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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Som do Vazio - Hirtis Lazarin

 




O Som do Vazio

Hirtis Lazarin

 

“Quando o sino da igreja bateu, como bate às 18 horas, todos os dias, desde que nasci, notei que a sonoridade estava mais frágil…”



  • “O bronze da igrejinha derramava sobre a vila a mesma nota, exausta de tanto repetir-se.”

As badaladas do sino da igrejinha de Santo Antônio, sempre metódicas e idênticas, expandiam-se pelas ruas, pela praça e entravam em todas as casas. Hoje, porém, ouvi um chiado metálico ao final, como se algo estivesse raspando no bronze. Ou pior, como se o sino estivesse tentando pronunciar uma sílaba. Estariam as badaladas exaustas de tanto se repetir?

Desci os degraus da varanda — eram muitos — e não esperei o jantar, como eu fazia há dezoito anos. Caminhei em direção à torre, sentindo que aquele som não era um chamado para a oração. Seria um pedido de socorro? 

Caminhei até a praça e sentei-me  num  banco de madeira descascada, exatamente de frente pra torre de pedra. Olhei primeiro para o alto e o sino estava lá, tranquilo; depois olhei pra  todos os lados e era um vazio de gente. Apenas um pequeno pardal ciscava a grama a poucos passos de mim, alheio ao peso do que eu acabara de sentir.

Olhei pras minhas mãos vazias e depois para o pássaro. Ele buscava o sustento na terra seca — há meses não chovia — indiferente a mim e à engrenagem que havia acabado de desafinar. Invejei sua inocência. Pra ele, o som do sino era apenas um ruído de fundo, tal qual um vento leve que passa imperceptível e só balança a ponta das folhas.

Aquele semitom abaixo do tom me  atingiu como um diagnóstico: senti um nó no estômago. Ninguém estranhou  nem apareceu nas janelas; e o cheiro do café forte continuou, indiferente, subindo das cozinhas. Mas, para mim, aquele som desafinado era o sinal de que a fachada de perfeição da nossa vila havia rachado. O sino sabia de algo que eu ainda não tinha coragem de admitir. 

Durante toda a minha vida, eu fui como aquele bronze: um objeto para cumprir uma função, apática ao tempo que passava. O sino batia porque era  sino; eu acordava, trabalhava e voltava pra casa porque era o que se esperava de mim. Mas hoje, ao ouvir aquela nota imperfeita, percebi que a minha própria ressonância também havia mudado. Eu não era mais o eco limpo das expectativas dos meus pais. Havia um desgaste, uma rachadura interna que eu vinha ignorando, mas que o sino acabara de denunciar para quem quisesse ouvir. Aquele som não era apenas um erro na torre; era o aviso de que a minha armadura de rotina tinha finalmente trincado.

Levantei-me do banco, deixando o passarinho pra trás, e caminhei até o portal de carvalho desbotado. A madeira estava fria sob meus dedos, uma frieza que contrastava com o mormaço da tarde. Ao empurrar a porta, o rangido das dobradiças ecoou pelo vão da nave vazia, soando como um protesto.

Lá dentro, o cheiro de parafina escorrida nas velas apagadas e do incenso antigo parecia parado no tempo, exatamente como a minha vida. Enquanto eu avançava pelo corredor central, meus olhos não buscavam o altar principal, nem as imagens familiares, nem a capelinha do meu santo preferido. Eles se voltaram para a corda que ainda balançava levemente no fundo da torre, como se a mão que a soltou tivesse acabado de desaparecer na sombra.

Meus passos ecoavam no mármore frio e cada batida do meu sapato soava como um julgamento naquele silêncio absoluto. Aproximei-me do canto escuro onde a corda do sino pendia do teto, ainda oscilando num balanço preguiçoso. Foi quando meus olhos captaram um brilho opaco no chão de pedra. Inclinei-me e  uma pena negra, longa e perfeitamente preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela não parecia ter caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com um reflexo furta-cor que lembrava óleo sobre a água.  Lembrei-me, então, da minha nona Josefina que acendia uma lamparina — ela  misturava água com óleo — pra iluminar o nicho de Nossa Senhora de Fátima. 

