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quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Padre Gigio - Alberto Landi

 



O Padre Gigio

Alberto Landi


O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se tornado insuportável e até constrangedor.

Decidido a dar um basta, ele subiu ao altar e estabeleceu normas rígidas: as confissões seriam sempre após a missa, com a igreja em sua plenitude. Criou um calendário temático: as segundas-feiras para as fofoqueiras, as terças para as ladras de maridos, as quartas para as hipócritas, as quintas para as beberronas, sextas para as feiticeiras e, por fim, as traidoras seriam atendidas logo após a missa de sexta-feira.

O anúncio causou um rebuliço, mas ninguém notou o sorriso malicioso do canto da boca de Tião, o sacristão. Ele limpava os castiçais com a precisão de um cirurgião, via tudo das sombras da sacristia.

Tião sabia que Clotilde, a beata chefe, não liderava o grupo de oração por pura fé, mas para controlar quem entrava e saía do confessionário.

Ela vigiava as outras com um olhar de águia, como se estivesse peneirando as almas antes mesmo de chegarem ao confessionário.

Naquela fatídica sexta-feira, o ar estava pesado, Clotilde estava impecável, o terço de madeira batendo contra o peito, mantendo a fila das traidoras organizada.

O plano de Gigio tinha uma falha, em sua simplicidade não contava com a vaidade dos homens que jamais havia previsto. O seu Juvenal, marido da beata chefe, cansado de esperá-la para o almoço, foi para a igreja, cruzou o umbral com o chapéu nas mãos. A face marcada pelo sol forte não conseguia esconder a tensão que lhe contraía os músculos do rosto.

— Clotilde! Ele chamou, a voz ecoando pela nave da igreja. O almoço está pronto! O que você está fazendo nessa fila?

O silêncio que se formou foi absoluto. As outras mulheres que esperavam na fila da confissão olharam para Juvenal, depois para Clotilde e, em seguida, para o confessionário.

A máscara da santidade dela começou a desmoronar.

Tião, lá do fundo, deu um sorriso discreto enquanto lustrava os objetos do altar, deixando o metal brilhar sob a luz fraca. Ele guardava a chave do enigma: Juvenal não era apenas um homem tenso, era um homem que sabia de tudo, mas preferia o silêncio para manter a paz no lar. 

— Juvenal, saia daqui, sussurrou Clotilde, tentando manter o tom de voz cristão, mas falhando miseravelmente.

— Não saio! — Retrucou Juvenal, dando um passo à frente. Se você vai se confessar, quero ouvir o que você tem a dizer. Após tantos anos, acho que mereço saber por que você não sustenta o meu olhar?

Gigio abriu a porta do confessionário, não parecia surpreso, mas sim satisfeito. Ele olhou para Tião, que apenas deu de ombros, como quem diz: o espetáculo começou.

A igreja que deveria ser um lugar de silêncio tornou-se um palco.

As outras mulheres, vendo a beata chefe ser confrontada, começaram a cochichar. O segredo de uma era o combustível de outra.

Clotilde, acuada, olhou para o confessionário, depois para o marido e finalmente para as vizinhas que julgavam. Ninguém teve coragem de se confessar.

Gigio, vendo aquele mar de gente se encarando, as traidoras de sexta-feira, as ladras de terça, as fofoqueiras de segunda, todas misturadas, soltou um suspiro de alívio. Ele percebeu que, ao expor os pecados de forma tão organizada, ele havia criado um impasse coletivo.

Naquela noite, a igreja esvaziou-se em um silêncio muito mais respeitoso do que qualquer sermão poderia alcançar. Gigio voltou para a sacristia, serviu-se de um chá de camomila e, pela primeira vez em meses, dormiu com a paz de quem não precisa mais vigiar o amanhã. 

Meses depois, as normas do padre continuavam afixadas na porta do confessionário.

As filas diminuíram, os suspiros também.

Mas, segundo as senhoras da paróquia, havia um novo motivo para frequentar a missa das oito.

Afinal, normas controlavam o confessionário, milagres, nem sempre.  

O assédio não acabou por completo.  Apesar das regras impostas pelo padre Gigio, o fascínio que ele despertava nas fiéis continuava a existir, mas a paróquia nunca foi a mesma, agora todos se olhavam com uma desconfiança saudável e o confessionário ironicamente ficou às moscas! 



O Dia em que Roma Roubou… Roubou o Quê? O Padre! - Hirtis Lazarin

 



O Dia em que Roma Roubou…

Roubou o Quê?                                                                              

O Padre! 

Hirtis Lazarin

  


Durante quarenta e sete anos, a paróquia de Alberobello foi comandada pelo Padre Agostino. Ele era um homem santo, mas infelizmente as rugas e manchas castanhas espalhadas na pele traziam o sol de quase um século.  Andava curvado e sofria de uma rinite crônica que transformava os sermões em festivais de espirros. 

Tudo mudou quando o velho clérigo partiu pra Roma e ganhou uma aposentadoria decente; viveria ali de papo pro ar e a desfrutar da presença do gênio renascentista, Leonardo da Vinci. 

A diocese logo tratou de enviar um substituto. No período de menos de um mês, recebeu um milhão de cartas das beatas que cuidavam da igreja e frequentavam as cerimônias religiosas quase todos os dias.


— Temos que cumprir nossas obrigações religiosas. Ficar sem assistir às missas de domingo é “pecado mortal”.  E, cá entre nós, o grande temor delas era o castigo do inferno.

Dona Immacolata, a fofoqueira oficial da cidade, fez, secretamente, plantão na rodoviária, à espera do novo vigário. Até hoje, ninguém sabe como ela conseguiu tais informações. É um dos segredos que prometeu a San Gennaro levar pro caixão. 

Eram 21 horas e alguns minutos quando o padre Francesco desceu do ônibus do “Trasporti Colline D'Oro”. 

Aos olhos da beata, ele não parecia um padre; parecia o protagonista de novela em horário nobre. Tinha dentes perfeitamente brancos — não sei como ela conseguiu ver, tão logo ele desceu do ônibus — cabelos que desafiavam a gravidade e um perfume que misturava sândalo com “pecado perdoado”.

A missa de posse atraiu não só os fiéis assíduos, como outros que só entravam na igreja em dia de casamento ou missa de sétimo dia.

E a chegada do novo líder religioso virou de cabeça pra baixo a rotina da pequena cidade.

Em menos de vinte e quatro horas, o vilarejo sofreu uma pane no sistema: os bancos da paróquia, antes vazios, passaram a registrar recordes de público. Os mais jovens sentavam no chão e com cara de felicidade; mulheres que não pisavam na igreja desde o batizado, de repente, descobriram uma “crise espiritual urgentíssima”; o confessionário virou ponto disputadíssimo, com direito a senha e empurra-empurra; os fiéis redescobriram pecados antigos só pra ficar perto do confessor; a pastoral da juventude e o coral receberam dezenas de novas inscrições em tempo recorde; os jantares beneficentes e o dízimo aumentaram significativamente, patrocinados pelas famílias tradicionais da região. O estoque de velas da cidade evaporou, tantas eram as promessas ao santo padroeiro.


O Padre Francesco não era apenas bonito de rosto; ele tinha o porte físico de quem parecia carregar nas costas o peso dos pecados do mundo. Alto, ombros largos e postura tão alinhada que fazia o coroinha parecer o Corcunda de Notre Dame. Transformava o simples ato de caminhar pela calçada em um desfile de moda sacra.

A admiração quase secreta consolidou-se através de duas situações específicas: a primeira referia-se ao tecido da batina, que no antigo padre sobrava como uma lona de circo; no atual, ficava perfeitamente ajustado nos braços fortes e no peito definido. Luna, a filha chorona do padeiro, com medo de ficar pra “titia”, jurava que o botão superior da roupa clamava por misericórdia toda vez que o padre respirava fundo durante o sermão.

A segunda aconteceu poucas semanas após sua chegada: o pneu do fusquinha velho da paróquia furou bem no meio da praça central. Em vez de chamar um mecânico, o padre simplesmente arregaçou as mangas da camisa clerical — revelando antebraços musculosos — e suspendeu o carro sozinho para encaixar o macaco. O fã-clube das beatas, que assistia a tudo da padaria, quase precisou de atendimento médico de emergência.

O padre Francesco, coitado, era de uma inocência quase angelical. Ele achava que o povo da cidade era apenas extremamente fervoroso e devoto. Mal sabia ele que cada bênção com água benta era recebida como um refresco no calor daquele alvoroço. 

Ele não fingia inocência; ele era genuinamente alienado em relação ao próprio impacto visual. Essa pureza quase infantil tinha explicações muito claras e hilárias: Francesco foi entregue ao seminário ainda muito jovem e passou os últimos quinze anos num mosteiro de clausura no interior da Puglia. Lá, os únicos espelhos permitidos eram do tamanho de uma caixa de fósforos — usados apenas para não se cortarem ao fazer a barba. Acreditava que seu corpo era apenas uma ferramenta de trabalho para carregar peso e capinar o mato crescido no pátio da igreja. 


Enquanto os jovens de sua idade criavam perfis em aplicativos de relacionamento, ele passava as noites em claro decifrando manuscritos de São Tomás de Aquino em latim medieval. 


Se uma paroquiana suspirava profundamente no confessionário, olhando para os ombros dele, e dizia: “Ai, padre, sinto um calor sufocante no peito quando olho pro senhor…”, ele respondia prontamente com um sorriso angelical: “Isso é o fogo do Espírito Santo agindo em sua alma, minha irmã! Vamos rezar três Ave-Marias para acalmar esse coração ansioso.”

