A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

terça-feira, 17 de agosto de 2021

A oportunidade - Adelaide Dittmers

 



A oportunidade

Adelaide Dittmers

 

Era uma noite quente e seca.  O menino estava com sede e a fome lhe corroía o estômago.  Desamparado, percorria as ruas, estendendo as mãozinhas, para pedir uns trocados às pessoas, que passavam indiferentes e apressadas.

O rosto exprimia cansaço e desalento.  O olhar refletia um desamparo, que parecia envolver seu corpo frágil. Roupas nada limpas e um par de tênis, que devia ter passado por muitos pés,  mostravam a penúria em que vivia.

Subitamente, reparou que uma senhora estava tirando a carteira da bolsa, em frente a uma banca de jornal.  Um pensamento lhe atravessou a cabeça como um raio e sem resistir, passou por ela correndo e arrancou a carteira de suas mãos,

— Pega ladrão, gritaram as pessoas que viram o roubo.

E o menino, apesar da fraqueza, serpenteou pelos transeuntes, tentando fugir com o que tinha roubado.  Na sua consciência não havia culpa.  A única preocupação era escapar, sentir-se seguro e comprar algo para saciar a fome, que lhe roía as entranhas.

Como um animalzinho que escapa de seu predador, continuou a sua desabalada corrida.  Quando estava longe, parou sob uma árvore, abriu a carteira e contou o dinheiro.  Duzentos reais.  Quanta grana, pensou.  Tivera sorte.  Jogou fora a carteira e enfiou o dinheiro nos bolsos da surrada calça.

Mais adiante, entrou em um boteco e pediu um prato feito.  O dono o olhou com desconfiança, ao que ele lhe mostrou algumas notas, que tirou do bolso.

O homem trouxe, então, um prato cheio de arroz, feijão e carne,  que o menino devorou, como se nunca tivesse comido nada em sua vida.  Pediu um copo de água, que bebeu de um gole só.

Satisfeito e alimentado, continuou sua caminhada pela cidade, que sempre lhe parecia indiferente a sua miséria e solidão.  Depois de muito andar, chegou a um viaduto.  Embaixo, amontoadas, muitas pessoas dividiam um espaço precário.  Fogareiros improvisados, sacolas de alimentos e roupas deixadas por boas almas, que por ali passavam, espalhavam-se pela estreita calçada.  Um mundo diferente e sórdido na cidade rica.

Josué aproximou-se de uma das famílias e logo uma mulher sem os dentes frontais veio ao seu encontro.  Estava barriguda, prenha de mais um filho.

— E aí, você conseguiu alguma coisa?

O menino olhou-a com raiva.  Era sua madrasta, que só pensava em explorá-lo, mandando-o a mendigar nas ruas.  Sua mãe morrera, quando tinha sete anos e há quase quatro anos convivia com ela, irmãos e o pai bêbados.  Os seus onze anos de vida eram marcados por abandono, desesperança e maus-tratos.

— Consegui.  E tirou do bolso trinta reais, que estendeu a ela.

— Só isso? Perguntou a madrasta com uma careta de desprezo.

— Só! Respondeu bruscamente. Virou-se e foi se sentar encostado à parede do hostil viaduto.  Nunca que iria dar mais dinheiro àquela bruxa, pensou,  e um ódio silencioso espalhou-se pelo seu olhar.

Ajeitou a cabeça na parede dura e começou a imaginar o que faria com sua pequena fortuna. Foi a primeira vez que roubou.  Não era o que queria fazer, mas talvez o único caminho. Pedir não lhe rendia quase nada, apenas uns parcos trocados.  Roubar era arriscado, mas não fora difícil tirar a carteira da mulher.  Se conseguisse mais dinheiro, poderia fugir dali, talvez alugar um quarto em uma favela e livrar-se do pai inútil e da madrasta exploradora.

Aos poucos, dormiu embalado pelo sonho de se libertar daquela miséria e pelo menos ter o que comer e uma cama, mesmo que tosca, onde descansar.  Um sorriso puro de criança aflorou em seu rosto adormecido.  Talvez o último sorriso inocente da triste e perdida infância, porque, quando acordasse no outro dia seria um outro menino, que seguiria por um caminho tortuoso e perigoso.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

CATEDRAL NOTRE DAME DE PARIS - Alberto Landi

 



CATEDRAL NOTRE DAME DE PARIS

Alberto Landi

 

Tive oportunidade de visitar essa Catedral por algumas vezes, mas desta vez me emocionei ao apreciar os detalhes de sua beleza.

