A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

quarta-feira, 11 de março de 2026

Fora do meu CEP - Hirtis Lazarin

 


Fora do meu CEP    

Hirtis Lazarin                                                   

 

Faz mais de dois anos que Frederico decidiu morar sozinho, entre o concreto e o silêncio. Nasceu numa família barulhenta onde não existia privacidade e os conflitos eram constantes. Ter uma chave que só ele possuía e encontrar a xícara de café sempre na mesma posição trazia-lhe estabilidade emocional.

 

Era um domingo à tardinha.

O vento entrava pela fresta da janela como um fantasma de seda, gelado e invisível. Sobre uma mesa pequena, ao lado do sofá de um lugar só, estava uma xícara de chá que não fumegava mais; o que restou foi apenas uma mancha no fundo da porcelana. 

O telefone tocou diversas vezes. É claro que ele sabia quem estava do outro lado da linha, era um amigo que falava demais, tinha hora pra iniciar a conversa, mas não tinha hora pra acabar. Queria apenas terminar o dia assistindo a um bom filme na tv. Ele adorava os coreanos, já tinha assistido a três deles e adorou! O difícil era decorar os nomes compostos dos personagens: Y-seo, Seo-ha, Do-yom, Si-woo. Imagine um filme com meia dúzia de gente… Só mesmo escrevendo os nomes num papel.  

A tarde escureceu de chuva. Sentiu frio e se enrolou na manta que cobre o tecido rasgado do sofá — não sobrou ainda dinheiro pra comprar um novo — era mais prático e mais rápido do que buscar um casaco no quarto. Na verdade, acredito que Frederico é uma alma que cultiva a imobilidade.  

Com o controle remoto nas mãos, percorreu o Netflix e, rapidinho, o filme já estava rolando. Ali, no calor do tecido e no silêncio da noite, o sono não veio como um cansaço, mas como uma extensão da paz. Ele fechou os olhos e dormiu ali mesmo no sofá. Acordou apenas quando a luz pálida da segunda-feira chegou ao quarto. 

Pra ele, não havia o peso da “segunda-feira”, já que domina o próprio tempo. O despertar foi, simplesmente, o retorno à rotina. Com exatidão, ele estendeu a manta no sofá e preparou o corpo para o mundo externo: repetiu uma sequência de exercícios até sentir-se em plena forma pra enfrentar o dia. Escolheu cada peça de roupa sem vaidade, apenas como uma armadura necessária para atravessar o caos urbano. 

Ao fechar a porta do apartamento e ouvir o estalo metálico da fechadura, deixou para trás o seu santuário de concreto. Caminhou pelo corredor do prédio com a coluna ereta, levando consigo o mesmo silêncio que cultivara no final de semana. Ele não ia ao trabalho como quem é arrastado pela obrigação e, por mais barulhenta que fosse a rua, ele carregava no peito o silêncio do seu próprio apartamento. 

Como se seguisse um roteiro invisível, ele cruza a porta da padaria-de-todos-os-dias. O cheirinho do pão quente é irresistível. Sem precisar dizer uma palavra, recebe do atendente o mesmo café curto e a média na chapa caprichada. Senta-se na banqueta do canto e observa o vai-e-vem da rua. É um momento silencioso, o último respiro de calma antes que a engrenagem do dia de trabalho comece a girar. 

Mas houve um dia na semana em que ele deixou o trabalho todo atrapalhado. Tomou o ônibus errado e, quando percebeu, já era o ponto final. Estava igual barata tonta, batendo nas paredes e tentando decidir se vira de perna pra cima ou se continuava correndo. Entra num boteco e consome várias doses de cachaça.

 

Afinal, o que aconteceu naquele dia? 

A empresa onde ele trabalha, ao final de cada ciclo de metas, faz um sorteio entre os funcionários. O RH havia decidido que, daquela vez, o prêmio máximo não seria em dinheiro, mas em “experiência” — uma palavra que soava perigosa para alguém que passara os dois últimos anos vivenciando nada além do necessário.  

Entre copos de plástico e muita alegria, o nome foi anunciado pelo chefe.  O silêncio foi subitamente estilhaçado por gritos e aplausos acompanhados por olhares sem rumo que buscavam o sortudo do dia:  Frederico, o premiado, era o homem mais reservado da empresa.  

Com o mesmo desapego com que alguém caminha para um interrogatório, ele buscou o envelope-surpresa. Pensou em não abrir, mas não houve jeito diante da gritaria curiosa dos colegas. Gaguejou cada palavra que leu: “uma semana numa fazenda”.

Por um segundo, o mundo ao redor — o cheiro de café, o burburinho das conversas paralelas e a luz fluorescente do escritório — tudo pareceu perder a nitidez. Ele sentiu uma espécie de vertigem. Enquanto os colegas celebravam a 'sorte' com tapinhas nas costas, ele sentia apenas o peso de uma engrenagem quebrar dentro de si. A ordem que ele levara tempo para edificar no concreto de sua casa, acabara de ser atropelada pelo capricho do acaso. 

Na manhã seguinte, abriu uma mala grande e dobrou suas roupas com precisão matemática, preparando-se para o embate entre a sua ordem de cimento e o caos orgânico da terra. 

O veículo percorreu muitos quilômetros em três horas de viagem e parou. Quando Frederico abriu a porta, o ar não pediu licença e invadiu seus pulmões com uma densidade de terra molhada e mato que o concreto jamais permitira. O homem de cinza desceu do carro e sentiu, pela primeira vez em anos, a incerteza do solo. O cascalho rangia sob seus sapatos de sola lisa e não aceitava a sua pisada enérgica. Ele estava diante da sede da fazenda, mas seus olhos não buscavam a arquitetura, eles se perdiam na ausência de quinas. No campo, o céu não era pedaços entre prédios, era uma majestade esmagadora que o fazia sentir-se perigosamente pequeno. 

