A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023
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terça-feira, 29 de março de 2022
quarta-feira, 23 de março de 2022
ESTRUTURA DO ENREDO
ESTURTURA DO ENREDO
Aqui temos um anagrama da construção de uma história.
A arquitetura, os esboço em gráfico, do passo-a-passo de um conto, seria assim:
A TAPEÇARIA - ALBERTO LANDI
Museu Guggenheim, Bilbao
A TAPEÇARIA
Alberto Landi
Olhando para uma tapeçaria que adornava a parede do
museu Guggenheim, na cidade de Bilbao, notei que algumas linhas de lã compunham
o desenho de um casal de mãos dadas e que estava sentado em um banco de jardim,
tendo ao fundo um cenário de árvores plantadas em um gramado com um lago no meio.
Este casal aparentava estar numa festa de gente com
mais de 60 anos de idade, e que havia muitos gestos de entrelaçamento de suas
mãos, muita candura e um amor que emanava dos seus olhos.
Este museu, como a maior parte de todos, é tombado
pelo patrimônio histórico, trata-se de um museu que abriga vários objetos
antigos, pinturas, as mais diversas possíveis, de artistas renomados. No teto
das salas havia afrescos, com vários tipos de imagens.
A tapeçaria, que retratava aquele casal, me espantou e me absorveu um bom tempo de contemplação, pois à medida que olhava para eles, observava que no seu entorno, havia fios que estavam desgastados e desbotados.
A imaginação correu solta, e admiti se tratar de um
casal que superou as provações que a vida lhe impôs, pois, as linhas que
formavam o tecido com suas imagens estavam íntegras, tanto na forma como na sua
coloração.
A vida destas duas pessoas que se olhavam com
brandura, com as mãos dadas, foi elaborada por uma hábil tecelã, a que chamei
de destino. Para chegarem neste dia retratado, em que a luz do sol iluminava de
uma forma suave, considerei que estariam comemorando o fato de estarem unidos
por um longo período de suas vidas. Neste olhar havia além do carinho
recíproco, o reconhecimento pela união.
A talentosa mulher que teceu os fios deixou que
notássemos a diferença das outras linhas tecidas e que não suportaram a ação do
tempo e que por isso ficaram puídas e se desprenderam.
A conclusão a que
havia chegado, depois de tanto apreciar aquela tapeçaria, é que o destino,
segundo as mãos da fiandeira, não uniu todos os fios com a mesma intensidade, e
me fez entender o porquê de muitos casais não conseguirem suportar a ação do
tempo.
Acredito que muita coisa depende do ser humano, mas
nem sempre a pessoa que tece, aperta de maneira suficiente os nós que formam as
tramas do destino, assim, as linhas que foram ligadas com frouxidão irão se
soltar com o passar do tempo.
Somos os que conseguimos superar a ação do tempo de
uma vida conjugal, não percebemos, mas em várias circunstâncias do tempo
operamos como restauradores de um objeto de arte precioso, e nos aliamos à
hábil tecelã para que as linhas das nossas vidas não sejam desfeitas, rompidas
ou desbotadas.
Dizia minha avó ao fazer o seu tricô, que para cada
ponto se dá um nó, caso contrário ele se desmancha. Os nossos nós estão firmes
no tempo e espero que aguentem bem até a grande obra terminar a nossa vida.
Hoje em dia é muito raro isso, confesso que até me
espanta!
terça-feira, 22 de março de 2022
Duas irmãs - Ana Catarina S. Maués
Duas irmãs
Ana
Catarina S. Maués
Oh! Que dia
lindo. Oh! Que dia lindo! Era assim que Norma entrava pela manhã no quarto
escuro da irmã mais velha. Sempre cantarolando uma canção, puxando o edredom
que descansava suavemente por sobre o corpo de Sônia e esta, como querendo
fugir daquela alegria contagiante, enroscava-se cada vez mais para dentro do
cobertor.
— Levante minha irmã, mas desperte
feliz, certo. Deixe aí no travesseiro essa cara fechada. O sol está frio, a
brisa sopra suave, teremos uma manhã gostosa.
Irmãs, com
diferença de dois anos da primeira para a segunda, tudo dividiam, desde uma
fatia de bolo até roupas, sapatos e bolsas.
— Norma, não sei que sapato usar pra
missa, se este fechado ou essa sandalinha baixa, talvez você me empreste aquele
de salto rampa marrom, que se acha?
— Claro minha irmã pode pegar.
— Ah! Deixa. Vou com este aqui mesmo.
Respondeu Sônia, mas ainda com cara de indecisa.
