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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Encontro misterioso - Alberto Landi

 


Encontro misterioso

Alberto Landi


A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subir até o céu.

A luz colorida dos vitrais atravessava o espaço e pintava o chão de vermelho, azul e dourado.

No centro, o labirinto se espalhava pelas pedras como um caminho misterioso, convidando os visitantes a seguir suas curvas.

Pierre chegou a Chartres numa tarde fria e chuvosa, carregando apenas uma maleta e uma bengala de madeira escura. Caminhava devagar pelas ruas bem antigas, como se cada pedra conhecesse um segredo que ele ainda não estava pronto para ouvir.

Havia trinta anos que não retornava à cidade.

Na juventude, ele trabalhava como aprendiz de restaurador de afrescos e esculturas na catedral de Chartres. 

Foi nesse local que conheceu Jade, uma moça que vendia flores próximas da entrada norte da catedral. 

Eles se apaixonaram e planejavam casar, mas Pierre teve receio. Numa noite chuvosa, desapareceu sem se despedir de Jade.

Agora, com certa idade, ele retornava para devolver uma coisa que guardara durante toda a vida: um pequeno medalhão azul que ela havia perdido no interior da catedral.

Ele entrou pelo portal principal; a luz colorida dos vitrais caiu sobre sua face, e ele sentiu o peso dos anos. Caminhou até o labirinto desenhado no chão, onde os peregrinos costumavam andar em silêncio.

Foi então que ouviu uma voz.

— Você demorou!

Ele se virou; Jade estava ali, exatamente como ele se lembrava, com os cabelos presos e um ramo de flores nas mãos.

— Jade, que surpresa! Continua bela e viva!

Ela sorriu, mas seus olhos pareciam pertencer a outro tempo. Para alguns, o tempo passa; para outros, ele apenas espera.

Ele apertou o medalhão, dizendo:

— Vim devolver isto.

— Não é o medalhão que você precisa devolver. É a verdade!

As portas da catedral se fecharam atrás dele, o vento desapareceu, e até os sinos ficaram mudos.

Ela apontou para um beco estreito entre duas colunas. 

Ele nunca havia percebido aquela passagem; com dificuldade, apoiou-se na bengala e entrou.

No fim do beco havia uma pequena sala iluminada por uma única vela e, sobre a mesa, encontrava-se uma carta amarelada pelo tempo, cuja letra ele reconheceu. Abriu o envelope com mãos trêmulas.

“Pierre, esperei por você naquela noite. Depois descobri que você partira porque acreditava que não o amava o suficiente para casarmos. Meus pais ficaram indignados com sua atitude, quiseram até ameaçá-lo, mas pedi que o deixassem ir. Todos acreditaram que você me abandonou.”

Ele sentiu as pernas fraquejarem.

— Por que nunca me contou?

Ela apareceu atrás dele, dizendo: 

— Porque você nunca voltou para perguntar e nem sequer uma carta ao longo de todos esses anos.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Pierre.

Durante décadas, ele havia carregado a culpa como quem leva uma pedra sobre os ombros. Agora percebia que sua vida inteira fora construída sobre um grande mal-entendido.

— Sinto muito — sussurrou.

Ela tocou o medalhão, dizendo:

— Então devolva-o ao lugar onde tudo começou.

Eles voltaram ao labirinto, colocaram o medalhão sobre uma pequena marca no centro do desenho e cerrou os olhos. No mesmo instante, os vitrais se iluminaram novamente.

Os sinos tocaram.

Quando ele tornou a abri-los, estava sozinho; ela havia desaparecido, deixando no chão apenas uma flor branca.

Na manhã seguinte, os frequentadores o encontraram no interior da catedral, sentado próximo ao beco, com a bengala ao lado e um sorriso nervoso na face.

Finalmente havia encontrado o caminho para sair daquele lugar.

E, pela primeira vez em trinta anos, sentiu que poderia seguir em frente.

Depois daquela noite, Jade nunca mais apareceu como fantasma. Ela havia permanecido ligada à catedral porque esperava que um dia ele voltasse para descobrir a verdade e devolver o medalhão.

Ao amanhecer, os primeiros raios de sol atravessaram os vitrais e iluminaram o medalhão no centro do labirinto. Ele sorriu, pois sabia que “ela finalmente estava em paz”

Dizem que, desde então, uma flor branca surge todos os anos no centro do labirinto, sempre no mesmo dia. Ele acreditava que era ela se despedindo.

E, quando o sino da catedral tocava ao entardecer, ele sabia que, em algum lugar além do tempo, ela finalmente estava em paz!


Elias e Daniel - Alberto Landi

 



Elias e Daniel

Alberto Landi


Quando eram meninos, fizeram uma promessa, se um dia um deles precisasse do outro, nenhum dos dois abandonaria.

Era uma promessa simples, realizada num dia de verão, sentados no muro atrás de uma capela.

Naquele tempo, acreditavam que amizade era uma coisa que o tempo não conseguiria quebrar.

Daniel acreditava mais nisso do que Elias.

Anos depois, numa tarde de inverno, os dois voltavam para casa por um beco estreito quando ouviram passos atrás deles.

Daniel olhou para Elias e percebeu o perigo.

— Corre! — gritou. Elias correu, mas correu sozinho. Daniel ficou para trás.

Na esquina, Elias ainda ouviu a voz de Daniel chamando seu nome. Por um instante parou, sabia que deveria voltar, mas teve medo. Elias não voltou, continuou correndo, deixando Daniel para trás. 

Foi esse o instante que dividiu suas vidas.

Daniel ficou, o outro continuou correndo.

Naquele dia, ninguém falou sobre o que acontecera. Daniel desapareceu da cidade pouco tempo depois, Elias permaneceu, mas nunca mais foi o mesmo.

Durante anos, tentou convencer a si próprio de que era apenas um menino, que tivera medo, e considerou que não poderia ter feito nada ao amigo Daniel, mas a memória não aceitava desculpas.

Daniel não esperava que Elias o salvasse, apenas que não o abandonasse.

O tempo passou.....

Elias se casou, teve filhos, construiu uma casa e aprendeu a sorrir nas fotografias, mas, por fora, sua vida parecia inteira. Mas, por dentro,   carregava uma pedra.

Às vezes, acordava durante a noite e tinha a impressão de ouvir os passos daquele beco.

Decorridos muitos anos, recebeu uma carta. Daniel estava vivo e voltaria à cidade.

Elias guardou a carta na gaveta por alguns dias. No quarto dia, foi até a estação.

Daniel desceu do trem lentamente; estava mais velho, cabelos grisalhos e uma bengala nas mãos.

Os dois se reconheceram de imediato.

Nenhum deles sorriu.

— Você voltou — disse Elias.

—Voltei.

Ficaram em silêncio, então Daniel perguntou:

Você ainda se lembra daquela tarde?

Elias sentiu a pedra no peito, sim, todos os dias.

Daniel apertou a bengala; eu também!

Elias respirou fundo: “Abandonei você.”

Daniel balançou a cabeça. — Não. Você abandonou a pessoa que era naquele dia.

