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quarta-feira, 6 de maio de 2026

LARISSA, A INTROMETIDA - Henrique Schnaider

 




LARISSA, A INTROMETIDA
Henrique Schnaider

Larissa era uma menina muito curiosa; era tão curiosa que ouvia cores e tinha certeza de que ouvia. Sempre à procura de uma novidade, mas às vezes até acabava se dando mal por ser abelhuda.
A menina era movida pela curiosidade. Havia ganhado o apelido de “Larissa, a intrometida”. Apesar de a menina não se incomodar nem um pouco com a sua fama.
Seus pais eram de uma família tradicional paulistana, descendentes dos antigos barões do café, eram muito abastados e frequentavam a elite da sociedade, mas não apreciavam tudo o que mandava a etiqueta.
Os pais de Larissa tentaram educá-la, oferecendo-lhe professores para lhe dar uma fina educação, mas a menina era resiliente, uma pedra no sapato da família, era bocuda e respondia aos professores que lhe chamavam a atenção e não escondia a fama de ser xereta.
Nas horas de folga nos estudos severos a que era submetida, lá ia ela à procura de novidades. E já começava pela casa dos seus pais, uma enorme mansão no bairro dos Jardins. O palacete possuía inúmeras salas e vários aposentos ricamente decorados.
O quarto de seus pais era decorado com móveis finos, algo que encantava os olhos de quem tivesse acesso ao mesmo. Mas não havia a menor chance para Larissa adentrar o mesmo, já que era terminantemente proibida de degustar a sua curiosidade, já em estado de angústia.
Certo dia, um dos seus pais escorregou no erro de esquecer a porta do quarto destrancada, e a menina, sempre de olho vivo à espreita dessa chance, percebeu o erro e, aproveitando-se da oportunidade tão esperada, entrou sorrateiramente no quarto.
Não perdeu tempo e começou a procurar as novidades, mexe aqui, mexe ali, mas ainda não estava satisfeita, até que, em uma certa gaveta que chamou muito sua atenção, não perdeu tempo, estava destrancada e abriu a mesma, matando sua curiosidade.
Achou algumas coisas que não lhe interessaram. E, ao ver uma foto antiga, reconheceu seus avós e tios, mas enregelou ao ver que havia uma pessoa na foto, com o rosto recortado, e que seu avô estava com o braço no ombro dela.
Depois disso, Larissa se deu por satisfeita e saiu do quarto ansiosa por ver sua mãe.  Sabia que receberia um tremendo castigo por entrar no quarto dos pais, mas, como sempre, a curiosidade era maior do que o medo.
Encontrou a mãe na sala da mansão e, não resistindo, confessou para ela que havia entrado no quarto dela e que aceitaria o castigo, mas queria saber o porquê daquele rosto recortado na foto da família.
Sua mãe deu um sorriso suave, que só as mães sabem dar, e pediu para ela sentar-se, que ela iria contar. Perguntou se Larissa reconheceu as pessoas, e a menina disse que sim.
A mãe explicou que aquele rosto recortado era da sua tia Luiza, e seu avô, que era casado com a avó Esmeralda, estava cheio de mesuras com a tia Luiza, tanto que na foto estava com o braço no ombro dela, o que deixou sua avó Esmeralda furiosa. E, assim que a foto ficou pronta, ela não perdeu tempo e recortou o rosto da tia Luiza da foto.
A mãe perguntou se a menina gostou da explicação e Larissa respondeu que sim, apesar da pouca idade. Em seguida, disse para ela que nunca mais entrasse no quarto dos seus pais e que, daquela vez, não iria receber nenhum castigo, mas se não mudasse seu vício de curiosidade, ela iria para um colégio interno até a maioridade.
Larissa procurou mudar de hábito. Mudou surpreendentemente, pois se assustou com a ameaça que sua mãe lhe fez, e passou a ser uma boa aluna, além de filha exemplar.






Fim de um ciclo - Hirtis Lazarin





Fim de um ciclo 

Hirtis Lazarin


A porta da mansão rangeu com um protesto metálico, revelando um interior onde o tempo parecia estar congelado.

Sob uma camada de poeira cinzenta, a mobília sobrevivente emergia como esqueleto de uma época de trinta anos atrás: poltronas de veludo puído, na cor carmim, conservam marcas de corpos ausentes. A maior… era onde o senhor Nicolau bebia os mais finos vinhos.

“No centro da sala grande, a mesa de mogno estende-se, cercada por cadeiras de encosto alto que guardam a postura solene de quem ainda espera pelos donos da casa. Sobre ela, coberta de poeira, ficou um livro aberto. Rui se aproxima: é um livro de poesias, as páginas amareladas e curvas pela umidade de trinta invernos; uma pétala de rosa seca, agora transparente e quebradiça como asa de inseto, marca um verso interrompido. “Minha avó sabia um monte de poesias de cor e, do nada, começava a recitar com a eloquência que só ela sabia impor”.

O ar pesado, com o cheiro de madeira podre, passeava por todo o recinto, expulsando a intromissão de almas intrometidas.

Na parede de reboco descascado e sem cor, um calendário ainda resistia, preso por um prego enferrujado.  Um círculo vermelho envolvia os dias 15 e 16 de abril de 1986. 

Rui ajustou o nó da gravata, sentindo o ar rançoso pinicar sua garganta. Enquanto o corretor lutava com a fechadura de um dos cômodos, ele caminhou até uma segunda sala. Numa das paredes do afresco pintado, sobraram apenas manchas de tinta. Olhou pro  teto e vislumbrou o imenso lustre de cristal que iluminou as glórias da família. “Trinta anos”, pensou ele, “é tempo demais pra uma estrutura permanecer tão firme e guardar tanta mágoa”.

Subiu as escadas e, no topo, parou diante do grande retrato coberto por um lençol   amarelado. Ele nem precisava puxar o pano pra saber quem estava ali; os olhos do seu avô ainda pareciam queimar através do tecido podre.  O corretor tagarelava sobre a fundação da casa, sem saber que Rui conhecia cada tijolo e as histórias que eles contavam.

Ele não queria a mansão só para restauro. Ele a queria pra garantir que certas portas continuassem trancadas. Enquanto caminhava, sentiu o peso imaginário da chave de ferro em seu bolso, a mesma que roubara vinte anos atrás, na noite em que o silêncio venceu os gritos. Restaurar a propriedade era o único jeito de impedir que escavassem o jardim ou derrubassem as paredes que guardavam o segredo que, há tantos anos, o atormentava nas noites de insônia. Rever cada canto daquela mansão fazia um suor frio escorrer pela sua nuca — a gola da camisa já estava molhada.  

— Uma estrutura sólida — dizia o homem, batendo descuidadamente na parede. Rui queria gritar pra ele parar, mas sua voz ficou presa na garganta, seca de poeira e pânico. 

Entraram na biblioteca. O herdeiro parou diante da poltrona, que repousava solitária como uma sentinela de frente pra janela alta. A luz do entardecer atravessava as cortinas desfiadas, projetando sombras longas sobre o couro craquelado que um dia abrigou o corpo frágil da avó. Era estranho como, mesmo após três décadas de abandono, o móvel ainda parecia manter a forma de quem o ocupava, com o assento levemente afundado e os braços de jacarandá gastos pelo toque obsessivo de mãos. Era ali que ela passava parte do dia enfiada entre livros; tinha o hábito de riscar com lápis as passagens do texto que mais lhe interessavam. 

Daquele ângulo, quem estivesse sentado ali teria a visão perfeita de todo o jardim.