Era o único homem na cidade que conseguia receber uma piscadela bem maliciosa de uma jovem sensual e achar que ela estava apenas sofrendo com um tique nervoso; e já fazia junto dela uma oração. 

Essa blindagem moral contra a vaidade e o pecado deixava as mulheres ainda mais desesperadas e os maridos locais secretamente aliviados, acreditando que o “adversário” não jogava no “campo dos machos”.

Quem estava adorando tudo isso era seu Giuseppe, o farmacêutico. Ele nunca vendeu tantos medicamentos…

O Padre Francesco não conhecia realmente a malícia do mundo, apenas a dor do mundo. Agradecia a Deus pelo reavivamento da fé no vilarejo. Trabalhava dezesseis horas por dia. Com a epidemia de confissões, passava horas trancado no confessionário. Levava cada relato tão a sério que jejuava e passava noites em claro rezando pelas pecadoras. Subia colinas sob sol escaldante em visita aos enfermos e passava horas correndo ladeira abaixo e ladeira acima levando alimentos aos pobres. E assim foi durante mais de um ano: sem folga nem descanso. Tudo por amor aos paroquianos.

O colapso veio numa manhã de terça-feira. No calor abafado do confessionário, quando ouviu o terceiro pecado inventado do dia, o ar lhe faltou. Uma onda de frio cortou seu peito e o som dos sussurros do outro lado se transformou num eco distante. Tentou se levantar, o chão de pedra da igreja subiu ao seu encontro. Francesco desabou, a batina negra espalhada pelo chão, o rosto pálido coberto de suor.

Após examiná-lo sob os olhares aflitos das beatas, o médico deu o veredito: o bom padre está sofrendo de uma “estafa mística e avassaladora” provocada pelo esforço sobre-humano de carregar nas costas tantos pecados de toda a população.

O tratamento prescrito foi drástico e, se não cumprido imediatamente, o enfermo poderia vir a óbito: internação hospitalar e isolamento absoluto, caldos   fortificados de carne e, para desespero do fã-clube, a proibição de visitas. 

A transferência do pároco pro hospital da comarca vizinha foi feita na calada da noite, enquanto todos dormiam e com a ajuda do prefeito. O vilarejo mergulhou num luto profundo e doloroso. As beatas transformaram a igreja local num quartel-general de clamor divino: grupos de oração revezavam-se dia e noite e tantas velas foram acesas no altar que o calor ameaçava derreter as imagens dos santos. Mulheres mais velhas, de tanto tempo ajoelhadas, chorando e orando aos céus, não conseguiam mais andar, tamanha era a dor nas pernas.

No entanto, para o mistério da medicina e desespero dos fiéis, as semanas passavam e o padre não melhorava. A febre persistia, as bochechas continuavam pálidas, sem contar que, enquanto dormia, o padre repetia choramingando uma sequência de nomes femininos: Beatrice, Constança, Caterina, Ginevra, Rosa, Ágata… O médico conhecia todas elas: eram as moças mais bonitas e sensuais da paróquia.

O doutor aceitou sua derrota científica e diagnosticou o padre com uma fictícia e raríssima doença: “melancolia espiritual degenerativa”. Como única salvação, redigiu um laudo pra sede central da igreja, em Roma, exigindo a deportação imediata do enfermo pra um hospital em melhores condições de atendimento.

Despachar aquele rapaz de beleza magnética era a única forma de devolver a sanidade ao vilarejo e livrar-se de um mistério não resolvido que poderia arruinar sua reputação. E, de quebra, o seu consultório encontraria paz, já que vivia entupido de beatas adoentadas.

Quando foi colado na porta da igreja o aviso da deportação do clérigo, o vilarejo explodiu num histerismo coletivo que faria inveja às tragédias gregas. Mulheres rasgaram véus de renda, arrancaram os cabelos em praça pública, clamando pela volta do “único santo vivo da Terra”. A viúva mais rica da cidade ameaçou deserdar os filhos se o altar não ganhasse uma estátua em tamanho real de Francesco.

— Mas isso é uma traição, doutor Camilo! — Gritava Dona Immaculata. O senhor contrabandeou nosso santinho?

Doutor Camilo encostado na parede, limpando os óculos com um sorriso de alívio:

— Foi uma operação de resgate médico. O rapaz precisava de cuidados com especialistas em Roma, bem longe das garras devotas de vocês.

Dona Filomena, aos prantos, abanando-se com um lenço:

— Por que tão longe? Para Roma? E a minha pneumonia espiritual? Quem vai ouvir a minha confissão sobre a inveja que senti do bolo de fubá de minha cunhada? O senhor está condenando minha alma ao inferno.

O médico coloca os óculos e solta uma risada:

— Ah! Dona Filomena, o padre estava quase morrendo tentando carregar a culpa de todos os seus bolos.

— Não se preocupem, senhoras, o substituto chega logo. Ele tem noventa anos, é banguela e completamente surdo. Vocês terão que GRITARRRR  seus “pecados mortais” e os maridos e a vila inteira vão ouvir.

O misticismo religioso que envolvera a vila quebrou-se instantaneamente: no domingo seguinte, a igreja voltou a ficar às moscas; as fofocas voltaram a reinar nas janelas e portões; as mulheres, milagrosamente, foram curadas de suas tosses e pecados inventados; ninguém sofria de inveja por ninguém e o confessionário, na santa paz de Deus, foi trancado até a chegada do próximo pároco.


O MURCHAR DA ROSA VERMELHA - Pedro Henrique




O MURCHAR DA ROSA VERMELHA

Pedro Henrique


O sol derramava seu calor pelo chão do pequeno vilarejo escondido por trás das montanhas que cercavam Faletil. 

Os moradores, felizes e auspiciosos, saíam de suas residências com aspirações de tentar trazer o santo pão de cada dia para casa. 

É neste pequeno recanto de pobres almas de mentes nobres que vivem Eudes e seu maior afeto: Jacy. 

Ambos nutriam um pelo outro uma paixão genuína. Aquela que se engendra do mais profundo da alma. Conheceram-se ainda adolescentes. Jacy tinha prazer ao passar, deliberadamente, pela venda do pai de Eudes, senhor Jurandi. 

Todos os dias, às 15:30, vinha ela, com seus cabelos penteados, um pouco de maquiagem no rosto e com seu vestido roxo que, de forma muito sutil, delineava seus atributos corporais. 

Eudes tentou ignorá-la por um certo tempo. Dizia para si e para seus companheiros que não queria saber de relacionamento, queria sim era viver o melhor de sua “solteirice” para, quando se cansar, submergir no mais visceral amor. 

Todavia, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Sendo assim, em um belo dia, Eudes, como quem sofre uma abrupta epifania, viu Jacy passar em frente ao estabelecimento de seu pai e decidiu mexer com a moça. 

De repente, o rosto de Jacy começou a ganhar mais beleza, seus cabelos tinham um ar metafísico quando abraçavam o vento e sua boca parecia chamar docemente o nome do rapaz. 

Portanto, o que era para ser uma conversa se tornou um jantar a dois, jantar este que se tornou noivado. As águas deste rio foram fertilizando-se até o momento em que Helena surge para consagrar este santo amor conjugal que costura Eudes a Jacy. 

No entanto, depois que Helena veio ao mundo, Jacy começou a se sentir de outra forma; pouco a pouco, o mundo ganhava outra textura. O cinza preenchia o que antes era azul, verde, amarelo…

O almoço, que outrora era preparado com zelo e ternura para seu querido amor, agora era feito às pressas ou nem feito. A cama, que nas madrugadas a fundo era palco das encenações de afeto, tinha em seu vigente momento o frio congelante de algo que começou a decair. 

Pouco a pouco, um pensamento foi se solidificando na mente de Jacy. Pouco a pouco, ela se enojava mais. 

Um dia, sua filha, já crescida, com os anos a sufocando e seus cabelos já ganhando o grisalho que é presente da biologia aos Homo sapiens, seu marido quebra o braço após cair da escada enquanto arrumava o estoque da loja que herdara de seu pai, neste momento, já falecido. 

Jacy, então, se defrontou com a obrigação de dar banho no marido, ajudá-lo com as atividades mais basilares, tal qual sentar-se à mesa ou pegar para ele um copo d'água, até porque a visão de seu “amado” foi comida pelos anos. 

Em um momento, ao fazer sopa em um dia frio, foi alimentar Eudes, que não conseguia mexer o braço. 

Gole a gole, ela lhe deu na boca. Quando ia lhe dar o último, o quase velho homem, sem intenção, esbarra na tigela e derruba o pouco do conteúdo que ali havia em Jacy e, neste momento, pela primeira vez em muitos anos, os olhos de ambos se cruzam. Um mundo colide com outro mundo, duas histórias que se intercruzam e jorram nos olhos dos dois o peso de uma vida tão mal vivida. 

Eudes sente, em seu interior, galáxias se movimentando. Sente desejo de perguntar a Jacy como chegaram até ali. Aquele lugar inóspito no qual o afeto não tem direito ao mando.

Porém, sua vontade é cortada pelo veemente tapa que a mulher desfere em seu rosto. 

Jacy sai da cozinha angustiada e vai ao quintal da residência e, de dentro, com o cantarolar dos grilos lhe consolando, Eudes ouve o choro daquela que há muito lhe negou o mundo.

Com certa dificuldade, o rapaz volta ao quarto, mas antes entra no de sua querida Helena, contempla a pequena, hoje já grande, menina que, mais do que Jacy, ama no mundo. 

