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quarta-feira, 4 de março de 2026

O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 



O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA

PEDRO HENRIQUE

 

Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líquido beija meu corpo, cobre cada poro e reivindica de mim submissão.

Quer que me torne sua cadela fiel, que me ajoelhe diante de tua soberania, que me enterre na terra fúnebre do fato, porém o que se concentra na íris, na janela cristalina de minha pobre alma, é ódio, apenas ódio.

 Pego-o do vale sangrento, ponho-o em minha taça e degusto com lampejos de descanso nos ombros. Meu pai foi assassinado.

 Um homem que dava as bocas, com recorrência, sorrisos para baixo, que fazia da vida palco de distribuição de ofensas e maldições, agora está morto.

 Quando pequena, lembro de, em um jantar, um dos últimos com vovó Gilda, antes dela falecer, de ouvi-la dizer que a morte é a mais bela e feia dançarina. Desde quando entoamos nosso primeiro berro ao sair dos ventres de nossas mães, somos convocados para seu baile.

 Não há “eu não quero”. Você vai, a contragosto, mas vai. Ao decorrer da festa, ela dança, tão bela, tão feia. Seus passos são ágeis e leves, uma combinação perfeita de rigidez e espontaneidade. Como uma pena que não se importa de defrontar-se com o solo, quer é a performance magérrima do cair dançando entre os revigorantes ventos.

 E, com sua postura dominante, tira alguém para dançar. Uns demoram anos, outros, assim que entram no salão. Meu pai, pelo visto, já estava no radar dela há um certo tempo.

 Penso em querer também um pouco de morte. A morte talvez seja a única porta de escape para sentir-me flertando com a calma de não ter ciência do poder violento que reside na mão de um homem.

Mamãe sempre dizia que os homens são bichos que precisam ser domesticados. São como cães raivosos. Já nascem com uma necessidade inata de se provar viril. De honrar com brigas, palavrões, provocações e paixões calorosas o que a natureza lhe empregou entre as pernas.

 Mamãe era uma mulher completamente às avessas disso, detinha uma serenidade oceânica. Acredito que foi essa a característica que fez meu pai se entregar aos seus encantos e adormecer no seio afagoso de seu amor e acalento.

 Lembro que ela tinha a habilidade surreal de acalmá-lo nos momentos de histeria demasiada. Ela literalmente o pegava no colo e o ninava, como se faz com um recém-nascido.

 Uma vez, saímos todos juntos para jantarmos fora e no estabelecimento estava passando o jogo do time que meu pai torcia, todavia o grupo estava perdendo. Não havia nem terminado o primeiro tempo e levaram dois gols.

 Ele berrava descontrolado, amaldiçoava os jogadores, adjetivava a mãe do juiz enquanto a torcida do outro time vibrava. As veias dos torcedores faltavam pular de seus corpos suados e sorridentes. Parecia que de seus poros sairiam fogo de tão eufóricos que estavam. Era um sentimento tão incompreensível para mim. Porém, entendo que todos têm suas paixões, cabe a nós respeitá-las.

 Quando o grupo que estava liderando a partida fez o terceiro gol, foi a gota d'água para meu pai.

 Enquanto o torcedor do outro time, que estava à mesa ao lado, comemorava, meu pai dava a todos seu arsenal de palavras de baixo calão.

 Quando estas não lhe saciavam, batia na mesa. Quando compreendeu que isso também não seria suficiente, foi para cima do rapaz da mesa ao lado.

 Este experimentou amargamente o gosto de sangue inundando sua boca, como um rio que, em um período de chuvas robustas, domina, raivoso, todo o território.

 Foram tantos socos que meu pai desfigurou nele, foi laborioso tirar aquele bicho selvagem, sem controle, de cima do rapaz completamente inerme.

 O dono do estabelecimento mandou que nos retirássemos aos berros e meu pai nos conduziu para casa, também aos berros.

 Mamãe já sabia desse enredo e qual a metodologia aplicar. Quando chegamos em casa, ela me pôs para dormir e foi ter com meu pai. Enquanto ele xingava, ela passava as mãos por suas costas, beijava seu rosto, o abraçava, até que ele veio para seu colo e ela ninou para ele de modo que ele caiu no sono.

 Ninou para o bicho adormecer, ninou para não ter, outra vez, a tatuagem feita à mão de cinco dedos em sua cara. Ninou porque sabia que o animal fora da jaula tinha a cruel capacidade de fazer estragos indeléveis em seu corpo, em sua alma.

 Eu chorava quando isso acontecia. O que podia fazer? A lágrima se tornou meu único consolo. Era a forma mais gentil que tinha de dizer a mim: “Você não tem culpa.”

 Quando meu pai chegava do trabalho e o bicho vinha com ele, eu chorava.          

 Quando eu fazia alguma arte, ínfima sequer, e contemplava em seus olhos o animal horrendo subjugando seu corpo enquanto descortinava para mim, através da fivela do cinto, o poder violento que reside na mão de um homem, eu chorava.

 Nada estava ao meu alcance. Era como tentar pegar água na mão: inútil. Eu me sentia assim: inútil. Eu era assim: inútil.