O corretor deslizou a mão pelo encosto da poltrona e mais nuvem de poeira se levantou. — “Veja esta peça, é jacarandá legítimo” —-- comentou com um sorriso comercial, ignorando o cheiro de mofo. —-- “Coisas assim não se fazem mais hoje em dia; a cadeira de sua avó foi feita pra durar pela vida toda”. Enquanto ele falava, soltou um suspiro de cansaço e deixou o corpo cair sobre a poltrona. O jacarandá rangeu sob o peso exagerado e um som seco ecoou pelas estantes vazias da biblioteca. — Ah, eles sabiam o que era conforto naquela época — exclamou o homem, ajeitando as costas contra o encosto rígido. 

Ao se acomodar, ele franziu o cenho e remexeu-se para o lado, tateando a lateral do assento. — Tem algo aqui embaixo me cutucando, algo duro. Deve ser uma mola quebrada, ou quem sabe um daqueles reforços de ferro antigo".


O herdeiro mantinha os olhos fixos no forro lateral, onde algo rígido parecia forçar a costura por dentro. O mundo lembrava da avó como uma senhora devota e gentil, mas o neto guardava a verdade fria, o segredo que sustentava o nome daquela família. Só ele sabia.  Só ele carregava a imagem nítida daquela noite do dia 15 de abril, trinta anos atrás, quando viu, pela fresta da porta, a velha senhora costurando o forro, após guardar um livro pequeno no interior da poltrona.

Enquanto o corretor tateava o remendado no tecido, os dedos quase alcançando o que estava oculto, a voz do herdeiro cortou o silêncio. — “Levante-se. Eu não quero que você se acomode nas antiguidades da minha família. Se o senhor está aqui pra avaliar a estrutura, foque nas paredes, no teto e nos cômodos”.

O homem, sem graça, pigarreou e recuou em direção à janela, pedindo desculpas. Rui respirou fundo. Sabia que não poderia deixar aquele homem sozinho naquela sala. Com certeza, alguma dúvida foi implantada na sua curiosidade.

Nesse momento, entrou na biblioteca um gato feito de vento; seu gemido de fome, fraco e trêmulo, desviou a atenção dos homens. Não tinham ali qualquer alimento para oferecer, e o corretor, prontamente, acompanhou-o até o jardim. Lá de fora, gritou que iria até o carro estacionado na rua.  “Não entendi o resto da frase.”

Nesse momento de pausa, Rui fechou os olhos e reviveu aquela cena: “Olhei firme pela fresta da porta e não estava ali a vovó que me contava histórias.  Não era mais a vovó da pele macia com cheiro de pó de arroz.  O jeito que ela olhava pros lados me lembrou os passarinhos que fogem do gato.  Os olhos pareciam duas bolas de gude vazias. Ela gesticulava na frente do vovô e gritava, gritava alto e impedia que ele abrisse a boca. 

Eu não entendia o que ela falava. Entendi uma única frase na qual as palavras foram valorizadas. — “Christina é mais uma de suas amantes”?  — O rosto avermelhou de um jeito que me dava medo; as veias do pescoço saltaram como cordas.  Vovô, com ar de desdém, ignorou-a e virou as costas. Ela se apoderou de um peso de cristal que ficava sobre a mesa — e eu nunca pude tocar.

Chegou mais perto dele e, com toda força, arremessou o peso com a intenção de acertá-lo na cabeça.  Foi rápido. O som foi tão seco e oco como o som do coco jogado no chão. Vovô caiu desajeitado no assoalho.

Ela levou as mãos à boca. O vermelho do rosto sumiu na hora, ficando de um branco de papel. Ela se ajoelhou e chamou o nome dele baixinho: “Nicolau? Nicolau?”, mas ele não respondeu. Um fio de sangue escorreu da sua cabeça. Foi aí que o rosto dela mudou de novo. Ela não chorou. Olhou pra peça de cristal, agora suja de sangue; os olhos ficaram pequenos e gelados. Percebeu que ele não iria mais acordar. 

O som dos passos do corretor ecoando pelo corredor de madeira anunciou o seu retorno, mas o neto estava mergulhado num tempo diferente.  O homem trouxe consigo o cheiro do cigarro e o barulho das chaves balançando. Alheio ao fato de que o herdeiro mal o escutava, caminhava de um lado pro outro, gesticulando sobre possíveis reformas. 

 Exausto de lutar contra os fantasmas que o observavam de cada canto escuro da biblioteca, Rui ergueu a mão e, com um tom de voz seco, despediu-se do corretor, alegando precisar de ar e de tempo para processar a herança.  Finalmente estava sozinho com a poltrona, pronto para enfrentar o que aquela agenda lhe contaria.

Aproximou-se da poltrona e deslizou os dedos até encontrar a costura. Não foi preciso força; o tempo já havia enfraquecido as linhas. Com apenas um puxão, ele trouxe a agenda de bolso preservada na escuridão de trinta anos. Ao abrir a primeira página, o cheiro de papel antigo subiu às narinas e ele espirrou repetidas vezes. Os garranchos elegantes da avó saltaram aos olhos.  Ali, entre datas e nomes de mulheres, provavelmente amantes do avô, estava confessado o cálculo frio de como uma morte pode ser forjada com um silêncio bem planejado. 

O que a avó nunca soube, enquanto costurava aquela agenda no interior do couro, é que segredos nunca morrem quando há testemunhas. Rui, encolhido no escuro do corredor, não apenas viu o golpe e o descaso de sua omissão; ele absorveu cada detalhe da transformação daquela senhora. Ele carregou um peso em sua própria consciência, assistindo ao mundo lamentar uma 'fatalidade' que ele sabia ser apenas um cálculo.

Agora, com a agenda aberta em mãos e o corretor já longe, leu cada página detalhadamente. E não eram tantas… Rui não se sentia chocado; ao contrário, sentiu um estranho alívio. O ciclo finalmente se fechava. Ele olhou para as páginas amareladas uma última vez, fechou o caderno e o guardou no bolso. A casa estava vazia, a avó se fora e, pela primeira vez em tantos anos, o silêncio da biblioteca não era mais um esconderijo, mas apenas silêncio.” 

A morte do patriarca foi contada como uma fatalidade triste. No luto da família, a história contada foi sempre a mesma: o coração cansado do vovô havia falhado, fazendo-o desfalecer e bater a cabeça na quina da mesa. Era uma narrativa impecável, aceita por médicos e legistas, que justificava o sangue no tapete e o corpo estendido no chão. E a avó, com seu luto impecável e os olhos sempre úmidos de uma saudade ensaiada, tornou-se a guardiã oficial dessa mentira. 

Caminhou até a lareira e arrancou cada página da agenda. Riscou um fósforo e a chama devorou cada folha.  A confissão e a mentira foram se transformando numa fumaça cinzenta que subiu pela chaminé e se dispersou no céu vasto lá fora. Enquanto o fogo morria, um peso invisível desmoronou dos seus ombros. Ele não era mais o menino escondido atrás da porta; era um homem livre daquela herança maldita. Sem olhar pra trás, ele deixou a mansão e fechou a porta. 

O segredo virou pó e, pela primeira vez, após tantos anos, finalmente, Rui respirou em paz. 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eram cinco horas… - Hirtis Lazarin

 



Eram cinco horas… 
Hirtis Lazarin

O brechó cheirava a poeira acumulada. Ali o tempo foi esquecido e as identidades se misturavam. Entre os cabides de metal que rangiam sob o peso de tecidos, as peças de roupas pareciam esperar, com paciência resignada, que alguém as levasse dali. Não eram apenas roupas, eram a soma de momentos que já não pertenciam a mais ninguém.
 
Lívia caminhava entre as fileiras de lã e linho, até que seus olhos pousaram naquele blazer bem modelado. Era de um cinza profundo, quase fustigado, como se tivesse absorvido muita fumaça de cigarro antes de ser deixado ali, por um preço irrisório. 

