A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Elias e Daniel - Alberto Landi

 



Elias e Daniel

Alberto Landi


Quando eram meninos, fizeram uma promessa, se um dia um deles precisasse do outro, nenhum dos dois abandonaria.

Era uma promessa simples, realizada num dia de verão, sentados no muro atrás de uma capela.

Naquele tempo, acreditavam que amizade era uma coisa que o tempo não conseguiria quebrar.

Daniel acreditava mais nisso do que Elias.

Anos depois, numa tarde de inverno, os dois voltavam para casa por um beco estreito quando ouviram passos atrás deles.

Daniel olhou para Elias e percebeu o perigo.

— Corre! — gritou. Elias correu, mas correu sozinho. Daniel ficou para trás.

Na esquina, Elias ainda ouviu a voz de Daniel chamando seu nome. Por um instante parou, sabia que deveria voltar, mas teve medo. Elias não voltou, continuou correndo, deixando Daniel para trás. 

Foi esse o instante que dividiu suas vidas.

Daniel ficou, o outro continuou correndo.

Naquele dia, ninguém falou sobre o que acontecera. Daniel desapareceu da cidade pouco tempo depois, Elias permaneceu, mas nunca mais foi o mesmo.

Durante anos, tentou convencer a si próprio de que era apenas um menino, que tivera medo, e considerou que não poderia ter feito nada ao amigo Daniel, mas a memória não aceitava desculpas.

Daniel não esperava que Elias o salvasse, apenas que não o abandonasse.

O tempo passou.....

Elias se casou, teve filhos, construiu uma casa e aprendeu a sorrir nas fotografias, mas, por fora, sua vida parecia inteira. Mas, por dentro,   carregava uma pedra.

Às vezes, acordava durante a noite e tinha a impressão de ouvir os passos daquele beco.

Decorridos muitos anos, recebeu uma carta. Daniel estava vivo e voltaria à cidade.

Elias guardou a carta na gaveta por alguns dias. No quarto dia, foi até a estação.

Daniel desceu do trem lentamente; estava mais velho, cabelos grisalhos e uma bengala nas mãos.

Os dois se reconheceram de imediato.

Nenhum deles sorriu.

— Você voltou — disse Elias.

—Voltei.

Ficaram em silêncio, então Daniel perguntou:

Você ainda se lembra daquela tarde?

Elias sentiu a pedra no peito, sim, todos os dias.

Daniel apertou a bengala; eu também!

Elias respirou fundo: “Abandonei você.”

Daniel balançou a cabeça. — Não. Você abandonou a pessoa que era naquele dia.

A frase atingiu Elias mais profundamente do que qualquer acusação.

— E o que você perdeu? Perguntou.

Daniel demorou a responder.

— Perdi a certeza de que alguém ficaria quando eu precisasse.

Elias baixou os olhos. E eu?

Daniel olhou para ele, dizendo: “Você perdeu a paz! E passou o resto da vida tentando pagar uma dívida que ninguém lhe cobrou”.

Elias sentiu os olhos marejarem. Naquele instante, compreendeu que ambos haviam saído daquela tarde carregando perdas diferentes.

Daniel perdera a confiança, Elias perdera a inocência, passou a vida carregando a pedra. Daniel voltou para os dois poderem finalmente colocá-la no chão.

Um havia sido deixado para trás, o outro nunca conseguiu deixar aquela tarde para trás.

Daniel se aproximou. “Eu não vim para perdoar você”, disse.

Elias baixou os olhos. — Eu sei.

— Vim porque cansei de carregar sozinho aquilo que aconteceu.

Elias levantou os olhos; Daniel colocou a mão sobre seu ombro.  

Não houve abraço. Mas, naquele gesto, havia algo que Elias não esperava: não o perdão, mas a possibilidade de recomeçar. Sentiu que a pedra dentro dele começava a perder peso.

Algumas culpas não desaparecem quando somos perdoados; desaparecem quando finalmente temos coragem de olhar para elas sem fugir.

Elias olhou para o amigo. Desta vez, ficou!

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...