A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023
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segunda-feira, 8 de maio de 2017
CUMPLICIDADE DE AMIGO - Do Carmo
CUMPLICIDADE
DE AMIGO
Do
Carmo
Fiquei sabendo, pelo meu filho, de uma ocorrência com um de seus amigos,
que me emocionou deveras.
Os jovens são, em sua maioria, desligados e talvez negligentes com os
problemas que parece que realmente não os atingem.
O que meu filho contou-me, demonstrou exatamente o inverso, pois Rafael,
garoto charmoso e muito galanteador, sabendo de seu prestígio entre as meninas,
assumira uma postura de cumplicidade.
Estava ele conversando com um dos colegas de classe da faculdade, quando
um professor os abordou, dizendo ao seu
colega que ele tinha colado durante a prova, que o vira remexer nos bolsos.
Imediatamente, Rafael adiantou-se dizendo que ele havia pedido
emprestado uma caneta, pois a dele falhara.
— Solícito, ele procurou nos bolsos e entregou-me uma caneta com a qual consegui
terminei a prova.
O professor olhou-o fixamente, ao que ele sustentou o olhar.
Dirigindo-se ao transgressor, o mestre estufando o peito, disse:
— Rapaz, você é um afortunado. Atualmente é muito difícil se encontrar uma pessoa tão fiel e cúmplice
como esse seu amigo.
Conserve-o para sempre.
AMIGA DE VERDADE - Do Carmo

AMIGA
DE VERDADE.
Do
Carmo
É muito difícil se certificar de que você tem um verdadeiro amigo. Para
tal, se faz necessário a pessoa possuir alguns requisitos sendo que, ao meu
ver, os essenciais e difíceis de encontrar são:
sinceridade, lealdade, fidelidade e cumplicidade
Na maioria das vezes, convivemos com pessoas que, embora muito próximas
e compartilhando o dia a dia, nada conhecemos de sua essência, sentimos sempre
uma dúvida sobre seus sentimentos.
Em contra partida, há outras que mesmo não sendo tão presentes, sentimos
que podemos confiar plenamente e recorrer ao seu auxílio a qualquer momento.
Esse comportamento está presente em minha vida, através da Raquel, desde
nossos seis anos de idade, quando ela veio ser minha vizinha na época.
Não morando próximas, não nos
vemos amiúde porém, nossa sintonia é imensa. Sempre que alguma de nós precisa
de um abraço, de uma palavra amiga, sem motivo
telefonamos e muito rápido, estamos uma ao lado da outra.
Já houve um episódio, há alguns anos, que ela deixou um jantar com parentes
para socorrer uma vizinha que se encontrava em apuros.
É raríssimo conquistarmos uma pessoa que se torna nossa amiga tão
sincera, leal, fiel e cúmplice, como eu tenho a ventura de possuir.
UMA TURMA NOTA DEZ! GENTE NOVA CHEGANDO NA TURMA
ICAL COM GENTE NOVA NO GRUPO!
Oba, a turma está cada vez maior.
Seja bem vindo Henrique Schnaider.
Que este grupo lhe traga muita sorte e criatividade.
Henrique Schnaider
Rejane Martins
quinta-feira, 4 de maio de 2017
O diário proibido - Christianne Vieira
O diário proibido
Christianne Vieira
Valéria entrou em casa feito
um tufão, estava muito atrasada, e ainda tinha muitas trabalho para entregar.
A agência de publicidade tinha
enxugado o quadro de funcionários, e os que ficaram agora acumulavam funções. Melhor é ter emprego, pensava todos os dias, e paciência, tinha que correr mais.
Sempre foi uma mulher ativa,
acumulava um milhão de atividades em um único dia, agora, mãe de dois meninos,
e trabalhando dobrado, parecia uma formiga atômica.
Deixava os meninos bem cedo
na escola, e iniciava uma agenda, que só iria ser encerrada, após colocá-los na
cama, lá pelas nove da noite.
Sobrava um tempinho para ela
conversar com seu marido, antes de se jogar , um zumbi, na cama.
Arrumou uma nova empregada,
e explicou várias vezes a rotina, mesmo assim não conseguia encontrar nada.
Precisava achar uma caixa que trouxe da casa dos seus pais, da época da
faculdade.
Depois de revirar, alguns
armários, encontrou a caixa, com a tampa entreaberta, o que lhe pareceu muito
estranho, e para a sua surpresa, seu diário da adolescência, estava, aberto.
Poderia perder alguns
minutos, abriu-o e começou a ler. Nas primeiras páginas, bateu o
maior pânico, esse diário era do seu pior ano, onde sua rebeldia fez com que tivesse
feito coisas terríveis, caso alguém soubesse, seria a maior vergonha. Pensava
que ele tinha sido jogado fora, justo esse, o pior, estava ali na sua frente. Naquele
ano, seus amigos foram a turma do
fundão, o terror da escola, seu rendimento escolar fora péssimo, seu
namoradinho, uma tranqueira, e provavelmente tudo que escrevera naquelas páginas,
lhe dariam enxaqueca. Gastou muitos anos de terapia, para esquecê-lo.
