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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

 



“O Sapo não lava o pé.

Não lava porque não quer”

Hirtis Lazarin

 

Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticulosos. Senta-se na cama, de olhos fechados e bem concentrada, reza uma porção de ave-marias. “Quantas você reza?” “Um monte”.  É devota de Nossa Senhora de Fátima. A Santa fica num pequeno altar forrado com seda, onde não pode faltar uma rosa branca fresquinha.

 

Só deixa o quarto com a cama bem arrumada. Casa desorganizada, desorganiza a vida.

 

 E o marido está lá na cozinha resmungando, há mais de uma hora, à espera do café com pão. 

 

Para ela, gatos pretos não dão azar; eles são o azar. Ela desvia quarteirões inteiros para evitar cruzar com um.

 

Semana passada, fiquei preocupada porque a encontrei chorando desconsoladamente. O motivo? Naquela manhã, acordou assustada com a campainha da porta tocando desesperadamente. Saltou rápido da cama e o primeiro pé que tocou o chão foi o esquerdo. Tinha certeza de que, mais dia, menos dia, algo muito ruim aconteceria.

 

Já pesquisei bastante sobre superstições, já conversei, já expliquei pra ela milhões de vezes. Desisti porque Dona Elvira tem hoje setenta anos e a cabeça não vai mudar. Os filhos contam que se cansaram de contestá-la e acabaram se acostumando com as doidices da mãe.

 

Naquela terça-feira chuvosa, saiu de casa pra visitar a netinha doente que morava do outro lado da cidade.

 

O trajeto até o ponto de ônibus exigia que ela passasse por baixo de uma escada de manutenção que a prefeitura havia instalado na calçada estreita.

 

Elvira parou… Examinou… Passar por baixo da escada, jamais; era um presságio terrível, um convite aberto ao azar.

 

Olhou pra rua molhada, esburacada e cheia de poças d’água.  A única alternativa seria desviar para a sarjeta, dar a volta ao obstáculo e pisar diretamente na água suja. Adeus à sapatilha de “ir à missa”. Calculou que meia dúzia de passos largos a trariam de volta à calçada.

 

Toda cuidadosa, mas receosa e de cara feia, tampou o nariz e enfrentou a situação; deu dois passos no asfalto da rua e, já no terceiro ou quarto, não sentiu o chão. A poça traiçoeira pegou-a de surpresa. O pé direito atolou, o sapato ficou preso e a água chegou até metade da canela. Um grito dolorido soou no silêncio da rua vazia. Eram quase cem quilos de gente estatelada no chão.

 

E, pra completar, num movimento espalhafatoso, saltou do buraco um sapo de olhos esbugalhados, jogando água suja pra todos os lados. Graças a Deus que ela nem viu, já estava desmaiada.

 

Dona Elvira está hoje com a perna imobilizada e assim ficará por três meses. Impossibilitada de colocar os pés no chão, resolveu ler pra preencher o tempo vazio. “Crendices e superstições” foi o primeiro livro escolhido.

 

Que moral tenho eu, agora, pra dizer a ela que superstição é crença  sem fundamento lógico ou científico?

 

 

A fé, nada mais que a fé! - Da série: Cartomantes e adivinhações. - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A fé, nada mais que a fé!

Da série: Cartomantes e adivinhações.

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Nosso mundo está cheio de superstições, crenças que alguns povos acreditam como verdade e trabalham em prol dessas atividades que, na realidade, não existem. Nunca provadas nem aceitas pela ciência, mas espalhadas e comentadas pelo povo. Fica sempre aquela dúvida ou curiosidade…  Será?…

Quando jovens, tentamos crer nas adivinhações ou palavras de curandeiros ou videntes, curiosos para saber do nosso futuro. Se seremos felizes ou não, tal amor dará certo? Qual de nós não fez isso alguma vez na vida?

Eu, sim, às vezes, muito crédula, procurei pessoas que liam nas cartas do baralho, nas borras do café que formam desenhos no fundo de xícaras, em bolas de cristal, no conhecido baralho do tarô, enfim, bastava alguém comentar e, pronto, eu já me interessava.

