de pombas assadas para muitos dias, e ele, a esposa e os filhos comeram por vários dias até se fartar. Era só ir lá caçar de novo.

Como Ernestino achou uma forma de sustento, comida não faltou mais na sua casa e o dinheiro que ganhavam dava para melhorar um pouco de vida. 

E assim ele provou que, usando a sua inteligência e astúcia, encontrou um meio de melhorar a sua vida e a de seus familiares. Assim, ele provou que sempre tem uma maneira de resolver os problemas, pois quem não tem cão caça como gato. 



GIZA, a investigadora - Alberto Landi

 



GIZA, a investigadora

Alberto Landi


Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como sombra, com roupas gastas e passos firmes.

A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos. 

Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.

Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.

 Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.

Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.

E, quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.

Naquela noite, ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.

Finalmente encontrei-o, Antonio Benevides, murmurou. Empurrou a porta devagar e entrou no apartamento envolto em penumbra.

--Quem é você para entrar desse jeito em minha casa? — Perguntou, apertando o charuto cubano entre os dedos grossos.

Ele era moreno, de estatura mediana, cabelos grisalhos em um rabo de cavalo e correntes de ouro no pescoço.

A fumaça subia lenta pelo apartamento de paredes úmidas e luz amarelada.

Giza permaneceu imóvel na porta descascada. A velha mochila pendia dos ombros como se carregasse apenas roupas velhas, mas seus olhos atentos examinavam cada detalhe do cômodo.

— Curioso — disse em voz baixa.

Homens culpados sempre perguntam: quem sou eu? Os inocentes perguntam o que aconteceu.

Antonio soltou uma risada curta, nervosa, e tomou outro gole de rum.

— Você entrou no apartamento errado, sua velha.

— Não. Passei meses procurando este endereço.

O silêncio endureceu o ambiente. O ponteiro do relógio velho de parede parecia bater mais alto.

— O que você quer? Dinheiro? — Perguntou ele, tentando recuperar a arrogância.

Giza aproximou-se devagar.

— Quero nomes. Quero saber onde estão os documentos e quem mandou apagar Celso Ferreira.

Antonio desviou o olhar pela primeira vez.

— Não sei do que está falando.

Giza então retirou do bolso um pequeno isqueiro de metal riscado pelo tempo e colocou-o sobre a mesa.

Antonio empalideceu.

— Esse isqueiro estava no apartamento do homem que você assassinou há sete anos — disse E. Desde então, venho seguindo o rastro da fumaça que você deixou pelo caminho.

Antonio apagou nervosamente o charuto no cinzeiro, encolhendo-se no sofá, parecendo menor em sua estatura do que realmente era.

Ele passou as mãos pelos cabelos, agora úmidos de suor. O cheiro de rum, tabaco e mofo parecia sufocar o pequeno apartamento.

— Você não percebe com quem está mexendo — murmurou.

Giza puxou uma cadeira e sentou-se diante dele como quem visita um velho conhecido.

— Entendo mais do que imagina.

Ela abriu a mochila gasta e retirou uma pasta fina, amarelada pelo tempo. Fotografias escorregaram sobre a mesa: notas fiscais, rostos desfocados, placas de carros, um retrato antigo de Celso Ferreira sorrindo ao lado da esposa e de uma menina pequena.

Antonio observou tudo em silencio.

— A menina cresceu sem pai — disse Giza. A esposa faleceu esperando justiça, e você continuou fumando charutos caros como se o passado tivesse apodrecido sozinho.

Ele tentou manter a firmeza.

— Eu apenas obedecia ordens.

— Todo covarde diz isso em algum momento.

Do lado de fora, ouviu-se uma sirene bem distante cruzando a madrugada. Ela não desviou os olhos dele.

— Quem mandou matar Celso?

Ele hesitou, as mãos tremiam levemente ao alcançar o copo de rum.

— Se eu informar, eles me matam.

Giza inclinou-se para frente, e se não falar, continuará morrendo um pouco toda a noite.

O velho ventilador girava no teto com um ruído metálico insistente.

Finalmente, ele respirou fundo. Foi por causa dos arquivos do porto. Celso descobriu desvios de carga, armas, documentos falsos, gente importante envolvida.

— Nomes — exigiu Giza.

Ele fechou os olhos por um momento como quem atravessava uma porta sem retorno.

Alguns políticos e empresários estavam envolvidos, mas havia um homem, o chamavam de dom Álvaro.

Ela permaneceu imóvel, mas seus dedos apertaram discretamente a borda da mochila.

Aquele nome estava escrito havia anos em uma folha dobrada no fundo do bolso interno.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava perto do verdadeiro inimigo.

A chuva começou a bater nas janelas do prédio com violência, espalhando goteiras pelas paredes descascadas do apartamento.

Benevides parecia envelhecer diante dela a cada segundo.

— Onde encontrou dom Álvaro? Perguntou Giza.

Ele demorou a responder. O medo agora falava mais alto do que a arrogância.

— Ninguém encontra aquele homem, ele aparece quando menos se espera.

Giza levantou-se lentamente. Seus joelhos estalaram discretamente, mas a sua presença continuava firme e ameaçadora.

— Todo homem deixa rastros, Antonio.

Ela guardou as fotografias na pasta enquanto ele acendia outro charuto com mãos tremulas.

— Você não faz ideia do tamanho disso. . O porto era só uma parte. Havia muita gente envolvida. Celso tentou entregar tudo aos federais.

— E alguém entregou Celso antes!  Ele baixou a cabeça, o silêncio confirmou o que as palavras evitavam.

Ela caminhou até a janela, e lá embaixo a cidade seguia indiferente: ônibus vazios, faróis cortando a chuva, pessoas correndo sob marquises. 

— Quem puxou o gatilho? Perguntou ela sem se virar.

Ele demorou para responder.  Fui eu.

A frase caiu pesada no apartamento.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas o ventilador cansado e a chuva.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, não havia surpresa em seu rosto, apenas um cansaço antigo profundo.

— Celso pediu para viver?  

Antonio apertou os dedos ao redor do copo. Pediu.

— E mesmo assim você atirou.

— Eu tinha uma filha pequena, eles ameaçaram minha família.

Ela virou-se devagar. O medo explica muita coisa, Antonio, mas não apaga o sangue.

Ele tentou dizer algo, mas parou ao vê-la abrir novamente a velha mochila.

De dentro dela, ela retirou um pequeno gravador portátil. A luz vermelha ainda piscava.

Ele empalideceu. Você gravou tudo, cada palavra.

Nesse instante, ouviu-se um ruído seco no corredor e passos.

Ela ergueu os olhos para a porta descascada e percebeu imediatamente que alguém mais havia chegado.

Celso Ferreira era um funcionário ligado ao porto, discreto, metódico e aparentemente comum. Trabalhando entre documentos de carga, registros de navios e autorizações alfandegárias, acabou descobrindo um esquema criminoso muito maior do que imaginava.

Ele percebeu desvios de mercadorias, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro envolvendo políticos e empresários. Diferente de outros que preferiram o silêncio, ele decidiu reunir provas.

Mas a sua maior tragédia foi acreditar que ainda existiam pessoas honestas suficientes para protegê-lo.

Antes de morrer, ele tentou entregar os arquivos às autoridades. Passou semanas escondendo documentos, fazendo cópias e mudando rotinas para proteger a esposa e a filha. Mesmo assim, acabou traído.

Ele era o tipo de homem tímido, educado, sempre carregando pastas debaixo do braço e falando baixo demais. Porém, justamente por isso, ninguém imaginava que teria coragem de enfrentar gente tão poderosa.