Estudavam na
mesma escola, em séries diferentes, mas isso não as impediam de irem e voltarem
juntas para casa, numa amizade elogiável a quem observasse.
Os pais eram
atentos com as notas das filhas no colégio principalmente com as da mais velha
que, segundo eles, era lenta e preguiçosa.
— Norma, fiquei com nota vermelha. O que faço?
Disse com as lágrimas já escapulindo dos olhos.
— Calma, daremos um jeito. Mas por favor não
chore. Eu vou imitar a letra da mamãe no caderno de avisos e aí você não mostra
pra ela, só mostra quando a nota vier azul, pois você vai tirar nota melhor da
outra vez não vai?
Em casa ajudavam
nas tarefas, porém quando algo saia errado para não ver Sônia
choramingando por causa da bronca a ser recebida, Norma logo assumia a culpa.
De alma doce e
angelical Sônia, era protegida pela irmã mais nova com personalidade arrojada e
determinada.
Uma vez, na
saída do colégio, elas se encontraram com umas meninas de outra escola que começaram
a puxar encrenca. Dizer coisinhas sobre o cabelo delas que era desarrumado, que
elas exalavam mau cheiro, coisas desse tipo. Foi Sônia com sua humildade
natural que segurou a irmã para que não saísse uma briga de socos e pontapés.
O coração de
ambas não havia despertado para o amor até que um dia, chegou um aluno novo no
colégio. Rapaz alto, corpo atlético, braço robusto, cabelo bem cortado, modelo
ideal das meninas.
Norma
investiu forte na conquista. Primeiro mandou um bilhetinho anônimo. Depois
mandou recadinhos audaciosos pelas amigas, depois propôs um encontro, mas ele
não dava atenção.
Em casa ela
contava tudo para a irmã, que calada ficava sem revelar o sentimento de amor
que nutria pelo mesmo rapaz.
Até que devido
a insistência de Norma, eles iniciaram um namorinho, mas na verdade era para
ele se aproximar de Sônia que cada vez mais dominava e avançava dentro do
coração dele, que, pelo seu jeito inseguro de ser, não tinha coragem de se
revelar para ela e se viu no emaranhado promovido por Norma.
O
envolvimento dos dois só durou uma semana. Logo, logo o sentimento verdadeiro
por Sônia explodiu e sem poder segurar se declarou.
Com o tempo
a paixão se consolidou, Sônia mesmo recatada, conseguiu roubar o coração do
moço, para tristeza de Norma que passou a perseguir o casal fazendo muitas
intrigas. Dissimulada enchia a cabeça de Sônia falando de infidelidade do moço
que se chamava Paulo. Mas não adiantava as mentiras de Norma, o casal era bem
estruturado, apesar da pouca idade.
O
tempo passou e as coisas se ajeitaram. Não sei se Norma conseguiu olhar para
Paulo como cunhado, pois era muito engraçado ver ele caminhando de mãos dadas
com as duas, vindo do colégio, ou indo à missa aos domingos. Os três pareciam
muito unidos.
E deu casamento. Paulo e Sônia casaram, logo depois da formatura do colegial. Ele conseguiu um bom emprego e não perdeu tempo. No papel o casamento foi a dois, mas entre quatro paredes será que não ficou a três?
quarta-feira, 16 de março de 2022
Consequências - Hirtis Lazarin
Consequências
Hirtis Lazarin
Já é
primavera. Despontam os primeiros raios
do amanhecer. Chegam leves e
brincalhões, esgueirando-se entre galhos e folhas das árvores mais altas. Acordam pássaros ainda nos ninhos. Aos poucos
se fortalecem e colorem a natureza.
Inspiração aos poetas e a “Monet”.
Essa
felicidade bate à porta da família Rodrigues, mas não consegue entrar.
Na
cozinha, o casal toma o café da manhã.
Cada um senta-se na ponta da mesa comprida. Ela, abatida, olheiras profundas mostram que chorou
muito e, provavelmente, passou a noite em claro. Ele, vez ou outra, lança-lhe um olhar amargo
e enfurecido. Irrequieto, derruba café na camisa branca. Raivoso, empurra a
cadeira e sai esbravejando.
Cristina
e Fernando estão casados há quase trinta anos.
Têm dois filhos: Rui, formado em medicina e Vitor, estudante de
veterinária.
Um
casal modelo e bem-sucedido. Ele,
diretor numa multinacional e ela psicóloga e orientadora vocacional, numa
escola alemã. Gente simples e hospitaleira
que coleciona amigos. Sempre há um
motivo para reuni-los e festejar.