Lembro-me até de ter viajado para outra cidade, à busca de uma senhora, famosa cartomante, por causa de um namorado que ia embora, estudar em outro país, e eu, apaixonada por ele! Oh! Deus! Perdoa-me! Minha ignorância espiritual e religiosa era grande, e a idade, muito pouca.

Hoje, recordo todas essas bobagens e dou risada. Nada surtiu efeito, nada aconteceu como previram e foi dinheiro jogado fora.

Já vi muita coisa real, mas, com pessoas que possuem muita fé em Deus, em Jesus, e possuem o dom de cura ou de libertação. Pessoas que trabalham para Deus com dedicação e fé, sem cobrança, de coração para coração.

Presenciei, certa ocasião, numa igreja que frequentei, a presença de uma senhora recém saída de um sanatório, ainda meio enlouquecida, correndo pelos corredores, derrubando cadeiras, jogando-se ao chão. Aos presentes, assustou-nos um pouco, com medo de sermos atingidos. Recebeu oração de uma pastora amiga e foi se acalmando lentamente.

Seu restabelecimento, a cura sem remédios, foi renascendo, simplesmente com o tratamento espiritual feito por essa abençoada pastora, em nome de Jesus. Tornou-se uma mulher normal e ativa na igreja, com sua família, para o agradecimento de todos que se preocupavam com ela.

São tantos os casos que conhecemos de mudanças de vida nas pessoas que sofrem de algum tipo de mal! Se fôssemos narrar ou escrever, não chegaríamos a terminar. Incrível o poder da fé verdadeira no poder de Deus!

Está escrito que a fé remove montanhas e acredito nisso. Eu mesma, quando me recordo de certos problemas e me vejo agora, acho que passei por muitas transformações, benéficas, e continuo passando…

Acho que sempre fui muito abençoada, embora com alguns sofrimentos, como todas as pessoas humanas. Continuo abençoada e procuro manter minha fé em Deus, em orações de algumas pessoas que se dedicam exclusivamente a Ele, e deixo os problemas e os duvidosos passarem ao largo na minha vida! Talvez ainda encontrem o momento apropriado para crerem ou mudarem o modo de ser.

Não quero, com isso, afirmar exclusividade na minha Igreja, mas sim exclusividade na fé em um Deus, único e verdadeiro. Essa fé é encontrada de vários modos, conforme a natureza de cada um.

Minha mãe, mesmo católica praticante, encontrou alívio de um mal de estômago por meio de um grupo de pessoas que se uniam em oração, sem nenhuma denominação. Foi operada para tirar um tumor que havia, mas o suposto câncer já havia saído. E ela nunca soube disso, realmente. O estômago ficou menor, mas o grande mal sumiu, nunca mais voltou. Aleluia!

É isso mesmo, nosso mundo possui muitos mistérios, muitos fatos estranhos a descobrir, desvendar, explicáveis através da nossa fé em Deus, mas superstições, adivinhações, crendices populares, bruxarias, objetos que simulam verdades, são crenças de pessoas que ignoram uma fé verdadeira.

 


Cartomantes - O drama dos conselhos espirituais - Dinah Ribeiro de Amorim

 

O drama dos conselhos espirituais


 CARTOMANTES!

O drama dos conselhos espirituais

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Consultas a cartomantes, médiuns, videntes, são comuns na mocidade, mas alguns persistem nisso a vida inteira. Conheço pessoas que não dão um passo sem consultar seu orientador espiritual. Nunca percebi dar certo. Alguma orientação adequada. E ainda fica uma cobrança espiritual no ar, tanto a quem recorre como ao informante. Difícil libertação. É verdade que o futuro a Deus pertence.

Tinha uma grande amiga que adorava montar um baralhinho. Ler a sorte no Tarô. Bem-intencionada, ajudava todo mundo. Quando resolveu parar, entristecida com o suicídio de uma cliente, passou por grandes mudanças na saúde:  tombos, cabeça, problemas sérios que levaram à morte, fazendo muita falta a todos nós.

Um caso espantoso foi o de um funcionário público, conhecido, que adivinhava o futuro por meio de uma bola de cristal. Tinha um ponteiro dentro que, em direção à pessoa, esclarecia tudo sobre ela. Ficou tão empolgado nesse trabalho que acabou perdendo o emprego. Parece que também não terminou bem, desempregado e doente.