Para Giza, o caso nunca foi apenas sobre um assassinato.

Celso representava algo raro, alguém comum que escolheu não se vender. E talvez por enxergar nisso uma dignidade quase esquecida.

Na velha fotografia que Giza guardava na mochila, Celso aparece sorrindo ao lado da família num domingo simples de verão. É essa imagem, mais do que os documentos, que a faz continuar caminhando pelas ruas atrás dos nomes da lista.

Os passos no corredor pararam diante da porta descascada. Antonio empalideceu.

— Eles me encontraram, sussurrou.

Mas, antes que pudesse reagir, ouviu-se uma batida forte.

— Polícia! Abram a porta!

Ele levou a mão ao peito, sem saber se sentia alívio ou pavor. Giza continuou imóvel. 

Outra batida mais insistente.

Giza caminhou lentamente até a entrada e abriu. Três policiais entraram com armas erguidas, o cheiro da chuva entrou com eles.

— Ninguém se mexe! 

— Antonio levantou as mãos imediatamente.

Um dos policiais olhou para ela com estranheza. A velha mochila, os sapatos gastos, o rosto marcado pelo tempo, nada nela lembrava alguém capaz de desmontar anos de silêncio criminoso.

— A senhora chamou a polícia? Perguntou um dos oficiais.

Ela apenas apontou para o gravador sobre a mesa.

— A confissão está inteira aí.

O oficial aproximou-se devagar, apertou o botão e ouviu a voz trêmula de Antonio.

Fui eu.

O ambiente mergulhou num silêncio pesado. Do lado de fora, a chuva começava a diminuir.

Antonio foi algemado sem resistência. 

Ao passar por Giza, evitou encará-la.

Ela ajeitou a mochila nos ombros.

Os policiais conduziram Antonio pelo corredor estreito do prédio. As luzes frias piscaram sobre as paredes úmidas enquanto vizinhos curiosos abriam portas apenas alguns centímetros.

Um dos oficiais voltou-se para Giza.

— A senhora deveria ir conosco prestar depoimento.

Ela deu um sorriso cansado, meu depoimento começou há muitos anos.

Antes que ele insistisse, ela já caminhava em direção às escadas.

Lá embaixo, a cidade ainda brilhava, molhada pela chuva da madrugada. Ônibus transitavam quase vazios, um jornaleiro abria sua banca, em algum lugar distante ouvia-se música de Nelson Gonçalves.

Ela desapareceu na calçada como mais uma figura anônima entre tantas outras.

Mas na mochila velha, ainda restavam nomes na lista.

E, enquanto a cidade despertava sem notar sua presença, ela já seguia em direção à próxima missão! 


Atrás da Cortina - Hirtis Lazarin



Atrás da Cortina

Hirtis Lazarin


Para os adultos, o condomínio “Residencial Villaggio” era um local seguro, protegido por portaria blindada, câmeras de alta definição e três regras sagradas: não andar de skate na calçada, não fazer barulho após as vinte e duas horas e fingir que todas as famílias são bem educadas.

Josefina — ela odiava esse nome — quebrava as duas primeiras regras por puro tédio e a terceira por pura desconfiança.

Pra ela, aquele lugar era um ninho de cobras engravatadas e, pra cada regra criada, tinha certeza de que havia um segredo que eles tentavam, desesperadamente, esconder dela.

Sentada bem camuflada no topo do muro de três metros, à espera da perua escolar, Josefina observa o SUV blindado do vizinho sair pelo portão duplo da portaria. O motorista sorri e acena cordialmente para o segurança da guarita.

De cara feia e olhos cerrados: “É, gente… Vocês acreditam…? Prestem atenção em quem sorri demais, às sete horas da manhã, num dia frio.  Pra mim, ou está mentindo, ou está prestes a cometer um crime. 


A única exceção no mundo hipervigilante de Josefina era o Leo, a única pessoa pra quem ela confessava seus pequenos “crimes” de condomínio. Enquanto o resto do mundo parecia fantasiado de comercial de margarina, Leo era real. Se Josefina decidisse invadir a casa do síndico na calada da noite apenas para provar uma teoria paranoica, ela sabia que não iria sozinha; ele estaria pronto pra aceitar e dividir as consequências.

Enquanto ela enxergava segredos perigosos em cada “bom dia” dos vizinhos, o amigo trazia leveza e uma coragem moleque que a fazia baixar a guarda.

Sentado no tapete do quarto da menina, Leo girava um chaveiro no dedo, assistindo à cena com um sorriso de canto.

— Pronto? — Perguntou ele, guardando o chaveiro no bolso. — O censo da zona oeste foi concluído?

— Não brinca, menino. Isso é segurança básica. — Josefina respondeu tão compenetrada e séria como um enxadrista em campeonato mundial.

Ela examina cada movimento das pessoas ao seu redor, antecipando ameaças que, com certeza, nunca acontecerão. 

— Dividi o prédio em três categorias cruciais: os Insuportáveis, os Suspeitos e os… Toleráveis.

Ela abriu o caderno na primeira página, mostrando uma caligrafia impecável com palavras escritas com canetas de três cores diferentes.

— Na lista vermelha… são os que eu não suporto, o topo vai para o Seu Ribeiro, do 42. Ele passa o dia olhando pelo olho mágico e finge que está regando as plantas no corredor só para ouvir a conversa dos outros. Um perigo. Logo atrás vem a Dona Marluce, do 61. Aqueles bolos que ela traz “por pura gentileza” têm cara de suborno. Ninguém é tão legal assim sem querer algo em troca.

Léo soltou uma risada alta, deitando-se no tapete.

— JOSEEEFINAAA… a mulher é tão doce! E a lista verde? Tem alguém que se salvou do seu tribunal?

Ela travou na hora quando ele pronunciou cada sílaba daquele nome odiado, com uma lentidão cruel. O som arrastado soou como uma provocação, fazendo o sangue dela ferver instantaneamente enquanto ela cravava as unhas na palma da mão, fuzilando-o com o olhar. 

— Quantas vezes vou ter que repetir? Eu não gosto desse nome. É uma relíquia herdada de minha bisavó paterna; deveria ter ficado no século passado. Parece nome de menina velha.   Fala sério… Você acha que Josefina combina comigo?

— Para de drama, Fininha — provocou-a novamente, sabendo qual apelido ela mais odiava. — Se você fosse personagem de uma história infantil, seria a vilã desconfiada que mora na torre. Combina com você.

Josefina guardou um… dois… palavrões na garganta. A provocação de Leo ficou no ar, desafiadora. Qualquer outra pessoa que dissesse aquilo viraria inimiga mortal de Josefina, mas com ele era diferente. Eles ficaram ali parados, medindo forças em silêncio por alguns instantes, até que a faísca de briga perdeu o fôlego. O garoto desviou o olhar, mantendo na boca um sorriso maroto, e Josefina descruzou os braços, relaxando os ombros. Ninguém insistiu no assunto. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o jeito deles de dizer que estava tudo bem e que a amizade continuava intacta. 

E a conversa pode continuar tranquila.

— A lista verde…

— Apenas duas famílias são aceitáveis — apontou ela. — Os Oliveira, do 14. Eles têm três gatos, nunca fazem barulho e o filho deles passa o dia jogando videogame com fone de ouvido. Ou seja, zero interação, o que os torna vizinhos perfeitos. E a Dona Sônia, aquela senhora idosa do térreo que cuida do jardim. Ela não faz perguntas difíceis e uma vez me defendeu quando o Seu Ribeiro reclamou que a gente estava correndo no pátio.