Tirou a peça do cabide, examinou o tamanho e o preço anotados na etiqueta: estava compatível com o que ela tinha na carteira. Aliás, ali estava tudo que restava da sua parca aposentadoria. O frio acabava de pôr as manguinhas de fora e o seu guarda-roupa estava vazio de peças quentes.

Ela fechou a porta do apartamento, deixando o ruído das ruas pra trás. Vestiu o blazer, a lã era áspera, mas trazia um calor que parecia vir de dentro das fibras, uma temperatura que não era dela. Diante do espelho, observou que a estrutura da peça moldava seu corpo, preenchendo vazios que ela nem sabia existirem. Ao ajeitar a lapela, num gesto automático de quem busca conforto, sentiu um pequeno volume estranho. Estava por trás do forro descuidado, preso por um fio de linha que insistia em não partir.


Lívia não hesitou; a curiosidade era bem mais forte que o pudor de mexer no passado alheio. Puxou o objeto, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Era uma chave pequena, de latão leve e gasto, com uma etiqueta plastificada, onde se liam: o número 32 e o endereço de um antigo terminal ferroviário da cidade, um lugar que agora só abrigava sombras e o eco de trens que não passavam mais.

Enquanto a maioria das pessoas guardaria a chave numa gaveta como curiosidade de antiquário, ela não era dada a hesitações. Não tirou o blazer, sentindo que a peça era agora seu uniforme de investigação e, cinco minutos depois, já estava no carro. 

Enquanto o metal da chave queimava em seu bolso, a ansiedade apertava seu estômago como o marinheiro aperta o nó da corda grossa. Respirava com tamanha dificuldade, que foi obrigada a encostar o carro por alguns minutos.

Ao chegar, o cenário vazio da estação era de uma beleza estática: as plataformas vazias e o relógio parado pareciam suspensos num tempo que não avançava mais. Lívia olhou pra baixo e viu os trilhos. Eles repousavam ali, entregues à própria sorte, como serpentes de ferro paralisadas pelo tempo. O ferro estava sendo devorado por uma ferrugem faminta, que vestia o metal com uma pele alaranjada e ressecada; e o mato crescia e se esparramava entre os dormentes de madeira podre, num esforço silencioso de apagar o caminho. E bem lá no meio do mato, um punhado de florzinhas pintou de amarelo aquele verde intenso.

Não havia mais o tremor do chão, nem o apito cortante, apenas o silêncio pesado de quem não tem mais pra onde ir.
 
Lívia caminhou decidida entre os ecos de seus passos até encontrar a fileira de armários metálicos, ainda organizados em numeração crescente. O 32 estava bem à sua frente. A tinta descascada revelava cicatrizes de décadas de partidas e chegadas. 

A poeira acumulada em tudo que se via castigou seus pulmões e um acesso de tosse seca e persistente interrompeu o que ela pretendia fazer.

Depois de, aproximadamente, meia hora, ela pôde se posicionar à frente do armário.  Seus dedos gelados, transformados em hastes rígidas de vidro, tremiam ao aproximar a chave da fechadura. Ela sentia que, ao girar aquele cilindro, não estaria apenas abrindo um armário, mas rasgando o véu que separava o seu presente do passado de um fantasma.

Depois de um estalo seco, o armário se abriu. Lá dentro, uma caixa de madeira gasta e sem brilho. Ao abrir, um susto: sobre um maço de cartas amarradas com barbante, repousava um relógio de pulso com o vidro trincado, parado às cinco horas. Cinco da manhã ou da tarde? 

Sentada no chão frio da estação, com o blazer ainda abraçando seus ombros, Lívia abriu o primeiro envelope. No topo da carta, uma caligrafia pequena e apertada: “14 de dezembro de 1972”. A carta foi escrita numa noite de domingo, quase quarenta anos atrás.

À medida que lia, uma dor forte crescia no seu peito… Ela ainda era uma criança e o autor solitário sofria as dores da indiferença e do abandono. 

Naquelas cartas não havia crimes ou perigos, apenas os destroços de alguém que insistia em não ser esquecido. As cartas não tinham selo; eram endereçadas a alguém que nunca as recebeu. Eram monólogos de um homem solitário e apaixonado. Agora, ela e aquele estranho compartilhavam o mesmo silêncio, separados pelo tempo. Lívia não havia adquirido, num brechó, apenas um blazer de boa qualidade; a sua curiosidade invadiu a privacidade de um estranho.


Subitamente, ela interrompeu a leitura e um peso denso abateu sobre ela: a curiosidade que antes a movia parecia agora uma invasão cruel, um sacrilégio contra a intimidade de quem nada mais tinha além daquele silêncio. Devolveu as cartas e o relógio ao seu repouso. Fechou o armário com o pesar de quem encerra um túmulo. 

Ao sair da estação, jogou a chave num bueiro, ouvindo o tilintar final de um segredo que não lhe pertencia. Já na rua, sob a luz indiferente dos postes, despiu-se do blazer e o entregou à primeira pessoa necessitada que encontrou encolhida contra o frio.

Estacionou o carro em frente ao “Bar do Nenê” e pediu duas doses de uísque. À medida que o copo se esvaziava, o peso das cartas e do casaco ia diminuindo. 

E o vento da noite, pela primeira vez, parecia soprar só pra ela.

 






 





O Sequestro

Adelaide Dittmers


Juliana acordou e tentou olhar ao seu redor.  Estava tudo meio nublado.  Ela piscou várias vezes para tentar enxergar com mais nitidez. Onde estava?  Um cinto a prendia. Que barulho era este? A consciência foi se iluminando pouco a pouco.  Estava em um avião. Como chegara aí? Sacudindo a cabeça, como se quisesse pôr em ordem os seus pensamentos, olhou pela janela. Nuvens brancas passavam rapidamente, deixando entrever um céu azul.

A lembrança foi aparecendo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Estava em casa, quando surgiu um homem que colocou um lenço no seu nariz. Ela tentou se soltar, mas ele era muito forte, agora estava em um avião e ainda sentia o cheiro da droga, que a havia apagado.

Quis se desvencilhar do cinto, mas não conseguiu, ainda estava fraca.  E, desesperada, gritou, enquanto sacudia a amarra que a prendia.

— Aonde estão me levando?

Imediatamente, um homem apareceu ao seu lado. Atrás da máscara, dois olhos verdes penetrantes a olhavam e o franzir da testa denunciava a sua frieza.

— Calma! Disse alterado. Atrás dele, outro mascarado surgiu.

— O que vocês querem de mim?

— Nada de mais.  E um sorriso cínico apareceu nos olhos do primeiro a aparecer.  Apenas 30 milhões de dólares.

— Vocês estão loucos! Não tenho esse dinheiro. A surpresa e o pavor contraíram suas feições.

— Mas seu marido tem até muito mais do que isso. Um olhar carregado de desprezo caiu sobre ela.

Juliana mordeu os lábios.  Seu marido era muito rico, mas ele daria essa quantia absurda para salvá-la? Não tinha certeza, porque antes de tudo, era um ferrenho homem de negócios. Ela sempre se sentira uma boneca, que ele exibia a todos como se ela fosse um troféu. Mas a vida de luxo a seduziu e ela se deixou levar pela vaidade dele.

O coração dela galopava no seu peito. Os pensamentos atropelavam-se. O que iriam fazer com ela? Roger estava na Europa tratando de negócios.  Pareceu que o homem leu seu pensamento, porque, com uma voz dura, disse saber da viagem do marido e que já tinham se comunicado com ele. E que a tinham em seu poder.

Juliana não conseguia chorar. Os olhos estavam secos pelo horror da situação em que estava. Com certeza, Roger ofereceria uma grande quantidade de dinheiro para eles, mas iria negociar até o que fosse possível. E eles aceitariam? 

Ela os encarou. 

— Para onde estão me levando? — perguntou novamente com voz trêmula.