Fernando
chegou do trabalho bem mais tarde, mesmo sabendo que a esposa prepara e
espera-o para o jantar todos os dias. Ele
atravessa a cozinha. A casa está silenciosa e muito escura. Tateando as paredes, encontra o interruptor
da sala.
Cristina
está caída aos pés da escada de mármore que dá acesso ao piso superior. Os cabelos loiros estão avermelhados e um fio
grosso de sangue escorre da cabeça ao pescoço.
Em
pânico, ele toma-lhe o pulso. Não há
sinal vital. O corpo gélido. Cristina está morta. Fernando corre de um lado pro outro sem saber
o que fazer. O celular, procura e não
acha. Grita por socorro e os vizinhos,
solidários, entram na casa. A polícia chega rápido.
As
hipóteses são muitas... Ela sofreu mal súbito e rolou escada abaixo ou
desequilibrou-se no salto alto do sapato... À primeira vista, a casa está em
ordem, as portas todas trancadas e nenhuma vidraça quebrada.
O
corpo é encaminhado ao IML e a casa interditada para que a perícia fizesse as
investigações, sem correr o risco de alteração da cena do crime.
Concluiu-se
que Cristina foi morta na cozinha. Sobre
a mesa, havia um livro de receitas aberto às páginas 45 e 46, respingadas de
sangue. Ao lado, ingredientes para um
bolo de chocolate, o preferido do esposo.
Provavelmente,
um bastão grosso de madeira golpeou sua cabeça por trás. Ela estava com o tronco inclinado pra frente,
compenetrada na leitura da receita. Foi surpreendida e não teve tempo pra reagir. O corpo foi arrastado e o “luminol” mostrou
um rastro de sangue da cozinha até os pés da escada. Esse bastão ainda não foi
encontrado.
O
crime aconteceu justamente no dia em que os funcionários não estavam
presentes. Era hábito do casal conceder-lhes
folga extra, uma vez por mês
O
delegado convocou familiares, amigos, vizinhos e todos que frequentavam a casa.
O casal era um exemplo de família. Nenhuma suspeita. Quinze dias depois, quando tudo já havia sido
virado e revirado, todos voltaram a nova rotina, se é que há rotina onde
aconteceu um assassinato.
Fernando
autorizou, logo nos primeiros dias, que a governanta Amélia encaixotasse os
pertences da esposa. Eram muitas roupas,
sapatos, bolsas de grife e perfumes importados.
Faria um bazar e o dinheiro arrecadado seria distribuído às
instituições. Insuportável sentir o
cheiro de Cristina. O casamento perfeito
de duas pessoas que driblam os problemas em busca da solução.
Trabalho
difícil para Amélia. As duas não tinham segredos. Tantos anos trabalhando na mesma casa,
convivendo com as crianças, participando dos bons e maus momentos...
Tornaram-se grandes amigas e confidentes em todos os detalhes da vida. Um mistério.
Não conhecia ninguém que tivesse qualquer rancor por Cristina. Ela contava-lhe
tudo.
Numa
bolsa pequena, a governanta encontrou a agenda da patroa. Folheando-a
aleatoriamente, e sem interesse em ler as anotações, chegou à página onde
estava registrado o dia anterior à morte de Cristina. Chamou-lhe a atenção a letra grande, tremida
e grafada com tinta vermelha. E muitos
coraçõezinhos desenhados... Sentiu arrepios e um pressentimento ruim causou-lhe
náuseas. Só se deu conta do tempo que
tinha passado, quando Fernando chegou da rua e chamou-a lá do andar de baixo. Já era noite.
Guardou
a agenda e, no dia seguinte, entregou-a ao delegado. Meses depois, dois homens foram novamente
convocados e um deles, como suspeito, ficou preso preventivamente.
Na
última página da agenda, Cistina escreveu:
“Uma
hora da manhã. Contei a Fernando o que
me torturava há vinte anos. Contei que Vitor não era seu filho. Era filho de um de nossos melhores amigos. Aconteceu depois de muita bebida. Estávamos a sós, num boteco. De madrugada.
Nem me lembro direito como aconteceu.
Acordei nua no motel ao lado dele.
Fernando
ouviu tudo sem dizer uma única palavra, sem pedir mais explicações. O silêncio
dele me torturava. Eu queria que reagisse, que gritasse. A formatura de Vitor é no mês que vem e eu
precisava contar. Meu casamento tá destruído. A traição, foi uma única
vez. Eu jurei que foi uma única
vez. Pedi perdão mil vezes. Tentei não
chorar. Cai de joelhos. Sempre fui fiel.