O mal disso tudo é quando cobram, levando vantagem com a tristeza alheia.

Mas, qual a mocinha inocente ou em dificuldade amorosa que não recorreu a alguém que lê a mão ou afirma prever e modificar o futuro? A tentação, a curiosidade e a pressa, próprias da idade, levam a isso.

Esperança colocada no lugar errado!

 

 


Preto velho - Pedro Henrique

 



Preto velho

Pedro Henrique

 

 “Você será pai.” Esta é uma notícia que abala qualquer homem que não esteja preparado para a tarefa. É indubitavelmente andar na calçada do planejado e receber em sua mão um fio desencapado do inesperado.

 Imagine, leitor, imagine comigo, você chega exausto do EJA, vai até a cozinha e vê sobre a mesa um pirex com risoto de frango, uma garrafa de cerveja e sua esposa de camisola sorrindo para você.

 Você se aproxima, a beija na boca e se senta à mesa, servindo-se daquele delicioso risoto.

 Ela te pergunta como foi no trabalho. Você responde que está sendo um saco como sempre, afirma que o irmão dela parece te odiar, que sempre te designa os piores serviços e faz com que você nunca se esqueça de que ele não nutre uma gota minúscula sequer de estima por você.

 Ela te consola dizendo que o irmão sempre foi ranzinza. Conta como ele era com a família, sempre brigando com o pai, respondendo à mãe e arrumando confusão na rua.

 Mesmo assim, você não deixa morrer a raiva colossal que sente daquele idiota, mas, em respeito à sua esposa, que não merece saber dos conflitos do seu trabalho, você encerra o assunto.

 Depois, quando terminam o jantar, sua esposa vai até o quarto e traz nas mãos uma caixinha com um laço rosa e te entrega. Você abre e lá dentro está um teste de gravidez dando positivo.

 Seu mundo naquele momento aflora e as rosas ganham forma e espinhos. De cada pétala jaz sobre ti o abismo e o louvor.

E, por um momento, por um breve momento, você acha que nada daquilo tem raízes no real. Na sua cabeça, é tudo invenção, mentira, sua esposa está brincando.

 Porém, ao olhar em seus olhos que já abrigam um manancial de lágrimas, você se vislumbra na obrigação de pegar aquela verdade e bebê-la, ainda que seu sabor não seja dos melhores.

 Vocês vão dormir e aquilo continua se ramificando em seus pensamentos, ambicionando espaço, preenchendo cada milímetro que consegue até não restar mais nada a não ser aquele teste e a repulsa.

 No dia seguinte, após ouvir todas as piadas chatas e ofensivas de seu cunhado a seu respeito, você vai à escola, se assenta na penúltima cadeira da fileira do canto direito ao lado de José e conta tudo para ele. 

 José trabalha como gari e também teve uma infância marcada pelo horror. Ele passa boa parte do tempo reclamando da vida, do sistema, da política e de sua esposa. Porém, quando o assunto é sua fé, recolhe-se em um casulo de gratidão.

 Ele frequenta um terreiro de umbanda e, quando você confessa seus temores em relação à paternidade, ele te revela a um tal de Preto Velho.

 Você pergunta quem é, e ele responde ser uma entidade que orienta as pessoas. José sugere que você vá conversar com ele. De imediato, você recusa, argumentando que não vai “falar com o demônio”. Ele ri e explica que não é nada disso. Diz que os Pretos Velhos são espíritos de antigos escravizados que ajudam as pessoas por meio de conselhos.

 Mesmo assim, você não se convence. José, percebendo sua resistência, diz que conversar com o Preto Velho pode te ajudar a lidar com o medo de ser pai.

 E, para ser sincero, caro leitor, não sei se foi o peso do medo ou os toques da curiosidade que te levaram a ir, mas o fato é que foste.

 Você recorda de cada detalhe: do lugar bem simples, do chão de terra batida, das muitas folhagens e de uma casa que tinha ao lado um pequeno cômodo onde o Preto Velho atendia.

 Lembra-te, como se fosse hoje, do cheiro que pairava no ar, uma mistura de cerveja, cigarro e chuva. Do lado de fora do cômodo onde você e José estavam sentados, podia-se escutar a voz nítida e audível da entidade dando opiniões sobre os relatos daqueles que o procuravam.