Ele rememora a primeira vez que foi à escola vê-la se apresentar na festa junina e sorri quando pensa no coração que sua filha lhe fez com seus ínfimos dedos naquele dia. Recorda-se de como era tudo aquilo que aprendeu a amar quando decidiu chamar Jacy para conversar naquele dia. Traz à sua memória como foi ver a mãe da melhor amiga de sua filha. Lembra do olhar dela e de seu sorriso.

Nunca poderá esquecer que ali, no banheiro do colégio de sua preciosa Helena, ele, Eudes Dos Santos Filho, provocou, em sua casa, uma nódoa fedida cujo odor o perseguiria pelos anos a seguir, pois não se obliterara de seus pensamentos o olhar de Jacy vendo o amor de sua adolescência sair de um sanitário sorrindo para outra que não aquela que, de bom grado e embriagada de paixão, durante um ano e dois meses, passou em frente a seu estabelecimento. 

FIM!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A TEMPESTADE DE NEVE - Adelaide Dittmers

 



A TEMPESTADE DE NEVE

Adelaide Dittmers


Amanheceu escuro.  Nuvens pesadas eram impulsionadas por um forte vento, que balançava com violência os galhos dos pinheiros espalhados pela imensa montanha, que, imponente, dominava a paisagem.

Aos seus pés, uma cidadezinha colorida por casas pintadas de várias cores acordava lenta e preguiçosamente para enfrentar o frio e a nevasca, que se anunciava.

As ruas estreitas estavam vazias.  O silêncio só era quebrado pelas fortes rajadas de vento. O inverno rigoroso, naquela região, sempre trazia esses eventos, que, traiçoeiros, colocavam em alerta os moradores daqueles vales.

Tom acordou assustado.  Levantou-se e, cambaleando pelo sono, foi até a janela. Flocos de neve em grande quantidade caíam e pareciam dançar empurrados pela ventania.  Ele tentou divisar o topo da montanha, mas a tempestade encobria tudo e parecia que a pequena cidade se escondera atrás de uma barreira de flocos de gelo, que caíam vertiginosamente.

Catherine apareceu ao lado dele e lhe lançou um olhar aflito e inquiridor.  Ele apenas sacudiu a cabeça e não escondeu sua preocupação.  Nunca viu uma nevasca tão assustadora.  O choro de uma criança fez Catherine correr para o quarto.  Tomando o menino nos braços, tentou acalmá-lo, disfarçando o medo que sentia.

Um celular tocou.  Era Robert, um vizinho e amigo.  A voz entrecortada pela agitação mostrou o terror que estava sentindo diante de uma tempestade nunca vista antes.

Um forte estrondo interrompeu a ligação e abafou o grito de Catherine.  Tom abraçou a mulher e o filho.  As mãos trêmulas denunciavam o pavor que sentia.

Uma enorme onda de gelo desceu velozmente pela montanha, caindo e soterrando casas e ruas. O horror contorceu o rosto dos dois.

Os olhares aterrorizados dos dois fixaram-se na montanha de neve, que sufocou grande parte da pequena cidade.  Eles não foram atingidos, mas ficaram paralisados pela tragédia à sua frente.

Tom saiu do torpor, sacudindo a cabeça, para se restabelecer da extrema tensão que o tomara.  Orientou a mulher a não demonstrar o medo que sentia e a acalentar a criança, que chorava no seu colo.

Em seguida, colocou botas e agasalhos pesados e saiu para ajudar aqueles que estavam sob a neve. Robert já estava lá fora e os dois abraçaram-se.  De repente, a rua estava repleta de homens, que tentavam enfrentar o frio cortante misturado ao pavor que sentiam ao ver o mal com que a natureza bravia os castigou.  Dentro deles, entretanto, o intuito de salvar vidas era maior do que tudo que estavam sentindo.

Tom acionou o seu celular.  Estava funcionando. Um longo suspiro de alívio o tomou.  Bombeiros foram chamados e a luta para salvar as pessoas começou a ser travada. A nevasca havia serenado, mas as ruas cobertas de neve afundavam os passos e dificultavam o avanço dos homens.

O frio intenso calava aqueles bravos habitantes, que tentavam socorrer os atingidos.  Os gestos falavam mais do que as palavras.  

Após um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, o socorro de fora começou a chegar.

Pás, máquinas não paravam de funcionar. A sirene das ambulâncias cortava o ar gelado e levava feridos ou pessoas em choque para os hospitais mais próximos.

Tom voltou para casa, o rosto coberto por um grosso cachecol, apenas os olhos cansados de fora.  Tomou um chá quente e voltou para fora para continuar a ajudar no que fosse necessário.

Vários dias se passaram, em que pouco a pouco, a cidade se despia do pesado manto que a cobrira e se esforçava para voltar a uma vida normal. Muitos não resistiram ao desastre. O luto tingiu o lugar com suas tristes cores. 

Quando um sol tímido iluminou o céu e o coloriu de um azul profundo, as pessoas o receberam com alívio, mas não havia alegria.  A tristeza do que acontecera emudecera a cidade.  E todos sabiam que nunca esqueceriam aquela horrível e mortal tempestade. 





Joaquina - Alberto Landi

 



Joaquina

Alberto Landi


Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.

Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.

Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.

Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.

Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?

Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.

O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.

Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.

Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho. 

Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.

Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.

Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.

E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.

E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.


Agarrado aos retratos - Hirtis Lazarin

 



O céu havia engolido o sol horas atrás, substituindo-o por uma massa de nuvens cor de chumbo que girava como um redemoinho vivo.  O vento não soprava, ele golpeava, arremessando tudo que via à sua frente. O som parecia tiros de fuzil.

Agarrado ao batente da janela com os nós dos dedos brancos de tanta força, Tomás viu a escuridão da tarde ser rasgada por relâmpagos que revelavam a silhueta do furacão avançando pelo vilarejo.

O mar já havia sustentado o pescador por trinta anos, desde quando deu as costas ao asfalto e aos arranha-céus cinzentos, guiado pelo desejo de encontrar refúgio num velho e pacato vilarejo.  

Ele já havia sobrevivido a tempestades brutais e marés violentas, mas o monstro que engolia céu e mar era algo além da sua compreensão. O monstro não estava só zangado, havia se tornado um inimigo impossível de vencer.

Tomás sabia que cada segundo preso àquele batente de madeira reduzia suas chances de sobrevivência. Mas, paralisado pelo medo — ou talvez pelo cansaço da alma — tinha duas alternativas: correr para o porão da velha igreja ou arriscar a subida a pé em direção às colinas.

Ao longe, o caos já havia engolido parte do vilarejo. Via vultos desesperados — vizinhos de uma vida inteira — correndo contra o vento, arrastando crianças pelo braço, abandonando tudo pra trás.  Algumas famílias tentavam pregar as últimas tábuas nas portas franzinas, enquanto os mais jovens, de mãos vazias, fugiam em direção à estradinha de terra. 

As embarcações ancoradas batiam umas contra as outras como brinquedos quebrados, estraçalhando cascos e partindo mastros ao meio. Algumas foram arrancadas da areia e arrastadas para o fundo do mar, sumindo na espuma branca, enquanto outras foram arremessadas contra as pedras da encosta. As redes de pesca, tecidas à mão por gerações, transformaram-se num emaranhado caótico de nylon, nós e algas, presas a destroços flutuantes.

O estalo da madeira do teto arrancou Tomás do transe. Não havia mais tempo pra lamentar os barcos destroçados. A própria casa começava a gemer sob a pressão do vento e o vidro da janela trincou de ponta a ponta. 

Qual decisão tomar?  Agarrar a lanterna e vestir a velha capa de chuva impermeável pendurada atrás da porta e fugir? Ou não mover um milímetro e se abandonar à própria sorte? 

Desde que o câncer levara sua esposa há poucos meses, o silêncio daquela casa de madeira havia se tornado insuportável. Seu único filho, que construíra sua vida longe dali, nos Estados Unidos, era, agora, apenas uma voz distante preocupada em ligações de telefone que pareciam vir de outro planeta. 

Sozinho, cercado pelo luto e pela solidão, Tomás percebeu que não temia a fúria do furacão; na verdade, sentia uma calma melancólica.  Olhando para os estragos provocados pela natureza revoltada, ele soltou o ar devagar, aceitando que se o mar ia levar embora os trinta anos de sua história, que levasse também o que restava dele.

O oceano, finalmente, cobriu a rua e golpeou a estrutura da casa com a força de um naufrágio. A parede da frente cedeu e a água escura invadiu a sala; subiu rapidamente pelas canelas de Tomás e arrastou os móveis como se fossem feitos de papel.  Ele apenas olhou para as paredes do fundo, onde duas fotografias emolduradas começavam a flutuar na água que subia: o retrato amarelado de seu casamento na praia, o símbolo máximo de sua vida construída à beira do mar, e a imagem digital enviada pelo seu filho, sorrindo timidamente do outro país.  Duas Américas separadas por um abismo de distância e água, que agora se misturavam no mesmo turbilhão que engolia o chão sob seus pés.

Quando as vigas do teto começaram a estalar, a água já alcançava o peito de Tomás. Num último esforço, esticou os braços e resgatou os dois porta-retratos. Agarrou e colou-os contra o peito. Uma onda massiva e escura arrombou o restante da estrutura e cobriu completamente o pescador. 