Um dos homens respondeu que era para um lugar onde nunca a achariam. Juliana encolheu-se na poltrona.  O que eles queriam era uma quantia absurda. Será que ela valia tanto assim para Roger? 

— Se meu marido der a quantia que estão exigindo, o que farão comigo?

Os dois homens se entreolharam.  

— Aí vamos pensar o que fazer com você.

— Ela estremeceu.  Mas, de repente, resolveu jogar com eles.  Talvez sairia viva de tudo isso. Encarou ambos e, pela primeira vez, sua voz soou firme.

— Na verdade, meu casamento está por um fio.  Meu marido só pensa nos grandes negócios dele e eu sou a bela mulher que exibe para todos. Vou fazer duas perguntas: se ele pagar o resgate, vocês me deixariam em um lugar qualquer, onde eu possa me virar e sumir da vida dele, ou se ele recusar de dar essa alta quantia, eu vou com vocês.

Os dois homens se entreolharam.  Os olhos falavam mais do que qualquer palavra.

— Você está blefando!

— Não estou blefando.  Disse com voz convincente.

Horas depois, o avião pousou em uma pista precária.  Eles a conduziram para fora. Havia uma casa rústica à frente de uma floresta. 

Passaram dias ali, negociando com Roger, que era tão frio e calculista como os sequestradores. Uma senhora fazia a refeição de todos.  Juliana podia passear pelos arredores, sempre com a companhia de um deles. 

Finalmente, chegaram a um acordo com o marido, que mandaria o dinheiro para um banco fora do país. Ela perguntou o que realmente fariam com ela. Eles responderam que a deixariam em uma cidade próxima.  Na manhã em que partiriam, ela levantou muito cedo.  Estava ansiosa, que não dormira quase nada.  Ao chegar à cozinha, os três homens estavam tomando café sem máscaras. Ela parou assustada.  E gaguejou que não iria dizer a ninguém sobre suas fisionomias. Eles sorriram, iam mesmo sair do país, então não tinha importância.

Juliana soltou um suspiro de alívio.  Eram homens bonitos, não pareciam bandidos. E um deles que chamou mais a sua atenção era o de olhos incrivelmente verdes.

— Vocês nem parecem, como direi, homens capazes de praticar um crime como um seqüestro.

— E seu marido parece um homem que, para ganhar mais dinheiro, pode vender até a sua alma ao diabo.

— Mas meu marido ganha o dinheiro de forma legal, trabalhando.

— Como você está enganada! Ninguém que tem uma fortuna como a dele ganhou o dinheiro sem prejudicar ninguém.

Ela ficou calada, mas no fundo concordou com o que disseram.  O medo havia evaporado.  E, com uma voz pausada, ela disse:

— A boneca de Roger virou gente. E se vocês aceitarem, quero ir com vocês, como já tinha dito. E olhou longamente para o homem de olhos verdes.

Os homens abriram a boca espantados.  E ela completou:

— Quero recomeçar uma nova vida, em que serei dona de mim mesma e do meu destino, seja ela qual for.

Os três homens ficaram em silêncio, até que um deles disse

— Tudo bem! Até já nos acostumamos com sua companhia.

E os três levantaram e deram a mão para ela.




VIRE A FOTO - PEDRO HENRIQUE.

 




VIRE A FOTO PEDRO HENRIQUE. Os gestos sutis do vento abraçam o corpo inerme de Arthur, prendendo-o em seu íntimo, de modo que, antes de o rapaz ir à entrevista, ele passa em um brechó perto do centro comercial onde reside o escritório do Dr. Leonardo Lacerda. Quando entra no estabelecimento, vê-se defronte a uma senhora um tanto idiossincrática: cabelos cor-de-rosa, brincos de abacaxi, saia colorida e óculos no formato de morango. “Ora, ora! Olá, bonitão! O que procuras aqui? Ah, já sei. Veio pedir meu número? Não, espera: veio me pedir em casamento?” A senhora o encara com um olhar provocativo. O garoto ri. “Acho que hoje não”. “Ah, sério! Ok, é você quem perde. Tá, chega de perder tempo. Nem te achei tudo isso mesmo. O que quer?” “Você é engraçada. Bom, queria um casaco, um blazer de preferência. Hoje é um dia importante. “Dia importante, bonitão?” Ela arqueia a sobrancelha. “Agora, você me lembrou da minha avó; ela dizia que todos os dias são importantes. Sabia que a velha morreu com cento e três anos de idade? Quem morre com cento e três anos? Mas deixa isso para lá. Vamos, vamos, se não estou velha demais para me lembrar, os blazers estão aqui. Ah! Como sou mal-educada. Você havia dito que hoje é um dia importante. O que fará? O rapaz a segue pelos corredores daquele pequeno lugar. “Tenho uma entrevista de emprego com um advogado que admiro muito”. “Que coisa chata.” Arthur fica boquiaberto, não acredita no que aquela pequena senhora tão peculiar acabou de dizer, entretanto leva tudo com muita tranquilidade. “Por quê?” “Achei! Tenho estes aqui. Ah, sim. Não leve a mal: acho Direito uma coisa chata. Sou mais da música, do teatro, das artes… Gosto de cor, de vida, de alegria.” O rapaz olha os blazers, avaliando não só o tecido, mas também o que a senhora acabou de afirmar. Pega um modelo azul-marinho e o coloca, olhando-se no espelho, verificando se a peça lhe caiu bem. “Bom, de fato não é uma área na qual os profissionais darão pulos de alegria diariamente; acredito ser justamente o contrário, porém, para quem gosta, pode ser um pouco divertido. Vou ficar com este. “É, pode ser, bonitão. Vamos, vamos, vou pôr em uma sacola para você”. Já no caixa, Arthur sinaliza que não precisa de saca, pois irá com o blazer à entrevista. Ele paga a peça e se dirige à saída; entretanto, antes, olha para a senhora que está com as duas mãos formando um coração para ele. “Volte quando quiser e não ligue para mim. Sou assim mesmo. Depois que se envelhece desta forma, é difícil mudar, entende?” Arthur ri genuinamente e, com certo afago por aquela moça engraçada, retribui o coração. *** A entrevista foi um sucesso. Dr. Lacerda não pestanejou quando apreciou o currículo do rapaz. A contratação foi inexorável. Agora, Arthur, finalmente, pode ligar para a mãe e contar que trabalhará com um dos advogados mais renomados da grande São Paulo. Antes, porém, há de ceifar a rigidez que os ambientes jurídicos reivindicam. Tira sapato, gravata, desabotoa os primeiros botões da camisa e retira o blazer e, quando o faz, percebe uma imagem no chão. Deve ter caído do casaco — pensa. Não demora para seus dedos tocarem a imagem, dando a ela a vida necessária para adentrar sua íris e despertar curiosidade. Reside na tela uma linda moça de mãos para o alto, sorridente e espontânea, no Cristo Redentor. Seu olhar parece um singelo sussurro que convoca Arthur a indagar-se: “Quem é?” *** Mal chegou ao escritório, Dr. Lacerda começa a pedir ao novo funcionário que leia os processos, dê início à escrita dos documentos e responda às toneladas de e-mails que parecem aumentar mais e mais. Todavia, há um certo olhar, sorriso e rosto que não se obliteraram da memória do advogado. Quem é aquela moça? Qual é seu nome? Seu cheiro? Seus gostos? Quando a tarde chega, Arthur levanta-se da sua mesa e segue rumo ao brechó. Se há alguém que pode ter alguma informação sobre a foto, esse alguém é aquela senhora louca. Assim que entra, ele ouve um grito espontâneo e logo em seguida: “Olá, bonitão! Sabia que você voltaria. Agora sim: veio me pedir em casamento?” Arthur leva tudo com muito humor. “Outra vez: hoje não. Na verdade, vim aqui porque queria saber a quem pertence esta foto”. A senhora para, respira e repousa os olhos sutilmente sobre a imagem. Investiga o rosto da jovem, seus singelos e pulcros traços, então, como quem viu um anjo e não vislumbra em si estrutura para subjugar a emoção, ela concede vênia a uma lágrima que caminha por sua bochecha. “É uma bela moça, não acha?” Afirma, secando o rosto. “Você sabe algo sobre ela? Achei esta foto no blazer que comprei ontem.” “Ah, sim, sim. Bom, não sei. Nunca vi essa moça”. “Tem certeza?” Ela o encara por alguns segundos, completamente séria, destoante daquela senhora afável e sorridente que ele conheceu. “Diga-me, garoto: o que tem nela que te seduz tanto?” “Não, não é isso, eu só queria saber quem é?” “Sei. Então, você está aqui só por curiosidade, bonitão?” Arthur olha para os lados pensando em correr para o mais longe que conseguir dali, mas de repente descobre que não sabe nada sobre aquela moça, então pergunta: “Qual é seu nome?” “Margarida e o seu?” “Arthur”. “Está aí um bom nome.” “Já que você não sabe nada sobre ela, vou deixá-la em paz; entretanto, vou te passar meu número. Se você se recordar de algo, qualquer informação que for, me manda mensagem contando; preciso saber mais sobre ela. Dito isso, o rapaz escreve seu contato, coloca sobre o balcão e vai embora. Margarida fica lá, boiando em seus devaneios, se perguntando o que foi que conheceu. *** Chegando à casa, o rapaz tira o paletó, afrouxa a gravata, prepara algo para comer e vai analisar processos em seu escritório. A noite há muito colocou seu manto sobre a Terra e os grilos já estão ensaiando sua ópera, no entanto, mesmo que tente, Arthur não consegue apagar a moça de sua cabeça. É como uma sentença perene e peremptória que os deuses lançaram sobre ele: você será condenado a ter em seus pensamentos a moça dos olhos bonitos, os quais sussurram seu nome nas madrugadas, e você será obrigado a descer as escadas desse olhar e lá, lá no fundo, encontrarás as respostas que tanto buscas. E, quando a elucubração dorme, ele tem uma epifania. Pega a foto, analisa-a novamente, vira-a no verso e lê: Rio de Janeiro, treze de julho de mil novecentos e cinquenta e sete. Ao observar, outra vez, a moça, sua mente é levada à Margarida. Olhos, sorriso, a lágrima escorrendo pela bochecha dela ao se deparar defronte à imagem. Ele averigua a roupa da garota. Tudo tão peculiar: muitas pulseiras, brincos grandes e extravagantes, um estilo meio hippie. Uma risada sai de sua boca. No dia seguinte, antes de submergir ao labor diário, entrará no brechó com um ramo de rosas e uma aliança.