— Sabe, amigo, morar em condomínio só me deu uma certeza: não dá para confiar em ninguém. Vivo cercada de muros e portões, mas os meus bloqueios mentais são ainda maiores. A única exceção é você, o único amigo que realmente me conhece e em quem confio de olhos fechados. De resto, mantenho distância. 

Josefina não confiava em ninguém; os vizinhos eram apenas rostos suspeitos atrás de janelas fechadas. Só o Léo tinha permissão para cruzar seus muros de desconfiança e, nos dias bons, era o único que conseguia fazê-la esquecer o peso daquele nome antiquado. 

Leo inclinou-se para frente, curioso — Onde entro nisso tudo?

— Você não está no dossiê, Leo — disse ela, guardando o caderno na gaveta com chave. — Você é o meu parceiro de equipe. E agora que mapeei o terreno, a gente precisa planejar como evitar o andar do Seu Ribeiro na hora de descer até o térreo.

Os dois entraram no elevador e foram até a quadra e se acomodaram no chão de cimento, com as costas apoiadas na grade de ferro. O silêncio estava confortável, até que o olhar afiado de Josefina travou num ponto no bloco da frente.

No terceiro andar, a cortina do apartamento 32 se moveu. Um homem de terno, segurando uma maleta escura, olhou para os lados antes de puxar o tecido fino.

— Muito estranho! O casal que mora ali — conheço os dois — trabalha muito e o imóvel permanece vazio o dia todo. 

Josefina sentiu o sangue ferver de desconfiança. Quem era aquele cara? Por que ele estava se escondendo? Ela deu um soco forte no joelho de Léo, sem tirar os olhos da janela, revoltada porque ninguém mais parecia notar que algo muito errado estava prestes a acontecer naquele condomínio.

Leo soltou um resmungo pelo soco no joelho, massageando o local, mas seus olhos seguiram a direção do dedo apontado de Josefina. Ele olhou pra janela do apartamento 32, agora com a cortina completamente fechada. Voltou a encarar a amiga com aquele sorrisinho de deboche.

— Josefina, você está assistindo a muitos filmes de espionagem — Léo sussurrou, embora estivesse achando graça. — Aquele apartamento está para alugar há meses. Deve ser só o corretor ou o dono limpando o lugar.

— Corretores não se escondem atrás da cortina parecendo fugitivos, Léo! — Ela rebateu, segurando o braço dele com força. — Conheço as pessoas deste condomínio. Aquele terno, aquela maleta… Tem alguma coisa muito errada ali e vai acontecer agora.

Enquanto discutem na quadra, o homem de terno sai do prédio principal a passos rápidos. (mais adiante essa expressão já é dita)

— Ele está saindo! —  Puxando Leo pela manga da camiseta antes que ele pudesse rebater.

O homem de terno cruzou o pátio a passos largos, sem olhar para os lados. A maleta escura balançava pesadamente ao lado de sua perna. Ele passou pela portaria, acenou de forma mecânica para o porteiro e ganhou a calçada da rua movimentada.

— A gente vai mesmo atrás dele?  O tom de deboche havia sumido, substituído por uma faísca de pura adrenalina. Aquele lado danado dele adorava quebrar a rotina pra acompanhar as maluquices da amiga.

— Claro que vamos.  — Josefina já estava correndo em direção à entrada principal.

Eles passaram pela saída do condomínio tentando parecer naturais — o que, para dois adolescentes de treze anos sem rumo, significava caminhar rápido demais e olhar para trás a cada cinco segundos. Quando pisaram na calçada da rua, o homem já estava a quase meio quarteirão de distância, dobrando a esquina perto da padaria.

Josefina apertou o passo, mantendo uma distância segura, usando os carros estacionados e os postes como escudo para os seus olhos atentos. Leo ia logo atrás, fingindo mexer no celular para disfarçar, mas com os olhos fixos nas costas do terno cinza.  Ela não sabia pra onde aquele homem estava indo, mas sua intuição dizia que o mistério do apartamento 32 estava prestes a ser revelado na próxima esquina.

O homem de terno diminuiu o passo de repente. Josefina empacou na calçada, puxando Léo pelo braço pra trás de uma banca de jornais. O homem olhou para trás e, com os olhos cerrados, varreu a rua com o olhar. Ele sabia que estava sendo seguido.

— Viu só? — Josefina sussurrou, o coração batendo na garganta. — Ele percebeu.

Antes que Léo pudesse responder, o homem acelerou o passo quase num trote, dobrou a esquina seguinte à esquerda e entrou numa rua bem mais estreita e movimentada por causa do comércio local.

— Vamos, corre! — Léo chamou, agora totalmente investido na missão.

Os dois dispararam e viraram a esquina logo atrás dele, mas a calçada ali estava cheia. O homem de terno usou a multidão a seu favor. Ele ziguezagueava entre as pessoas, jogando o corpo para o lado, sumindo e aparecendo entre os pedestres. Josefina tentava não perder o terno cinza de vista. 

De repente, o homem pegou um caminho inesperado: entrou numa galeria antiga de lojas, um lugar com várias saídas e corredores escuros.

— Ele entrou ali! — Josefina apontou, parando na entrada da galeria cheia de letreiros de neon piscando. — Se a gente perder ele de vista agora, nunca mais vamos saber o que estava acontecendo naquele apartamento.

Ela puxou o amigo pelo braço e os dois entraram na galeria, com os olhos bem abertos. O homem de terno fazia movimentos absurdamente exagerados: ele olhava para trás dramaticamente, fingia falar no relógio de pulso como se fosse um rádio e dobrava os corredores quase colando o corpo nas paredes, parecendo um vilão de desenho animado. Para a desconfiada, aquilo era a prova máxima de um crime internacional. Para o homem, era apenas uma quarta-feira divertida.

Ele entrou num corredor sem saída, perto dos banheiros antigos, e parou de costas. Josefina e Léo espiaram pela quina da parede, prendendo a respiração.  O homem colocou a maleta no chão, olhou para o teto de forma misteriosa e, devagar, começou a abrir os fechos metálicos: Clac! Clac!

— Não saia do lugar — Josefina gritou, não aguentando mais a ansiedade, dando um passo à frente com os punhos cerrados. Léo tentou puxá-la de volta, tarde demais.

O homem se virou devagar, com uma expressão séria que logo se desfez num enorme sorriso. Ele abriu a tampa da maleta misteriosa e revelou o conteúdo: não havia dinheiro falso, nem planos secretos e nem joias roubadas. A maleta estava completamente lotada de gibis antigos e brinquedos.

Ele tirou o paletó, totalmente relaxado. —Souu o tio do Léo! Seu pai me deu a chave do apartamento 32 — há tempo estava vazio — pra eu guardar, por alguns dias, minhas caixas de mudança. O Léo me mandou uma mensagem da quadra dizendo que a vizinha mais desconfiada do prédio estava de olho em mim, e eu resolvi entrar no personagem e brincar com você.

A garota cruzou os braços, com as bochechas vermelhas de vergonha e raiva. O mundo de Josefina desabou naquele segundo. Ela olhou para o lado e viu Léo se acabando de tanto rir, apontando pra ela, orgulhoso da peça que havia pregado com o tio. Para eles, era só uma piada. Para ela, uma humilhação pública. A única pessoa, pra quem ela desarmava os escudos havia usado o seu maior traço — a desconfiança — para transformá-la em piada.

