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quinta-feira, 4 de maio de 2017

RECORDAÇÕES - Hirtis Lazarin

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RECORDAÇÕES
Hirtis Lazarin

          O porão de casa estava abarrotado de caixas com tudo que você possa imaginar.  Caixas com livros que já li, caixas com livros que pretendo ler, com fotos que só pararam de crescer por conta da tecnologia que as guarda nas nuvens.  E a maior e a mais pesada de todas, a que abriga o  "GOOGLE" de antigamente, as famosas enciclopédias.

          Mexendo aqui e acolá, descobri no meio de uma pilha de revistas antigas, encostadas num armário, algo me chamou a atenção.  Era um antigo diário.  Lembro-me bem.  Comecei a escrever aos treze anos e só parei aos vinte  quando, então, me casei.  Confesso, emocionei-me a ponto de não ter vergonha de chorar.  Estava amarelado, judiado por tantas viagens que já fizera.  Não sei como ainda existia.

           Representava  um pedacinho da minha vida.  Um período em que tínhamos horário pra voltar pra casa e obedecíamos sem nenhum drama, coisas bobas não nos frustravam, não precisávamos beber nem se drogar pra vida ter graça e beleza.  Alimentação saudável? Comíamos de tudo, ninguém tinha excesso de peso e nem conhecíamos a palavra celulite.

          Ter um diário era o mesmo que ter um amigo confiabilíssimo.  Nele a gente registrava o que  queria, ele ouvia silencioso e não opinava.  Aceitava-nos do jeitinho que a gente era.

          Dei uma folheada cuidadosa pra não danificá-lo.

         Vou ler pra você e pra mim também uma das páginas iniciais.  Já se foram tantos anos...

           "Meu querido diário, acho que você já se cansou de ouvir sempre as mesmas reclamações:  que eu não gosto de ser tão magra, de ter pernas finas e compridas e que meu corpo franzino dança dentro de uma calça de cintura baixa e boca de sino.  É que eu me acho bem parecida com a "Olívia Palito namorada do Popeye".  Ela teve sorte de arrumar um namorado".

               Virei várias  folhas e a página dez chamou-me a atenção.  O desenho de dois corações que se cruzavam pintados de vermelho paixão.

          "Meu diário querido, estou feliz e tenho duas coisas pra  contar:  a primeira é que o meu corpo está mudando. Minhas formas estão se arredondando e já preenchem aquela calça comprida que eu odiava usar.  Está na moda e minhas amigas usam...  Estou vestindo meu primeiro soutien. É lindo, branco de rendinhas.   Minhas amigas já se cansaram de tanto usar e eu só tinha no peito duas jabuticabas insignificantes.
          A segunda coisa é um segredo secretíssimo.  Sabe o Celso, aquele garoto que, às vezes, vem estudar português comigo e que já fizemos algumas coisas juntos?  Tomar sorvete no bar do Dante, comprar sonho na padaria do Biscaro, andar de bicicleta.  Lembra?  Fiz até greve de fome pra ganhar minha Caloi Ceci...
           Quando ele vai embora, sinto sua falta.  Gostaria que ficasse mais tempo comigo.  Fecho os olhos, inspiro e até sinto o cheiro dele.  Quando sua mão toca-me sem querer,  vem um  friozinho delicioso.  Se  conversa com outras meninas, tenho raiva e falta de ar.  Ando imaginando cada coisa...  Vejo-me abraçada a ele, passando a mão no seu rosto, sorrindo aquele "sorriso-coração-sai-pulando".  Escuto até as batidas descompassadas do meu coração.  E aí vem uma vontade enorme de juntar minha boca na boca dele, sentir o gosto de sua saliva, esquecer-me de tudo presa naqueles braços fortes.
          Sabe diário, tô atormentada porque essa coisa tá aumentando a cada dia.  Não sei o que fazer.  Será que  tô  apaixonada?  Só sei que é uma sensação deliciosa. Quando eu souber, conto pra você.  Meu Deus, já é meia-noite.  Escutei os passos arrastando chinelos do meu pai.  Ele viu minhas luzes acessas. Vem bronca na certa. Tchau".