É uma das edificações góticas mais belas do mundo. Muitos acontecimentos marcaram toda sua existência: Cenário de romances. O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo. Ali Napoleão coroou-se imperador da França em 1804...

A relíquia mais valiosa é a Santa Coroa que os católicos acreditam que foi usada por Jesus pouco antes de ser crucificado. Conserva ainda outras duas relíquias da Paixão de Cristo; um pedaço da cruz e um cravo.

Era um dia invernal de 6 de janeiro de 2014, havia muita neve nas margens do Sena e finas camadas de gelo se formavam na água. As gaivotas esfomeadas devido ao rigoroso inverno voavam em círculos no céu.

Nesse dia estava sendo celebrada pelo bispo de Paris, a Solenidade da Epifania do Senhor. Era a manifestação divina em Jesus, como sendo o escolhido Filho de Deus. O momento de revelação dele ao mundo. Tive o privilégio de assistir, e ao mesmo tempo de apreciar detalhes da Notre Dame, como a sua beleza e a sublimidade das cores etéreas de seus vitrais brilhantes e reluzentes e de sua calma gelada. Há 3 rosáceas que representam flores do paraíso. Nelas estão profetas, anjos, reis, cenas da vida dos santos. No centro das rosáceas figuram as imagens de Maria, o Menino Jesus e da Ascensão de Cristo. No centro, ao fundo, um grande órgão com 5 teclados e cerca de 8.000 tubos por onde saem ondas sonoras belíssimas. É o espetacular destaque da Catedral!

Interessante, também, é o sagrado ritual das pessoas em oração e a emoção das palavras pronunciadas na liturgia, como se fosse uma elevação de uma grande poesia.

A catedral é alma. Com suas torres, vitrais, sinos, órgãos, e espaços silenciosos. Não são meras edificações medievais, mas sim, é onde nos sentimos em casa. Nos encontramos com Deus em uma celebração conjunta dos seus seguidores.

Que mistério pode se esconder além das portas fechadas, luzes apagadas, e liturgias abreviadas?

Penso que é tempo de estarmos unidos e darmos as mãos pela construção de um mundo melhor e mais fraternal.

Nos meus sonhos vejo uma Catedral que representa por igual valor o mundo, o ser humano, as famílias e as raças de um modo geral como um todo, e a união entre nações.

E assim, a Catedral de Notre Dame em Paris, grande símbolo do cristianismo, me deslumbra sempre que a vejo, por sua magia, grandiosidade e encantamento.

O LÁPIS E SUAS QUALIDADES - Henrique Schnaider

 




O LÁPIS E SUAS QUALIDADES

Henrique Schnaider

 

O lápis tinha um papel muito importante naquela casa. “Maldoso” às vezes ficava sem ponta deixando todos, que precisavam dele para escrever, sem poder fazer o que precisavam. Ou seja, escrever uma carta, uma lição de casa ou algum desenho.

Quando estava de bom humor, podia ser “lúdico”, possibilitando através da escrita, umas brincadeiras legais. Ele estava sempre “faminto”, precisando do apontador para satisfazer suas vontades e ficar com uma bela ponta. Mas o apontador cobrava um preço caro para lhe apontar. Ele tinha que dar a cada apontada, a sua própria composição de madeira.

“Injusto”, às vezes, resolvia quebrar a ponta no meio de qualquer tarefa.  E pronto, lá vinha o salvador da pátria, o belo apontador com suas lâminas bem afiadas para apontar e deixar uma bela ponta novamente, alegrando quem estivesse usando o lápis.

“Matreiro”, de vez em quando, ficava com a ponta grossa só para se divertir e brincar com quem estivesse fazendo um desenho que acabava ficando muito feio.

O apontador também gostava de fazer das suas com o lápis e resolvia não apontar ele direito. Pois tinha que ser “preciso” para apontar e ficar uma bela ponta. O lápis ficava bravo com seu parceiro, pois sabia que sem o apontador, não teria como realizar suas funções.

As pessoas da casa gostavam muito do lápis, pois se divertiam através dele, escrevendo ou desenhando. Eles o achavam de extrema utilidade e cuidavam dele com o maior carinho.