Ao tocá-la, senti um calafrio que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena seria o “defeito” no som do sino? Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas encontrando um objeto, mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida inteira fingindo que não existia.

Guardei-a no bolso e, automaticamente, meus olhos se voltaram pra abertura estreita na base da torre, onde a escada em caracol se perdia na escuridão. Eu pressentia que, se subisse aquele primeiro degrau, a rotina dos meus últimos  dezoito anos morreria ali, no mesmo chão da nave.

Aceitei o desafio.

Coloquei a mão na parede fria e áspera. A escada era tão apertada que o ar parecia mais denso a cada volta. O som dos meus passos não era mais o eco limpo da igreja; agora era um baque abafado, sufocado pelo espaço exíguo. Enquanto eu subia, o cheiro de incenso era substituído pelo odor de metal frio e algo mais… um cheiro de céu antes da tempestade.

Olhei no relógio e já havia passado das vinte horas; a luz da pracinha lá fora diminuía a cada curva da espiral e eu sentia, que a vibração do sino nos meus dentes ficava mais forte. Eu não estava apenas subindo uma torre; eu estava escalando o meu próprio medo pra ver o que, afinal, tinha a audácia de desafinar o meu mundo.

Cheguei  ao topo da torre, mas o que encontrei ali foi um vazio impossível. Não havia mãos, não havia cordas sendo puxadas, não havia nada. Apenas o grande sino oscilando num ritmo imaginário, como se o próprio ar estivesse empurrando o metal.

Aproximei-me do sino. Deduzi que o som diferente que ouvi lá embaixo era o sino tentando se libertar de sua função de marcar as “seis horas da tarde”.  Ele não queria mais avisar o tempo da cidade. Peguei a pena negra do meu bolso, apertei-a e senti o seu calor pulsar contra a palma da minha mão. Olhei à minha volta.  Eu estava ali sozinho, mas nunca me senti tão observado.

Uma janela estreita e sem vidro estava aberta. Por ela entrava um vento frio e cortante, um sopro de inverno em contraste com o verão que existia lá embaixo. Debrucei sobre o parapeito de pedra e  a cidade que eu conhecia parecia uma maquete esquecida, pequena demais comparada ao  tamanho do que eu sentia agora. O sino continuava seu balanço fantasmagórico às minhas costas, mas o ruído não me incomodava mais. Apertei a pena negra e senti seu calor pulsar contra a palma da minha mão. Procurei… Procurei… lá embaixo e  não  enxerguei o pardalzinho.

O silêncio da praça vazia e o vazio impossível desta torre, com certeza, ofereciam-me um presente: a possibilidade de enfrentar desafios. Minha vida, antiga e previsível como “as badaladas das seis da tarde”, estava ficando por  ali.   Respirei fundo e, pela primeira vez, não esperei pelo próximo badalo. Eu não precisava mais que o ferro me dissesse quem eu era. Eu era o vento, a pena e o caminho que se abria além daqueles muros de pedra. O sino podia tocar do jeito que ele quisesse e eu, finalmente, descobri que  poderia  ouvir o meu próprio som.

Por dezoito anos, eu fui o eco do que não queria ser. Eu não serei mais o operário do tempo, o escravo das seis da tarde. Sei que a mudança  será lenta e barulhenta, mas terei todo o tempo do mundo. A vida diferente que me espera não terá horários, nem badaladas; ela terá o som dos passos que escolhem o próprio rumo.

Guardei a pena, dei as costas ao sino e desci os degraus, sabendo que, lá embaixo, a praça continuava vazia, mas eu estaria, pela primeira vez, plenamente ocupado comigo mesmo.

Procurei o pardalzinho por todos os lados… Ele não estava mais ali e senti a sua falta.


Inclinei-me e, entre as sombras, vi o que o sino tentara me dizer: uma pena negra, longa e perfeitamente preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela não parecia ter caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com um reflexo furta-cor que lembrava óleo sobre a água.

Ao tocá-la, senti um calafrio que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena era o 'defeito' no som do sino. Ela era o intruso. Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas encontrando um objeto, mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida inteira fingindo que não existia.”