          É gente, a vida é  uma viagem num trem bala.  Curta pra uns, mais longa pra outros.  Uma viagem em que almas se encontram, se esbarram, se unem, se esquecem.  A vida é o nosso maior presente.  Ela nos chega em pequenos pacotes, ora embrulhados com brilho, ora manchados de lágrimas.

Lealdade e fidelidade andam juntas? - Amora


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Lealdade e fidelidade andam juntas?
Amora

Antonio e Gustavo, amigos leais, desde crianças, eram fiéis a um desejo comum: tornarem-se independentes.

Trabalhavam juntos numa grande fábrica de automóveis como mecânicos, cultivando ambos o sonho de serem autônomos, montando a própria oficina.

Quando estão quase conseguindo realizá-lo, Antonio, ótimo funcionário da empresa, é chamado pelo chefe para administrar e ensinar funcionários novos, jovens que desconheciam o trabalho.

Para isso, teria um cargo mais alto, com salário equivalente.

Fica radiante e lisonjeado com a oferta. Resolve aceitá-la.

Gustavo, decepcionado, bem agora que iriam realizar o sonho tão desejado, fica sem ação, entristecido com a falta do provável sócio, leal companheiro.

Antonio percebendo a mágoa do amigo e não querendo descumprir o compromisso feito, deixando de ser fiel,  desiste da nova promoção e mantém sua palavra.

Cumpre a promessa feita ao leal companheiro de tantos anos e sonhos. E assim, Antonio e Gustavo montam “Martelinho de ouro” , oficina tão conhecida hoje em dia!


Esse é um caso de lealdade a um amigo e fidelidade ao sonho de ambos, que caminham juntas!

O amigo fiel! - Amora



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O amigo fiel!
Amora

Lúcia, mulher bonita e voluntariosa, exigia muito dos seus amigos. Era muito atraente, sedutora, sempre encontrando quem a amparasse nos momentos difíceis.

Na ocasião narrada, possuía um amigo fiel, bajulador, acompanhando-a aonde quisesse e realizando suas vontades impertinentes. Não sabia lhe dizer não. Chamava-se João.

Casada com Roberto, marido apaixonado, cansava-se dele, às vezes, pensando em interessar-se por outra pessoa, como diversão. Era muito volúvel!

Numa festa, conhece Álvaro, um jornalista proeminente, de fala jovial, simpático, meio poeta. Tendências a orador.

Sente-se logo atraída por ele, convidando João a acompanhá-la em todas as reuniões em que Álvaro estava presente.

Sem saber que era uma mulher casada, o garboso jornalista interessa-se por Lúcia, marcando vários encontros.

Nasce um relacionamento entre eles, servindo o amigo fiel, João, de escudo para a infiel sedutora.

Roberto começa a estranhar um pouco o comportamento da mulher e, incentivado por um amigo, resolve mandar segui-la.

O detetive em questão, vendo-a sempre acompanhada por João, desconfia dele como o amante da mulher.

O marido ciumento, sabendo que João era um amigo de longa data, resolve segui-los até um quarto de hotel, quando os vê entrar juntos.

Entra também e bate apressadamente na porta, já esperando o pior. João, que sempre a esperava no quarto ao lado, vê Roberto pelo olho mágico e avisa Lúcia para se esconder. Rapidamente, deita na cama em seu lugar, ficando ao lado de Álvaro que se surpreende com isso mas fica quieto.

Roberto entra abrindo a porta com um empurrão e, espantado, dá com João ao lado de Álvaro, sem compreender direito.

Envergonhado, surpreso, percebe que Lúcia é que escondia a verdade do amigo, coisa que nunca soube e esperava encontrar.

Vai embora, desculpando-se, encontrando a mulher pelo caminho, arrependido do que fizera. Esta, magoada, finge proteger seu amigo do que ninguém sabia com vergonha que descobrissem.

Esse sim foi um caso de amigo leal, passando por gay quando não era, só para salvar uma amiga, Lúcia, em apuros!


O que não consegue uma mulher quando cisma de compartilhar o mal feito com alguém. Usa de todos seus artifícios e argumentos para esconder a verdade.