Mas a vida do lápis foi relativamente curta. Com o passar dos dias, quanto mais ele era usado, pior para ele. E ele foi ficando aflito. Foi vendo sua vida encurtar cada vez mais e até que um dia, ele ficou tão pequeno que o seu triste destino foi a lata do lixo.

O MACACO SIMÃO - Henrique Schnaider

 




O MACACO SIMÃO

Henrique Schnaider

 

O macaco Simão era o “maldoso” do bando, mas também muito “matreiro”. Sempre era o primeiro a pegar as comidas que o bando “faminto” achava para comer.

Ele tinha a liderança do barulhento bando de macacos e não admitia que ninguém o desafiasse. Assim, de vez em quando, algum macho jovem empolgado, resolvia desafiar o líder Simão, o circo pegava fogo, mas na luta para manter a liderança ele era “preciso” nos seus golpes e punha para correr o desafiante.

Havia momentos em que ele era “injusto”, e que nem sequer tinha pena dos filhotes do bando, alguns dos quais eram seus filhos. Os pobres que ficavam aguardando os pais para poderem ser alimentados.

Sabia defender o bando como um verdadeiro líder tem que ser. Quando eram atacados por inimigos. Desta forma, era cada vez mais acatado e admirado. As fêmeas da turma se encantavam com ele e ficavam sedentas apenas por um olhar de interesse por uma delas.

Ele sabia escolher muito bem as preferidas. As macacas mais bonitas e aquelas que procriavam bem para lhe dar muitos filhotes. Mas tinha uma macaca jovem ainda, a Pimba que era a sua preferida e Simão se desmanchava todo por ela, lhe dando presentes de frutas madurinhas deliciosas.

Quando o bando era rodeado e atacado por grandes felinos como leões, leopardos e panteras, o líder Simão tratava de atrair as feras para proteger o resto do bando. “Preciso” e “matreiro”, sabia como enganar os atacantes que acabavam se cansando e desistindo da caça pelas estratégias de fuga do líder.

Assim, os anos foram passando e Simão continuava liderando e protegendo o seu bando. Mas, o tempo não perdoa nenhum ser vivo e o  macaco, começou a dar sinais de velhice e de fraqueza.

Um dos seus filhos King, já adulto, se tornou um vigoroso macaco temido por todos. Simão percebeu que seu filho qualquer dia, iria desafiá-lo, tomar o poder dele e assumir a liderança do bando.

O macaco Simão, demonstrando que tinha sabedoria e maturidade, antes que seu filho lhe tirasse o poder através de um combate, o chamou e deu-lhe o cetro do poder. Resolveu se aposentar daquela vida agitada e foi viver bem no alto de uma gigantesca árvore ao lado da sua amada Pimba.

O MACACO KING - Alberto Landi

 






O MACACO KING

Alberto Landi

 

Alguns animais tomavam sol à beira do rio. Mas estavam preocupados com o aparecimento de um leão ali nas redondezas, que ameaçava a tranquilidade deles.

O felino parecia idoso, mas era muito lúcido para perseguir os animais. Mas, o macaco, ele era do chifre furado. Pendurava frutas no pescoço da girafa, dava nó na tromba do elefante, aprontava muito.

Os bichos se reuniram para planejar um meio de se livrar do leão. King, o macaco, era lúdico e matreiro e se deliciava comendo bananas nos galhos da árvore. Rindo e ouvindo o que os bichos estavam tramando.

— De que você está rindo? Perguntaram. 

— Estou rindo porque todos vocês têm medo do leão, mas eu não!

— Vou fazê-lo trabalhar para mim!

Eles deram muitas gargalhadas do macaco quando disse isso.

— Vocês vão ver!  Isso é só a ponta do iceberg!

O leão se aproximou dos animais e perguntou com ar de austeridade:

— De que vocês estão rindo?

Informaram ao leão, o que King, o macaco matreiro, havia dito!

— Ah é! E, onde está ele? Perguntou o leão já furioso.

Apontam todos para a árvore onde ele estava sentado.

Quando o leão viu o símio, correu até ele:

— Você aí! Disseram que não tem medo de mim e que eu trabalharia para você. É verdade?

O símio muito dissimulado argumentou que não era bem assim:

— Eu disse que “gostaria” de poder trabalhar para você. 

— Ah! Disse o leão, agora entendi.

Se estabeleceu uma amizade entre o leão e o macaco e foram juntos em direção ao rio.