A frase atingiu Elias mais profundamente do que qualquer acusação.

— E o que você perdeu? Perguntou.

Daniel demorou a responder.

— Perdi a certeza de que alguém ficaria quando eu precisasse.

Elias baixou os olhos. E eu?

Daniel olhou para ele, dizendo: “Você perdeu a paz! E passou o resto da vida tentando pagar uma dívida que ninguém lhe cobrou”.

Elias sentiu os olhos marejarem. Naquele instante, compreendeu que ambos haviam saído daquela tarde carregando perdas diferentes.

Daniel perdera a confiança, Elias perdera a inocência, passou a vida carregando a pedra. Daniel voltou para os dois poderem finalmente colocá-la no chão.

Um havia sido deixado para trás, o outro nunca conseguiu deixar aquela tarde para trás.

Daniel se aproximou. “Eu não vim para perdoar você”, disse.

Elias baixou os olhos. — Eu sei.

— Vim porque cansei de carregar sozinho aquilo que aconteceu.

Elias levantou os olhos; Daniel colocou a mão sobre seu ombro.  

Não houve abraço. Mas, naquele gesto, havia algo que Elias não esperava: não o perdão, mas a possibilidade de recomeçar. Sentiu que a pedra dentro dele começava a perder peso.

Algumas culpas não desaparecem quando somos perdoados; desaparecem quando finalmente temos coragem de olhar para elas sem fugir.

Elias olhou para o amigo. Desta vez, ficou!

 

 


Capela Sistina - Alberto Landi

 



 Capela Sistina

Alberto Landi


Antes de se tornar famosa pelo teto de Michelangelo, a Capela Sistina era apenas um espaço que ainda não conhecia o próprio destino.

Nasceu no coração do Vaticano, sob o pontificado de Sisto IV, o papa que lhe daria o nome.

Pedras foram colocadas umas sobre as outras, paredes erguidas, janelas abertas para deixar entrar a luz de Roma.

Ninguém podia imaginar que, um dia, aquele recinto guardaria uma das mais extraordinárias histórias da humanidade.

Primeiro vieram os pintores, Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli e outros mestres. Em suas paredes, começaram a conversar duas grandes histórias: de um lado, a vida de Moisés, do outro, a vida de Cristo. A antiga lei e a nova. Moisés e Jesus, promessa e cumprimento.

Durante anos, a Capela viveu assim, cercada por histórias. Suas paredes falavam, mas o teto permanecia em silêncio.

Era um silêncio branco e imenso, até chegar Michelangelo. 

Ele não queria pintar, era escultor. Pensava o mundo em mármore, via na pedra as figuras que esperavam ser libertadas.

Mas o papa Júlio II tinha outros planos. Michelangelo olhou para o alto.

Talvez não soubesse, naquele instante, que pisaria num território onde nenhum artista havia estado antes.

Subiu aos andaimes e começou.

No princípio, pintou a separação da luz e das trevas, depois vieram o Sol, a Lua, as águas, a terra, os animais.

E finalmente o homem. Um dedo se aproximou de outro.

E entre os dois permaneceu uma distância tão pequena que cabia nela todo o mistério da humanidade.

Adão recebeu a vida, ao redor dele surgiram profetas e sibilas, homens e mulheres que haviam esperado, sonhado ou anunciado o futuro. E, entre eles, jovens de beleza impossível sustentavam guirlandas, medalhões e a própria energia da Criação.

A capela já não era a mesma, suas paredes continuavam contando histórias, mas agora o teto contava o universo.

Os anos passaram, os papas morreram, outros ocuparam o trono de São Pedro, Michelangelo envelheceu.

Então ele voltou. Diante dele estava a parede do altar. Mais uma vez, ele levantou os olhos, mas já não era o jovem que havia pintado a Criação.

Agora conhecia a guerra, a morte, a perda, a solidão e o peso dos anos.

E, diante daquela parede, não pintou o começo, mas, sim, o fim.

O Cristo do Juízo Final apareceu no centro da Capela como uma força que colocava o universo em movimento.

Os mortos se levantavam, os salvos subiam, os condenados caíam. Os santos mostravam os instrumentos de seus martírios.

E, em algum lugar daquela multidão de corpos, estava o próprio mestre, como se também perguntasse o que aconteceria com um homem depois que sua última obra estivesse terminada.


Então a Capela ficou completa.

Nas paredes, a história da humanidade antes e depois de Cristo; no teto, a Criação; no altar, o Juízo.

O começo, o caminho e o fim.

Talvez seja esse o grande segredo da Capela.

Ela não é apenas um lugar onde se encontram algumas das principais pinturas do mundo, ela é uma viagem.

Entramos por um lado da história e, pouco a pouco, somos levados para outro.

O homem nasce, recebe a liberdade, erra, sofre, espera.

E um dia, o homem se encontra diante do mistério final.

Ele pintou Deus dando vida a Adão.

Depois, muitos anos mais tarde, pintou Cristo julgando os filhos de Adão.

Entre o dedo de Deus e os olhos de Cristo, estava toda a história da humanidade.

E a Capela, silenciosa, permaneceu ali, guardando para sempre o universo que os homens haviam pintado em suas paredes.

Entrei na Capela Sistina, mas saí atravessando a história da humanidade!

 


A FIDELIDADE - Henrique Schnaider

 



A FIDELIDADE

Henrique Schnaider


Ele nasceu numa família extremamente religiosa na fé católica. Seus pais sempre o educaram para no futuro se ordenar Padre.  Para isso, frequentava diariamente junto com seus pais, a paróquia do bairro.  

Otavio era diferente dos meninos dali da rua, pouco brincava com eles e era muito retraído, era caseiro, lia muitos livros de ensinamento católico. 

Ao atingir a maioridade, entrou para o seminário com o firme propósito de atender sua vocação sacerdotal. 

Foram anos difíceis de estudo, dedicação e aprimoramento de seu processo de formação. 

Até que, finalmente, foi consagrado, e Otavio foi recompensado pelos dirigentes que o designaram para a Paróquia do seu bairro, local que tantas vezes frequentou,  logo após o pároco Monsenhor Ribeiro ter se aposentado.  

No dia de sua primeira missa a Igreja estava lotada, já que todos os paroquianos presentes conheciam o Otavio, alguns desde que ele era menino.

A Igreja teve um desenvolvimento muito grande, sempre com muitos fiéis nas missas e nos eventos religiosos. Eram tantas pessoas que quase não cabiam no salão. 

Com o passar do tempo os problemas começaram. Principalmente em relação a algumas fiéis que  passaram a demonstrar interesse físicos no religioso. Isso, porém não o abalava,  ele continuava firme na fé e fidelidade total à Igreja Católica.

Decidiu que deveria resolver a situação que já estava ficando constrangedora. Para isso teria que adotar uma alternativa que trouxesse paz ao seu coração, paz que aquelas mulheres estavam lhe roubando.  

Finalmente, no sermão do domingo após a missa, Padre Otavio transmitiu as novas regras de confissão para todas as mulheres: as fofoqueiras, as beberronas, as preguiçosas, as linguarudas, cada qual teria seu dia apropriado para confessar.

