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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A SAGA DE UMA FAMÍLIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Existem fatos em nossa vida que não conseguimos explicar. Presenciamos, comentamos, a única coisa que conseguimos exclamar: Parece uma saga familiar!

Compareci ao velório de uma filha de uma sobrinha, falecida muito jovem, de um Câncer maligno. Verdade que, atualmente, essa doença está invadindo muitas famílias!

Quando fui desejar os meus sentimentos tristes ao pai dela, a única coisa que conseguimos exclamar foi: “Parece mesmo uma saga!”

Nunca nos vemos, a não ser nos funerais da família.

A mãe da jovem, minha sobrinha, grande professora da USP, lutou bravamente, também falecendo da mesma doença.

Lembrei-me que a mãe dela, minha cunhada, também notável professora, de grande conhecimento dos problemas sociais e muito amada por seus alunos, deixou vários livros escritos e ainda estudados, morreu também, muito cedo, da mesma doença, iniciando essa série de falecimentos na família, todas lutando bravamente contra o terrível e maléfico Câncer.

Um pai, filhos e netos, sofrendo a dor de parentes chegados devido ao grande mal!

Nesse momento, meio boquiaberta, fiquei sem saber como me expressar ou comunicar os meus sentimentos. Nunca os vejo, são do lado do meu falecido marido, que também morreu de Câncer, mas fiquei sensibilizada e comovida com essas mortes tão prematuras e tristes. Realizaram um grande esforço, mas não conseguiram vencê-la.

Falando sobre sagas, não consegui viajar através da ficção. Existem mesmo em nossa vida real! Grande tristeza!


A Saga da Família Vargas - Hirtis Lazarin

 



A Saga da Família Vargas

Hirtis Lazarin

 

Tudo começou no ano de 1880, com Elias Vargas, pescador de uma aldeia remota.

O céu ficou cor de chumbo. Ondas brutais e devastadoras jogaram o barco ocupado por três pescadores contra as pedras pontudas de uma costa esquecida. Apesar de habituados às condições austeras, ao sol, ao sal e ao frio, apenas um deles se salvou. Atirado por ondas revoltas e selvagens contra pedras afiadas, seu corpo sangrava. As feridas, expostas ao sol e sal, queimavam, sem pena nem dó.

Apesar dessa fúria desenfreada do mar, ele não sucumbiu. Feito um réptil à beira da morte, debateu-se e rastejou do jeito que pôde até alcançar a areia da costa. Agonizando ficou, por quanto tempo nunca conseguiu saber.

Febril e já à beira da morte, Elias começou a alucinar. Via os companheiros, que o mar levou, caminhando sobre as águas. Grita o nome deles, mas cadê sua voz? A árvore de sua linhagem aparece-lhe, sucessivamente, à frente. As raízes expandem-se a partir do amontoado dos seus ossos. Dois galhos crescem… crescem… até onde seus olhos não alcançam mais. Em vez de folhas, ela produz engrenagens de ferro.

Foi quando, num desses delírios em que se arrastava sem rumo, tropeçou e caiu numa depressão no centro da ilha. Ao tentar se levantar, seus dedos compridos e calejados cravaram numa lama cinzenta: era sal puríssimo misturado a um mineral metálico desconhecido.

À custa de frutos silvestres, algas marinhas e coco, conseguiu recobrar a consciência e sobreviveu. A sua vivência de cinquenta anos em contato com o mar dava-lhe esperança de que, mais dia, menos dia, sairia desse encarceramento. Utilizou restos de óleo de baleia e madeiras secas, que o mar trazia à costa, para manter uma pequena chama acesa no ponto mais alto da ilha. No entanto, ele não buscava apenas socorro, mantinha guarda, obsessivamente, à jazida que havia descoberto.

Um navio de patrulha costeira avistou a coluna de fumaça persistente. Ao desembarcarem, os marinheiros não encontraram um náufrago desesperado, mas um homem magro e febril, sentado sobre montes de sal e minerais que ele mesmo havia organizado em pilhas geométricas.

Elias estava com as mãos em carne viva de tanto cavar, mas se recusava a sair da ilha sem suas “amostras”. Foi resgatado carregando apenas uma bússola quebrada, salva dos destroços, e os bolsos cheios daquela terra cinzenta e salina.

Durante toda a viagem de volta ao continente, não disse uma única palavra sobre os companheiros que faleceram. Permaneceu no convés, afastado dos tripulantes, olhando fixamente para o oceano. Um olhar de quem não estava só sendo salvo, mas sim de quem estava partindo para uma guerra de conquista. Olhos frios de quem imaginava que o sofrimento pode ser transformado em moeda.

Como pescador e homem simples, Elias vivia, até então, em perfeita harmonia e respeito ao mar e a tudo que ele lhe oferecia. Entretanto, esse mesmo mar tentou arrebatar-lhe a vida. O naufrágio, os dias de horror na ilha e o medo da morte atormentaram-no durante meses. Tudo isso quebrou essa confiança. Ser “simples” significava ser “frágil” e frágil ele nunca mais seria, nunca mais estaria à mercê de forças maiores que ele — fosse o oceano, o governo ou a pobreza. Era a “fobia da impotência” em desenvolvimento.

Elias usou a pequena porção que trouxe nos bolsos para curar feridas de marinheiros no porto. A mistura mineral daquela ilha específica tinha propriedades antissépticas superiores a qualquer sal comum da época. Vendeu essas primeiras amostras como um “tônico milagroso”, conseguindo um capital inicial dez vezes maior do que o valor de uma carga comum de peixe.