Josefina ignorou as desculpas, não gritou, não chorou e não fez cena. Ela apenas deu um passo para trás e cravou os olhos em Léo. Foi um olhar de desprezo puro, frio e cortante, daqueles que desarmam qualquer um. Ele percebeu o erro na hora e o riso murchou.

Ela correu. Correu pela calçada movimentada, passou batido pela portaria do condomínio e só parou quando fechou a porta do próprio quarto. Aquela tarde mudou tudo. Josefina cortou Léo da sua vida de forma definitiva. O orgulho e a mágoa falaram mais alto e a brincadeira do menino custou caro.

Até hoje, eles moram no mesmo condomínio, cruzam-se pelos corredores, mas nunca mais se falaram.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

JOAQUINA A FUXIQUEIRA - Henrique Schnaider

 



JOAQUINA A FUXIQUEIRA

Henrique Schnaider


Joaquina era uma mulher solteirona, que nunca achou uma cara-metade na sua vida. Vivia quase o tempo todo na janela de sua casa, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo; herdou esses costumes tanto de sua mãe como de sua avó.

Era do tipo preguiçosa, nunca se esforçou, apesar dos esforços de sua mãe; mal conseguiu terminar o primeiro grau. Agora, para fazer uma fofoca ou falar mal da vida dos outros, demonstrou desde pequena um dom incrível.

Já com seus dezoito anos completos, sua habilidade de fuxiqueira estava no auge. Mal passava a vizinha, e Joaquina já ia falar para a mãe e a avó que a Rosalva, “a solteirona”, estava vestida com uma roupa supercolada e provocante. Ia dizendo para as duas que a Rosalva era uma mulher da vida e que à noite recebia a visita de vários homens.

A mãe e a avó ficavam aturdidas com os comentários extremamente maldosos dela, mas como elas também eram aquelas marocas tradicionais da Mooca, até que gostavam da língua venenosa da Joaquina.

E assim, a vida ia passando, a idade chegando e a Joaquina só ia piorando. Dia de feira na rua, então, a Joaquina saía com seu carrinho para fazer as compras, não despregava os olhos de todas as pessoas que estavam também na feira. E já ia futricar para a mãe e avó as “novidades” que viu enquanto fazia as compras.

Os vizinhos da Joaquina já estavam cheios da língua de trapo dela e muitos já combinavam uma vingança, aprontando alguma coisa para que ela aprendesse uma bela lição, mas ainda não combinaram entre eles qual seria o castigo que dariam a ela e que valesse a pena. 

Finalmente combinaram um certo dia em que toda a vizinhança se reunisse no mesmo horário em frente à janela de Joaquina.

Numa bela quinta-feira de céu azul e sol esplêndido, exatamente às seis horas da manhã, lá estavam pelo menos umas cinquenta pessoas, que já moravam há muitos anos na Mooca. Encrenqueiros por tradição e herança dos antigos imigrantes italianos, com cartazes em que estavam escritas frases nem um pouco agradáveis sobre Joaquina. 

Língua de cobra, cuidadora da vida dos outros, fofoqueira, pessoa que não tinha o que fazer e muitos outros mais. A coisa não parou aí. Inventaram uma música nem um pouco agradável aos ouvidos da Joaquina e começaram a gritar para que ela saísse na janela para ver tudo que fizeram em sua homenagem.

Joaquina abriu a janela assustada. Quando viu tudo o que estava rolando lá fora, entrou em estado de choque, pois os vizinhos eram seus conhecidos e, assim, sentiu-se traída, achando que as fofocas que contava para elas na janela, elas seriam fiéis a Joaquina e não fariam aquilo que estava acabando de ver. As pessoas ficaram pelo menos por uma hora. Lição dura, mas merecida.

Só que eram todos farinha do mesmo saco. A encrenca foi feia, e Joaquina perdeu o pé do chão com todo aquele mal-entendido. A partir daquele dia, a pobre da moça resolveu não ficar mais à janela, mas passou a ficar à porta, sentada numa cadeira; mas a sua língua ferina não mudou, pois ser fofoqueira já estava na sua natureza.

Joaquina continuou assim por muitos anos, sempre recebendo chacota da vizinhança, e assim era o bairro da Mooca.


Antes do último capítulo - Hirtis Lazarin





Antes do último capítulo Hirtis Lazarin O relógio na parede do restaurante marcava exatamente 19:45 horas quando a porta da frente travou pela décima vez.
O burburinho era ensurdecedor, uma mistura de mil conversas paralelas.
O cheiro de manjericão e de alho fritando escapava da cozinha, cada vez que o garçom passava equilibrando três pratos de cerâmica apoiados sobre um único braço. Confesso que tive um pensamento maroto: “Tomara que caia”.
Enquanto isso, a confusão na recepção aumentava com a chegada de um grupo de jovens, sem reserva. A recepcionista, com os olhos presos no tablet, tentava inutilmente encontrar um espaço que não existia. — “O tempo de espera é de cinquenta minutos” — anunciou ela, recebendo em troca um coro de suspiros frustrados.
Foi então que, no auge do movimento, as luzes piscaram três vezes e se apagaram por minutos — os minutos mais compridos que já vivi.
Quando a energia voltou, uma garrafa de champanhe estourou na mesa sete, acompanhada do tilintar de muitos garfos batendo nas mesas.
Na mesa de canto, um senhor solitário ignorava o caos ao seu redor. Folheava um livro antigo de capa vermelha e dura. Ele parecia o habitante da ilha do silêncio, em meio a um mar de famintos. Aguardava sua taça de vinho, a segunda da noite, com a paciência de quem já venceu mais de sete décadas de vida.
A paz do idoso, porém, era um alvo frágil para a engrenagem dinâmica do salão. No instante em que levava a segunda taça à boca, um garçom, acuado pelo fluxo de crianças no corredor, tropeçou levemente ao desviar de uma cadeira. O impacto no ombro do idoso foi seco. O vinho tinto descreveu um arco no ar antes de golpear a camisa de linho branca, impecavelmente passada. O líquido espalhou-se pelo tecido como uma assinatura em papel virgem.
O homem permaneceu estático com a taça suspensa a poucos centímetros do seu rosto, enquanto o gelado da bebida atravessava o tecido e molhava sua pele.
O garçom não sabia o que fazer; a bandeja tremia em sua mão. “Meu Deus, me perdoe, eu… eu sou desajeitado” — puxando um pano de prato encardido que só serviu pra espalhar ainda mais a mancha vermelha.
Antes que o senhor pudesse reagir, a voz estridente do gerente cortou o salão. Em vez de socorrer o cliente, avançou sobre o garçom e, com o dedo em riste, gritava: “Incompetente! Eu disse pra ter cuidado!” A humilhação do rapaz era maior que a mancha vermelha.
A vítima não olhava para o garçom, nem para a camisa, nem para o gerente; seus olhos permaneciam fixos no livro aberto à página 94, como se tentasse proteger as palavras daquela confusão.”
Sob o peso daquela atitude compassiva, o gerente murchou quando já se preparava pra lançar outro grito contra o funcionário.
O restaurante, que, até então, era um mar de ruídos felizes, sofreu uma súbita queda de pressão. Não houve manifestações, mas sim um coro de pequenos suspiros de lamentação e olhares de empatia silenciosa e desconfortável. Era um pesar coletivo.
O senhor Frederico ergueu finalmente os olhos, não com raiva, mas com desprezo pela forma como o garçom estava sendo tratado diante de todos. Sem pronunciar uma única palavra, fechou o livro com a calma dos anjos.
Movido por uma dignidade explícita, depositou uma nota de valor expressivo sobre a mesa e lançou ao gerente um olhar gélido — não de raiva, mas de decepção profunda e educada.
Sob o silêncio atônito dos que observavam a cena, ele ignorou o incômodo da mancha vermelha, levantou-se com postura aristocrática e atravessou o salão com passos firmes e rítmicos.
O senhor Frederico Cavalcanti carregava sua gentileza como uma armadura, deixando pra trás um rastro de constrangimento.