Fernando
permaneceu mudo e os olhos vermelhos descarregaram-me todo ódio que existe no
mundo. Fechou os punhos para não me
bater, e deu um soco no espelho da penteadeira.
Cacos voaram pelo quarto todo. E sua mão sangrou. Chutando o que
encontrou à frente, trancou-se no quarto de visitas. Eu ouvi urros, muitos urros.”
OBSERVAÇÃO: “Passei a noite em claro e, como faço todas
as manhãs, vou preparar o café pra nós dois.
Só me resta aguardar as consequências. ”
ZÉ DO PICADINHO - Henrique Schnaider
ZÉ DO PICADINHO
Henrique Schnaider
Vou contar uma história que vem da minha juventude
que é mesmo de causar espanto. Ela é verdadeira e estes crimes tomaram conta
dos jornais da época.
José Alves dos Santos nasceu num lar pobre no interior
de São Paulo na cidade de Pirassununga. Ele foi o terceiro de quatro filhos do
casal. Sua mãe se desdobrava ao ter que cuidar dos meninos, carinhosa, sempre
dando atenção e fazendo o possível para que a vida deles fosse a melhor que ela
podia oferecer.
O pai era um péssimo marido, vagabundo, alcoólatra
e violento, fazia da vida da mãe e de José e seus irmãos, um verdadeiro inferno
aqui na terra. Além de não trabalhar, surrava os meninos sem nenhuma razão.
Enquanto a mãe saía para trabalhar fazendo faxina e ganhando os seus míseros
trocados e outras doações de roupas e alimentos que as patroas lhe davam.
Quando chegava do serviço, era dolorido de se ver,
com as crianças todas marcadas de vergões, pelas pancadas recebidas do pai.
Arlindo completamente embriagado, recebia a esposa com pancadaria, exigindo que
ela fosse para o fogão preparar a refeição para todos.
Dessa forma a vida triste foi passando e nenhuma
esperança de melhoras. José e os irmãos transbordavam de tanta revolta. A
desgraça rondava a casa onde José e os irmãos moravam.
Um dia a esposa chegou em casa e foi recebida a
murros e pontapés e caiu desfalecida sem chances de sobreviver. Os filhos já
adolescentes, não suportaram mais tamanha violência. Juntos foram para cima do
pai agredindo-o com pedaços de pau, levando-o à morte.
Neste dia os rapazes se tornaram órfãos e
resolveram cada um ir pro seu lado. José foi à estação e pegou um trem com os
trocados que tinha e veio para a Capital São Paulo. Foi parar numa pensão na
rua Aurora. Saiu a procura de emprego e acabou trabalhando como carregador no
Mercado Central.
A vida seguiu seu rumo, já com Jose adulto, mas ele
era de fazer pouca amizade e carregava com ele a dor de uma revolta imensa de
ter presenciado e participado no fim das contas, de tanta violência ao se
desfazer a sua família,
Jose que morava na zona de prostituição, começou a
se relacionar com as prostitutas da região. No começo tudo seguia o curso
normal de quem pagava para ter um carinho e uma relação sexual. Mas ele não ficou
satisfeito e as coisas pareciam piorar. Até que um dia José depois de se deitar
com uma prostituta, sentiu uma violência e um ímpeto muito grande e sem
controle matou a indigitada.
Com aquele corpo estendido na cama, José pensou
como se livrar do cadáver. Pegou uma faca bem afiada e destrinchou o corpo em
vários pedaços e colocou numa mala. Saiu dali carregando aqueles pedaços de
gente e foi de táxi até o rio Tietê e sem testemunhas jogou a mala no rio.
O instinto assassino de José não parou na primeira
vítima. Continuou a matar, picar e jogar no rio.
A polícia investigando aqueles crimes sem solução e
com os jornais da época explodindo em manchetes enormes. Falando do Zé do
picadinho, apelido que deram sem saber a quem se referiam. A opinião pública exigindo
e pressionando as autoridades para uma solução daqueles crimes bárbaros.
Um dia seguindo sua rotina de crimes. José foi
carregando sua mala em direção ao rio e para sorte da polícia e das
prostitutas, passava por ali um carro policial na rotina de ronda. Viram aquele
suspeito com a mala e pararam a viatura e se aproximaram dele. Mandaram abrir
para ver o que levava e, já desconfiados, encontraram o corpo de uma mulher, em
pedaços.
José foi preso e condenado a muitos anos de prisão.
Passado algum tempo, ele foi solto por bom comportamento. Mas o seu instinto
assassino estava apenas adormecido. Despertou novamente e as mortes voltaram a
acontecer.