Com o dinheiro das vendas, ele não comprou barcos novos, mas sim o título de posse daquela ilha deserta, que o governo considerava inútil. Ninguém entendia por que ele queria um pedaço de rocha salina, até que  começou a exportar o sal não só para a mesa, mas para a indústria de conservas e curtumes, que pagava fortunas por um produto que preservasse a carne por mais tempo sem estragar o sabor.

Para expandir, Elias precisava de infraestrutura. Ele atraiu dois investidores, prometendo sociedade eterna. Assim que o porto e as primeiras máquinas de extração foram instaladas, ele utilizou as dívidas acumuladas durante a construção para levar os sócios à falência, comprando as partes deles por uma fração do valor. Foi nesse momento que as “mãos sujas de terra e sal” deixaram de ser de um trabalhador e passaram a ser as de um empresário frio e ambicioso.

Em menos de uma década, ele controlava todo o fluxo de sal da região, criando o “Trono dos Vargas”, que, mais tarde, seria herdado e expandido pelo filho Artur.

“A moralidade é um luxo de quem tem o estômago cheio. Para que vocês jantem em prata, eu preciso ter as “mãos sujas de terra e sal''.  — Pensamento que Elias repetia sempre quando a família se reunia à mesa farta.

Mesmo após ficar rico, Elias nunca se sentiu seguro. Via o mundo como um lugar onde, para alguém ganhar, outro tem que perder. Isso o tornou um empresário solitário e paranóico. Não via concorrentes, apenas competidores que ainda não haviam sido derrotados.

O pescador que amava o horizonte morreu como um imperador que só conseguia olhar para o chão, contando cada grama de cristal que saía de suas terras.

Elias tinha três filhos: Edgar, Helena e Arthur.

Edgar Vargas, o mais velho, pensava diferente do pai e se recusava a trabalhar nas empresas da família. Queria estudar, viajar, desfrutar a vida e gastar o dinheiro disponível. Sabia quão grande era a fortuna acumulada. Jamais trabalharia nas minas de sal ou nos barcos, preferindo os livros. Para Elias, isso foi visto como covardia ou fraqueza. No dia em que Edgar decidiu partir para a capital e estudar, o pai cumpriu a promessa:  deserdou o filho e o declarou morto; queimou seus registros e proibiu Arthur e Helena de citarem seu nome. Dona Josefina, a esposa, coitada! Chorou o resto da vida.

Helena Vargas representava a consciência da família. Enquanto Artur construía, Helena via as rachaduras. Ela ouvia as vozes das comunidades e gerações sacrificadas para sustentar o luxo da mansão. Era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio.

Tentou usar a fortuna para curar as feridas sociais causadas pelo pai e pelo irmão, mas descobriu que o sistema dos Vargas era uma fortaleza e fora desenhado para corromper. Sua vida foi uma luta constante contra as correntes que a prendiam ao nome da família.

E foi Arthur Vargas, o filho do meio, quem assumiu as empresas da família.

Arthur transformou a ilha num complexo industrial.  Substituiu as pás de madeira por escavadeiras de ferro e correias transportadoras. As engrenagens enferrujadas foram trocadas por máquinas. Descobriu que o sal da ilha era essencial para a nova indústria de plásticos e produtos de limpeza que surgia na Europa. Parou de vender sal para cozinhas e passou a fornecer para as grandes fábricas do mundo, triplicando o valor do negócio. Financiou ferrovias e portos privados apenas para escoar sua produção. No seu mundo não havia espaço para a emoção. Tudo deveria ser funcional, produtivo e controlado. A família era uma máquina, tanto que a sua rigidez o impedia de validar qualquer sofrimento.

Se ele foi a força que cimentou o império, foi também a marreta que estilhaçou sua relação com   Helena, a irmã altruísta e visionária. Ela era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio. Representava a consciência sufocada de uma dinastia que se perdeu na ganância. E para o irmão, a empatia dela era uma “falha mecânica” que ameaçava a estrutura dos Vargas.

Como não conseguia dobrar a vontade da irmã através da lógica empresarial, usou sua rigidez para cercá-la. Removeu-a das decisões da empresa e a confinou à vida doméstica e artística, acreditando que, se ela ficasse calada, o conflito deixaria de existir.

A moça não perdeu tempo. Num diário guardado a sete chaves, registrava, detalhadamente, os acontecimentos importantes do dia a dia e os segredos obscuros da família que ela descobriu em cartas antigas, abandonadas no sótão da mansão:

  O naufrágio original não foi um acidente do destino. O pai teria sabotado o barco da família rival para garantir a posse exclusiva da ilha de sal. A fortuna dos Vargas não nasceu do esforço, mas de uma traição que custou a vida de amigos próximos do patriarca.

— A expansão industrial dos empreendimentos causou a morte de centenas de trabalhadores por doenças respiratórias por conta da falta de segurança nas minas de sal. O irmão sabia dos riscos, mas ocultou os relatórios médicos pra não interromper a produção, tratando as pessoas como peças descartáveis.

  A jazida original estava em terras que pertenciam a uma comunidade nativa dizimada por negligência.  E documentos provavam que a fortuna era, legalmente, um roubo.

  Artur usou a fortuna para subornar cientistas e esconder que a extração intensiva estava matando a vida marinha local.

