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quinta-feira, 9 de março de 2017

LEMBRO-ME AINDA! - Dinah ribeiro de Amorim


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LEMBRO-ME AINDA!
Dinah ribeiro de Amorim

É como se fosse hoje. Não consigo apagar da memória. Lembro-me ainda daquela casa, do jardim maravilhoso, de tantas brincadeiras engraçadas! Eu, meus irmãos, nosso cachorro, dias claros de sol. Papai e mamãe juntos!

Tinha apenas cinco anos e não entendia muito bem as coisas. Meus irmãos eram mais velhos e pareciam muito tristes. Mamãe, chorosa, cabeça baixa, mas convicção e objetividade no olhar.

Papai, avistei pela fresta da janela, proibida de sair ao jardim, naquele dia. Não era castigo. Algo muito sério estava acontecendo. Vi-o abrindo o portão, carregando uma simples maleta, olhando lentamente para a janela do meu quarto, beijando meus irmãos e saindo em direção ao carro. Ele e mamãe não se falaram nem se despediram com um beijo, como faziam sempre.

Não sei por que, alguma intuição infantil, talvez, senti que não mais o veria. Iria embora para sempre.

Realmente, nunca mais o vi, nem soube dele. Minha tristeza foi tão grande que, não sei explicar como: as rosas vermelhas do meu jardim murcharam, parecendo gotas de sangue que caiam ao chão. As outras flores também se fecharam, como se estivéssemos num rigoroso inverno, o inverno do meu coração.

Não brinquei mais! Minhas idas ao jardim, tão felizes antes, limitaram-se a idas e vindas ao portão, saídas para a escola e, ainda ansiosa, esperar sua volta.

Meu pai! Nunca soube realmente o que aconteceu. Suas brigas com mamãe, seu choro às escondidas, suas desculpas às minhas interrogações. Até hoje o espero! Já adulta, com filhos e netos. Nem sabe a falta que fez!

Suas brincadeiras comigo, suas histórias engraçadas, nossas corridas pelo jardim, minha ajuda ao plantio de algumas flores. Sentia-me sua predileta. Única filha mulher entre quatro irmãos. Queixavam-se, às vezes, dizendo que eu, quando entrava, parecia um sol em sua vida. Talvez fosse mesmo.

Mamãe faleceu cedo, após dura vida de trabalho para nosso sustento.  Devemos a ela o que somos hoje! Mas, meu pai, quando o lembro, uma saudade triste, uma dor aguda no peito, uma sensação de vazio, ainda me invade.


Nunca mais admirei jardins. Quando viajo, visito vários lugares, observo tudo e escuto amigos dizendo: “Nossa, que jardim lindo!” “Que flores maravilhosas!” Passo rápido, procurando outros caminhos, outras histórias, interesso-me por gente!

“BEIJO, O FEITIÇO BÍBLICO” - Ricardo Augusto Pinho

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“BEIJO, O FEITIÇO BÍBLICO”
Ricardo Augusto Pinho



Beijos, eram para Sigismundo, a chave para o sucesso, tanto podia dar quanto surrupiar de um inocente ”Energia vital”, através dele (Beijo).

Será que aquele ato tão comum entre todos os seres humanos poderia ser tão sagazmente usado como arma?

Digo arma porque existem beijos de Amor, de paixão, de perdão e daí por diante, mas usar desse artifício para fins vampirescos era realmente uma arma letal!

Contudo, a jovem Senhora já passando de sua época áurea, quando não mais era cortejada como antes ... havendo sim se tornado um artifício para conseguir uma ou outra presa a sua fome de viver uma juventude ida e quase acabada.

Quando ainda jovem, lendo muitos livros de MAGIA, descobriu que, como no Antigo Egito, usava-se o BEIJO em rituais mágicos, para envolver pessoas num labirinto interminável, no qual a vítima seria para sempre prisioneira.

Esse era o segredo de nossa personagem que jamais mediu esforços para conseguir seus intentos

Poderia ter amado alguém?