UMA NOITE NUM VAGÃO VAZIO.- Do Carmo

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UMA NOITE NUM VAGÃO VAZIO.
Do Carmo



Oh! Meu Deus, onde estou? Será que sonho?

Não, acabo de acordar!                

Como vim parar neste vagão vazio? Estou no metro?

Sim, agora começo a lembrar-me, mas que horas são? Ah, quatro horas e cinqüenta minutos da madrugada! Logo o metro volta a circular, começa as cinco ou seis horas?

O que vou fazer. As portas estão fechadas, também não sei onde é o terminal do trem. E o meu carro, quanto irei pagar de extra pela noite.
Que maçada! Quantas perguntas e nenhuma resposta.

Recordo que quando embarquei, o vagão estava lotado, foi um jovem que cedeu seu lugar para eu sentar-me, diga-se de passagem, um gatinho, mas muito jovem.

Estava exausta, devo ter adormecido e não percebi que todos os passageiros foram descendo, as estações chegando ao fim e eu dormindo.

Ouço vozes se aproximando, vou fingir que estou dormindo, estão mexendo no meu braço, dizendo, acorda, senhora, acorda, o dia já clareou. Vou encenar um acordar de donzela assustada. Ufa! Eles acreditaram na minha performance, foram até buscar um cafezinho para mim.

Na realidade, eu fiz mais cena de amedrontada, do que senti ao perceber-me sozinha num vagão vazio de metrô, sem saber onde estava, com pouca iluminação e escuridão total do lado de fora.

 Finalmente as luzes foram acesas, a voz misteriosa da gravação da cabine deseja bom dia a todos, que no caso, sou só eu, soa um sinal e a composição começa a mover-se.
 Respiro aliviada.




Um mapa científico de previsões - Suzana da Cunha Lima


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Um mapa científico de previsões
Suzana da Cunha Lima

Toda minha família gosta de cartomantes, videntes, horóscopos, qualquer coisa que remeta ao imponderável, à fantasia e ao não conhecido.

Não pautamos nossa vida por estas previsões,  mas é claro que  prestamos muita atenção às coisas boas: você vai fazer uma viagem, vão lhe pagar aquela dívida, seu chefe a admira, logo vem uma promoção e, por último e mais desejado, seu amor vai retornar.

As situações tratadas são sempre situações de vida, que ocorrem praticamente com qualquer um e todo bom vidente nos presenteia com uma quota razoável de fatos positivos. E com isso emitimos uma boa energia positiva, levando o Universo a conspirar com a gente.

Claro, a tal viagem pode ser ali, para Ubatuba, a dívida se referir ao adiantamento para conserto do carro de uma amiga, meu chefe pode estar me admirando por razões que nada tem a ver com competência e a promoção fazer parte do meu plano de carreira.  Não importa, notícia boa nos deixa alegre e geralmente  flutuamos de felicidade  diante da possibilidade de um antigo amor nos querer de volta, mesmo que ele tenha sido um bom malandro.

O importante nestas consultas, é sairmos alegres e com a certeza que o mundo é um lugar bacana para se viver.

Fui a muitos desses profissionais e guardo boas recordações, algumas até hilárias,  destes encontros.  Só para constar, o último era um psicólogo formado, homem sério, de uns quarenta anos, de pouco riso e nenhuma interação com seus consulentes. Mas tinha fama de alta porcentagem de acertos e resolvi experimentar. Levei uma fita para gravar a consulta e toda vez que o interrompia para perguntar algo, ele parava de gravar, meio aborrecido e respondia bem secamente.  Claro que não gostei, mas o homem era bem recomendado, eu já estava lá e tinha pago, então resolvi ficar até o fim.

Ele teve notáveis acertos sobre  minha infância e mocidade, meu temperamento e até de meu casamento. Ou eu sou um livro aberto, ou minha vida é muito comum, ou eu “ajeitava” sua fala às minhas experiências passadas, para não perder o crédito e continuar acreditando.  No final, preparou um mapa chinês ou japonês, não me lembro, me informando que aquela hora de falação estava toda ali.  Qualquer um que soubesse interpretar o mapa, diria sempre as mesmas coisas. Era científico.