O BILHETE - Adelaide Dittmers

 



O BILHETE

Adelaide Dittmers O sábado amanheceu frio e chuvoso. Carmen anda com cuidado pela calçada irregular e escorregadia. Chega em frente a um brechó, que ela frequenta há muito tempo. Fecha o guarda-chuva colorido, que resguarda da garoa. E entra. Começa a vasculhar algo interessante nas araras cheias de roupas de todo tipo. Um casaco bege chama a sua atenção. Desliza a mão por ele e se encanta com a maciez do tecido. Tira-o do cabide e se surpreende pelo perfume suave que emana da peça. Veste-o e se olha no espelho. Está perfeito. O preço é inacreditável para um artigo tão especial. Minutos depois, sai feliz pela boa compra. Com passos rápidos, vai pela rua, desviando-se das poças de água, que se formam no calçamento mal feito. Depois de um bom tempo, serpenteando pelo bairro, chega à sua casa. Entra rapidamente, soltando os sapatos molhados no pequeno hall. E, com satisfação, sente o abraço quente e aconchegante de seu lar. Tira da sacola o grande pacote e o veste novamente. Enfia as mãos nos bolsos e em um deles há um papel amassado, que ela puxa e lê:”Por favor, não me persiga mais. Aceite minha decisão de nos separarmos. A sua revolta pode levá-lo a algo de que você se arrependa tarde demais. Nosso casamento estava em frangalhos. Você nunca enxergou que seu ciúme doentio acabou com nosso relacionamento. Estou cansada de sempre viver sobressaltada com o que você possa fazer. Estava endereçado para Fausto e a assinatura trêmula era de Lina. Por que ela não enviara aquele bilhete? Há quanto tempo teria sido escrito e deixado no brechó? Logo ela tinha que gostar desse casaco. O seu faro de investigadora policial lhe dizia que não podia ignorar o que estava escrito. Tinha que voltar ao brechó e tentar saber quem o deixou lá. Na manhã seguinte, entrou na loja e, com passos decididos, dirigiu-se à dona, perguntando se ela lembrava quem entregara o casaco. A mulher não escondeu o espanto e, com uma voz nervosa, perguntou por que ela queria saber. Carmen esclareceu que havia achado um bilhete muito estranho em um dos bolsos do casaco e que lhe parecia que a dona estava em perigo, confessando que era investigadora policial. A mulher então falou que fora uma cliente, que tanto trazia roupas como comprava muitas peças da loja. O nome dela era Carolina e disse ter o endereço dela. Em posse do endereço, Carmen agradeceu à mulher e saiu. O lugar era umas quatro quadras dali e ela percorreu esse percurso rapidamente. Parou em frente ao número indicado. Era uma bonita casa térrea, com um jardim bem cuidado, onde flores coloridas enchiam o lugar de vida. Tocou a campainha. Uma senhora atendeu e a investigadora perguntou se Carolina estava em casa. A mulher ficou paralisada. — Quem é você? Perguntou rispidamente. — Sou uma amiga. Faz muito tempo que não nos vemos. Mentiu. — Ela não está. Sofreu um acidente e está no hospital. — Muito grave? — Sim, mas está fora de perigo. — Meu Deus! Quero vê-la! Qual hospital, senhora? — São José. Carmen agradeceu e chamou um táxi. Meia hora estava lá. Mostrou a carteira de policial sendo liberada para ver Carolina. Entrou no quarto, fixando seu olhar na mulher, que estava recostada na cama. Não devia ter mais do que quarenta anos e era muito bonita, apesar dos hematomas que tinha no rosto. Ela se apresentou e Lina estremeceu. — Olá, Carolina! Quero saber como você se feriu. — Um, um assalto. Gaguejou. — Não minta para mim. Suponho que você foi ameaçada. — Como você descobriu? — Por um bilhete que você esqueceu no casaco que comprei no brechó. Lina começou a chorar. Não queria que ninguém soubesse, porque iria piorar a situação. Carmen pacientemente lhe aconselhou a não ter tanto medo. Que ela precisava ser protegida. Ela então confessou que o ex-marido era muito estourado e ciumento e cismava com qualquer um que se aproximasse dela e, quando ela quis a separação, ele ficou furioso. Ela escreveu aquele bilhete, mas não teve coragem de enviá-lo a ele. Preferiu sair de casa, aproveitando uma viagem dele, e ir para a casa dos pais, entregando o caso a um advogado da família. Quando ele voltou, telefonou dizendo que finalmente aceitava a separação. Era uma noite escura quando se encontraram para conversarem sobre isso. Ele aproveitou a escuridão e a espancou no jardim da casa dos pais, que, ouvindo seus gritos, saíram desesperados. E, antes de ir embora, ameaçou meus pais caso levassem o caso adiante. Carmen aconselhou-a a ficar alerta e nunca sair sozinha, e que ele iria ser preso. E, curiosa, perguntou por que havia vendido o casaco, e ela lhe disse que fora um presente dele e ela não queria nada que dele viesse. O bilhete iria ser entregue a uma amiga em comum para chegar a ele, mas na última hora não quis envolvê-la nessa história e o esqueceu no casaco.