Se isso aconteceu, não foi reconhecido como coisa boa nem ruim, , para ela todos eram vítimas nesse colar de abomináveis conquistas energéticas.

Sua velhice não seria nada tranquila, sem elegância e muito menos honrosa.

Já feia e enrugada não conseguiria ninguém para mais um beijo, já que não se olhava mais no espelho com medo da realidade que iria encontrar vendo seu horrível eu interior.


O QUE É VELHICE PARA ALGUNS! - Amora


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O QUE É VELHICE PARA ALGUNS!
Amora

Há alguns anos, antes da segunda guerra mundial, vivia no Japão, cidade sagrada de Kioto, uma família conhecida por sua saúde, bondade e longevidade. Seus membros mais idosos, faleciam com mais de cento e vinte anos.

Um deles, chamado Namura, tornou-se um médico notável por seus tratamentos e descobertas. Trabalhava num hospital aos pés do monte Fuji, recebendo inúmeros doentes terminais que se curavam em suas mãos. A técnica, de pouca medicação, era baseada na alimentação e em produtos naturais. Esse talvez fosse o segredo dessa família viver tanto e, bem de saúde.

Namura, aos cinquenta anos, já era um conceituado professor de Universidade, operador e escritor, revelando sucessivas conquistas.

Amado pelos jovens de sua época, sobrevivente de guerra e algumas catástrofes acontecidas no Japão, continuava aos cem anos com a aparência e disposição que tinha aos cinqüenta. Chamou a atenção de muitas pessoas que se interrogavam qual seria o segredo de tanta jovialidade. Parecia que tinha descoberto a fonte da juventude.

Um dia, entrevistado por um repórter, acabou revelando seu dia  simples e contínuo. Trabalhava sem parar, levantava-se cedo, dando aulas, escrevendo, orientando pacientes no hospital. Não deixava pensamentos ruins tomarem conta de sua mente. Alimentava-se muito pouco, comendo somente o necessário; um copo de suco de laranja de manhã, com uma colher de azeite de oliva, para facilitar a circulação sanguínea. Ao almoço, um pouco de leite de cabra ou uma fruta da estação, deixando para o jantar uma refeição leve à base de arroz e peixe. Procurava sempre manter o peso ideal à sua estatura, caminhando à pé em sua rotina  diária.

Conversava muito com seus alunos mais jovens, procurando se manter atualizado, não falando muito do passado, comentando o presente e sonhando sempre com um futuro promissor.

Era constantemente questionado sobre o sucesso no tratamento de seus doentes, principalmente os portadores de câncer, aos quais dedicava cuidados especiais. Respondia através da alimentação. Certos tipos de alimentos alimentam as células cancerígenas, mesmo com tratamentos químicos e radioterápicos, que estacionam o Câncer, mas não curam, fazendo-o  voltar, porque o organismo enfraquece.  É necessário matar de fome as células cancerígenas, alimentando as boas e nutritivas ao fortalecimento do corpo. Seu estudo e livros publicados tiveram grande repercussão entre equipes médicas, sendo convidado até hoje, quase aos cento e cinqüenta anos, a fazer palestras para médicos jovens e universitários.


Quem diria que não encontrou na vida o elixir da mocidade, transmitindo aos mais jovens seus conhecimentos e experiências, até esta idade. Um ser destinado a destaque entre os viventes.

Feitiços da Loba - Jany Patricio

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Feitiços da Loba       
Jany Patricio

Morgana foi convidada por uma amiga para participar de um grupo de mulheres que se reuniam uma vez por mês para ler e comentar os livros. Em cada encontro uma oferecia sua casa e as outras levavam sucos, pães, tortas, bolos salgados e doces e outras guloseimas. Lobas era o nome do grupo.

Foi marcado um dia para confraternização de final de ano onde cada pessoa demonstraria ou levaria algo que sabe fazer. Havia atriz, pintora, astróloga, poetisa, reikiana, numeróloga, cabalista, uma advogada que fazia mandalas com pedras, uma bancária que dançava flamenco. Sendo enfermeira e sem tempo para hobbies, Morgana ficou matutando enquanto as amigas diziam suas habilidades.

