O Garoto que Enxergava pelas Frestas
HIRTIS
Alguns garotos brincam no quintal. Outros encontram
pistas em lugares onde ninguém pensaria em procurar. Ele era assim — sempre
atento, sempre curioso. E foi por isso que percebeu algo estranho antes de todo
mundo. O grupo de viagem da escola estava eufórico: era a primeira vez que
viajavam pro exterior. Enquanto alguns garotos tentavam captar sinal pra postar
uma story, ou trocavam fotos e mensagens pelo WhatsApp, Pedro não
participava. Tinha o celular guardado na mochila e observava o comportamento
irritadiço, agastado do motorista do transfer que os levava do aeroporto
ao hotel em Roma.... Havia algo estranho ali.
A
primeira coisa estranha que Pedro notou foi o bloqueio de
saída: o motorista acionou a trava de segurança infantil nas portas traseiras,
assim que todos entram, algo incomum para um transfer de adolescentes.
Sentado
logo atrás do banco do motorista, Pedro não se descuida e mantém os olhos fixos
na sua nuca. O homem está inquieto, incomodado e não pára de se ajeitar no
banco. As mãos grandes e apertadas no volante de couro revelam nós em
seus dedos compridos e grossos. É um homem forte.
Ele finge ignorar as piadas e a barulheira
dos garotos, mas Pedro percebe que ele presta atenção em tudo.
Constantemente ajusta o retrovisor.
O
volume do rádio estava zerado, mas o menino podia ver a luz do visor oscilando,
conforme alguém falava do outro lado. Ele não respondia, mas assentia com a
cabeça como se estivesse recebendo ordens que os garotos não deviam ouvir.
Apesar do trânsito fluir normalmente, ele sai da
via principal e entra em ruelas estreitas e desertas com os olhos cravados no
retrovisor pra ver se algum carro os seguia. Quando questionado, mal
humorado, responde em italiano.
Mas o sangue de Pedro gelou quando a tela do
celular dele, jogado no console central, brilhou. Pedro se levantou, deu dois
passos à frente como se estivesse se espreguiçando e esticou o pescoço como um
avestruz em alerta. Conseguiu ver na tela a foto do colégio onde eles estudam e
uma única palavra: “Presi”.
Nesse momento, uma criança surge do nada e
atravessa a rua bem na frente do ônibus. O motorista pisa no freio com tudo e
os pneus cantam no asfalto. Lá dentro, o impacto foi imediato: a molecada
é arremessada pra frente num bolo só; celulares e mochilas voam. A
meninada abriu um berreiro comprido. Imagina o choque de quem pensa que a
vida acabaria aí. Mas, como eram adolescentes, o susto durou menos que a
freada e logo veio o primeiro grito: “Ei motorista, quer matar a gente”? O gelo
foi quebrado e o ônibus explodiu em gargalhadas, zoação e gente se empurrando
de volta aos bancos como se nada tivesse acontecido.
Algo
chama a atenção do garoto: na confusão, o paletó
do motorista se movimenta e Pedro vê o brilho metálico de uma arma presa
firmemente entre o cinto e o cós da sua calça.
E
cada vez que o motorista fazia uma curva mais brusca ou se inclinava para
conferir o retrovisor, o paletó se abria e mostrava o cabo da arma. O
motorista, desconfortável, ajusta o objeto o tempo todo como se estivesse
pronto para sacá-lo a qualquer segundo, algo totalmente incompatível com um
simples guia de excursão escolar.
Reinava dentro do ônibus um contraste brutal: de um
lado, seus amigos dividiam pacotes de biscoito, trocavam fones de ouvido,
batucavam no banco de trás acompanhando uma música que tocava em algum
celular; do outro lado, o perigo da morte escondida no avesso do
paletó do motorista.
