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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS - Alberto Landi

 



 ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS
Alberto Landi


Florença despertava sob uma luz dourada que se refletia nas águas tranquilas do Arno, enquanto a cúpula de Santa Maria del Fiore já brilhava ao longe, como uma sentinela sobre a cidade. 

A Ponte Vecchio já começava a ganhar vida. Os primeiros transeuntes atravessavam o rio em direção ao Palazzo Pitti, enquanto as lojas começavam a abrir suas portas.

A cidade parecia despertar um tanto lenta, mas Florença nunca acordava em silêncio. Havia sempre o murmúrio das águas, o som dos passos sobre as pedras antigas e aquela sensação de que, a cada esquina, a história estava esperando ser encontrada.

Nas ruas estreitas, o perfume dos pães recém-assados misturava-se ao ar fresco da manhã. Michelangelo sentia que uma escultura destinada à eternidade começava a revelar-se diante do mármore silencioso.

Ele observava o seu Davi imóvel, sereno, com os olhos fixos no destino.

Parecia que ele não havia esculpido, mas libertado de dentro do bloco de mármore.

Mais de um século depois, em Roma, Bernini contemplava o seu próprio Davi.  O corpo estava torcido, os músculos tensos, o rosto concentrado no instante do ataque. Ali o mármore parecia respirar, como se a escultura pudesse avançar um passo e lançar a funda contra o gigante.

Certa noite, Bernini teve um sonho. Encontrou-se diante de duas esculturas vivas: o seu Davi e o de Michelangelo. Sob a luz da lua, as duas figuras pareciam respirar, então o romano olhou para o florentino e perguntou:

— Você ainda espera pelo combate? 

— Sim. Estou reunindo coragem para enfrentá-lo, respondeu Davi de Michelangelo.

— Eu não espero. Já estou dentro dele, disse o de Bernini.

— Qual de nós é o mais forte? — perguntou o de Bernini.

O Davi florentino sorriu. — A força não está apenas no movimento, muitas vezes reside no silêncio antes da decisão.

Davi, o romano, apertou a funda, e o silêncio já se transformou em ação.

Então compreenderam que não eram rivais, eram duas formas diferentes de representar a mesma coragem e uma mesma verdade.

Ao amanhecer, o sonho havia chegado ao fim.

Michelangelo havia dado ao mármore a grandeza da alma humana; Bernini havia ensinado o mármore a dançar, lutar e avançar no tempo.

Cada escultura voltou ao seu lugar de origem, mas, desde então, quem contempla o de Michelangelo fazia a coragem nascer do silêncio do mármore.

Dois gênios, duas épocas, duas formas de tocar a eternidade e uma mesma verdade: quando a arte é realmente grande, até a pedra parece guardar um sopro de vida!



Amazing Grace - A noite em que o mar silenciou - Alberto Landi

 



Amazing Grace 

A noite em que o mar silenciou

Alberto Landi


O Atlântico não conhecia misericórdia naquela noite.

Era 21 de março de 1748.

A bordo do Greyhound, o jovem John Newton enfrenta uma tempestade que parecia arrancar o próprio navio do oceano.

As ondas subiam como montanhas negras, o vento rasgava as velas.

A madeira do navio gemia a cada golpe do mar.

Newton já conhecia o oceano, suas calmarias e fúrias, mas naquela noite havia algo diferente. Pela primeira vez, ele percebeu que não tinha controle sobre o próprio destino. Um estrondo fez o navio estremecer, a água começou a invadir o porão, os homens corriam de um lado para outro, tentando salvar a embarcação.

Newton trabalhou; durante horas todos lutaram contra o mar.

Exausto, ele percebeu uma coisa que talvez nunca tivesse admitido antes: podia perder tudo, o navio e a vida.

Talvez naquele instante começasse a perder também a imagem que tinha de si mesmo.

Newton gritou por Deus; não foi uma oração elaborada, foi o grito desesperado de um homem que descobrira, no meio da imensidão do oceano, a própria fragilidade.

O navio sobreviveu, ele também.

Mas alguma coisa havia mudado, não naquele instante completamente; a transformação levaria anos.

Ele ainda carregaria consigo as contradições de sua vida e sua participação no tráfico de escravos.

Mais tarde, porém, abandonaria o mar e tornar-se-ia pastor, e denunciaria a escravidão que um dia ajudara a sustentar.

Anos depois, olhando para sua própria história, escreveria versos sobre a graça.

Uma graça que, segundo sua fé, encontraria um homem perdido, um homem que havia atravessado a tempestade do oceano e, principalmente, a tempestade de si mesmo.

Amazing Grace, how sweet the sound. 

Mas a história daquela canção não terminaria com Newton.

Mais de dois séculos se passaram.

Ele morreu, os navios desapareceram no horizonte, aquela noite de tempestade tornou-se memória, mas suas palavras permaneceram.

Amazing Grace atravessou gerações, países e séculos. Foi cantada em igrejas, em momentos de dor, de despedida e de esperança. Sua melodia encontrou novas vozes, novos lugares e novas histórias.

O homem que um dia gritara por misericórdia no meio do Atlântico já não estava ali, mas sua transformação continuava viajando.

Talvez seja esse o mistério das grandes canções.

Algumas nascem de uma vida, mas deixam de pertencer somente a quem as escreveu. Elas atravessam o tempo, e séculos depois, ainda conseguem tocar a alma de alguém que talvez nem conheça a história daquele homem perdido no mar, porque algumas tempestades terminam quando o mar se acalma; outras continuam dentro de nós até o dia em que finalmente aprendemos a olhar para trás.

Newton olhou. Descobriu que a verdadeira viagem não havia sido aquela que atravessara o Atlântico, mas que o levaria de volta para dentro de sua própria alma.

A canção não nasceu simplesmente de uma tempestade, e sim, de uma vida inteira de transformação!

Deu asas aos versos de Newton e, assim, o que nasceu como poema se eternizou como uma canção!


Eu e os botões - Hirtis Lazarin



Eu e os botões

Hirtis Lazarin


Eu deveria ter suspeitado no dia em que tirei da caixa meu secador novo. Ele tinha um design moderno demais, um acabamento fosco meio sinistro — não era a cor que escolhi, alguns botões que pareciam o painel de controle de um foguete espacial.

Estava atrasada para o trabalho, com o cabelo pingando e sem tempo pra ler todas aquelas instruções que, de tão pequenas, as letras pareciam formiguinhas atrapalhadas.

Meio desconfiada e à frente do espelho, girei o cabo de um lado para o outro e apertei um dos botões — foi no chute. 

No primeiro clique, em vez de um sopro morno e azul, bem reconfortante, ele emitiu um estrondo de turbina de avião. Disparou um jato tão frio que congelou imediatamente a ponta do meu nariz e meu gato despencou da cadeira.

Tentei outro botão e o danado emperrou.

Segundos depois, sem eu mudar meu dedo da posição anterior, ele decidiu viajar do modo “Polo Norte” ao modo “Lavas de Vulcão”. Senti o cheiro de queimado. Arranquei o aparelho da tomada com um puxão violento que quase levou o filtro de linha junto.