A Última Página - Hirtis Lazarin

 


A Última Página   

Hirtis Lazarin                                                    


Joana acorda com a visão turva, como se uma película de vidro fosco estivesse entre ela e a realidade. Esfregou as pálpebras, esperando que as formas ao seu redor ganhassem nitidez.

A névoa dos seus olhos finalmente se dissipou, mas o alívio durou pouco. Em vez das paredes familiares do seu quarto, o que apareceram foram fileiras apertadas de poltronas e o brilho das luzes de um avião.

Assustadíssima, ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente, tentando se localizar. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.

O zumbido constante das turbinas parecia vir de dentro da sua própria cabeça, uma nota única e persistente que a impedia de organizar os pensamentos; sentiu as mãos frias. Na bandeja à frente, um copo plástico com sobras de água e um guardanapo sujo.

Para onde estou indo?

 Ela não lembrava de ter embarcado, nem para onde estava indo. Tentou se mexer e seu braço esbarrou em algo sólido. Ao olhar para o lado, seu coração falhou numa batida e o ar lhe faltou. Um homem de ombros largos e expressão estranha ocupava o assento ao seu lado. Ele fechou o jornal que lia e a encarou. Tinha olhos cansados e uma expressão de quem já cruzara o mundo vezes demais.

Percebendo o estado confuso da mulher…” Estamos sobrevoando o oceano. Vamos fazer uma escala em Doha, Qatar”.

A fala do homem não trouxe o alívio que ela esperava. Ao contrário, as palavras “Doha” e “Qatar” ecoaram como um idioma estrangeiro. Ela nunca havia planejado sair do país, tinha medo de avião.

— Qatar? A voz dela saiu pequena, sem força, quase um sussurro sufocado pelo ruído da pressurização.

— Sim. Escala em Doha antes do destino final. O voo é longo, melhor tentar dormir um pouco.

Sem esperar uma resposta, o homem virou-se pro outro lado, abriu novamente o jornal, agindo como se não tivesse acabado de dizer algo   aterrorizante.

A cabeça de Joana entra em parafuso. Vira-se para o estranho e, antes de falar qualquer coisa, seus olhos recaem sobre a primeira página do jornal.  O papel está levemente amarelado nas bordas e o cheiro de tinta virou cheiro de coisa velha guardada. No topo da página, em letras garrafais, a data salta aos olhos: 15 de maio de 2006.  O jornal é de vinte anos atrás. As notícias falam de um mundo em que ela já viveu, de políticos que já se aposentaram e de tecnologias que hoje parecem pré-históricas.

— “Esse jornal…” — ela balbucia, apontando o dedo trêmulo. — Por que o senhor está lendo algo de duas décadas atrás? Ele finge não ouvir a pergunta.

Com sintomas de vertigem, Joana gira bruscamente o corpo em direção à pequena janela oval, buscando desesperadamente o seu próprio reflexo no vidro escuro. O rosto que a encarava de volta, emoldurado pelo azul profundo do oceano lá fora, não era o seu: a imagem mostrava uma mulher muito mais velha, com marcas de expressão que ela nunca tivera e um olhar de cansaço. — “Meus cabelos… Por que estão brancos”? 

Precisava de alguém que lhe dissesse que aquilo era um delírio. Procurou a bolsa de mão e não a encontrou.  Livrou-se do cinto de segurança e não conseguiu se levantar. As pernas pesavam como chumbo, desacostumadas com o próprio corpo. Apoiou-se nos braços da cadeira pra ganhar impulso e o homem ao lado nem sequer ergueu os olhos do jornal. 

Ao ficar em pé, a cabine rodopiou; olhou pro corredor e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ronco abafado das turbinas que os levavam a Doha, num tempo que claramente não era mais o seu. Sentiu-se só, dentro de um tubo de metal suspenso sobre o oceano, presa entre um homem que lia o passado e um exército de sombras que não pertenciam ao presente.

O homem olhou-a com reprovação e fechou o jornal tão bruscamente — os ouvidos dela estavam muito sensíveis — que o estalo do papel velho ecoou na cabine. Joana franziu a testa, escondeu o som com as mãos e gemeu. Ele não se apressou; dobrou a folha amarelada e a colocou sobre o colo; as mãos eram tão grandes e enrugadas que até cobriam a manchete de vinte anos atrás. 

“Sente-se, Bequinha” — um apelido que ela não ouvia há anos e que confundiu sua memória esquecida. — “O oceano é profundo demais pra quem fica em pé antes da hora. Doha é apenas o começo da sua… sua devolução”.

Antes que ela gritasse, suas forças se foram; desabou na poltrona que não era tão macia assim. O choro chegou de forma convulsiva; um soluço violento sacudia seus ombros e a deixava sem ar. Ela chorava pela lembrança da infância invocada naquele apelido e pelo terror de estar à mercê daquele desconhecido que parecia indiferente ao seu sofrimento. 

Sem dizer uma única palavra, ele tira algo do bolso e estende a mão direita em sua direção. Os dedos compridos seguram firme um ursinho de pelúcia com as orelhas descosturadas; era o seu brinquedo favorito, aquele que ela acreditava ter perdido num incêndio há trinta anos.

“Você o esqueceu no jardim, Bequinha”. — A voz, agora, era suave como uma canção de ninar distorcida. — “Não se preocupe, em Doha você poderá segurá-lo novamente.”

O toque de pelúcia, áspero em seus dedos, disparou uma última centelha de memória; o avião, subitamente, mergulhou numa turbulência violenta e, aos poucos, já planava leve feito uma pena. As luzes da cabine piscaram e o azul profundo da janela foi substituído por um branco-calmante; o ronco das turbinas foi se transformando num som rítmico e eletrônico: bip… bip… bip… A voz fraquinha da aeromoça, vestida de branco, não falava de escalas ou destinos; sussurrava um adeus carregado de choro. — “Ela está indo”. 

 “Será que já chegamos a Doha”? — Ela ainda conseguiu perguntar. — O jornal velho, o corpo cansado, o brinquedo perdido foram desaparecendo…

O homem, que a acompanhava há mais de um ano, levantou-se, fez uma prece e, delicadamente, alisou seus cabelos. 

O registro no monitor, que controla os batimentos cardíacos, tornou-se uma linha contínua, anunciando que Joana, finalmente, havia chegado ao seu destino.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

UMA AVENTURA NA SERRA DO MAR - Henrique Schnaider





UMA AVENTURA NA SERRA DO MAR
Henrique Schnaider


Certo dia, combinei com mais três amigos de infância, um deles cego, de sairmos bem cedinho para fazer uma trilha na Floresta da Serra do Mar. Sabíamos que não seria fácil, mas, ao mesmo tempo, seria maravilhoso ver tudo o que os nossos olhos poderiam alcançar.

Logo cedo, saímos ansiosos para descobrir o que teríamos pela frente. Com certeza, seria algo deslumbrante e emocionante, pois havíamos pesquisado tudo sobre o percurso e sabíamos que valeria a pena todo o esforço que iríamos fazer.

E lá fomos nós, às seis horas de uma manhã fria, o que tornaria a caminhada ainda mais difícil. Logo no início da aventura, demos de cara com uma floresta rica, de enormes árvores e muita cantoria dos pássaros que ali habitavam, formando um coro maravilhoso.

O trecho era íngreme, mas enfrentamos as dificuldades com coragem, dando todo apoio ao nosso colega cego.

A mata foi se estreitando e a trilha ficando cada vez mais difícil. De repente, surgiu diante de nós, deslumbrante, uma cachoeira forte e poderosa.

Emocionados, achamos que já tinha valido todo o esforço feito até ali, diante da visão inesquecível com que nos deparamos.

