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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Som do Vazio - Hirtis Lazarin

 




O Som do Vazio

Hirtis Lazarin

 

“Quando o sino da igreja bateu, como bate às 18 horas, todos os dias, desde que nasci, notei que a sonoridade estava mais frágil…”



  • “O bronze da igrejinha derramava sobre a vila a mesma nota, exausta de tanto repetir-se.”

As badaladas do sino da igrejinha de Santo Antônio, sempre metódicas e idênticas, expandiam-se pelas ruas, pela praça e entravam em todas as casas. Hoje, porém, ouvi um chiado metálico ao final, como se algo estivesse raspando no bronze. Ou pior, como se o sino estivesse tentando pronunciar uma sílaba. Estariam as badaladas exaustas de tanto se repetir?

Desci os degraus da varanda — eram muitos — e não esperei o jantar, como eu fazia há dezoito anos. Caminhei em direção à torre, sentindo que aquele som não era um chamado para a oração. Seria um pedido de socorro? 

Caminhei até a praça e sentei-me  num  banco de madeira descascada, exatamente de frente pra torre de pedra. Olhei primeiro para o alto e o sino estava lá, tranquilo; depois olhei pra  todos os lados e era um vazio de gente. Apenas um pequeno pardal ciscava a grama a poucos passos de mim, alheio ao peso do que eu acabara de sentir.

Olhei pras minhas mãos vazias e depois para o pássaro. Ele buscava o sustento na terra seca — há meses não chovia — indiferente a mim e à engrenagem que havia acabado de desafinar. Invejei sua inocência. Pra ele, o som do sino era apenas um ruído de fundo, tal qual um vento leve que passa imperceptível e só balança a ponta das folhas.

Aquele semitom abaixo do tom me  atingiu como um diagnóstico: senti um nó no estômago. Ninguém estranhou  nem apareceu nas janelas; e o cheiro do café forte continuou, indiferente, subindo das cozinhas. Mas, para mim, aquele som desafinado era o sinal de que a fachada de perfeição da nossa vila havia rachado. O sino sabia de algo que eu ainda não tinha coragem de admitir. 

Durante toda a minha vida, eu fui como aquele bronze: um objeto para cumprir uma função, apática ao tempo que passava. O sino batia porque era  sino; eu acordava, trabalhava e voltava pra casa porque era o que se esperava de mim. Mas hoje, ao ouvir aquela nota imperfeita, percebi que a minha própria ressonância também havia mudado. Eu não era mais o eco limpo das expectativas dos meus pais. Havia um desgaste, uma rachadura interna que eu vinha ignorando, mas que o sino acabara de denunciar para quem quisesse ouvir. Aquele som não era apenas um erro na torre; era o aviso de que a minha armadura de rotina tinha finalmente trincado.

Levantei-me do banco, deixando o passarinho pra trás, e caminhei até o portal de carvalho desbotado. A madeira estava fria sob meus dedos, uma frieza que contrastava com o mormaço da tarde. Ao empurrar a porta, o rangido das dobradiças ecoou pelo vão da nave vazia, soando como um protesto.

Lá dentro, o cheiro de parafina escorrida nas velas apagadas e do incenso antigo parecia parado no tempo, exatamente como a minha vida. Enquanto eu avançava pelo corredor central, meus olhos não buscavam o altar principal, nem as imagens familiares, nem a capelinha do meu santo preferido. Eles se voltaram para a corda que ainda balançava levemente no fundo da torre, como se a mão que a soltou tivesse acabado de desaparecer na sombra.

Meus passos ecoavam no mármore frio e cada batida do meu sapato soava como um julgamento naquele silêncio absoluto. Aproximei-me do canto escuro onde a corda do sino pendia do teto, ainda oscilando num balanço preguiçoso. Foi quando meus olhos captaram um brilho opaco no chão de pedra. Inclinei-me e  uma pena negra, longa e perfeitamente preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela não parecia ter caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com um reflexo furta-cor que lembrava óleo sobre a água.  Lembrei-me, então, da minha nona Josefina que acendia uma lamparina — ela  misturava água com óleo — pra iluminar o nicho de Nossa Senhora de Fátima. 

Ao tocá-la, senti um calafrio que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena seria o “defeito” no som do sino? Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas encontrando um objeto, mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida inteira fingindo que não existia.

Guardei-a no bolso e, automaticamente, meus olhos se voltaram pra abertura estreita na base da torre, onde a escada em caracol se perdia na escuridão. Eu pressentia que, se subisse aquele primeiro degrau, a rotina dos meus últimos  dezoito anos morreria ali, no mesmo chão da nave.