Ele caminhou em direção à varanda carregando a mala como quem carrega um escudo.  O silêncio da fazenda não era o silêncio limpo do seu apartamento, era um silêncio povoado. Havia o estalar da madeira que ficava ao sol, o farfalhar das folhas de uma imensidão de árvores e o som de pássaros que ele nunca viu. 

Ao entrar no quarto que lhe fora destinado, buscou imediatamente os limites. Passou a mão pela parede de alvenaria grossa, procurando a frieza que o confortava na cidade, mas encontrou apenas calor vivo. O quarto não era grande, mas confortável e os lençóis cheiravam a amaciante. Abriu a mala e começou a organizar seus pertences lentamente, tentando imprimir sua organização naquele ambiente rústico. Enquanto empilhava suas camisas sobre a cômoda de madeira antiga, ele percebeu o contraste: ele era uma linha reta e o mundo era feito de curvas.  

Durante o jantar, Frederico sentia-se exposto na imensidão daquela cozinha de teto alto. Entre as diversas opções de comida, serviu-se de caldo verde e mantinha os olhos fixos no vapor cheiroso que subia do prato de cerâmica; usava a colher com cuidado pra evitar que o metal batesse na louça e incomodasse aquela quietude. Quando os anfitriões tentavam uma investida — um comentário sobre o tempero ou o cansaço da viagem —, ele apenas oferecia um sorriso curto, apertado, e um aceno de cabeça que morria antes de virar frase.  

"Por que as pessoas aqui falam tão alto?”, ele se perguntava, enquanto o som da risada do anfitrião corria longe. No subúrbio onde morava, o silêncio era uma regra de convivência; ali, o silêncio era uma entidade viva que ele tentava preencher mastigando devagar, contando cada movimento da boca. Ele sentia o peso do olhar dos outros sobre sua mudez, uma pressão que o fazia desejar o barulho de um escapamento de moto ou a sirene de uma ambulância, qualquer coisa que justificasse sua vontade de se encolher. 

Frederico deitou cedo, esperando o silêncio absoluto, mas a cada estalo da madeira da casa antiga ou o barulho de gato andando nas telhas soava como uma invasão.  O pior de tudo eram os grilos e esperanças lá fora que pareciam estar fazendo um ensaio de bateria no quarto. 

Vira e revira na cama e, quando consegue pegar no sono, um galo, posicionado com precisão sádica logo abaixo de sua janela, soltou seu primeiro grito pra quebrar o silêncio da madrugada. Eram cinco horas da manhã. O homem encarou o teto do quarto tentando manter a serenidade, mas a ave que mal começara sua função, encheu os pulmões e soltou outro grito, tão estridente, que terminou num engasgo cômico.  

O homem levantou, abriu a janela, não mais com sua habitual calma, e encarou a ave. O galo, por sua vez, inclinou a cabeça, olhou-o com um olhar lateral e cínico, e soltou mais um brado, como se dissesse que, ali, quem ditava a pauta da manhã não era a disciplina, mas o instinto. 

Incrédulo, debruçou-se sobre a janela e acompanhou os passos da ave que caminhava com o peito estufado e arrogante como ela só. Sente, então, um cheiro forte que não é de café, mas sim de esterco vindo direto do curral, espalhado pelo vento da manhã.  “Acho que o “presente” de passar uma semana aqui foi, na verdade, uma pegadinha”.

 

E o dia de Frederico mal começou.

 

A mesa do café era um convite ao aconchego, farta com o cheirinho adocicado do café coado na hora e o brilho do queijo mineiro curado. Entre fatias de bolo de fubá úmido e pães caseiros ainda quentes, o cenário simples e rústico era um convite à gulodice isenta de questionamentos. 

Ele sentou-se à mesa e, enquanto tentava cortar uma fatia de queijo, uma mosca varejeira iniciou um voo rasante. Ele parou o garfo no ar, esperando a intrusa se retirar por vontade própria, mas o inseto pousou primeiro no queijo, depois lambeu a goiabada e finalmente descansou na ponta do seu nariz. O homem que nunca piscava diante de uma planilha de crise, viu-se cruzando os olhos num esforço patético para ignorar o inseto. E lá, do lado de fora, uma criança, que observava a cena, soltou uma gargalhada e saiu correndo.

 

“Frederico, você foi afrontado por uma mosca?” 

Não, ele vai acabar com ELA.

 

Ele não aceitaria aquela invasão. A mosca era a desordem que, em pleno voo, zombava de um homem estritamente suburbano. Abandonou o garfo e monitorou o trajeto do inseto desde que saiu do seu nariz. Quando a intrusa pousou na borda da mesa, o estalo foi seco: a mão que assinava relatórios desceu como um tijolo de concreto.

Houve um silêncio súbito. Ele levantou a palma da mão e encarou o pequeno ponto negro esmagado contra a madeira rústica. Não houve culpa, apenas satisfação por cumprir uma tarefa. Limpou a mão no guardanapo de pano, sentindo que, naquela pequena execução, havia retomado o autocontrole. Com calma gélida, ele espetou o garfo no queijo, atento apenas às delícias que estavam sobre a mesa. 