Era casada com Artur, um
homem muito sério e tradicional, ele nem sequer poderia sonhar, que a mãe de
seus filhos fora capaz de fazer tudo aquilo.
Mas, quem poderia ter o
encontrado o diário antes dela? Só poderia
ter sido ele, ou a Nete.
Artur estava viajando a
trabalho durante a semana toda, não seria bom conversar sobre isso à distância. Toda vez que
ela tinha algum assunto delicado para tratar com seu marido, procurava uma boa
hora para fazê-lo. Definitivamente essa semana não teria esse momento.
Teria que se livrar daquele diário.
Primeiro, rasgou suas
primeiras páginas, onde tinham seus dados pessoais, picou em vários pedaços, em
seguida folheou, e as que considerou
serem piores, arrancou, e picou também.
Achou melhor levar o que sobrara para um lixo distante de casa, colocou dentro
de uma sacola preta, lacrou com fita crepe, e jogou no porta-malas de seu carro.
Sua semana foi intensa, e passou
rapidamente. Quando chegou a sexta feira, seu marido pediu que ela o buscasse
no aeroporto, estava com saudades.
Qual foi a sua surpresa
quando abriu o porta-malas para guardar a mala, e encontrou o pacote, ela olhou
para ele, desconcertada, e disse que mais tarde conversariam.
Artur achou a atitude
estranha, mas estava cansado da viagem, e concordou em esperar.
Enquanto isso Valeria
pensava como poderia explicar, que fizera tantas coisas erradas, no seu passado.
Ela o amava demais, não queria carregar marcas de um passado sem juízo.
Tinham um combinado, deveriam
ser honestos e sinceros, um com o outro,
naquelas páginas, um mundo distante de sua vida atual, como se relatasse os
dias de uma estranha. No dia seguinte, encontrou um momento bem calmo, sentou
no sofá ao lado de Artur , e lhe contou, omitindo várias partes, que aquele era
seu diário, que encontrara e ela havia escondido, para que os meninos não o
lessem.
Ele a ouviu, calmamente, a abraçou e disse não se
importar com esse assunto, recomendou que ela o jogasse fora. Valéria respirou
aliviada, talvez seus segredos continuassem seguros e distantes, mas a dúvida, de
quem o lera permaneceria para sempre. Por mais que tentasse, sabia que não poderia
fugir daquelas páginas.
O DIÁRIO DE GLAUCIA - Christianne Vieira
O DIÁRIO DE GLAUCIA
Christianne Vieira
Uma tarde chuvosa, um dia tristonho com cara de
inverno, bom para dormir a tarde toda, se entupir de chocolates, assistindo a
um bom filme. Teria uma tarefa muito chata pela frente, desmontar a casa de
seus pais. Já empacotara quase todos os
objetos, roupas, utensílios de cozinha, jardim, e mais um monte de cacarecos
acumulados ao longo de muitas décadas. Olhava
ao redor e parecia que nunca conseguiria dar um fim.
Glaucia já estava muito
cansada, cheirava a pó, e naftalina, não sabia porque os antigos gostavam de
encher os armários com elas. O ar
parecia ser ainda mais velho, dentro deles.
Ela odiava essa tarefa, e
tudo que se relacionava a ela. Arrumação era a atividade número um, na sua
lista de coisas odiosas. Seus irmãos viviam ocupados, ela foi a intimada.
Teriam que entregar o imóvel em poucos dias, e empacotar três décadas, de história.
Tentou muito se esquivar,
fingiu estar em crise de rinite, simulou uma virose, mas nada adiantou. Bom,
sem saída, foi para lá e resolveu que terminaria logo com essa chatice.
Agora, só restava, o último
e temido cômodo, o quarto de despejo, lugar esse que todos, por vários anos, despejaram
tudo aquilo que não gostavam, ou queriam
, na verdade se livrar.
Entrou com cuidado, devido a
pilha de badulaques jogados, prontos para espatifarem, ou até mesmo soterrá-la em
escombros.
Como o passado pode ser tão
pesado?! Como pode carregar tantas angústias? Mexer nessas pilhas, era o mesmo
que cutucar feridas ainda abertas, ou questões mal resolvidas.
No entanto, ela não tinha mais
o que fazer? Uma vez, que se encontrava sem saída, teria que começar. Uni duni
te, a escolhida foi você. Apontou na direção da pilha sorteada ao acaso, e
retirou a raquete de tênis, sem cordas, que estava no topo... embaixo encontrou
uma caixa lacrada com durex, era tanto durex, que se alguém tivesse que se
enforcar, talvez conseguisse.
Era muito velho, parecia verter
uma gosma, fantasmagórica assustadora. Imaginou-se entrando em coma, em contato
com tantos ácaros.