Assim, as mulheres que tinham intenção de trair seus maridos, Padre Otavio as receberia às sextas-feiras, e teriam que vir acompanhadas dos respectivos esposos. 

O efeito que Padre Otavio causou, foi surpreendente! Já na primeira sexta feira, não apareceu ninguém para confessar.  Evidentemente, daquele dia em diante, nenhuma mulher mais o assediou.

E assim, o Padre dirigiu por muitos anos a sua querida paróquia sem que ninguém mais tirasse a sua paz.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Quem disse que boteco não tem etiqueta? - Hirtis Lazarin

 



Quem disse que boteco não tem etiqueta?

Hirtis Lazarin


O relógio mal passava das seis da manhã, quando Seu Nico abriu o bar. O trinco de ferro ecoou pela calçada quase vazia, anunciando que aquele boteco de esquina já estava aberto. O cheiro de café recém-coado logo se misturou ao cheiro de creolina adicionada ao balde de água que ele jogou na calçada. 

Três gatos fogem depois de uma noite de estripulias; um homem de aparência cansada e olhos avermelhados desencosta da parede com dificuldade pra andar. É o primeiro a entrar no bar.  Solitário como um fantasma madrugador, ignora o proprietário, ignora as mesas e caminha até o balcão de fórmica lascada. Ali se escora e o corpo pesado encontra apoio.

Bem à sua frente, está uma garrafa de cachaça. Agarra-a bruscamente, temendo, talvez, que ela levantasse voo. Aproxima-a dos olhos na tentativa frustrada de ler o rótulo. Aproxima-a mais… e mais… Infelizmente a vista embaralha todas as letrinhas. 

Seu Nico, num movimento firme, estica o braço e puxa a garrafa das mãos do homem; separa um copo bem lavado e despeja o aguardente, cravando exatamente na risca da dose. O cliente olha para o vidro, depois para o copo e, com o indicador, bate duas vezes na madeira:

— Deixa o dobro. Quero duas — e, pelo tom assertivo, tudo indicava que não pretendia parar por aí…

O copo foi esvaziado em duas tacadas. Seu Nico olhou atravessado, mas colocou a terceira dose. Logo após esvaziar novamente o copo, o bebum não consegue segurar uma pressão forte no peito. O arroto vem traiçoeiro e cavernoso, daqueles que provocam eco nos azulejos desbotados da parede. 

O comerciante — filho legítimo da Calábria, de braços grossos e paciência curta — parou de passar o pano úmido no balcão. Sacudiu os braços, olhou feio para o sujeito — que não teve tempo nem pra limpar a boca na manga da camisa — e bateu um copo americano na madeira, com toda a força do mundo. Soltou os cachorros, usando o português de rua misturado aos palavrões de sua terra natal. 

— Ma che cazzo! Que falta de respeito é essa? Porca miseria! Aqui é um ambiente de família, vaffanculo você e a sua cachaça! Se quiser porquear, vá arrotar na casa do …! 

A saliva do italiano voava em arco pra todos os lados, brilhando contra a luz do sol que entrava pela janela grande e desengonçada. Parecia um chafariz de fúria calabresa. 

O cliente, encurralado entre o balcão e a ira do dono, recolheu o pescoço igual a uma tartaruga, esperando o temporal passar. E demorou…

Você já viu um italiano de meia-idade irritado? Eu já vi. Minha família é italiana. É melhor ficar calado até a poeira abaixar.

Quando, finalmente, Seu Nico puxou o ar, o silêncio no recinto ficou tão alto que dava pra ouvir a geladeira de cerveja tremendo no fundo. 

Nesse momento, entram três idosos esbanjando bom humor; vão até o fundo do estabelecimento e se acomodam na última mesa.  É ali que sempre se reúnem pra jogar dominó até a hora do almoço chegar.

O bebum, de um jeito manso, protestou, limpando a bochecha na manga do paletó:

— O senhor tá maluco? Gritou e cuspiu desse jeito por causa de um arroto? Parece até que quebrei o bar!  Eu exijo respeito!

Seu Nico, que sempre foi uma pessoa moderada, percebeu que sua reação foi exagerada, havia passado dos limites.  Coçou a cabeça, soltou um longo suspiro e mudou o tom.

— Mamma mia… Tá bom, tá bom, eu me exaltei. Mas, veja. O balcão tá uma nojeira e meu estoque de cachaça tá acabando. Você quer ficar? Então vai me ajudar. Tem três caixas de cerveja vazias ali no canto. Carrega aquilo até o depósito nos fundos e traz o garrafão novo de pinga de Minas que tá lá. Fazendo isso, eu esqueço o arroto e você pode tomar mais uma por conta da casa.

O rapaz resmungou, mas aceitou a proposta. Ajeitou o paletó amassado e puxou a gravata torta que lambia o molhado do balcão. Pegou o primeiro engradado pesado e foi para o fundo do bar, enquanto Seu Nico passava o pano definitivo na fórmica suja de cachaça e cuspe. A elegância daquele terno desalinhado desmoronava a cada passo, mas o trato estava feito. 

Minutos depois, ele voltou trazendo o garrafão novo de pinga de Minas. Com o balcão limpo e o humor recuperado, o italiano encheu dois copos americanos até a boca. Ergueu o dele, deu um sorriso de dentes de ouro e brindou: “Salute!”. 

O homem do terno virou a quarta dose de uma vez, mas, por garantia, tratou de manter a boca bem fechada.   


A Dançarina de Flamenco - Adelaide Dittmers

 



 
A Dançarina de Flamenco
Adelaide Dittmers


Lucia, uma bela morena de cabelos negros e grandes olhos castanhos e provocadores, dançava no palco de um bar.  Rodava o vestido vermelho e tocava as castanholas com destreza e graça.

Os frequentadores, na maioria homens, admiravam-na embevecidos, enquanto sorviam taças e taças de vinho.  Ela era famosa no lugar.  Fora do palco, porém, era reservada e conservava distância da maioria dos habitantes da pequena cidade, o que provocava várias divagações sobre sua vida.

Naquela noite, ela saiu pelas ruas desertas, com passos rápidos.  Um enorme xale envolvia sua cabeça e ombros.  Parou em frente a uma pequena casa revestida de pedras e empurrou a grossa porta de madeira, que rangeu ao se abrir.

Acendeu uma lâmpada, cuja luz fraca mal iluminou uma sala com móveis pesados e antigos. Jogou sua bolsa de pano em uma poltrona desbotada e rasgada e foi descalçando os sapatos pelo caminho.

Ao chegar à cozinha, colocou uma chaleira com água para fazer um chá e, enquanto esperava, sentou-se em uma cadeira com um olhar perdido.

A visão de uma criança encheu seus pensamentos.  Um esgar contorceu seu belo rosto e ela tentou expulsar aquela visão, mas, enquanto a água fervia, mais ferviam cenas de sua vida.

A paixão por Pablo, filho de um homem poderoso, cujas terras se estendiam a perder de vista e o parreiral pendia com o peso dos cachos de uva.  A gravidez indesejada pela família de Pablo, que não o queria envolvido com uma moça pobre e dançarina.