Para a polícia não foi difícil localizar Zé do
Picadinho e ele voltou para a prisão, ali permanecendo até o final dos seus
dias.
Contei esta história porque depois de alguns anos
aconteceu de um dia eu estar na casa do meu amigo de infância Carlos Azolini
que trabalhou como Perito Criminal em São Paulo. Inclusive trabalhou no caso do
Zé do Picadinho. Ele buscou uma pasta, tirou e me mostrou fotos dos crimes
praticados. Me deixando espantado com o que eu vi.
Na época que os crimes aconteceram. Era espantoso
saber dos fatos acontecidos com os crimes e da forma como foram praticados. Mas
depois de ter visto as fotos deles. A minha sensação foi de horror, pois eu não
podia acreditar que o ser humano fosse capaz de tamanha violência.
Mas infelizmente este é o mundo em que vivemos e a
cada dia nos surpreende de forma negativa.
INACEITÁVEL - Helio Fernando Salema
INACEITÁVEL
Helio Fernando Salema
Estava como carona num carro em uma das principais avenidas de uma grande cidade. Assim que o final fechou, percebi, que ao longe, vinha um menino colocando um saco plástico com algumas balas, no retrovisor de cada veículo.
Muito antes de chegar ao carro em que eu estava, voltou
correndo. Consegui vê-lo pegando cada saco numa rapidez incrível.
O sinal abriu, andamos lentamente, até pararmos antes de atravessarmos. Lá estava ele na calçada aguardando o fechamento do sinal.
Ao ver que estava fechado no nosso sentido, veio correndo
e novamente pôs sua mercadoria nos retrovisores. Pela altura calculei que
deveria ter no máximo dez anos. Usava um tênis simples, bermuda e camiseta.
Cabelos penteados e o rosto que parecia limpo.
Quando passou por mim, acompanhei seus passos pelo
retrovisor. Durante todo o trajeto não logrou nenhuma venda.
O trânsito evoluiu e poucos minutos depois estávamos em
uma outra avenida.
Ao pararmos, inicialmente não vi ninguém que estivesse
aproveitando o local para fazer qualquer tipo de comércio.
Logo depois aparece um outro menino, que aparentava ter pelo
menos doze anos, com um pedaço de papelão, mostrando para os motoristas. Com
roupas um pouco sujas e com semblante desanimador. Vi que ele não conseguiu
coisa alguma.
Passando por outros cruzamentos, sem parar, vi que nas
calçadas, perto dos sinais havia crianças.
Ao chegar em casa, satisfeito por ter concluído tudo o
que havia planejado, comecei a pensar naquilo que em poucos minutos me causara
indignação.
Há pelo menos duas décadas, quando eu residia numa pequena cidade, em outro estado. Fui a uma cidade próxima para reunir-me com amigos. Pela primeira vez eu participaria. A finalidade era arrecadar brinquedos ou recursos para o Natal de crianças pobres.
Ao me aproximar deles, uma criança bem pequena, chegou
perto de mim, e estendendo a mão, pediu-me
um dinheiro para comprar leite. Instintivamente peguei uma nota, dei àquela
menina, que agradeceu e saiu correndo, numa direção que não percebi.
Ao chegar junto aos meus amigos nós nos cumprimentamos. Logo
ao término das cortesias, um deles chamou minha atenção:
— Você não deveria ter dado dinheiro para aquela menina.
Um pouco espantado:
— Ora…Por que não?
— A mãe dela é que manda ela ficar pedindo. Não é por
necessidade. É para a mãe comprar bebidas.
Como eu não conhecia esse fato, nem pensei em debater. Um outro amigo logo comentou algo sobre a reunião e assim o assunto ficou no passado.
Em casa à noite, lembrei-me do ocorrido e durante horas
fiquei a meditar, se eu estava errado…“sim”. Não é um procedimento correto dar dinheiro
a uma criança sem ter certeza do que ela fará.
Mas como vou saber o que aquela menina faria?…Se
necessitava ou não?
Qual a certeza de que ela estava acompanhada?
Geralmente nessas ocasiões há alguém, responsável ou
irresponsável por trás?
Eu teria autoridade para punir aquele adulto?
O fato de ter um adulto apoiando ou mandando piora ainda
mais a situação. Mas por quê a criança não estava na escola? Se foi em horário
de aula e em dia de semana?
Não a conheço. Não é minha parente.
Mas é um ser humano. E se ela estivesse realmente necessitando? Cabe a mim indagar ou cobrar explicações?
Em alguns momentos sinto que faço parte de uma sociedade incapaz
de reagir, ou de saber exigir.