Tomás afundou num silêncio profundo.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

Tempos de Guerra - Adelaide Dittmers

 




Tempos de Guerra Adelaide Dittmers José acordou assustado. O som agudo de uma sirene avisou que um novo bombardeio iria atingir a cidade. Estava naquele país para uma reunião sobre mudanças climáticas causadas por vários tipos de poluentes, que contribuem para o aquecimento global, quando estourou uma guerra. A região sempre foi palco de várias disputas pelas riquezas entranhadas em seu solo. Agora representantes de vários países estavam presos no lugar porque os voos foram suspensos. Ele colocou um roupão, pegou o celular e saiu do quarto do hotel como uma flecha disparada por um arco. No corredor, pessoas apavoradas corriam para alcançar o subsolo e tentar sobreviver ao ataque. José nunca teve que enfrentar uma situação como essa. Morava em uma região com muitas carências, mas pacífica. Vários bombardeios já tinham atingido a cidade em pontos diferentes, mas este, pelo jeito, poderia alcançar o hotel. A garagem já estava fervilhando de pessoas quando chegou. Os rostos assemelhavam-se a máscaras franzidas pelo medo. Ele observou uma menina que, agarrada à mãe, chorava assustada pela situação desconhecida e incompreendida. Seu pensamento fez o voo, que ele não podia fazer, para voltar para sua esposa e a filha de seis anos. Precisava, mais uma vez, manter a calma e a lucidez para superar a ansiedade, que lhe tomava a alma. Num impulso instintivo, José aproximou-se da criança e a pegou no colo, tentando acalmá-la, cantando uma música infantil e a balançando como se estivesse brincando. A criança parou de chorar. Os olhos apavorados da mãe o atingiram e o obrigaram, comovido, a usar o idioma inglês para apaziguar a menina. De repente, vários estouros se seguiram, acompanhados pelas sirenes enlouquecidas pelo ataque, no entanto, naquele subsolo, o silêncio reinava, como se as pessoas quisessem se tornar invisíveis e invulneráveis. Subitamente, o som ensurdecedor do bombardeio foi diminuindo. As pessoas ergueram os olhos para o alto, como se pudessem ver o céu, onde os drones mortíferos haviam passado, destruindo tudo o que havia abaixo deles. José entregou a criança à mãe e percebeu que as mãos dela tremiam incontrolavelmente. A impotência e a piedade por aquela mulher indefesa fizeram com que mordesse seus próprios lábios. Aos poucos, os hóspedes e os funcionários do hotel foram se movendo calados. Estavam vivos, mas sobreviveriam se houvesse outros bombardeios?. José subiu para seu quarto. O celular tocou. Era a esposa. Ele deu um profundo suspiro e modulou a voz para disfarçar o perigo que havia enfrentado e disse estar tudo bem. Quando desligou, uma lágrima desceu sorrateira por sua face. Quando sairia daquele caos. Viera para um encontro, que almejava melhorar e mesmo preservar o planeta de desastres naturais, mas o homem, em busca de mais poder e riquezas, fazia guerras e destruía o que estivesse em seu caminho para conseguir o que queria. Com gestos automáticos, tirou o pijama e foi tomar um banho. A água tépida caiu como um bálsamo em seu corpo, lavando e levando para o ralo o medo, que lhe tolhia a alma. Vestiu-se e desceu para tomar o café da manhã. Os garçons corriam de um lado para o outro como se nada tivesse acontecido. Ele pensou, sacudindo a cabeça, como os homens conseguem disfarçar seus medos mais profundos. Sentou-se a uma mesa perto da janela e olhou para o jardim florido, um pássaro pousou em uma folha, na sua inconsciência não havia percebido o perigo que correu. O celular tocou. O promotor do encontro sobre as mudanças climáticas avisava que em uma hora passaria um microônibus para levá-los até a fronteira, onde entrariam no país vizinho que não estava em guerra e embarcariam em um avião, que os levaria a um país neutro, de onde seguiriam para casa. José inspirou fundo e soltou o ar pela boca. O alívio amenizou sua expressão contraída. Levantando os olhos, viu a jovem mãe e a criança, que acabara de entrar no salão. Sem hesitar, levantou-se e dirigiu-se a ela, perguntando se ela queria sair do país, explicando como era o esquema escolhido. Um sorriso emocionado iluminou o rosto da moça e ela apenas moveu a cabeça para dizer que sim. Uma hora depois, estavam no veículo, que os levaria para longe daquele inferno. O grupo estava calado, cada um imerso em seus pensamentos. A tensão pairava no ar. O pequeno ônibus ia avançando pela estreita estrada e só se ouvia o roncar do motor. O grupo permanecia em silêncio, os olhos rondavam a redondeza. O medo de outro ataque era visível no rosto sério de cada um. A criança era a única passageira, que apontava para os campos, que corriam velozes pelas janelas, onde carneiros pastavam indiferentes e inconscientes ao que podia ocorrer a qualquer momento. Outro bombardeio eclodiu. Os fugitivos olharam-se assustados, as palavras ficaram guardadas dentro deles, mas os olhos disseram tudo o que a voz não conseguia articular. O motorista virou para trás e gritou em um inglês tosco que o ataque estava sendo muito longe, atrás deles. O medo, porém, é um algoz, que altera o raciocínio dos seres humanos e os prende em uma teia de emoções desencontradas. O grupo ficou rígido, os músculos contraídos. Enfim, a estrada foi sendo vencida e longe surgiu uma ponte fortemente vigiada por militares do país vizinho. Os passageiros levantaram a cabeça e um 'graças a Deus' saiu da boca de um deles. O micro-ônibus parou no começo da ponte e todos desceram para apresentar os documentos e explicar por que estavam no país em guerra. O motorista também apresentou os seus. Não queria voltar para aquele inferno. Era um imigrante e não tinha família lá. Os soldados autorizaram o veículo a continuar a viagem até uma cidade próxima. Depois de cerca de quarenta minutos, chegaram à cidade, em que pegariam um voo, que os levaria a outro país neutro. Duas horas depois, estavam aterrissando no país, em que tomariam o rumo de casa. José despediu-se emocionado do grupo, que almejava um mundo melhor e que fora pego pelo pior que o homem pode causar: uma guerra para ter mais poder. Ao se despedir da mãe e da criança, lágrimas de gratidão molharam o sorriso dela e, com a voz embargada, ela se apresentou: Sou Catherine e ela é Mary e ele também disse o seu nome. No voo para o seu país, José enviou um WhatsApp para a esposa. “Estou voltando.” Um ícone sorrindo e um coração tentaram traduzir sua alegria de voltar para casa.

As Linguarudas do bairro - Adelaide Dittmers

 


   



As Linguarudas do bairro

Adelaide Dittmers


Cristina entrou na casa, esbaforida.  Não podia acreditar no que acabara de ouvir.  Duas vizinhas conhecidas por suas línguas venenosas estavam se deliciando com a história da traição de Mario, um homem respeitado por todos, que sempre lutava para melhorar o bairro em que viviam.  Discreto e educado, agia sem alardes para conseguir um asfaltamento em alguma rua ou para limparem os bueiros, que podiam causar um alagamento nas épocas de chuva.  

Segundo elas, houve uma briga feia entre ele e a mulher. Os gritos dos dois foram ouvidos por toda a vizinhança e o estampido de algo que caiu com violência no chão assustou todos.

A mãe, ao ver a agitação da filha e ao escutar o que ela acabara de contar, ponderou que aquela história não era confiável porque as duas mulheres eram conhecidas pelos seus mexericos e adoravam cornetear tudo o que poderia ser errado, verdadeiro ou falso na vida alheia,

— Será verdade? A mãe questionou. Ele sempre me pareceu um homem tão sério.

— Também fiquei na dúvida! Diz Cristina.

— Não sei não.  Essas duas são tão fofoqueiras… ele não é uma pessoa briguenta.  Ao contrário, sempre tão centrado e gentil.  Não consigo acreditar!

O pai, que estava no escritório trabalhando em um processo, aparece na sala.

— O que está acontecendo? 

Cristina repete o que ouviu das vizinhas.  

— Vocês vão acreditar no que dizem essas duas.  Elas aumentam tudo o que ouvem por aí. E muitas vezes já espalharam notícias falsas.  São duas solteironas infelizes e frustradas.  E prosseguiu: Mario é uma boa pessoa e a sua vida particular só interessa a ele.

— Então você aprovaria se, por acaso, ele tivesse uma relação fora do casamento? Diz a mãe, já com as garras de fora.

— Não disse isso.  É que não temos o direito de meter o nariz na vida dos outros.  Seja considerado certo ou errado o que fazem. E digo mais: quem muito acusa é que pode ter o rabo preso.

— Ah! Júlio, você quer dizer que elas… Não, não posso acreditar! São duas linguarudas, mas… será que seriam capazes de ter uma vida… nem ouso falar…

— Aqueles de quem a gente menos espera…

— Você está sabendo de alguma coisa dessas duas?

— Tudo é possível.  Nunca se sabe… Às vezes, quem só olha para o lado… quer desviar a atenção de seus feitos desonestos.

Cristina olhou para os pais e, com um sorriso maroto, disse:

— Nossa! Acho que se remexerem a vida de todo o mundo.  Sei lá… o que vamos descobrir.

— É melhor então nos fixarmos na nossa própria vida.  Disse a mãe. E deixarmos os outros resolverem seus problemas, suas desavenças e não sei mais o que…

— A não ser que estejamos na berlinda.  Completou o pai.

E, com um sorriso zombeteiro, acrescentou: 

De repente, vão dizer que o meu escritório de advocacia também está envolvido nesse caso do Vorcaro.

E os três caíram na gargalhada.