Dicas para a “Previsão” (Antecipação):

Para o seu narrador se antecipar ao que vai acontecer, você pode utilizar os sentidos dele:

  • O Tato: Quando ele toca a pena, ele sente um calor ou uma vibração? Isso indicaria que o mistério é “vivo”.
  • O Olhar: Ele olha para cima, para o buraco por onde a corda sobe para a torre, e percebe que o silêncio lá em cima é “diferente”?
  • A Intuição: Ele sente que, se sair da igreja agora, sua vida nunca mais voltará ao som “normal” de antes.

Como você quer que ele reaja? Ele guarda a pena no bolso e foge, ou ele decide subir a escada em caracol para ver de onde aquela pena caiu?

 

A TEMPESTADE - Adelaide Dittmers

 



 

 

A TEMPESTADE 

Adelaide Dittmers

 

Ondas imensas se jogavam nos rochedos da costa.  A tempestade desabou, empurrada por fortes ventos. O pequeno e indefeso barco de pescadores tentava se equilibrar no sobe-desce das vagas violentas. Os homens agarraram-se a um mastro. Os rostos contraídos espelharam o pavor de serem engolidos pelas águas revoltosas da tormenta. Um deles levantou o olhar para o céu escuro e uma prece  trêmula de medo foi sendo levada pelos ventos suaves da fé.

Um raio riscou o firmamento com seu poder devastador. Os pobres pescadores estremeceram.  A voz poderosa do trovão soou ameaçadora. Os homens se entreolharam. O que seria de suas famílias? Será que seriam engolidos pela fúria das águas? Ajoelharam-se abraçados ao mastro para não serem jogados à escuridão daquele mar embravecido.

Quando estavam se conformando de que a trajetória pela vida estava terminando. Os ventos foram calando e o mar foi se aquietando devagar. Os valentes pescadores soltaram o mastro e abraçaram-se. Mais uma vez conseguiram vencer e sobreviver à fúria desse grande gigante da natureza.

O azul do céu foi suavemente vencendo a escuridão. As nuvens foram se afastando e um sol tímido iluminou as águas cansadas de lutar contra a força da tormenta.

O frágil barco começou a se movimentar com muito cuidado para não bater em alguma rocha submersa.

Vencera novamente o gigante, que agora se abrandava para percorrer seu eterno caminho pelos quatro cantos do mundo.



Saudade - Pedro Henrique

 


Saudade

Pedro Henrique

 

A pena encontra a superfície frágil da água, que não demora muito para denotar o quão singelo foi aquele toque: projeta seus arcos por uma ínfima extensão e se finda. 

Miguel admira aquele fenômeno, depois corre. Seu irmão o segue e ambos despontam no gramado macio do sítio, felizes por tudo ainda ter a magia da ingenuidade. 

 Assim que chegam à cozinha, vão eufóricos e com a boca salivando em direção ao fogão. 

Dona Rita precisa bradar da sala de estar: “Meninos, vão lavar as mãos.” 

E lá vão resmungando. 

A matriarca toma para si todo o sofá, de modo que os filhos precisam sentar-se no chão para desfrutarem do almoço. 

Não demora muito para Sebastião, o pai, também se juntar a eles. 

Miguel, enquanto come, olha para a família e, por um instante, agradece a Deus por vir ao mundo. 

Os dias no sítio são de labor. Há tanto a ser feito: começa colocando as galinhas para fora do galinheiro e deixando-as bicando a primeira coisa verde que encontram no caminho; depois vai à limpeza dos currais e chiqueiros e as irmãs do garoto se atêm à faxina da casa e à feitura, junto à mãe, da comida. 

Não há nada de novo por aqui. É uma família comum. Com suas dores e delícias. 

E, para Miguel, é uma delícia ser abraçado pelas águas do lago depois do almoço. Ficar lá, inerte na água, deixando-a invadir seus pensamentos. Quem sabe elas não levam embora aqueles que reivindicam mais ambição na vida. 

O garoto quer mais. Mais de si, mais do mundo. Quer fazer dessa terra uma verdadeira mina de dinheiro, porém…

Seus pais não são ricos. Às vezes, quando olha para o céu e vê um ponto ínfimo chamado avião, pensa que seria legal estar lá e saber como é vislumbrar a vida do alto, do topo.  