Ficamos ali por um bom tempo, apreciando aquela beleza da natureza e descrevendo detalhadamente ao nosso amigo Tiago toda aquela maravilha, que explodia em força e beleza à nossa frente. O som da cachoeira era como o rugido de uma fera poderosa.

Falamos para ele, com toda a emoção, sobre aquela visão esplendorosa, para que Tiago pudesse sentir intensamente a força da cachoeira, uma verdadeira obra de Deus. Tiago chorou de emoção e todos nós acabamos chorando junto.

Resolvemos acampar ali e passar a noite diante daquela fera da natureza, a uma distância segura, para não haver perigo, enquanto permanecíamos deslumbrados.

Aquele momento da nossa caminhada foi, para todos nós, inclusive para o nosso amigo Tiago, algo que jamais esqueceríamos. Sentíamos que todo o esforço para chegar até ali tinha valido a pena.

Passamos a noite acampados, mas, com aquele enorme rugido da natureza, mal conseguimos dormir. Ainda assim, achamos que tinha valido a pena passar a noite naquele lugar.

No dia seguinte, iniciamos a volta para casa, ansiosos para contar às nossas famílias a emoção que havíamos vivido naquele lugar e tudo o que sentimos diante da inesquecível cachoeira na Serra do Mar, verdadeira obra com que Deus nos presenteou.

 

ACHADO NO BRECHÓ - Henrique Schnaider

 






ACHADO NO BRECHÓ
Henrique Schnaider


Rui era uma pessoa tranquila e, por isso, levava uma vida típica de uma família de classe média. Tinha a companhia da esposa, Natalia, e ambos aproveitavam essa tranquilidade: saíam sempre para desfrutar de todas as oportunidades que a cidade de São Paulo oferecia.

Enquanto Natalia ia diariamente ao clube social do qual eram sócios, para aulas com professores de educação física, Rui, já aposentado, tinha todo o tempo disponível e, como tinha certa preguiça de acompanhar a esposa ao clube, saía logo cedo para uma longa caminhada, aproveitando para, no caminho, procurar novidades.

Durante o percurso, ia parando nas lojas, principalmente naquelas do tipo brechó, pois Rui gostava de colecionar documentos antigos. Assim, parava nas lojas que tinham esse tipo de coisa, que ele apreciava, apesar das queixas da esposa sobre a “bagunça” que acabava deixando em casa, já que sua coleção parecia não ter fim.

O dono do brechó já conhecia esse hábito de Rui e sempre telefonava para ele, pedindo que viesse à loja para ver as novidades que poderia adquirir.

Rui começou a olhar detalhadamente tudo o que havia na loja, coisas novas que ainda não tinha visto. O nosso herói se deliciava com tudo o que estava diante dele. Havia inúmeros documentos antigos, verdadeiros tesouros à espera de serem explorados.

De repente, arregalou os olhos ao ver uma caixa toda trabalhada, com detalhes dourados, pela qual se encantou imediatamente. O senhor Viriato, porém, olhou sorridente para Rui e lhe disse, marotamente, que ele só poderia ver o que aquela caixa escondia se lhe pagasse antecipadamente a quantia de dois mil reais.

Rui ficou numa dúvida atroz: pagar aquela quantia, sem saber o que havia dentro, parecia um risco enorme. E se não houvesse nada de especial e ele gastasse seu dinheiro à toa, como num jogo de cassino?

Mas a curiosidade de Rui era tão grande que chegava a lhe dar comichão. Ele não resistiu e fez sua proposta:

— Pago mil e quinhentos reais.

E aguardou, ansioso, a resposta do proprietário da loja.

O senhor Viriato fez cara de quem pensava seriamente na proposta e passou uns cinco minutos criando um suspense enorme. Finalmente, disse ao cliente ansioso que fechariam o negócio por mil e oitocentos reais.

Rui não resistiu e aceitou a compra da caixa. Entregou o cartão de crédito ao senhor Viriato, pagou pela peça e, explodindo de emoção, apoderou-se do tesouro conquistado, como se fosse o maior achado de sua vida.

Não perdeu tempo. Abriu a desejada caixa, curioso para ver o que havia dentro e se tinha valido a pena gastar tanto dinheiro para satisfazer seu desejo.

Dentro havia, já embolorado pelo tempo, um documento escrito à mão, que devia ter muitos anos. Rui, emocionado, começou a ler o que estava escrito naquele documento histórico.

Entrou em estado de choque ao perceber que o documento dava detalhes de um verdadeiro tesouro enterrado. Descrevia uma grande fortuna: dinheiro antigo, joias e barras de ouro.

Qual não foi a surpresa de Rui ao ver que o documento estava assinado por seu avô. Nele, o avô explicava onde o tesouro estava enterrado e, para espanto ainda maior, o local era o quintal da casa onde Rui morava, imóvel que havia herdado justamente dele.

Rui voltou para casa e, como o avô havia descrito com precisão o lugar onde enterrara a caixa com toda aquela fortuna, não foi difícil encontrá-la.

Com certeza, depois desse acontecimento, a vida do nosso herói mudou completamente. Rui aproveitou toda aquela fortuna para viver, ao lado da esposa, uma vida repleta de alegrias.

 

Papel e Alma - Hirtis Lazarin

 



Papel e Alma  

Hirtis Lazarin

 

 "O que você faria se descobrisse que, na pressa de mudar de vida, jogou toda a sua história no lixo?"       

 

O eco dos meus passos no assoalho vazio era o sinal mais claro de que eu já não pertencia mais àquele lugar.  Entre pilhas de caixas de papelão e o cheiro acre de fita adesiva, eu fazia uma triagem impiedosa. O que antes era essencial, agora parecia apenas peso. Joguei fora papéis amarelados, utensílios que nunca funcionaram e recordações que, pelo caminho, perderam o sentido. Cada saco de lixo que eu levava para fora era um quilo a menos na bagagem emocional que eu levaria pra nova cidade.

 

As últimas coisas a serem descartadas estavam no meu quarto:  algumas peças de roupas fora de moda — acumulei vestidos desde quando era solteira — e uma mala velha de couro, com o zíper quebrado e as alças esgarçadas. Ela já havia percorrido muitos quilômetros comigo, mas estava cansada demais para essa nova jornada. Ao descartá-la senti um misto de ingratidão e alívio. Algumas coisas não foram feitas pra serem consertadas, apenas deixadas pra trás. Fechei a última caixa com um golpe seco de fita, selando, não apenas meus pertences pra descarte, mas um capítulo extenso da vida que eu levara ali.

 

Eu não estava apenas mudando de cidade, estava tentando salvar um projeto de vida. Com uma filha de dois anos, as decisões ganham um peso diferente.  Olhava pra ela enfeitiçada com aquela bagunça e me enchia de esperança. Eu voltava pra cidade onde a família do meu marido fincou raízes, esperando que o solo de lá fosse mais fértil do que o daqui. 

 

O som do caminhão de mudança, manobrando na calçada, interrompeu a expectativa  da manhã. Ver aquele baú enorme engolir nossos móveis, nossas caixas e o berço desmontado da minha filha era como ver a nossa história sendo compactada para caber em um espaço de metal. Cada móvel que os carregadores levavam deixava um quadrado de poeira e uma marca no chão, revelando o quanto tínhamos ocupado aquele lugar.

 

Enquanto o caminhão se enchia, eu olhava para a mala velha, agora, cercada pelo lixo que eu decidira não levar e ela parecia pequena e patética perto da imensidão do caminhão.. Com a pequena no colo, sentindo o peso do seu corpo adormecido e o cheiro suave de bebê,  observei a última porta do baú ser trancada com um cadeado pesado. Tudo o que restava do nosso passado estava agora sobre rodas, pronto para percorrer os quilômetros que nos separavam da cidade dos familiares do meu marido.