Helena escreveu também sobre o medo de ser internada à força e como o irmão interceptava suas cartas para advogados e ativistas.

“Um legado não é o que você deixa para os seus filhos, mas o que você deixa de carregar para que eles possam caminhar.” Essa frase aparecia em muitas páginas do diário.

Arthur não teve filhos e Helena nunca se casou.  Nenhum dos dois tinha herdeiros para aquele imenso patrimônio.  O homem trabalhou tanto que não teve tempo pra pensar nisso e Helena nunca se casou.

Quem herdaria esse patrimônio?

Helena vinha se preparando pra quando chegasse o momento em que a transmissão de poder se tornasse inevitável.  E esse momento havia chegado. Às escondidas da família, esteve sempre em contato com Edgar, o irmão deserdado. Manteve-o informado de tudo que acontecia nas empresas e o ajudou muito financeiramente. Ele morava em Londres, onde se estabilizou profissionalmente como advogado e construiu uma família linda com Emily e dois meninos, Jasper e Harry.

O ano era de 1965 e Arthur, que nunca se preocupou com a saúde e tinha a vida desregrada com mulheres e muita bebida, adoeceu. O diagnóstico foi o mais inesperado possível: câncer no fígado. Fez todos os tratamentos que a medicina tinha pra oferecer, mas antes de um ano veio a falecer.

Era, portanto, chegada a hora de Jasper, o filho mais velho de Edgar, entrar em cena. Desde pequeno, fora treinado por Helena para a missão de, um dia, se necessário fosse, assumir as rédeas do império “Vargas”. Ela sabia que isso aconteceria e que a única forma de salvar a alma da família era destruindo o “trono”. Ela previa que o sal acabaria por corroer a estrutura da mansão e da linhagem, e que o sobrinho seria a força que destruiria as engrenagens enferrujadas pela dor.

Jasper tornou-se, legalmente, não só o guardião legal e financeiro de Helena, como também assumiu o comando do patrimônio que a família havia construído. Mas, o conflito interno de Jasper começou ali: ele amava a tia e ouvia seu grito por justiça, mas também estava preso pelas engrenagens industriais que precisava operar para não deixar a família naufragar.

Ele passou quase dez anos tentando conciliar o legado de Arthur com a consciência de Helena. Até que, na década de 1970, deu início ao longo processo de cancelamento de contratos, venda do maquinário, devolução das terras ocupadas e indenização justa aos funcionários e às famílias que choravam pelos que morreram intoxicados pelo sal.

Helena foi a verdadeira responsável pela libertação da família. Foi através de seus escritos e do seu exemplo que Jasper encontrou a coragem para “deixar de carregar” o fardo. Ela plantou a semente da mudança e a semente, em mente fértil, floresceu.

A primeira manhã de Helena e Jasper, fora dos portões da mansão, não teve o brilho do ouro, mas a claridade ofuscante da verdade. Eles caminharam descalços pela areia, sentindo o sal secar na pele, não mais como uma maldição, mas como um batismo. Atrás dele, a mansão Vargas parecia encolher, tornando-se apenas uma sombra cinzenta contra os penhascos.

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UM DIA A CASA SE DESFAZ - PEDRO HENRIQUE

 



UM DIA A CASA SE DESFAZ

PEDRO HENRIQUE

 

"O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é o homem humano."

- Guimarães Rosa

 

       Um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra. E cá estou eu, no meio deste caos. Como foi que chegamos aqui, Jorge? Como foi?

       Um caminho que começou tão pulcro. Pétalas de rosas pelo chão. Vaga-lumes iluminando o caminho. O louvor que emerge da boca do amor, e mesmo assim chegamos aqui. A linha atroz que fomos obrigados a atravessar. Cada um por sua conta e risco. 

        Você disse que eu era o seu tudo e eu acreditei. Que os deuses me matem por isso. Ontem, antes de dormir, me peguei pensando em você. Lembrei do seu cheiro, da sua barba, do seu toque…

           Quando te vi entrar naquele cemitério, tudo em mim ganhou encanto. Como pode? Alguém ser tocada pelas mãos do viver em um lugar tão inapropriado para isso? Todavia, você sempre soube despertar oásis e mundos em mim.

         Eu enterrando minha mãe, você visitando seu pai. O par perfeito. A que foi ferida com o luto mais desestruturante que alguém pode ter e você se afogando no seu. Era para ter acontecido, penso.

         Também penso que poderíamos ter feito mais pela gente. Entretanto, depois que se ordenha uma vaca, não há como pegar de volta o que dela saiu. É seu. Faça o que quiser ou o que der para fazer. Um doce, uma bebida, não sei. A vida é sua. 

           Recorda de quando você me pegou te encarando? Viu que estava sozinha, se aproximou e ficou ali quieto enquanto eu tentava não desabar. Até hoje me pergunto como você soube que eu precisava tanto de um abraço naquele nefasto momento. 

        Ter seus braços me enrolando, me protegendo, descortinando algo que eu nunca soube o que é: afago. Foi o que eu, mesmo sem saber, mais precisava. 

        Ninguém apareceu naquele dia para enterrá-la. Foi só eu. Eu e a mulher que mais me fez mal no mundo, e mesmo assim lá estava. Qual ser humano dá a própria filha para uma desconhecida criar enquanto se diverte com os vagabundos da rua? Era o que eu me perguntava antes de você se aproximar. Qual?