Meu Deus, o que vou dizer? Não sei fazer nada além de cuidar dos pacientes e da minha família.

— Morgana e você o que vai trazer? – Perguntou Helena, a organizadora do evento.

Saída de seus pensamentos num susto falou a primeira palavra que veio à cabeça.

— Feitiços. – Lembrando-se de um livro que sua mãe idosa deixava na cabeceira, onde estava escrito na capa: Feitiços.

Todas arregalaram os olhos!

Ela, sentindo-se poderosa fitou cada uma e disse levantando o queixo: — Eu sou uma feiticeira!

— Você nunca me disse que era feiticeira! – Exclamou Dorotildes, sua amiga.

        — Era um segredo. – Respondeu.

        Correu para a casa da mãe encontrou dormindo em sono profundo. Procurou aflita o livro no quarto. Encontrou na gaveta do criado mudo. Nas páginas amareladas receitas de emplasto e chás para dores de cabeça, estomacais, gripes, enjoos, inflamações, insônia, depressão, calos, diarreia, nefrite, verrugas, micoses, ressaca, e muito mais.

        A mãe deu uma espreguiçada e ao abrir os olhos viu a filha com o livro nas mãos.

        Morgana correu para junto dela e disse:

— Mãe, posso tirar cópia deste livro?

        Falando e bocejando ao mesmo tempo disse:

        - Filha, é com as receitas destes livros que tratei meus filhos, meu marido, parentes, netos, e amigos durante a vida. Agora ele é seu. Faça o que quiser com ele.

        A enfermeira abriu um sorriso, abraçou e beijou dona Manuela.

        Chegou o dia da reunião das Lobas.

        Na sua vez de se apresentar, Morgana tirou solene de uma caixa enfeitada com laços dourados um livro. Mostrou a capa para as amigas onde estava escrito “Feitiços”.


        — Aqui estão os feitiços de uma vida.

A história de Mariluce - Dinah Ribeiro de Amorim




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A história de Mariluce.
Dinah Ribeiro de Amorim

Mariluce era uma mulher gananciosa e arrogante, vivia esbanjando a pequena herança deixada pelos pais. De festas em festas, lojas e lojas, namoros escandalosos, sua futilidade era tanta que chegava a ser desprezível, aos olhos de algumas famílias conservadoras.

Tratava seus empregados com severidade, estupidez, considerando-os inferiores e medíocres. Não se importava com problemas alheios, com dores ou tristezas quando as ouvia, interessando-se somente por pessoas ricas, de cargos importantes, que lhe trouxessem alguma vantagem.

Como pessoas assim, existem muitas no mundo, sentia-se rodeada de amigos e interesseiros, como ela.

Citada em rodas festivas, comemorações, exposições importantes e em cada assunto frívolo e inútil, lá estava ela, muito bem acompanhada.

Mulher bonita atraía olhares cobiçosos, embora transmitisse uma certa frieza. Cativava inicialmente muita gente, vivia intensamente vários romances, não durando muito esses relacionamentos. Trocava-os com muita facilidade. Não se prendia a ninguém.

Demonstrava a todos uma felicidade que, intimamente, não sentia. Algo faltava para preencher esse coração vazio e amargo. Só não sabia o que.

Os anos foram passando, a maturidade chegando, o dinheiro acabando, a velhice aparecendo.

A saúde, começando a dar sinais de preocupações, desgastada por excessos, levou-a ao médico.

Aconselhada a uma vida mais calma e saudável, procurar lugares sossegados e algum trabalho voluntário, porém negou-se a seguir  tais conselhos, continuando na mesma de sempre.

“médicos, bolas, só falam besteiras!”

Como seu gênio não mudou, ao contrário, só piorou com os problemas da idade, os amigos desapareceram, a solidão chegou, os empregados saíram à procura de melhor  emprego,  ela ficou só.

Sozinha na casa que restou, sem alguém para  servi-la nos momentos difíceis e  socorrer quando necessitasse.

Começou então a pensar na vida passada e no que fizera.

