Saudade
Pedro Henrique
A pena encontra a superfície
frágil da água, que não demora muito para denotar o quão singelo foi aquele
toque: projeta seus arcos por uma ínfima extensão e se finda.
Miguel admira aquele fenômeno,
depois corre. Seu irmão o segue e ambos despontam no gramado macio do sítio,
felizes por tudo ainda ter a magia da ingenuidade.
Assim que chegam à
cozinha, vão eufóricos e com a boca salivando em direção ao fogão.
Dona Rita precisa bradar da
sala de estar: “Meninos, vão lavar as mãos.”
E lá vão resmungando.
A matriarca toma para si
todo o sofá, de modo que os filhos precisam sentar-se no chão para desfrutarem
do almoço.
Não demora muito para
Sebastião, o pai, também se juntar a eles.
Miguel, enquanto come, olha
para a família e, por um instante, agradece a Deus por vir ao mundo.
Os dias no sítio são de
labor. Há tanto a ser feito: começa colocando as galinhas para fora do
galinheiro e deixando-as bicando a primeira coisa verde que encontram no
caminho; depois vai à limpeza dos currais e chiqueiros e as irmãs do garoto se
atêm à faxina da casa e à feitura, junto à mãe, da comida.
Não há nada de novo por
aqui. É uma família comum. Com suas dores e delícias.
E, para Miguel, é uma
delícia ser abraçado pelas águas do lago depois do almoço. Ficar lá, inerte na
água, deixando-a invadir seus pensamentos. Quem sabe elas não levam embora
aqueles que reivindicam mais ambição na vida.
O garoto quer mais. Mais de
si, mais do mundo. Quer fazer dessa terra uma verdadeira mina de dinheiro,
porém…
Seus pais não são ricos. Às
vezes, quando olha para o céu e vê um ponto ínfimo chamado avião, pensa que
seria legal estar lá e saber como é vislumbrar a vida do alto, do
topo.
Todavia, quer fazer isso
aqui do rio, aqui de sua casa. Não pensa em deixar toda essa belezura para ir
atrás de suas metas, porém tem ciência de que terá de ir. Terá de dizer o tão
temido “tchau”.
E como conseguiria? Como
galgar os lugares de prestígio? Soube que seria por meio dos estudos.
Certa feita, na escola do
vilarejo, uma professora de português disse aos alunos que, em algum momento,
se eles desejassem mudar sua história ou a de sua família, eles teriam de olhar
para os livros e encontrar ali suas cartas de alforria, a chave de suas
liberdades, o feitiço de realização do impossível.
Os alunos ficaram perplexos,
abismados com aquela afirmação. Miguel, desde que ouvira essas palavras, nunca
permitira obliterá-las de sua memória, pois sabia que aquilo era uma das poucas
verdades que lhe contaram.
Contudo, ou melhor: como
tudo, não foi fácil. Demorou um pouco, pouco não, anos.
Quando completou 19 anos, o
rapaz foi cursar engenharia na Federal do Rio de Janeiro.
Dona Rita quase teve um
derrame. Não queria deixar o passarinho ir embora do ninho, entretanto também
sabia que essa era a única opção do filho conseguir algo melhor para ele, para
eles.
Portanto, aquele garoto que
vivia pendurado nas árvores, que corria atrás dos porcos e galinhas, agora
tinha de doar-se por inteiro aos cálculos que lhe exigiam muito foco.
A vida começou a ser escrita
por suas próprias mãos. Não havia mais o colo de Rita, a orientação de
Sebastião, muito menos as belezas do antigo sítio que, em tão pouco tempo,
ficou distante desse novo mundo que começava a ser forjado.
Havia somente o si próprio
agora, e é exatamente ele quem Miguel precisa evocar para não chegar atrasado à
aula.
Quando ele ouve o sino tocar
pela segunda vez, deixa escapar entre os lábios um palavrão na tentativa de
dissolver todo o estresse que corre faminto por suas veias.
No entanto, antes de
adentrar à sala, ele sente uma força maior o chamar; sendo assim, olha para a
janela, vê uma galinha correndo e estudantes atrás dela. É ininteligível para
ele o porquê de toda aquela balbúrdia para pegar uma galinha; teria feito isso
de letra.
Então, abruptamente, a pena
encosta na superfície frágil da água e projeta uma reverberação.
No mesmo instante, a vida
sussurra uma palavra ao ouvido de Miguel que submete seus olhos ao marejo.
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