O nascimento do filho, que lhe foi arrancado dos braços por quem e com quem não tinha como lutar. O desespero, a desilusão e o ódio, que germinaram no seu coração. A perseguição para deixar o lugar.

A decisão de ir embora proteger seus pais de reprimendas e o perambular de cidade em cidade, dançando para ganhar seu sustento, até encontrar aquele vilarejo perdido, onde encontrou um pouco de paz.

Balançou a cabeça para expulsar aquelas lembranças e levantou-se para apagar o fogo da chaleira, que zumbia.  Tomou o chá lentamente, mas o passado continuava ali presente.  Quatro anos em que havia anulado sua alma e suas emoções mais profundas.

De repente, um pensamento atravessou sua mente com a força de um raio.  Tinha que voltar para reaver seu filho.  Em uma de suas andanças, um advogado, que se apaixonara por ela, disse-lhe ter esse direito.

Depois de tanto tempo, estava mais madura, mais vivida, mais forte.  Iria lutar.  Sabia que seria uma batalha insana.  O filho não a conhecia, mas tinha que tentar.

No dia seguinte, procurou o dono da casa, pagou o que lhe devia e, carregando uma pequena mala, pegou o trem e partiu.

Os pais a receberam com alegria e emoção. Nunca lhes havia perguntado sobre a criança nas cartas que enviara.  Não tivera coragem.  Era uma ferida aberta em seu coração, que tentava fechar dançando flamenco.

Agora, sentada à beira de um braseiro para amenizar o frio intenso do inverno, as perguntas foram feitas aos borbotões. Soube que o menino fora batizado com o nome de Diego e era muito parecido com ela.  Pablo havia tido um casamento arranjado e não era feliz.  Andava pelos bares da cidade e muitas vezes se embriagava.

Ela os ouviu quieta, pesando cada informação para saber como agir.

No dia seguinte, foi ao bar mais famoso, onde havia apresentação de danças, e se ofereceu como bailarina.  O proprietário a olhou atentamente e disse:

— Você não me é estranha.

— Sou Lucia, filha de Pedro e Consuelo.

— Lucia, quanto tempo!  Está mais linda ainda!

Ela ficou séria, mas seus olhos sorriram.

— Quando quer começar?

— Pode ser hoje à noite?  

— Sim, sim.

À noite, lá estava ela com seu vestido vermelho, dançando e encantando todos com sua graça e beleza.

A notícia correu pela cidade e, em pouco tempo, o lugar ficou lotado, pois todos queriam ver a bela filha da terra dando suas voltas pelo palco.

Ao saber da volta de Lucia, Pablo ficou atordoado e o álcool tomou seu corpo e seu coração.  Cambaleando, andou pelas estreitas ruas sem rumo até se sentar à beira do rio, que cercava a cidade, e derramou sua dor por ser fraco e perdido a mulher que amava.

Lucia acordou cedo, agitada pelos próximos passos para se aproximar da criança. O sol estava nascendo quando, embrulhada em um pesado manto de lã, saiu para vaguear pela cidade adormecida, enquanto os pensamentos passavam vertiginosamente por sua cabeça.  Tomou a direção do rio.  Gostava de refletir, ouvindo o barulho tranquilo das águas.  Ao chegar à margem, avistou um homem deitado e encolhido à beira da água. Estava morto? O frio era cortante.  Aproximou-se.  E, quando o virou para ver se respirava, deu um passo para trás.

— Pablo! A voz quase não saiu da garganta.

Depois, sacudiu-o e ele acordou sobressaltado.  Os lábios roxos pelo frio.  Olhou para ela, assustado.  Somente o calmo barulho do rio testemunhou aquele momento. 
Instintivamente, ela tirou o manto e o jogou sobre ele, que levantou com dificuldade e sentou.

— O que você está fazendo? Dormindo ao relento neste frio?

As palavras vieram fracas e trêmulas.

— Pensei que morrer seria uma bênção para mim.

Ela o fitou incrédula. E ele continuou:

— Soube de sua chegada.  Isso me transtornou.  O passado voltou a me atormentar.  O meu erro de não lutar por você, a minha fraqueza, me atormentou todos esses anos.  Fui e sou um vassalo de meu pai.  Casei-me contra a minha vontade.  Sou um fantoche.

A piedade inundou os grandes olhos de Lucia, mas a voz saiu firme:

— Voltei porque quero meu filho de volta.  Nunca me perdoei por não lutar ou até fugir com ele. Não vim em paz, vim para travar essa batalha.

Ele a olhou admirado.  Aquela era a mulher por quem se apaixonara.

— Posso fazer parte dessa batalha? Vai ser dura ou precisaremos agir com esperteza.

Ela o encarou, surpresa.

— Dois podem mais que um.  E, com uma das mãos, limpou as lágrimas, que ardiam em seu rosto gelado.

À noite, encontraram-se na casa dos pais de Lucia, que entremeavam emoções de alegria e pavor.  Refletiram que uma fuga seria mais favorável a eles. Ele pegaria o filho para um passeio em um fim de tarde e, à noite, o quatro e a criança sairiam da cidade.

Passaram dias elaborando esse plano com detalhes.  Quando estavam prontos, Pablo colocou o menino no carro, dizendo que iriam pescar e voltar no cair da noite.

Nuvens escuras cobriram o céu e uma chuva fina e gelada cobriu a cidade.  O carro percorreu as ruas estreitas devagar e atento.  Ao alcançar a estrada, acelerou para se distanciar o mais rápido possível daquele lugar que o aprisionara por tantos anos.

O menino, assustado, perguntou aonde estavam indo.  “Para um lugar que você vai gostar muito.”

Viajaram a noite toda até chegarem à fronteira com Portugal.  Ele olhou para Lúcia, pegou sua mão e apertou.  Ela o fitou. Palavras eram desnecessárias naquele momento.  Uma nova e promissora vida os esperava naquele país acolhedor e longe do poder irracional paterno.



Papai - Pedro Henrique

 


Papai

Pedro Henrique


Adentrei na boca preciosa do tempo, nadei por suas vísceras, pulei em seu coração, berrei em seus orifícios… Defrontei-me com aquele rapaz jovem, esbelto e sorridente que há muito abandonei nas vielas de algum lugar qualquer. Comi as migalhas que dele restaram e, de certa forma, o reconheço, ainda em mim. Sei que nem eu, nem a morte, muito menos o Alzheimer, poderão obliterá-lo da minha existência. 

Caminhei aqui com a casca morta do que sou e acho que hoje há de emergir em mim coragem para traçar a rota rumo ao lugar profano do meu pecado e de tudo isso que me envolve e constrange.

Sou um homem de muitas faces, e algumas delas não me consagram à glória. Vivi tal qual todos: sorrisos, afetos, dramas e deleites. Sou filho de duas pessoas que aprenderam a duras penas que talvez a união não seja para todos. Logo, fui enterrado no porão das brigas e do caos. Tive, na infância, o dilema de defrontar-me com o espetáculo de dois adultos, os quais haviam de se berrar muito, bater o quanto conseguem e xingar o outro com palavras que cortam a carne com fúria e lágrima.