Olhei pra caixa recém-aberta no chão, cercada por plástico bolha.  Meu rosto queimava de raiva. Joguei o secador sobre a cama desarrumada e a minha vontade era transformá-lo num amontoado de pecinhas inúteis, mas como sou apenas uma trabalhadora mal remunerada…

“Chega!” Olhei para o relógio. Os ponteiros, parecia que andavam mais rápido que o normal. E o meu cabelo continuava molhado. 

Sem tempo pra decifrar a engenharia aeroespacial do aparelho, amarrei um lenço estampado na cabeça, à la “Carmen Miranda”, peguei a bolsa e saí voando. Eliminei todo pensamento negativo pra que o mau humor não atrapalhasse meu dia. 

O que eu não esperava foi o que aconteceu duas horas depois. O celular vibrou no meio de uma reunião importante. Era uma notificação do aplicativo “Casa Inteligente” integrado ao celular. 

Eu sabia que a mensagem se referia ao secador, mas “turbina”, “autodestruição”, “térmicas” era um conjunto de palavras que não tinham qualquer significado pra mim. Ignorei a informação.

No meio da tarde, entre uma planilha e outra, senti calafrios na minha espinha. Pensei no meu gato e no secador possuído em cima da cama. Se aquele monstro tecnológico, cheio de botões, resolvesse ligar sozinho no modo “turbina espacial”, o coitado do bichinho seria arremessado contra a parede ou, pior, ganharia uma escova progressiva forçada. Não tive dúvidas, inventei para o chefe uma dor de dente terrível e, em menos de cinco minutos, já estava dentro de um táxi.

Encontrei duas vizinhas e o síndico parados à minha porta. Quando entrei no quarto, o secador rodopiava sobre os lençóis e emitia um som verde fantasmagórico.

Encolhido atrás da cortina pesada, meu gatinho assustado parecia tentar se fundir com a parede. Os olhos arregalados e cheios de pânico, o pelo arrepiado e o corpo miúdo e trêmulo revelavam o tamanho do seu medo.

O síndico, mexendo aqui e acolá, descobriu que um botão do secador estava   acionado. A manhã inteira, uma voz feminina e aguda, dando “Bom dia! Tudo bem com você?” atormentou a vizinhança inteira.

No dia seguinte, acordei decidida. Envolvi o secador no plástico bolha, arrumei-o cuidadosamente na mesma caixa — que, por sorte, estava intacta — e fui até a agência de Correio mais próxima. 

Antes de entregar o pacote definitivo ao atendente, olhei pela última vez para a embalagem. Lá estava a modelo, estática e perfeita, ostentando cabelos sedosos flutuando num vento invisível. Tive a absoluta certeza de que o sorriso congelado daquela mulher na caixa não era de simpatia, mas de puro deboche. Era como se a foto estivesse me humilhando e comemorando a vitória da tecnologia contra os mais velhos.

Entreguei o embrulho para o atendente e, via SEDEX, despachei o secador para a loja “Shoppee”.

Caminhei sem olhar para trás. 

 Senti-me derrotada.


O boato - Alberto Landi

 


O boato

Alberto Landi


Helena era secretária de uma companhia de seguros. Miguel, seu chefe, era um homem respeitado pelos funcionários, mas cuja autoridade também despertava sentimentos diversos.

Ela era magra, alta, parecia até um esqueleto ambulante.

Tinha 1,80 de altura e parecia ter sido montada a partir de um kit de construção de robôs.

Tudo começou com uma frase quase inocente.

Durante uma conversa com uma colega de trabalho, Helena disse em voz baixa:

— Dizem que Miguel vai embora.

Não havia certeza em suas palavras, apenas insinuação.

Mas, ao perceber a surpresa no semblante dela, sentiu algo inesperado, a sensação de que, por alguns instantes, tinha poder sobre o que os outros pensavam.

Ela não sabia explicar por que aquela sensação lhe agradava tanto.

A possibilidade de Miguel deixar a empresa parecia despertar nela sentimentos que preferia não revelar.

No dia seguinte, alguém lhe perguntou:

— Você soube?

Ela fingiu surpresa.

— Soube o que?

A pergunta trouxe-lhe uma satisfação secreta.

O boato, ainda tímido, começava a caminhar.

Ela acrescentava uma dúvida aqui, uma pausa ali, um detalhe que não existia. Nunca afirmava completamente, deixava que os outros completassem a história.

E isso lhe dava prazer.

Observava silenciosa, enquanto a pequena semente crescia.

O que começava com uma frase transformava-se agora em uma história. A história em suspeita e a suspeita começava a ganhar vida própria. O que começou tímido passou a ser temido.

Quanto maior ficava, maior era sua satisfação.

Já não precisava dizer muita coisa; bastava uma expressão, um olhar, uma frase interrompida e o boato fazia o resto.

Até que, certa manhã, ouviu seu próprio nome. Parou. O boato havia mudado de direção.

Agora diziam que ela sabia de tudo, que fora ela quem espalhara a história, que havia motivos ocultos por trás de suas palavras.

Pela primeira vez sentiu medo, tentou corrigir o que havia criado, quis dizer que tudo não passara de uma invenção sua, que Miguel não iria embora, mas ninguém queria ouvir a verdade, o boato já havia percorrido a companhia inteira.


O boato já não precisava dela; era como uma criatura que, depois de ganhar vida, aprendera a caminhar sozinha.

E agora era temido.

Ela percebeu então algo que nunca imaginara: o boato precisava de outro boato para continuar existindo.

Uma mentira alimentava outra. Uma dúvida criava uma suspeita, e a suspeita precisava de uma nova história.

E a história já não obedecia à sua criadora.

Naquela noite decidiu contar a verdade; precisava destruir o boato antes que ele a destruísse.

Mas sua colega, ao chegar, ouviu dela:

— Não adianta mais, agora estão dizendo outra coisa.

Helena sentiu um frio percorrer o corpo.

— O que?

A colega, a quem Helena havia contado tudo no início, hesitou:

— Que você inventou tudo para esconder alguma coisa ainda maior.

Ela ficou em silêncio. Percebeu, então, que estava diante de algo que já não podia controlar.

O boato precisava de outro boato para sobreviver.

E a cada tentativa de apagá-lo, apenas lhe dava novo alimento.

Naquela noite, diante do espelho, ela finalmente compreendeu: não havia criado apenas um boato, havia criado uma sombra.

E algumas sombras, depois que aprendem o caminho, deixam de perseguir quem as criou.

Passam a acompanhá-la!




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

HELENA E AUGUSTO - Henrique Schnaider

 



HELENA E AUGUSTO

Henrique Schnaider

 

Helena era uma mulher atraente, mas não tinha encontrado alguém com quem quisesse dividir a vida. Havia dias em que a solidão pesava mais, sobretudo quando chegava em casa e não tinha a quem contar alguma coisa boa que lhe acontecera.

Gostava de ir à praça. Sentava-se num banco e ficava observando os passarinhos, os esquilos e os saguis entre as árvores. Às vezes, passava ali a tarde inteira.