 Havia duas moças à sua frente. Uma delas ficou quase uma hora conversando com ele. Pelo que escutou, ela buscava um conselho sobre um rapaz que havia acabado de conhecer.

 A entidade disse haver coisas na vida que são convidativas aos olhos e que, por esse motivo, consideramos ser a coisa apropriada para nós.

 Contudo, devemos manter os olhos bem abertos, não para o externo, mas para o interno, por ser lá que residem todas as bênçãos e maldições de um ser humano.

 Em seguida, a outra moça que estava à sua frente foi chamada e, lá de fora, ouviu-se apenas sua voz embargada. Havia acabado de perder a filha de quatro anos para o câncer e questionava a entidade do porquê.

 O Preto Velho consolou aquela mãe desesperada e, ao final, chamou um médium para acompanhá-la até a saída. Enquanto ela passava pela cortina que fazia o papel de porta, você escutou a entidade dizer: “Vá em paz, filha”, e logo em seguida ouviu a palavra “próximo”.

 José fez um sinal para que você entrasse no quartinho. A princípio, mil coisas circulavam pela sua cabeça e, por um triz, você pensou em não entrar, em correr. Ainda dava tempo. Entretanto, já estava ali, qual seria o mal em ir? Nenhum. Portanto, foi.

 Logo quando entrou, surpreendeu-se ao ver um homem que aparentava ter entre trinta e cinco e quarenta anos.

 Você esperava encontrar um velho, e não um homem tão jovem. Ainda assim, senta-se na cadeira reservada para quem ia conversar com ele e não questiona sua idade.

 — Não olhe para o cavalo, filho. É a mim que deve ver — disse o Preto Velho.

 Você não entende o que aquilo significa, mas também não pergunta. Apenas aproveite os primeiros segundos para observar os detalhes ao seu redor. A atmosfera do lugar te causa certo espanto.

 Você olha à direita do cômodo e se depara com diversas imagens de orixás e entidades feitas de argila. Também havia uma mesa com cachaça, uma Bíblia, charutos e, curiosamente, um copo com um líquido que você julga ser água, dentro do qual havia uma faca.

 Você lembra da orientação de José: deveria pedir bênção à entidade e chamá-lo de “vovô”. Assim o faz. Quando termina de cumprimentá-lo, percebe que ele a olha fixamente, como se estivesse examinando cada átomo dentro do seu corpo.

 Você não sabe como, mas um simples olhar te fragmentou, e parecia que toda a água que nutria um amaldiçoado passado estava prestes a inundar tudo ao seu redor.

 — É, filho, é...

 Bastaram essas palavras para as lágrimas emergirem solitárias dos seus olhos como uma chuva inesperadamente brutal. Ele mantém o olhar fixo em você e, após algum tempo, você diz o que busca ali.

 A priori, ele parecia indiferente ao que você dizia, focando sua atenção na cachaça que colocava em um recipiente raso e bebia.

 Enquanto isso, sua mente já xingava José por ter te persuadido a vir. Estava prestes a se levantar e ir embora, quando aquele olhar que havia te desmembrado voltou, perfurando ainda mais fundo a ferida.

 — Você sofreu muito, não é, filho?

 E foi ali que cada pedaço de ti revelou sua identidade.

 — Você não tem medo de ser pai; você tem medo de si mesmo.

 Pronto, inundou: anos atrás, o barracão de madeira, a plantação de mandioca e o passado infeliz projetado no presente temeroso. Socos, cuspes, chicote, choro. Seu pai arrancando sua roupa, manchada pelo vermelho vivo que escoava à medida que o bico do boi rasgava sua carne.

 Raiva de você mesmo por não ter corrido mais, por não ser mais forte. Raiva dele por lançar o peso covarde de seu corpo contra o teu, e você nada poder fazer. Ainda mais raiva, porque, mesmo se debatendo, você não consegue sair debaixo dele.

 Uma raiva ainda maior quando as costas já estavam em carne viva e, mesmo assim, cada nova chicotada parecia arder um pouco mais. Paulatinamente, a dor tornava-se mais insuportável, forçando-te no estopim a seguir seus mandos.