Pedro não disse uma única palavra, engoliu em seco,
sentindo o gosto metálico do medo na boca; encolheu-se no banco com a mochila
agarrada ao peito como um escudo improvisado. Tenta desviar o olhar para
não ser descoberto, mas seus olhos voltam magneticamente para aquele volume
rígido sob o avesso do paletó; a percepção de que todos ali estão em perigo
iminente cria um nó insuportável na sua garganta, uma náusea súbita o domina,
misturando o cheiro de diesel do ônibus com o terror paralisante de estar
preso em uma armadilha em movimento.
que os aguardavam no hotel — “O motorista do ônibus
está armado. Socorro!” —Torcia para que o sinal de internet fosse mais rápido
que qualquer movimento estranho Com as mãos tremendo por baixo da mochila, ele
desbloqueia o celular. Digita rápido, quase sem olhar pra tela, uma mensagem
enviada ao grupo de monitores do motorista.
Enquanto os adolescentes, apinhados nas
janelas do lado direito do ônibus, apontam para o Coliseu, a mensagem de Pedro
disparou um alerta imediato no grupo de monitores. Em contato direto com a Polizia di Stato, orientaram Pedro: 'Fique
calmo. Não olhe para ele. Falta pouco”.
Quando
o ônibus finalmente manobrou na frente do hotel, a cena parecia saída de um
filme. Antes mesmo que o motorista percebesse o que estava acontecendo, três
viaturas discretas cercaram o coletivo. Policiais à paisana, que já aguardavam
na calçada fingindo ser turistas, entraram com armas em punho e cercaram a
cabine com uma precisão cirúrgica. — “Mani in alto”! — a ordem era firme. O
motorista foi imobilizado e algemado, com cara de quem não sabia o que estava
acontecendo.
O
pânico foi geral. Os estudantes que, segundos antes, estavam brincando,
mergulharam entre os bancos. O som da batucada deu lugar a um silêncio
aterrorizante. Ninguém entendia por que a polícia italiana fazia ali. O
ônibus virou uma bolha de tensão e de rostos emoldurados com pontos de
interrogação.
Mas
o clima mudou instantaneamente, assim que um dos monitores subiu no veículo e
explicou, ainda ofegante: — 'Gente, está tudo bem... O Pedro viu que o
motorista estava armado e avisou a gente pelo WhatsApp.
O
medo evaporou como se nunca tivesse existido — 'NÃO ACREDITO! O CARA TAVA
ARMADO?!' — gritou um, já com o celular na mão gravando a cena. — 'PEDRO, TU É
UM MITO!' — berrou outro, puxando uma salva de palmas.
Todos
vibravam com a prisão como se estivessem participando de um filme de ação; o
que até então era um trauma em potencial virou o evento épico da viagem.
Entre gritos de comemoração e assobios, desceram do ônibus, não como vítimas,
mas como protagonistas de uma história que renderia meses de postagens.
A
adrenalina estava no teto. O medo tinha virado euforia pura. —
“Mano, olha o tamanho dessa metralhadora! Deixa eu tirar uma foto aqui!”! —
gritou um dos meninos, já esticando o braço com o celular em modo selfie na
direção de um dos agentes da Polizia di Stato. Mas a recepção não foi a que
eles esperavam. Os policiais italianos, com seus uniformes impecáveis e rostos
de pedra, nem piscaram. Um deles apenas levantou a palma da mão, um gesto seco
e autoritário que paralisou o grupo na hora.
—”'No foto” — ordenou o agente, com uma voz grossa que não
aceitava réplica.
A
molecada que já imaginava o post perfeito com a legenda “Sobrevivi a um
motorista armado em Roma”, deu um passo atrás, sem jeito. Os policiais,
imperturbáveis, mantinham o perímetro isolado, ignorando sorrisos e câmeras.
Para eles era uma operação de risco; para os meninos, um conteúdo de redes
sociais que acabava de ser censurado pela autoridade européia.
—
“Nossa, os caras são brutos mesmo…” — sussurrou Lucas, guardando o celular no
bolso com um sorriso amarelo.
Enquanto
o motorista era jogado no banco de trás da viatura e as sirenes voltavam a
ecoar pelas ruas de paralelepípedos, os estudantes finalmente seguiram para o
hotel.
O
herói era o Pedro, as fotos com a polícia não rolaram, mas a história que eles
teriam pra contar no jantar —- e pelo resto da vida — já estava
garantida..