UM DIA A CASA SE DESFAZ
PEDRO HENRIQUE
"O diabo não há! É o que eu digo, se for…
Existe é o homem humano."
- Guimarães
Rosa
Um dia
o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau. Pedra por pedra. E cá
estou eu, no meio deste caos. Como foi que chegamos aqui, Jorge? Como foi?
Um caminho que começou tão
pulcro. Pétalas de rosas pelo chão. Vaga-lumes iluminando o caminho. O louvor
que emerge da boca do amor, e mesmo assim chegamos aqui. A linha atroz que
fomos obrigados a atravessar. Cada um por sua conta e risco.
Você disse que eu era o seu tudo e eu acreditei. Que os
deuses me matem por isso. Ontem, antes de dormir, me peguei pensando em você.
Lembrei do seu cheiro, da sua barba, do seu toque…
Quando
te vi entrar naquele cemitério, tudo em mim ganhou encanto. Como pode? Alguém
ser tocada pelas mãos do viver em um lugar tão inapropriado para isso? Todavia,
você sempre soube despertar oásis e mundos em mim.
Eu enterrando minha mãe, você
visitando seu pai. O par perfeito. A que foi ferida com o luto mais
desestruturante que alguém pode ter e você se afogando no seu. Era para ter
acontecido, penso.
Também penso que poderíamos ter
feito mais pela gente. Entretanto, depois que se ordenha uma vaca, não há como
pegar de volta o que dela saiu. É seu. Faça o que quiser ou o que der para
fazer. Um doce, uma bebida, não sei. A vida é sua.
Recorda
de quando você me pegou te encarando? Viu que estava sozinha, se aproximou e
ficou ali quieto enquanto eu tentava não desabar. Até hoje me pergunto como
você soube que eu precisava tanto de um abraço naquele nefasto momento.
Ter seus braços me enrolando, me protegendo, descortinando
algo que eu nunca soube o que é: afago. Foi o que eu, mesmo sem saber, mais
precisava.
Ninguém apareceu naquele dia para enterrá-la. Foi só eu. Eu
e a mulher que mais me fez mal no mundo, e mesmo assim lá estava. Qual ser
humano dá a própria filha para uma desconhecida criar enquanto se diverte com
os vagabundos da rua? Era o que eu me perguntava antes de você se aproximar.
Qual?
Com certeza, um ser humano que
não tem em si nada de humano.
Mas, entre seus braços, eu tinha a íntima certeza de que eu
não seria mais abandonada. Tinha certeza, a cada abraço, seja no nosso primeiro
encontro, seja no nosso casamento, seja quando trouxemos nosso lindo filho para
casa após um longo período no hospital depois do parto. Não importava o
momento, eu sabia que poderia confiar em você.
O mundo lá fora me desprezava, me escarnecia,
me dava migalhas, porém era em você, meu lugar favorito, que encontrava paz.
Nossas
noites de amor, nossas noites com Gabriel, nosso filho querido, o maior
presente que Deus nos deu.
Como
cresceu rápido, né? Era um garoto que jogava os brinquedos pela casa, que caía
de bicicleta e corria para meu colo clamando por ajuda, um príncipe que tive a
honra de ver crescer. Lindo, inteligente, saudável.
Lembra,
Jorge, quando ele nos apresentou Heloísa?
“Mãe, pai, essa é minha namorada.”
Quis morrer naquele dia. O meu bebê,
meu frágil bebê, aquela coisinha minúscula que demorei doze horas para trazer
ao mundo, agora tinha uma namorada. E eu? Onde ficava nessa história?
Porém,
Heloísa era uma boa garota, ela passou em medicina mesmo. É muito inteligente,
Gabriel também é. Sei que em breve tudo vai se ajeitar e ele também vai para a
faculdade. Meninos como ele merecem ganhar o mundo.
Recorda,
Jorge, recorda da festa surpresa que fizemos para ele quando ia completar o
segundo grau?
Lembra
que naquele dia, fui buscá-lo na escola, porém tive que levar o amigo dele à
emergência porque havia quebrado o braço na educação física e demoramos mais do
que o esperado.
Contudo,
você me disse que não tinha problema, que até era bom, pois assim Heloísa e tu
teriam mais tempo para deixar tudo arrumado para o nosso menino se sentir o
homem mais especial do mundo.
Tenho
certeza de que não esqueceu de quando entramos na sala e vimos você e
Heloísa um dentro do outro?
Você reflete, Jorge, de como fez com que as pétalas de rosa
que caminhamos sobre ao decidir nos unir viraram um bosque horrendo composto
por espinhos sublevados que penetraram minha carne com fúria e fervor?
É
impossível obliterar de minha memória o exato momento em que Gabriel pegou a
faca na cozinha e correu para cima de você.
Lembra, Jorge, de como você estragou tudo?
Hoje tenho um filho lindo e inteligente atrás das grades e tu
aqui do lado desse demônio que me trouxe ao mundo.
Aprendi, querido, da forma mais nefasta que existe, e graças
a você, que um dia o amor acaba. Um dia a casa se desfaz. Degrau por degrau.
Pedra por pedra.
FIM!