VOAR - PEDRO HENRIQUE

 



VOAR

PEDRO HENRIQUE


     Quando o sol abraçou a Terra com seus raios, senti-me na obrigação de levantar, mesmo sendo a última coisa que eu quisesse fazer.

     Entretanto, não havia opção. O dia se desenrolava lá fora. Olhei para o relógio e, quando vi 6:30, percebi que estava atrasada. 

     Fui ao banheiro correndo e fiz meu ritual matinal em uma velocidade tamanha que até cogitei que, na próxima Olimpíada, na categoria corrida, o ouro seria meu. 

     Os minutos saltavam pelas minhas mãos. Haviam se passado 7 até então. Fui ao quarto, peguei um cachecol e vesti o primeiro jeans que encontrei, combinando-o com uma blusa branca: “É o que temos para hoje.”

     Ontem, meu supervisor disse aos berros que eu era uma incompetente, porque não batia a meta da semana passada. Dá para acreditar? Aquele ser sem um pingo de escrúpulos se sente no direito de me ofender em público por não alcançar algo que nem ele, quando era telefonista, conseguia. 

        Isso que dá querer dar asas à cobra.

     6:50, estava eu no ponto de ônibus para, como faço há 8 anos, atender telefones e dizer: “Bom dia, senhora! Bom dia, senhor!”

     Porém, ainda assim, sinto-me indignada. Não entendi como pode haver tanta gente ruim no mundo. 

     Eu também tenho certa culpa em tudo isso. Mamãe sempre me alertou que devia ter feito uma faculdade, mas… A vida foi acontecendo, e os passos foram percorrendo novas rotas e cá estou: exausta! 

     Passados três minutos, o ônibus corta a esquina e eu, nele, entro. 

     Certamente, havia mais de 40 pessoas rezando para não adentrar mais ninguém, pois já não havia possibilidade de movimentação no veículo. 

     E foi aí, neste singelo fragmento do tempo, que vi uma arara azul subjugando o vento. 

     Eu nunca vi uma arara-azul na vida! 

     Lembro, quando pequena, de assistir àqueles programas de TV que discorriam sobre os animais e, quando falavam sobre as aves, sempre aparecia uma arara azul. 

     Elas são tão lindas… E essa… Essa sou eu, ou, ao menos, o que eu queria ter sido e não fui. 

     Não há medo, nem angústia a permeando. Ela só submerge em seu voar.

     Quando o ônibus vira a rua XV de Novembro, a arara pousa em uma árvore e eu amaldiçoo este trambolho por andar tão rápido. 

     Porém, algo em mim está estranho. A vida correu tão depressa, voou como aquela arara. 

     Como pode? Estou constrangida por aquele bicho enfadonho. Ela me machucou. Machucou como ninguém antes havia feito. 

     Quero matar aquela arara. Quero vê-la morrer gritando, sufocando. 

     Não, não posso. Tenho é que agradecê-la. Montar um altar em sua homenagem e cultuá-la, tal qual uma serva leal ao seu deus.

     Obrigada, arara; obrigada, ararinha. Não há o que pestanejar. Está decidido, assim que chegar à empresa, pedirei demissão.


GIZA, a investigadora - Alberto Landi





GIZA, a investigadora
Alberto Landi

Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como uma sombra, com roupas gastas e passos firmes.
A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos. 
Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.
Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada, virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.
Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.
Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.
E quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.
Naquela noite ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.
O passado dele começa a bater antes que ela precise tocar. Quando a porta enfim se abre o sorriso desaparece. Ele a reconhece, não pelo rosto, mas pelo medo. Ela entra devagar como quem volta para casa. Giza não precisa usar força, a presença dela já desperta o peso do que ele fez.
Nenhuma arma, nenhum grito, somente a verdade acumulada. E ao sair, deixa tudo em silêncio, exceto a justiça feita.
Na rua volta a ser invisível, ate o próximo nome da lista guardada na velha mochila.
E enquanto a cidade dorme, ela segue silenciosamente em direção ao próximo infrator!

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A FOTOGRAFIA - Adelaide Dittmers

 


A FOTOGRAFIA 

Adelaide Dittmers


A jovem entrou naquela casa há muito abandonada.  Um mundo diferente e esquecido por anos a recebeu.  Móveis de madeira de lei, cobertos por uma poeira grossa, exalando um cheiro sufocante de passado, fizeram-na espirrar e colocar a barra da blusa no nariz.  Abriu, com dificuldade, as janelas e sentiu que estava acordando aquele ambiente de um sono profundo e repleto de histórias.

 Percorreu cada cômodo devagar, apagando o escuro ao abrir as janelas, que pareciam gemer ao serem empurradas.  Uma sala chamou sua atenção.  Era ampla e tinha uma bonita escrivaninha antiga.  Vários livros se enfileiravam em uma estante.  Ela aproximou-se da escrivaninha e tentou puxar uma das gavetas, que emperrada quase caiu em seu colo.

Várias fotografias antigas e amareladas estavam jogadas ali dentro.  Foi tirando uma a uma, sorrindo ao ver os trajes e o ar imponente daquelas pessoas de outra época.  De repente, segurou uma que lhe chamou a atenção.  Várias pessoas estavam reunidas em volta de uma mesa, provavelmente jantando tranquilamente.  Mas haviam riscado o rosto de uma das mulheres presentes.  Ela segurou a foto e virou-a, mas não tinha nada escrito no lado inverso.  Quem fez isso? Por quê?

Os seus pensamentos se atropelaram pela curiosidade de saber o que aquele retrato, ao mesmo tempo que mostrava, escondia.

Suzana sentou-se em uma poltrona, que gemeu ao sentir seu peso.  A briga pela posse da fortuna construída pelo bisavô fora proibida de ser mencionada.   Seu avô silenciava qualquer indagação sobre isso.  E ninguém ousava ir contra a sua vontade férrea.

Depois de muita discórdia, a casa ficou para seu avô, que viveu lá por apenas alguns anos, mas, quando se casou, a mulher se recusou a morar ali.  Acreditava que espíritos malignos se arrastavam por ela.  Achava que o peso da discórdia estava em cada parede, em cada canto. Resolveram então vendê-la, mas ninguém quis adquiri-la porque achavam que era mal-assombrada.

Agora, finalmente, uma grande construtora queria comprá-la por uma enorme soma de dinheiro.  E seus pais ficaram felizes de se livrar dela e ainda ganharem uma grande quantia inesperada e polpuda.

Suzana nunca acreditou nas histórias que diziam sobre a maldição daquela casa e, naquele dia, foi lá para avaliar o que guardava, já que seria demolida. Subitamente, um mundo diferente e perdido nos anos a impressionou.  E a fotografia da mulher riscada ocupava sua imaginação.

Ela sempre fora curiosa sobre o passado da família e nunca entendera a indiferença e o desconforto do pai pelo assunto.  Quando perguntado, respondia que essas histórias do arco da velha deveriam ser esquecidas.  Que, graças a Deus, viviam em outra época e longe dos mitos e mesquinharias de outrora. Quem era aquela mulher, por que fora riscada, como alguém indesejado?   Ela colocou a foto de lado e começou a vasculhar aquela gaveta repleta de um passado distante. Havia cartas e papéis soltos, desbotados pelo tempo, que ela lia um a um, apesar da dificuldade de entender as letras rebuscadas da época.