Completamente impotente diante de situações que envolvem
crianças e o futuro do país que desejo para os meus filhos e netos.
Não é necessário tomar prédios para transformá-los em
escola, pois temos espaços de sobra.
Recursos não são tão difíceis de se conseguir. Será que as
crianças no trânsito conseguem recursos suficientes para se manter?
Quem tem autoridade para agir nesses casos? Há leis que
protegem essas crianças ou punem quem as exploram?
Nesses casos pode um cidadão comum ocupar o lugar das
autoridades? As autoridades não sabem que
isso ocorre? Ou sabem, mas se omitem?
Faltam recursos? Falta vontade? Falta tudo que pode
contribuir na solução, e sobram argumentos para as desculpas?
Dormi muito tarde. Acordei cedo, com o corpo dolorido e
mau humorado. Foi um dia muito doloroso.
Ainda hoje, depois muitos anos, ainda me incomoda
bastante, essas lembranças.
Tomei uma decisão. Quando um politico me abordar, vou
perguntar o que ele já fez ou está fazendo pela escola pública.
Não aceito promessas. No passado, as promessas nos deram crianças
analfabetas, no presente, jovens sem perspectivas, e no futuro, certamente será
um desastre.
Aconteceu num domingo - Ana Catarina S. Maués
Aconteceu num domingo
Ana
Catarina S. Maués
E
tudo começou a ficar muito iluminado, de uma claridade intensa, mais forte que
o dia lá fora. E vultos tomaram conta de todo o lugar, que parecendo anjos,
caminhavam ora por entre o povo reunido, ora subiam e desciam em rasantes por
sobre a cabeça dos que ali estavam. Um espetáculo que deixava a todos em
êxtase. A visão era como se estivessem diante de holograma, pois os seres não
podiam ser tocados, a imagem em terceira dimensão, desfazia-se com a tentativa
de segurá-la.
Tarde
ensolarada. A devota Mara Lúcia, em passos largos, caminhava rumo a capela,
próxima de sua residência, para a oração do terço, mas o salto agulha a
atrasava, pois fazia, vez por outra, ela torcer o pé tornando o percurso mais
longo.
Enfim
chegou, ainda a tempo de fazer, junto com o sacerdote, o sinal da cruz de
início do terço.
A
reza lenta e compassada somada ao calor, faziam-na dar cabeçadas em um cochilo
nada apropriado. Sentia-se estranha, nunca havia feito aquela oração de modo tão
displicente.
Terminado
o terço, hora da santa missa. O padre deu início à celebração e Mara Lúcia
continuava bem zonza. Abria os olhos com dificuldade, mas eles não obedeciam,
tinham vontade própria, eles zombavam de sua intenção. Quando parecia bem
acordada ela entrava em discussão consigo mesmo, mas o que será isso eu dormi
bem à noite, não acordei tão cedo, não estava com sono quando saí de casa muito
pelo contrário estava bem esperta para não chegar atrasada ao terço uma hora
boa para um café será que alguém notou minhas cabeçadas na capela tem bastante
gente caramba que vergonha logo eu conhecida como a mais devota da comunidade.
Ainda em pensamentos, mas percebeu o olhar atento da amiga Carol, deu um
sorrisinho, um aceno e voltou-se para a santa missa, todavia mais um longo cochilo.
—
Vão em paz, e o Senhor vos abençoe.
Mara
Lúcia assustou-se! E com seus botões dizia, meu Deus terminou a missa e se
acompanhei metade dela foi muito, mas agora vem a adoração do Santíssimo, não
posso ficar desse jeito. Levantou-se arrumando a saia, e dirigiu-se ao
sanitário na lateral do prédio.
Lá
chegando jogou água fria no rosto, esfregou bem os olhos, abriu a bolsa
procurando um batom, e retornou certa de que o sono a deixara.
O
Santíssimo já estava exposto. Mara Lúcia ajoelhou-se no banco em frente a
hóstia consagrada e foi nesta hora que ela viu um feixe de luz saindo do
ostensório. A luz crescia e avançava vindo em direção a ela, tomando conta de
todo o salão. Abaixou a cabeça e arrepiada, só lembrava de pedir perdão
pelos seus pecados. Ela não tinha coragem de abrir os olhos e quem sabe ver
Jesus, pensava que se isso acontecesse iria morrer por ver o poder do Cristo.