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA - Henrique Schnaider




PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Henrique Schnaider


João era o tipo de sujeito teimoso, não cedia em nada, tanto nas discussões com os seus familiares quanto em qualquer outro tipo de situação.

Sua fama já corria longe e ele acabava sempre se dando mal pela sua forma de ser. Tinha dificuldade para ter amigos, já que ninguém aguentava sua teimosia.

Certo dia, lá ia o João até a esquina da sua rua, onde se reuniam algumas pessoas que ficavam ali conversando. Foi chegando, se acercando das pessoas que estavam conversando, e, devido à sua fama de sujeito teimoso e sempre dono da razão, olharam para ele com desconfiança, mas continuaram a conversa.

 Estavam discutindo sobre a educação dos filhos e havia um consenso de que os pais deveriam ser rígidos com os filhos, já que achavam que é de pequeno que se torce o pepino.

João, enxerido, se meteu na conversa e só para ser do contra, já que em casa era bem durão com seus dois filhos, começou a dizer para as pessoas que na educação deles, os pais deveriam ser bonzinhos e permitir tudo a eles.

As pessoas que ali estavam começaram, irritadas com o João, a discutir com ele. Logo viram que ele deu aquela opinião só para ser do contra. E, o pior é que nesse momento chega, na esquina, o filho mais velho de João, de nome Ronaldo, pedindo ao pai algum dinheiro para comprar um sorvete. João ficou vermelho de tão nervoso e gritou para o filho que fosse embora, antes de dar uns tapas, como era de costume.

Gargalhadas do grupo, pois naquele instante, João agiu exatamente ao contrário do que havia falado para as pessoas. E assim, completamente desmoralizado, se afastou dali com a cara no chão.



PAM PAM ESTOROU A BOMBA NA CASA DELA, ELA FALAVA DA VIDA DOS OUTROS, ACABAVA FALANDO DA VIDA DELA

Margarida era uma mulher que não media esforços para falar mal dos outros e, assim, com essa fama, ficou conhecida das pessoas.

Ela morava numa casa simples de uma cidade pequena do interior e, justamente por isso, era mal falada pela maioria das pessoas do lugar.

Margarida morava com sua mãe e avó, que eram farinha do mesmo saco, então, quando juntavam as três, era um Deus nos acuda.

E assim ela foi levando a vida e, à medida que os anos passavam, ela ficava com a língua cada vez mais afiada.

Quem mexe com fogo, um dia pode sair queimado, e assim aconteceu com Margarida, a mãe e a avó.

Certo dia, sempre tem um dia, Margarida foi falar mal da mãe e da avó para uma vizinha delas de nome Salete, que ficou ouvindo calada todo veneno que a Margarida despejou sobre elas.

Salete não perdeu tempo, pois era da mesma laia que Margarida, e foi à casa dela e contou tudo o que Margarida havia falado de mal da mãe e da avó. Ambas ficaram furiosas e chamaram a Margarida para tirar satisfação, e ali na casa, o circo pegou fogo, foi uma tremenda briga, onde panelas e outros objetos voaram para tudo que foi lado. 

As três tiveram que ir ao pronto-socorro por saírem machucadas daquela briga. Mas nenhuma delas aprendeu a lição, pois na semana seguinte, lá estavam elas falando mal da vida dos outros e ninguém pode garantir que também voltariam a falar mal umas das outras.



QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COMO GATO

Ernestino era um sujeito que passou muita necessidade desde pequeno, e ainda continuava pobre, lutando para melhorar de vida.

Ele era casado com Maria e tinha dois filhos, Arlindo e Josemar. A luta era difícil para trazer o pão nosso de cada dia, e assim Ernestino, que era catador de coisas que as pessoas jogavam fora e depois ia no ferro-velho ver o que conseguia amealhar, recebia muito pouco do que recebia em troca.

Maria, sua esposa, ajudava no sustento da família, fazendo faxina em algumas casas. Os filhos, ainda pequenos, estavam estudando o curso primário e assim não podiam ajudar a família. 

Ernestino ficava sempre pensando numa maneira de melhorar de vida e pelo menos que não faltasse comida na sua casa.

Dessa maneira, nosso herói achou uma maneira de sobrar mais dinheiro e melhorar de vida.

Ali perto de sua casa tinha um parque que não tinha nenhuma fiscalização e ele percebeu que lá tinham muitas pombas e pensou em caçá-las. Não perdeu tempo, armou uma arapuca e conseguiu dessa maneira pegar dezenas de pombas. Levou-as para casa, sacrificou as aves e limpou e preparou um belo almoço de pombas assadas para muitos dias, e ele, a esposa e os filhos comeram por vários dias até se fartar. Era só ir lá caçar de novo.

Como Ernestino achou uma forma de sustento, comida não faltou mais na sua casa e o dinheiro que ganhavam dava para melhorar um pouco de vida. 

E assim ele provou que, usando a sua inteligência e astúcia, encontrou um meio de melhorar a sua vida e a de seus familiares. Assim, ele provou que sempre tem uma maneira de resolver os problemas, pois quem não tem cão caça como gato. 



GIZA, a investigadora - Alberto Landi

 



GIZA, a investigadora

Alberto Landi


Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como sombra, com roupas gastas e passos firmes.

A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos. 

Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.

Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.

 Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.

Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.

E, quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.

Naquela noite, ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.

Finalmente encontrei-o, Antonio Benevides, murmurou. Empurrou a porta devagar e entrou no apartamento envolto em penumbra.

--Quem é você para entrar desse jeito em minha casa? — Perguntou, apertando o charuto cubano entre os dedos grossos.

Ele era moreno, de estatura mediana, cabelos grisalhos em um rabo de cavalo e correntes de ouro no pescoço.

A fumaça subia lenta pelo apartamento de paredes úmidas e luz amarelada.

Giza permaneceu imóvel na porta descascada. A velha mochila pendia dos ombros como se carregasse apenas roupas velhas, mas seus olhos atentos examinavam cada detalhe do cômodo.

— Curioso — disse em voz baixa.

Homens culpados sempre perguntam: quem sou eu? Os inocentes perguntam o que aconteceu.

Antonio soltou uma risada curta, nervosa, e tomou outro gole de rum.

— Você entrou no apartamento errado, sua velha.

— Não. Passei meses procurando este endereço.

O silêncio endureceu o ambiente. O ponteiro do relógio velho de parede parecia bater mais alto.

— O que você quer? Dinheiro? — Perguntou ele, tentando recuperar a arrogância.

Giza aproximou-se devagar.

— Quero nomes. Quero saber onde estão os documentos e quem mandou apagar Celso Ferreira.

Antonio desviou o olhar pela primeira vez.

— Não sei do que está falando.

Giza então retirou do bolso um pequeno isqueiro de metal riscado pelo tempo e colocou-o sobre a mesa.

Antonio empalideceu.

— Esse isqueiro estava no apartamento do homem que você assassinou há sete anos — disse E. Desde então, venho seguindo o rastro da fumaça que você deixou pelo caminho.

Antonio apagou nervosamente o charuto no cinzeiro, encolhendo-se no sofá, parecendo menor em sua estatura do que realmente era.

Ele passou as mãos pelos cabelos, agora úmidos de suor. O cheiro de rum, tabaco e mofo parecia sufocar o pequeno apartamento.

— Você não percebe com quem está mexendo — murmurou.

Giza puxou uma cadeira e sentou-se diante dele como quem visita um velho conhecido.

— Entendo mais do que imagina.

Ela abriu a mochila gasta e retirou uma pasta fina, amarelada pelo tempo. Fotografias escorregaram sobre a mesa: notas fiscais, rostos desfocados, placas de carros, um retrato antigo de Celso Ferreira sorrindo ao lado da esposa e de uma menina pequena.

Antonio observou tudo em silencio.

— A menina cresceu sem pai — disse Giza. A esposa faleceu esperando justiça, e você continuou fumando charutos caros como se o passado tivesse apodrecido sozinho.

Ele tentou manter a firmeza.

— Eu apenas obedecia ordens.

— Todo covarde diz isso em algum momento.

Do lado de fora, ouviu-se uma sirene bem distante cruzando a madrugada. Ela não desviou os olhos dele.

— Quem mandou matar Celso?

Ele hesitou, as mãos tremiam levemente ao alcançar o copo de rum.

— Se eu informar, eles me matam.

Giza inclinou-se para frente, e se não falar, continuará morrendo um pouco toda a noite.

O velho ventilador girava no teto com um ruído metálico insistente.

Finalmente, ele respirou fundo. Foi por causa dos arquivos do porto. Celso descobriu desvios de carga, armas, documentos falsos, gente importante envolvida.

— Nomes — exigiu Giza.

Ele fechou os olhos por um momento como quem atravessava uma porta sem retorno.

Alguns políticos e empresários estavam envolvidos, mas havia um homem, o chamavam de dom Álvaro.

Ela permaneceu imóvel, mas seus dedos apertaram discretamente a borda da mochila.

Aquele nome estava escrito havia anos em uma folha dobrada no fundo do bolso interno.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava perto do verdadeiro inimigo.

A chuva começou a bater nas janelas do prédio com violência, espalhando goteiras pelas paredes descascadas do apartamento.

Benevides parecia envelhecer diante dela a cada segundo.

— Onde encontrou dom Álvaro? Perguntou Giza.

Ele demorou a responder. O medo agora falava mais alto do que a arrogância.

— Ninguém encontra aquele homem, ele aparece quando menos se espera.

Giza levantou-se lentamente. Seus joelhos estalaram discretamente, mas a sua presença continuava firme e ameaçadora.