Lembro de olhar ao redor e ver, por trás do manto que envolvia meu corpo, a minha única presença naquele teatro. Sei que o diretor pairava entre nós com suas vestes sujas, derramando medo e angústia naquele pobre garoto que não teve culpa de se forjar no ventre de Satã. Foi preciso aprender a trançar a própria existência para não cair no mesmo abismo que seus pais.

Então, surge a adolescência com todos os seus encantos e fulgores, e a paixão angaria a terra e a fertiliza, ou seja, o jovem rapaz transmuta-se em homem que descobriu na carne o prazer da vida. 

Quando tinha 16 anos, foi domado por uma menina cuja cintura cantava nas madrugadas a fundo e teve com ela seu primeiro filho. Um belo fruto que nasceu para dizer aos homens daquela família que o passado resigna-se no passado e que, doravante, tudo pode ser escrito por outra caligrafia, a qual dará vida a novos vocábulos e frases. 

Meu filho, meu precioso garoto, deu-me a alegria de ver a vida sob o mar da criatividade. Ele era tão diferente de mim, não tinha medo de nada, sentia a terra correr por seus poros e sabia que tinha de pegar a existência nas mãos sem deixar nada. 

Acredito que herdou isso de sua mãe. Ela sabia que, se o vento viesse lhe visitar, você precisava abrir a porta, convidá-lo a sentar-se e contemplar o quão valioso era aquele momento. 

E os anos foram se seguindo; tudo, pouco a pouco, ganhou textura, forma, vigor. A mão do homem construiu, sim, com outra caligrafia, um novo roteiro. 

Já a caminho da velhice, há uma nova peça que se descortina para mim. No fundo, uma velha, de roupas rasgadas, andar corcundo e olhos curiosos e astutos, se apresenta, vai até minha esposa e beija sua boca, levando-a para o fundo do palco e empurrando-a na terra fúnebre da qual gozam os mortos. 

Em seguida, meu querido amor, meu lindo filho, que não tinha culpa de nada, e mesmo assim foi levado. Por que eu fiquei? É tão injusto eu ter ficado. A vida passou a ganhar novos tons. Seus textos passaram a ser escritos com a mão sangrenta de um homem semimoribundo que desistiu de tocar a vida. Até que outro personagem se desenrola nesta peça: o Alzheimer. 

Nunca o compreendi bem. É estranho, parece o prelúdio de um desmaio. Pouco a pouco, sua mente fica turva, a névoa impossibilita a lembrança, porém sinto-a lá, sei que está lá, algo me diz que ela está lá. 

Vez ou outra, uma fresta brinca em meu imaginário; sorrio para ela e sentimentos desaguam com veemência. Nessas horas, a lágrima se torna o único recurso para tentar tocar no fio que sobrou após tudo ser tirado. 

Acredito que escrevo isso, pois hoje deleitei-me em um sonho no qual minha alma rompeu um pacto, quase que peremptório, com este plano em que estou inscrito. Vi-me embrulhado pelo êxtase do ontem, do agora e do há de vir: sonhei que meu menino de 5 anos levantava do caixão e derramava bálsamo sobre minhas chagas ao me chamar de papai.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Padre Gigio - Alberto Landi

 



O Padre Gigio

Alberto Landi


O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se tornado insuportável e até constrangedor.

Decidido a dar um basta, ele subiu ao altar e estabeleceu normas rígidas: as confissões seriam sempre após a missa, com a igreja em sua plenitude. Criou um calendário temático: as segundas-feiras para as fofoqueiras, as terças para as ladras de maridos, as quartas para as hipócritas, as quintas para as beberronas, sextas para as feiticeiras e, por fim, as traidoras seriam atendidas logo após a missa de sexta-feira.

O anúncio causou um rebuliço, mas ninguém notou o sorriso malicioso do canto da boca de Tião, o sacristão. Ele limpava os castiçais com a precisão de um cirurgião, via tudo das sombras da sacristia.

Tião sabia que Clotilde, a beata chefe, não liderava o grupo de oração por pura fé, mas para controlar quem entrava e saía do confessionário.

Ela vigiava as outras com um olhar de águia, como se estivesse peneirando as almas antes mesmo de chegarem ao confessionário.

Naquela fatídica sexta-feira, o ar estava pesado, Clotilde estava impecável, o terço de madeira batendo contra o peito, mantendo a fila das traidoras organizada.

O plano de Gigio tinha uma falha, em sua simplicidade não contava com a vaidade dos homens que jamais havia previsto. O seu Juvenal, marido da beata chefe, cansado de esperá-la para o almoço, foi para a igreja, cruzou o umbral com o chapéu nas mãos. A face marcada pelo sol forte não conseguia esconder a tensão que lhe contraía os músculos do rosto.

— Clotilde! Ele chamou, a voz ecoando pela nave da igreja. O almoço está pronto! O que você está fazendo nessa fila?

O silêncio que se formou foi absoluto. As outras mulheres que esperavam na fila da confissão olharam para Juvenal, depois para Clotilde e, em seguida, para o confessionário.

A máscara da santidade dela começou a desmoronar.

Tião, lá do fundo, deu um sorriso discreto enquanto lustrava os objetos do altar, deixando o metal brilhar sob a luz fraca. Ele guardava a chave do enigma: Juvenal não era apenas um homem tenso, era um homem que sabia de tudo, mas preferia o silêncio para manter a paz no lar. 

— Juvenal, saia daqui, sussurrou Clotilde, tentando manter o tom de voz cristão, mas falhando miseravelmente.

— Não saio! — Retrucou Juvenal, dando um passo à frente. Se você vai se confessar, quero ouvir o que você tem a dizer. Após tantos anos, acho que mereço saber por que você não sustenta o meu olhar?

Gigio abriu a porta do confessionário, não parecia surpreso, mas sim satisfeito. Ele olhou para Tião, que apenas deu de ombros, como quem diz: o espetáculo começou.

A igreja que deveria ser um lugar de silêncio tornou-se um palco.

As outras mulheres, vendo a beata chefe ser confrontada, começaram a cochichar. O segredo de uma era o combustível de outra.

Clotilde, acuada, olhou para o confessionário, depois para o marido e finalmente para as vizinhas que julgavam. Ninguém teve coragem de se confessar.

Gigio, vendo aquele mar de gente se encarando, as traidoras de sexta-feira, as ladras de terça, as fofoqueiras de segunda, todas misturadas, soltou um suspiro de alívio. Ele percebeu que, ao expor os pecados de forma tão organizada, ele havia criado um impasse coletivo.

Naquela noite, a igreja esvaziou-se em um silêncio muito mais respeitoso do que qualquer sermão poderia alcançar. Gigio voltou para a sacristia, serviu-se de um chá de camomila e, pela primeira vez em meses, dormiu com a paz de quem não precisa mais vigiar o amanhã. 

Meses depois, as normas do padre continuavam afixadas na porta do confessionário.

As filas diminuíram, os suspiros também.

Mas, segundo as senhoras da paróquia, havia um novo motivo para frequentar a missa das oito.