De repente King parou, chorando, suas lágrimas que lógico, eram como uma cascata, escorrendo pelas bochechas.

— O que há de errado com você? Perguntou o leão.

— Estou com dor no pé e receio de não poder te acompanhar.

— Você precisa dizer para aqueles bichos que realmente tem medo de mim, disse o leão.

Vamos fazer o seguinte disse o macaco matreiro:

— Você me deixa andar em suas costas?

Prontamente o leão concordou, e assim prosseguiram no caminho.

De repente o macaco gritou, espantado e com olhos como se fossem duas jabuticabas:

— As suas costas são muito irregulares. Ajudaria muito se tivesse uma espécie de sela para que eu pudesse ficar mais confortável.

O felino gentilmente pegou folhas de palmeira e colocou a sela.

— Agora sim, está confortável, disse o macaco. E assim continuaram caminhando.

Mais uma vez o dissimulado King gritou:

— Eu tenho medo de cair da sela, se eu tivesse algo para me segurar seria o ideal. O leão concordou e amarrou algumas videiras no seu pescoço. Passado algum tempo eis que o macaco grita novamente.

— O que está errado agora? Diz o felino, já bem irritado e feroz.

— Há muitas moscas por aqui, preciso de algo para espantá-las.

 Eis que o felino pegou um grande galho e deu ao símio.

— Isso vai ajudar, vamos em frente, diz King.

Quando estavam quase chegando, o macaco sentou-se no alto da sela, agarrou as videiras e golpeou o felino com as folhas e gritou:

— Vamos lá...

O felino surpreso disparou, e correu tão rápido que passou na frente dos animais que estavam reunidos. Todos eles começaram a rir quando viram o macaco saltar das costas do felino e pular de volta para as árvores.

Os risos foram tão altos que chegaram aos ouvidos do leão, e este envergonhado nunca mais voltou naquele lugar.

O macaco rindo disse:

Eu dominei a fera, e como falei, ele iria trabalhar para mim. Fazendo todas as minhas vontades...

FREDERICO - Henrique Schnaider

 





FREDERICO

Henrique Schnaider

 

Frederico tinha fama de ser um sujeito “faminto”, morto de fome. Casou-se com Sônia uma mulher rica e vaidosa que gostava de se cuidar, possuía uma bela silhueta, um corpo muito bem cuidado através de idas frequentes ao cabeleireiro e plásticas e aplicações de Botox.

A tristeza da vida dela, era que o Fred, como ela o chamava, era totalmente o contrário. Sujeito totalmente relaxado consigo mesmo. Não era chegado num banho, usava roupas desgrenhadas e raramente trocava de roupa. Sônia tinha que ficar pegando pesado para conseguir alguma coisa boa dele.

Não que ele fosse “maldoso”, mas ele amolava a esposa que tinha acabado de fazer as unhas. Dizia o “matreiro”, que estava com muita fome e ficava pedindo que ela fizesse aquela comidinha que ele gostava. Lá ia Sônia para o fogão satisfazer as vontades do marido.

Fred não ficou satisfeito e queria uma sobremesa daquelas superdifíceis de preparar e que só engordava o guloso do marido. Sônia, paciente, fazia todas as suas vontades. Porém, a paciência ia se esgotando.

Fred era “injusto” com a esposa, pois não era capaz de fazer um único elogio para ela, apesar de ela merecer muitos.

O Fred só tinha olhos para as guloseimas e usava e abusava da esposa que já estava com a chaleira fervendo.

Certo dia, Fred depois de se empanturrar de comidas feitas pela Sônia. Comeu tanto, mas tanto que começou a passar mal. Foi parar no hospital e acabou numa UTI com diverticulite, pois o estômago e os intestinos não resistiram a tamanha comilança.

O guloso teve que passar vários dias internado no hospital e quando teve alta, Sônia o fez prometer que iria se controlar na comida, e ele jurou que faria isso.

Passados alguns dias e a promessa estava sendo cumprida.

Mas, assim como diz o ditado que “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”, Fred voltou ao vício e “para comer um leão, mas para trabalhar só nos empurrões”.

Sônia não aguentava mais aquela vida de servir ao glutão. Um dia sem mais nem menos, fez as malas e foi embora para a casa da mãe e deixou a fominha sozinho, morrendo de fome já que ele não sabia cozinhar, preguiçoso como era. Iria precisar trabalhar se quisesse comer. Dessa forma acabou a boa vida de Fred, o faminto.