Todavia, quer fazer isso aqui do rio, aqui de sua casa. Não pensa em deixar toda essa belezura para ir atrás de suas metas, porém tem ciência de que terá de ir. Terá de dizer o tão temido “tchau”. 

E como conseguiria? Como galgar os lugares de prestígio? Soube que seria por meio dos estudos. 

Certa feita, na escola do vilarejo, uma professora de português disse aos alunos que, em algum momento, se eles desejassem mudar sua história ou a de sua família, eles teriam de olhar para os livros e encontrar ali suas cartas de alforria, a chave de suas liberdades, o feitiço de realização do impossível. 

Os alunos ficaram perplexos, abismados com aquela afirmação. Miguel, desde que ouvira essas palavras, nunca permitira obliterá-las de sua memória, pois sabia que aquilo era uma das poucas verdades que lhe contaram. 

Contudo, ou melhor: como tudo, não foi fácil. Demorou um pouco, pouco não, anos.

Quando completou 19 anos, o rapaz foi cursar engenharia na Federal do Rio de Janeiro. 

Dona Rita quase teve um derrame. Não queria deixar o passarinho ir embora do ninho, entretanto também sabia que essa era a única opção do filho conseguir algo melhor para ele, para eles. 

Portanto, aquele garoto que vivia pendurado nas árvores, que corria atrás dos porcos e galinhas, agora tinha de doar-se por inteiro aos cálculos que lhe exigiam muito foco. 

A vida começou a ser escrita por suas próprias mãos. Não havia mais o colo de Rita, a orientação de Sebastião, muito menos as belezas do antigo sítio que, em tão pouco tempo, ficou distante desse novo mundo que começava a ser forjado.

Havia somente o si próprio agora, e é exatamente ele quem Miguel precisa evocar para não chegar atrasado à aula. 

Quando ele ouve o sino tocar pela segunda vez, deixa escapar entre os lábios um palavrão na tentativa de dissolver todo o estresse que corre faminto por suas veias. 

No entanto, antes de adentrar à sala, ele sente uma força maior o chamar; sendo assim, olha para a janela, vê uma galinha correndo e estudantes atrás dela. É ininteligível para ele o porquê de toda aquela balbúrdia para pegar uma galinha; teria feito isso de letra. 

Então, abruptamente, a pena encosta na superfície frágil da água e projeta uma reverberação. 

No mesmo instante, a vida sussurra uma palavra ao ouvido de Miguel que submete seus olhos ao marejo.

 

 


quarta-feira, 25 de março de 2026

ANITA MAIS FAMOSA COZINHEIRA DO PAÍS - Henrique Schnaider

 


ANITA MAIS FAMOSA COZINHEIRA DO PAÍS

Henrique Schnaider


Anita era uma cozinheira respeitada pelo sucesso dos seus preparos. Essa virtude vinha de mãe para filha, mas antes de chegar a este ponto de ser uma cozinheira renomada, ela passou por situações de fragilidades.

Aos cinco anos, perdeu o pai e os avós paternos num acidente de automóvel, quando estavam no trajeto para o sítio dos avós.

A estrada sinuosa banhada pelo sol morno da serra, era toda rodeada por árvores frondosas que jogavam os feixes de sombra aqui e ali tornando a viagem mais agradável. A menina no banco traseiro, deslumbrada, apreciava o movimento das sombras que se deslocavam conforme o automóvel se movia.

Eis que, de repente, um Scania carregado se desgovernou na pista contrária, tombou, e veio arrastando a carroceria no asfalto até colidir de modo brutal com o automóvel da família.

Os avós e o pai morreram na hora.  Anita, muito ferida, foi socorrida e levada para o hospital da cidade de Analândia.  A pobre menina necessitou de várias intervenções e um severo tratamento hospitalar. Felizmente, ela se recuperou. Vera, sua mãe, mesmo em estado de choque pela perda do esposo e sogros, manteve-se ao lado da filha dia e noite.

  

Quando recebeu alta, continuou a recuperação em casa.

Nesse período, Vera cozinhava para sua pequena Anita, todos os quitutes e pratos que agradavam a menina.