Mas o que me chamou  a atenção, na verdade, foram duas coisas que ele asseverou que iam acontecer comigo:

- 1) Que eu, quando estivesse com cinquenta, sessenta anos, ia ter um “boom” na vida, ia ser reconhecida e admirada internacionalmente. Estou esperando este “boom” até agora e já passei um bocado dos sessenta.

2) - Outra coisa que soaria mal para pessoas impressionáveis:  lá pelos meus oitenta e dois anos, (com esta precisão), ele não via mais sinais de vida no meu mapa.


 Esta previsão vou ter que aguardar para conferir. Ainda falta um pouquinho.

Top Model Escolar - Rejane Martins


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Top Model Escolar
Rejane Martins

Havia acabado de completar sete anos e logo iniciaria minha vida acadêmica. Estava muito ansiosa, contava os dias para as aulas começarem, afinal aquela vidinha de parquinho infantil já fazia parte do meu passado.

Enfim o tão esperado dia chegou, acordei cedo mal consegui engolir o café da manhã, cumpri todas as etapas de higiene, que aquele dia pareceram mais enfadonhas que o normal, fui colocar meu uniforme novinho.

Camisa branca tão alva que até feria os olhos, fechada com uma gravata preta no colarinho, saia pregueada no tom azul escuro, meias brancas de tamanho três quartos e sapatos preto modelo colegial.

A descrição das vestimentas parece mais um lugar comum, mas as minhas tinha um diferencial. Meu tio, um alfaiate de profissão, foi incumbido de sua confecção, e não se deu de rogado, ele abriu quatro casinhas no cós da saia, e na blusa pregou quatro botões de madrepérola em forma de meia-lua colados sobre um apoio prateado que tinha o diâmetro pouco maior e isto conferia ao conjunto anel fino e delicado fazendo toda a diferença. 

Duvido que alguém estaria tão bem vestida quanto eu na escola. Minha camisa jamais sairia de dentro da saia, teria toda aquela elegância mesmo depois do intervalo quando todos nós brincaremos de corrida, pique esconde, pula corda. Poderia estar até suja mas continuaria elegante.

Iniciou-se a aula inaugural de minha vida, lembro-me da professora, seu nome? Dona Leonor, com certeza ela teceria algum comentário sobre minha roupa, afinal ela parecia uma pessoa descolada e muito antenada com a tendência da época. Mas que nada, fiquei sentada na carteira o período escolar inteiro, ninguém notou meus preciosos botões.

Ai Meu Deus que frustração, isto então é a vida escolar um monte de crianças sentadas uma atrás de outras caladas com a única missão de ouvir o conteúdo que precisava aprender coisa chata demais ninguém olha para ninguém assim como perceberiam o modelo original que eu desfilei a manhã inteira sem receber um elogiozinho sequer as outras meninas todas desmilinguidas e eu inteirona chiquérrima se bem que havia meninas muito bonitas nem precisavam de roupa bonita fazer o que né eu que precisava me valer de qualquer coisa para chamar a atenção sou mesmo feia gorda demais cabelo todo rebelde eu bem que podia nascer um pouco mais bonitinha eu merecia isto e não era só isso era uma criança muito chata calada sem graça morria de vergonha de me expor não era nem alegre nem simpática parecia um bicho do mato.       

De repente o sinal avisando o final do período soou e eu voltei para a casa meio frustrada, meio decepcionada, mas como sempre não comentei com ninguém não suporia a gozação de meus irmãos.

Dia seguinte iniciava-se a rotina na preparação para a escola desta vez sem ansiedades nem expectativas. Chego ao portão da escola e a diretora estava lá nos recepcionando, para minha surpresa ela se encantou com a solução dada ao meu uniforme assim ele não se desestruturaria durante o dia.


Sorri vitoriosa, mas assim que passei pelo portão o elogio não surtiu o efeito que eu imaginava que teria, esqueci-o imediatamente, sentei na minha carteira e ouvi o conteúdo escolar até a hora de ir para casa.

QUEBRA DA INOCÊNCIA! AMORA


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QUEBRA DA INOCÊNCIA!
AMORA 

REMEXE-SE NA CAMA, VIRA DUM LADO, DO OUTRO, NADA, NÃO CONSEGUE DORMIR.