 

 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

FOI POR UM TRIZ - Hirtis Lazarin

 




FOI POR UM TRIZ

Hirtis Lazarin

 

Foi por um triz, apenas dois minutos de atraso no táxi e ela não conseguiu embarcar no trem.  Até abandonou parte da bagagem no porta-malas do carro.   Naquela hora decisiva, perder parte das roupas era o que menos importava.  Pode, ainda, ver o último vagão acenando-lhe adeus e desaparecer no túnel que atravessava a montanha de vegetação castigada pelo inverno rigoroso.

Estava inconsolável.  Um plano estudado em todos os detalhes; um projeto fracassado.  Ajudada por um funcionário que se comoveu com o desespero daquela mulher chorando e gemendo, Florence deixou-se cair num dos bancos de madeira puída e desbotada no corredor da plataforma.

Era a viagem tantas vezes adiada.   A dúvida, o medo de trocar o certo infeliz pelo incerto cheio de esperança.  A possibilidade de libertar-se de um casamento sufocante que já durava oito anos.  Ronald adiava sempre a paternidade.  Um filho, um empecilho aos negócios naquele momento tão produtivo no “seu” mundo empresarial.   A vida do casal era viajar e viajar...  Hotéis e hotéis...

O marido passava o dia em reuniões, congressos, assembleias, e Florence vagava solitária pelos hotéis à espera dele que tinha hora pra sair e nunca pra voltar.  Não raras vezes, adormeceu com fome na mesa do jantar.

“A pior coisa não é ficar sozinha, é ficar sozinha ao lado de alguém” – pensamento que começou a ficar recorrente na mente de Florence.

Fingia que se acostumara à situação.  Não tinha porque reclamar, pois, aos olhos de todos, casara-se com um príncipe.  Homem poderoso, jovem e cavalheiro.  Aquele que presenteia flores, abre delicadamente a porta às mulheres e nunca se esquece das datas importantes.

A casa mais moderna e requintada, o reconhecimento das maiores autoridades, o paparico da alta sociedade, luxo e a inveja das moças casadoiras.   Quanta ilusão!

Florence levou um susto quando o segurança a acordou.  A estação ferroviária estava deserta e escura, prestes a fechar.  Lá fora, a neve caía em flocos, suficientes para amedrontar até aqueles que sempre conviveram com ela.

Florence saiu à procura de táxi.  Não seria nada fácil àquela hora da noite e com aquele tempo frio.  Esgueirando-se por entre toldos das lojas, cuidando-se para não escorregar na camada de gelo que ia se formando nas ruas e calçadas, viu uma única luz acesa perto da esquina mais próxima. 

Era o “Sweet Café”. Ela espalmou o casaco expulsando floquinhos de neve e entrou.  Uma única cliente sentada próxima ao balcão, papeando com o garçom.  Roupas apertadas e provocantes.  Espartilho apertadíssimo pressionava os seios volumosos que se viam obrigados a saltar aos olhos dos maliciosos.

Florence sentou-se afastada dele.   Um chocolate bem quente era o que mais queria naquele momento incerto e difícil.  Esquentar o corpo trêmulo de frio e esfriar a cabeça quente de medo.  Como voltar pra casa e enfrentar o marido?  Como contar a verdade?

Há mais de um ano, ela conheceu Will, um jornalista hospedado no mesmo hotel onde o casal estava.  Encontraram-se por acaso, duas vezes, no restaurante.  Uma conversa amistosa de pessoas inteligentes, amantes de um bom livro e um bom filme os aproximaram.  Depois, um café da manhã juntos, uma volta pelas cercanias, um passeio de barco, a proximidade cada vez mais próxima, a tentação e o encanto do proibido.  Um beijo de língua.  Paixão ardente incontrolável.  Outros encontros em outras cidades e em outros hotéis.

Will aguardava Florence naquele trem.  Depois de superadas tantas dúvidas e desafios, acertos e desacertos, finalmente se encontrariam naquele trem e juntos chegariam a Londres, com destino a Nova York.

Era o fim de um pesadelo e o começo de uma grande aventura de amor.

O TOURO TWIST - Alberto Landi

 




O TOURO TWIST

Alberto Landi

 

 

Twist era um novilho que destoava dos outros animais de sua espécie, tinha sonhos e ambições diferentes de seus amigos.