Anita sempre acompanhou as receitas, experimentou os temperos, saboreou os pratos. Mesmo quando a filha já estava totalmente recuperada, e a vida normalizada, as duas se reuniam na cozinha enquanto Vera cozinhava.

E assim foi por muitos anos, mãe e filha unidas neste amor materno envolvidas pela culinária afetiva.  

Tanto Anita se interessou pela Gastronomia que ao atingir os dezoito anos, entrou para o curso do mundo da culinária.

Formou-se com o mérito de primeira aluna recebendo muitas homenagens. Anita foi se aprimorar na França, com as economias que conseguiu juntar. O curso de Pós-Graduação não foi fácil, a jovem não dominada o idioma, mas dominava a gastronomia, e isso fez com que ela se projetasse na cozinha francesa. E foi lá que ela se tornou uma renomada Chef.  

 Depois de sua volta da França continuou fazendo experiências culinárias, agora na cozinha de sua casa, e com o tempo investiu no seu próprio restaurante.

Chegou a lançar novos pratos para diversificar o menu,e isso atraía muitos clientes. Já famoso, o restaurante vivia sempre lotado de pessoas convocadas pelo boca-a-boca.  

A vida só prosperava. E, Anita acabou se casando com um dos maiores culinaristas franceses.

 

Quando estava em casa cozinhando com especiarias que se tornariam famosas, Anita gostava do silêncio, de sentir os ruídos do cozimento, o chiado das panelas, e o cheiro quente que a envolvia. Preferia ficar sozinha, não queria ninguém por perto, nem mesmo o amado marido.

No fim das contas, a fama da Anita só cresceu e agora a fila de espera para uma reserva era de quase um mês.

Anita tornou-se a mais famosa Chef do Brasil, requisitada para eventos mais concorridos de grande repercussão.

Poxa, me deu vontade de conhecer as guloseimas da Anita.

 

Medo de quê? - Elidamares Bianchi Rosa

 

 



Medo de quê?

Elidamares Bianchi Rosa

 

Felipe era um garoto destemido, adorava ler histórias de mistério e desvendar charadas. Gostava de conhecer lugares e coisas novas. Sempre com a curiosidade aguçada, perguntava muito e investigava tudo. Dizia sempre que queria ser detetive ou policial investigador.

Certa vez, pelo seu aniversário, os pais resolveram alugar uma casa num sítio, onde passariam o fim de semana com a família e amigos.

Logo que chegaram, no entardecer da sexta-feira, Felipe correu a levar a mochila para o quarto em que dormiria com seus primos. Saíram  no mesmo instante para conhecer o mato ao redor. Tudo era novidade: o latido dos cães, os cantos dos pássaros, os sons, o silêncio, as cores do anoitecer. Tudo lindo e misterioso, mas ele ainda não sabia que o mistério maior iria acontecer no seu quarto.

Depois dos lanches e das conversas da noite, todos se prepararam para o merecido descanso. Luzes apagadas, a casa mergulhou no silêncio da noite no campo.

O quarto dos meninos tinha duas beliches e Felipe logo escolheu dormir no alto. Os gêmeos ficaram com a outra beliche. Empolgado, Felipe não conseguiu dormir logo e, acordado, começou a ouvir o ressonar dos primos que já tinham adormecido… De olhos abertos, olhava para a escuridão.

De repente,  uma luz brilhante aparece pertinho da sua cama. O  seu coração disparou. O que seria aquilo? Há pouco tempo, havia lido sobre fogo-fátuo. Seria ali um local de decomposição de ossos? Esfregou os olhos, fechou e abriu novamente, a luz havia desaparecido. Virou para o lado para dormir e avistou a luz em outro lugar. Ficou olhando fixamente, a luz sumiu, para em seguida surgir perto da janela. Assim foi se sucedendo. Cada instante a luz estava em um lugar e agora eram mais de uma, que agiam como pisca-pisca.

O garoto estava confuso, não sentia medo, mas  se  perguntava: por que não trouxera a sua lanterna, para desvendar o mistério? Não queria acordar  os primos, nem chamar os pais, afinal já estava  completando doze anos, precisava ser corajoso e profissional. E assim ficou: ora fechava os olhos, ora abria, ora cobria a cabeça com o lençol, ora descobria e procurava a luz, que se alternava no brilho e nos lugares, até que o sono o venceu.