 Um grande envelope apareceu no meio da papelada. Ela o abriu devagar, como se quisesse se desculpar pela intromissão de estar tentando decifrar aquele passado tão distante. Dentro havia um papel, que ela começou a ler. Cada parágrafo era analisado com muita atenção.  Parou muitas vezes para respirar.  O incontável estava ali contado: a história da mulher, cujo rosto foi apagado.

Era uma carta direcionada a um padre, em que seu bisavô escrevia sobre a traição de sua esposa com um primo muito próximo a ele. Essa descoberta veio à tona anos depois, durante uma briga entre o casal.  O mais incrível é que ela teve um filho com o amante e nunca revelou qual deles era o bastardo.  Ele a havia espancado com violência, mas depois, quando a ira esfriou, resolveu encobrir o malfeito da mulher para evitar um escândalo, e viveram como dois estranhos, cada um representando seu papel. Uma assinatura que pareceu à Suzana feita com raiva terminava a confissão.

Ela soltou a carta e deu um profundo suspiro.   Por que aquela carta tão íntima e secreta havia sido jogada em uma gaveta? Por que o bisavô não a enviou para seu confessor? Eram perguntas que nunca teriam uma resposta.

Suzana levantou-se e olhou pela janela para respirar o ar do presente, porque o de outrora estava sufocante. Nas mãos, a carta reveladora, que ela foi rasgando e jogou pela janela. Aquele era um segredo e tinha que continuar sendo.

 Quem era realmente aquela mulher? Por que traíra o marido?  Será que ela o escolheu ou foi um casamento forjado pelas duas famílias deles? Essas perguntas ficariam para sempre sem resposta. 

E o seu avô, seria ele o filho bastardo?


quarta-feira, 6 de maio de 2026

LARISSA, A INTROMETIDA - Henrique Schnaider

 




LARISSA, A INTROMETIDA
Henrique Schnaider

Larissa era uma menina muito curiosa; era tão curiosa que ouvia cores e tinha certeza de que ouvia. Sempre à procura de uma novidade, mas às vezes até acabava se dando mal por ser abelhuda.
A menina era movida pela curiosidade. Havia ganhado o apelido de “Larissa, a intrometida”. Apesar de a menina não se incomodar nem um pouco com a sua fama.
Seus pais eram de uma família tradicional paulistana, descendentes dos antigos barões do café, eram muito abastados e frequentavam a elite da sociedade, mas não apreciavam tudo o que mandava a etiqueta.
Os pais de Larissa tentaram educá-la, oferecendo-lhe professores para lhe dar uma fina educação, mas a menina era resiliente, uma pedra no sapato da família, era bocuda e respondia aos professores que lhe chamavam a atenção e não escondia a fama de ser xereta.
Nas horas de folga nos estudos severos a que era submetida, lá ia ela à procura de novidades. E já começava pela casa dos seus pais, uma enorme mansão no bairro dos Jardins. O palacete possuía inúmeras salas e vários aposentos ricamente decorados.
O quarto de seus pais era decorado com móveis finos, algo que encantava os olhos de quem tivesse acesso ao mesmo. Mas não havia a menor chance para Larissa adentrar o mesmo, já que era terminantemente proibida de degustar a sua curiosidade, já em estado de angústia.
Certo dia, um dos seus pais escorregou no erro de esquecer a porta do quarto destrancada, e a menina, sempre de olho vivo à espreita dessa chance, percebeu o erro e, aproveitando-se da oportunidade tão esperada, entrou sorrateiramente no quarto.
Não perdeu tempo e começou a procurar as novidades, mexe aqui, mexe ali, mas ainda não estava satisfeita, até que, em uma certa gaveta que chamou muito sua atenção, não perdeu tempo, estava destrancada e abriu a mesma, matando sua curiosidade.
Achou algumas coisas que não lhe interessaram. E, ao ver uma foto antiga, reconheceu seus avós e tios, mas enregelou ao ver que havia uma pessoa na foto, com o rosto recortado, e que seu avô estava com o braço no ombro dela.
Depois disso, Larissa se deu por satisfeita e saiu do quarto ansiosa por ver sua mãe.  Sabia que receberia um tremendo castigo por entrar no quarto dos pais, mas, como sempre, a curiosidade era maior do que o medo.
Encontrou a mãe na sala da mansão e, não resistindo, confessou para ela que havia entrado no quarto dela e que aceitaria o castigo, mas queria saber o porquê daquele rosto recortado na foto da família.
Sua mãe deu um sorriso suave, que só as mães sabem dar, e pediu para ela sentar-se, que ela iria contar. Perguntou se Larissa reconheceu as pessoas, e a menina disse que sim.
A mãe explicou que aquele rosto recortado era da sua tia Luiza, e seu avô, que era casado com a avó Esmeralda, estava cheio de mesuras com a tia Luiza, tanto que na foto estava com o braço no ombro dela, o que deixou sua avó Esmeralda furiosa. E, assim que a foto ficou pronta, ela não perdeu tempo e recortou o rosto da tia Luiza da foto.
A mãe perguntou se a menina gostou da explicação e Larissa respondeu que sim, apesar da pouca idade. Em seguida, disse para ela que nunca mais entrasse no quarto dos seus pais e que, daquela vez, não iria receber nenhum castigo, mas se não mudasse seu vício de curiosidade, ela iria para um colégio interno até a maioridade.
Larissa procurou mudar de hábito. Mudou surpreendentemente, pois se assustou com a ameaça que sua mãe lhe fez, e passou a ser uma boa aluna, além de filha exemplar.






Fim de um ciclo - Hirtis Lazarin





Fim de um ciclo 

Hirtis Lazarin


A porta da mansão rangeu com um protesto metálico, revelando um interior onde o tempo parecia estar congelado.

Sob uma camada de poeira cinzenta, a mobília sobrevivente emergia como esqueleto de uma época de trinta anos atrás: poltronas de veludo puído, na cor carmim, conservam marcas de corpos ausentes. A maior… era onde o senhor Nicolau bebia os mais finos vinhos.

“No centro da sala grande, a mesa de mogno estende-se, cercada por cadeiras de encosto alto que guardam a postura solene de quem ainda espera pelos donos da casa. Sobre ela, coberta de poeira, ficou um livro aberto. Rui se aproxima: é um livro de poesias, as páginas amareladas e curvas pela umidade de trinta invernos; uma pétala de rosa seca, agora transparente e quebradiça como asa de inseto, marca um verso interrompido. “Minha avó sabia um monte de poesias de cor e, do nada, começava a recitar com a eloquência que só ela sabia impor”.

O ar pesado, com o cheiro de madeira podre, passeava por todo o recinto, expulsando a intromissão de almas intrometidas.

Na parede de reboco descascado e sem cor, um calendário ainda resistia, preso por um prego enferrujado.  Um círculo vermelho envolvia os dias 15 e 16 de abril de 1986. 

Rui ajustou o nó da gravata, sentindo o ar rançoso pinicar sua garganta. Enquanto o corretor lutava com a fechadura de um dos cômodos, ele caminhou até uma segunda sala. Numa das paredes do afresco pintado, sobraram apenas manchas de tinta. Olhou pro  teto e vislumbrou o imenso lustre de cristal que iluminou as glórias da família. “Trinta anos”, pensou ele, “é tempo demais pra uma estrutura permanecer tão firme e guardar tanta mágoa”.