— Todo homem deixa rastros, Antonio.

Ela guardou as fotografias na pasta enquanto ele acendia outro charuto com mãos tremulas.

— Você não faz ideia do tamanho disso. . O porto era só uma parte. Havia muita gente envolvida. Celso tentou entregar tudo aos federais.

— E alguém entregou Celso antes!  Ele baixou a cabeça, o silêncio confirmou o que as palavras evitavam.

Ela caminhou até a janela, e lá embaixo a cidade seguia indiferente: ônibus vazios, faróis cortando a chuva, pessoas correndo sob marquises. 

— Quem puxou o gatilho? Perguntou ela sem se virar.

Ele demorou para responder.  Fui eu.

A frase caiu pesada no apartamento.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas o ventilador cansado e a chuva.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, não havia surpresa em seu rosto, apenas um cansaço antigo profundo.

— Celso pediu para viver?  

Antonio apertou os dedos ao redor do copo. Pediu.

— E mesmo assim você atirou.

— Eu tinha uma filha pequena, eles ameaçaram minha família.

Ela virou-se devagar. O medo explica muita coisa, Antonio, mas não apaga o sangue.

Ele tentou dizer algo, mas parou ao vê-la abrir novamente a velha mochila.

De dentro dela, ela retirou um pequeno gravador portátil. A luz vermelha ainda piscava.

Ele empalideceu. Você gravou tudo, cada palavra.

Nesse instante, ouviu-se um ruído seco no corredor e passos.

Ela ergueu os olhos para a porta descascada e percebeu imediatamente que alguém mais havia chegado.

Celso Ferreira era um funcionário ligado ao porto, discreto, metódico e aparentemente comum. Trabalhando entre documentos de carga, registros de navios e autorizações alfandegárias, acabou descobrindo um esquema criminoso muito maior do que imaginava.

Ele percebeu desvios de mercadorias, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro envolvendo políticos e empresários. Diferente de outros que preferiram o silêncio, ele decidiu reunir provas.

Mas a sua maior tragédia foi acreditar que ainda existiam pessoas honestas suficientes para protegê-lo.

Antes de morrer, ele tentou entregar os arquivos às autoridades. Passou semanas escondendo documentos, fazendo cópias e mudando rotinas para proteger a esposa e a filha. Mesmo assim, acabou traído.

Ele era o tipo de homem tímido, educado, sempre carregando pastas debaixo do braço e falando baixo demais. Porém, justamente por isso, ninguém imaginava que teria coragem de enfrentar gente tão poderosa.

Para Giza, o caso nunca foi apenas sobre um assassinato.

Celso representava algo raro, alguém comum que escolheu não se vender. E talvez por enxergar nisso uma dignidade quase esquecida.

Na velha fotografia que Giza guardava na mochila, Celso aparece sorrindo ao lado da família num domingo simples de verão. É essa imagem, mais do que os documentos, que a faz continuar caminhando pelas ruas atrás dos nomes da lista.

Os passos no corredor pararam diante da porta descascada. Antonio empalideceu.

— Eles me encontraram, sussurrou.

Mas, antes que pudesse reagir, ouviu-se uma batida forte.

— Polícia! Abram a porta!

Ele levou a mão ao peito, sem saber se sentia alívio ou pavor. Giza continuou imóvel. 

Outra batida mais insistente.

Giza caminhou lentamente até a entrada e abriu. Três policiais entraram com armas erguidas, o cheiro da chuva entrou com eles.

— Ninguém se mexe! 

— Antonio levantou as mãos imediatamente.

Um dos policiais olhou para ela com estranheza. A velha mochila, os sapatos gastos, o rosto marcado pelo tempo, nada nela lembrava alguém capaz de desmontar anos de silêncio criminoso.

— A senhora chamou a polícia? Perguntou um dos oficiais.

Ela apenas apontou para o gravador sobre a mesa.

— A confissão está inteira aí.

O oficial aproximou-se devagar, apertou o botão e ouviu a voz trêmula de Antonio.

Fui eu.

O ambiente mergulhou num silêncio pesado. Do lado de fora, a chuva começava a diminuir.

Antonio foi algemado sem resistência. 

Ao passar por Giza, evitou encará-la.

Ela ajeitou a mochila nos ombros.

Os policiais conduziram Antonio pelo corredor estreito do prédio. As luzes frias piscaram sobre as paredes úmidas enquanto vizinhos curiosos abriam portas apenas alguns centímetros.

Um dos oficiais voltou-se para Giza.

— A senhora deveria ir conosco prestar depoimento.

Ela deu um sorriso cansado, meu depoimento começou há muitos anos.

Antes que ele insistisse, ela já caminhava em direção às escadas.

Lá embaixo, a cidade ainda brilhava, molhada pela chuva da madrugada. Ônibus transitavam quase vazios, um jornaleiro abria sua banca, em algum lugar distante ouvia-se música de Nelson Gonçalves.

Ela desapareceu na calçada como mais uma figura anônima entre tantas outras.

Mas na mochila velha, ainda restavam nomes na lista.

E, enquanto a cidade despertava sem notar sua presença, ela já seguia em direção à próxima missão! 


Atrás da Cortina - Hirtis Lazarin



Atrás da Cortina

Hirtis Lazarin


Para os adultos, o condomínio “Residencial Villaggio” era um local seguro, protegido por portaria blindada, câmeras de alta definição e três regras sagradas: não andar de skate na calçada, não fazer barulho após as vinte e duas horas e fingir que todas as famílias são bem educadas.

Josefina — ela odiava esse nome — quebrava as duas primeiras regras por puro tédio e a terceira por pura desconfiança.

Pra ela, aquele lugar era um ninho de cobras engravatadas e, pra cada regra criada, tinha certeza de que havia um segredo que eles tentavam, desesperadamente, esconder dela.

Sentada bem camuflada no topo do muro de três metros, à espera da perua escolar, Josefina observa o SUV blindado do vizinho sair pelo portão duplo da portaria. O motorista sorri e acena cordialmente para o segurança da guarita.

De cara feia e olhos cerrados: “É, gente… Vocês acreditam…? Prestem atenção em quem sorri demais, às sete horas da manhã, num dia frio.  Pra mim, ou está mentindo, ou está prestes a cometer um crime. 


A única exceção no mundo hipervigilante de Josefina era o Leo, a única pessoa pra quem ela confessava seus pequenos “crimes” de condomínio. Enquanto o resto do mundo parecia fantasiado de comercial de margarina, Leo era real. Se Josefina decidisse invadir a casa do síndico na calada da noite apenas para provar uma teoria paranoica, ela sabia que não iria sozinha; ele estaria pronto pra aceitar e dividir as consequências.

Enquanto ela enxergava segredos perigosos em cada “bom dia” dos vizinhos, o amigo trazia leveza e uma coragem moleque que a fazia baixar a guarda.

Sentado no tapete do quarto da menina, Leo girava um chaveiro no dedo, assistindo à cena com um sorriso de canto.

— Pronto? — Perguntou ele, guardando o chaveiro no bolso. — O censo da zona oeste foi concluído?

— Não brinca, menino. Isso é segurança básica. — Josefina respondeu tão compenetrada e séria como um enxadrista em campeonato mundial.

Ela examina cada movimento das pessoas ao seu redor, antecipando ameaças que, com certeza, nunca acontecerão. 

— Dividi o prédio em três categorias cruciais: os Insuportáveis, os Suspeitos e os… Toleráveis.

Ela abriu o caderno na primeira página, mostrando uma caligrafia impecável com palavras escritas com canetas de três cores diferentes.

— Na lista vermelha… são os que eu não suporto, o topo vai para o Seu Ribeiro, do 42. Ele passa o dia olhando pelo olho mágico e finge que está regando as plantas no corredor só para ouvir a conversa dos outros. Um perigo. Logo atrás vem a Dona Marluce, do 61. Aqueles bolos que ela traz “por pura gentileza” têm cara de suborno. Ninguém é tão legal assim sem querer algo em troca.

Léo soltou uma risada alta, deitando-se no tapete.

— JOSEEEFINAAA… a mulher é tão doce! E a lista verde? Tem alguém que se salvou do seu tribunal?

Ela travou na hora quando ele pronunciou cada sílaba daquele nome odiado, com uma lentidão cruel. O som arrastado soou como uma provocação, fazendo o sangue dela ferver instantaneamente enquanto ela cravava as unhas na palma da mão, fuzilando-o com o olhar. 

— Quantas vezes vou ter que repetir? Eu não gosto desse nome. É uma relíquia herdada de minha bisavó paterna; deveria ter ficado no século passado. Parece nome de menina velha.   Fala sério… Você acha que Josefina combina comigo?

— Para de drama, Fininha — provocou-a novamente, sabendo qual apelido ela mais odiava. — Se você fosse personagem de uma história infantil, seria a vilã desconfiada que mora na torre. Combina com você.

Josefina guardou um… dois… palavrões na garganta. A provocação de Leo ficou no ar, desafiadora. Qualquer outra pessoa que dissesse aquilo viraria inimiga mortal de Josefina, mas com ele era diferente. Eles ficaram ali parados, medindo forças em silêncio por alguns instantes, até que a faísca de briga perdeu o fôlego. O garoto desviou o olhar, mantendo na boca um sorriso maroto, e Josefina descruzou os braços, relaxando os ombros. Ninguém insistiu no assunto. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o jeito deles de dizer que estava tudo bem e que a amizade continuava intacta. 

E a conversa pode continuar tranquila.