Passados alguns instantes de um frenético torpor, tomou coragem e nesse momento
pode contemplar a cena mais inusitada de sua vida. Viu a glória de Deus. Eram
homens com asas, vestidos de um branco alvo, como jamais vira, que não andavam,
deslizavam por entre as pessoas, enquanto outros pairavam próximo a cabeça
delas e outros deslocavam-se como que voando, mas sem bater as asas, tudo
ocorrendo dentro de uma aura mais clara que o sol de meio dia, porém sem afetar
a visão. Mara Lúcia podia ver tudo sem sentir seus olhos ofuscados.
A
visão demorou alguns segundos, o suficiente para deixá-la inebriada, sem saber
se foi arrebatada ao céu ou se o céu veio visitar a capela. Olhou em volta e as
pessoas pareciam estar em transe.
A
Adoração ao Santíssimo acabou. Mara Lúcia saiu da capela e não falou com
ninguém sobre a visão. Todos saíram mudos, sem se cumprimentarem como de
costume.
Amanheceu.
O sol chegou pisando forte na grama do jardim. Mara Lúcia acordou trazendo bem
nítida a visão do dia anterior. Somente agora tinha a intenção de tecer algum
comentário com alguém que também esteve lá. Lembrou da amiga Carol, com a qual
trocou aceno e resolveu telefonar.
—
Oi Carol, que bom que atendeu.
— Oi
Mara, comigo tudo bem e com você?
—
Amiga, o que foi aquilo ontem na hora da adoração em? Perguntou Mara Lúcia.
—
Pois é, você passou tão mal. O padre interrompeu a adoração, chamamos o SAMU,
eu fui com você até o hospital de emergência, você estava muito alterada, não
falava coisa com coisa, de início pensei ser uma insolação, pois o calor era
demais, mas os médicos disseram que você teve um AVC. Graças a Deus você reagiu
bem e voltou logo a si.
—
Carol! Do que você está falando?
Perguntou muito assustada Mara Lúcia.
—
Do piripaque que você teve na capela ontem. Você não lembra?
— Cruz credo! Eu não lembro de nada não. Meu
Deus! Eu liguei pra te falar de uma coisa totalmente inusitada, e você me diz
isso!
—
Verdade amiga, foi um corre-corre danado. Você ficou muito doida.
Mara
Lúcia sem entender nada, teve que acreditar na colega e até hoje não sabe
explicar se o que viu foi verdadeiro ou efeito do acidente vascular cerebral
que sofreu.
A IMPORTÂNCIA DE ESCREVER - Henrique Schnaider
A
IMPORTÂNCIA DE ESCREVER
Henrique Schnaider
Não fui um bom aluno nas aulas de Português desde o
curso primário. Tive muitas dificuldades, minhas notas não eram boas.
Assino o Jornal O Estado de São Paulo desde os anos
de 1970. Comecei a melhorar na escrita, quando resolvi enviar minhas opiniões
sobre notícias e textos dos mais variados comentaristas que escreviam para o
Jornal na sessão do Mural dos leitores.
Com o passar do tempo, meus comentários começaram a
ser publicados no dia seguinte e dessa forma de duas a três vezes por semana. Me
senti obrigado, é lógico de uma forma positiva, a melhorar o meu português,
pois me sentia constrangido quando o Editor corrigia algo do meu texto
original.
Então muitas vezes eu verificava que não havia
nenhuma correção, o que me deixava muito satisfeito com a minha evolução. Assim
foi por muitos anos, sendo publicado e conhecido pelo Editor e por outros
assinantes do Jornal que me enviavam e-mails comentando o que eu escrevi.
Dessa forma senti que melhorei muito no Português na
escrita, mas ainda falhando na pontuação. Sempre usei termos difíceis, mas que
são do meu conhecimento. Cheguei a ser convidado para participar de um Fórum na
sede do Jornal.
O palestrante seria o Ministro Gilmar Mendes e não
me senti com vontade de comparecer, devido ao fato de não ter uma opinião muito
favorável a este Ministro.
Até que chegou um dia, durante o Governo de Michel
Temer, escrevi um texto contundente de crítica ao Jornal por se omitir sobre
coisas erradas deste senhor ao qual me refiro como uma raposa felpuda.
Deste dia para frente o Jornal num claro rompimento,
nunca mais publicou nenhum comentário meu.
Foi neste momento que comecei a frequentar o ICAL e
receber as aulas da Professora Ana. A princípio senti muita dificuldade de me
ambientar e escrever os contos. Resisti e me mantive firme e assim estou até
hoje no nosso querido ICAL.
Já escrevi dezenas de histórias. Melhorei mais ainda
meu português e participei de dois livros editados. Conheci a Hirtis Lazarin e
a minha convivência com meus colegas tem sido excelente, fiz muitas amizades as
eu prezo muito.
