A culpa é do vinho?
Hirtis Lazarin
O erro de Lucas não foi planejar uma grande farsa. Eu o conheço suficientemente bem pra fazer tal afirmação.
Era uma sexta-feira friorenta que combinava com taças de vinho e uma tábua farta de queijos. Foi assim que Lucas se preparou pra receber em casa a nova namorada e alguns dos amigos dela.
A sala, até então silenciosa, foi inundada por um vozerio de gente jovem e animada. Casacos são jogados no braço do sofá e os celulares espalhados numa mesinha de canto, enfeitada com margaridas brancas. Eles trazem consigo o frescor da juventude e uma intimidade leve, daquelas que dispensam formalidade.
Clara liderava o entusiasmo e apresentava cada um deles. Um e outro elogiavam o espaço, a recepção, e todos abraçavam o dono da casa com espontaneidade calorosa, que tornava impossível prever o desastre que uma simples pergunta poderia provocar.
Em poucos minutos, garrafas de vinho já estavam abertas e as conversas se cruzavam no ar em um falatório sem filtro.
E tudo começou quando um dos rapazes aproximou-se do enorme e expressivo quadro abstrato pendurado na parede da sala, olhou demoradamente com ares de quem entende de arte e perguntou:
— Quem pintou? Sou fã de Kandinsky. Já li tudo sobre sua vida e obras. É um dos melhores representantes da arte abstrata.
Todos se voltaram para Lucas, e ele deixou escapar uma frase que parecia tão simples! Querendo impressionar o grupo, deixou o ego falar mais alto:
— Fui eu! — Forçando um sorriso modesto, apontando para a explosão de tintas na tela.
A frase saiu da boca antes que seu cérebro avaliasse o estrago. Na verdade, ele havia comprado a tela por cinquenta reais numa feira de garagem, só pra cobrir um mofo na parede.
Um silêncio súbito, quase reverente, engoliu o falatório da sala. Todos os olhares convergiram primeiro pra tela — um emaranhado complexo de formas geométricas e tons expressionistas que de repente parecia muito mais enigmático — e depois para Lucas, cujas bochechas começaram a avermelhar.
A reação da namorada foi uma mistura de choque e orgulho repentino. Ela congelou a taça de vinho no caminho até a boca, olhou bem pra tela e depois para o namorado:
— Você nunca comentou que pintava! — abraçando-o pelo pescoço. Os olhos brilhantes da moça, fixos nele com tanta admiração, impediram qualquer tentativa de correção.
— Conta mais. Gente, olha isso, que traço profundo!
— Não sei se consegui… — ele começa a inventar um significado profundo. — Eu quis retratar a dualidade do caos urbano contra a solitude da alma. — A explicação rendeu um beijo demorado, tapinha nas costas e interjeições de admiração.
Enquanto sustentava a mentira, seu cérebro trabalhava com uma sobrecarga exaustiva, calculando cada palavra pra não se contradizer. E o coração martelava no peito …
A moça dos olhos verdes tentou ler a assinatura no quadro, mas era um borrão inelegível.
Alguém gritou:
— Mostre outro quadro seu.
E as garrafas vazias sobre a mesa já eram muitas…
Queria fugir desse martírio e, numa atitude desesperada, puxa a namorada para um canto, abraça-a com toda a sua força e sussurra palavras amorosas ao seu ouvido.
Mas, alguns segundos depois, o amigo arquiteto ajustou os óculos, aproximou-se do quadro e disparou:
— E essa textura aqui… Você conseguiu com espátula ou usou alguma técnica mista? O que você quis canalizar nessa transição do azul para o vermelho? Lucas não sabe nada de pintura. Mal sabe a diferença entre guache e aquarela. Força um sorriso amarelo, balança a cabeça e gagueja algumas respostas vagas, repetindo coisas que aprendeu nas aulas de arte. O suor gelado escorre fartamente pelo pescoço; a gola, já bastante molhada, está prestes a se rebelar. Parece que o castelo de cartas da sua dignidade vai desmoronar.
— Bom, chega de falar de mim, vou buscar mais vinho gelado. Ao tentar correr pra cozinha e fugir do interrogatório, a namorada impede-o;
— Gente, se ele tem um quadro desses na sala, imagine o resto! Lucas, amor, onde fica o seu ateliê? Mostra pra gente onde você cria essas maravilhas!
Lucas sentiu o estômago dar um nó instantâneo. A sala inteira começou a vibrar com a ideia, e os amigos já se prontificavam a levantar, ansiosos pelo tour artístico.
Desesperado, ele começou a gaguejar as desculpas mais esfarrapadas que seu cérebro em pânico conseguiu formular:
— Não, é que… está uma bagunça… Sou muito ciumento com o meu espaço de criação… Na verdade, a luz da noite não valoriza os materiais… Mas, quanto mais ele recuava, mais o grupo insistia, pensando que era apenas a timidez de um artista incompreendido.
Sem saída e empurrado gentilmente pela namorada em direção ao corredor, Lucas abriu a porta do quartinho de fundos, rezando por um milagre que transformasse aquela bagunça em arte. Não houve milagre. Ao acenderem a luz, o grupo não encontrou cavaletes, telas em branco ou cheiro de tinta a óleo. O que viram foi um amontoado de caixas de papelão, uma esteira ergométrica servindo de cabide, uma caixa de ferramentas e vários sapatos espalhados pelo chão.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que Lucas conseguiu ouvir o exato momento em que sua reputação se desintegrou no ar.
Ninguém riu. Ninguém fez piada ou apontou o dedo. E foi justamente essa frouxidão no ambiente que fez o chão sumir sob os pés de Lucas. O grupo, em um pacto silencioso de pura compaixão e elegância, recolheu os olhares do quartinho de fundos de forma quase coreografada.
— Nossa, mas essa noite está perfeita para aquele vinho, não acham? — Murmurou um deles, guiando os outros de volta para a sala.
Lucas ficou para trás, paralisado no umbral da porta, sentindo o sangue pulsar nas têmporas com a força de uma britadeira. O corpo inteiro formigava e uma quentura incômoda subia pelo seu pescoço, transformando seu rosto num tom escarlate impossível de esconder. Ele se sentia incrivelmente pequeno, como se tivesse encolhido nas próprias roupas, desejando que um buraco negro se abrisse no piso daquele corredor para engoli-lo. Quando finalmente conseguiu mover as pernas e retornar à mesa, o som dos brindes e o falatório dos amigos pareciam distantes, abafados pelo peso humilhante da sua própria farsa.
Enquanto o pessoal se esforçava pra fazer o assunto fluir entre as taças de vinho, Lucas permanecia imóvel na ponta da mesa, incapaz de encarar qualquer um ali. Foi então que sentiu um toque suave e quente cobrir a sua mão debaixo da mesa.
Ele ergueu os olhos, tenso, esperando encontrar o julgamento ou a decepção no rosto da namorada, mas o que viu o desarmou por completo. Ela o olhava com uma ternura leve e compreensiva, e um quase imperceptível sorriso de canto de boca que parecia dizer que tudo bem, que aquilo passaria. Ela não apenas o resgatou do isolamento da própria vergonha, mas deu a Lucas o chão de que ele precisava para respirar novamente, transformando o pior vexame daquela noite em um pacto silencioso de cumplicidade entre os dois.