Foi numa dessas tardes que Augusto se sentou ao seu lado. Tinha uma aparência jovial e um jeito tranquilo. Ficaram em silêncio por alguns minutos, até que ele comentou alguma coisa sobre os animais. Helena respondeu, e a conversa começou. Quando se deram conta, já estava ficando tarde.

No encontro seguinte, ela soube seu nome. Depois, vieram outras conversas, um convite para almoçar, um jantar. Helena passou a se arrumar com mais cuidado antes de sair. Escolhia a roupa, mudava de ideia, voltava ao espelho. Fazia tempo que não se sentia assim.


O romance aconteceu aos poucos. Augusto se tornou parte dos seus dias, e Helena já não imaginava a semana sem vê-lo. Gostava de ouvi-lo, de andar ao seu lado, de prolongar a despedida.

Começaram a fazer planos. Falavam de viagens, de lugares que gostariam de conhecer e da possibilidade de morar juntos.


Um dia, porém, Augusto não apareceu na praça. Helena esperou até o fim da tarde. Pensou que ele tivesse tido algum imprevisto. No dia seguinte, voltou ao mesmo banco. Nada. Depois de alguns dias, telefonou para o número que ele lhe dera e descobriu que era falso.

Não conseguia entender. Repassava as últimas conversas, procurando alguma palavra, algum gesto que explicasse o desaparecimento. Sentia saudade, mas também raiva.

Algum tempo depois, um entregador tocou a campainha. Trazia uma carta de Augusto. Tinha esperado tanto por uma notícia e, agora que ela chegara, não conseguia abrir. Deixou a carta numa gaveta. Em certos dias, tirava-a de lá, olhava seu nome escrito e tornava a guardá-la. Até que resolveu ler.

Augusto estava muito doente. Escrevia que lhe restava pouco tempo e pedia perdão por não ter contado a verdade. No fim da carta, havia um endereço.

Helena leu mais de uma vez. Queria ir vê-lo, mas ainda estava magoada. Demorou a decidir. Quando finalmente foi, uma moça atendeu à porta.

— Eu estou procurando o Augusto.

A moça ficou em silêncio por um instante e perguntou quem ela era. Helena contou sobre os encontros na praça, o namoro e a carta.

— Sou Sofia, irmã dele.

Foi ali, à porta, que Helena soube da morte de Augusto. Sofia a convidou para entrar. As duas conversaram, choraram e, antes que Helena fosse embora, ficaram abraçadas por um longo tempo.

Ela voltou na semana seguinte. Depois, voltou outras vezes. Sofia queria conhecer a mulher por quem o irmão havia se apaixonado; Helena queria ouvir suas histórias, saber como ele era antes de se encontrarem naquele banco.

Com o tempo, já não falavam apenas de Augusto. Tomavam café, saíam para fazer compras, telefonavam uma para a outra quando acontecia alguma coisa. A amizade foi crescendo nessa convivência.

Anos depois, decidiram morar juntas. A casa ficou mais movimentada, havia companhia para as refeições e alguém a quem desejar boa-noite.

Às vezes, Augusto ainda surgia numa conversa, e uma delas chorava. A outra acudia.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A flecha de Bernini - Alberto Landi

 



A flecha de Bernini

Alberto Landi


Quando entrou na Capela Cornaro, em Roma, Helena não sabia exatamente o que procurava. 


Talvez procurasse apenas alguns minutos de silencio.

Havia chegado à Itália carregando uma lembrança que evitara durante quase trinta anos. 


 Guardara a carta na gaveta, depois, numa caixa, e mais tarde, entre as páginas de um livro que raramente abria, como se escondê-la pudesse também silenciar o passado.

Era mais fácil conservar uma carta fechada do que enfrentar aquilo que poderia estar escrito dentro dela.

Helena tinha vinte e oito anos quando conheceu Miguel.

Ele era restaurador de obras de arte e trabalhava numa pequena igreja de Roma. Ela estudava história da arte e costumava passar longos minutos observando o trabalho cuidadoso das mãos de Miguel.

Foi assim que começaram. Sem grandes declarações.

Um café depois do trabalho, uma caminhada pelas ruas antigas, livros esquecidos na casa um do outro, conversas que se prolongavam até a noite.

E, pouco a pouco, descobriram haver encontrado algo raro: a tranquilidade de estar ao lado de alguém sem precisar fingir.

Miguel queria permanecer em Roma, onde haviam construído tantas lembranças. Ela, porem, recebera uma proposta de trabalho em seu país de origem, e o destino começava a colocá-los diante de caminhos diferentes.

Era uma oportunidade rara, exatamente aquilo que havia sonhado durante anos.


Miguel pediu que ela ficasse, porém ela hesitou, não porque não o amasse, mas porque tinha medo.

Medo de abandonar a carreira, de depender de alguém, de escolher o amor e, um dia, descobrir que havia feito a escolha errada.

Naquela noite, discutiram. Miguel olhou para ela e perguntou:

— Você está indo porque quer ir ou tem medo de ficar?

Ela não respondeu, e o silêncio foi sua resposta; na manhã seguinte partiu.

Durante algum tempo, trocaram cartas; depois, elas ficaram mais raras.

Até que uma delas deixou de receber resposta.

O tempo passou…

Anos mais tarde, Helena soube que Miguel sofrera um acidente enquanto trabalhava na restauração de uma igreja.

Sobreviveu, mas ficou com sequelas que encerraram sua carreira.

Ela nunca soube se ele havia tentado procurá-la, e nunca soube se ele a culpava.

E essa dúvida tornou-se sua verdadeira ferida.

Ela nunca se casou, não porque não tivesse tido oportunidade, mas porque, no fundo, acreditava ter deixado escapar o único amor que realmente importava.

Durante quase trinta anos, carregou aquela culpa em silencio.

Até aquela tarde em Roma, diante dela estava a escultura de Êxtase de Santa Teresa, de Bernini.

Helena aproximou-se; o mármore parecia respirar. 

Teresa estava reclinada sobre as nuvens, os olhos cerrados, o rosto suspenso entre a dor e a entrega.

Ao seu lado, um anjo sorria, segurando uma flecha.

Helena conhecia a história.

Teresa de Ávila havia descrito uma experiência mística em que um anjo a atingia com uma flecha de ouro. A ferida provocava dor, mas também uma espécie de êxtase, como se o amor divino atravessasse seu corpo.

Ela ficou observando a flecha.

— Por que uma flecha? — murmurou

Durante toda a vida pensara que ela servia apenas para ferir, mas o anjo do escultor não parecia cruel, não havia violência estampada em seu rosto, a flecha não parecia uma arma, e sim uma passagem.

Ela sentou-se e, pela primeira vez em muitos anos, pensou que talvez algumas feridas não existissem para destruir, talvez para revelar.

Naquela noite, de volta ao hotel, abriu a mala.

Retirou um livro antigo, abriu-o; a carta ainda estava lá.

Durante alguns segundos, seus dedos tremeram, depois rompeu o envelope, leu e descobriu que, durante todo esse tempo, havia carregado uma culpa que não lhe pertencia.