Mais tarde, ao tentar realizar uma caminhada pelo pasto, uma vaca que bloqueava o caminho como se fosse um pilar de sustentação. Ele parou a uma distância considerável, não teve medo, só esperando que o animal saísse amigavelmente da sua frente.  “Com licença”, ele quase disse. A vaca, no entanto, interrompeu a mastigação para encará-lo com a mesma lentidão com que foi encarada.  Ele tentou contorná-la pela esquerda e depois pela direita. Ela não saiu do lugar e balançou a cabeça. Um enxame de moscas, incomodado pelo movimento, migrou do corpo peludo diretamente para o rosto dele. O homem que não perdia a compostura nem no empurra-empurra do metrô lotado, nem no trânsito parado, viu-se, de repente, agitando os braços, desajeitados, contra insetos invisíveis.  A vaca olhava-o com profundo desprezo. 

Mas foi no galinheiro que aconteceu o ápice do dia. Ele se voluntariou para colher os ovos. Chegou ao recinto com a postura de um inspetor de obras, segurando uma cesta de vime como se fosse uma pasta de couro. O cheiro de palha acumulada atingiu suas narinas e ele começou a espirrar sem parar. Era alérgico. Para as galinhas, aquele homem era um intruso desajeitado que invadiu sua privacidade. 

Ao esticar a mão para alcançar um ovo branco sob uma galinha carijó, ele sentiu o golpe: uma bicada seca e precisa diretamente no nó do seu dedo. Sobressaltado, recolheu a mão e o movimento brusco foi o sinal de guerra que o galinheiro esperava. Em segundos, o ar se encheu de penas e cacarejos histéricos. As aves batiam as asas contra suas canelas e, contra seus pés, desferiam bicadas impiedosas e vigorosas, causando uma dor aguda a cada golpe certeiro. O terror se completou quando o galo se juntou ao massacre. Ergueu sua crista vermelha-escarlate como um estandarte de guerra e golpeou com fúria selvagem os pés do coitado. 

O homem do concreto, na tentativa de fuga, viu-se executando uma dança de passos desencontrados, em meio àquela nuvem de poeira e palha. A cesta de vime foi jogada longe e, enquanto ele recuava em direção à saída, tropeçou num poleiro e depois em outro.  E quando pisou, literalmente, em ovos, muitos ovos, sentiu que seria trucidado pelo bando enfurecido. Ofegante e sem forças, conseguiu trancar a grade por fora.  A camisa estava rasgada e manchada de penugem. Deu alguns passos e olhou pra trás: o galo e as galinhas o encaravam vitoriosos. Ele saiu dali arrasado. 

Frederico olhou para o relógio. O vidro estava quebrado e o mostrador ainda marcava o ritmo acelerado da cidade, mas o sol da fazenda não tinha pressa. Faltavam seis dias. Seis dias de embates com moscas burocráticas, vacas filosóficas e aves de rapina domésticas. 

Voltou para o quarto, dobrou suas camisas e fechou a mala com um estalo seco. Ele não esperaria o fim da semana. Sua paz dependia do isolamento acústico e da frieza das paredes que não respiram. Ao caminhar de volta para o automóvel, ignorando o galo que parecia ensaiar um último deboche, o alívio de quem retorna ao exílio voluntário.

  



quarta-feira, 4 de março de 2026

O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 



O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA

PEDRO HENRIQUE

 

Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líquido beija meu corpo, cobre cada poro e reivindica de mim submissão.

Quer que me torne sua cadela fiel, que me ajoelhe diante de tua soberania, que me enterre na terra fúnebre do fato, porém o que se concentra na íris, na janela cristalina de minha pobre alma, é ódio, apenas ódio.

 Pego-o do vale sangrento, ponho-o em minha taça e degusto com lampejos de descanso nos ombros. Meu pai foi assassinado.

 Um homem que dava as bocas, com recorrência, sorrisos para baixo, que fazia da vida palco de distribuição de ofensas e maldições, agora está morto.

 Quando pequena, lembro de, em um jantar, um dos últimos com vovó Gilda, antes dela falecer, de ouvi-la dizer que a morte é a mais bela e feia dançarina. Desde quando entoamos nosso primeiro berro ao sair dos ventres de nossas mães, somos convocados para seu baile.

 Não há “eu não quero”. Você vai, a contragosto, mas vai. Ao decorrer da festa, ela dança, tão bela, tão feia. Seus passos são ágeis e leves, uma combinação perfeita de rigidez e espontaneidade. Como uma pena que não se importa de defrontar-se com o solo, quer é a performance magérrima do cair dançando entre os revigorantes ventos.

 E, com sua postura dominante, tira alguém para dançar. Uns demoram anos, outros, assim que entram no salão. Meu pai, pelo visto, já estava no radar dela há um certo tempo.

 Penso em querer também um pouco de morte. A morte talvez seja a única porta de escape para sentir-me flertando com a calma de não ter ciência do poder violento que reside na mão de um homem.

Mamãe sempre dizia que os homens são bichos que precisam ser domesticados. São como cães raivosos. Já nascem com uma necessidade inata de se provar viril. De honrar com brigas, palavrões, provocações e paixões calorosas o que a natureza lhe empregou entre as pernas.

 Mamãe era uma mulher completamente às avessas disso, detinha uma serenidade oceânica. Acredito que foi essa a característica que fez meu pai se entregar aos seus encantos e adormecer no seio afagoso de seu amor e acalento.

 Lembro que ela tinha a habilidade surreal de acalmá-lo nos momentos de histeria demasiada. Ela literalmente o pegava no colo e o ninava, como se faz com um recém-nascido.

 Uma vez, saímos todos juntos para jantarmos fora e no estabelecimento estava passando o jogo do time que meu pai torcia, todavia o grupo estava perdendo. Não havia nem terminado o primeiro tempo e levaram dois gols.

 Ele berrava descontrolado, amaldiçoava os jogadores, adjetivava a mãe do juiz enquanto a torcida do outro time vibrava. As veias dos torcedores faltavam pular de seus corpos suados e sorridentes. Parecia que de seus poros sairiam fogo de tão eufóricos que estavam. Era um sentimento tão incompreensível para mim. Porém, entendo que todos têm suas paixões, cabe a nós respeitá-las.