AS EMOÇÕES DO SEU PRIMEIRO BAILE FORAM MUITAS. PERDEU O SONO.

SEU LINDO VESTIDO DE MUSSELINE AZUL CLARO, ESVOAÇANTE COMO  BORBOLETA, GIRA AO COMPASSO DO FOX ROMÂNTICO. RAY CONIFF E SUA ORQUESTRA, VISITANDO O CLUBE PELA PRIMEIRA VEZ.

RECEBE UM APELIDO: “A NUVEM”, COMPARECENDO AO BAILE HOJE. MAS NÃO FOI A MÚSICA NEM O VESTIDO QUE TIROU  SEU SONO.

SENTE-SE APAIXONADA PELO PAR CONSTANTE. UM SIMPÁTICO RAPAZ, MEIO BAIXO E GORDO, MAIS FEIO QUE BONITO, DE UM CHARME TODO ESPECIAL. CATIVANTE, ROMÂNTICO, OLHAR APAIXONADO E ELEGANTE, VOZ MACIA, DE LEVE SOTAQUE ITALIANO. PERSONALIDADE ATRAENTE ESCONDIDA NUMA FIGURA SIMPLES. SENTE-SE REALMENTE NAS NUVENS.

QUANDO O ENCONTRARIA NOVAMENTE, TALVEZ NUM PRÓXIMO BAILE. QUEM SABE A PROCURE ANTES.

LEVANTA-SE, VAI AO JARDIM. SENTA-SE NA ESCADINHA DO TERRAÇO E ESPERA AMANHECER. SEU PRIMEIRO BAILE, SEU PRIMEIRO AMOR. ATRAÍDA PELO ÚNICO PROFESSOR DE INGLÊS DA CIDADE. UM CIÚME DOENTIO APARECE DE REPENTE. MUITAS ALUNAS DEVEM SE INTERESSAR POR ELE. CONVERSA BEM, RI MUITO, APRESENTA  CERTO TRAQUEJO QUE OS OUTROS  RAPAZES DA CIDADE NÃO TÊM.

DIA CLARO.  AINDA SEM SONO, NÃO SE AFASTA DO TELEFONE. QUANDO TOCA, SENTE  CERTO RECEIO. SE FOR ELE, O QUE FALAR. DIZER QUE GOSTOU MUITO DO BAILE, DA SUA PRESENÇA, DA VOZ QUENTE QUE ADORARIA TORNAR A OUVIR. COMO EXPRESSAR CORRETAMENTE OS SENTIMENTOS QUE SENTE.

ATENDE, TRÊMULA,  O TELEFONE. É UMA AMIGA QUE A VIU NO BAILE, PERGUNTANDO LOGO SE GOSTOU DA COMPANHIA. “SIM, MUITO”  RESPONDE, COLOCANDO TAMBÉM NA VOZ TODO O ENTUSIASMO CALOROSO DA VÉSPERA.“ QUE PENA” RESPONDE A OUTRA. ELE É MUITO CONHECIDO NA CIDADE PELO CASO COM UMA MULHER CASADA, A NORTE AMERICANA, DONA DA ESCOLA. DIVERTE-SE, DANÇANDO, COM TODA MOÇA BONITA QUE ENCONTRA, PARA DISFARÇAR.


EMUDECIDA, DESLIGA O TELEFONE, CORAÇÃO DESPEDAÇADO POR DENTRO. PERCEBE A FLECHA. A PRIMEIRA DECEPÇÃO, A PRIMEIRA DOR ANTES MESMO DE UM RELACIONAMENTO. VERDADE OU NÃO, EM CIDADE PEQUENA, TUDO SE FALA, TUDO SE SABE. UM SENTIMENTO QUE TERMINA ANTES MESMO DE INICIAR. JÁ NÃO CONSEGUE LEMBRAR-SE DE SEU ROSTO COM O MESMO ENTUSIASMO DE ONTEM.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Coelhinho Digital - Rejane Martins


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Coelhinho Digital
Rejane Martins

Maria Rita sempre preservou as ilusões doadas pelas lendas infantis, que promovem a felicidade da criançada.