Subiu as escadas e, no topo, parou diante do grande retrato coberto por um lençol   amarelado. Ele nem precisava puxar o pano pra saber quem estava ali; os olhos do seu avô ainda pareciam queimar através do tecido podre.  O corretor tagarelava sobre a fundação da casa, sem saber que Rui conhecia cada tijolo e as histórias que eles contavam.

Ele não queria a mansão só para restauro. Ele a queria pra garantir que certas portas continuassem trancadas. Enquanto caminhava, sentiu o peso imaginário da chave de ferro em seu bolso, a mesma que roubara vinte anos atrás, na noite em que o silêncio venceu os gritos. Restaurar a propriedade era o único jeito de impedir que escavassem o jardim ou derrubassem as paredes que guardavam o segredo que, há tantos anos, o atormentava nas noites de insônia. Rever cada canto daquela mansão fazia um suor frio escorrer pela sua nuca — a gola da camisa já estava molhada.  

— Uma estrutura sólida — dizia o homem, batendo descuidadamente na parede. Rui queria gritar pra ele parar, mas sua voz ficou presa na garganta, seca de poeira e pânico. 

Entraram na biblioteca. O herdeiro parou diante da poltrona, que repousava solitária como uma sentinela de frente pra janela alta. A luz do entardecer atravessava as cortinas desfiadas, projetando sombras longas sobre o couro craquelado que um dia abrigou o corpo frágil da avó. Era estranho como, mesmo após três décadas de abandono, o móvel ainda parecia manter a forma de quem o ocupava, com o assento levemente afundado e os braços de jacarandá gastos pelo toque obsessivo de mãos. Era ali que ela passava parte do dia enfiada entre livros; tinha o hábito de riscar com lápis as passagens do texto que mais lhe interessavam. 

Daquele ângulo, quem estivesse sentado ali teria a visão perfeita de todo o jardim.

O corretor deslizou a mão pelo encosto da poltrona e mais nuvem de poeira se levantou. — “Veja esta peça, é jacarandá legítimo” —-- comentou com um sorriso comercial, ignorando o cheiro de mofo. —-- “Coisas assim não se fazem mais hoje em dia; a cadeira de sua avó foi feita pra durar pela vida toda”. Enquanto ele falava, soltou um suspiro de cansaço e deixou o corpo cair sobre a poltrona. O jacarandá rangeu sob o peso exagerado e um som seco ecoou pelas estantes vazias da biblioteca. — Ah, eles sabiam o que era conforto naquela época — exclamou o homem, ajeitando as costas contra o encosto rígido. 

Ao se acomodar, ele franziu o cenho e remexeu-se para o lado, tateando a lateral do assento. — Tem algo aqui embaixo me cutucando, algo duro. Deve ser uma mola quebrada, ou quem sabe um daqueles reforços de ferro antigo".


O herdeiro mantinha os olhos fixos no forro lateral, onde algo rígido parecia forçar a costura por dentro. O mundo lembrava da avó como uma senhora devota e gentil, mas o neto guardava a verdade fria, o segredo que sustentava o nome daquela família. Só ele sabia.  Só ele carregava a imagem nítida daquela noite do dia 15 de abril, trinta anos atrás, quando viu, pela fresta da porta, a velha senhora costurando o forro, após guardar um livro pequeno no interior da poltrona.

Enquanto o corretor tateava o remendado no tecido, os dedos quase alcançando o que estava oculto, a voz do herdeiro cortou o silêncio. — “Levante-se. Eu não quero que você se acomode nas antiguidades da minha família. Se o senhor está aqui pra avaliar a estrutura, foque nas paredes, no teto e nos cômodos”.

O homem, sem graça, pigarreou e recuou em direção à janela, pedindo desculpas. Rui respirou fundo. Sabia que não poderia deixar aquele homem sozinho naquela sala. Com certeza, alguma dúvida foi implantada na sua curiosidade.

Nesse momento, entrou na biblioteca um gato feito de vento; seu gemido de fome, fraco e trêmulo, desviou a atenção dos homens. Não tinham ali qualquer alimento para oferecer, e o corretor, prontamente, acompanhou-o até o jardim. Lá de fora, gritou que iria até o carro estacionado na rua.  “Não entendi o resto da frase.”

Nesse momento de pausa, Rui fechou os olhos e reviveu aquela cena: “Olhei firme pela fresta da porta e não estava ali a vovó que me contava histórias.  Não era mais a vovó da pele macia com cheiro de pó de arroz.  O jeito que ela olhava pros lados me lembrou os passarinhos que fogem do gato.  Os olhos pareciam duas bolas de gude vazias. Ela gesticulava na frente do vovô e gritava, gritava alto e impedia que ele abrisse a boca. 

Eu não entendia o que ela falava. Entendi uma única frase na qual as palavras foram valorizadas. — “Christina é mais uma de suas amantes”?  — O rosto avermelhou de um jeito que me dava medo; as veias do pescoço saltaram como cordas.  Vovô, com ar de desdém, ignorou-a e virou as costas. Ela se apoderou de um peso de cristal que ficava sobre a mesa — e eu nunca pude tocar.

Chegou mais perto dele e, com toda força, arremessou o peso com a intenção de acertá-lo na cabeça.  Foi rápido. O som foi tão seco e oco como o som do coco jogado no chão. Vovô caiu desajeitado no assoalho.

Ela levou as mãos à boca. O vermelho do rosto sumiu na hora, ficando de um branco de papel. Ela se ajoelhou e chamou o nome dele baixinho: “Nicolau? Nicolau?”, mas ele não respondeu. Um fio de sangue escorreu da sua cabeça. Foi aí que o rosto dela mudou de novo. Ela não chorou. Olhou pra peça de cristal, agora suja de sangue; os olhos ficaram pequenos e gelados. Percebeu que ele não iria mais acordar. 

O som dos passos do corretor ecoando pelo corredor de madeira anunciou o seu retorno, mas o neto estava mergulhado num tempo diferente.  O homem trouxe consigo o cheiro do cigarro e o barulho das chaves balançando. Alheio ao fato de que o herdeiro mal o escutava, caminhava de um lado pro outro, gesticulando sobre possíveis reformas. 

 Exausto de lutar contra os fantasmas que o observavam de cada canto escuro da biblioteca, Rui ergueu a mão e, com um tom de voz seco, despediu-se do corretor, alegando precisar de ar e de tempo para processar a herança.  Finalmente estava sozinho com a poltrona, pronto para enfrentar o que aquela agenda lhe contaria.

Aproximou-se da poltrona e deslizou os dedos até encontrar a costura. Não foi preciso força; o tempo já havia enfraquecido as linhas. Com apenas um puxão, ele trouxe a agenda de bolso preservada na escuridão de trinta anos. Ao abrir a primeira página, o cheiro de papel antigo subiu às narinas e ele espirrou repetidas vezes. Os garranchos elegantes da avó saltaram aos olhos.  Ali, entre datas e nomes de mulheres, provavelmente amantes do avô, estava confessado o cálculo frio de como uma morte pode ser forjada com um silêncio bem planejado. 

O que a avó nunca soube, enquanto costurava aquela agenda no interior do couro, é que segredos nunca morrem quando há testemunhas. Rui, encolhido no escuro do corredor, não apenas viu o golpe e o descaso de sua omissão; ele absorveu cada detalhe da transformação daquela senhora. Ele carregou um peso em sua própria consciência, assistindo ao mundo lamentar uma 'fatalidade' que ele sabia ser apenas um cálculo.