Na manhã seguinte, começou a investigar no quarto o que poderia ser o mistério da noite. A mãe curiosa perguntou o que ele estava procurando e riu ao saber. Ajudou-o a procurar e, em um canto do quarto, acharam um vaga-lume   caído, os outros deviam ter conseguido sair. O mistério  estava desvendado e vieram boas risadas.

Felipe, enfim, juntou aos seus conhecimentos de investigador uma nova luz. 

 

O JOVEM ALTAIR - HENRIQUE SCHNAIDER

 



O JOVEM ALTAIR

HENRIQUE SCHNAIDER

 

O jovem Altair sempre foi diferente dos seus colegas, geralmente não brincava aquelas brincadeiras infantis que toda criança adora, seus interesses eram outros, era tremendamente curioso e ia atrás de coisas diferentes e misteriosas.

Ao que tudo indica, puxou a personalidade de seu pai, que também era dado a investigações de mistério. Tal pai, tal filho, o fruto nunca cai longe do pé.

O quarto de Altair era cheio de coisas que impressionavam: bonecos com aparência um tanto estranha e, na verdade, só o menino entendia o significado daqueles bonecos um tanto quanto sombrios e assustadores. Havia também certos bichos que Altair caçava e mumificava. Os bichinhos pareciam ter vida.

A mãe dele reclamava muito da bagunça que sempre estava naquele quarto. Mal podia ela entrar naquele circo de horrores, e às vezes ralhava com ele para ver se as coisas melhoravam, mas em vão, não conseguia sucesso na tentativa de mudar as coisas no quarto do filho.

Todo santo e sagrado dia, lá ia Altair fazer uma caça às bruxas com a finalidade de levar algo novo para seu circo de horrores.

Determinado dia, sedento de novidades, entrou mata adentro que existia ao lado de sua casa. A mata era bem cerrada, mas o menino era corajoso e ia em frente com o coração batendo aos pulos, não por medo, mas sim na emoção do que iria achar para seu zoológico uma ou duas ou mais coisas interessantes para pegar e levar.

Em determinado ponto da procura, Altair, para estático praticamente emocionado, havia avistado um bicho, completamente diferente dos tantos que já pegara. Tinha um corpo estranho, um olho só, tinha o tamanho de um coelho pequeno, andava só com três patinhas e era muito peludo. A sua aparência assustava um pouco, mas o menino não desistiu e, com um puçá, pegou o bicho que não se debateu muito.

Altair se deu por satisfeito com seu achado e resolveu voltar para casa, já que, com sua descoberta, ficou satisfeito por esse dia.

Voltou para casa e, como todo menino sapeca, tentou esconder da mãe o que estava trazendo. Arrumou uma gaiolinha e colocou o bicho dentro, que estava imóvel, parecendo sem vida. Altair ficou ali a observar a criatura por muito tempo.

Depois saiu para a cozinha da casa atraído pelo aroma muito gostoso da comida que sua mãe estava fazendo. Ele adorava tudo o que a mãe fazia, já que ela era excelente cozinheira de doces e salgados.

Almoçou e, no final, “lambeu os beiços” e saiu para o quintal da casa de seus pais, que era muito grande, cheio de árvores com frutas e lindas flores. Assim o dia passou para Altair, alegre e satisfeito.

A noite se recolheu cedo para o seu quarto, para observar os seres estranhos que lá existiam. E mais curioso ainda com a novidade que era o bichinho que pegou naquele dia, quando de repente parou estático e se arrepiou todo, pois a gaiolinha estava com a porta aberta e o bicho saiu e o menino ficou todo arrepiado. O que aconteceu?  Onde ele está? Começou a procurar, amedrontado, tentando achar o danadinho do bichinho.

Com o corpo trêmulo, começou a procurar onde estava o fujão. De repente, sai debaixo da cama o procurado. Todo se balançando, inclusive o pequeno rabinho, chegou próximo de Altair, lambendo suas pernas num gesto de carinho.