Olhava pela vidraça a casa em frente, vizinhos que mal cumprimentava, porque eram simples e pobres, reparando agora, com inveja, em como eram mais felizes. Alegres, cheios de filhos e netos, festejando, brincando, entrando e saindo. A mais velha, que deveria ser a avó da turma, tomando sol na varanda, em cadeira de balanço ou com um crochezinho nas mãos, parecia estar bem e feliz. Sempre rodeada por trepadeiras e as lindas rosas do seu jardim. Transmitia paz, sossego, prosperidade.

Uma vez, viera até sua porta, trazendo-lhe um bolo, manifestando amizade. Negara-se a abri-la, considerando-a humilde e mal vestida demais, para ser sua amiga. Como se arrependia agora! Amaria provar aquele bolo e conhecê-la, nos tempos atuais. Não sabia cozinhar nada e nem pensava em comer fora. O dinheiro mal dava para suas despesas. Fez investimentos errados, aconselhada por falsos amigos e, perdeu quase tudo, restando-lhe pouco para sobreviver. 

Uma casa velha, um jardim abandonado, mato crescendo, sem flores, no lugar das lindas begônias, plantadas por sua mãe. Haviam murchado junto com ela.
A vida muda de repente e Mariluce nunca se preparou para nada.  Restou-lhe vender a casa e ir para um asilo.


Arrependida, pensou, pela primeira vez, na existência de Deus.

“SEGREDO PARA SEMPRE” - AMOR SECRETO – Ricardo Augusto


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“SEGREDO PARA SEMPRE”
- AMOR SECRETO –
Ricardo Augusto


Mariela sempre muito recatada parecia uma caixa de segredos, circunspecta e introvertida, quase não falava nada com ninguém.

Mal sabíamos nós que ela guardava segredos incríveis desde a mais tenra idade.

Filha única de pais abastados sempre teve tudo aquilo que uma pessoa possa querer ter na vida,  mas nada disso a fazia parecer feliz.

Talvez a sorte não comungue com gente desse tipo, nem abra as portas da felicidade para quem não reparte com os outros algo de bom na vida.

Todos sabiam que ela tinha algo que se revelado, faria um escândalo na família, no bairro ou na cidade onde morava.

À noite, depois das vinte e quatro horas, ela sorrateiramente ia até o sótão da imensa mansão em que moravam e desembrulhava um espelho de cristal que pertenceu a sua bisavó, tida pela família como maga.

Olhando-se no cristal via-se como uma princesa de rara beleza refletindo certa dose de tristeza pelo amor perdido na juventude.

Jurou jamais revelar o acontecido em nome do amor eterno que guardaria em segredo

O amor verdadeiro é aquele que se torna eterno mesmo que não tenha se materializado.




Cores escondidas - Jany Patricio


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Cores escondidas
 Jany Patricio

Difícil encontrar o armário vazio do abraço.

As paredes assistem perplexas as noites de insônia.

As cortinas não esvoaçavam e os pratos silenciam.

                Dor dilacerante que rompe o casulo.

                O abrir das asas da borboleta.

O voo e as cores escondidas e esquecidas.

                Encontro e libertação!

                Salto para uma vida nova, plena!

                Descobrindo horizontes,

                Rompendo barreiras,

                Alçando voos mais altos,

                E respeitando os limites do infinito!


                Simples assim!

UMA CERTA MARIA! (- AMORA)


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UMA CERTA  MARIA!
(AMORA)

Nasceu Maria, como tantas Marias do lugarejo em que vivia: Maria dos Anjos, das Dores, de Jesus, ela, Maria Santina.

Quando menina, aprendeu tarefas domésticas, carregar baldes d’água na chegada dos caminhões pipas, carpir terra junto ao pai e colher espigas de milho, quando a seca não estragava tudo.

 Moravam pelo sertão da Paraíba, onde a pobreza, a falta de saúde, a fome, modifica o pensamento das pessoas, fazendo-as praticar loucuras.