       Com certeza, um ser humano que não tem em si nada de humano. 

        Mas, entre seus braços, eu tinha a íntima certeza de que eu não seria mais abandonada. Tinha certeza, a cada abraço, seja no nosso primeiro encontro, seja no nosso casamento, seja quando trouxemos nosso lindo filho para casa após um longo período no hospital depois do parto. Não importava o momento, eu sabia que poderia confiar em você. 

       O mundo lá fora me desprezava, me escarnecia, me dava migalhas, porém era em você, meu lugar favorito, que encontrava paz.

         Nossas noites de amor, nossas noites com Gabriel, nosso filho querido, o maior presente que Deus nos deu. 

           Como cresceu rápido, né? Era um garoto que jogava os brinquedos pela casa, que caía de bicicleta e corria para meu colo clamando por ajuda, um príncipe que tive a honra de ver crescer.  Lindo, inteligente, saudável. 

           Lembra, Jorge, quando ele nos apresentou Heloísa?

           “Mãe, pai, essa é minha namorada.”

         Quis morrer naquele dia. O meu bebê, meu frágil bebê, aquela coisinha minúscula que demorei doze horas para trazer ao mundo, agora tinha uma namorada. E eu? Onde ficava nessa história?

         Porém, Heloísa era uma boa garota, ela passou em medicina mesmo. É muito inteligente, Gabriel também é. Sei que em breve tudo vai se ajeitar e ele também vai para a faculdade. Meninos como ele merecem ganhar o mundo. 

          Recorda, Jorge, recorda da festa surpresa que fizemos para ele quando ia completar o segundo grau? 

         Lembra que naquele dia, fui buscá-lo na escola, porém tive que levar o amigo dele à emergência porque havia quebrado o braço na educação física e demoramos mais do que o esperado.

       Contudo, você me disse que não tinha problema, que até era bom, pois assim Heloísa e tu teriam mais tempo para deixar tudo arrumado para o nosso menino se sentir o homem mais especial do mundo.

          Tenho certeza de que não esqueceu de quando entramos na sala e vimos você e Heloísa um dentro do outro?      

        Você reflete, Jorge, de como fez com que as pétalas de rosa que caminhamos sobre ao decidir nos unir viraram um bosque horrendo composto por espinhos sublevados que penetraram minha carne com fúria e fervor?

       É impossível obliterar de minha memória o exato momento em que Gabriel pegou a faca na cozinha e correu para cima de você.

         Lembra, Jorge, de como você estragou tudo? 

        Hoje tenho um filho lindo e inteligente atrás das grades e tu aqui do lado desse demônio que me trouxe ao mundo. 

        Aprendi, querido, da forma mais nefasta que existe, e graças a você, que um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra.

 

FIM!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cartomante Marieta - Dinah R. de Amorim

 



A CARTOMANTE MARIETA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Marieta, menina quieta, tímida, sonhadora, vivia cismando pelos cantos da casa.

Sua mãe, preocupada, chamava-lhe a atenção e enchia-a de tarefas. “Que será que essa menina pensa tanto?”, perguntava-se!

A menina foi crescendo, estudando, aprendendo coisas novas, mas o temperamento não mudou muito: observava e estudava as pessoas! Sentia-se atraída pelo desenvolvimento e sentimentos humanos.

Talvez seja uma psicóloga, pensa a mãe, mas Marieta logo abandonou os estudos. Começou a dar conselhos e atendimentos particulares a quem dela precisasse. Tornou-se uma verdadeira cartomante, popularmente chamada, baseada nos seus instintos ou intuições.

Com o tempo, não só conversava, mas utilizava-se das cartas de um baralho velho, deixado por sua avó. Afeição a ela, com certeza.

Talvez fosse isso, pensava a mãe, o espírito da avó agindo nela. Um tipo de médium ou vidente, sabe-se lá. O fato é que ela começou a trabalhar com isso e cobrar seus conselhos, para ganhar a vida.

Com o tempo, ficou famosa, sendo procurada até por professores universitários, quando necessitavam.

Uma coisa era realmente verdade: todos tinham algum problema ou dúvida durante a vida e, à sua maneira, Marieta satisfazia as curiosidades.

Sua fama foi crescendo e a situação financeira também. Começou como uma sentimental, humana e crente a resolver e auxiliar o próximo, mas, gradualmente, tornou-se uma eficiente malabarista da profissão. Respondia mecanicamente a todos, sabedora das satisfações e insatisfações alheias.

Até então, todos que atendia saíam esperançosos e ansiosos para seguirem seus conselhos.

Teve um homem que apareceu nos arredores, atraído por sua fama. Era muito experiente em jogatinas e o baralho, sua preferência.

Incrédulo em favores do além, confiante em sua sorte e conhecimento, quis conhecer Marieta. Saber de onde e como vinham seus conhecimentos e afirmações. O dinheiro, principalmente.

Marcou uma consulta e resolveu estudá-la melhor. Observar o conhecimento do que afirmava, de onde vinha.

Marieta, ao recebê-lo, teve leve intuição: não era sincero, só queria estudá-la.

Perguntou-lhe sobre sua vida, seus problemas, o que o atraíra até ela?

O homem, chamado Mário, o jogador sortudo, como era conhecido em seu meio, queixou-se das finanças, da vida emocional, não encontrara em sua vida um verdadeiro amor.