 Ele te enforca. Arranca com suas mãos atrozes o ar que confere vida ao seu corpo e o faz com gosto. Você se debate e só vê sua mãe vir com uma garrafa de cerveja quebrada nas mãos, com as pontas pontiagudas babando o resto do líquido e ambicionando dar ao seu algoz o destino cruel que ele merece.

Ela introduz, com toda força de seu ser, o objeto nele, bem na sua frente, e seu corpo é consumido pela chama da paralisia e você desmaia. Quando acorda, está na cama de um hospital com uma assistente social ao seu lado e sua mãe presa.

 Você se levanta e sai. Não é obrigado a passar por isso. Não querer passar por isso. Não merece passar por isso.

 Você sai com uma raiva tão feroz caminhando por suas entranhas, que nem olha para José, contudo sabe que ele está vindo atrás de você. E, antes que consiga se afastar o suficiente daquele cômodo, você escuta a voz do Preto Velho dizer:

 — O medo é um homem encapuzado de invisível que rouba aquilo que temos de melhor, filho.

 


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cleuza entre o topo e o fundo. - Alberto Landi

 



 Cleuza entre o topo e o fundo.

Alberto Landi

 

Diziam na cidadezinha onde vivia que Cleuza nasceu para brilhar, mas a verdade é que a vida nunca lhe deu nada por obséquio. Cada passo era conquistado na unha e cada sorriso escondia o medo da pindaíba que rondava a sua porta.

No começo, ela acreditava em tudo, caía em qualquer lorota bem contada, achava que todo homem que aparecia era promessa do futuro, até que vieram os amantes e com eles os golpes.

Um dizia que ia tirá-la da pobreza, outro jurava amor eterno, mas tudo não passava de balela, vento leve que se desfazia no dia seguinte.

E quando ela resolveu parar de gorar os planos dos aproveitadores, ou melhor, parar de ser usada para que os planos deles não gorassem, começaram a virar a cara. Chamaram-na de lambisgoia, como se fosse a vilã da própria miséria.

Foi esse último veneno que a fez arrumar a mala e sumir sem retornar.

Na capital onde o luxo e a lama dividem a mesma calçada, Cleuza entrou como dama num cabaré elegante com aqueles olhos vibrantes que denunciavam mais do que ela permitia dizer. O rosto, ainda com certo frescor de quem correu contra o tempo, brilhava sob a luz avermelhada do salão. Os cabelos na altura dos ombros, úmidos como se tivessem acabado de escapar de um banho apressado, moldavam-lhe o perfil juvenil.

Aprendeu a sorrir sem sorrir, a dançar sem tropeçar, a rebolar com todo o frescor, a sassaricar entre as mesas para que os homens nunca se esquecessem de seu nome.

Ao passar, deixava atrás de si um rastro delicado de talco de bebê, um perfume que destoava da crueza do ambiente e por isso mesmo chamava a atenção. As costas bem torneadas surgiam sob a blusa branca de cetim, fina o bastante para revelar quase um segredo, a marca do sutiã. Era uma combinação de inocência e desafio, de promessa e despedida.

E foi assim, misturando fragilidade e coragem, que ela cruzou todo o salão, conquistando olhares sem ao menos se dar conta, ou talvez sabendo exatamente o poder que carregava no andar, no perfume e no silêncio.

Mas a vida tem mãos rápidas, quem não corre cai, quem não engana é enganado.

De degrau em degrau, ela virou acompanhante, de acompanhante a meretriz. Chamavam-na de rameira mundana, mas ninguém sabia dos silêncios que ela carregava, nem da força escondida atrás da blusa de cetim que tremulava como lua inquieta em noite de ventania.

Certa noite, um valentão tentou lhe dar um safanão, mas ela era ágil, como uma cabrita maltês, leve, esperta, impossível de agarrar, achando que ela era de fácil condução.

Acostumada ao topo e ao fundo, se defendeu com a força de quem aprendeu a viver na beira do precipício. Limpou o lábio machucado e seguiu adiante.

Ao amanhecer, parou diante de uma vitrine ainda embaçada pelo sereno da manhã, viu seu reflexo cansado, porém firme, e sorriu um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

Nunca mais deixaria ninguém gorar seus sonhos, suas escolhas ou seu destino.

Quem quisesse falar dela que falasse, quem vivia de mexericos sempre acabava preso à própria balela. Mas, ela não era mais a mesma, era mais forte, resiliente, inteira e perigosa.