Afinal, normas controlavam o confessionário, milagres, nem sempre.  

O assédio não acabou por completo.  Apesar das regras impostas pelo padre Gigio, o fascínio que ele despertava nas fiéis continuava a existir, mas a paróquia nunca foi a mesma, agora todos se olhavam com uma desconfiança saudável e o confessionário ironicamente ficou às moscas! 



O Dia em que Roma Roubou… Roubou o Quê? O Padre! - Hirtis Lazarin

 



O Dia em que Roma Roubou…

Roubou o Quê?                                                                              

O Padre! 

Hirtis Lazarin

  


Durante quarenta e sete anos, a paróquia de Alberobello foi comandada pelo Padre Agostino. Ele era um homem santo, mas infelizmente as rugas e manchas castanhas espalhadas na pele traziam o sol de quase um século.  Andava curvado e sofria de uma rinite crônica que transformava os sermões em festivais de espirros. 

Tudo mudou quando o velho clérigo partiu pra Roma e ganhou uma aposentadoria decente; viveria ali de papo pro ar e a desfrutar da presença do gênio renascentista, Leonardo da Vinci. 

A diocese logo tratou de enviar um substituto. No período de menos de um mês, recebeu um milhão de cartas das beatas que cuidavam da igreja e frequentavam as cerimônias religiosas quase todos os dias.


— Temos que cumprir nossas obrigações religiosas. Ficar sem assistir às missas de domingo é “pecado mortal”.  E, cá entre nós, o grande temor delas era o castigo do inferno.

Dona Immacolata, a fofoqueira oficial da cidade, fez, secretamente, plantão na rodoviária, à espera do novo vigário. Até hoje, ninguém sabe como ela conseguiu tais informações. É um dos segredos que prometeu a San Gennaro levar pro caixão. 

Eram 21 horas e alguns minutos quando o padre Francesco desceu do ônibus do “Trasporti Colline D'Oro”. 

Aos olhos da beata, ele não parecia um padre; parecia o protagonista de novela em horário nobre. Tinha dentes perfeitamente brancos — não sei como ela conseguiu ver, tão logo ele desceu do ônibus — cabelos que desafiavam a gravidade e um perfume que misturava sândalo com “pecado perdoado”.

A missa de posse atraiu não só os fiéis assíduos, como outros que só entravam na igreja em dia de casamento ou missa de sétimo dia.

E a chegada do novo líder religioso virou de cabeça pra baixo a rotina da pequena cidade.

Em menos de vinte e quatro horas, o vilarejo sofreu uma pane no sistema: os bancos da paróquia, antes vazios, passaram a registrar recordes de público. Os mais jovens sentavam no chão e com cara de felicidade; mulheres que não pisavam na igreja desde o batizado, de repente, descobriram uma “crise espiritual urgentíssima”; o confessionário virou ponto disputadíssimo, com direito a senha e empurra-empurra; os fiéis redescobriram pecados antigos só pra ficar perto do confessor; a pastoral da juventude e o coral receberam dezenas de novas inscrições em tempo recorde; os jantares beneficentes e o dízimo aumentaram significativamente, patrocinados pelas famílias tradicionais da região. O estoque de velas da cidade evaporou, tantas eram as promessas ao santo padroeiro.


O Padre Francesco não era apenas bonito de rosto; ele tinha o porte físico de quem parecia carregar nas costas o peso dos pecados do mundo. Alto, ombros largos e postura tão alinhada que fazia o coroinha parecer o Corcunda de Notre Dame. Transformava o simples ato de caminhar pela calçada em um desfile de moda sacra.

A admiração quase secreta consolidou-se através de duas situações específicas: a primeira referia-se ao tecido da batina, que no antigo padre sobrava como uma lona de circo; no atual, ficava perfeitamente ajustado nos braços fortes e no peito definido. Luna, a filha chorona do padeiro, com medo de ficar pra “titia”, jurava que o botão superior da roupa clamava por misericórdia toda vez que o padre respirava fundo durante o sermão.

A segunda aconteceu poucas semanas após sua chegada: o pneu do fusquinha velho da paróquia furou bem no meio da praça central. Em vez de chamar um mecânico, o padre simplesmente arregaçou as mangas da camisa clerical — revelando antebraços musculosos — e suspendeu o carro sozinho para encaixar o macaco. O fã-clube das beatas, que assistia a tudo da padaria, quase precisou de atendimento médico de emergência.

O padre Francesco, coitado, era de uma inocência quase angelical. Ele achava que o povo da cidade era apenas extremamente fervoroso e devoto. Mal sabia ele que cada bênção com água benta era recebida como um refresco no calor daquele alvoroço. 

Ele não fingia inocência; ele era genuinamente alienado em relação ao próprio impacto visual. Essa pureza quase infantil tinha explicações muito claras e hilárias: Francesco foi entregue ao seminário ainda muito jovem e passou os últimos quinze anos num mosteiro de clausura no interior da Puglia. Lá, os únicos espelhos permitidos eram do tamanho de uma caixa de fósforos — usados apenas para não se cortarem ao fazer a barba. Acreditava que seu corpo era apenas uma ferramenta de trabalho para carregar peso e capinar o mato crescido no pátio da igreja. 


Enquanto os jovens de sua idade criavam perfis em aplicativos de relacionamento, ele passava as noites em claro decifrando manuscritos de São Tomás de Aquino em latim medieval. 


Se uma paroquiana suspirava profundamente no confessionário, olhando para os ombros dele, e dizia: “Ai, padre, sinto um calor sufocante no peito quando olho pro senhor…”, ele respondia prontamente com um sorriso angelical: “Isso é o fogo do Espírito Santo agindo em sua alma, minha irmã! Vamos rezar três Ave-Marias para acalmar esse coração ansioso.”

Era o único homem na cidade que conseguia receber uma piscadela bem maliciosa de uma jovem sensual e achar que ela estava apenas sofrendo com um tique nervoso; e já fazia junto dela uma oração. 

Essa blindagem moral contra a vaidade e o pecado deixava as mulheres ainda mais desesperadas e os maridos locais secretamente aliviados, acreditando que o “adversário” não jogava no “campo dos machos”.

Quem estava adorando tudo isso era seu Giuseppe, o farmacêutico. Ele nunca vendeu tantos medicamentos…

O Padre Francesco não conhecia realmente a malícia do mundo, apenas a dor do mundo. Agradecia a Deus pelo reavivamento da fé no vilarejo. Trabalhava dezesseis horas por dia. Com a epidemia de confissões, passava horas trancado no confessionário. Levava cada relato tão a sério que jejuava e passava noites em claro rezando pelas pecadoras. Subia colinas sob sol escaldante em visita aos enfermos e passava horas correndo ladeira abaixo e ladeira acima levando alimentos aos pobres. E assim foi durante mais de um ano: sem folga nem descanso. Tudo por amor aos paroquianos.