 Quando o grupo que estava liderando a partida fez o terceiro gol, foi a gota d'água para meu pai.

 Enquanto o torcedor do outro time, que estava à mesa ao lado, comemorava, meu pai dava a todos seu arsenal de palavras de baixo calão.

 Quando estas não lhe saciavam, batia na mesa. Quando compreendeu que isso também não seria suficiente, foi para cima do rapaz da mesa ao lado.

 Este experimentou amargamente o gosto de sangue inundando sua boca, como um rio que, em um período de chuvas robustas, domina, raivoso, todo o território.

 Foram tantos socos que meu pai desfigurou nele, foi laborioso tirar aquele bicho selvagem, sem controle, de cima do rapaz completamente inerme.

 O dono do estabelecimento mandou que nos retirássemos aos berros e meu pai nos conduziu para casa, também aos berros.

 Mamãe já sabia desse enredo e qual a metodologia aplicar. Quando chegamos em casa, ela me pôs para dormir e foi ter com meu pai. Enquanto ele xingava, ela passava as mãos por suas costas, beijava seu rosto, o abraçava, até que ele veio para seu colo e ela ninou para ele de modo que ele caiu no sono.

 Ninou para o bicho adormecer, ninou para não ter, outra vez, a tatuagem feita à mão de cinco dedos em sua cara. Ninou porque sabia que o animal fora da jaula tinha a cruel capacidade de fazer estragos indeléveis em seu corpo, em sua alma.

 Eu chorava quando isso acontecia. O que podia fazer? A lágrima se tornou meu único consolo. Era a forma mais gentil que tinha de dizer a mim: “Você não tem culpa.”

 Quando meu pai chegava do trabalho e o bicho vinha com ele, eu chorava.          

 Quando eu fazia alguma arte, ínfima sequer, e contemplava em seus olhos o animal horrendo subjugando seu corpo enquanto descortinava para mim, através da fivela do cinto, o poder violento que reside na mão de um homem, eu chorava.

 Nada estava ao meu alcance. Era como tentar pegar água na mão: inútil. Eu me sentia assim: inútil. Eu era assim: inútil.

 Um dia, quando mamãe voltou da escola onde trabalhava, o demoníaco bicho a aguardava. Ele já havia me visitado com sua mão violenta por ter me pego descobrindo que o beijo de um rapaz pode despertar paraísos dentro de nossos ansiosos corpos.

 Meu pai bateu no garoto e em mim. Eu não sabia que ele chegaria cedo do trabalho naquele dia.

 O mais triste foi que ele atribuiu a culpa de toda a conjuntura à mamãe, mesmo eu denunciando de forma veemente que ela não sabia de nada. Que não era para machucá-la. Machucasse a mim, que era a autora legítima do pecado, não a miserável que teve o extremo azar de cair em suas garras.

 Naquele dia, só ouvi os berros de mamãe, os gritos de meu pai. A fúria imperiosa que emergia daquele homem letal.

 Recusei-me a chorar. Recusei-me a ser uma inútil outra vez.

 Poucos flashes suscitam em minha memória no tocante ao nefasto momento: eu saindo do quarto, pegando o jarro de flores da mesa de centro, quebrando-o na mesa para que dele restasse somente algo pontiagudo e meu pai deitado no chão, bebendo o próprio sangue.

 Ali, naquele exato fragmento do tempo, contemplei, horrorizada, que dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertia o líquido atroz da vida. Líquido este que consagra o homo sapiens ao perpétuo caminhar na trilha espinhosa do existir em meio ao poder violento que reside na mão de um homem.

 

A HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD - Henrique Schnaider

 

 


A   HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD

Henrique Schnaider

 

Feliciano Gotard é um empresário bem-sucedido do ramo da navegação, já tendo construído mais de cinquenta navios petroleiros.

É um homem tranquilo, casado com Camila e, por muitos anos, feliz. Pai de Joana e Alex, filhos já adultos, ela com dezoito anos e ele com vinte anos.

Os filhos, Alex, cursando Medicina, e Joana, uma aluna exemplar de Engenharia.

Nos últimos dias, Feliciano está passando por momentos difíceis, já que está estranhando o comportamento de Camila, que não é mais a mesma pessoa que convive com ele há tantos anos.

Feliciano telefonou para um detetive indicado por seu melhor amigo Rodrigo, que lhe garantiu ser de máxima confiança.

O empresário teve uma reunião com o detetive Jarbas e o contratou para seguir Camila, onde ela estivesse, e assim lhe informasse sobre as atividades da esposa. Queria poder garantir que Camila era fiel e não estava tendo nenhum caso extraconjugal.

Feliciano estava no salão do luxuoso Hotel Green Wille, se preparando para um encontro com altos empresários ligados ao seu ramo de negócios. O projeto seria a construção de um navio de guerra, um enorme porta-aviões.

A reunião não havia iniciado, quando toca o celular de Feliciano e o seu coração bate descompassadamente ao ver o nome “Jarbas” no visor.

Mesmo com medo do que ouviria, Feliciano atendeu à ligação. Jarbas, então, lhe dá a triste notícia da constatação de que Camila estava lhe traindo com um homem bem mais jovem que ela. E acabaram de entrar num motel.

O golpe em Feliciano foi mortal, ele balançou o corpo e caiu desmaiado. Mais tarde, os médicos relataram que ele foi vítima de um derrame cerebral.

A vida de Feliciano acabou, apesar de ter sobrevivido ao derrame, vegetava, sem movimento dos membros inferiores e a fala que se embolava, um verdadeiro morto-vivo.