Desse tempo, Maria só lembra com prazer, de uma pequena sala que servia de escola à criançada, alguns colegas e, da moça de fora que lhes ensinava as primeiras letras. Eram momentos de alegria quando lia e escrevia.

À medida que cresceu, sob o olhar ambicioso do pai, sua vida se transformou.

Nem mulher ainda, mal completado treze anos, resolve levá-la para o litoral, conhecer o mar, desejo local tão sonhado. Maria despede-se da mãe chorosa e irmãos menores, sem compreender o seu choro.

Lá chegando, o pai leva-a a passear pelos bares da praia, percebendo gringos que a olhavam cobiçosos. Resolve fazer negócio, vender a própria filha para um deles, morador do Rio de Janeiro, garantindo algum dinheiro e o sustento dos filhos menores. A colheita fora perdida pela grande seca abatida na região. Entrega-a ao homem estranho, satisfeito, não sem antes usá-la, garantindo a mercadoria.

Maria, chocada, sem saber o que ainda aconteceria de pior à sua vida, segura a mão do pai e o obedece mecanicamente.

O gringo, de nome Artur, trata-a bem, com carinho, dando-lhe comida e modificando seu vestuário. Só não entendia direito quando a procurava, várias vezes, durante a noite. Acabou cedo sua inocência, transformação precoce em mulher.

Passado um tempo, Artur resolve voltar ao Rio. Leva-a com ele. Muda repentinamente de gênio, revelando-se cafetão de prostitutas mal pagas e mal tratadas, fazendo Maria juntar-se a elas. Não consegue aprender o ofício. Cada vez que volta à pensão que moram, sem grana, como ele dizia, leva uns bofetões e é jogada num canto. Maria chora muito, não sabendo o que fazer da vida. Pensa em acabar com tudo, tentando suicídio. Ideia que persiste.

Numa dessas noites, caminhando pelo calçadão, junto às outras, desvia-se delas e planeja atirar-se à frente do primeiro carro que passa. Não compreende o por quê? Vem-lhe à mente a professorinha que teve e as primeiras letras que aprendeu. Começa uma chuva leve e repara nas gotas douradas que se formam banhadas pelos últimos raios solares do entardecer. Ao longe, uma música suave e estranha a atrai, como se a chamasse para mais perto. Sente-se hipnotizada e a segue, reparando que vem de uma igreja.

Envergonhada de suas roupas justas e curtas, molhadas de chuva, penetra nesse ambiente de paz e ouve atentamente a voz que pronuncia, lendo um grande livro: “Quando se pensa que Deus está mais longe, é quando está mais perto!”


Emocionada, desiste da ideia de suicídio, voltando à igreja várias vezes. Abandona Artur, fugindo longe daquele lugar e termina doméstica numa casa de família. Consegue completar seus estudos, à noite, dedicando-se à literatura, de preferência. E, assim, como poucas Marias, iguais a ela, transforma-se numa escritora, começando por sua autobiografia, que é o início de todo grande escritor! O sucesso é rápido quando narra a venda de filhas no sertão pobre do Brasil.

A MULHER DO CARROCEIRO - Ricardo Augusto


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A MULHER DO CARROCEIRO
Ricardo Augusto


O carroceiro escolheu essa profissão por conseqüência da vida; família numerosa, vivendo do pouco que a roça lhes rendia.

 Pai, mãe, três irmãos maiores e duas outras caçulas.

É certo que viviam em harmonia, mas, era duro manter tantas bocas, remédios, roupas e o trabalho do campo sempre sujeito às maluquices do tempo.

A mulher trabalhava duro na casa, lavava a roupa de todos, fazia a comida, e ainda, cuidava de uma horta nos fundos da casa.

O carroceiro fazia carretos para os moradores da região e  não se queixava do trabalho, senão pelo valor que os muquiranas queriam pagar pelos serviços pesados.

Ficava enfurecido e quase nunca mantinha uma relação amorosa com a esposa que se sentia traída.

“Teria ele encontrado alguma rapariga nessas andanças pela redondeza.”
Carroceiro trabalhador, parecia mais um burro de carroça que aquele bom provedor de uma grande família.