Na mais tenra idade de sua filha Beatriz, ela se incumbia juntamente com a menina de no sábado de aleluia à noite, preparar um ninho para o coelho da páscoa.

Fazia questão de alertar que era imprescindível abastecer com uma cenoura e água, o suficiente para que o coelho, então um animal muito cansado de tanto trabalhar, pudesse restabelecer suas forças e assim cumprir sua missão e atender a todas as crianças naquela noite.

Assim que Bia pegava no sono, Maria Rita mordiscava a cenoura, e deixava um pedaço cheio de marcas de dentes jogadas no ninho, a água era despejada na pia e o pote colocado displicentemente no local. Mas no lugar mais importante do ninho o Ovo de Chocolate imperava, esperando pelas mãozinhas que logo acabariam com toda aquela imponência.

Bia adorava todo aquele ritual, acreditava piamente na sua existência assim como a do Papai Noel, era gratificante para sua mãe ver os olhinhos brilhando quando indagava se ela tinha visto o coelhinho entrar em sua casa.

Quando Bia já estava alfabetizada, a mãe decidiu que chegara o momento da elaboração uma gincana.  Espalhou pela casa várias pistas, cada uma encontrada  indicava o local da próxima, até o “gran finale” que era uma cesta com o ovo de chocolate e uma carta do Coelhinho da Páscoa endereçada especialmente para a garota.

A manhã daquele domingo foi especial para todos na casa. Empenhados em decifrar as pistas,  todos corriam para o local da próxima e se divertiam com a brincadeira.

Ao final, Beatriz abriu a carta leu o texto, que sem sombra de dúvida fora escrito pelo representante da Páscoa, pois estava assinada com sua patinha direita.

Terminada a leitura, a menina meio desapontada, virou-se para seus pais e comentou:


— Como poderei agradecer, ele esqueceu de anotar o seu e-mail na carta.    

Enorme é a falta que você me faz - Hirtis Larazarin

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Enorme é a falta que você me faz
Hirtis Larazarin

            Meu coração era um bloco de gelo, envolto numa armadura medieval pra me proteger desse mundo que eu conhecia bem.   Foram anos e anos juntando pedacinhos metálicos.

          Até que, numa tarde qualquer, eu saia  do Mappin, atravessava apressadamente o viaduto do Chá pendurada de sacolas,  silencioso feito um gato pronto pra abocanhar sua presa, alguém aproximou-se de mim e apoderou-se de minhas compras.

          Eu me virei e já ia gritar quando vi um homem vestindo terno e gravata, com um sorriso aberto e espontâneo, como se já nos conhecêssemos.  Comunicativo e falante.

           Não resisti a sua voz tipo FM e a tanta simpatia.  Caminhamos juntos até o ponto de ônibus.

          Por momentos até me esqueci que estava atrasada pro trabalho, que minha conta bancária estava zerada, que eu fugia dos homens e por aí vai...

          Posso afirmar, hoje, que foi ali no viaduto que tudo começou entre nós.  Eu que me achava imune aos ataques masculinos.

           A  cada telefonema, a cada encontro, meu coração disparava mais e mais e tropeçava de tanta emoção.  Senti medo, não sabia onde isso ia parar.  Foi então que  me deixei levar e aprendi:  na alma a gente não manda, ela fica onde se encanta.

           E assim, leve e solta,  encaixei-me no seu cheiro.  Depois minha boca encaixou-se na sua boca e num piscar de olhos, nossos corpos se encaixaram. Não tinha mais jeito: nossas vidas estavam seladas.

          Sabemos todos que o tempo assopra e apaga o fogo da paixão, mas se o sentimento é verdadeiro vem o amor, a amizade e o respeito.  E é no dia-a-dia, quando a rotina se instala, que veem à tona qualidades e defeitos.  E com a gente não foi diferente.

          Mas foi nesse período que nasceu em mim admiração profunda por esse homem.  Aprendi valores que me eram despercebidos.

          O desapego aos bens materiais, ao supérfluo, numa sociedade consumista e egoísta tornava-o um homem livre.  Tinha controle sobre o que comprava e não se deixava possuir pelo que possuía.  Não colocava a felicidade nas coisas nem nas contas bancárias.