Ele era tranquilo, meigo, dócil, e vivia solto no pasto. Não gostava de se misturar com os outros animais. Apreciava a natureza, bem adaptado ao ambiente em que vivia, gostava de ficar embaixo de árvores, principalmente da macieira pelo sabor doce das frutas que caíam ao chão. Gostava também de ficar pastando próximo as flores e os rios.

Enquanto isso os bezerros gostavam de pular, correr e dar cabeçadas. Ele ficava na tranquilidade das árvores do pasto, era feliz sozinho. Afinal não era necessário estar sempre rodeado da boiada para se sentir preenchido.

Twist era muito feliz no seu habitat, que ficava no interior da cidade de Madri. Na fazenda de Helena sua proprietária e amiga.

Com o passar do tempo ele se tornou um animal de grande porte, que assustava qualquer um, que não conhecia a sua personalidade. Era confundido como um animal perigoso, mas um gigante com um grande coração. Não se pode julgar ninguém pelas aparências.

A fama de Twist chegou aos toureiros, que queriam vê-lo na arena. Assim, foi capturado e o trouxeram para Madri. Porém, destemido como era, conseguiu fugir.

O seu pai o touro Rocky não teve a mesma sorte. Foi escolhido para enfrentar um toureiro e nunca mais voltou. Virou churrasco! O desejo de Twist era vingar a morte de seu pai. Mas sendo dócil não levou a vingança a frente.

Em Madri, todos os touros queriam ir para a arena. Mas ele não; preferia ficar no campo e não competir.

O dócil e meigo touro tornou-se agressivo quando foi capturado. Segundo os toureiros, ele era perfeito. O desafio era conseguir domá-lo. Eles o apelidaram de o SELVAGEM.   Puro engano! Nunca foi bravo e não gostava de brigas.

Conseguiu escapar e com a ajuda de Helena sua amiga, voltou para o antigo pasto, na fazenda dela. Twist tinha um grande sentido de território e direção, não foi difícil encontrar o antigo pasto. Naturalmente agressivo quando via seu espaço invadido, atacava qualquer provável intruso.

Fazia exatamente aquilo que o deixava feliz, preferia cheirar flores a lutar nas arenas. 

Hoje ele pasta tranquilamente na fazenda de Helena passando sua docilidade para os demais novilhos.

POR UM TRIZ - Henrique Schnaider

 




POR UM TRIZ

Henrique Schnaider


Luiz sempre foi um rapaz sem juízo. Ainda jovem, dava muita dor de cabeça aos seus pais, era sapeca levado da breca. Reclamações dos vizinhos, brigas com os amigos, o jovem era um estopim.

O velho ditado já diz “pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto”. Com o passar do tempo as coisas só pioraram. Com quinze anos de idade, envolveu-se com gangues, gente da pesada. Não haveria senão, outra consequência do que, entrar de cabeça no mundo das drogas.

As dores de cabeça só aumentaram para os pais do rapaz. Uma coisa puxando a outra. Más companhias, drogas e encrencas dos mais variados tipos. Conflito de gangues. Roubos e assaltos para sustentar o vício. Começou também, para angústia deles, a roubar objetos de dentro de casa, e por último perdeu o respeito, com ofensas e ameaças de agressões.

Toda esta situação de conflitos, levou Luiz à beira do precipício. Estava próximo de um fim muito triste. Seus pais tentaram de todas as formas, levá-lo para um tratamento, uma clínica especializada de recuperação de drogados.

Luiz ia, porém não ficava, e na primeira oportunidade, tratava de fugir e voltava para junto dos infelizes, que passavam pela mesma situação de abandono, de vida precária e se juntavam aos bandos na região conhecida como cracolândia. Os pais desesperados não sabiam do seu paradeiro.

A situação neste mundo do cão, que é a cracolândia, torna os seres humanos, piores do que animais. Falta de higiene, promiscuidade sexual, mulheres engravidando sem sequer saber quem foi o pai. Uma degradação completa.

Luiz sempre que via alguém conhecido passando por ali, tratava de se esconder, pois não queria sair deste Inferno de Dante, já que fazia parte do quadro dos desesperados. Neste lugar ele se integrava. Pois todos que estavam ali, tinham os mesmos problemas que ele.

Um colega de infância, passando naquela região, reconheceu o amigo e ficou chocado ao vê-lo na situação de penúria em que se encontrava. Avisou aos pais dele. Descreveu o local, para que pudessem localizar o filho.