 Um dia, quando mamãe voltou da escola onde trabalhava, o demoníaco bicho a aguardava. Ele já havia me visitado com sua mão violenta por ter me pego descobrindo que o beijo de um rapaz pode despertar paraísos dentro de nossos ansiosos corpos.

 Meu pai bateu no garoto e em mim. Eu não sabia que ele chegaria cedo do trabalho naquele dia.

 O mais triste foi que ele atribuiu a culpa de toda a conjuntura à mamãe, mesmo eu denunciando de forma veemente que ela não sabia de nada. Que não era para machucá-la. Machucasse a mim, que era a autora legítima do pecado, não a miserável que teve o extremo azar de cair em suas garras.

 Naquele dia, só ouvi os berros de mamãe, os gritos de meu pai. A fúria imperiosa que emergia daquele homem letal.

 Recusei-me a chorar. Recusei-me a ser uma inútil outra vez.

 Poucos flashes suscitam em minha memória no tocante ao nefasto momento: eu saindo do quarto, pegando o jarro de flores da mesa de centro, quebrando-o na mesa para que dele restasse somente algo pontiagudo e meu pai deitado no chão, bebendo o próprio sangue.

 Ali, naquele exato fragmento do tempo, contemplei, horrorizada, que dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertia o líquido atroz da vida. Líquido este que consagra o homo sapiens ao perpétuo caminhar na trilha espinhosa do existir em meio ao poder violento que reside na mão de um homem.

 

A HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD - Henrique Schnaider

 

 


A   HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD

Henrique Schnaider

 

Feliciano Gotard é um empresário bem-sucedido do ramo da navegação, já tendo construído mais de cinquenta navios petroleiros.

É um homem tranquilo, casado com Camila e, por muitos anos, feliz. Pai de Joana e Alex, filhos já adultos, ela com dezoito anos e ele com vinte anos.

Os filhos, Alex, cursando Medicina, e Joana, uma aluna exemplar de Engenharia.

Nos últimos dias, Feliciano está passando por momentos difíceis, já que está estranhando o comportamento de Camila, que não é mais a mesma pessoa que convive com ele há tantos anos.

Feliciano telefonou para um detetive indicado por seu melhor amigo Rodrigo, que lhe garantiu ser de máxima confiança.

O empresário teve uma reunião com o detetive Jarbas e o contratou para seguir Camila, onde ela estivesse, e assim lhe informasse sobre as atividades da esposa. Queria poder garantir que Camila era fiel e não estava tendo nenhum caso extraconjugal.

Feliciano estava no salão do luxuoso Hotel Green Wille, se preparando para um encontro com altos empresários ligados ao seu ramo de negócios. O projeto seria a construção de um navio de guerra, um enorme porta-aviões.

A reunião não havia iniciado, quando toca o celular de Feliciano e o seu coração bate descompassadamente ao ver o nome “Jarbas” no visor.

Mesmo com medo do que ouviria, Feliciano atendeu à ligação. Jarbas, então, lhe dá a triste notícia da constatação de que Camila estava lhe traindo com um homem bem mais jovem que ela. E acabaram de entrar num motel.

O golpe em Feliciano foi mortal, ele balançou o corpo e caiu desmaiado. Mais tarde, os médicos relataram que ele foi vítima de um derrame cerebral.

A vida de Feliciano acabou, apesar de ter sobrevivido ao derrame, vegetava, sem movimento dos membros inferiores e a fala que se embolava, um verdadeiro morto-vivo.

Camila arrependeu-se da traição, mas agora era tarde, não tinha como consertar o que aconteceu.

O castigo de Camila foi ter que cuidar do marido até o fim dos seus dias. A traição é a pior das atitudes de um ser humano, seja ela em que sentido for.



Bernardete - Elidamares Bianchi Rosa

 


Bernardete 


A casa estava em silêncio agora. A filha Simone fora a última a sair.  Bernardete parecia ainda ouvir o diálogo com a filha: “mamãe, não quer ir comigo?”.   “Não é necessário, ficarei bem aqui...”.  Mas, naturalmente, não estava tão bem assim. Sentada na varanda, olhava a estrada que seguia até a porteira da fazenda, pensando que vivia ali há mais de cinquenta anos, ali criara os filhos... 

Com a morte repentina de Hermes e toda a agitação que se seguiu até o sepultamento do marido, entrara em um redemoinho de sentimentos e emoções. Primeiro o corre corre quando Hermes caiu no escritório. A ambulância chamada e a constatação da morte. Avisar os filhos. Amigos e conhecidos chegando. Acertar os detalhes do enterro, Haroldo e Lauro se encarregaram junto com outros mais próximos. Simone ficou sempre ao seu lado, chorava muito pelo pai. Ela agradecia as palavras de condolências e continuava ali, quase não chorara, sentia-se alheia, vazia.

O vento balançava as folhas dos coqueiros e Dete, como as irmãs a chamavam, parecia ouvir a própria voz cantando com sua irmã: “Vento que balança as palhas do coqueiro/Vento que encrespa as águas do mar...” Lembrou-se da mocinha sonhadora, sonhava conhecer o mundo, conhecer o mar... Casada aos dezoito anos, começou com os deveres de dona de casa, cuidando do sogro doente. Logo vieram os filhos e a menina se transformou na mãe da família Fischer.