         Ao desapego juntava-se a simplicidade.  Aprendi que a simplicidade não é ignorante.  Ela valoriza o essencial e o essencial não é visível aos olhos.
          O essencial é a cama quentinha onde dormimos todas as noites, o cafezinho de manhã

coado na hora, a água limpa da pia, o orvalho que acaricia a flor, a cor colorida do amor.

          Era dono da alma mais generosa que já conheci.  Fazia coisas não por obrigação, mas pra deixar o outro um pouquinho mais feliz.  Não economizava adjetivos para um elogio sincero, seu abraço era apertado, seu bom dia era verdadeiro.  Eu me perguntava: como alguém  pode acordar sempre feliz, mesmo tendo tantos problemas pra resolver?

          Reconhecia o poder e o valor das mulheres. Fez de mim sua princesa.

          Foi embora cedo demais.  Às vezes, sinto sua presença e até seu cheiro.  Agradeço a Deus ter convivido com ele.   E só me resta, fazer-lhe uma oração;

        

Justiça ou Misericórdia - Ana Catarina SantAnna Maues

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Justiça ou Misericórdia
Ana Catarina SantAnna Maues

      Pessoas entram e saem de nosso convívio a todo tempo, acontecendo isto de forma natural ou traumática. Para algumas, damos graças e aleluia, quando vislumbramos a possibilidade de perder o contato em definitivo com elas, já outras,  aquelas que funcionam como bálsamo em nossas vidas, fazemos questão de tê-las por perto, basta a proximidade e já tem alento o coração, mas isto não é garantia de que nunca as perderemos.

      Presenciei um episódio curioso, com relação e este assunto, envolvendo três personagens, Camila, Sara e Bernadeth, adolescentes com personalidades bem distintas, colegas da mesma sala de aula.

Tudo ocorreu numa tarde quente em que iríamos prestar o exame final do colégio.  Lembro que Camila chegou esbaforida, com a blusa colada no corpo de tanto suor. Aluna nada aplicada, precisava de nota azul ou repetiria o ano. Chegou ansiosa, seus olhos caçavam Sara que bem quietinha no seu canto, aguardava o momento do professor chegar com as provas. Chegou ao pé do ouvido da colega, cochichou qualquer coisa e sentou-se ao lado. Bernadeth observava de longe e veio imediatamente ter com Sara, indagar  sobre o segredinho, que  sem maldar revelou. Bernadeth na mesma hora foi até a frente dos demais colegas  e iniciou um discurso:

— Amigos, todos aqui estão prestes a realizar o exame final. Estudamos  muito, pois temos noção de quanto o conhecimento é importante. Queremos ser pessoas de bem, melhores para nós mesmos, para nossas famílias e para o mundo. Os que não forem cursar universidade,  logo logo enfrentarão o mercado de trabalho. Temos que ser capazes por nós mesmos. Estou falando isto porque quero dividir com vocês algo que está para acontecer novamente aqui na sala. Camila quer que Sara responda as questões da prova por ela. Isto aconteceu  o ano todo, vem despreparada e sempre se encosta em alguém. Coloco aqui pra turma decidir, vamos novamente fazer vista grossa?  E voltando-se pra Camila continua. Faço isto pro seu bem colega, quero que seja responsável pelos seus atos, quero que aprenda de uma vez por todas a não fazer pouco caso de coisas sérias. Temos a mesma idade, se fomos capazes de aprender a matéria por que você não foi? Seu comportamento parasita incomoda

    Neste instante o burburinho foi geral com todos  entreolhando-se e balbuciando uns com os outros. Camila olhava fuzilando Sara e Bernadeth. Sara por sua vez, com os olhos esbugalhados, fitava a eloquente oradora. A confusão formada, um alvoroço colossal e entra na sala o professor. Camila levanta da cadeira e indo encontrar com ele participa que não fará a prova naquele dia. Sara por sua vez levanta também, e solidária com a colega, informa a mesma decisão.