Marieta foi mandando-o cortar o baralho em várias etapas e ele, conhecedor das cartas, foi logo percebendo quais seriam tiradas. Sobre as finanças, o Ás de ouro; sobre o amor, o Rei de espada; e assim por diante. Percebia até o que a mulher falaria sobre cada assunto.

Mário, intimamente, ria-se dela, sabendo que não possuía dom algum, mas somente conhecedora do significado sentimental de cada carta sorteada. Uma jogada popular, conhecida, sem nenhuma validade emocional mais profunda ou espiritual, somente sorte também.

Marieta, percebendo que o moço era também um conhecedor do assunto, concentrou-se melhor, pensou na avó, resolveu responder com a maior seriedade sobre o assunto, coisa que há tempos já não fazia!

Concentrou-se tanto, meditou alguns minutos, olhou-o firme e mandou que escolhesse uma carta mais pessoal. Mário tirou uma dama de paus.

Respondeu-lhe seriamente que era a carta da vida passada! Mário, curioso, sensibilizou-se um pouco e, atencioso, lhe escuta.

Marieta, nem sabe explicar como, palavras lhe saem, jorram de sua boca como tiradas de algum poço fundo, vindo à tona e derramadas, amargas como um remédio fétido.

Fala sobre o início da vida de Mário, sua infância triste, em um orfanato, distante dos pais e da família.

Crescido, envolve-se com jovens imaturos como ele, escapando de aprisionamentos e acusações maiores, devido à sorte que apresentou em diversas ocasiões.

Acometido de uma doença grave, infecciosa, quase levando-o à morte, sai-se dela, curado, sabe Deus como? Talvez devido à sorte também.

Começa a se envolver com jogos, principalmente baralhos, aproveitando o único modo de vida que o entretinha e que lhe trazia algum retorno.

Chega até ela, Marieta, com desconfiança e vontade de desacreditá-la publicamente, por puro exibicionismo, descrença e apostas feitas com amigos das jogatinas da cidade.

Marieta para, ofegante, respira fundo, nem percebe que o rapaz a olha espantado, com respeito e admiração.

Mário, cabisbaixo, pergunta-lhe como adivinhou certas passagens de sua vida, olhando simplesmente através das cartas de um baralho?

Sabia manejá-las bem, mas adivinhar o passado, falar sobre vidas pessoais, ele não conhecia nada.

Nem ela entende bem o que houve. Alguma inspiração lhe acontecia, de vez em quando, desde menina, sem saber direito o porquê?

Usava o baralho como única aprendizagem que sabia sobre o assunto.

E assim ficaram ambos, se olhando e meditando, procurando solucionar ou responder sobre o acontecimento, boquiabertos, mas sem emitir nenhum som.

Mário, sem saber como lhe agradecer a consulta, e Marieta, sem saber o que lhe acontecia, em verdade, por meio de um baralho ou não. Talvez o usasse, simplesmente, como desculpas para explicar às pessoas o que sentia realmente.

O tempo passa. Alguns anos transformam o rumo de nossas vidas. Fatos acontecem para modificá-la, melhores ou piores, dependem das nossas escolhas.

Estamos agora em frente a um Instituto Novo, que fornece estudos em parapsicologia. “Mente Sadia!”, fundado pelo teólogo Rogério Azevedo.

Muito procurado por pessoas interessadas, é auxiliado por uma simpática senhora, Dona Marieta, uma sensitiva, que atende os pacientes e os aconselha, simplesmente colocando as mãos em seus pulsos.

Já estão sendo reconhecidos pela Sociedade Nacional de Psicologia, através do sucesso em trabalhos realizados.

Quem é o secretário particular da instituição? O ex-jogador Mário, convertido a essa doutrina e marido de Dona Marieta.

 

 

 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

 



“O Sapo não lava o pé.

Não lava porque não quer”

Hirtis Lazarin

 

Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticulosos. Senta-se na cama, de olhos fechados e bem concentrada, reza uma porção de ave-marias. “Quantas você reza?” “Um monte”.  É devota de Nossa Senhora de Fátima. A Santa fica num pequeno altar forrado com seda, onde não pode faltar uma rosa branca fresquinha.

 

Só deixa o quarto com a cama bem arrumada. Casa desorganizada, desorganiza a vida.

 

 E o marido está lá na cozinha resmungando, há mais de uma hora, à espera do café com pão. 

 

Para ela, gatos pretos não dão azar; eles são o azar. Ela desvia quarteirões inteiros para evitar cruzar com um.

 

Semana passada, fiquei preocupada porque a encontrei chorando desconsoladamente. O motivo? Naquela manhã, acordou assustada com a campainha da porta tocando desesperadamente. Saltou rápido da cama e o primeiro pé que tocou o chão foi o esquerdo. Tinha certeza de que, mais dia, menos dia, algo muito ruim aconteceria.

 

Já pesquisei bastante sobre superstições, já conversei, já expliquei pra ela milhões de vezes. Desisti porque Dona Elvira tem hoje setenta anos e a cabeça não vai mudar. Os filhos contam que se cansaram de contestá-la e acabaram se acostumando com as doidices da mãe.

 

Naquela terça-feira chuvosa, saiu de casa pra visitar a netinha doente que morava do outro lado da cidade.

 

O trajeto até o ponto de ônibus exigia que ela passasse por baixo de uma escada de manutenção que a prefeitura havia instalado na calçada estreita.

 

Elvira parou… Examinou… Passar por baixo da escada, jamais; era um presságio terrível, um convite aberto ao azar.