Camila arrependeu-se da traição, mas agora era tarde, não tinha como consertar o que aconteceu.

O castigo de Camila foi ter que cuidar do marido até o fim dos seus dias. A traição é a pior das atitudes de um ser humano, seja ela em que sentido for.



Bernardete - Elidamares Bianchi Rosa

 


Bernardete 


A casa estava em silêncio agora. A filha Simone fora a última a sair.  Bernardete parecia ainda ouvir o diálogo com a filha: “mamãe, não quer ir comigo?”.   “Não é necessário, ficarei bem aqui...”.  Mas, naturalmente, não estava tão bem assim. Sentada na varanda, olhava a estrada que seguia até a porteira da fazenda, pensando que vivia ali há mais de cinquenta anos, ali criara os filhos... 

Com a morte repentina de Hermes e toda a agitação que se seguiu até o sepultamento do marido, entrara em um redemoinho de sentimentos e emoções. Primeiro o corre corre quando Hermes caiu no escritório. A ambulância chamada e a constatação da morte. Avisar os filhos. Amigos e conhecidos chegando. Acertar os detalhes do enterro, Haroldo e Lauro se encarregaram junto com outros mais próximos. Simone ficou sempre ao seu lado, chorava muito pelo pai. Ela agradecia as palavras de condolências e continuava ali, quase não chorara, sentia-se alheia, vazia.

O vento balançava as folhas dos coqueiros e Dete, como as irmãs a chamavam, parecia ouvir a própria voz cantando com sua irmã: “Vento que balança as palhas do coqueiro/Vento que encrespa as águas do mar...” Lembrou-se da mocinha sonhadora, sonhava conhecer o mundo, conhecer o mar... Casada aos dezoito anos, começou com os deveres de dona de casa, cuidando do sogro doente. Logo vieram os filhos e a menina se transformou na mãe da família Fischer.

Agora na solidão da casa vazia poderia até se lembrar de si mesma. Pensou passado é passado, amanhã será outro dia. Entrou, trancou a porta e foi se ajeitar para dormir.

Acordou bem cedo, foi para cozinha onde Antonia já passava o café. Tomaram café juntas em silêncio. Antonia sempre fora prestativa, mas reservada como Bernardete. Hermes que sempre fora de mais prosa. Trocaram algumas recomendações sobre o desenrolar do dia e a matriarca se encaminhou ao escritório do marido.

Sentou-se na cadeira da escrivaninha e começou a colocar os papeis espalhados em ordem. Sempre cuidava dessa organização, mas hoje não havia muito a ajeitar. Abriu uma gaveta e pegou a chave do cofre que ficava no canto.  Haroldo prometera contatar o advogado para o inventário, queria ver se poderia adiantar alguma coisa, embora sempre fosse o marido que cuidava de tudo. Encaminhou para o cofre e abriu com a chave e o segredo. Isso ela sabia, pois o marido sempre deixava algum dinheiro em espécie, caso fosse necessário, quando viajava.  

Não havia dinheiro nenhum, talvez um dos filhos tivesse usado para alguma emergência do enterro ou Hermes nem tivesse colocado já que ultimamente quase não se ausentava. Havia, sim, vários documentos e entre eles um   documento que ela nunca notara antes.

Abriu o documento dobrado em quatro dentro da capinha que o conservava. Estacou sobressaltada: o que significava aquilo, será que Haroldo ou Lauro tinham conhecimento disso? Se tinham, porque nunca comentaram? Será que Hermes teria deixado no cofre pensando que ela veria e perguntaria? Por que nunca comentara?  Leu e releu. Não, não tinha imaginado. O documento era real. Precisava agora pensar no que viria a seguir. Dobrou mansamente o papel já amarelado e colocou-o novamente junto aos outros documentos e fechou o cofre.

 

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A SAGA DE UMA FAMÍLIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A SAGA DE UMA FAMÍLIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Existem fatos em nossa vida que não conseguimos explicar. Presenciamos, comentamos, a única coisa que conseguimos exclamar: Parece uma saga familiar!

Compareci ao velório de uma filha de uma sobrinha, falecida muito jovem, de um Câncer maligno. Verdade que, atualmente, essa doença está invadindo muitas famílias!

Quando fui desejar os meus sentimentos tristes ao pai dela, a única coisa que conseguimos exclamar foi: “Parece mesmo uma saga!”

Nunca nos vemos, a não ser nos funerais da família.

A mãe da jovem, minha sobrinha, grande professora da USP, lutou bravamente, também falecendo da mesma doença.

Lembrei-me que a mãe dela, minha cunhada, também notável professora, de grande conhecimento dos problemas sociais e muito amada por seus alunos, deixou vários livros escritos e ainda estudados, morreu também, muito cedo, da mesma doença, iniciando essa série de falecimentos na família, todas lutando bravamente contra o terrível e maléfico Câncer.

Um pai, filhos e netos, sofrendo a dor de parentes chegados devido ao grande mal!

Nesse momento, meio boquiaberta, fiquei sem saber como me expressar ou comunicar os meus sentimentos. Nunca os vejo, são do lado do meu falecido marido, que também morreu de Câncer, mas fiquei sensibilizada e comovida com essas mortes tão prematuras e tristes. Realizaram um grande esforço, mas não conseguiram vencê-la.

Falando sobre sagas, não consegui viajar através da ficção. Existem mesmo em nossa vida real! Grande tristeza!


A Saga da Família Vargas - Hirtis Lazarin

 



A Saga da Família Vargas

Hirtis Lazarin

 

Tudo começou no ano de 1880, com Elias Vargas, pescador de uma aldeia remota.