Agora na solidão da casa vazia poderia até se lembrar de si mesma. Pensou passado é passado, amanhã será outro dia. Entrou, trancou a porta e foi se ajeitar para dormir.

Acordou bem cedo, foi para cozinha onde Antonia já passava o café. Tomaram café juntas em silêncio. Antonia sempre fora prestativa, mas reservada como Bernardete. Hermes que sempre fora de mais prosa. Trocaram algumas recomendações sobre o desenrolar do dia e a matriarca se encaminhou ao escritório do marido.

Sentou-se na cadeira da escrivaninha e começou a colocar os papeis espalhados em ordem. Sempre cuidava dessa organização, mas hoje não havia muito a ajeitar. Abriu uma gaveta e pegou a chave do cofre que ficava no canto.  Haroldo prometera contatar o advogado para o inventário, queria ver se poderia adiantar alguma coisa, embora sempre fosse o marido que cuidava de tudo. Encaminhou para o cofre e abriu com a chave e o segredo. Isso ela sabia, pois o marido sempre deixava algum dinheiro em espécie, caso fosse necessário, quando viajava.  

Não havia dinheiro nenhum, talvez um dos filhos tivesse usado para alguma emergência do enterro ou Hermes nem tivesse colocado já que ultimamente quase não se ausentava. Havia, sim, vários documentos e entre eles um   documento que ela nunca notara antes.

Abriu o documento dobrado em quatro dentro da capinha que o conservava. Estacou sobressaltada: o que significava aquilo, será que Haroldo ou Lauro tinham conhecimento disso? Se tinham, porque nunca comentaram? Será que Hermes teria deixado no cofre pensando que ela veria e perguntaria? Por que nunca comentara?  Leu e releu. Não, não tinha imaginado. O documento era real. Precisava agora pensar no que viria a seguir. Dobrou mansamente o papel já amarelado e colocou-o novamente junto aos outros documentos e fechou o cofre.

 

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A SAGA DE UMA FAMÍLIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Existem fatos em nossa vida que não conseguimos explicar. Presenciamos, comentamos, a única coisa que conseguimos exclamar: Parece uma saga familiar!

Compareci ao velório de uma filha de uma sobrinha, falecida muito jovem, de um Câncer maligno. Verdade que, atualmente, essa doença está invadindo muitas famílias!

Quando fui desejar os meus sentimentos tristes ao pai dela, a única coisa que conseguimos exclamar foi: “Parece mesmo uma saga!”

Nunca nos vemos, a não ser nos funerais da família.

A mãe da jovem, minha sobrinha, grande professora da USP, lutou bravamente, também falecendo da mesma doença.

Lembrei-me que a mãe dela, minha cunhada, também notável professora, de grande conhecimento dos problemas sociais e muito amada por seus alunos, deixou vários livros escritos e ainda estudados, morreu também, muito cedo, da mesma doença, iniciando essa série de falecimentos na família, todas lutando bravamente contra o terrível e maléfico Câncer.

Um pai, filhos e netos, sofrendo a dor de parentes chegados devido ao grande mal!

Nesse momento, meio boquiaberta, fiquei sem saber como me expressar ou comunicar os meus sentimentos. Nunca os vejo, são do lado do meu falecido marido, que também morreu de Câncer, mas fiquei sensibilizada e comovida com essas mortes tão prematuras e tristes. Realizaram um grande esforço, mas não conseguiram vencê-la.

Falando sobre sagas, não consegui viajar através da ficção. Existem mesmo em nossa vida real! Grande tristeza!


A Saga da Família Vargas - Hirtis Lazarin

 



A Saga da Família Vargas

Hirtis Lazarin

 

Tudo começou no ano de 1880, com Elias Vargas, pescador de uma aldeia remota.

O céu ficou cor de chumbo. Ondas brutais e devastadoras jogaram o barco ocupado por três pescadores contra as pedras pontudas de uma costa esquecida. Apesar de habituados às condições austeras, ao sol, ao sal e ao frio, apenas um deles se salvou. Atirado por ondas revoltas e selvagens contra pedras afiadas, seu corpo sangrava. As feridas, expostas ao sol e sal, queimavam, sem pena nem dó.

Apesar dessa fúria desenfreada do mar, ele não sucumbiu. Feito um réptil à beira da morte, debateu-se e rastejou do jeito que pôde até alcançar a areia da costa. Agonizando ficou, por quanto tempo nunca conseguiu saber.

Febril e já à beira da morte, Elias começou a alucinar. Via os companheiros, que o mar levou, caminhando sobre as águas. Grita o nome deles, mas cadê sua voz? A árvore de sua linhagem aparece-lhe, sucessivamente, à frente. As raízes expandem-se a partir do amontoado dos seus ossos. Dois galhos crescem… crescem… até onde seus olhos não alcançam mais. Em vez de folhas, ela produz engrenagens de ferro.