Estou até hoje no ICAL sempre aprendendo, cada dia
uma coisa nova, e sobre figuras de linguagem. Espero continuar por muitos e
muitos anos convivendo com meus colegas e com a Hirtis e que Deus nos dê saúde
física e mental para continuarmos assistindo as aulas da professora Ana e
aprendendo e mantendo nosso português em dia.
segunda-feira, 7 de março de 2022
UM CANAL DE DESAFIOS - JOGOS - BRINCADEIRAS - E PROPOSTAS PARA ESCRITORES
Que tal ousar e se aventurar em um espaço cheio de propostas de atividades para escritores?
É só clicar e navegar.
Obrigada
quinta-feira, 3 de março de 2022
A PRAÇA - Henrique Schnaider
A
PRAÇA
Henrique Schnaider
Gilberto chegou cedo naquela praça enorme mais
parecendo um parque. A primeira impressão foi de encantamento, tal a beleza do
local cheio de árvores que existiam lá. De todos os tipos, gigantes de copas
muito altas, proporcionando um sombreado aconchegante.
Havia também árvores de outros tipos, como o ipê
amarelo, manacá da serra, Cambuci, Ingá, canelinha. Árvores gigantes como a
copaíba, coqueiros reais, araucárias, figueira brava, o maravilhoso jequitibá
branco.
Gilberto ficou com água na boca quando indo mais
para dentro da enorme praça, deu de cara com pitangueiras, jabuticabeiras, as
goiabeiras que crescem em todos os lugares. Ele percebeu que alguém plantou a
graviola que não é nativa aqui da terra.
Ele continuou andando e encontrou uma enorme
paineira bem no centro da praça. Havia um chafariz ao lado com um enorme jato
d’agua, refrescando o local.
Os bancos estavam tomados com casais de namorados
que pelo encanto do local, trocavam carícias e olhares apaixonados. Gilberto
até suspirou, sentindo falta da sua amada. Finalmente achou um cantinho para se
sentar e poder apreciar mais coisas que a praça oferecia.
Dezenas de passarinhos tomavam conta das árvores
desde o os sabiás laranjeiras com o seu canto triste e bonito envolvendo o
local. Os bem-te-vis chamando a todos com seu piado bem-te-viiii. Gilberto se
encantou quando chegaram nas árvores um bando de maritacas e perequitinhos tuim
causando um barulho enorme com seus cri cri cri.
Gilberto ficou com água na boca quando ali perto as
pipocas pulavam sem parar no carrinho do pipoqueiro, espalhando no ar seu
cheiro característico que a todos atraí. Ele adorava pipoca doce enchendo o
carrinho com sua cor vermelha de sabor delicioso.
A praça estava lotada de pessoas desde as mais
simples até algumas vestidas com roupas elegantes, alegres parecendo estar
felizes apenas por estarem ali. Todas passeando vagarosamente saboreando os
aromas e perfumes espalhados pelo ar.
Crianças brincavam no parquinho correndo para poder usar
todos os brinquedos ao mesmo tempo. Os pais fiscalizavam para que as coisas
corressem na mais completa paz e a algazarra não virasse bagunça.
Para colaborar com este paraíso na terra, o dia
estava lindo, nenhuma nuvem no mata-borrão do céu. Uma brisa corria pelos
canteiros aliviando as pessoas e deixando a temperatura agradável.
Gilberto percebeu que, como não podia deixar de ser,
lá estava o vendedor de cachorro-quente com filas de pessoas para comprar e
saborear um dos sanduíches mais populares do país. Logo ao lado a barraca do
pastel lotada de gente, cada um escolhendo o pastel do seu gosto, palmito,
carne, calabresa etc.
Gilberto resolveu andar mais um pouco e viu um outro
lado da praça, muitas pessoas adestrando e ensinando seus cães a conviverem com
os outros amigos caninos, dentro de um canil que havia no local. O au au da
cachorrada era ensurdecedor.
A mistura de ruídos das crianças, passarinhos e dos
cachorros deixava a praça cheia de vida. As cores das flores, das roupas
coloridas das pessoas e dos passarinhos, coloriam a praça com muito
encantamento.
Gilberto viu que havia lâmpadas coloridas na praça
toda, que permitiam passeios noturnos. Ele parou para sentir os perfumes que
vinham de todos os lados e os sabores de todas comidas do local se misturavam e
competiam entre si.
A tarde caia e dava a praça um ar ainda mais bonito
recebendo os últimos raios do sol.
Gilberto resolveu ir embora, mas com a certeza que
voltaria naquela praça muitas outras vezes.
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