O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA
PEDRO HENRIQUE
Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos
horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líquido beija meu corpo, cobre
cada poro e reivindica de mim submissão.
Quer que me torne sua cadela fiel, que me ajoelhe
diante de tua soberania, que me enterre na terra fúnebre do fato, porém o que
se concentra na íris, na janela cristalina de minha pobre alma, é ódio, apenas
ódio.
Pego-o do vale sangrento, ponho-o em minha
taça e degusto com lampejos de descanso nos ombros. Meu pai foi assassinado.
Um homem que dava as bocas, com recorrência,
sorrisos para baixo, que fazia da vida palco de distribuição de ofensas e
maldições, agora está morto.
Quando pequena, lembro de, em um jantar, um
dos últimos com vovó Gilda, antes dela falecer, de ouvi-la dizer que a morte é
a mais bela e feia dançarina. Desde quando entoamos nosso primeiro berro ao
sair dos ventres de nossas mães, somos convocados para seu baile.
Não há “eu não quero”. Você vai, a
contragosto, mas vai. Ao decorrer da festa, ela dança, tão bela, tão feia. Seus
passos são ágeis e leves, uma combinação perfeita de rigidez e espontaneidade.
Como uma pena que não se importa de defrontar-se com o solo, quer é a
performance magérrima do cair dançando entre os revigorantes ventos.
E, com sua postura dominante, tira alguém
para dançar. Uns demoram anos, outros, assim que entram no salão. Meu pai, pelo
visto, já estava no radar dela há um certo tempo.
Penso em querer também um pouco de morte. A
morte talvez seja a única porta de escape para sentir-me flertando com a calma
de não ter ciência do poder violento que reside na mão de um homem.
Mamãe sempre dizia que os homens são bichos
que precisam ser domesticados. São como cães raivosos. Já nascem com uma
necessidade inata de se provar viril. De honrar com brigas, palavrões,
provocações e paixões calorosas o que a natureza lhe empregou entre as pernas.
Mamãe era uma mulher completamente às avessas
disso, detinha uma serenidade oceânica. Acredito que foi essa a característica
que fez meu pai se entregar aos seus encantos e adormecer no seio afagoso de
seu amor e acalento.
Lembro que ela tinha a habilidade surreal de
acalmá-lo nos momentos de histeria demasiada. Ela literalmente o pegava no colo
e o ninava, como se faz com um recém-nascido.
Uma vez, saímos todos juntos para jantarmos
fora e no estabelecimento estava passando o jogo do time que meu pai torcia,
todavia o grupo estava perdendo. Não havia nem terminado o primeiro tempo e
levaram dois gols.
Ele berrava descontrolado, amaldiçoava os
jogadores, adjetivava a mãe do juiz enquanto a torcida do outro time vibrava.
As veias dos torcedores faltavam pular de seus corpos suados e sorridentes.
Parecia que de seus poros sairiam fogo de tão eufóricos que estavam. Era um
sentimento tão incompreensível para mim. Porém, entendo que todos têm suas
paixões, cabe a nós respeitá-las.
Quando o grupo que estava liderando a partida
fez o terceiro gol, foi a gota d'água para meu pai.
Enquanto o torcedor do outro time, que estava
à mesa ao lado, comemorava, meu pai dava a todos seu arsenal de palavras de
baixo calão.
Quando estas não lhe saciavam, batia na mesa.
Quando compreendeu que isso também não seria suficiente, foi para cima do rapaz
da mesa ao lado.
Este
experimentou amargamente o gosto de sangue inundando sua boca, como um rio que,
em um período de chuvas robustas, domina, raivoso, todo o território.
Foram tantos
socos que meu pai desfigurou nele, foi laborioso tirar aquele bicho selvagem,
sem controle, de cima do rapaz completamente inerme.
O dono do estabelecimento mandou que nos
retirássemos aos berros e meu pai nos conduziu para casa, também aos berros.
Mamãe já sabia desse enredo e qual a
metodologia aplicar. Quando chegamos em casa, ela me pôs para dormir e foi ter
com meu pai. Enquanto ele xingava, ela passava as mãos por suas costas, beijava
seu rosto, o abraçava, até que ele veio para seu colo e ela ninou para ele de
modo que ele caiu no sono.
Ninou para o bicho adormecer, ninou para não
ter, outra vez, a tatuagem feita à mão de cinco dedos em sua cara. Ninou porque
sabia que o animal fora da jaula tinha a cruel capacidade de fazer estragos
indeléveis em seu corpo, em sua alma.
Eu chorava quando isso acontecia. O que podia
fazer? A lágrima se tornou meu único consolo. Era a forma mais gentil que tinha
de dizer a mim: “Você não tem culpa.”
Quando meu pai chegava do trabalho e o bicho
vinha com ele, eu chorava.
Quando eu
fazia alguma arte, ínfima sequer, e contemplava em seus olhos o animal horrendo
subjugando seu corpo enquanto descortinava para mim, através da fivela do
cinto, o poder violento que reside na mão de um homem, eu chorava.
Nada estava
ao meu alcance. Era como tentar pegar água na mão: inútil. Eu me sentia assim:
inútil. Eu era assim: inútil.
Um dia, quando mamãe voltou da escola onde
trabalhava, o demoníaco bicho a aguardava. Ele já havia me visitado com sua mão
violenta por ter me pego descobrindo que o beijo de um rapaz pode despertar
paraísos dentro de nossos ansiosos corpos.
Meu pai bateu no garoto e em mim. Eu não
sabia que ele chegaria cedo do trabalho naquele dia.
O mais
triste foi que ele atribuiu a culpa de toda a conjuntura à mamãe, mesmo eu
denunciando de forma veemente que ela não sabia de nada. Que não era para
machucá-la. Machucasse a mim, que era a autora legítima do pecado, não a
miserável que teve o extremo azar de cair em suas garras.
Naquele dia, só ouvi os berros de mamãe, os
gritos de meu pai. A fúria imperiosa que emergia daquele homem letal.
Recusei-me a chorar. Recusei-me a ser uma
inútil outra vez.
Poucos
flashes suscitam em minha memória no tocante ao nefasto momento: eu saindo do
quarto, pegando o jarro de flores da mesa de centro, quebrando-o na mesa para
que dele restasse somente algo pontiagudo e meu pai deitado no chão, bebendo o
próprio sangue.
Ali, naquele exato fragmento do tempo,
contemplei, horrorizada, que dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos
horrores, vertia o líquido atroz da vida. Líquido este que consagra o homo
sapiens ao perpétuo caminhar na trilha espinhosa do existir em meio ao poder
violento que reside na mão de um homem.