O colapso veio numa manhã de terça-feira. No calor abafado do confessionário, quando ouviu o terceiro pecado inventado do dia, o ar lhe faltou. Uma onda de frio cortou seu peito e o som dos sussurros do outro lado se transformou num eco distante. Tentou se levantar, o chão de pedra da igreja subiu ao seu encontro. Francesco desabou, a batina negra espalhada pelo chão, o rosto pálido coberto de suor.

Após examiná-lo sob os olhares aflitos das beatas, o médico deu o veredito: o bom padre está sofrendo de uma “estafa mística e avassaladora” provocada pelo esforço sobre-humano de carregar nas costas tantos pecados de toda a população.

O tratamento prescrito foi drástico e, se não cumprido imediatamente, o enfermo poderia vir a óbito: internação hospitalar e isolamento absoluto, caldos   fortificados de carne e, para desespero do fã-clube, a proibição de visitas. 

A transferência do pároco pro hospital da comarca vizinha foi feita na calada da noite, enquanto todos dormiam e com a ajuda do prefeito. O vilarejo mergulhou num luto profundo e doloroso. As beatas transformaram a igreja local num quartel-general de clamor divino: grupos de oração revezavam-se dia e noite e tantas velas foram acesas no altar que o calor ameaçava derreter as imagens dos santos. Mulheres mais velhas, de tanto tempo ajoelhadas, chorando e orando aos céus, não conseguiam mais andar, tamanha era a dor nas pernas.

No entanto, para o mistério da medicina e desespero dos fiéis, as semanas passavam e o padre não melhorava. A febre persistia, as bochechas continuavam pálidas, sem contar que, enquanto dormia, o padre repetia choramingando uma sequência de nomes femininos: Beatrice, Constança, Caterina, Ginevra, Rosa, Ágata… O médico conhecia todas elas: eram as moças mais bonitas e sensuais da paróquia.

O doutor aceitou sua derrota científica e diagnosticou o padre com uma fictícia e raríssima doença: “melancolia espiritual degenerativa”. Como única salvação, redigiu um laudo pra sede central da igreja, em Roma, exigindo a deportação imediata do enfermo pra um hospital em melhores condições de atendimento.

Despachar aquele rapaz de beleza magnética era a única forma de devolver a sanidade ao vilarejo e livrar-se de um mistério não resolvido que poderia arruinar sua reputação. E, de quebra, o seu consultório encontraria paz, já que vivia entupido de beatas adoentadas.

Quando foi colado na porta da igreja o aviso da deportação do clérigo, o vilarejo explodiu num histerismo coletivo que faria inveja às tragédias gregas. Mulheres rasgaram véus de renda, arrancaram os cabelos em praça pública, clamando pela volta do “único santo vivo da Terra”. A viúva mais rica da cidade ameaçou deserdar os filhos se o altar não ganhasse uma estátua em tamanho real de Francesco.

— Mas isso é uma traição, doutor Camilo! — Gritava Dona Immaculata. O senhor contrabandeou nosso santinho?

Doutor Camilo encostado na parede, limpando os óculos com um sorriso de alívio:

— Foi uma operação de resgate médico. O rapaz precisava de cuidados com especialistas em Roma, bem longe das garras devotas de vocês.

Dona Filomena, aos prantos, abanando-se com um lenço:

— Por que tão longe? Para Roma? E a minha pneumonia espiritual? Quem vai ouvir a minha confissão sobre a inveja que senti do bolo de fubá de minha cunhada? O senhor está condenando minha alma ao inferno.

O médico coloca os óculos e solta uma risada:

— Ah! Dona Filomena, o padre estava quase morrendo tentando carregar a culpa de todos os seus bolos.

— Não se preocupem, senhoras, o substituto chega logo. Ele tem noventa anos, é banguela e completamente surdo. Vocês terão que GRITARRRR  seus “pecados mortais” e os maridos e a vila inteira vão ouvir.

O misticismo religioso que envolvera a vila quebrou-se instantaneamente: no domingo seguinte, a igreja voltou a ficar às moscas; as fofocas voltaram a reinar nas janelas e portões; as mulheres, milagrosamente, foram curadas de suas tosses e pecados inventados; ninguém sofria de inveja por ninguém e o confessionário, na santa paz de Deus, foi trancado até a chegada do próximo pároco.


O MURCHAR DA ROSA VERMELHA - Pedro Henrique




O MURCHAR DA ROSA VERMELHA

Pedro Henrique


O sol derramava seu calor pelo chão do pequeno vilarejo escondido por trás das montanhas que cercavam Faletil. 

Os moradores, felizes e auspiciosos, saíam de suas residências com aspirações de tentar trazer o santo pão de cada dia para casa. 

É neste pequeno recanto de pobres almas de mentes nobres que vivem Eudes e seu maior afeto: Jacy. 

Ambos nutriam um pelo outro uma paixão genuína. Aquela que se engendra do mais profundo da alma. Conheceram-se ainda adolescentes. Jacy tinha prazer ao passar, deliberadamente, pela venda do pai de Eudes, senhor Jurandi. 

Todos os dias, às 15:30, vinha ela, com seus cabelos penteados, um pouco de maquiagem no rosto e com seu vestido roxo que, de forma muito sutil, delineava seus atributos corporais. 

Eudes tentou ignorá-la por um certo tempo. Dizia para si e para seus companheiros que não queria saber de relacionamento, queria sim era viver o melhor de sua “solteirice” para, quando se cansar, submergir no mais visceral amor. 

Todavia, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Sendo assim, em um belo dia, Eudes, como quem sofre uma abrupta epifania, viu Jacy passar em frente ao estabelecimento de seu pai e decidiu mexer com a moça. 

De repente, o rosto de Jacy começou a ganhar mais beleza, seus cabelos tinham um ar metafísico quando abraçavam o vento e sua boca parecia chamar docemente o nome do rapaz. 

Portanto, o que era para ser uma conversa se tornou um jantar a dois, jantar este que se tornou noivado. As águas deste rio foram fertilizando-se até o momento em que Helena surge para consagrar este santo amor conjugal que costura Eudes a Jacy. 

No entanto, depois que Helena veio ao mundo, Jacy começou a se sentir de outra forma; pouco a pouco, o mundo ganhava outra textura. O cinza preenchia o que antes era azul, verde, amarelo…

O almoço, que outrora era preparado com zelo e ternura para seu querido amor, agora era feito às pressas ou nem feito. A cama, que nas madrugadas a fundo era palco das encenações de afeto, tinha em seu vigente momento o frio congelante de algo que começou a decair. 

Pouco a pouco, um pensamento foi se solidificando na mente de Jacy. Pouco a pouco, ela se enojava mais. 

Um dia, sua filha, já crescida, com os anos a sufocando e seus cabelos já ganhando o grisalho que é presente da biologia aos Homo sapiens, seu marido quebra o braço após cair da escada enquanto arrumava o estoque da loja que herdara de seu pai, neste momento, já falecido. 

Jacy, então, se defrontou com a obrigação de dar banho no marido, ajudá-lo com as atividades mais basilares, tal qual sentar-se à mesa ou pegar para ele um copo d'água, até porque a visão de seu “amado” foi comida pelos anos. 

Em um momento, ao fazer sopa em um dia frio, foi alimentar Eudes, que não conseguia mexer o braço. 