Miguel escrevera. 

Você não me abandonou, apenas escolheu o caminho que, naquele momento, conseguia escolher. Eu também teria medo.

Ela parou, continuou lendo. Miguel contava que nunca a odiara, mas que algumas vezes pensava em procurá-la, mas não sabia se deveria interromper a vida que ela havia escolhido.


Não quero que você passe o resto da vida acreditando que foi sua culpa.

Ela fechou os olhos, chorou, não pelo homem que perdera. Chorou pela mulher que havia sido aos vinte e oito anos.

.

Aquela jovem não sabia o que o tempo lhe ensinaria.

Não sabia que algumas escolhas só parecem erradas porque conhecemos suas consequências.

E ela finalmente compreendeu que passara trinta anos condenando uma mulher por não possuir, aos vinte e oito, a sabedoria que só a vida poderia lhe dar.

Na manhã seguinte, voltou à Capela Cornaro, ficou diante de Teresa, depois olhou para a flecha, agora compreendia.

A flecha havia atravessado o coração de Teresa para conduzi-la ao êxtase.

A da Helena havia atravessado o tempo para conduzi-la à verdade.

Talvez fosse isso que Bernini tivesse compreendido, que o amor, por vezes, não se perde quando duas pessoas seguem caminhos diferentes, mas permanece naquilo que viveram.

Algumas feridas não chegam para nos destruir, e sim para abrir aquilo que o medo manteve fechado.

Ela permaneceu alguns instantes em silêncio, depois sorriu; não precisava voltar ao passado, nem encontrar Miguel, nem refazer a escolha.

Precisava apenas deixar de punir aquela jovem que um dia teve medo de ficar.

Saiu da capela; Roma estava diante dela, antiga, barulhenta, luminosa.

As pessoas caminhavam pelas ruas sem saber que, naquele instante, uma mulher acabara de devolver a si mesma trinta anos de vida.

Ela caminhou devagar e percebeu que algumas dores não desaparecem, apenas deixam de mandar em nós.

Então olhou uma última vez para a porta da capela e pensou na flecha.

A mesma que ferira Teresa havia lhe ensinado outra coisa.

Há feridas que não foram feitas para nos destruir; foram feitas para deixar entrar a luz!


Notas

A flecha havia atravessado Helena trinta anos antes. Agora, diante da escultura de Bernini, compreendeu que aquela antiga ferida já não tinha forças para prendê-la. 

Na escultura, a flecha representa o amor divino que fere e transforma.

Com Helena, ganha outro significado: a lembrança de uma ferida antiga que, após três décadas, deixa de aprisioná-la. Representa a passagem da dor para a libertação.


UMA CARTA PARA WILMA - HIRTIS LAZARIN

 



São Paulo, 15 de setembro de 2026


Wilma querida


  Depois de anos seguidos, voltei à cidade onde nascemos, crescemos e estudamos até o terceiro colegial.  Nem faculdade tínhamos lá.

  Preciso contar-lhe as "fofocagens".  Tem coisa melhor que isso?

  Lembra-se da "Lorducha"?  Aquela que roubava lanche da turma toda?  Bastava só o"distraimento" de um dos nossos que o seu lanche desaparecia que nem nave espacial. Dizem que chegou aos cem quilos.  Fez cirurgia no estômago e você nem pode imaginar como ficou: "empalitou" de vez.  Perdeu cinquenta por cento de gordura.  Tão "pelancuda" ficou, que mais parece uma peça de roupa pendurada desplicitamente num cabide menor do que deveria ser, "despelancando" pra todos os lados.  Coitadela!

  Aquele casal de velhinhos  "carinhopáticos" que morava no final da nossa rua?  Lembra-se  do primeiro “Qsuco” de morango que tomamos na vida?  Foram eles que nos deram…  A casa bem velhinha continua lá, vazia.  As crianças "maluquetes" têm medo.   Dizem que ouvem sons "urubuzando" ao  redor da casa e vêem sombras "bruxulantes". 

  O tio Juca, dono da vendinha onde comprávamos doces, já está bem velhinho e "piraducando".  Tadinho! Já completou oitenta anos.

  Joana "espetaculosa", a mais faladeira da turma, "aviãojou" pra Europa, conheceu um "Pierrico" e leva vida de "damascarada".

  Therezinha, a mais bela e desejada da turma, toda "esnobenta"conheceu um "empresaplítico" cheio do dinheiro, dinheiro graúdo,  dono de um transatlântico.  As línguas "compridinveja" dizem que eles "Transatlanticaram"  tanto... e "gastorraram" tanto... que a grana foi pro brejo. "Periquitaram-se" da cidade.  Parece que hoje vivem num vilarejo longe daqui.  Therezinha dá aulas numa escolinha na roça e o marido virou vendedor de qualquer coisa, o que aparecer. Eta vida "humildita".

  Pra você desejo muita "felicissude" e vida longa.  E pra todos, muita "amorância.

  Saudades mil...

  Abraço


Proposta: escrever uma carta esquisita a uma amiga íntima,

 usando palavras inventadas



HELENA E AUGUSTO - Henrique Schnaider

 




HELENA E AUGUSTO

Henrique Schnaider


Helena era uma mulher muito atraente, mas não achava aquele que seria o amor da sua vida. E isso lhe causava um sentimento de solidão e de tristeza.

Até que, um dia, casualmente, ela tinha o costume de passar um tempo sentada numa praça que havia na cidade onde morava, ficava apreciando os passarinhos, esquilos e saguis que tinha ali, o que lhe proporcionava um sentimento muito agradável.

E, num desses dias, em que o sol dominava todos os espaços e ela, ali dominada por uma sensação agradável, sentou-se ao seu lado no banco, um senhor de aparência jovem, muito vistoso, que lhe chamou a atenção.

Passados alguns minutos, ele puxou conversa e apresentou-se; seu nome era Augusto e, com o passar dos minutos, Helena foi se interessando pela conversa, bem agradável, e ali ficaram durante um bom tempo conversando.

Os dias foram passando e os encontros se sucedendo, e dos encontros na praça seguiram-se almoços e jantares e muitas outras atividades sociais.

O romance, com o passar do tempo, aconteceu e ficaram apaixonados. Helena, da solidão, passou a uma felicidade total e não cabia em si de tanta alegria, e sua vida passou a ser tudo o que ela havia sonhado por muitos anos.

O tempo foi passando e o casal fazendo planos sobre o futuro que lhes parecia um sonho de uma noite de verão.

Até que um dia, Augusto não apareceu no encontro costumeiro e assim passaram-se vários dias e nada do rapaz.

Helena tinha o telefone dele e resolveu telefonar, descobrindo que era um número falso.

Um dia,  motoqueiro apareceu na porta e tocou a campainha, e, quando Helena atendeu, o rapaz lhe entregou uma carta de Augusto. A mulher caiu em prantos, sem coragem de abrir e ler a carta.

E assim passou-se muito tempo, até que um dia Helena resolveu abrir a carta e ler o seu conteúdo.