Enquanto caminhava com passos seguros pela rua vazia, uma certeza iluminava seu peito: ninguém mais escrevia sua história, agora o destino era ela quem comandava entre o topo e o fundo e tudo o que viesse pelo caminho!

 


A DIFÍCIL VIDA FÁCIL - Adelaide Dittmers

 

 


A DIFÍCIL VIDA FÁCIL

Adelaide Dittmers

  

O espocar de fogos de artifício, que riscavam a noite com luzes coloridas de diversas formas e chuvas de ouro e prata, brindava o nascimento de um novo ano, que trazia ao coração dos homens a esperança muitas vezes vã e incerta de dias promissores.

Em uma janela quase apagada, uma mulher já entrada em anos apreciava com um olhar triste e errante o espetáculo, que expulsara o silêncio e a placidez da noite.

Os olhos de sua alma não estavam ali. Vagavam por um passado distante, em que se via em um salão luxuoso sassaricando, bela na flor da mocidade e cortejada por mancebos, que disputavam a vez de com ela girar ao som dos boleros e tangos, que soavam da radiola.

Foi um tempo em que ela brilhava no lupanar da cidade como a mais cobiçada meretriz, atraindo burgueses jovens e velhos para usufruir de seus favores.

Seu rosto se contraiu ao recordar sua queda. 

A beleza gasta pela vida. Uma vida que dizem fácil, mas é difícil e efêmera. Controlada por um sacripanta, que a iludiu e a explorou por anos, abandonando-a à própria sorte, quando perdeu seu viço, o que a jogou em um bordel nos confins escuros da cidade e onde ela desceu a escada, degrau por degrau, até chegar ao porão da vida.

Ironicamente, foi uma carraspana, que a levou quase em coma a um hospital, que a salvou daquela pocilga. Lá, um enfermeiro de bom coração apaixonou-se por ela. Com pachorra, aquele homem simples a tirou do fundo do poço em que caíra.

Aquele homem a ensinou a amar e ser amada, tratou com desvelo as feridas mais profundas de seu ser, enterrando a rameira e a fazendo renascer com seu nome de batismo, Cleusa.

E agora, naquela janela, vendo o novo ano chegar com luzes e alegria, Cleusa se deixou levar pelo caminho duramente percorrido.  E a saudade daquele que foi seu salvador apertou seu coração tão castigado pela vida.

 

ERA UMA VEZ... PITICO E O ALCE-REI

 



ERA UMA VEZ…PITICO E O ALCE-REI

Dinah Ribeiro de Amorim

 

 

Num reino distante, pequeno povoado, governavam dois reis: D. Dario e Dona Lionela. Eram ótimos caçadores.

Viviam para a caça e a organização de troféus, nas salas do castelo.

Organizavam, às vezes, festas exibicionistas e chamavam outros reis vizinhos para mostrá-los.

Tinham uma ambição crescente, parte importante de suas vidas, caçar um alce real e colocá-lo como troféu, com sete galhos na cabeça. Nunca conseguiam pegá-lo, não sabiam o porquê?

Acontece que o alce, também real, possuía em seus galhos, na testa, um amigo passarinho que o avisava dos perigos da floresta.

Foi salvo pelo amigo alce de uma queda do ninho, abandonado pela mamãe passarinha, bem pequeno, morando nos seus galhos, à vontade, ficando também seu protetor.

Quando soube da ambição dos Reis Dario e Lionela, assumiu logo a sua defesa.

Numa tarde, os reis organizam grande caçada e convidam os melhores caçadores do reino. Comentam: “Esse alce não nos escapa!”

Assim que Pitico, o passarinho, soube, colocou-se de prontidão.

Como os caçadores, na hora do mal, se espalharam pela floresta, chamou logo outros passarinhos para auxiliarem o alce.

No início, em cada lugar de perigo, o alce era avisado: “Foge rápido que estão por perto!”

Quando ia para a direita, gritavam-lhe: “Vá para a esquerda. Estão sentindo o seu cheiro!”

Se o alce ia à frente, mandavam-no voltar. E assim passou o dia inteiro…

Os caçadores não desistiam e o alce foi ficando cansado. Queria dormir.