Imediatamente, seus pais se dirigiram para aquela região e não foi difícil encontrá-lo. Luiz estava irreconhecível. Era chocante vê-lo já que se tornara um andrajo humano. Tentaram convencê-lo a voltar com eles para casa. Num primeiro momento, os apelos estavam sendo infrutíferos.

Parece que alguma coisa ainda restava de sentimento no rapaz, e algo mexeu lá no fundo do seu coração, ele percebeu as lágrimas de sangue rolando dos olhos de sua mãe.

Finalmente, ele concordou em ir junto com eles para casa onde puderam transformá-lo novamente num ser humano. Tomou um banho, vestiu roupas limpas e cheirosas, almoçou comidas que sua mãe sabia que ele gostava.

Luiz foi tocado, ao ver a tristeza que aparecia nos olhos de sua mãe. Estava disposto a começar um tratamento de desintoxicação, com assistência de Psiquiatra e Psicólogo, e começar uma nova vida.

Seus pais estavam esperançosos que dessa vez, Luiz iria se recuperar e dessa forma, escapar por um triz de uma morte horrível, como acontece com todas as pessoas que se entregam a este tipo de vida.

A INVEJA - Alberto Landi

 



A INVEJA

Alberto Landi

 

A inveja é um sentimento que pode ser nocivo, e paralisar a vida da pessoa.

Nasce da comparação com pessoas similares, mesmo sexo, faixa etária similar e profissão, estando intimamente ligada a um sentimento de inferioridade.

Nem todo sentimento de inveja é negativo. Quando você a sente pela conquista do outro, serve de motivação, de combustível para progredir, algo benéfico, ou seja, você inveja, mas não deseja mal ao outro.

Esse sentimento prejudica a vida do invejoso, é a inveja nociva, é aquela em que a pessoa deseja prejudicar quem desperta esse sentimento nela.

O invejoso fica maquinando formas de impedir que o outro prospere, planos para comprometer a imagem do invejado e diminuir seu status.

Quando a inveja se converte em patológica, pode impelir o invejoso caluniar e perseguir e até mesmo desejar a morte.

Para ficar livre da inveja nociva são necessários:

Investir no autoconhecimento, na autoestima e quando o sentimento é persistente, tem-se que buscar ajuda de um psicólogo, cuidar também do seu emocional, cercar-se de pessoas positivas que valorizem você pelo que você é.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

DESILUSÃO - Hirtis Lazarin

 



DESILUSÃO

Hirtis Lazarin

 

Aquela noite estava diferente de todas as outras.  Nuvens negras e volumosas roncavam no céu, escondendo lua e estrelas.

Uma única janela entreaberta no vilarejo.  Maria Rita, apoiada no parapeito de madeira desbotada, enxugava lágrimas de saudade que insistiam em brotar.  Cabelos amarrados displicentemente numa fita verde com pontas desfiadas.  Nenhum sintoma de esperança.

Ele se foi sorrateiro, sem despedida, nem explicação, numa noite de lua cheia.   

Perdida em aflição, ouviu sons agressivos e ásperos de pedras que se soltavam do asfalto rústico, já bem gasto.  Uma quantidade exagerada.  A moça manteve-se imóvel. Nenhum músculo saiu do lugar, como se nada a abalasse.  A dor imensa que a ardia era maior que o medo de qualquer coisa.

O vulto de um menino de aproximadamente dez anos, num salto acrobático apareceu bem ali à sua frente, quase rosto com rosto.  Emitia sons indecifráveis, acompanhados de trejeitos contorcidos e rápidos.

Uma alma penada?  Ninguém sabe nem nunca saberá.

Maria Rita foi encontrada estendida no chão do quarto.  E nunca mais pronunciou uma única palavra.

POR UM TRIZ - Alberto Landi

 


POR UM TRIZ

Alberto Landi

 

Eu tinha 9 anos quando isto aconteceu. Morava numa pequena cidade do interior paulista, Brodósqui.

Naquele tempo, falar em uma pequena cidade era quase um exagero; somente algumas ruas e uma praceta. O restante eram campos, plantações de trigo, mato, riachos, cachoeiras, muitos animais, espalhados por todo lugar, galinhas, patos, gansos, cavalos, burros.