O céu ficou cor de chumbo. Ondas brutais e devastadoras jogaram o barco ocupado por três pescadores contra as pedras pontudas de uma costa esquecida. Apesar de habituados às condições austeras, ao sol, ao sal e ao frio, apenas um deles se salvou. Atirado por ondas revoltas e selvagens contra pedras afiadas, seu corpo sangrava. As feridas, expostas ao sol e sal, queimavam, sem pena nem dó.

Apesar dessa fúria desenfreada do mar, ele não sucumbiu. Feito um réptil à beira da morte, debateu-se e rastejou do jeito que pôde até alcançar a areia da costa. Agonizando ficou, por quanto tempo nunca conseguiu saber.

Febril e já à beira da morte, Elias começou a alucinar. Via os companheiros, que o mar levou, caminhando sobre as águas. Grita o nome deles, mas cadê sua voz? A árvore de sua linhagem aparece-lhe, sucessivamente, à frente. As raízes expandem-se a partir do amontoado dos seus ossos. Dois galhos crescem… crescem… até onde seus olhos não alcançam mais. Em vez de folhas, ela produz engrenagens de ferro.

Foi quando, num desses delírios em que se arrastava sem rumo, tropeçou e caiu numa depressão no centro da ilha. Ao tentar se levantar, seus dedos compridos e calejados cravaram numa lama cinzenta: era sal puríssimo misturado a um mineral metálico desconhecido.

À custa de frutos silvestres, algas marinhas e coco, conseguiu recobrar a consciência e sobreviveu. A sua vivência de cinquenta anos em contato com o mar dava-lhe esperança de que, mais dia, menos dia, sairia desse encarceramento. Utilizou restos de óleo de baleia e madeiras secas, que o mar trazia à costa, para manter uma pequena chama acesa no ponto mais alto da ilha. No entanto, ele não buscava apenas socorro, mantinha guarda, obsessivamente, à jazida que havia descoberto.

Um navio de patrulha costeira avistou a coluna de fumaça persistente. Ao desembarcarem, os marinheiros não encontraram um náufrago desesperado, mas um homem magro e febril, sentado sobre montes de sal e minerais que ele mesmo havia organizado em pilhas geométricas.

Elias estava com as mãos em carne viva de tanto cavar, mas se recusava a sair da ilha sem suas “amostras”. Foi resgatado carregando apenas uma bússola quebrada, salva dos destroços, e os bolsos cheios daquela terra cinzenta e salina.

Durante toda a viagem de volta ao continente, não disse uma única palavra sobre os companheiros que faleceram. Permaneceu no convés, afastado dos tripulantes, olhando fixamente para o oceano. Um olhar de quem não estava só sendo salvo, mas sim de quem estava partindo para uma guerra de conquista. Olhos frios de quem imaginava que o sofrimento pode ser transformado em moeda.

Como pescador e homem simples, Elias vivia, até então, em perfeita harmonia e respeito ao mar e a tudo que ele lhe oferecia. Entretanto, esse mesmo mar tentou arrebatar-lhe a vida. O naufrágio, os dias de horror na ilha e o medo da morte atormentaram-no durante meses. Tudo isso quebrou essa confiança. Ser “simples” significava ser “frágil” e frágil ele nunca mais seria, nunca mais estaria à mercê de forças maiores que ele — fosse o oceano, o governo ou a pobreza. Era a “fobia da impotência” em desenvolvimento.

Elias usou a pequena porção que trouxe nos bolsos para curar feridas de marinheiros no porto. A mistura mineral daquela ilha específica tinha propriedades antissépticas superiores a qualquer sal comum da época. Vendeu essas primeiras amostras como um “tônico milagroso”, conseguindo um capital inicial dez vezes maior do que o valor de uma carga comum de peixe.

Com o dinheiro das vendas, ele não comprou barcos novos, mas sim o título de posse daquela ilha deserta, que o governo considerava inútil. Ninguém entendia por que ele queria um pedaço de rocha salina, até que  começou a exportar o sal não só para a mesa, mas para a indústria de conservas e curtumes, que pagava fortunas por um produto que preservasse a carne por mais tempo sem estragar o sabor.

Para expandir, Elias precisava de infraestrutura. Ele atraiu dois investidores, prometendo sociedade eterna. Assim que o porto e as primeiras máquinas de extração foram instaladas, ele utilizou as dívidas acumuladas durante a construção para levar os sócios à falência, comprando as partes deles por uma fração do valor. Foi nesse momento que as “mãos sujas de terra e sal” deixaram de ser de um trabalhador e passaram a ser as de um empresário frio e ambicioso.

Em menos de uma década, ele controlava todo o fluxo de sal da região, criando o “Trono dos Vargas”, que, mais tarde, seria herdado e expandido pelo filho Artur.

“A moralidade é um luxo de quem tem o estômago cheio. Para que vocês jantem em prata, eu preciso ter as “mãos sujas de terra e sal''.  — Pensamento que Elias repetia sempre quando a família se reunia à mesa farta.

Mesmo após ficar rico, Elias nunca se sentiu seguro. Via o mundo como um lugar onde, para alguém ganhar, outro tem que perder. Isso o tornou um empresário solitário e paranóico. Não via concorrentes, apenas competidores que ainda não haviam sido derrotados.

O pescador que amava o horizonte morreu como um imperador que só conseguia olhar para o chão, contando cada grama de cristal que saía de suas terras.

Elias tinha três filhos: Edgar, Helena e Arthur.

Edgar Vargas, o mais velho, pensava diferente do pai e se recusava a trabalhar nas empresas da família. Queria estudar, viajar, desfrutar a vida e gastar o dinheiro disponível. Sabia quão grande era a fortuna acumulada. Jamais trabalharia nas minas de sal ou nos barcos, preferindo os livros. Para Elias, isso foi visto como covardia ou fraqueza. No dia em que Edgar decidiu partir para a capital e estudar, o pai cumpriu a promessa:  deserdou o filho e o declarou morto; queimou seus registros e proibiu Arthur e Helena de citarem seu nome. Dona Josefina, a esposa, coitada! Chorou o resto da vida.