A passarada, nervosa e preocupada, piava à sua volta, o acordava, não o deixava dormir.

Chegou um momento em que o coitado do animal, lindo e esbelto, um orgulho da natureza, parou e dormiu, mesmo ouvindo aquela cantoria dos pássaros à sua volta.

Os caçadores inimigos chegaram perto e, quando iam atirar, as avezinhas, em bandos, bicaram seus olhos, fazendo-os fugir, apavorados. Não estavam preparados para matar passarinhos.

E assim, o alce-rei descansou sossegado, protegido por Pitico e seus amigos, o companheiro de estimação.

Os Reis Dario e Lionela desistiram dessa caçada e deixaram o animal em paz. Compreenderam que os animais da floresta também reinam e têm seus comunicados pessoais entre eles. Merecem ser respeitados.

Desistiram dos troféus e das exibições.

 

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Suspense - Dinah R Amorim

 


Suspense

Dinah R Amorim

 

Naquela noite não estava ventando, mas a porta dos fundos bateu com força; o ruído estremeceu os vidros, causando grande impacto por todo o apartamento. Dona Alice se dobrou sobre si mesma, paralisada pelo medo que já lhe era familiar.

Ah! Como ela ansiava por uma manhã iluminada! Tentava dissolver seu nervosismo arrumando os livros na estante do quarto. Mas eis que outros sons estridentes encheram o ambiente de maus presságios.

De repente, algo se fez forte em seu coração e ela, sem hesitar, saiu do quarto e disse em altos brados: “Quem está aí?” Nenhuma resposta.   Então, caminhou decidida até a entrada e certificou-se de cerrar as portas e janelas. Já voltando para o quarto, escutou novamente o ranger enferrujado das grades da área de serviço.  Agora tinha certeza: havia, sim, alguém entrando em seu apartamento.

Dona Alice sabia que aquele seu vizinho esquisito era uma ameaça constante. Ele tinha o olhar opaco de um ente quase sobrenatural, ameaçador como só os assassinos, os neuróticos conseguem ter. E, além do mais, ele já aprisionara e matara o cãozinho de estimação de que Dona Alice tanto gostava.

No meio do claro-escuro opiju0qiytritj das salas, ela pode ouvir estilhaços de vidros caindo no chão. Eram como pequenas facadas em seu corpo gelado. Dona Alice se trancou no quarto. Espiou pelo buraco da fechadura. Viu o homem sentado em frente à porta brandindo uma faca como se fosse um samurai enraivecido.

E então se fez silêncio.

Ela quis acreditar que ele poderia ter adormecido. Abriu uma fresta da porta do quarto. Estava tudo quieto. Mas havia um cheiro estranho, esgueirou-se até a cozinha e percebeu o cheiro de gás. Quando se voltou viu o homem se aproximar com sua faca; ela entrou no banheiro, se trancou, e com mãos trêmulas quebrou o espelho para fazer uma arma com os cacos.

A ferida em suas mãos sangrava muito. Os chutes do infeliz iam esburacando a porta até quase pô-la abaixo. Dona Alice ainda conseguiu cortar-lhe a veia das pernas. Saiu aos pulos sobre o corpo caído do homem, banhado no sangue misturado dos ferimentos deles dois, que fez um rio vermelho e tingiu o piso frio, o taco quente, o tapete persa  do hall...

 

 

VERDADE OU MISTÉRIO? - Dinah Ribeiro de Amorim

 


VERDADE OU MISTÉRIO?

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Desde a infância, ouvimos contar histórias verdadeiras ou falsas, que significam e formam superstições. Algumas permanecem algum tempo e depois desaparecem. Quando adultos, as esquecemos.

Outras, quando lembramos, não sabemos dizer se são verdadeiras ou não. Cremos um pouco também nas superstições.

A casa dos meus avós tinha um quintal comprido, com várias plantas e um galinheiro ao fundo.

Costumávamos roubar ovos de manhã, quebrá-los e tomar a gema crua, antes de vovó ir colhê-los.

Ela ficava brava conosco e com as galinhas poedeiras também. Uma delas, esperava meu irmão chegar e ia certeira bicá-lo, já antecipando o seu roubo. Com o tempo, escondiam seus ovos em lugares que não achávamos, ou faziam greve. Paravam de botar.