Agora, com a agenda aberta em mãos e o corretor já longe, leu cada página detalhadamente. E não eram tantas… Rui não se sentia chocado; ao contrário, sentiu um estranho alívio. O ciclo finalmente se fechava. Ele olhou para as páginas amareladas uma última vez, fechou o caderno e o guardou no bolso. A casa estava vazia, a avó se fora e, pela primeira vez em tantos anos, o silêncio da biblioteca não era mais um esconderijo, mas apenas silêncio.” 

A morte do patriarca foi contada como uma fatalidade triste. No luto da família, a história contada foi sempre a mesma: o coração cansado do vovô havia falhado, fazendo-o desfalecer e bater a cabeça na quina da mesa. Era uma narrativa impecável, aceita por médicos e legistas, que justificava o sangue no tapete e o corpo estendido no chão. E a avó, com seu luto impecável e os olhos sempre úmidos de uma saudade ensaiada, tornou-se a guardiã oficial dessa mentira. 

Caminhou até a lareira e arrancou cada página da agenda. Riscou um fósforo e a chama devorou cada folha.  A confissão e a mentira foram se transformando numa fumaça cinzenta que subiu pela chaminé e se dispersou no céu vasto lá fora. Enquanto o fogo morria, um peso invisível desmoronou dos seus ombros. Ele não era mais o menino escondido atrás da porta; era um homem livre daquela herança maldita. Sem olhar pra trás, ele deixou a mansão e fechou a porta. 

O segredo virou pó e, pela primeira vez, após tantos anos, finalmente, Rui respirou em paz. 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin

 



Eram cinco horas… 
Hirtis Lazarin

O brechó cheirava a poeira acumulada. Ali o tempo foi esquecido e as identidades se misturavam. Entre os cabides de metal que rangiam sob o peso de tecidos, as peças de roupas pareciam esperar, com paciência resignada, que alguém as levasse dali. Não eram apenas roupas, eram a soma de momentos que já não pertenciam a mais ninguém.
 
Lívia caminhava entre as fileiras de lã e linho, até que seus olhos pousaram naquele blazer bem modelado. Era de um cinza profundo, quase fustigado, como se tivesse absorvido muita fumaça de cigarro antes de ser deixado ali, por um preço irrisório. 

Tirou a peça do cabide, examinou o tamanho e o preço anotados na etiqueta: estava compatível com o que ela tinha na carteira. Aliás, ali estava tudo que restava da sua parca aposentadoria. O frio acabava de pôr as manguinhas de fora e o seu guarda-roupa estava vazio de peças quentes.

Ela fechou a porta do apartamento, deixando o ruído das ruas pra trás. Vestiu o blazer, a lã era áspera, mas trazia um calor que parecia vir de dentro das fibras, uma temperatura que não era dela. Diante do espelho, observou que a estrutura da peça moldava seu corpo, preenchendo vazios que ela nem sabia existirem. Ao ajeitar a lapela, num gesto automático de quem busca conforto, sentiu um pequeno volume estranho. Estava por trás do forro descuidado, preso por um fio de linha que insistia em não partir.


Lívia não hesitou; a curiosidade era bem mais forte que o pudor de mexer no passado alheio. Puxou o objeto, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Era uma chave pequena, de latão leve e gasto, com uma etiqueta plastificada, onde se liam: o número 32 e o endereço de um antigo terminal ferroviário da cidade, um lugar que agora só abrigava sombras e o eco de trens que não passavam mais.

Enquanto a maioria das pessoas guardaria a chave numa gaveta como curiosidade de antiquário, ela não era dada a hesitações. Não tirou o blazer, sentindo que a peça era agora seu uniforme de investigação e, cinco minutos depois, já estava no carro. 

Enquanto o metal da chave queimava em seu bolso, a ansiedade apertava seu estômago como o marinheiro aperta o nó da corda grossa. Respirava com tamanha dificuldade, que foi obrigada a encostar o carro por alguns minutos.

Ao chegar, o cenário vazio da estação era de uma beleza estática: as plataformas vazias e o relógio parado pareciam suspensos num tempo que não avançava mais. Lívia olhou pra baixo e viu os trilhos. Eles repousavam ali, entregues à própria sorte, como serpentes de ferro paralisadas pelo tempo. O ferro estava sendo devorado por uma ferrugem faminta, que vestia o metal com uma pele alaranjada e ressecada; e o mato crescia e se esparramava entre os dormentes de madeira podre, num esforço silencioso de apagar o caminho. E bem lá no meio do mato, um punhado de florzinhas pintou de amarelo aquele verde intenso.

Não havia mais o tremor do chão, nem o apito cortante, apenas o silêncio pesado de quem não tem mais pra onde ir.
 
Lívia caminhou decidida entre os ecos de seus passos até encontrar a fileira de armários metálicos, ainda organizados em numeração crescente. O 32 estava bem à sua frente. A tinta descascada revelava cicatrizes de décadas de partidas e chegadas. 

A poeira acumulada em tudo que se via castigou seus pulmões e um acesso de tosse seca e persistente interrompeu o que ela pretendia fazer.

Depois de, aproximadamente, meia hora, ela pôde se posicionar à frente do armário.  Seus dedos gelados, transformados em hastes rígidas de vidro, tremiam ao aproximar a chave da fechadura. Ela sentia que, ao girar aquele cilindro, não estaria apenas abrindo um armário, mas rasgando o véu que separava o seu presente do passado de um fantasma.

Depois de um estalo seco, o armário se abriu. Lá dentro, uma caixa de madeira gasta e sem brilho. Ao abrir, um susto: sobre um maço de cartas amarradas com barbante, repousava um relógio de pulso com o vidro trincado, parado às cinco horas. Cinco da manhã ou da tarde? 

Sentada no chão frio da estação, com o blazer ainda abraçando seus ombros, Lívia abriu o primeiro envelope. No topo da carta, uma caligrafia pequena e apertada: “14 de dezembro de 1972”. A carta foi escrita numa noite de domingo, quase quarenta anos atrás.

À medida que lia, uma dor forte crescia no seu peito… Ela ainda era uma criança e o autor solitário sofria as dores da indiferença e do abandono. 

Naquelas cartas não havia crimes ou perigos, apenas os destroços de alguém que insistia em não ser esquecido. As cartas não tinham selo; eram endereçadas a alguém que nunca as recebeu. Eram monólogos de um homem solitário e apaixonado. Agora, ela e aquele estranho compartilhavam o mesmo silêncio, separados pelo tempo. Lívia não havia adquirido, num brechó, apenas um blazer de boa qualidade; a sua curiosidade invadiu a privacidade de um estranho.


Subitamente, ela interrompeu a leitura e um peso denso abateu sobre ela: a curiosidade que antes a movia parecia agora uma invasão cruel, um sacrilégio contra a intimidade de quem nada mais tinha além daquele silêncio. Devolveu as cartas e o relógio ao seu repouso. Fechou o armário com o pesar de quem encerra um túmulo. 

Ao sair da estação, jogou a chave num bueiro, ouvindo o tilintar final de um segredo que não lhe pertencia. Já na rua, sob a luz indiferente dos postes, despiu-se do blazer e o entregou à primeira pessoa necessitada que encontrou encolhida contra o frio.

Estacionou o carro em frente ao “Bar do Nenê” e pediu duas doses de uísque. À medida que o copo se esvaziava, o peso das cartas e do casaco ia diminuindo. 

E o vento da noite, pela primeira vez, parecia soprar só pra ela.

 






A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

  A TEMPESTADE DE NEVE Adelaide Dittmers Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violênci...