Foi quando, num desses delírios em que se arrastava sem rumo, tropeçou e caiu numa depressão no centro da ilha. Ao tentar se levantar, seus dedos compridos e calejados cravaram numa lama cinzenta: era sal puríssimo misturado a um mineral metálico desconhecido.

À custa de frutos silvestres, algas marinhas e coco, conseguiu recobrar a consciência e sobreviveu. A sua vivência de cinquenta anos em contato com o mar dava-lhe esperança de que, mais dia, menos dia, sairia desse encarceramento. Utilizou restos de óleo de baleia e madeiras secas, que o mar trazia à costa, para manter uma pequena chama acesa no ponto mais alto da ilha. No entanto, ele não buscava apenas socorro, mantinha guarda, obsessivamente, à jazida que havia descoberto.

Um navio de patrulha costeira avistou a coluna de fumaça persistente. Ao desembarcarem, os marinheiros não encontraram um náufrago desesperado, mas um homem magro e febril, sentado sobre montes de sal e minerais que ele mesmo havia organizado em pilhas geométricas.

Elias estava com as mãos em carne viva de tanto cavar, mas se recusava a sair da ilha sem suas “amostras”. Foi resgatado carregando apenas uma bússola quebrada, salva dos destroços, e os bolsos cheios daquela terra cinzenta e salina.

Durante toda a viagem de volta ao continente, não disse uma única palavra sobre os companheiros que faleceram. Permaneceu no convés, afastado dos tripulantes, olhando fixamente para o oceano. Um olhar de quem não estava só sendo salvo, mas sim de quem estava partindo para uma guerra de conquista. Olhos frios de quem imaginava que o sofrimento pode ser transformado em moeda.

Como pescador e homem simples, Elias vivia, até então, em perfeita harmonia e respeito ao mar e a tudo que ele lhe oferecia. Entretanto, esse mesmo mar tentou arrebatar-lhe a vida. O naufrágio, os dias de horror na ilha e o medo da morte atormentaram-no durante meses. Tudo isso quebrou essa confiança. Ser “simples” significava ser “frágil” e frágil ele nunca mais seria, nunca mais estaria à mercê de forças maiores que ele — fosse o oceano, o governo ou a pobreza. Era a “fobia da impotência” em desenvolvimento.

Elias usou a pequena porção que trouxe nos bolsos para curar feridas de marinheiros no porto. A mistura mineral daquela ilha específica tinha propriedades antissépticas superiores a qualquer sal comum da época. Vendeu essas primeiras amostras como um “tônico milagroso”, conseguindo um capital inicial dez vezes maior do que o valor de uma carga comum de peixe.

Com o dinheiro das vendas, ele não comprou barcos novos, mas sim o título de posse daquela ilha deserta, que o governo considerava inútil. Ninguém entendia por que ele queria um pedaço de rocha salina, até que  começou a exportar o sal não só para a mesa, mas para a indústria de conservas e curtumes, que pagava fortunas por um produto que preservasse a carne por mais tempo sem estragar o sabor.

Para expandir, Elias precisava de infraestrutura. Ele atraiu dois investidores, prometendo sociedade eterna. Assim que o porto e as primeiras máquinas de extração foram instaladas, ele utilizou as dívidas acumuladas durante a construção para levar os sócios à falência, comprando as partes deles por uma fração do valor. Foi nesse momento que as “mãos sujas de terra e sal” deixaram de ser de um trabalhador e passaram a ser as de um empresário frio e ambicioso.

Em menos de uma década, ele controlava todo o fluxo de sal da região, criando o “Trono dos Vargas”, que, mais tarde, seria herdado e expandido pelo filho Artur.

“A moralidade é um luxo de quem tem o estômago cheio. Para que vocês jantem em prata, eu preciso ter as “mãos sujas de terra e sal''.  — Pensamento que Elias repetia sempre quando a família se reunia à mesa farta.

Mesmo após ficar rico, Elias nunca se sentiu seguro. Via o mundo como um lugar onde, para alguém ganhar, outro tem que perder. Isso o tornou um empresário solitário e paranóico. Não via concorrentes, apenas competidores que ainda não haviam sido derrotados.

O pescador que amava o horizonte morreu como um imperador que só conseguia olhar para o chão, contando cada grama de cristal que saía de suas terras.

Elias tinha três filhos: Edgar, Helena e Arthur.

Edgar Vargas, o mais velho, pensava diferente do pai e se recusava a trabalhar nas empresas da família. Queria estudar, viajar, desfrutar a vida e gastar o dinheiro disponível. Sabia quão grande era a fortuna acumulada. Jamais trabalharia nas minas de sal ou nos barcos, preferindo os livros. Para Elias, isso foi visto como covardia ou fraqueza. No dia em que Edgar decidiu partir para a capital e estudar, o pai cumpriu a promessa:  deserdou o filho e o declarou morto; queimou seus registros e proibiu Arthur e Helena de citarem seu nome. Dona Josefina, a esposa, coitada! Chorou o resto da vida.

Helena Vargas representava a consciência da família. Enquanto Artur construía, Helena via as rachaduras. Ela ouvia as vozes das comunidades e gerações sacrificadas para sustentar o luxo da mansão. Era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio.