— A lista verde…

— Apenas duas famílias são aceitáveis — apontou ela. — Os Oliveira, do 14. Eles têm três gatos, nunca fazem barulho e o filho deles passa o dia jogando videogame com fone de ouvido. Ou seja, zero interação, o que os torna vizinhos perfeitos. E a Dona Sônia, aquela senhora idosa do térreo que cuida do jardim. Ela não faz perguntas difíceis e uma vez me defendeu quando o Seu Ribeiro reclamou que a gente estava correndo no pátio.

— Sabe, amigo, morar em condomínio só me deu uma certeza: não dá para confiar em ninguém. Vivo cercada de muros e portões, mas os meus bloqueios mentais são ainda maiores. A única exceção é você, o único amigo que realmente me conhece e em quem confio de olhos fechados. De resto, mantenho distância. 

Josefina não confiava em ninguém; os vizinhos eram apenas rostos suspeitos atrás de janelas fechadas. Só o Léo tinha permissão para cruzar seus muros de desconfiança e, nos dias bons, era o único que conseguia fazê-la esquecer o peso daquele nome antiquado. 

Leo inclinou-se para frente, curioso — Onde entro nisso tudo?

— Você não está no dossiê, Leo — disse ela, guardando o caderno na gaveta com chave. — Você é o meu parceiro de equipe. E agora que mapeei o terreno, a gente precisa planejar como evitar o andar do Seu Ribeiro na hora de descer até o térreo.

Os dois entraram no elevador e foram até a quadra e se acomodaram no chão de cimento, com as costas apoiadas na grade de ferro. O silêncio estava confortável, até que o olhar afiado de Josefina travou num ponto no bloco da frente.

No terceiro andar, a cortina do apartamento 32 se moveu. Um homem de terno, segurando uma maleta escura, olhou para os lados antes de puxar o tecido fino.

— Muito estranho! O casal que mora ali — conheço os dois — trabalha muito e o imóvel permanece vazio o dia todo. 

Josefina sentiu o sangue ferver de desconfiança. Quem era aquele cara? Por que ele estava se escondendo? Ela deu um soco forte no joelho de Léo, sem tirar os olhos da janela, revoltada porque ninguém mais parecia notar que algo muito errado estava prestes a acontecer naquele condomínio.

Leo soltou um resmungo pelo soco no joelho, massageando o local, mas seus olhos seguiram a direção do dedo apontado de Josefina. Ele olhou pra janela do apartamento 32, agora com a cortina completamente fechada. Voltou a encarar a amiga com aquele sorrisinho de deboche.

— Josefina, você está assistindo a muitos filmes de espionagem — Léo sussurrou, embora estivesse achando graça. — Aquele apartamento está para alugar há meses. Deve ser só o corretor ou o dono limpando o lugar.

— Corretores não se escondem atrás da cortina parecendo fugitivos, Léo! — Ela rebateu, segurando o braço dele com força. — Conheço as pessoas deste condomínio. Aquele terno, aquela maleta… Tem alguma coisa muito errada ali e vai acontecer agora.

Enquanto discutem na quadra, o homem de terno sai do prédio principal a passos rápidos. (mais adiante essa expressão já é dita)

— Ele está saindo! —  Puxando Leo pela manga da camiseta antes que ele pudesse rebater.

O homem de terno cruzou o pátio a passos largos, sem olhar para os lados. A maleta escura balançava pesadamente ao lado de sua perna. Ele passou pela portaria, acenou de forma mecânica para o porteiro e ganhou a calçada da rua movimentada.

— A gente vai mesmo atrás dele?  O tom de deboche havia sumido, substituído por uma faísca de pura adrenalina. Aquele lado danado dele adorava quebrar a rotina pra acompanhar as maluquices da amiga.

— Claro que vamos.  — Josefina já estava correndo em direção à entrada principal.

Eles passaram pela saída do condomínio tentando parecer naturais — o que, para dois adolescentes de treze anos sem rumo, significava caminhar rápido demais e olhar para trás a cada cinco segundos. Quando pisaram na calçada da rua, o homem já estava a quase meio quarteirão de distância, dobrando a esquina perto da padaria.

Josefina apertou o passo, mantendo uma distância segura, usando os carros estacionados e os postes como escudo para os seus olhos atentos. Leo ia logo atrás, fingindo mexer no celular para disfarçar, mas com os olhos fixos nas costas do terno cinza.  Ela não sabia pra onde aquele homem estava indo, mas sua intuição dizia que o mistério do apartamento 32 estava prestes a ser revelado na próxima esquina.

O homem de terno diminuiu o passo de repente. Josefina empacou na calçada, puxando Léo pelo braço pra trás de uma banca de jornais. O homem olhou para trás e, com os olhos cerrados, varreu a rua com o olhar. Ele sabia que estava sendo seguido.

— Viu só? — Josefina sussurrou, o coração batendo na garganta. — Ele percebeu.

Antes que Léo pudesse responder, o homem acelerou o passo quase num trote, dobrou a esquina seguinte à esquerda e entrou numa rua bem mais estreita e movimentada por causa do comércio local.

— Vamos, corre! — Léo chamou, agora totalmente investido na missão.

Os dois dispararam e viraram a esquina logo atrás dele, mas a calçada ali estava cheia. O homem de terno usou a multidão a seu favor. Ele ziguezagueava entre as pessoas, jogando o corpo para o lado, sumindo e aparecendo entre os pedestres. Josefina tentava não perder o terno cinza de vista. 

De repente, o homem pegou um caminho inesperado: entrou numa galeria antiga de lojas, um lugar com várias saídas e corredores escuros.

— Ele entrou ali! — Josefina apontou, parando na entrada da galeria cheia de letreiros de neon piscando. — Se a gente perder ele de vista agora, nunca mais vamos saber o que estava acontecendo naquele apartamento.

Ela puxou o amigo pelo braço e os dois entraram na galeria, com os olhos bem abertos. O homem de terno fazia movimentos absurdamente exagerados: ele olhava para trás dramaticamente, fingia falar no relógio de pulso como se fosse um rádio e dobrava os corredores quase colando o corpo nas paredes, parecendo um vilão de desenho animado. Para a desconfiada, aquilo era a prova máxima de um crime internacional. Para o homem, era apenas uma quarta-feira divertida.

Ele entrou num corredor sem saída, perto dos banheiros antigos, e parou de costas. Josefina e Léo espiaram pela quina da parede, prendendo a respiração.  O homem colocou a maleta no chão, olhou para o teto de forma misteriosa e, devagar, começou a abrir os fechos metálicos: Clac! Clac!

— Não saia do lugar — Josefina gritou, não aguentando mais a ansiedade, dando um passo à frente com os punhos cerrados. Léo tentou puxá-la de volta, tarde demais.

O homem se virou devagar, com uma expressão séria que logo se desfez num enorme sorriso. Ele abriu a tampa da maleta misteriosa e revelou o conteúdo: não havia dinheiro falso, nem planos secretos e nem joias roubadas. A maleta estava completamente lotada de gibis antigos e brinquedos.

Ele tirou o paletó, totalmente relaxado. —Souu o tio do Léo! Seu pai me deu a chave do apartamento 32 — há tempo estava vazio — pra eu guardar, por alguns dias, minhas caixas de mudança. O Léo me mandou uma mensagem da quadra dizendo que a vizinha mais desconfiada do prédio estava de olho em mim, e eu resolvi entrar no personagem e brincar com você.

A garota cruzou os braços, com as bochechas vermelhas de vergonha e raiva. O mundo de Josefina desabou naquele segundo. Ela olhou para o lado e viu Léo se acabando de tanto rir, apontando pra ela, orgulhoso da peça que havia pregado com o tio. Para eles, era só uma piada. Para ela, uma humilhação pública. A única pessoa, pra quem ela desarmava os escudos havia usado o seu maior traço — a desconfiança — para transformá-la em piada.

Josefina ignorou as desculpas, não gritou, não chorou e não fez cena. Ela apenas deu um passo para trás e cravou os olhos em Léo. Foi um olhar de desprezo puro, frio e cortante, daqueles que desarmam qualquer um. Ele percebeu o erro na hora e o riso murchou.

Ela correu. Correu pela calçada movimentada, passou batido pela portaria do condomínio e só parou quando fechou a porta do próprio quarto. Aquela tarde mudou tudo. Josefina cortou Léo da sua vida de forma definitiva. O orgulho e a mágoa falaram mais alto e a brincadeira do menino custou caro.

Até hoje, eles moram no mesmo condomínio, cruzam-se pelos corredores, mas nunca mais se falaram.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

JOAQUINA A FUXIQUEIRA - Henrique Schnaider

 



JOAQUINA A FUXIQUEIRA

Henrique Schnaider


Joaquina era uma mulher solteirona, que nunca achou uma cara-metade na sua vida. Vivia quase o tempo todo na janela de sua casa, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo; herdou esses costumes tanto de sua mãe como de sua avó.

Era do tipo preguiçosa, nunca se esforçou, apesar dos esforços de sua mãe; mal conseguiu terminar o primeiro grau. Agora, para fazer uma fofoca ou falar mal da vida dos outros, demonstrou desde pequena um dom incrível.

Já com seus dezoito anos completos, sua habilidade de fuxiqueira estava no auge. Mal passava a vizinha, e Joaquina já ia falar para a mãe e a avó que a Rosalva, “a solteirona”, estava vestida com uma roupa supercolada e provocante. Ia dizendo para as duas que a Rosalva era uma mulher da vida e que à noite recebia a visita de vários homens.