Gole a gole, ela lhe deu na boca. Quando ia lhe dar o último, o quase velho homem, sem intenção, esbarra na tigela e derruba o pouco do conteúdo que ali havia em Jacy e, neste momento, pela primeira vez em muitos anos, os olhos de ambos se cruzam. Um mundo colide com outro mundo, duas histórias que se intercruzam e jorram nos olhos dos dois o peso de uma vida tão mal vivida. 

Eudes sente, em seu interior, galáxias se movimentando. Sente desejo de perguntar a Jacy como chegaram até ali. Aquele lugar inóspito no qual o afeto não tem direito ao mando.

Porém, sua vontade é cortada pelo veemente tapa que a mulher desfere em seu rosto. 

Jacy sai da cozinha angustiada e vai ao quintal da residência e, de dentro, com o cantarolar dos grilos lhe consolando, Eudes ouve o choro daquela que há muito lhe negou o mundo.

Com certa dificuldade, o rapaz volta ao quarto, mas antes entra no de sua querida Helena, contempla a pequena, hoje já grande, menina que, mais do que Jacy, ama no mundo. 

Ele rememora a primeira vez que foi à escola vê-la se apresentar na festa junina e sorri quando pensa no coração que sua filha lhe fez com seus ínfimos dedos naquele dia. Recorda-se de como era tudo aquilo que aprendeu a amar quando decidiu chamar Jacy para conversar naquele dia. Traz à sua memória como foi ver a mãe da melhor amiga de sua filha. Lembra do olhar dela e de seu sorriso.

Nunca poderá esquecer que ali, no banheiro do colégio de sua preciosa Helena, ele, Eudes Dos Santos Filho, provocou, em sua casa, uma nódoa fedida cujo odor o perseguiria pelos anos a seguir, pois não se obliterara de seus pensamentos o olhar de Jacy vendo o amor de sua adolescência sair de um sanitário sorrindo para outra que não aquela que, de bom grado e embriagada de paixão, durante um ano e dois meses, passou em frente a seu estabelecimento. 

FIM!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

 



A TEMPESTADE DE NEVE

Adelaide Dittmers


Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.

Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.

As ruas estreitas estavam vazias.  O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.

Tom acordou assustado.  Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania.  Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.

Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor.  Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação.  Nunca viu uma nevasca tão assustadora.  O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto.  Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.

Um celular tocou.  Era Robert, um vizinho e amigo.  A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.

Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine.  Tom abraçou a mulher e o filho.  As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.

Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.

Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade.  Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.

Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara.  Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.

Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se.  De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou.  Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.

Tom acionou o seu celular.  Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou.  Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.

O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos.  Os gestos falavam mais do que as palavras.  

Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.

Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.

Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora.  Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.

Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores. 

Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria.  A tristeza do que acontecera emudecera a cidade.  E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade. 





Joaquina - Alberto Landi

 



Joaquina

Alberto Landi


Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.

Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.

Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.

Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.

Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?

Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.

O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.

Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.

Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho. 

Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.

Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.

Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.

E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.

E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.


Agarrado aos retratos - Hirtis Lazarin

 



O céu havia engolido o sol horas atrás, substituindo-o por uma massa de nuvens cor de chumbo que girava como um redemoinho vivo.  O vento não soprava, ele golpeava, arremessando tudo que via à sua frente. O som parecia tiros de fuzil.

Agarrado ao batente da janela com os nós dos dedos brancos de tanta força, Tomás viu a escuridão da tarde ser rasgada por relâmpagos que revelavam a silhueta do furacão avançando pelo vilarejo.

O mar já havia sustentado o pescador por trinta anos, desde quando deu as costas ao asfalto e aos arranha-céus cinzentos, guiado pelo desejo de encontrar refúgio num velho e pacato vilarejo.  

Ele já havia sobrevivido a tempestades brutais e marés violentas, mas o monstro que engolia céu e mar era algo além da sua compreensão. O monstro não estava só zangado, havia se tornado um inimigo impossível de vencer.

Tomás sabia que cada segundo preso àquele batente de madeira reduzia suas chances de sobrevivência. Mas, paralisado pelo medo — ou talvez pelo cansaço da alma — tinha duas alternativas: correr para o porão da velha igreja ou arriscar a subida a pé em direção às colinas.

Ao longe, o caos já havia engolido parte do vilarejo. Via vultos desesperados — vizinhos de uma vida inteira — correndo contra o vento, arrastando crianças pelo braço, abandonando tudo pra trás.  Algumas famílias tentavam pregar as últimas tábuas nas portas franzinas, enquanto os mais jovens, de mãos vazias, fugiam em direção à estradinha de terra. 

As embarcações ancoradas batiam umas contra as outras como brinquedos quebrados, estraçalhando cascos e partindo mastros ao meio. Algumas foram arrancadas da areia e arrastadas para o fundo do mar, sumindo na espuma branca, enquanto outras foram arremessadas contra as pedras da encosta. As redes de pesca, tecidas à mão por gerações, transformaram-se num emaranhado caótico de nylon, nós e algas, presas a destroços flutuantes.

O estalo da madeira do teto arrancou Tomás do transe. Não havia mais tempo pra lamentar os barcos destroçados. A própria casa começava a gemer sob a pressão do vento e o vidro da janela trincou de ponta a ponta. 

Qual decisão tomar?  Agarrar a lanterna e vestir a velha capa de chuva impermeável pendurada atrás da porta e fugir? Ou não mover um milímetro e se abandonar à própria sorte? 

Desde que o câncer levara sua esposa há poucos meses, o silêncio daquela casa de madeira havia se tornado insuportável. Seu único filho, que construíra sua vida longe dali, nos Estados Unidos, era, agora, apenas uma voz distante preocupada em ligações de telefone que pareciam vir de outro planeta. 

Sozinho, cercado pelo luto e pela solidão, Tomás percebeu que não temia a fúria do furacão; na verdade, sentia uma calma melancólica.  Olhando para os estragos provocados pela natureza revoltada, ele soltou o ar devagar, aceitando que se o mar ia levar embora os trinta anos de sua história, que levasse também o que restava dele.

O oceano, finalmente, cobriu a rua e golpeou a estrutura da casa com a força de um naufrágio. A parede da frente cedeu e a água escura invadiu a sala; subiu rapidamente pelas canelas de Tomás e arrastou os móveis como se fossem feitos de papel.  Ele apenas olhou para as paredes do fundo, onde duas fotografias emolduradas começavam a flutuar na água que subia: o retrato amarelado de seu casamento na praia, o símbolo máximo de sua vida construída à beira do mar, e a imagem digital enviada pelo seu filho, sorrindo timidamente do outro país.  Duas Américas separadas por um abismo de distância e água, que agora se misturavam no mesmo turbilhão que engolia o chão sob seus pés.

Quando as vigas do teto começaram a estalar, a água já alcançava o peito de Tomás. Num último esforço, esticou os braços e resgatou os dois porta-retratos. Agarrou e colou-os contra o peito. Uma onda massiva e escura arrombou o restante da estrutura e cobriu completamente o pescador. 

Tomás afundou num silêncio profundo.


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...