Então, ao ler o que Augusto havia escrito, Helena ficou assombrada, já que Augusto lhe contava ter uma doença terminal e, portanto, não teria muito mais tempo, pediu-lhe perdão por ter lhe contado a verdade. Ele lhe deu o endereço.

Helena sofreu por um bom tempo. Até que resolveu   ir ao local onde Augusto morava e tocou a campainha, e atendeu uma moça muito bonita. Depois que Helena contou a sua história, a moça se apresentou; era Sofia, irmã de Augusto, e lhe contou que Augusto havia falecido de uma doença incurável.

As duas se abraçaram por um bom tempo e, dali, aconteceu entre elas uma amizade muito grande e, dessa forma, elas procuravam amenizar a enorme dor da ausência de Augusto.

Com o tempo, resolveram morar juntas e fazer o possível para viver uma vida feliz, e assim aconteceu por muitos anos.



A CARTA - PEDRO HENRIQUE

 



A CARTA

PEDRO HENRIQUE


O cheiro de poeira invade minhas narinas, navegando por minhas vísceras, adentrando minha alma, bagunçando minha memória, marejando meus olhos…

Ando pela sala; a cada passo, um peso recai sobre meus ombros, fazendo meu corpo fraquejar. Não rompo ao ponto de cair no chão, todavia, marcho como um guerreiro que se recusa a ceder ao inimigo e luta, mesmo sem ter recursos para isso.

Esta sala, estas paredes, estes rebocos, tudo aqui me é tão familiar, tão íntimo e, de certa forma, hoje, tão longínquo…

Anos atrás, adentrei por estas portas com um homem me carregando no colo. Augusto sempre teve gosto de me mostrar o quão forte era. E se tem uma palavra que me vem à mente quando olho para estas paredes, é “força”. Quanto suor não foi preciso cair do meu rosto e do meu ex-marido para erguermos este barraco. 

Foram muitas manhãs, tardes e noites lavando roupas e rezando à minha Nossa Senhora, pedindo-lhe força e amparo. 

Augusto, por sua vez, teve de chegar todo dia com o corpo coberto de graxa, mas tudo valeu a pena: tínhamos nosso abrigo, um lugar para, finalmente, chamar de nosso.

Ando mais um pouco, lágrimas me dominam, mas preciso observar, preciso contemplar. 

Sinto vontade de vê-lo outra vez, de tocar seu corpo, sentir sua barba rala roçar minha bochecha tímida. Há tanta saudade das noites em que abríamos nossa garrafa de vinho e dançávamos nosso forró preferido. Só ele e eu. Ele e eu e nosso infinito…

Augusto foi um bom marido. Não tivemos filhos. Nem eu nem ele queríamos. Éramos felizes assim. Como disse: ele e eu. 

Achei: o banco de madeira que ele fez para passarmos a noite olhando para o nada, jogando conversa fora e nos divertindo com as graças de Amora. 

Não me lembro onde a enterramos. Aquela gata foi tão boa para mim. No entanto, é a natureza dura e brutal da vida: tudo. Um dia. Chega ao fim.

Sento-me no banco e sinto meu peito sacudir quando toco o relevo das iniciais de nossos nomes. Foram tantos anos aqui, sentindo sua inicial fundida à minha: assim sempre fomos, né, querido: uma alma grudada na outra. “O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.”

Tantos anos depois lembro de você aqui comigo. Por que tinha que acabar? Você sabia que eu não aguentaria? Sabia que os anos iriam vir e eu não teria forças para sair da cama, sabia que dormiria em meio aos meus próprios dejetos, sabia que iria tentar contra minha própria vida. Você sabia, Augusto, e ainda assim fez o que fez.

Eu te odeio, eu te odeio. Filho de uma grande puta você é. Filho de uma grande puta. Grito. 

Não vou derramar uma lágrima por você. Não vou. Por quê? Por quê? O que ele tinha e que eu não pudesse lhe dar? Ele era mais alto, forte; ele era melhor do que fui. Foi por isso, Augusto? Diga-me, eu preciso saber?

Vasculho a bolsa. Abraço o envelope. Não sei se tenho coragem de abrir. Não posso contemplar a caligrafia do desgraçado que me abandonou para viver sua aventura. Não posso perdoá-lo. Simplesmente não posso. 

Não é justo. Você dorme com uma pessoa. Unem-se em matrimônio. Tornar-se parte vital um do outro e tudo que me foi deixado é esta carta? Não. Não aceito. 

Enquanto eu viver, seremos sempre você e eu, querido. Você, eu, amora, nosso forró preferido e nossas iniciais grafadas em um lugar do mundo. 


FIM!


Helena e Augusto - Alberto Landi

 