 

Olhou pra rua molhada, esburacada e cheia de poças d’água.  A única alternativa seria desviar para a sarjeta, dar a volta ao obstáculo e pisar diretamente na água suja. Adeus à sapatilha de “ir à missa”. Calculou que meia dúzia de passos largos a trariam de volta à calçada.

 

Toda cuidadosa, mas receosa e de cara feia, tampou o nariz e enfrentou a situação; deu dois passos no asfalto da rua e, já no terceiro ou quarto, não sentiu o chão. A poça traiçoeira pegou-a de surpresa. O pé direito atolou, o sapato ficou preso e a água chegou até metade da canela. Um grito dolorido soou no silêncio da rua vazia. Eram quase cem quilos de gente estatelada no chão.

 

E, pra completar, num movimento espalhafatoso, saltou do buraco um sapo de olhos esbugalhados, jogando água suja pra todos os lados. Graças a Deus que ela nem viu, já estava desmaiada.

 

Dona Elvira está hoje com a perna imobilizada e assim ficará por três meses. Impossibilitada de colocar os pés no chão, resolveu ler pra preencher o tempo vazio. “Crendices e superstições” foi o primeiro livro escolhido.

 

Que moral tenho eu, agora, pra dizer a ela que superstição é crença  sem fundamento lógico ou científico?

 

 

A fé, nada mais que a fé! - Da série: Cartomantes e adivinhações. - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A fé, nada mais que a fé!

Da série: Cartomantes e adivinhações.

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Nosso mundo está cheio de superstições, crenças que alguns povos acreditam como verdade e trabalham em prol dessas atividades que, na realidade, não existem. Nunca provadas nem aceitas pela ciência, mas espalhadas e comentadas pelo povo. Fica sempre aquela dúvida ou curiosidade…  Será?…

Quando jovens, tentamos crer nas adivinhações ou palavras de curandeiros ou videntes, curiosos para saber do nosso futuro. Se seremos felizes ou não, tal amor dará certo? Qual de nós não fez isso alguma vez na vida?

Eu, sim, às vezes, muito crédula, procurei pessoas que liam nas cartas do baralho, nas borras do café que formam desenhos no fundo de xícaras, em bolas de cristal, no conhecido baralho do tarô, enfim, bastava alguém comentar e, pronto, eu já me interessava.

Lembro-me até de ter viajado para outra cidade, à busca de uma senhora, famosa cartomante, por causa de um namorado que ia embora, estudar em outro país, e eu, apaixonada por ele! Oh! Deus! Perdoa-me! Minha ignorância espiritual e religiosa era grande, e a idade, muito pouca.

Hoje, recordo todas essas bobagens e dou risada. Nada surtiu efeito, nada aconteceu como previram e foi dinheiro jogado fora.

Já vi muita coisa real, mas, com pessoas que possuem muita fé em Deus, em Jesus, e possuem o dom de cura ou de libertação. Pessoas que trabalham para Deus com dedicação e fé, sem cobrança, de coração para coração.

Presenciei, certa ocasião, numa igreja que frequentei, a presença de uma senhora recém saída de um sanatório, ainda meio enlouquecida, correndo pelos corredores, derrubando cadeiras, jogando-se ao chão. Aos presentes, assustou-nos um pouco, com medo de sermos atingidos. Recebeu oração de uma pastora amiga e foi se acalmando lentamente.

Seu restabelecimento, a cura sem remédios, foi renascendo, simplesmente com o tratamento espiritual feito por essa abençoada pastora, em nome de Jesus. Tornou-se uma mulher normal e ativa na igreja, com sua família, para o agradecimento de todos que se preocupavam com ela.

São tantos os casos que conhecemos de mudanças de vida nas pessoas que sofrem de algum tipo de mal! Se fôssemos narrar ou escrever, não chegaríamos a terminar. Incrível o poder da fé verdadeira no poder de Deus!

Está escrito que a fé remove montanhas e acredito nisso. Eu mesma, quando me recordo de certos problemas e me vejo agora, acho que passei por muitas transformações, benéficas, e continuo passando…

Acho que sempre fui muito abençoada, embora com alguns sofrimentos, como todas as pessoas humanas. Continuo abençoada e procuro manter minha fé em Deus, em orações de algumas pessoas que se dedicam exclusivamente a Ele, e deixo os problemas e os duvidosos passarem ao largo na minha vida! Talvez ainda encontrem o momento apropriado para crerem ou mudarem o modo de ser.

Não quero, com isso, afirmar exclusividade na minha Igreja, mas sim exclusividade na fé em um Deus, único e verdadeiro. Essa fé é encontrada de vários modos, conforme a natureza de cada um.

Minha mãe, mesmo católica praticante, encontrou alívio de um mal de estômago por meio de um grupo de pessoas que se uniam em oração, sem nenhuma denominação. Foi operada para tirar um tumor que havia, mas o suposto câncer já havia saído. E ela nunca soube disso, realmente. O estômago ficou menor, mas o grande mal sumiu, nunca mais voltou. Aleluia!

É isso mesmo, nosso mundo possui muitos mistérios, muitos fatos estranhos a descobrir, desvendar, explicáveis através da nossa fé em Deus, mas superstições, adivinhações, crendices populares, bruxarias, objetos que simulam verdades, são crenças de pessoas que ignoram uma fé verdadeira.