 O tempo sempre mostra a verdade, tanto que depois de morto, todos foram homenagear aquele homem, mais conhecido como o marido da megera, agora sozinha, com a filharada para cuidar.
 



A BUSCA DA FELICIDADE! - Dinah Ribeiro de Amorim (AMORA)

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A BUSCA DA FELICIDADE! 
Dinah Ribeiro de Amorim (AMORA)

  “Buscai antes o reino de Deus e todas estas coisas vos serão acrescentadas...” (Lucas 12:31)

  Caminha um homem muito triste e abatido, cansado e decepcionado com as amarguras do mundo. Seus problemas foram tantos que abandona tudo e sai à busca da felicidade ou, pelo menos, momentos felizes.

  Percorre caminhos estreitos, perigosos, que se abrem em montanhas e vales. Atravessa rios perigosos, riachos profundos, cachoeiras volumosas que terminam em lagos quietos, tranquilos...

Conhece pessoas, grupos espalhados aqui e lá. Aparentemente felizes, cantadores, tocadores, dançarinos, rindo e brincando o tempo todo. Beberrões, tornam-se briguentos quando o álcool lhes sobe à cabeça. A alegria transforma-se em raiva, apartada pelos mais velhos. Falta-lhes domínio próprio!

  Alguns grupos que encontra na sua caminhada são cultivadores da natureza. Alimentam-se do que  plantam. São os naturalistas. Sente-se bem com eles, permanece ali certo tempo até que percebe: também brigam muito. Dedicam-se exageradamente ao sexo, possuindo seus homens inúmeras mulheres e grande número de filhos. Não há paz entre eles! Gera contenda e acalmar mulheres ciumentas é difícil, sem falar na criação da meninada, competindo o tempo todo. Problemas no relacionamento!

  Continua sua jornada, ainda desgostoso da vida, procurando um povo feliz e sem problemas para terminar seus dias e descansar finalmente.

  Chega a um lugar repleto de construções: casas, templos,  prédios. Homens trabalham o tempo todo. Mulheres e crianças também na lida. Não se importam  com a  plantação, com a terra, mas com o que podem tirar dela: sementes para vender, madeira para utilizar, borracha para transformar. Possuem petróleo nas terras. Isso os torna ricos e prósperos. Dão muito valor ao dinheiro e ao que podem adquirir e aplicar para conseguirem mais. Aparentemente, a fartura, a riqueza e o conforto imperam. Seriam felizes?

 Permanece por um tempo observando a fisionomia das crianças, mulheres, jovens e velhos. Não têm sentimento. Agem mecanicamente! Não expressam alegria. Verdadeiros robôs dedicados às finanças. Excesso de materialismo!

Não, também não são felizes, afasta-se e reinicia sua caminhada.

Cansado, senta-se em um local sombreado, cheio de árvores frutíferas que caem na sua cabeça. Observa ao redor, curioso e percebe muita água: lagos, rios, fontes, muita fartura de peixes e terra boa e úmida para plantação. Procura seus habitantes. Encontra-os  espalhados, indolentes, gordos e ociosos, comendo e dormindo a maior parte do tempo.

Tomam sol se é dia bonito e recolhem-se às choças de palha, nas chuvas fortes. Não possuem grandes preocupações, mas não se dedicam a nada. Gostam de comer e, para isso, utilizam-se da fartura da terra que possuem. Não trabalham, permanecendo obesos e aparentemente doentes. Até as crianças não correm e brincam. São apáticas e muito robustas.

O velho homem medita e chega à conclusão que também ali não permaneceria. Fartura demais naquela região. Embora fosse um presente dos céus, seus moradores não tinham objetivos a não ser comer e o excesso de comida acaba com eles. Transforma-os em preguiçosos e doentes. Não dão valor ao que têm!
Restabelece-se do cansaço e continua suas andanças pelo mundo.

Chega a um lugar fortificado, com estrondo de bombas e  tiros. Seus habitantes, continuamente em guerras, já não sabem como viver, a não ser odiar, guerrear e matar. A cidade apresenta características tristes e grotescas. Um eterno construir e destruir, atacar, defender, recomeçar.