Helena e Augusto Alberto Landi Helena sempre teve uma relação silenciosa com a arte. Gostava de passar horas em museus, caminhando, apreciando sem pressa entre pinturas e esculturas, como se cada obra guardasse uma história que só revelasse alguma coisa a quem tivesse paciência para olhar. Foi numa dessas tardes, na Pinacoteca de São Paulo, que conheceu Augusto. Ela estava diante de uma escultura havia algum tempo, quando ouviu uma voz ao seu lado: — O que você está procurando nela? Helena virou-se. Um homem que não conhecia sorria discretamente. — Não estou procurando nada. — Então por que está apreciando há tanto tempo? Ela voltou os olhos para a escultura. — Talvez porque algumas coisas não precisem ser entendidas de imediato. Augusto sorriu, concordo! Foi assim que tudo começou. Sem apresentação, sem promessas, sem que nenhum dos dois pudesse imaginar que aquele encontro aparentemente casual mudaria suas vidas. Depois daquela tarde, Helena passou a encontrar Augusto com freqüência. Às vezes na Pinacoteca, outras vezes em cafés próximos ao museu. Conversavam sobre arte, livros, viagens e sobre tudo aquilo que ainda porventura pretendiam conhecer. E, sem perceberem exatamente quando e como aconteceu, começaram a falar também um do outro. O tempo passou… Vieram os passeios, os domingos, as pequenas discussões e as reconciliações. Vieram também os planos que pareciam eternos, até que um dia tudo mudou. Helena foi embora. Durante anos, guardou dentro de si a certeza de que Augusto não havia tentado impedi-la. Interpretou o silêncio dele como uma escolha e, com o tempo, transformou essa escolha em abandono. Nunca soube da doença de Augusto. Nunca soube que, quando a viu partir, ele já carregava dentro de si a certeza de que não teria muitos anos pela frente. Ele morreu no início daquela história que ela nunca conseguiu terminar. E ela seguiu a vida, ou pelo menos foi isso que tentou fazer. Muitos anos se passaram, Helena voltou à casa onde passou a infância e juventude. Quando chegou, encontrou tudo menor do que guardava na lembrança. O jardim não tinha as roseiras nem os jasmins. A pintura das paredes internas estava toda descascada pelo tempo. O velho banco de madeira continuava sob a sombra da arvore. . Passaram-se tantos anos imaginando aquele momento que agora, diante dele, não sabia o que fazer. No portão, ouviu um ruído na calçada. Em seguida, passos. ¨ Ela levantou os olhos e, por um instante, teve a impressão de reconhecer aquela maneira de andar. O coração acelerou. — Augusto? A figura se moveu, mas era apenas um homem que passava pela calçada, repleta de folhas de outono que estalavam sob seus passos. Ela permaneceu imóvel por alguns segundos. Ficou ali, sozinha com o passado diante dela. Às vezes a saudade não devolve quem partiu, devolve apenas a ilusão de que ele ainda pode voltar. Voltou ao jardim, sentou-se no velho banco e foi então que tirou da bolsa um envelope já muito envelhecido pelo tempo. Durante todos aqueles anos, ela não abrira a carta porque, no fundo, temia encontrar nela aquilo que mais doía: a confirmação de que ele realmente a havia esquecido; ela simplesmente não se sentia capaz de lê-la. A carta de Augusto. Agora não havia mais razão para esperar. Passou os dedos sobre a letra, reconheceu de imediato a caligrafia. No envelope, ainda estava escrito o nome de Augusto. Ela ficou imóvel, não precisava abrir para saber. Por um momento, não conseguiu respirar. Conhecia aquelas linhas inclinadas, o modo como algumas palavras pareciam se aproximar umas das outras, como se tivessem sido escritas com pressa. ¨Helena, Se um dia você voltar, talvez seja tarde demais para dizer aquilo que deveria ter dito há muitos anos. Ela parou, respirou fundo e continuou: Nunca quis que você fosse embora. Naquela noite, quando você me perguntou se eu a amava, não soube responder. Não porque o amor tivesse acabado, mas porque sabia que me encontrava doente e não queria que você passasse o resto da vida cuidando de alguém que já começava a desaparecer. Helena levou a mão à boca; as lágrimas chegaram sem pressa. Continuou lendo: Você pensou que escolhi partir; na verdade, fui eu quem escolheu deixá-la livre. ¨ Ela cerrou os olhos, agora compreendia; não havia sido falta de amor, mas sim, uma forma silenciosa, imperfeita e dolorosa de amar. Ela ficou algum tempo em silêncio, com a carta nas mãos. — Você devia ter me contado — murmurou para si mesma. O vento de outono passou pelas árvores e, por um breve instante, sentiu novamente aquela presença, não como alguém que pudesse voltar, mas como uma lembrança que finalmente encontrara seu lugar. Então pensou na primeira vez que vira Augusto. Naquela tarde distante, na Pinacoteca, diante da escultura que ela contemplara por tanto tempo, lembrou-se da pergunta. — O que você está procurando nela? E a resposta que dera: — Talvez porque algumas coisas não precisem ser entendidas de imediato. Ela sorriu, talvez estivesse falando de si mesma sem saber. Talvez, desde o começo, estivesse procurando algo que só compreenderia muitos anos depois. Dobrou a carta com cuidado, levantou-se e caminhou até a janela, abriu-a, o ar da manhã entrou devagar, movimentando as cortinas. Lá fora o jardim parecia outro. Talvez fosse ela quem finalmente o enxergasse de outra maneira. Ela olhou uma última vez para a casa; Augusto não estava ali, nunca mais estaria. Mas agora não precisava procurá-lo. Algumas histórias não terminam quando alguém parte, mas quando finalmente compreendemos aquilo que ficou. Fechou a porta e seguiu pelo caminho; atrás dela, as janelas permaneceram abertas. E, dentro daquela casa, pela primeira vez em muitos anos, o passado já não parecia esperar por ninguém.

A CARTA - Adelaide Dittmers




A CARTA

Adelaide Dittmers


Helena sentou-se no velho banco de madeira.  Olhou demoradamente para aquela casa, que assistiu silenciosa sua infância e mocidade.

Abriu a bolsa e retirou uma carta amarelada pelo tempo, apertou-a entre as mãos.  O rosto de Augusto surgiu diante dela.  Os grandes e ternos olhos castanhos, o sorriso, a voz calma e calorosa.  Como amara aquele homem? Os anos vividos conseguiram apagar aquele amor.

Por que ele foi embora? Por que não se despediu dela e deixou apenas aquela carta, que os pais entregaram-lhe, dizendo que nunca confiaram nele, que era um pobretão querendo o dinheiro da família, que não se dignara a terminar com ela pessoalmente.

Ela se endireitou no banco ao se lembrar de que quase jogaram o papel em suas mãos.

Daquele dia em diante, ela se fechou para a vida.  Não confiou em mais ninguém.  Todos a chamavam de “a viúva solteirona”.

Quando os pais morreram, fechou a casa e foi morar em uma cidade distante.  Aprendeu a pintar e suas telas tinham traços fortes e pinceladas marcantes.  A fama não lhe trouxe alegria, mas pintar a levava para outro mundo, onde ela não era ela, apenas uma testemunha da existência.

Colocou, então, a carta em uma gaveta e tentou se esquecer do passado.  O medo de lê-la e descobrir que o amor de Augusto fora uma mentira impediu que abrisse aquele envelope.

Porém, em uma noite insone, a tirou e a segurou.  Tinha que lê-la e esquecer definitivamente o amor de sua vida.

Resolveu voltar à casa que abandonara e, agora sentada naquele banco, testemunha de muitas promessas entre os dois, iria abri-la.

Com mãos trêmulas, rasgou o envelope, colocou os óculos e, ao começar a ler, teve que interromper para limpar as lentes, embaçadas pelas lágrimas.

Descobriu, então, que eram mais uma declaração de amor, das tantas que ele lhe fizera, e lhe revelando que os pais dela o obrigaram a ir embora, escrever que não a amava.  Proibiram também que voltasse a encontrá-la.  Ele escreveu o que exigiram, mostrou para eles, mas mudou sorrateiramente o conteúdo.  Iria esperá-la na praça para fugirem.

Helena se levantou devagar.  O peso da verdade refletiu na lentidão de seus passos.  Vinte e cinco anos tinham se passado.  Os pensamentos rodopiavam como se levados por um forte vento.  Caminhou automaticamente até a praça, por onde tantas vezes passearam.  Chegando lá, foi até o meio do jardim, onde havia uma fonte, e colocou a mão na água fria.  De repente, ouviu uma voz atrás dela.

— Helena! Não acredito que é você!

Virou-se assustada, um homem de cabelos grisalhos e ternos olhos castanhos sorria para ela.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Encontro misterioso - Alberto Landi

 


Encontro misterioso

Alberto Landi


A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subir até o céu.

A luz colorida dos vitrais atravessava o espaço e pintava o chão de vermelho, azul e dourado.

No centro, o labirinto se espalhava pelas pedras como um caminho misterioso, convidando os visitantes a seguir suas curvas.

Pierre chegou a Chartres numa tarde fria e chuvosa, carregando apenas uma maleta e uma bengala de madeira escura. Caminhava devagar pelas ruas bem antigas, como se cada pedra conhecesse um segredo que ele ainda não estava pronto para ouvir.

Havia trinta anos que não retornava à cidade.

Na juventude, ele trabalhava como aprendiz de restaurador de afrescos e esculturas na catedral de Chartres. 