 

Cada quilômetro percorrido parecia filtrar o que restava do meu casamento e da minha identidade. Eu estava me desfazendo da versão de mim que não tinha dado certo. Com o balanço do carro e o sono tranquilo da minha filha na cadeirinha ao lado, o aperto no peito foi, aos poucos, sendo substituído por pensamentos positivos “Tudo vai dar certo”.

 

A adaptação à nova cidade aconteceu com uma fluidez que eu sequer ousava esperar. Em poucos meses, as ruas antes estranhas tornaram-se familiares e o sotaque local já não me soava esquisito. A família do meu marido me acolheu com generosidade e a cada café tomado na varanda da nossa casa confirmava que a mudança havia sido a escolha certa. Eu estava tomada  por uma serenidade que me fazia acreditar que a vida, enfim, estava em ordem.

 

A poeira da mudança já tinha baixado e a casa nova exalava o cheiro do lar organizado; e Helena brincava feliz no quintal.  Faltava apenas organizar nossos  livros e documentos nas estantes do escritório que acabara de ser montado. Eu buscava uma pasta plástica onde estavam guardadas as fotos da minha infância e adolescência e o álbum de casamento dos meus pais. Muitas fotos de uma época em que os momentos mais importantes não ficavam armazenados num celular que nem existia.  

 

A cada caixa aberta,  meu coração acelerava mais. No instante em que meus dedos tocaram o fundo liso e vazio da última caixa, um soluço rasgado escapou da minha garganta. “As fotos…” eu tentei dizer, mas a voz sumia no peito apertado. Minha sogra, confusa e apavorada,  deu um passo atrás,  e eu já estava de joelhos no chão, as mãos enterradas no rosto, enquanto as lágrimas inundavam tudo. 

 

Era um choro de pânico, um desespero. Foi então que a memória me atingiu com um soco e, num flash cruel, surgiu à minha frente, a imagem daquela mala rasgada, com o zíper quebrado, desprezada na calçada, sob sol forte,  esperando pelo caminhão do lixo.   Revivi a cena de mim mesma, exausta e decidida, abandonando-a. Eu não tinha descartado só papel e tinta, mas os únicos pedaços de papel que provavam quem eu era, num passado distante.

 

O suor frio escorreu pela minha nuca  ao entender que, na minha pressa desesperada de me livrar do velho pra abraçar o novo, eu não tinha descartado só um objeto quebrado; eu tinha jogado no lixo o rosto da minha mãe jovem, o meu sorriso de noiva e as únicas provas palpáveis de quem eu era antes de ser esposa e mãe.

 

O recomeço, que estava tão bom, desfolhou-se como  as rosas amarelecidas do vaso.  Senti  um vazio na minha alma. Os dias que se seguiram foram nublados pelo arrependimento: “Por que eu não abri a mala”? Como  não percebi que ela estava pesada”? 

 

Os dias que se seguiram foram marcados por um silêncio pesado, onde cada canto da casa —- tão limpa e organizada —- parecia gritar a minha imprudência. Eu caminhava pelos cômodos assombrada pela imagem daquela calçada onde deixei meu passado entregue à sorte. O brilho da mudança apagou-se; a alegria de decorar cada cantinho  deu lugar a um nó constante na garganta, pois os rostos que deveriam habitar os porta-retratos estavam perdidos. Cada vez que o caminhão de lixo passava, o barulho do motor possante anunciava a chegada do fantasma da mala correndo pela minha casa. Eu me encolhia no sofá, mergulhada num luto solitário.

 

Mas a paciência do meu marido era o único sol que entrava pelas janelas da casa nova. Ele não me cobrou nem me julgou. Apenas me envolvia em abraços silenciosos, enquanto eu chorava o luto da mala de couro. Ele não descansava e, à noite, depois do jantar,  mergulhava em grupos de moradores da nossa antiga cidade, postando fotos da nossa casa e perguntando se alguém tinha visto aquela mala ou se conhecia o pessoal da limpeza. Ele, na verdade, buscava um milagre digital, um rastro que pudesse trazer de volta os papéis que, num momento de correria, eu entreguei ao esquecimento.

 

Essa busca não foi um estalo de sorte, mas uma verdadeira jornada de persistência que se arrastou por semanas e semanas de incerteza. Eu já tinha perdido as esperanças, mas ele se transformou num detetive digital, atravessando noites em claro. Mergulhou em grupos de “Bota-fora”, páginas de achados e perdidos e até em comunidades de bairros vizinhos. As mensagens se perdiam entre anúncios de móveis usados e reclamações cotidianas, mas ele não desistia. Cada notificação que chegava terminava com  “Que pena, eu não vi” ou a pista era falsa. Mas ele não desistia…

 

 A resposta veio de um perfil discreto, sem foto de capa, mas com uma mensagem que me fez perder o fôlego:

 

                   "Eu não podia deixar que esses olhares se perdessem no lixo”.

 

O senhor que resgatou a mala não era um passante qualquer; era o Seu Arnaldo, um fotógrafo que passou a vida capturando instantes, mas que nunca encontrou o palco das grandes galerias. Para ele, as fotos não eram apenas papel velho; eram composições, memórias vivas que ele considerava um tesouro. 

 

Na verdade, quando passou na rua, se interessou pela mala; precisava dela pra guardar muitos documentos que há tempos estavam esparramados pela casa.  

 

Enquanto eu via a mala como um objeto estragado, ele via-a como um objeto útil. E, ao abrí-la, descobriu um museu particular. Saber que minha história passou meses e meses sendo velada por alguém que amava a fotografia, trouxe-me tanta gratidão que nem cabia dentro de mim.

 

O nosso encontro com o Seu Arnaldo não aconteceu numa calçada fria, mas sob as luzes de uma pequena galeria improvisada, onde o cheiro de papel antigo misturava-se ao cheiro de café forte. Quando atravessei a porta, meu coração tropeçou: ali entre molduras de madeira conservadas e registros em preto e branco que o fotógrafo guardara por décadas, estavam os meus próprios fragmentos. O bigode espesso do meu pai, o rosto jovem da minha mãe, o momento em que entrei na igreja,  meu bouquet de noiva…  não eram papel e tinta descartados, mas protagonistas de uma exposição sobre a perspectiva da memória. Os visitantes é que determinariam a duração do evento.

 

Ao conhecer o homem responsável pelo resgate, vi em seus olhos o brilho do fotógrafo que o destino escolheu pra ser o guardião das minhas jóias. É isso mesmo…  Minhas jóias… Ele resgatou  meus rubis e diamantes.. 

 

Ao final da noite, antes de deixarmos o espaço, ele  prometeu nos fazer uma visita e despachar as fotos, organizadas na cronologia do tempo.

 

Caminhei  na calçada até onde estava  o carro e senti-me inteira outra vez. Olhar para aquelas fotos na parede, resgatadas  pela sensibilidade de um estranho me fez sentir inteira outra vez.

 

Finalmente as fotos estavam em minhas mãos. Retirei do envelope de seda a primeira delas: o registro do casamento da minha mãe, a mesma imagem que Seu Arnaldo havia destacado na exposição. Ao deslizar o papel antigo pra dentro do porta-retrato que reservei para o aparador da sala — foi inacreditável— encaixe perfeito. Olhei para o sorriso dela e depois para o meu marido e minha filha que brincavam no jardim, visíveis pela janela. Depois de colocar o retrato no devido lugar, respirei profundamente: tinha certeza de que o fantasma da mala deixaria de correr dentro de mim. 

 

LARISSA, A INTROMETIDA - Henrique Schnaider

  LARISSA, A INTROMETIDA Henrique Schnaider Larissa era uma menina muito curiosa; era tão curiosa que ouvia cores e tinha certeza de que ouv...