Para entrar nesse lugar é feito prisioneiro, recebendo inúmeras perguntas. Quem era? O que queria? O que fazia?

 Amedrontado, justifica-se como pode, até que o largam a um canto, percebendo que era inofensivo.

 Adormece pensando “logo que puder, fujo daqui. Detesto  guerras e nem sei o por que de tanta luta, nem eles mesmos sabem. Se houve motivos, já se esqueceram! Virou um vício! O cultivo do ódio, do ataque, da defesa. Armas nas mãos de crianças! Excesso de ressentimento! Falta de amor e perdão!

 Afasta-se dali com o descuido da guarda e, mais infeliz e abatido, caminha um dia inteiro, só parando à noite, para descansar. Dormiria e, no dia seguinte, pensaria o que fazer de sua vida. Não aguentaria muito tempo. Talvez estivesse no fim!

Olhando para o céu escuro, cheio de estrelas que cintilam variadas cores, longínquas, inatingíveis, ofuscadas  por  uma lua cheia, clara, risonha, que insiste em se mostrar a ele, fecha os olhos. Qual seria esse mistério? O grande mistério do universo que ninguém ainda conseguiu desvendar. Também, poucos se interessam por isso! Nem o notam!

Sonha. Um anjo aparece e o conforta, dando-lhe uma paz incrível! Sente-se transportado em espírito. Uma voz suave, doce,  fala ao seu ouvido: “volte, retorne aos seus familiares, ao seu povo, recomece sua história. Escreva suas experiências. Sua procura pela felicidade fora de si mesmo. A felicidade que procura está dentro de nós, de nosso coração, de nossa mente, de nossa ligação com o Absoluto, de nossa ligação com Deus!”



Carta de Gerusa - Rejane Martins


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Carta de Gerusa
Rejane Martins

Começo este relato, num rompante de quase desespero. Forcei o afastamento de todos pensamentos que invadem minha mente. Dirigi-me à escrivaninha, desembainhei uma caneta e com ela firo ferozmente a folha de papel à minha frente. Estabeleço o início do testemunho simultaneamente com o amanhecer.
É certo que o dia a pouco iniciado será irritantemente interminável, afinal hoje completo 30 anos. Tentei retardar ao máximo o meu despertar, mas logo o som insistente do telefone, agindo como um cruel carrasco, obrigou-me a atendê-lo.
Ergui o rosto após lavá-lo, e assustei-me quando meus olhos se cruzaram com o seu reflexo no espelho. Não havia muitas rugas, como dizem os mais condescendentes “apenas linhas de expressão”, mas era a falta de brilho no olhar o que mais me incomodava.
Na tentativa de camufla-lo, optei por radicalizar e escolhi mentalmente uma roupa descolada para vestir neste dia. Melancolicamente constatei que minhas vestimentas compartilhavam da opacidade interior.
Por onde andará aquela jovem que até ontem mesmo habitava dentro de mim? Aquela que sempre desfilava com algum vestido florido, um batom vermelho, uma sandália de salto alto com algum brilho. Em vão, vasculhei mentalmente algum esconderijo dentro de casa que abrigasse alguns destes objetos cheios de vida ansioso pelo seu resgate, e assim cumprir a sua mais nova missão que era a de suprir estas novas carências.
Em meio a este turbilhão de emoções, a única certeza que me acompanha é a intenção de imortalizar toda a minha indignação e resiliência, e renascer tal qual uma fênix.
Varro para longe as cinzas que encobre aquela chama quase extinta que abriga o verdadeiro eu desta Gerusa. Mas, ao mesmo tempo, temo que a explosão de vida aflorada em mim nesta manhã, possa cair no esquecimento e perder sua intensidade com o passar dos dias.
Como guardiã do brilho no olhar reacendido neste exato momento, deposito esta carta, juntamente com uma foto atual, em uma fenda na parede do porão. No futuro ela será o testemunho fiel da forte determinação ocorrida na Gerusa, a anciã precoce.    