Tentou usar a fortuna para curar as feridas sociais causadas pelo pai e pelo irmão, mas descobriu que o sistema dos Vargas era uma fortaleza e fora desenhado para corromper. Sua vida foi uma luta constante contra as correntes que a prendiam ao nome da família.

E foi Arthur Vargas, o filho do meio, quem assumiu as empresas da família.

Arthur transformou a ilha num complexo industrial.  Substituiu as pás de madeira por escavadeiras de ferro e correias transportadoras. As engrenagens enferrujadas foram trocadas por máquinas. Descobriu que o sal da ilha era essencial para a nova indústria de plásticos e produtos de limpeza que surgia na Europa. Parou de vender sal para cozinhas e passou a fornecer para as grandes fábricas do mundo, triplicando o valor do negócio. Financiou ferrovias e portos privados apenas para escoar sua produção. No seu mundo não havia espaço para a emoção. Tudo deveria ser funcional, produtivo e controlado. A família era uma máquina, tanto que a sua rigidez o impedia de validar qualquer sofrimento.

Se ele foi a força que cimentou o império, foi também a marreta que estilhaçou sua relação com   Helena, a irmã altruísta e visionária. Ela era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio. Representava a consciência sufocada de uma dinastia que se perdeu na ganância. E para o irmão, a empatia dela era uma “falha mecânica” que ameaçava a estrutura dos Vargas.

Como não conseguia dobrar a vontade da irmã através da lógica empresarial, usou sua rigidez para cercá-la. Removeu-a das decisões da empresa e a confinou à vida doméstica e artística, acreditando que, se ela ficasse calada, o conflito deixaria de existir.

A moça não perdeu tempo. Num diário guardado a sete chaves, registrava, detalhadamente, os acontecimentos importantes do dia a dia e os segredos obscuros da família que ela descobriu em cartas antigas, abandonadas no sótão da mansão:

  O naufrágio original não foi um acidente do destino. O pai teria sabotado o barco da família rival para garantir a posse exclusiva da ilha de sal. A fortuna dos Vargas não nasceu do esforço, mas de uma traição que custou a vida de amigos próximos do patriarca.

— A expansão industrial dos empreendimentos causou a morte de centenas de trabalhadores por doenças respiratórias por conta da falta de segurança nas minas de sal. O irmão sabia dos riscos, mas ocultou os relatórios médicos pra não interromper a produção, tratando as pessoas como peças descartáveis.

  A jazida original estava em terras que pertenciam a uma comunidade nativa dizimada por negligência.  E documentos provavam que a fortuna era, legalmente, um roubo.

  Artur usou a fortuna para subornar cientistas e esconder que a extração intensiva estava matando a vida marinha local.

Helena escreveu também sobre o medo de ser internada à força e como o irmão interceptava suas cartas para advogados e ativistas.

“Um legado não é o que você deixa para os seus filhos, mas o que você deixa de carregar para que eles possam caminhar.” Essa frase aparecia em muitas páginas do diário.

Arthur não teve filhos e Helena nunca se casou.  Nenhum dos dois tinha herdeiros para aquele imenso patrimônio.  O homem trabalhou tanto que não teve tempo pra pensar nisso e Helena nunca se casou.

Quem herdaria esse patrimônio?

Helena vinha se preparando pra quando chegasse o momento em que a transmissão de poder se tornasse inevitável.  E esse momento havia chegado. Às escondidas da família, esteve sempre em contato com Edgar, o irmão deserdado. Manteve-o informado de tudo que acontecia nas empresas e o ajudou muito financeiramente. Ele morava em Londres, onde se estabilizou profissionalmente como advogado e construiu uma família linda com Emily e dois meninos, Jasper e Harry.

O ano era de 1965 e Arthur, que nunca se preocupou com a saúde e tinha a vida desregrada com mulheres e muita bebida, adoeceu. O diagnóstico foi o mais inesperado possível: câncer no fígado. Fez todos os tratamentos que a medicina tinha pra oferecer, mas antes de um ano veio a falecer.

Era, portanto, chegada a hora de Jasper, o filho mais velho de Edgar, entrar em cena. Desde pequeno, fora treinado por Helena para a missão de, um dia, se necessário fosse, assumir as rédeas do império “Vargas”. Ela sabia que isso aconteceria e que a única forma de salvar a alma da família era destruindo o “trono”. Ela previa que o sal acabaria por corroer a estrutura da mansão e da linhagem, e que o sobrinho seria a força que destruiria as engrenagens enferrujadas pela dor.

Jasper tornou-se, legalmente, não só o guardião legal e financeiro de Helena, como também assumiu o comando do patrimônio que a família havia construído. Mas, o conflito interno de Jasper começou ali: ele amava a tia e ouvia seu grito por justiça, mas também estava preso pelas engrenagens industriais que precisava operar para não deixar a família naufragar.

Ele passou quase dez anos tentando conciliar o legado de Arthur com a consciência de Helena. Até que, na década de 1970, deu início ao longo processo de cancelamento de contratos, venda do maquinário, devolução das terras ocupadas e indenização justa aos funcionários e às famílias que choravam pelos que morreram intoxicados pelo sal.

Helena foi a verdadeira responsável pela libertação da família. Foi através de seus escritos e do seu exemplo que Jasper encontrou a coragem para “deixar de carregar” o fardo. Ela plantou a semente da mudança e a semente, em mente fértil, floresceu.

A primeira manhã de Helena e Jasper, fora dos portões da mansão, não teve o brilho do ouro, mas a claridade ofuscante da verdade. Eles caminharam descalços pela areia, sentindo o sal secar na pele, não mais como uma maldição, mas como um batismo. Atrás dele, a mansão Vargas parecia encolher, tornando-se apenas uma sombra cinzenta contra os penhascos.

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UM DIA A CASA SE DESFAZ - PEDRO HENRIQUE

 



UM DIA A CASA SE DESFAZ

PEDRO HENRIQUE

 

"O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é o homem humano."

- Guimarães Rosa

 

       Um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra. E cá estou eu, no meio deste caos. Como foi que chegamos aqui, Jorge? Como foi?

       Um caminho que começou tão pulcro. Pétalas de rosas pelo chão. Vaga-lumes iluminando o caminho. O louvor que emerge da boca do amor, e mesmo assim chegamos aqui. A linha atroz que fomos obrigados a atravessar. Cada um por sua conta e risco. 

        Você disse que eu era o seu tudo e eu acreditei. Que os deuses me matem por isso. Ontem, antes de dormir, me peguei pensando em você. Lembrei do seu cheiro, da sua barba, do seu toque…

           Quando te vi entrar naquele cemitério, tudo em mim ganhou encanto. Como pode? Alguém ser tocada pelas mãos do viver em um lugar tão inapropriado para isso? Todavia, você sempre soube despertar oásis e mundos em mim.

         Eu enterrando minha mãe, você visitando seu pai. O par perfeito. A que foi ferida com o luto mais desestruturante que alguém pode ter e você se afogando no seu. Era para ter acontecido, penso.

         Também penso que poderíamos ter feito mais pela gente. Entretanto, depois que se ordenha uma vaca, não há como pegar de volta o que dela saiu. É seu. Faça o que quiser ou o que der para fazer. Um doce, uma bebida, não sei. A vida é sua. 

           Recorda de quando você me pegou te encarando? Viu que estava sozinha, se aproximou e ficou ali quieto enquanto eu tentava não desabar. Até hoje me pergunto como você soube que eu precisava tanto de um abraço naquele nefasto momento. 

        Ter seus braços me enrolando, me protegendo, descortinando algo que eu nunca soube o que é: afago. Foi o que eu, mesmo sem saber, mais precisava. 

        Ninguém apareceu naquele dia para enterrá-la. Foi só eu. Eu e a mulher que mais me fez mal no mundo, e mesmo assim lá estava. Qual ser humano dá a própria filha para uma desconhecida criar enquanto se diverte com os vagabundos da rua? Era o que eu me perguntava antes de você se aproximar. Qual?

       Com certeza, um ser humano que não tem em si nada de humano. 

        Mas, entre seus braços, eu tinha a íntima certeza de que eu não seria mais abandonada. Tinha certeza, a cada abraço, seja no nosso primeiro encontro, seja no nosso casamento, seja quando trouxemos nosso lindo filho para casa após um longo período no hospital depois do parto. Não importava o momento, eu sabia que poderia confiar em você. 

       O mundo lá fora me desprezava, me escarnecia, me dava migalhas, porém era em você, meu lugar favorito, que encontrava paz.

         Nossas noites de amor, nossas noites com Gabriel, nosso filho querido, o maior presente que Deus nos deu. 

           Como cresceu rápido, né? Era um garoto que jogava os brinquedos pela casa, que caía de bicicleta e corria para meu colo clamando por ajuda, um príncipe que tive a honra de ver crescer.  Lindo, inteligente, saudável. 

           Lembra, Jorge, quando ele nos apresentou Heloísa?

           “Mãe, pai, essa é minha namorada.”

         Quis morrer naquele dia. O meu bebê, meu frágil bebê, aquela coisinha minúscula que demorei doze horas para trazer ao mundo, agora tinha uma namorada. E eu? Onde ficava nessa história?

         Porém, Heloísa era uma boa garota, ela passou em medicina mesmo. É muito inteligente, Gabriel também é. Sei que em breve tudo vai se ajeitar e ele também vai para a faculdade. Meninos como ele merecem ganhar o mundo. 

          Recorda, Jorge, recorda da festa surpresa que fizemos para ele quando ia completar o segundo grau? 

         Lembra que naquele dia, fui buscá-lo na escola, porém tive que levar o amigo dele à emergência porque havia quebrado o braço na educação física e demoramos mais do que o esperado.

       Contudo, você me disse que não tinha problema, que até era bom, pois assim Heloísa e tu teriam mais tempo para deixar tudo arrumado para o nosso menino se sentir o homem mais especial do mundo.

          Tenho certeza de que não esqueceu de quando entramos na sala e vimos você e Heloísa um dentro do outro?      

        Você reflete, Jorge, de como fez com que as pétalas de rosa que caminhamos sobre ao decidir nos unir viraram um bosque horrendo composto por espinhos sublevados que penetraram minha carne com fúria e fervor?

       É impossível obliterar de minha memória o exato momento em que Gabriel pegou a faca na cozinha e correu para cima de você.

         Lembra, Jorge, de como você estragou tudo? 

        Hoje tenho um filho lindo e inteligente atrás das grades e tu aqui do lado desse demônio que me trouxe ao mundo. 

        Aprendi, querido, da forma mais nefasta que existe, e graças a você, que um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra.

 

FIM!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cartomante Marieta - Dinah R. de Amorim

 



A CARTOMANTE MARIETA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Marieta, menina quieta, tímida, sonhadora, vivia cismando pelos cantos da casa.

Sua mãe, preocupada, chamava-lhe a atenção e enchia-a de tarefas. “Que será que essa menina pensa tanto?”, perguntava-se!

A menina foi crescendo, estudando, aprendendo coisas novas, mas o temperamento não mudou muito: observava e estudava as pessoas! Sentia-se atraída pelo desenvolvimento e sentimentos humanos.

Talvez seja uma psicóloga, pensa a mãe, mas Marieta logo abandonou os estudos. Começou a dar conselhos e atendimentos particulares a quem dela precisasse. Tornou-se uma verdadeira cartomante, popularmente chamada, baseada nos seus instintos ou intuições.

Com o tempo, não só conversava, mas utilizava-se das cartas de um baralho velho, deixado por sua avó. Afeição a ela, com certeza.

Talvez fosse isso, pensava a mãe, o espírito da avó agindo nela. Um tipo de médium ou vidente, sabe-se lá. O fato é que ela começou a trabalhar com isso e cobrar seus conselhos, para ganhar a vida.

Com o tempo, ficou famosa, sendo procurada até por professores universitários, quando necessitavam.

Uma coisa era realmente verdade: todos tinham algum problema ou dúvida durante a vida e, à sua maneira, Marieta satisfazia as curiosidades.

Sua fama foi crescendo e a situação financeira também. Começou como uma sentimental, humana e crente a resolver e auxiliar o próximo, mas, gradualmente, tornou-se uma eficiente malabarista da profissão. Respondia mecanicamente a todos, sabedora das satisfações e insatisfações alheias.

Até então, todos que atendia saíam esperançosos e ansiosos para seguirem seus conselhos.

Teve um homem que apareceu nos arredores, atraído por sua fama. Era muito experiente em jogatinas e o baralho, sua preferência.

Incrédulo em favores do além, confiante em sua sorte e conhecimento, quis conhecer Marieta. Saber de onde e como vinham seus conhecimentos e afirmações. O dinheiro, principalmente.

Marcou uma consulta e resolveu estudá-la melhor. Observar o conhecimento do que afirmava, de onde vinha.

Marieta, ao recebê-lo, teve leve intuição: não era sincero, só queria estudá-la.

Perguntou-lhe sobre sua vida, seus problemas, o que o atraíra até ela?

O homem, chamado Mário, o jogador sortudo, como era conhecido em seu meio, queixou-se das finanças, da vida emocional, não encontrara em sua vida um verdadeiro amor.

Marieta foi mandando-o cortar o baralho em várias etapas e ele, conhecedor das cartas, foi logo percebendo quais seriam tiradas. Sobre as finanças, o Ás de ouro; sobre o amor, o Rei de espada; e assim por diante. Percebia até o que a mulher falaria sobre cada assunto.

Mário, intimamente, ria-se dela, sabendo que não possuía dom algum, mas somente conhecedora do significado sentimental de cada carta sorteada. Uma jogada popular, conhecida, sem nenhuma validade emocional mais profunda ou espiritual, somente sorte também.

Marieta, percebendo que o moço era também um conhecedor do assunto, concentrou-se melhor, pensou na avó, resolveu responder com a maior seriedade sobre o assunto, coisa que há tempos já não fazia!

Concentrou-se tanto, meditou alguns minutos, olhou-o firme e mandou que escolhesse uma carta mais pessoal. Mário tirou uma dama de paus.

Respondeu-lhe seriamente que era a carta da vida passada! Mário, curioso, sensibilizou-se um pouco e, atencioso, lhe escuta.

Marieta, nem sabe explicar como, palavras lhe saem, jorram de sua boca como tiradas de algum poço fundo, vindo à tona e derramadas, amargas como um remédio fétido.

Fala sobre o início da vida de Mário, sua infância triste, em um orfanato, distante dos pais e da família.

Crescido, envolve-se com jovens imaturos como ele, escapando de aprisionamentos e acusações maiores, devido à sorte que apresentou em diversas ocasiões.

Acometido de uma doença grave, infecciosa, quase levando-o à morte, sai-se dela, curado, sabe Deus como? Talvez devido à sorte também.

Começa a se envolver com jogos, principalmente baralhos, aproveitando o único modo de vida que o entretinha e que lhe trazia algum retorno.

Chega até ela, Marieta, com desconfiança e vontade de desacreditá-la publicamente, por puro exibicionismo, descrença e apostas feitas com amigos das jogatinas da cidade.

Marieta para, ofegante, respira fundo, nem percebe que o rapaz a olha espantado, com respeito e admiração.

Mário, cabisbaixo, pergunta-lhe como adivinhou certas passagens de sua vida, olhando simplesmente através das cartas de um baralho?

Sabia manejá-las bem, mas adivinhar o passado, falar sobre vidas pessoais, ele não conhecia nada.

Nem ela entende bem o que houve. Alguma inspiração lhe acontecia, de vez em quando, desde menina, sem saber direito o porquê?

Usava o baralho como única aprendizagem que sabia sobre o assunto.

E assim ficaram ambos, se olhando e meditando, procurando solucionar ou responder sobre o acontecimento, boquiabertos, mas sem emitir nenhum som.

Mário, sem saber como lhe agradecer a consulta, e Marieta, sem saber o que lhe acontecia, em verdade, por meio de um baralho ou não. Talvez o usasse, simplesmente, como desculpas para explicar às pessoas o que sentia realmente.

O tempo passa. Alguns anos transformam o rumo de nossas vidas. Fatos acontecem para modificá-la, melhores ou piores, dependem das nossas escolhas.

Estamos agora em frente a um Instituto Novo, que fornece estudos em parapsicologia. “Mente Sadia!”, fundado pelo teólogo Rogério Azevedo.

Muito procurado por pessoas interessadas, é auxiliado por uma simpática senhora, Dona Marieta, uma sensitiva, que atende os pacientes e os aconselha, simplesmente colocando as mãos em seus pulsos.

Já estão sendo reconhecidos pela Sociedade Nacional de Psicologia, através do sucesso em trabalhos realizados.

Quem é o secretário particular da instituição? O ex-jogador Mário, convertido a essa doutrina e marido de Dona Marieta.

 

 

 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

“O Sapo não lava o pé. Não lava porque não quer” - Hirtis Lazarin

 



“O Sapo não lava o pé.

Não lava porque não quer”

Hirtis Lazarin

 

Dona Elvira nunca começa o dia sem uma série de rituais meticulosos. Senta-se na cama, de olhos fechados e bem concentrada, reza uma porção de ave-marias. “Quantas você reza?” “Um monte”.  É devota de Nossa Senhora de Fátima. A Santa fica num pequeno altar forrado com seda, onde não pode faltar uma rosa branca fresquinha.

 

Só deixa o quarto com a cama bem arrumada. Casa desorganizada, desorganiza a vida.

 

 E o marido está lá na cozinha resmungando, há mais de uma hora, à espera do café com pão. 

 

Para ela, gatos pretos não dão azar; eles são o azar. Ela desvia quarteirões inteiros para evitar cruzar com um.

 

Semana passada, fiquei preocupada porque a encontrei chorando desconsoladamente. O motivo? Naquela manhã, acordou assustada com a campainha da porta tocando desesperadamente. Saltou rápido da cama e o primeiro pé que tocou o chão foi o esquerdo. Tinha certeza de que, mais dia, menos dia, algo muito ruim aconteceria.

 

Já pesquisei bastante sobre superstições, já conversei, já expliquei pra ela milhões de vezes. Desisti porque Dona Elvira tem hoje setenta anos e a cabeça não vai mudar. Os filhos contam que se cansaram de contestá-la e acabaram se acostumando com as doidices da mãe.

 

Naquela terça-feira chuvosa, saiu de casa pra visitar a netinha doente que morava do outro lado da cidade.

 

O trajeto até o ponto de ônibus exigia que ela passasse por baixo de uma escada de manutenção que a prefeitura havia instalado na calçada estreita.

 

Elvira parou… Examinou… Passar por baixo da escada, jamais; era um presságio terrível, um convite aberto ao azar.

 

Olhou pra rua molhada, esburacada e cheia de poças d’água.  A única alternativa seria desviar para a sarjeta, dar a volta ao obstáculo e pisar diretamente na água suja. Adeus à sapatilha de “ir à missa”. Calculou que meia dúzia de passos largos a trariam de volta à calçada.

 

Toda cuidadosa, mas receosa e de cara feia, tampou o nariz e enfrentou a situação; deu dois passos no asfalto da rua e, já no terceiro ou quarto, não sentiu o chão. A poça traiçoeira pegou-a de surpresa. O pé direito atolou, o sapato ficou preso e a água chegou até metade da canela. Um grito dolorido soou no silêncio da rua vazia. Eram quase cem quilos de gente estatelada no chão.

 

E, pra completar, num movimento espalhafatoso, saltou do buraco um sapo de olhos esbugalhados, jogando água suja pra todos os lados. Graças a Deus que ela nem viu, já estava desmaiada.

 

Dona Elvira está hoje com a perna imobilizada e assim ficará por três meses. Impossibilitada de colocar os pés no chão, resolveu ler pra preencher o tempo vazio. “Crendices e superstições” foi o primeiro livro escolhido.

 

Que moral tenho eu, agora, pra dizer a ela que superstição é crença  sem fundamento lógico ou científico?

 

 

O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

  O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA PEDRO HENRIQUE   Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líqui...