      Não sei dizer se Camila entendeu o valoroso conselho que recebera, por isso não fez a prova no dia,  ou se  ficou  foi com muita raiva de tudo aquilo. Também não sei informar se  colou de Sara na prova substitutiva ou se manteve a amizade com ela e Bernadeth. Fui um mero espectador do inusitado fato. Vez por outra lembro e reflito, terá sido  Camila o bandido da estória,  qual a conduta mais  correta, Sara com sua misericórdia ou Bernadeth em sua justiça. Com o tempo formei opinião, e não exporei aqui, evitando influenciar o leitor, prefiro que cada um avalie e faça seu julgamento.

SEGREDINHOS INOCENTES - Do Carmo


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SEGREDINHOS INOCENTES
Do Carmo


Na época em que eu estava na adolescência, era muito comum a garota ter um “Diário Secreto”, onde confessava seus flertes, seus inocentes amores e sonhos românticos. Comigo não foi diferente.

Sempre gostei de escrever e ter essa oportunidade de relatar meus devaneios juvenis, foi uma maravilha.

Todas as noites, ao recolher-me em meu quarto,  pegava meu Diário  que era como um caderno, porém com a capa da frente almofadada e colorida com a inscrição em letras douradas – MEU DIÁRIO -.

Eu o mantinha em máxima segurança, bem escondido no meio de minhas roupas de dormir, ninguém mexia nessa gaveta, pois mamãe nos ensinou, minha irmã e eu, desde pequenas a cuidar de nossas coisas. Ela sempre supervisionava, mas nunca vasculhava, então, meus segredos estavam a salvo.

Porem certa vez, uma amiga de minha irmã, veio passar férias em casa, que  muito atrevida, bisbilhotou em meu guarda roupas, sem consulta a amiga.

Ah! Yeow! Uau! Que surpresa ao abrir minha gaveta para pegar meu querido Diário! Meus pijamas estavam todos revirados e meu precioso amigo bem a vista e aberto, com algumas folhas amassadas.

Atônita, comecei a chorar. Minha irmã, também com olhos molhados de remorso, veio ao meu quarto e abraçando-me ternamente pediu desculpas pelo atrevimento de sua amiga. Disse-me muito comovida que a proibira de comentar sobre o que havia lido, com a promessa de revelar aos seus pais o verdadeiro motivo do rompimento da amizade tão antiga.

Envergonhada e sinceramente arrependida, desculpou-se e prometeu que sequer pensaria no que havia lido. Disse também que essa sua atitude abusiva, serviu para que ela revisse seu comportamento. Não romper a amizade.

Aliviada com o desfecho desse episódio, comentei vagamente, com minha irmã e minha mãe, o que eu mantinha em segredo.

Pelos olhares que elas trocaram, senti que o fato de relatar meus dias, para nunca esquecer o quanto foi feliz minha juventude, colocou um ponto final amigável no assunto.


Felizmente, tudo o que eu senti e vivi na adolescência, somente a mim continua pertencendo.

MINHA AFLIÇÃO - Do Carmo


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MINHA AFLIÇÃO
Do Carmo



Finalmente encontrei o que tanto procurava: meu diário de adolescente.

Jamais poderia imaginar que estivesse em lugar tão óbvio, tão fácil de ser encontrado, tanto que hoje, casualmente o encontrei. Para minha felicidade  fui eu que encontrei, poderia ser qualquer pessoa daqui de casa. Ufa! Que sufoco!

Pensando bem, até que na estante de livros do escritório de meu marido, não seria um esconderijo seguro, mesmo nunca esses livros são consultados.

Agora, depois do mar revolto de pensamentos, que meu coração passa,  por tê-lo encontrado tão à vista, de inquieto torna-se nostálgico.

Folhei-o e a garota de dezesseis anos, toma conta desta senhora, revive momentos de floridas alegrias, românticos encontros, amorosos passeios, bem como, festas e bailes, ardentemente esperados e sonhados mesmo com as angustiantes expectativas de ver meus sonhos desmoronados, pela ausência do meu flerte.

Toc! toc! Alguém está chegando, vou colocá-lo onde estava e fingir que procuro um livro qualquer.


Arre! Deu tempo! Mas que tola sou. Não notei que os passos que ouvi vinham das patinhas do Dunga, o cãozinho do meu neto Rodrigo.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...