 


Cartomantes - O drama dos conselhos espirituais - Dinah Ribeiro de Amorim

 

O drama dos conselhos espirituais


 CARTOMANTES!

O drama dos conselhos espirituais

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Consultas a cartomantes, médiuns, videntes, são comuns na mocidade, mas alguns persistem nisso a vida inteira. Conheço pessoas que não dão um passo sem consultar seu orientador espiritual. Nunca percebi dar certo. Alguma orientação adequada. E ainda fica uma cobrança espiritual no ar, tanto a quem recorre como ao informante. Difícil libertação. É verdade que o futuro a Deus pertence.

Tinha uma grande amiga que adorava montar um baralhinho. Ler a sorte no Tarô. Bem-intencionada, ajudava todo mundo. Quando resolveu parar, entristecida com o suicídio de uma cliente, passou por grandes mudanças na saúde:  tombos, cabeça, problemas sérios que levaram à morte, fazendo muita falta a todos nós.

Um caso espantoso foi o de um funcionário público, conhecido, que adivinhava o futuro por meio de uma bola de cristal. Tinha um ponteiro dentro que, em direção à pessoa, esclarecia tudo sobre ela. Ficou tão empolgado nesse trabalho que acabou perdendo o emprego. Parece que também não terminou bem, desempregado e doente.

O mal disso tudo é quando cobram, levando vantagem com a tristeza alheia.

Mas, qual a mocinha inocente ou em dificuldade amorosa que não recorreu a alguém que lê a mão ou afirma prever e modificar o futuro? A tentação, a curiosidade e a pressa, próprias da idade, levam a isso.

Esperança colocada no lugar errado!

 

 


Preto velho - Pedro Henrique

 



Preto velho

Pedro Henrique

 

 “Você será pai.” Esta é uma notícia que abala qualquer homem que não esteja preparado para a tarefa. É indubitavelmente andar na calçada do planejado e receber em sua mão um fio desencapado do inesperado.

 Imagine, leitor, imagine comigo, você chega exausto do EJA, vai até a cozinha e vê sobre a mesa um pirex com risoto de frango, uma garrafa de cerveja e sua esposa de camisola sorrindo para você.

 Você se aproxima, a beija na boca e se senta à mesa, servindo-se daquele delicioso risoto.

 Ela te pergunta como foi no trabalho. Você responde que está sendo um saco como sempre, afirma que o irmão dela parece te odiar, que sempre te designa os piores serviços e faz com que você nunca se esqueça de que ele não nutre uma gota minúscula sequer de estima por você.

 Ela te consola dizendo que o irmão sempre foi ranzinza. Conta como ele era com a família, sempre brigando com o pai, respondendo à mãe e arrumando confusão na rua.

 Mesmo assim, você não deixa morrer a raiva colossal que sente daquele idiota, mas, em respeito à sua esposa, que não merece saber dos conflitos do seu trabalho, você encerra o assunto.

 Depois, quando terminam o jantar, sua esposa vai até o quarto e traz nas mãos uma caixinha com um laço rosa e te entrega. Você abre e lá dentro está um teste de gravidez dando positivo.

 Seu mundo naquele momento aflora e as rosas ganham forma e espinhos. De cada pétala jaz sobre ti o abismo e o louvor.

E, por um momento, por um breve momento, você acha que nada daquilo tem raízes no real. Na sua cabeça, é tudo invenção, mentira, sua esposa está brincando.

 Porém, ao olhar em seus olhos que já abrigam um manancial de lágrimas, você se vislumbra na obrigação de pegar aquela verdade e bebê-la, ainda que seu sabor não seja dos melhores.

 Vocês vão dormir e aquilo continua se ramificando em seus pensamentos, ambicionando espaço, preenchendo cada milímetro que consegue até não restar mais nada a não ser aquele teste e a repulsa.

 No dia seguinte, após ouvir todas as piadas chatas e ofensivas de seu cunhado a seu respeito, você vai à escola, se assenta na penúltima cadeira da fileira do canto direito ao lado de José e conta tudo para ele. 

 José trabalha como gari e também teve uma infância marcada pelo horror. Ele passa boa parte do tempo reclamando da vida, do sistema, da política e de sua esposa. Porém, quando o assunto é sua fé, recolhe-se em um casulo de gratidão.

 Ele frequenta um terreiro de umbanda e, quando você confessa seus temores em relação à paternidade, ele te revela a um tal de Preto Velho.

 Você pergunta quem é, e ele responde ser uma entidade que orienta as pessoas. José sugere que você vá conversar com ele. De imediato, você recusa, argumentando que não vai “falar com o demônio”. Ele ri e explica que não é nada disso. Diz que os Pretos Velhos são espíritos de antigos escravizados que ajudam as pessoas por meio de conselhos.

 Mesmo assim, você não se convence. José, percebendo sua resistência, diz que conversar com o Preto Velho pode te ajudar a lidar com o medo de ser pai.

 E, para ser sincero, caro leitor, não sei se foi o peso do medo ou os toques da curiosidade que te levaram a ir, mas o fato é que foste.

 Você recorda de cada detalhe: do lugar bem simples, do chão de terra batida, das muitas folhagens e de uma casa que tinha ao lado um pequeno cômodo onde o Preto Velho atendia.

 Lembra-te, como se fosse hoje, do cheiro que pairava no ar, uma mistura de cerveja, cigarro e chuva. Do lado de fora do cômodo onde você e José estavam sentados, podia-se escutar a voz nítida e audível da entidade dando opiniões sobre os relatos daqueles que o procuravam.