Foi nesse local que conheceu Jade, uma moça que vendia flores próximas da entrada norte da catedral. 

Eles se apaixonaram e planejavam casar, mas Pierre teve receio. Numa noite chuvosa, desapareceu sem se despedir de Jade.

Agora, com certa idade, ele retornava para devolver uma coisa que guardara durante toda a vida: um pequeno medalhão azul que ela havia perdido no interior da catedral.

Ele entrou pelo portal principal; a luz colorida dos vitrais caiu sobre sua face, e ele sentiu o peso dos anos. Caminhou até o labirinto desenhado no chão, onde os peregrinos costumavam andar em silêncio.

Foi então que ouviu uma voz.

— Você demorou!

Ele se virou; Jade estava ali, exatamente como ele se lembrava, com os cabelos presos e um ramo de flores nas mãos.

— Jade, que surpresa! Continua bela e viva!

Ela sorriu, mas seus olhos pareciam pertencer a outro tempo. Para alguns, o tempo passa; para outros, ele apenas espera.

Ele apertou o medalhão, dizendo:

— Vim devolver isto.

— Não é o medalhão que você precisa devolver. É a verdade!

As portas da catedral se fecharam atrás dele, o vento desapareceu, e até os sinos ficaram mudos.

Ela apontou para um beco estreito entre duas colunas. 

Ele nunca havia percebido aquela passagem; com dificuldade, apoiou-se na bengala e entrou.

No fim do beco havia uma pequena sala iluminada por uma única vela e, sobre a mesa, encontrava-se uma carta amarelada pelo tempo, cuja letra ele reconheceu. Abriu o envelope com mãos trêmulas.

“Pierre, esperei por você naquela noite. Depois descobri que você partira porque acreditava que não o amava o suficiente para casarmos. Meus pais ficaram indignados com sua atitude, quiseram até ameaçá-lo, mas pedi que o deixassem ir. Todos acreditaram que você me abandonou.”

Ele sentiu as pernas fraquejarem.

— Por que nunca me contou?

Ela apareceu atrás dele, dizendo: 

— Porque você nunca voltou para perguntar e nem sequer uma carta ao longo de todos esses anos.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Pierre.

Durante décadas, ele havia carregado a culpa como quem leva uma pedra sobre os ombros. Agora percebia que sua vida inteira fora construída sobre um grande mal-entendido.

— Sinto muito — sussurrou.

Ela tocou o medalhão, dizendo:

— Então devolva-o ao lugar onde tudo começou.

Eles voltaram ao labirinto, colocaram o medalhão sobre uma pequena marca no centro do desenho e cerrou os olhos. No mesmo instante, os vitrais se iluminaram novamente.

Os sinos tocaram.

Quando ele tornou a abri-los, estava sozinho; ela havia desaparecido, deixando no chão apenas uma flor branca.

Na manhã seguinte, os frequentadores o encontraram no interior da catedral, sentado próximo ao beco, com a bengala ao lado e um sorriso nervoso na face.

Finalmente havia encontrado o caminho para sair daquele lugar.

E, pela primeira vez em trinta anos, sentiu que poderia seguir em frente.

Depois daquela noite, Jade nunca mais apareceu como fantasma. Ela havia permanecido ligada à catedral porque esperava que um dia ele voltasse para descobrir a verdade e devolver o medalhão.

Ao amanhecer, os primeiros raios de sol atravessaram os vitrais e iluminaram o medalhão no centro do labirinto. Ele sorriu, pois sabia que “ela finalmente estava em paz”

Dizem que, desde então, uma flor branca surge todos os anos no centro do labirinto, sempre no mesmo dia. Ele acreditava que era ela se despedindo.

E, quando o sino da catedral tocava ao entardecer, ele sabia que, em algum lugar além do tempo, ela finalmente estava em paz!


Elias e Daniel - Alberto Landi

 



Elias e Daniel

Alberto Landi


Quando eram meninos, fizeram uma promessa, se um dia um deles precisasse do outro, nenhum dos dois abandonaria.

Era uma promessa simples, realizada num dia de verão, sentados no muro atrás de uma capela.

Naquele tempo, acreditavam que amizade era uma coisa que o tempo não conseguiria quebrar.

Daniel acreditava mais nisso do que Elias.

Anos depois, numa tarde de inverno, os dois voltavam para casa por um beco estreito quando ouviram passos atrás deles.

Daniel olhou para Elias e percebeu o perigo.

— Corre! — gritou. Elias correu, mas correu sozinho. Daniel ficou para trás.

Na esquina, Elias ainda ouviu a voz de Daniel chamando seu nome. Por um instante parou, sabia que deveria voltar, mas teve medo. Elias não voltou, continuou correndo, deixando Daniel para trás. 

Foi esse o instante que dividiu suas vidas.

Daniel ficou, o outro continuou correndo.

Naquele dia, ninguém falou sobre o que acontecera. Daniel desapareceu da cidade pouco tempo depois, Elias permaneceu, mas nunca mais foi o mesmo.

Durante anos, tentou convencer a si próprio de que era apenas um menino, que tivera medo, e considerou que não poderia ter feito nada ao amigo Daniel, mas a memória não aceitava desculpas.

Daniel não esperava que Elias o salvasse, apenas que não o abandonasse.

O tempo passou.....

Elias se casou, teve filhos, construiu uma casa e aprendeu a sorrir nas fotografias, mas, por fora, sua vida parecia inteira. Mas, por dentro,   carregava uma pedra.

Às vezes, acordava durante a noite e tinha a impressão de ouvir os passos daquele beco.

Decorridos muitos anos, recebeu uma carta. Daniel estava vivo e voltaria à cidade.

Elias guardou a carta na gaveta por alguns dias. No quarto dia, foi até a estação.

Daniel desceu do trem lentamente; estava mais velho, cabelos grisalhos e uma bengala nas mãos.

Os dois se reconheceram de imediato.

Nenhum deles sorriu.

— Você voltou — disse Elias.

—Voltei.

Ficaram em silêncio, então Daniel perguntou:

Você ainda se lembra daquela tarde?

Elias sentiu a pedra no peito, sim, todos os dias.

Daniel apertou a bengala; eu também!

Elias respirou fundo: “Abandonei você.”

Daniel balançou a cabeça. — Não. Você abandonou a pessoa que era naquele dia.

A frase atingiu Elias mais profundamente do que qualquer acusação.

— E o que você perdeu? Perguntou.

Daniel demorou a responder.

— Perdi a certeza de que alguém ficaria quando eu precisasse.

Elias baixou os olhos. E eu?

Daniel olhou para ele, dizendo: “Você perdeu a paz! E passou o resto da vida tentando pagar uma dívida que ninguém lhe cobrou”.

Elias sentiu os olhos marejarem. Naquele instante, compreendeu que ambos haviam saído daquela tarde carregando perdas diferentes.

Daniel perdera a confiança, Elias perdera a inocência, passou a vida carregando a pedra. Daniel voltou para os dois poderem finalmente colocá-la no chão.