Tio Roberto cismou de fazer caretas com melancias e abóboras, acendendo uma vela dentro, para ficarmos com medo à noite e nos afugentar do galinheiro. Não é que deu certo! Acreditávamos serem fantasmas protetores de aves, e não mais íamos roubar ovos. Só que as galinhas também ficaram com medo e não botaram mais.

Pobre vovó, teve que comprar ovos no empório da rua.

Em criança, sempre ouvíamos que passar embaixo de escadas, era um azar danado. Principalmente em lugares em construção. Quando víamos alguma, dávamos a volta e não passávamos. O pedreiro que estava perto, morria de rir…

Também não acreditei nisso, quando cresci, crendices de criança, falatórios do povo.

Tinha uma amiga da vovó, Dona Ana, muito idosa já, sozinha, viúva e sem filhos. Muito religiosa, vivia pedindo a Deus para não sofrer na hora da morte. Queria uma morte rápida. Quando morreu, soubemos que passeava na cidade e passou debaixo de uma escada, quando caiu um tijolo em sua cabeça e a matou rápido. Ficamos muito arrepiados quando soubemos, mas a sua oração deu certo. Nem sentiu. Vovó  dizia: “ Foi atendida mesmo!”

Ficou a dúvida conosco: muita fé ou dá azar?

Somos um povo cheio de superstições. Basta conversarmos com o pessoal do mato ou interior, longe da modernidade, que aprendemos muito.

Em final de ano, tenho amigas que dão uma folha de louro para todos colocarem na carteira. Quando pergunto o porquê, diz que é para trazer sempre dinheiro. Oba, pego logo a minha.

As cores das roupas debaixo, também influenciam a passagem do ano.

O vermelho significa paixão ardente, o branco, paz infinita, o azul, tranquilidade e sossego, o amarelo, dinheiro e o verde, crescimento e fartura. Não sei bem se está certo, cada um fala de um jeito. Depende da crença.

Comer lentilha na ceia de final de ano, dá sorte e sucesso. Comer aves como frango, pato, peru, com asas, dá azar, segundo uma amiga. Ciscam para trás. O ano também voa para trás. Sei lá!  Nós sempre comemos, não? O peru de Natal sempre foi tradição para todos!

E os três pulinhos nas ondas do mar, à meia noite, para quem está na praia? Todos obedecem a essa crença!

Lembro-me, em menina, que à meia noite, no final do ano, Tia Ilda mandava bater no poste da rua para festejar. Não sei até hoje para quê? Mas batíamos com gosto!

Pois é, crendo ou brincando, o bom mesmo é fazer uma bela oração para pedir Saúde! Paz! Prosperidade! Sucesso! Livramentos do mal e Proteção a Deus, é o que acredito! Amém! Feliz Ano Novo a Todos!

 

DIA DE DOMINGO! - Dinah Ribeiro de Amorim

 


DIA DE DOMINGO!

Dinah Ribeiro de Amorim

 (palavras em desuso)

 


Quando penso em domingo, logo vem a saudade. Saudade dos domingos alegres da infância, saudades do meu sobrado, da casa dos avós!

 

Que dias gostosos, com todos à mesa, contando lorotas e esperando a macarronada supimpa de vovó.

Tio Roberto, o mais bidu, fechava a sua botica movimentada e era quem fatiava a carne assada, em auxílio à mãe.

Comíamos às pampas e, logo após, tia Ilda corria a ligar a vitrola. Colocava seus discos prediletos, em tom alto, para iniciarmos um sassarico.

Quando Tio Mário se levantava, após os docinhos de sempre, o mais janota de todos, começava a fuzarca!

Gostava de jazz e os outros queriam ouvir blues.

Oito tios e quatro netos, cada um sassaricando e tendo um gosto musical, virava mesmo uma fuzarca. Começava o quiproquó.

Ninguém dava mão à palmatória.

Todos queriam fazer valer a sua vontade. Aí a tarde ia pra cucuia!

Vovô e vovó se levantavam da mesa, se afastavam, iam descansar na varanda. Vovô sempre exclamando: Sebo! Não tenho sossego nesta casa!

 

 

 

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

  “O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” Hirtis Lazarin   Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticuloso...