HELENA E AUGUSTO
Henrique Schnaider
Helena era uma mulher atraente, mas não tinha encontrado alguém com quem quisesse dividir a vida. Havia dias em que a solidão pesava mais, sobretudo quando chegava em casa e não tinha a quem contar alguma coisa boa que lhe acontecera.
Gostava de ir à praça. Sentava-se num banco e ficava observando os passarinhos, os esquilos e os saguis entre as árvores. Às vezes, passava ali a tarde inteira.
Foi numa dessas tardes que Augusto se sentou ao seu lado. Tinha uma aparência jovial e um jeito tranquilo. Ficaram em silêncio por alguns minutos, até que ele comentou alguma coisa sobre os animais. Helena respondeu, e a conversa começou. Quando se deram conta, já estava ficando tarde.
No encontro seguinte, ela soube seu nome. Depois, vieram outras conversas, um convite para almoçar, um jantar. Helena passou a se arrumar com mais cuidado antes de sair. Escolhia a roupa, mudava de ideia, voltava ao espelho. Fazia tempo que não se sentia assim.
O romance aconteceu aos poucos. Augusto se tornou parte dos seus dias, e Helena já não imaginava a semana sem vê-lo. Gostava de ouvi-lo, de andar ao seu lado, de prolongar a despedida.
Começaram a fazer planos. Falavam de viagens, de lugares que gostariam de conhecer e da possibilidade de morar juntos.
Um dia, porém, Augusto não apareceu na praça. Helena esperou até o fim da tarde. Pensou que ele tivesse tido algum imprevisto. No dia seguinte, voltou ao mesmo banco. Nada. Depois de alguns dias, telefonou para o número que ele lhe dera e descobriu que era falso.
Não conseguia entender. Repassava as últimas conversas, procurando alguma palavra, algum gesto que explicasse o desaparecimento. Sentia saudade, mas também raiva.
Algum tempo depois, um entregador tocou a campainha. Trazia uma carta de Augusto. Tinha esperado tanto por uma notícia e, agora que ela chegara, não conseguia abrir. Deixou a carta numa gaveta. Em certos dias, tirava-a de lá, olhava seu nome escrito e tornava a guardá-la. Até que resolveu ler.
Augusto estava muito doente. Escrevia que lhe restava pouco tempo e pedia perdão por não ter contado a verdade. No fim da carta, havia um endereço.
Helena leu mais de uma vez. Queria ir vê-lo, mas ainda estava magoada. Demorou a decidir. Quando finalmente foi, uma moça atendeu à porta.
— Eu estou procurando o Augusto.
A moça ficou em silêncio por um instante e perguntou quem ela era. Helena contou sobre os encontros na praça, o namoro e a carta.
— Sou Sofia, irmã dele.
Foi ali, à porta, que Helena soube da morte de Augusto. Sofia a convidou para entrar. As duas conversaram, choraram e, antes que Helena fosse embora, ficaram abraçadas por um longo tempo.
Ela voltou na semana seguinte. Depois, voltou outras vezes. Sofia queria conhecer a mulher por quem o irmão havia se apaixonado; Helena queria ouvir suas histórias, saber como ele era antes de se encontrarem naquele banco.
Com o tempo, já não falavam apenas de Augusto. Tomavam café, saíam para fazer compras, telefonavam uma para a outra quando acontecia alguma coisa. A amizade foi crescendo nessa convivência.
Anos depois, decidiram morar juntas. A casa ficou mais movimentada, havia companhia para as refeições e alguém a quem desejar boa-noite.
Às vezes, Augusto ainda surgia numa conversa, e uma delas chorava. A outra acudia.