Altair se emocionou com a atitude do animalzinho, que o pegou no colo e o acarinhou, logo lhe deu o nome de Peludo. Essa amizade cresceu e onde Altair estava, lá estava o Peludo ao dele pedindo colo. Os pais, a princípio, ficaram incomodados com aquela situação, mas com o tempo aceitaram e até passaram a gostar do Peludo, que se tornou um membro da família.

E assim viveram felizes por muito tempo Altair, Peludo e seus pais.

quarta-feira, 18 de março de 2026

O garoto que enxergava pelas frestas - Hirtis Lazarin




O Garoto que Enxergava pelas Frestas

Hirtis Lazarin


Alguns garotos brincam no quintal. Outros encontram pistas em lugares onde ninguém pensaria em procurar. Ele era assim — sempre atento, sempre curioso. E foi por isso que percebeu algo estranho antes de todo mundo. O grupo de viagem da escola estava eufórico: era a primeira vez que viajavam pro exterior. Enquanto alguns garotos tentavam captar sinal pra postar uma story, ou trocavam  fotos e mensagens pelo WhatsApp,  Pedro não participava. Tinha o celular guardado na mochila e observava o comportamento irritadiço, agastado do motorista do transfer que os levava do aeroporto ao hotel em Roma.... Havia algo estranho ali.

A primeira coisa estranha que Pedro notou foi o bloqueio de saída: o motorista acionou a trava de segurança infantil nas portas traseiras, assim que todos entram, algo incomum para um transfer de adolescentes.

Sentado logo atrás do banco do motorista, Pedro não se descuida e mantém os olhos fixos na sua nuca. O homem está inquieto, incomodado e não para de se ajeitar no banco.  As mãos grandes e apertadas no volante de couro revelam nós em seus dedos compridos e grossos. É um homem forte.

Ele finge ignorar as piadas e a barulheira dos garotos, mas  Pedro percebe que ele presta atenção em tudo. Constantemente ajusta o retrovisor.

O volume do rádio estava zerado, mas o menino podia ver a luz do visor oscilando, conforme alguém falava do outro lado. Ele não respondia, mas assentia com a cabeça como se estivesse recebendo ordens que os garotos não deviam ouvir.

Apesar do trânsito fluir normalmente, ele sai da via principal e entra em ruelas estreitas e desertas com os olhos cravados no retrovisor pra ver se algum carro os seguia.  Quando questionado, mal humorado, responde em italiano. 

Mas o sangue de Pedro gelou quando a tela do celular dele, jogado no console central, brilhou. Pedro se levantou, deu dois passos à frente como se estivesse se espreguiçando e esticou o pescoço como um avestruz em alerta. Conseguiu ver na tela a foto do colégio onde eles estudam e uma única palavra: “Presi”.

Nesse momento, uma criança surge do nada e atravessa a rua bem na frente do ônibus. O motorista pisa no freio com tudo e os pneus cantam no asfalto. Lá dentro, o impacto foi imediato: a molecada é  arremessada pra frente num bolo só; celulares e mochilas voam. A  meninada abriu um berreiro  comprido. Imagina o choque de quem pensa que a vida acabaria aí.  Mas, como eram adolescentes, o susto durou menos que a freada e logo veio o primeiro grito: “Ei motorista, quer matar a gente”? O gelo foi quebrado e o ônibus explodiu em gargalhadas, zoação e gente se empurrando de volta aos bancos como se nada tivesse acontecido.

Algo chama a atenção do garoto: na confusão, o paletó  do motorista se movimenta e Pedro vê o brilho metálico de uma arma presa firmemente entre o cinto e o cós da sua  calça.

E cada vez que o motorista fazia uma curva mais brusca ou se inclinava para conferir o retrovisor, o paletó se abria  e mostrava o cabo da arma. O motorista, desconfortável, ajusta o objeto o tempo todo como se estivesse pronto para sacá-lo a qualquer segundo, algo totalmente incompatível com um simples guia de excursão escolar.

Reinava dentro do ônibus um contraste brutal: de um lado, seus amigos dividiam pacotes  de biscoito, trocavam fones de ouvido, batucavam no banco de trás acompanhando uma música que tocava em algum celular;  do outro lado, o perigo da morte escondida  no avesso do paletó do motorista. 