EXEMPLO DE VIDA. - Do Carmo

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EXEMPLO DE VIDA.
Do Carmo



Com todo respeito, ouvi o relato de uma das colegas de oficina literária, o qual me comoveu às lágrimas.. . 

Contou-nos que perdeu um filho de nove anos, cuja causa da morte foi o medo que sentiu ao ser descoberto por uma professora, que o ameaçou de expulsá-lo do Colégio, por ter riscado uma parede do quarto de brinquedo, com giz colorido.

A autenticidade de sua narrativa, sua fé ao dizer que tudo o que acontece na vida tem um propósito e que seu sofrimento foi um sinal de alerta pois, estava no caminho inverso de suas crenças.

Depois  que narrou  sua história com detalhes, eu comecei a analisar minha vida e percebi o quanto eu era feliz e nunca tinha dado o valor devido,
pois apesar de ter enviuvado muito cedo e com dois filhos pequenos, consegui educá-los formaram-se na carreira que escolheram, constituíram ótimas famílias e hoje tenho três netos magníficos.

Toda a história dessa mãe, contada no lugar e hora certa, mostrou-me o quanto eu deveria amadurecer, usar meu tempo livre com coisas simples, sem grandes projetos, sem muita expectativa de futuro e com simplicidade, respeitando meu ritmo inerente a minha idade..


Decorrido algumas horas, senti-me tranquila, humilde diante de tanta plenitude demonstrada, mesmo depois de tamanho sofrimento.

CRUZEIRO MARÍTIMO - Ricardo Augusto


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CRUZEIRO MARÍTIMO
Ricardo Augusto


Quase todos os meus amigos são casados e me convidaram para um “cruzeiro marítimo” nesse final de ano, saindo de Santos, passando por várias praias e cidades portuárias do sul do Brasil, até Bueno Aires.

Estou pensando e repensando ... será que vale a pena ir numa viagem com gente casada?

Sozinho, no meio de casais que brigam, discutem mas, sempre acabam se entendendo por se conhecerem há muito tempo?

Durante o dia, vai ser até engraçado, brincadeiras, piscina, muita ginástica, uma cervejinha para refrescar, almoço e jogar muita conversa fora. 

À noite é que a coisa muda, depois do jantar, tem sempre um joguinho de baralho, bingo, sala de conversação, onde se fala muito e mal do próximo, mas , mais tardão ainda, tem boate e ai então vou ficar com vontade de paquerar ...

Resolvi então, não aceitar o convite e passar o Natal e Reveillon na Europa, para ser mais exato, o Natal em Paris e Londres e me soltar naqueles “Night Clubes”, onde vai toda a moçada em busca de alguém novo, para passar o tempo.

Tudo já aconteceu comigo há uns quarenta anos passados, era jovem e cheio de energia, gostando de desbravar a vida em bisca de novos amores, conhecer gente nova e falar em outros idiomas.

Trago boas lembranças vividas nos anos setenta ... Nossa, como curti a noite de Natal em Paris seguindo, dois dias depois, para Londres onde fiquei até depois do Ano Novo.

Estava com um grupo brasileiro, todos jovens, na faixa de dezenove e vinte anos, meninos e meninas, todos a fim de conhecer o mundo que naquela época vivia o BOOM de Liberdade : Beatlos, Pink Floyd e tanta coisa nova que nos levava ao delírio.
Tais experiências ficam para sempre na memória de quem sabe separar o joio do trigo mas, quando se é jovem, tudo é “ o que há atrás daquela porta”?

Então vou repetir a dose com um diferencial ... Já passei daquela fase de descobertas e agora vou curtir o cenário e os personagens, confortavelmente,  posto no lugar do observador tranquilo e experiente.


É bom viajar acompanhado? Não sei, pois sempre viajei sozinho e nessas, conheci muita gente como eu ... que gosta de conhecer gente nova para troca de informações e aprender novas palavras noutras línguas, sem perder a oportunidade de estar trocando vibrações com personagens de outras estórias muito diferentes das nossas.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...