A mãe e a avó ficavam aturdidas com os comentários extremamente maldosos dela, mas como elas também eram aquelas marocas tradicionais da Mooca, até que gostavam da língua venenosa da Joaquina.

E assim, a vida ia passando, a idade chegando e a Joaquina só ia piorando. Dia de feira na rua, então, a Joaquina saía com seu carrinho para fazer as compras, não despregava os olhos de todas as pessoas que estavam também na feira. E já ia futricar para a mãe e avó as “novidades” que viu enquanto fazia as compras.

Os vizinhos da Joaquina já estavam cheios da língua de trapo dela e muitos já combinavam uma vingança, aprontando alguma coisa para que ela aprendesse uma bela lição, mas ainda não combinaram entre eles qual seria o castigo que dariam a ela e que valesse a pena. 

Finalmente combinaram um certo dia em que toda a vizinhança se reunisse no mesmo horário em frente à janela de Joaquina.

Numa bela quinta-feira de céu azul e sol esplêndido, exatamente às seis horas da manhã, lá estavam pelo menos umas cinquenta pessoas, que já moravam há muitos anos na Mooca. Encrenqueiros por tradição e herança dos antigos imigrantes italianos, com cartazes em que estavam escritas frases nem um pouco agradáveis sobre Joaquina. 

Língua de cobra, cuidadora da vida dos outros, fofoqueira, pessoa que não tinha o que fazer e muitos outros mais. A coisa não parou aí. Inventaram uma música nem um pouco agradável aos ouvidos da Joaquina e começaram a gritar para que ela saísse na janela para ver tudo que fizeram em sua homenagem.

Joaquina abriu a janela assustada. Quando viu tudo o que estava rolando lá fora, entrou em estado de choque, pois os vizinhos eram seus conhecidos e, assim, sentiu-se traída, achando que as fofocas que contava para elas na janela, elas seriam fiéis a Joaquina e não fariam aquilo que estava acabando de ver. As pessoas ficaram pelo menos por uma hora. Lição dura, mas merecida.

Só que eram todos farinha do mesmo saco. A encrenca foi feia, e Joaquina perdeu o pé do chão com todo aquele mal-entendido. A partir daquele dia, a pobre da moça resolveu não ficar mais à janela, mas passou a ficar à porta, sentada numa cadeira; mas a sua língua ferina não mudou, pois ser fofoqueira já estava na sua natureza.

Joaquina continuou assim por muitos anos, sempre recebendo chacota da vizinhança, e assim era o bairro da Mooca.


Antes do último capítulo - Hirtis Lazarin





Antes do último capítulo Hirtis Lazarin O relógio na parede do restaurante marcava exatamente 19:45 horas quando a porta da frente travou pela décima vez.
O burburinho era ensurdecedor, uma mistura de mil conversas paralelas.
O cheiro de manjericão e de alho fritando escapava da cozinha, cada vez que o garçom passava equilibrando três pratos de cerâmica apoiados sobre um único braço. Confesso que tive um pensamento maroto: “Tomara que caia”.
Enquanto isso, a confusão na recepção aumentava com a chegada de um grupo de jovens, sem reserva. A recepcionista, com os olhos presos no tablet, tentava inutilmente encontrar um espaço que não existia. — “O tempo de espera é de cinquenta minutos” — anunciou ela, recebendo em troca um coro de suspiros frustrados.
Foi então que, no auge do movimento, as luzes piscaram três vezes e se apagaram por minutos — os minutos mais compridos que já vivi.
Quando a energia voltou, uma garrafa de champanhe estourou na mesa sete, acompanhada do tilintar de muitos garfos batendo nas mesas.
Na mesa de canto, um senhor solitário ignorava o caos ao seu redor. Folheava um livro antigo de capa vermelha e dura. Ele parecia o habitante da ilha do silêncio, em meio a um mar de famintos. Aguardava sua taça de vinho, a segunda da noite, com a paciência de quem já venceu mais de sete décadas de vida.
A paz do idoso, porém, era um alvo frágil para a engrenagem dinâmica do salão. No instante em que levava a segunda taça à boca, um garçom, acuado pelo fluxo de crianças no corredor, tropeçou levemente ao desviar de uma cadeira. O impacto no ombro do idoso foi seco. O vinho tinto descreveu um arco no ar antes de golpear a camisa de linho branca, impecavelmente passada. O líquido espalhou-se pelo tecido como uma assinatura em papel virgem.
O homem permaneceu estático com a taça suspensa a poucos centímetros do seu rosto, enquanto o gelado da bebida atravessava o tecido e molhava sua pele.
O garçom não sabia o que fazer; a bandeja tremia em sua mão. “Meu Deus, me perdoe, eu… eu sou desajeitado” — puxando um pano de prato encardido que só serviu pra espalhar ainda mais a mancha vermelha.
Antes que o senhor pudesse reagir, a voz estridente do gerente cortou o salão. Em vez de socorrer o cliente, avançou sobre o garçom e, com o dedo em riste, gritava: “Incompetente! Eu disse pra ter cuidado!” A humilhação do rapaz era maior que a mancha vermelha.
A vítima não olhava para o garçom, nem para a camisa, nem para o gerente; seus olhos permaneciam fixos no livro aberto à página 94, como se tentasse proteger as palavras daquela confusão.”
Sob o peso daquela atitude compassiva, o gerente murchou quando já se preparava pra lançar outro grito contra o funcionário.
O restaurante, que, até então, era um mar de ruídos felizes, sofreu uma súbita queda de pressão. Não houve manifestações, mas sim um coro de pequenos suspiros de lamentação e olhares de empatia silenciosa e desconfortável. Era um pesar coletivo.
O senhor Frederico ergueu finalmente os olhos, não com raiva, mas com desprezo pela forma como o garçom estava sendo tratado diante de todos. Sem pronunciar uma única palavra, fechou o livro com a calma dos anjos.
Movido por uma dignidade explícita, depositou uma nota de valor expressivo sobre a mesa e lançou ao gerente um olhar gélido — não de raiva, mas de decepção profunda e educada.
Sob o silêncio atônito dos que observavam a cena, ele ignorou o incômodo da mancha vermelha, levantou-se com postura aristocrática e atravessou o salão com passos firmes e rítmicos.
O senhor Frederico Cavalcanti carregava sua gentileza como uma armadura, deixando pra trás um rastro de constrangimento.

VOAR - PEDRO HENRIQUE

 



VOAR

PEDRO HENRIQUE


     Quando o sol abraçou a Terra com seus raios, senti-me na obrigação de levantar, mesmo sendo a última coisa que eu quisesse fazer.

     Entretanto, não havia opção. O dia se desenrolava lá fora. Olhei para o relógio e, quando vi 6:30, percebi que estava atrasada. 

     Fui ao banheiro correndo e fiz meu ritual matinal em uma velocidade tamanha que até cogitei que, na próxima Olimpíada, na categoria corrida, o ouro seria meu. 

     Os minutos saltavam pelas minhas mãos. Haviam se passado 7 até então. Fui ao quarto, peguei um cachecol e vesti o primeiro jeans que encontrei, combinando-o com uma blusa branca: “É o que temos para hoje.”

     Ontem, meu supervisor disse aos berros que eu era uma incompetente, porque não batia a meta da semana passada. Dá para acreditar? Aquele ser sem um pingo de escrúpulos se sente no direito de me ofender em público por não alcançar algo que nem ele, quando era telefonista, conseguia. 

        Isso que dá querer dar asas à cobra.

     6:50, estava eu no ponto de ônibus para, como faço há 8 anos, atender telefones e dizer: “Bom dia, senhora! Bom dia, senhor!”

     Porém, ainda assim, sinto-me indignada. Não entendi como pode haver tanta gente ruim no mundo. 

     Eu também tenho certa culpa em tudo isso. Mamãe sempre me alertou que devia ter feito uma faculdade, mas… A vida foi acontecendo, e os passos foram percorrendo novas rotas e cá estou: exausta! 

     Passados três minutos, o ônibus corta a esquina e eu, nele, entro. 

     Certamente, havia mais de 40 pessoas rezando para não adentrar mais ninguém, pois já não havia possibilidade de movimentação no veículo. 

     E foi aí, neste singelo fragmento do tempo, que vi uma arara azul subjugando o vento. 

     Eu nunca vi uma arara-azul na vida! 

     Lembro, quando pequena, de assistir àqueles programas de TV que discorriam sobre os animais e, quando falavam sobre as aves, sempre aparecia uma arara azul. 

     Elas são tão lindas… E essa… Essa sou eu, ou, ao menos, o que eu queria ter sido e não fui. 

     Não há medo, nem angústia a permeando. Ela só submerge em seu voar.

     Quando o ônibus vira a rua XV de Novembro, a arara pousa em uma árvore e eu amaldiçoo este trambolho por andar tão rápido. 

     Porém, algo em mim está estranho. A vida correu tão depressa, voou como aquela arara. 

     Como pode? Estou constrangida por aquele bicho enfadonho. Ela me machucou. Machucou como ninguém antes havia feito. 

     Quero matar aquela arara. Quero vê-la morrer gritando, sufocando. 

     Não, não posso. Tenho é que agradecê-la. Montar um altar em sua homenagem e cultuá-la, tal qual uma serva leal ao seu deus.

     Obrigada, arara; obrigada, ararinha. Não há o que pestanejar. Está decidido, assim que chegar à empresa, pedirei demissão.


O Padre Gigio - Alberto Landi

  O Padre Gigio Alberto Landi O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se torna...