Helena Vargas representava a consciência da família. Enquanto Artur construía, Helena via as rachaduras. Ela ouvia as vozes das comunidades e gerações sacrificadas para sustentar o luxo da mansão. Era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio.

Tentou usar a fortuna para curar as feridas sociais causadas pelo pai e pelo irmão, mas descobriu que o sistema dos Vargas era uma fortaleza e fora desenhado para corromper. Sua vida foi uma luta constante contra as correntes que a prendiam ao nome da família.

E foi Arthur Vargas, o filho do meio, quem assumiu as empresas da família.

Arthur transformou a ilha num complexo industrial.  Substituiu as pás de madeira por escavadeiras de ferro e correias transportadoras. As engrenagens enferrujadas foram trocadas por máquinas. Descobriu que o sal da ilha era essencial para a nova indústria de plásticos e produtos de limpeza que surgia na Europa. Parou de vender sal para cozinhas e passou a fornecer para as grandes fábricas do mundo, triplicando o valor do negócio. Financiou ferrovias e portos privados apenas para escoar sua produção. No seu mundo não havia espaço para a emoção. Tudo deveria ser funcional, produtivo e controlado. A família era uma máquina, tanto que a sua rigidez o impedia de validar qualquer sofrimento.

Se ele foi a força que cimentou o império, foi também a marreta que estilhaçou sua relação com   Helena, a irmã altruísta e visionária. Ela era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio. Representava a consciência sufocada de uma dinastia que se perdeu na ganância. E para o irmão, a empatia dela era uma “falha mecânica” que ameaçava a estrutura dos Vargas.

Como não conseguia dobrar a vontade da irmã através da lógica empresarial, usou sua rigidez para cercá-la. Removeu-a das decisões da empresa e a confinou à vida doméstica e artística, acreditando que, se ela ficasse calada, o conflito deixaria de existir.

A moça não perdeu tempo. Num diário guardado a sete chaves, registrava, detalhadamente, os acontecimentos importantes do dia a dia e os segredos obscuros da família que ela descobriu em cartas antigas, abandonadas no sótão da mansão:

  O naufrágio original não foi um acidente do destino. O pai teria sabotado o barco da família rival para garantir a posse exclusiva da ilha de sal. A fortuna dos Vargas não nasceu do esforço, mas de uma traição que custou a vida de amigos próximos do patriarca.

— A expansão industrial dos empreendimentos causou a morte de centenas de trabalhadores por doenças respiratórias por conta da falta de segurança nas minas de sal. O irmão sabia dos riscos, mas ocultou os relatórios médicos pra não interromper a produção, tratando as pessoas como peças descartáveis.

  A jazida original estava em terras que pertenciam a uma comunidade nativa dizimada por negligência.  E documentos provavam que a fortuna era, legalmente, um roubo.

  Artur usou a fortuna para subornar cientistas e esconder que a extração intensiva estava matando a vida marinha local.

Helena escreveu também sobre o medo de ser internada à força e como o irmão interceptava suas cartas para advogados e ativistas.

“Um legado não é o que você deixa para os seus filhos, mas o que você deixa de carregar para que eles possam caminhar.” Essa frase aparecia em muitas páginas do diário.

Arthur não teve filhos e Helena nunca se casou.  Nenhum dos dois tinha herdeiros para aquele imenso patrimônio.  O homem trabalhou tanto que não teve tempo pra pensar nisso e Helena nunca se casou.

Quem herdaria esse patrimônio?

Helena vinha se preparando pra quando chegasse o momento em que a transmissão de poder se tornasse inevitável.  E esse momento havia chegado. Às escondidas da família, esteve sempre em contato com Edgar, o irmão deserdado. Manteve-o informado de tudo que acontecia nas empresas e o ajudou muito financeiramente. Ele morava em Londres, onde se estabilizou profissionalmente como advogado e construiu uma família linda com Emily e dois meninos, Jasper e Harry.

O ano era de 1965 e Arthur, que nunca se preocupou com a saúde e tinha a vida desregrada com mulheres e muita bebida, adoeceu. O diagnóstico foi o mais inesperado possível: câncer no fígado. Fez todos os tratamentos que a medicina tinha pra oferecer, mas antes de um ano veio a falecer.

Era, portanto, chegada a hora de Jasper, o filho mais velho de Edgar, entrar em cena. Desde pequeno, fora treinado por Helena para a missão de, um dia, se necessário fosse, assumir as rédeas do império “Vargas”. Ela sabia que isso aconteceria e que a única forma de salvar a alma da família era destruindo o “trono”. Ela previa que o sal acabaria por corroer a estrutura da mansão e da linhagem, e que o sobrinho seria a força que destruiria as engrenagens enferrujadas pela dor.

Jasper tornou-se, legalmente, não só o guardião legal e financeiro de Helena, como também assumiu o comando do patrimônio que a família havia construído. Mas, o conflito interno de Jasper começou ali: ele amava a tia e ouvia seu grito por justiça, mas também estava preso pelas engrenagens industriais que precisava operar para não deixar a família naufragar.

Ele passou quase dez anos tentando conciliar o legado de Arthur com a consciência de Helena. Até que, na década de 1970, deu início ao longo processo de cancelamento de contratos, venda do maquinário, devolução das terras ocupadas e indenização justa aos funcionários e às famílias que choravam pelos que morreram intoxicados pelo sal.

