A CARTOMANTE MARIETA!
Dinah Ribeiro de Amorim
Marieta, menina quieta,
tímida, sonhadora, vivia cismando pelos cantos da casa.
Sua mãe, preocupada, chamava-lhe
a atenção e enchia-a de tarefas. “Que será que essa menina pensa tanto?”,
perguntava-se!
A menina foi crescendo,
estudando, aprendendo coisas novas, mas o temperamento não mudou muito:
observava e estudava as pessoas! Sentia-se atraída pelo desenvolvimento e
sentimentos humanos.
Talvez seja uma
psicóloga, pensa a mãe, mas Marieta logo abandonou os estudos. Começou a dar
conselhos e atendimentos particulares a quem dela precisasse. Tornou-se uma
verdadeira cartomante, popularmente chamada, baseada nos seus instintos ou
intuições.
Com o tempo, não só
conversava, mas utilizava-se das cartas de um baralho velho, deixado por sua
avó. Afeição a ela, com certeza.
Talvez fosse isso,
pensava a mãe, o espírito da avó agindo nela. Um tipo de médium ou vidente,
sabe-se lá. O fato é que ela começou a trabalhar com isso e cobrar seus
conselhos, para ganhar a vida.
Com o tempo, ficou
famosa, sendo procurada até por professores universitários, quando
necessitavam.
Uma coisa era realmente
verdade: todos tinham algum problema ou dúvida durante a vida e, à sua maneira,
Marieta satisfazia as curiosidades.
Sua fama foi crescendo e
a situação financeira também. Começou como uma sentimental, humana e crente a
resolver e auxiliar o próximo, mas, gradualmente, tornou-se uma eficiente
malabarista da profissão. Respondia mecanicamente a todos, sabedora das satisfações
e insatisfações alheias.
Até então, todos que
atendia saíam esperançosos e ansiosos para seguirem seus conselhos.
Teve um homem que
apareceu nos arredores, atraído por sua fama. Era muito experiente em jogatinas
e o baralho, sua preferência.
Incrédulo em favores do
além, confiante em sua sorte e conhecimento, quis conhecer Marieta. Saber de
onde e como vinham seus conhecimentos e afirmações. O dinheiro, principalmente.
Marcou uma consulta e
resolveu estudá-la melhor. Observar o conhecimento do que afirmava, de onde
vinha.
Marieta, ao recebê-lo,
teve leve intuição: não era sincero, só queria estudá-la.
Perguntou-lhe sobre sua
vida, seus problemas, o que o atraíra até ela?
O homem, chamado Mário, o
jogador sortudo, como era conhecido em seu meio, queixou-se das finanças, da
vida emocional, não encontrara em sua vida um verdadeiro amor.
Marieta foi mandando-o
cortar o baralho em várias etapas e ele, conhecedor das cartas, foi logo
percebendo quais seriam tiradas. Sobre as finanças, o Ás de ouro; sobre o amor,
o Rei de espada; e assim por diante. Percebia até o que a mulher falaria sobre
cada assunto.
Mário, intimamente,
ria-se dela, sabendo que não possuía dom algum, mas somente conhecedora do
significado sentimental de cada carta sorteada. Uma jogada popular, conhecida,
sem nenhuma validade emocional mais profunda ou espiritual, somente sorte
também.
Marieta, percebendo que o
moço era também um conhecedor do assunto, concentrou-se melhor, pensou na avó,
resolveu responder com a maior seriedade sobre o assunto, coisa que há tempos
já não fazia!
Concentrou-se tanto,
meditou alguns minutos, olhou-o firme e mandou que escolhesse uma carta mais
pessoal. Mário tirou uma dama de paus.
Respondeu-lhe seriamente
que era a carta da vida passada! Mário, curioso, sensibilizou-se um pouco e,
atencioso, lhe escuta.
Marieta, nem sabe explicar
como, palavras lhe saem, jorram de sua boca como tiradas de algum poço fundo,
vindo à tona e derramadas, amargas como um remédio fétido.
Fala sobre o início da
vida de Mário, sua infância triste, em um orfanato, distante dos pais e da
família.
Crescido, envolve-se com
jovens imaturos como ele, escapando de aprisionamentos e acusações maiores,
devido à sorte que apresentou em diversas ocasiões.
Acometido de uma doença
grave, infecciosa, quase levando-o à morte, sai-se dela, curado, sabe Deus
como? Talvez devido à sorte também.
Começa a se envolver com
jogos, principalmente baralhos, aproveitando o único modo de vida que o
entretinha e que lhe trazia algum retorno.
Chega até ela, Marieta,
com desconfiança e vontade de desacreditá-la publicamente, por puro
exibicionismo, descrença e apostas feitas com amigos das jogatinas da cidade.
Marieta para, ofegante,
respira fundo, nem percebe que o rapaz a olha espantado, com respeito e
admiração.
Mário, cabisbaixo,
pergunta-lhe como adivinhou certas passagens de sua vida, olhando simplesmente
através das cartas de um baralho?
Sabia manejá-las bem, mas
adivinhar o passado, falar sobre vidas pessoais, ele não conhecia nada.
Nem ela entende bem o que
houve. Alguma inspiração lhe acontecia, de vez em quando, desde menina, sem
saber direito o porquê?
Usava o baralho como
única aprendizagem que sabia sobre o assunto.
E assim ficaram ambos, se
olhando e meditando, procurando solucionar ou responder sobre o acontecimento,
boquiabertos, mas sem emitir nenhum som.
Mário, sem saber como lhe
agradecer a consulta, e Marieta, sem saber o que lhe acontecia, em verdade, por
meio de um baralho ou não. Talvez o usasse, simplesmente, como desculpas para
explicar às pessoas o que sentia realmente.
O tempo passa. Alguns
anos transformam o rumo de nossas vidas. Fatos acontecem para modificá-la,
melhores ou piores, dependem das nossas escolhas.
Estamos agora em frente a
um Instituto Novo, que fornece estudos em parapsicologia. “Mente Sadia!”,
fundado pelo teólogo Rogério Azevedo.
Muito procurado por
pessoas interessadas, é auxiliado por uma simpática senhora, Dona Marieta, uma
sensitiva, que atende os pacientes e os aconselha, simplesmente colocando as
mãos em seus pulsos.
Já estão sendo
reconhecidos pela Sociedade Nacional de Psicologia, através do sucesso em
trabalhos realizados.
Quem é o secretário
particular da instituição? O ex-jogador Mário, convertido a essa doutrina e
marido de Dona Marieta.