Aceitei o desafio.

Coloquei a mão na parede fria e áspera. A escada era tão apertada que o ar parecia mais denso a cada volta. O som dos meus passos não era mais o eco limpo da igreja; agora era um baque abafado, sufocado pelo espaço exíguo. Enquanto eu subia, o cheiro de incenso era substituído pelo odor de metal frio e algo mais… um cheiro de céu antes da tempestade.

Olhei no relógio e já havia passado das vinte horas; a luz da pracinha lá fora diminuía a cada curva da espiral e eu sentia, que a vibração do sino nos meus dentes ficava mais forte. Eu não estava apenas subindo uma torre; eu estava escalando o meu próprio medo pra ver o que, afinal, tinha a audácia de desafinar o meu mundo.

Cheguei  ao topo da torre, mas o que encontrei ali foi um vazio impossível. Não havia mãos, não havia cordas sendo puxadas, não havia nada. Apenas o grande sino oscilando num ritmo imaginário, como se o próprio ar estivesse empurrando o metal.

Aproximei-me do sino. Deduzi que o som diferente que ouvi lá embaixo era o sino tentando se libertar de sua função de marcar as “seis horas da tarde”.  Ele não queria mais avisar o tempo da cidade. Peguei a pena negra do meu bolso, apertei-a e senti o seu calor pulsar contra a palma da minha mão. Olhei à minha volta.  Eu estava ali sozinho, mas nunca me senti tão observado.

Uma janela estreita e sem vidro estava aberta. Por ela entrava um vento frio e cortante, um sopro de inverno em contraste com o verão que existia lá embaixo. Debrucei sobre o parapeito de pedra e  a cidade que eu conhecia parecia uma maquete esquecida, pequena demais comparada ao  tamanho do que eu sentia agora. O sino continuava seu balanço fantasmagórico às minhas costas, mas o ruído não me incomodava mais. Apertei a pena negra e senti seu calor pulsar contra a palma da minha mão. Procurei… Procurei… lá embaixo e  não  enxerguei o pardalzinho.

O silêncio da praça vazia e o vazio impossível desta torre, com certeza, ofereciam-me um presente: a possibilidade de enfrentar desafios. Minha vida, antiga e previsível como “as badaladas das seis da tarde”, estava ficando por  ali.   Respirei fundo e, pela primeira vez, não esperei pelo próximo badalo. Eu não precisava mais que o ferro me dissesse quem eu era. Eu era o vento, a pena e o caminho que se abria além daqueles muros de pedra. O sino podia tocar do jeito que ele quisesse e eu, finalmente, descobri que  poderia  ouvir o meu próprio som.

Por dezoito anos, eu fui o eco do que não queria ser. Eu não serei mais o operário do tempo, o escravo das seis da tarde. Sei que a mudança  será lenta e barulhenta, mas terei todo o tempo do mundo. A vida diferente que me espera não terá horários, nem badaladas; ela terá o som dos passos que escolhem o próprio rumo.

Guardei a pena, dei as costas ao sino e desci os degraus, sabendo que, lá embaixo, a praça continuava vazia, mas eu estaria, pela primeira vez, plenamente ocupado comigo mesmo.

Procurei o pardalzinho por todos os lados… Ele não estava mais ali e senti a sua falta.


Inclinei-me e, entre as sombras, vi o que o sino tentara me dizer: uma pena negra, longa e perfeitamente preservada, jazia exatamente onde o sineiro deveria estar. Ela não parecia ter caído de um pássaro comum que entrou por acaso; era pesada, com um reflexo furta-cor que lembrava óleo sobre a água.

Ao tocá-la, senti um calafrio que não vinha das paredes de pedra da igreja. Aquela pena era o 'defeito' no som do sino. Ela era o intruso. Senti que, ao pegá-la, eu não estava apenas encontrando um objeto, mas aceitando um convite para um mundo que passei a vida inteira fingindo que não existia.”

Dicas para a “Previsão” (Antecipação):

Para o seu narrador se antecipar ao que vai acontecer, você pode utilizar os sentidos dele:

  • O Tato: Quando ele toca a pena, ele sente um calor ou uma vibração? Isso indicaria que o mistério é “vivo”.
  • O Olhar: Ele olha para cima, para o buraco por onde a corda sobe para a torre, e percebe que o silêncio lá em cima é “diferente”?
  • A Intuição: Ele sente que, se sair da igreja agora, sua vida nunca mais voltará ao som “normal” de antes.

Como você quer que ele reaja? Ele guarda a pena no bolso e foge, ou ele decide subir a escada em caracol para ver de onde aquela pena caiu?

 

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