Helena foi a verdadeira responsável pela libertação da família. Foi através de seus escritos e do seu exemplo que Jasper encontrou a coragem para “deixar de carregar” o fardo. Ela plantou a semente da mudança e a semente, em mente fértil, floresceu.

A primeira manhã de Helena e Jasper, fora dos portões da mansão, não teve o brilho do ouro, mas a claridade ofuscante da verdade. Eles caminharam descalços pela areia, sentindo o sal secar na pele, não mais como uma maldição, mas como um batismo. Atrás dele, a mansão Vargas parecia encolher, tornando-se apenas uma sombra cinzenta contra os penhascos.

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UM DIA A CASA SE DESFAZ - PEDRO HENRIQUE

 



UM DIA A CASA SE DESFAZ

PEDRO HENRIQUE

 

"O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é o homem humano."

- Guimarães Rosa

 

       Um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra. E cá estou eu, no meio deste caos. Como foi que chegamos aqui, Jorge? Como foi?

       Um caminho que começou tão pulcro. Pétalas de rosas pelo chão. Vaga-lumes iluminando o caminho. O louvor que emerge da boca do amor, e mesmo assim chegamos aqui. A linha atroz que fomos obrigados a atravessar. Cada um por sua conta e risco. 

        Você disse que eu era o seu tudo e eu acreditei. Que os deuses me matem por isso. Ontem, antes de dormir, me peguei pensando em você. Lembrei do seu cheiro, da sua barba, do seu toque…

           Quando te vi entrar naquele cemitério, tudo em mim ganhou encanto. Como pode? Alguém ser tocada pelas mãos do viver em um lugar tão inapropriado para isso? Todavia, você sempre soube despertar oásis e mundos em mim.

         Eu enterrando minha mãe, você visitando seu pai. O par perfeito. A que foi ferida com o luto mais desestruturante que alguém pode ter e você se afogando no seu. Era para ter acontecido, penso.

         Também penso que poderíamos ter feito mais pela gente. Entretanto, depois que se ordenha uma vaca, não há como pegar de volta o que dela saiu. É seu. Faça o que quiser ou o que der para fazer. Um doce, uma bebida, não sei. A vida é sua. 

           Recorda de quando você me pegou te encarando? Viu que estava sozinha, se aproximou e ficou ali quieto enquanto eu tentava não desabar. Até hoje me pergunto como você soube que eu precisava tanto de um abraço naquele nefasto momento. 

        Ter seus braços me enrolando, me protegendo, descortinando algo que eu nunca soube o que é: afago. Foi o que eu, mesmo sem saber, mais precisava. 

        Ninguém apareceu naquele dia para enterrá-la. Foi só eu. Eu e a mulher que mais me fez mal no mundo, e mesmo assim lá estava. Qual ser humano dá a própria filha para uma desconhecida criar enquanto se diverte com os vagabundos da rua? Era o que eu me perguntava antes de você se aproximar. Qual?

       Com certeza, um ser humano que não tem em si nada de humano. 

        Mas, entre seus braços, eu tinha a íntima certeza de que eu não seria mais abandonada. Tinha certeza, a cada abraço, seja no nosso primeiro encontro, seja no nosso casamento, seja quando trouxemos nosso lindo filho para casa após um longo período no hospital depois do parto. Não importava o momento, eu sabia que poderia confiar em você. 

       O mundo lá fora me desprezava, me escarnecia, me dava migalhas, porém era em você, meu lugar favorito, que encontrava paz.

         Nossas noites de amor, nossas noites com Gabriel, nosso filho querido, o maior presente que Deus nos deu. 

           Como cresceu rápido, né? Era um garoto que jogava os brinquedos pela casa, que caía de bicicleta e corria para meu colo clamando por ajuda, um príncipe que tive a honra de ver crescer.  Lindo, inteligente, saudável. 

           Lembra, Jorge, quando ele nos apresentou Heloísa?

           “Mãe, pai, essa é minha namorada.”

         Quis morrer naquele dia. O meu bebê, meu frágil bebê, aquela coisinha minúscula que demorei doze horas para trazer ao mundo, agora tinha uma namorada. E eu? Onde ficava nessa história?

         Porém, Heloísa era uma boa garota, ela passou em medicina mesmo. É muito inteligente, Gabriel também é. Sei que em breve tudo vai se ajeitar e ele também vai para a faculdade. Meninos como ele merecem ganhar o mundo. 

          Recorda, Jorge, recorda da festa surpresa que fizemos para ele quando ia completar o segundo grau? 

         Lembra que naquele dia, fui buscá-lo na escola, porém tive que levar o amigo dele à emergência porque havia quebrado o braço na educação física e demoramos mais do que o esperado.

       Contudo, você me disse que não tinha problema, que até era bom, pois assim Heloísa e tu teriam mais tempo para deixar tudo arrumado para o nosso menino se sentir o homem mais especial do mundo.

          Tenho certeza de que não esqueceu de quando entramos na sala e vimos você e Heloísa um dentro do outro?      

        Você reflete, Jorge, de como fez com que as pétalas de rosa que caminhamos sobre ao decidir nos unir viraram um bosque horrendo composto por espinhos sublevados que penetraram minha carne com fúria e fervor?

       É impossível obliterar de minha memória o exato momento em que Gabriel pegou a faca na cozinha e correu para cima de você.

         Lembra, Jorge, de como você estragou tudo? 

        Hoje tenho um filho lindo e inteligente atrás das grades e tu aqui do lado desse demônio que me trouxe ao mundo. 

        Aprendi, querido, da forma mais nefasta que existe, e graças a você, que um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra.

 

FIM!

Fora do meu CEP - Hirtis Lazarin

  Fora do meu CEP      Hirtis Lazarin                                                      Faz mais de dois anos que Frederico decidiu m...