Pedro não disse uma única palavra, engoliu em seco, sentindo o gosto metálico do medo na boca; encolheu-se no banco com a mochila agarrada ao peito como um escudo improvisado.  Tenta desviar o olhar para não ser descoberto, mas seus olhos voltam magneticamente para aquele volume rígido sob o avesso do paletó; a percepção de que todos ali estão em perigo iminente cria um nó insuportável na sua garganta, uma náusea súbita o domina, misturando o cheiro de diesel do ônibus com o  terror paralisante de estar preso em uma armadilha em movimento.

— “O motorista do ônibus está armado. Socorro!” — Torcia para que o sinal de internet fosse mais rápido que qualquer movimento estranho. Com as mãos tremendo por baixo da mochila, ele desbloqueia o celular. Digita rápido, quase sem olhar pra tela, a mensagem enviada ao grupo de monitores da escola que os aguardava no hotel. 

Enquanto os adolescentes, apinhados às janelas do lado direito do ônibus, apontam para o Coliseu, a mensagem de Pedro disparou um alerta imediato no grupo de monitores. Em contato direto com a Polizia di Stato, orientaram Pedro: 'Fique calmo. Não olhe para ele. Falta pouco”.

Quando o ônibus finalmente manobrou na frente do hotel, a cena parecia saída de um filme. Antes mesmo que o motorista percebesse o que estava acontecendo, três viaturas discretas cercaram o coletivo. Policiais à paisana, que já aguardavam na calçada fingindo ser turistas, entraram com armas em punho e cercaram a cabine com uma precisão cirúrgica. — “Mani in alto”! — a ordem era firme. O motorista foi imobilizado e algemado, com cara de quem não sabia o que estava acontecendo.

O pânico foi geral. Os estudantes que, segundos antes, estavam brincando, mergulharam entre os bancos. O som da batucada deu lugar a um silêncio aterrorizante. Ninguém entendia por que a polícia italiana fazia  ali. O ônibus virou uma bolha de tensão e de rostos emoldurados com pontos de interrogação.

Mas  o clima mudou instantaneamente, assim que um dos monitores subiu no veículo e explicou, ainda ofegante: — 'Gente, está tudo bem... O Pedro viu que o motorista estava armado e avisou a gente pelo WhatsApp. 

O medo evaporou como se nunca tivesse existido — 'NÃO ACREDITO! O CARA TAVA ARMADO?!' — gritou um, já com o celular na mão gravando a cena. — 'PEDRO, TU É UM MITO!' — berrou outro, puxando uma salva de palmas.

Todos vibravam com a prisão como se estivessem participando de um filme de ação; o que até então era um trauma em potencial virou o evento épico da viagem.  Entre gritos de comemoração e assobios, desceram do ônibus, não como vítimas, mas como protagonistas de uma história que renderia meses de postagens.


A  adrenalina  estava no teto. O medo tinha virado euforia pura. —  “Mano, olha o tamanho dessa metralhadora! Deixa eu tirar uma foto aqui!”! — gritou um dos meninos, já esticando o braço com o celular em modo selfie na direção de um dos agentes da Polizia di Stato. Mas a recepção não foi a que eles esperavam. Os policiais italianos, com seus uniformes impecáveis e rostos de pedra, nem piscaram. Um deles apenas levantou a palma da mão, um gesto seco e autoritário que paralisou o grupo na hora.

—”'No foto” — ordenou o agente, com uma voz grossa que não aceitava réplica.

A molecada que já imaginava o post perfeito com a legenda “Sobrevivi a um motorista armado em Roma”, deu um passo atrás, sem jeito. Os policiais, imperturbáveis, mantinham o perímetro isolado, ignorando sorrisos e câmeras. Para eles era uma operação de risco; para os meninos, um conteúdo de redes sociais que acabava de ser censurado pela autoridade européia.

— “Nossa, os caras são brutos mesmo…” — sussurrou Lucas, guardando o celular no bolso com um sorriso amarelo.

Enquanto o motorista era jogado no banco de trás da viatura e as sirenes voltavam a ecoar pelas ruas de paralelepípedos, os estudantes finalmente seguiram para o hotel.

O herói era o Pedro, as fotos com a polícia não rolaram, mas a história que eles teriam pra contar no jantar  —- e pelo resto da vida — já estava garantida..

 


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...