 Havia duas moças à sua frente. Uma delas ficou quase uma hora conversando com ele. Pelo que escutou, ela buscava um conselho sobre um rapaz que havia acabado de conhecer.

 A entidade disse haver coisas na vida que são convidativas aos olhos e que, por esse motivo, consideramos ser a coisa apropriada para nós.

 Contudo, devemos manter os olhos bem abertos, não para o externo, mas para o interno, por ser lá que residem todas as bênçãos e maldições de um ser humano.

 Em seguida, a outra moça que estava à sua frente foi chamada e, lá de fora, ouviu-se apenas sua voz embargada. Havia acabado de perder a filha de quatro anos para o câncer e questionava a entidade do porquê.

 O Preto Velho consolou aquela mãe desesperada e, ao final, chamou um médium para acompanhá-la até a saída. Enquanto ela passava pela cortina que fazia o papel de porta, você escutou a entidade dizer: “Vá em paz, filha”, e logo em seguida ouviu a palavra “próximo”.

 José fez um sinal para que você entrasse no quartinho. A princípio, mil coisas circulavam pela sua cabeça e, por um triz, você pensou em não entrar, em correr. Ainda dava tempo. Entretanto, já estava ali, qual seria o mal em ir? Nenhum. Portanto, foi.

 Logo quando entrou, surpreendeu-se ao ver um homem que aparentava ter entre trinta e cinco e quarenta anos.

 Você esperava encontrar um velho, e não um homem tão jovem. Ainda assim, senta-se na cadeira reservada para quem ia conversar com ele e não questiona sua idade.

 — Não olhe para o cavalo, filho. É a mim que deve ver — disse o Preto Velho.

 Você não entende o que aquilo significa, mas também não pergunta. Apenas aproveite os primeiros segundos para observar os detalhes ao seu redor. A atmosfera do lugar te causa certo espanto.

 Você olha à direita do cômodo e se depara com diversas imagens de orixás e entidades feitas de argila. Também havia uma mesa com cachaça, uma Bíblia, charutos e, curiosamente, um copo com um líquido que você julga ser água, dentro do qual havia uma faca.

 Você lembra da orientação de José: deveria pedir bênção à entidade e chamá-lo de “vovô”. Assim o faz. Quando termina de cumprimentá-lo, percebe que ele a olha fixamente, como se estivesse examinando cada átomo dentro do seu corpo.

 Você não sabe como, mas um simples olhar te fragmentou, e parecia que toda a água que nutria um amaldiçoado passado estava prestes a inundar tudo ao seu redor.

 — É, filho, é...

 Bastaram essas palavras para as lágrimas emergirem solitárias dos seus olhos como uma chuva inesperadamente brutal. Ele mantém o olhar fixo em você e, após algum tempo, você diz o que busca ali.

 A priori, ele parecia indiferente ao que você dizia, focando sua atenção na cachaça que colocava em um recipiente raso e bebia.

 Enquanto isso, sua mente já xingava José por ter te persuadido a vir. Estava prestes a se levantar e ir embora, quando aquele olhar que havia te desmembrado voltou, perfurando ainda mais fundo a ferida.

 — Você sofreu muito, não é, filho?

 E foi ali que cada pedaço de ti revelou sua identidade.

 — Você não tem medo de ser pai; você tem medo de si mesmo.

 Pronto, inundou: anos atrás, o barracão de madeira, a plantação de mandioca e o passado infeliz projetado no presente temeroso. Socos, cuspes, chicote, choro. Seu pai arrancando sua roupa, manchada pelo vermelho vivo que escoava à medida que o bico do boi rasgava sua carne.

 Raiva de você mesmo por não ter corrido mais, por não ser mais forte. Raiva dele por lançar o peso covarde de seu corpo contra o teu, e você nada poder fazer. Ainda mais raiva, porque, mesmo se debatendo, você não consegue sair debaixo dele.

 Uma raiva ainda maior quando as costas já estavam em carne viva e, mesmo assim, cada nova chicotada parecia arder um pouco mais. Paulatinamente, a dor tornava-se mais insuportável, forçando-te no estopim a seguir seus mandos.

 Ele te enforca. Arranca com suas mãos atrozes o ar que confere vida ao seu corpo e o faz com gosto. Você se debate e só vê sua mãe vir com uma garrafa de cerveja quebrada nas mãos, com as pontas pontiagudas babando o resto do líquido e ambicionando dar ao seu algoz o destino cruel que ele merece.

Ela introduz, com toda força de seu ser, o objeto nele, bem na sua frente, e seu corpo é consumido pela chama da paralisia e você desmaia. Quando acorda, está na cama de um hospital com uma assistente social ao seu lado e sua mãe presa.

 Você se levanta e sai. Não é obrigado a passar por isso. Não querer passar por isso. Não merece passar por isso.

 Você sai com uma raiva tão feroz caminhando por suas entranhas, que nem olha para José, contudo sabe que ele está vindo atrás de você. E, antes que consiga se afastar o suficiente daquele cômodo, você escuta a voz do Preto Velho dizer:

 — O medo é um homem encapuzado de invisível que rouba aquilo que temos de melhor, filho.

 


A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

  A SAGA DE UMA FAMÍLIA Dinah Ribeiro de Amorim   Existem fatos em nossa vida que não conseguimos explicar. Presenciamos, comentamos, ...