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quarta-feira, 13 de maio de 2026

JOAQUINA A FUXIQUEIRA - Henrique Schnaider

 



JOAQUINA A FUXIQUEIRA

Henrique Schnaider


Joaquina era uma mulher solteirona, que nunca achou uma cara-metade na sua vida. Vivia quase o tempo todo na janela de sua casa, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo; herdou esses costumes tanto de sua mãe como de sua avó.

Era do tipo preguiçosa, nunca se esforçou, apesar dos esforços de sua mãe; mal conseguiu terminar o primeiro grau. Agora, para fazer uma fofoca ou falar mal da vida dos outros, demonstrou desde pequena um dom incrível.

Já com seus dezoito anos completos, sua habilidade de fuxiqueira estava no auge. Mal passava a vizinha, e Joaquina já ia falar para a mãe e a avó que a Rosalva, “a solteirona”, estava vestida com uma roupa supercolada e provocante. Ia dizendo para as duas que a Rosalva era uma mulher da vida e que à noite recebia a visita de vários homens.

A mãe e a avó ficavam aturdidas com os comentários extremamente maldosos dela, mas como elas também eram aquelas marocas tradicionais da Mooca, até que gostavam da língua venenosa da Joaquina.

E assim, a vida ia passando, a idade chegando e a Joaquina só ia piorando. Dia de feira na rua, então, a Joaquina saía com seu carrinho para fazer as compras, não despregava os olhos de todas as pessoas que estavam também na feira. E já ia futricar para a mãe e avó as “novidades” que viu enquanto fazia as compras.

Os vizinhos da Joaquina já estavam cheios da língua de trapo dela e muitos já combinavam uma vingança, aprontando alguma coisa para que ela aprendesse uma bela lição, mas ainda não combinaram entre eles qual seria o castigo que dariam a ela e que valesse a pena. 

Finalmente combinaram um certo dia em que toda a vizinhança se reunisse no mesmo horário em frente à janela de Joaquina.

Numa bela quinta-feira de céu azul e sol esplêndido, exatamente às seis horas da manhã, lá estavam pelo menos umas cinquenta pessoas, que já moravam há muitos anos na Mooca. Encrenqueiros por tradição e herança dos antigos imigrantes italianos, com cartazes em que estavam escritas frases nem um pouco agradáveis sobre Joaquina. 

Língua de cobra, cuidadora da vida dos outros, fofoqueira, pessoa que não tinha o que fazer e muitos outros mais. A coisa não parou aí. Inventaram uma música nem um pouco agradável aos ouvidos da Joaquina e começaram a gritar para que ela saísse na janela para ver tudo que fizeram em sua homenagem.

Joaquina abriu a janela assustada. Quando viu tudo o que estava rolando lá fora, entrou em estado de choque, pois os vizinhos eram seus conhecidos e, assim, sentiu-se traída, achando que as fofocas que contava para elas na janela, elas seriam fiéis a Joaquina e não fariam aquilo que estava acabando de ver. As pessoas ficaram pelo menos por uma hora. Lição dura, mas merecida.

Só que eram todos farinha do mesmo saco. A encrenca foi feia, e Joaquina perdeu o pé do chão com todo aquele mal-entendido. A partir daquele dia, a pobre da moça resolveu não ficar mais à janela, mas passou a ficar à porta, sentada numa cadeira; mas a sua língua ferina não mudou, pois ser fofoqueira já estava na sua natureza.

Joaquina continuou assim por muitos anos, sempre recebendo chacota da vizinhança, e assim era o bairro da Mooca.