Um havia sido deixado para trás, o outro nunca conseguiu deixar aquela tarde para trás.

Daniel se aproximou. “Eu não vim para perdoar você”, disse.

Elias baixou os olhos. — Eu sei.

— Vim porque cansei de carregar sozinho aquilo que aconteceu.

Elias levantou os olhos; Daniel colocou a mão sobre seu ombro.  

Não houve abraço. Mas, naquele gesto, havia algo que Elias não esperava: não o perdão, mas a possibilidade de recomeçar. Sentiu que a pedra dentro dele começava a perder peso.

Algumas culpas não desaparecem quando somos perdoados; desaparecem quando finalmente temos coragem de olhar para elas sem fugir.

Elias olhou para o amigo. Desta vez, ficou!

 

 


Capela Sistina - Alberto Landi

 



 Capela Sistina

Alberto Landi


Antes de se tornar famosa pelo teto de Michelangelo, a Capela Sistina era apenas um espaço que ainda não conhecia o próprio destino.

Nasceu no coração do Vaticano, sob o pontificado de Sisto IV, o papa que lhe daria o nome.

Pedras foram colocadas umas sobre as outras, paredes erguidas, janelas abertas para deixar entrar a luz de Roma.

Ninguém podia imaginar que, um dia, aquele recinto guardaria uma das mais extraordinárias histórias da humanidade.

Primeiro vieram os pintores, Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli e outros mestres. Em suas paredes, começaram a conversar duas grandes histórias: de um lado, a vida de Moisés, do outro, a vida de Cristo. A antiga lei e a nova. Moisés e Jesus, promessa e cumprimento.

Durante anos, a Capela viveu assim, cercada por histórias. Suas paredes falavam, mas o teto permanecia em silêncio.

Era um silêncio branco e imenso, até chegar Michelangelo. 

Ele não queria pintar, era escultor. Pensava o mundo em mármore, via na pedra as figuras que esperavam ser libertadas.

Mas o papa Júlio II tinha outros planos. Michelangelo olhou para o alto.

Talvez não soubesse, naquele instante, que pisaria num território onde nenhum artista havia estado antes.

Subiu aos andaimes e começou.

No princípio, pintou a separação da luz e das trevas, depois vieram o Sol, a Lua, as águas, a terra, os animais.

E finalmente o homem. Um dedo se aproximou de outro.

E entre os dois permaneceu uma distância tão pequena que cabia nela todo o mistério da humanidade.

Adão recebeu a vida, ao redor dele surgiram profetas e sibilas, homens e mulheres que haviam esperado, sonhado ou anunciado o futuro. E, entre eles, jovens de beleza impossível sustentavam guirlandas, medalhões e a própria energia da Criação.

A capela já não era a mesma, suas paredes continuavam contando histórias, mas agora o teto contava o universo.

Os anos passaram, os papas morreram, outros ocuparam o trono de São Pedro, Michelangelo envelheceu.

Então ele voltou. Diante dele estava a parede do altar. Mais uma vez, ele levantou os olhos, mas já não era o jovem que havia pintado a Criação.

Agora conhecia a guerra, a morte, a perda, a solidão e o peso dos anos.

E, diante daquela parede, não pintou o começo, mas, sim, o fim.

O Cristo do Juízo Final apareceu no centro da Capela como uma força que colocava o universo em movimento.

Os mortos se levantavam, os salvos subiam, os condenados caíam. Os santos mostravam os instrumentos de seus martírios.

E, em algum lugar daquela multidão de corpos, estava o próprio mestre, como se também perguntasse o que aconteceria com um homem depois que sua última obra estivesse terminada.


Então a Capela ficou completa.

Nas paredes, a história da humanidade antes e depois de Cristo; no teto, a Criação; no altar, o Juízo.

O começo, o caminho e o fim.

Talvez seja esse o grande segredo da Capela.

Ela não é apenas um lugar onde se encontram algumas das principais pinturas do mundo, ela é uma viagem.

Entramos por um lado da história e, pouco a pouco, somos levados para outro.

O homem nasce, recebe a liberdade, erra, sofre, espera.

E um dia, o homem se encontra diante do mistério final.

Ele pintou Deus dando vida a Adão.

Depois, muitos anos mais tarde, pintou Cristo julgando os filhos de Adão.

Entre o dedo de Deus e os olhos de Cristo, estava toda a história da humanidade.

E a Capela, silenciosa, permaneceu ali, guardando para sempre o universo que os homens haviam pintado em suas paredes.

Entrei na Capela Sistina, mas saí atravessando a história da humanidade!

 


A FIDELIDADE - Henrique Schnaider

 



A FIDELIDADE

Henrique Schnaider


Ele nasceu numa família extremamente religiosa na fé católica. Seus pais sempre o educaram para no futuro se ordenar Padre.  Para isso, frequentava diariamente junto com seus pais, a paróquia do bairro.  

Otavio era diferente dos meninos dali da rua, pouco brincava com eles e era muito retraído, era caseiro, lia muitos livros de ensinamento católico. 

Ao atingir a maioridade, entrou para o seminário com o firme propósito de atender sua vocação sacerdotal. 

Foram anos difíceis de estudo, dedicação e aprimoramento de seu processo de formação. 

Até que, finalmente, foi consagrado, e Otavio foi recompensado pelos dirigentes que o designaram para a Paróquia do seu bairro, local que tantas vezes frequentou,  logo após o pároco Monsenhor Ribeiro ter se aposentado.  

No dia de sua primeira missa a Igreja estava lotada, já que todos os paroquianos presentes conheciam o Otavio, alguns desde que ele era menino.

A Igreja teve um desenvolvimento muito grande, sempre com muitos fiéis nas missas e nos eventos religiosos. Eram tantas pessoas que quase não cabiam no salão. 

Com o passar do tempo os problemas começaram. Principalmente em relação a algumas fiéis que  passaram a demonstrar interesse físicos no religioso. Isso, porém não o abalava,  ele continuava firme na fé e fidelidade total à Igreja Católica.

Decidiu que deveria resolver a situação que já estava ficando constrangedora. Para isso teria que adotar uma alternativa que trouxesse paz ao seu coração, paz que aquelas mulheres estavam lhe roubando.  

Finalmente, no sermão do domingo após a missa, Padre Otavio transmitiu as novas regras de confissão para todas as mulheres: as fofoqueiras, as beberronas, as preguiçosas, as linguarudas, cada qual teria seu dia apropriado para confessar.

Assim, as mulheres que tinham intenção de trair seus maridos, Padre Otavio as receberia às sextas-feiras, e teriam que vir acompanhadas dos respectivos esposos. 

O efeito que Padre Otavio causou, foi surpreendente! Já na primeira sexta feira, não apareceu ninguém para confessar.  Evidentemente, daquele dia em diante, nenhuma mulher mais o assediou.

E assim, o Padre dirigiu por muitos anos a sua querida paróquia sem que ninguém mais tirasse a sua paz.


ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS - Alberto Landi

   ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS Alberto Landi Florença despertava sob uma luz dourada que se refletia nas águas tranquilas do Arno, en...