O mais importante desta história é que havia um touro que ficava pastando junto com vacas, ao lado da pequena estrada, a qual eu usava todos os dias para ir à escola. Por sempre estar atrasado para as aulas, fiz um atalho pelo meio do pasto. Naquele dia, pulei a cerca e caminhei, bem perto das vacas e de um touro com aparência feroz.

Vocês já devem ter ouvido falar que touros não gostam da cor vermelha. Parece mentira isso, mas nas touradas da Espanha, a capa do toureiro é sempre vermelha, para deixá-lo bem bravo. Se isto está certo não sei, mas foi bem verdade para mim, porque estava com agasalho de moletom vermelho naquele dia.

Nem bem tinha dado uns passos bem próximo dos animais, quando percebi um barulho esquisito. Parecia um animal raivoso que escavava o chão com as patas e bufava pelas narinas. Era o touro. Cada vez mais bravo e pronto para correr atrás de mim a qualquer movimento brusco que eu fizesse.

Saí correndo. Estava tão apavorado quem nem dava tempo para pedir socorro. Somente pensava em correr o mais rápido para chegar à porteira antes que o touro me trucidasse.

Enquanto corria, tive a impressão de que não ia conseguiria chegarem tempo à porteira. Ele atrás de mim... E, quanto mais perto ele chegava, mais bravo ficava por causa do moletom vermelho. Repentinamente tive uma ideia para salvar minha vida.

Enquanto corria do touro, me lembrei das touradas e muito espertamente joguei meu agasalho vermelho para bem longe, o que fez com que o touro mudasse de direção,  e isto acabou salvando minha vida.  “POR UM TRIZ”.

Quando assisto TV e aparece alguma propaganda com vaca ou boi, preciso me esforçar para não ficar nervoso.

A história inteira lá no campo, deve ter durado alguns minutos, que me pareceram horas e eu jamais esquecerei.

Comigo boi e vaca, só no churrasco!    Nunca mais!

quinta-feira, 29 de julho de 2021

ÊXTASE - Leon Vagliengo

 

 


ÊXTASE

Leon Vagliengo

 

Um soneto de amor, amor profundo e sublime.

 

 

Tão perto, teu rosto exala magia

ao me olhar, perante o beijo iminente,

quando tua emoção me contagia

e tua boca me convida, insistente.

 

Nesses instantes apenas te vejo,

nada mais compartilha a minha mente;

e em meu âmago desperta o desejo          

de mitigar uma ânsia inclemente.

 

Já nem sei se te beijo ou te admiro,

tua imagem, tão linda, me entorpece.

Enfim, se esvai o torpor, e suspiro

 

estreitando o teu corpo nos meus braços.

Num momento não há mais embaraços:

colam-se os lábios, o beijo acontece.


 

Sou - Adelaide Dittmers

 


Sou

Adelaide Dittmers

 

 

Sou pequeno barco,

Singrando por mares inesperados.

Sou água do riacho,

Correndo por campos cultivados,

 

Sou barro da estrada,

Que se pode moldar,

Sou bolha de sabão,

Que se desfaz no ar,

 

Sou pássaro solitário,

Voando livre pelos céus,

Sou pequeno cata-vento,

Que gira ao sabor do momento,

 

Sou por dentro um mundo,

Que me esforço em desbravar,

Sou vale profundo,

Dia ensolarado e noite de luar.

  

LAMENTO - Hirtis Lazarin

 




LAMENTO

Hirtis Lazarin

 

Pelos porões do pensamento

Vagueio buscando meus ais.

Sufocam-me tais sentimentos

Recordá-los, quero mais.

 

               O cenário que se rompe

                Inebria-me de prazer

                É paixão desenfreante

               Que me faz enlouquecer.

 

Despencam do armário embutido

Roupas lançadas ao vento

O paletó enlaça o vestido

Sussurrando-lhe juramento.

 

                    Lençóis brancos retorcidos

                     Corpos entrelaçados e nus

                     Sussurros e gemidos

                     Desprezam os tabus.

 

Boca ardente busca outra boca

Suga-lhe como se fosse abelha

A lua cúmplice lá fora brinca

Alumiando-nos pela fresta da telha.

 

                      A vida passou, foi embora

                       Vejo-me só neste labirinto

                        Será? Isso tudo foi verdadeiro?

                        Minha alma lamenta e chora

                       Saudade é só o que sinto.

 

E no ar o perfume do seu cheiro.                        

                

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...