Antes do último capítulo - Hirtis Lazarin





Antes do último capítulo Hirtis Lazarin O relógio na parede do restaurante marcava exatamente 19:45 horas quando a porta da frente travou pela décima vez.
O burburinho era ensurdecedor, uma mistura de mil conversas paralelas.
O cheiro de manjericão e de alho fritando escapava da cozinha, cada vez que o garçom passava equilibrando três pratos de cerâmica apoiados sobre um único braço. Confesso que tive um pensamento maroto: “Tomara que caia”.
Enquanto isso, a confusão na recepção aumentava com a chegada de um grupo de jovens, sem reserva. A recepcionista, com os olhos presos no tablet, tentava inutilmente encontrar um espaço que não existia. — “O tempo de espera é de cinquenta minutos” — anunciou ela, recebendo em troca um coro de suspiros frustrados.
Foi então que, no auge do movimento, as luzes piscaram três vezes e se apagaram por minutos — os minutos mais compridos que já vivi.
Quando a energia voltou, uma garrafa de champanhe estourou na mesa sete, acompanhada do tilintar de muitos garfos batendo nas mesas.
Na mesa de canto, um senhor solitário ignorava o caos ao seu redor. Folheava um livro antigo de capa vermelha e dura. Ele parecia o habitante da ilha do silêncio, em meio a um mar de famintos. Aguardava sua taça de vinho, a segunda da noite, com a paciência de quem já venceu mais de sete décadas de vida.
A paz do idoso, porém, era um alvo frágil para a engrenagem dinâmica do salão. No instante em que levava a segunda taça à boca, um garçom, acuado pelo fluxo de crianças no corredor, tropeçou levemente ao desviar de uma cadeira. O impacto no ombro do idoso foi seco. O vinho tinto descreveu um arco no ar antes de golpear a camisa de linho branca, impecavelmente passada. O líquido espalhou-se pelo tecido como uma assinatura em papel virgem.
O homem permaneceu estático com a taça suspensa a poucos centímetros do seu rosto, enquanto o gelado da bebida atravessava o tecido e molhava sua pele.
O garçom não sabia o que fazer; a bandeja tremia em sua mão. “Meu Deus, me perdoe, eu… eu sou desajeitado” — puxando um pano de prato encardido que só serviu pra espalhar ainda mais a mancha vermelha.
Antes que o senhor pudesse reagir, a voz estridente do gerente cortou o salão. Em vez de socorrer o cliente, avançou sobre o garçom e, com o dedo em riste, gritava: “Incompetente! Eu disse pra ter cuidado!” A humilhação do rapaz era maior que a mancha vermelha.
A vítima não olhava para o garçom, nem para a camisa, nem para o gerente; seus olhos permaneciam fixos no livro aberto à página 94, como se tentasse proteger as palavras daquela confusão.”
Sob o peso daquela atitude compassiva, o gerente murchou quando já se preparava pra lançar outro grito contra o funcionário.
O restaurante, que, até então, era um mar de ruídos felizes, sofreu uma súbita queda de pressão. Não houve manifestações, mas sim um coro de pequenos suspiros de lamentação e olhares de empatia silenciosa e desconfortável. Era um pesar coletivo.
O senhor Frederico ergueu finalmente os olhos, não com raiva, mas com desprezo pela forma como o garçom estava sendo tratado diante de todos. Sem pronunciar uma única palavra, fechou o livro com a calma dos anjos.
Movido por uma dignidade explícita, depositou uma nota de valor expressivo sobre a mesa e lançou ao gerente um olhar gélido — não de raiva, mas de decepção profunda e educada.
Sob o silêncio atônito dos que observavam a cena, ele ignorou o incômodo da mancha vermelha, levantou-se com postura aristocrática e atravessou o salão com passos firmes e rítmicos.
O senhor Frederico Cavalcanti carregava sua gentileza como uma armadura, deixando pra trás um rastro de constrangimento.

VOAR - PEDRO HENRIQUE

 



VOAR

PEDRO HENRIQUE


     Quando o sol abraçou a Terra com seus raios, senti-me na obrigação de levantar, mesmo sendo a última coisa que eu quisesse fazer.

     Entretanto, não havia opção. O dia se desenrolava lá fora. Olhei para o relógio e, quando vi 6:30, percebi que estava atrasada. 

     Fui ao banheiro correndo e fiz meu ritual matinal em uma velocidade tamanha que até cogitei que, na próxima Olimpíada, na categoria corrida, o ouro seria meu. 

     Os minutos saltavam pelas minhas mãos. Haviam se passado 7 até então. Fui ao quarto, peguei um cachecol e vesti o primeiro jeans que encontrei, combinando-o com uma blusa branca: “É o que temos para hoje.”

     Ontem, meu supervisor disse aos berros que eu era uma incompetente, porque não batia a meta da semana passada. Dá para acreditar? Aquele ser sem um pingo de escrúpulos se sente no direito de me ofender em público por não alcançar algo que nem ele, quando era telefonista, conseguia. 

        Isso que dá querer dar asas à cobra.

     6:50, estava eu no ponto de ônibus para, como faço há 8 anos, atender telefones e dizer: “Bom dia, senhora! Bom dia, senhor!”

     Porém, ainda assim, sinto-me indignada. Não entendi como pode haver tanta gente ruim no mundo. 

     Eu também tenho certa culpa em tudo isso. Mamãe sempre me alertou que devia ter feito uma faculdade, mas… A vida foi acontecendo, e os passos foram percorrendo novas rotas e cá estou: exausta! 

     Passados três minutos, o ônibus corta a esquina e eu, nele, entro. 

     Certamente, havia mais de 40 pessoas rezando para não adentrar mais ninguém, pois já não havia possibilidade de movimentação no veículo. 

     E foi aí, neste singelo fragmento do tempo, que vi uma arara azul subjugando o vento. 

     Eu nunca vi uma arara-azul na vida! 

     Lembro, quando pequena, de assistir àqueles programas de TV que discorriam sobre os animais e, quando falavam sobre as aves, sempre aparecia uma arara azul. 

     Elas são tão lindas… E essa… Essa sou eu, ou, ao menos, o que eu queria ter sido e não fui. 

     Não há medo, nem angústia a permeando. Ela só submerge em seu voar.

     Quando o ônibus vira a rua XV de Novembro, a arara pousa em uma árvore e eu amaldiçoo este trambolho por andar tão rápido. 

     Porém, algo em mim está estranho. A vida correu tão depressa, voou como aquela arara. 

     Como pode? Estou constrangida por aquele bicho enfadonho. Ela me machucou. Machucou como ninguém antes havia feito. 

     Quero matar aquela arara. Quero vê-la morrer gritando, sufocando. 

     Não, não posso. Tenho é que agradecê-la. Montar um altar em sua homenagem e cultuá-la, tal qual uma serva leal ao seu deus.

     Obrigada, arara; obrigada, ararinha. Não há o que pestanejar. Está decidido, assim que chegar à empresa, pedirei demissão.


GIZA, a investigadora - Alberto Landi





GIZA, a investigadora
Alberto Landi

Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como uma sombra, com roupas gastas e passos firmes.
A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos. 
Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.
Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada, virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.
Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.
Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.
E quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.
Naquela noite ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.
O passado dele começa a bater antes que ela precise tocar. Quando a porta enfim se abre o sorriso desaparece. Ele a reconhece, não pelo rosto, mas pelo medo. Ela entra devagar como quem volta para casa. Giza não precisa usar força, a presença dela já desperta o peso do que ele fez.
Nenhuma arma, nenhum grito, somente a verdade acumulada. E ao sair, deixa tudo em silêncio, exceto a justiça feita.
Na rua volta a ser invisível, ate o próximo nome da lista guardada na velha mochila.
E enquanto a cidade dorme, ela segue silenciosamente em direção ao próximo infrator!

JOAQUINA A FUXIQUEIRA - Henrique Schnaider

  JOAQUINA A FUXIQUEIRA Henrique Schnaider Joaquina era uma mulher solteirona, que nunca achou uma cara-metade na sua vida. Vivia quase o te...