Foi soltando toda aquela
meleca, até que liberou a tampa da caixa. Primeira parte concluída. Ufa, já era
algum progresso, continuava viva.
Encontrou então livros,
cadernos, todos encapados, com plástico colorido, veja bem, não era contact,
ultra moderno, era o velho plástico mesmo, que dava o maior trabalho na hora de
embalar. Ela lembrava da dificuldade!
No fim da pilha, surpresa, um
diário rosa, gordo, tão gordo que nem fechava.
Tinha tantas coisas coladas entre as paginas, que se assemelhava a listas
telefônicas.
Essa história de remexer no
passado estava ficando alucinógena. Se contasse para algum jovem, eles achariam
que ela estava realmente pirada.
Respirou fundo. Quantas lembranças
ele havia guardado ao longo desses anos?
Fazia tanto tempo, que ela
não se lembrava. Abriu a contracapa, nome, Glaucia, idade, 14 anos.
Meu Deus, já fazia quase
quarenta anos... Quantas coisa ela vivera depois disso! Talvez até gostasse de
ler.
Essa época em sua vida, fora
repleta de descobertas, a primeira paixão, a mudança de escola, o turbilhão de
hormônios que faziam da sua vida uma montanha russa.
Seria uma forma de
chacoalhar sua vida monótona. Fazia tempo que não encontrava cor e alegria.
Aqueles anos, de
adolescência cheios de cor, planos, quando amava cada embalagem de chup chup morango colado, se preocupava com cabelo, ou com espinhas.
Chorava escutando na vitrola musicas românticas.
Distante, mas muito vivo dentro dela.
Como se um portal tivesse
sido aberto, o passado e o presente
andassem lado a lado. Sentou em um cantinho, parecia ter encontrado um pote de ouro no fim
do arco-íris, aquele diário estava salvando sua vida, descortinando sua alma.
Quem sabe, seria seu passaporte para uma nova chance de ser feliz?!
O diário. - Amora

O diário.
Amora
Hábito
comum havia antigamente, fazer diário. Era uma forma de expressar sentimentos,
comunicar-se, registrar momentos importantes e inesquecíveis. Ou escreviam
cartas longas, ou marcavam em seus diários, o que não queriam esquecer.
Eu
mesma, na infância e adolescência, fiz um diário. Não escrevia à máquina nem,
atualmente, em computadores. Já estamos até entrando em nova era, quando só
basta “pensar” que fica registrado. Não
entendo muito sobre isso, mas será num futuro bem próximo.
Sinto
falta daquele tempo, quando a única preocupação era esconder o diário para que
ninguém o lesse. Hoje, a invasão da nossa privacidade é muito
maior. Triste isso! Parecemos robôs ou marionetes manejados nem sabemos direito
por quem? Suas intenções! Qualidades! Objetivos!
Controlados,
talvez por máquinas! Sem vida. Sem alma. Falta espiritualidade.
Gosto
das coisas antigas, dos costumes, linguagem, educação, respeito, atraem-me.
Apego-me a filmes, livros, objetos, museus, até vestuário. Espero que sejam
preservados para sempre!
Ah!
Lembro-me, agora! Entrei, certa vez, numa casa velha, vazia, colocada à venda
para demolição. Talvez um novo prédio, cheio de divisões ou compartimentos.
Mania perigosa que tenho!
Sua
construção antiga, arquitetura refinada, lembrando estilo barroco, período
rococó, revelou mais ou menos a personalidade da família que ali morou. Gente
abastada! Nobreza! Bairro de São Paulo considerado muito chique, em tempos
passados, Campos Elíseos.
Visitei
os cômodos enormes, tetos altos, algumas pinturas existentes, desenhos
descascados que ainda se viam sob o desgaste aparente.
Muito
surpresa, verifico, num dos quartos, uma velha cômoda de cerejeira, estilo Luís
XVI. Cheia de gavetas enfeitadas com puxadores de cobre. Com certeza, não
despertou interesse de ninguém, ou não a
tenham visto. Deve valer muito nas lojas
de antiguidades, apesar do estado.
Curiosa
desde menina, sempre sonhadora e romântica, verifico se as gavetas ainda abrem.
Sim, uma delas, a última, não está
emperrada. Abre facilmente.
Entre
alguns papéis irreconhecíveis e jornais esmaecidos, o que vejo? Um caderno capa
dura, amarelado pelo tempo, com folhas rasgadas nas pontas. Abro-o e percebo
ter sido um diário. Alguém deixara nele, com tinta nanquim, ainda visível,
escrito à pena, com certeza, impressões de uma vida.
Emocionada,
sem que ninguém visse, apanho-o, fecho silenciosamente a gaveta, coloco-o na
sacola e saio, às pressas, com medo de ser interceptada. Senti-me carregando um tesouro, a ser
escondido e revelado em minha casa, meu sofá, local predileto de leitura e
filmes.
Feliz
por morar sozinha, dessa vez, pois não seria importunada por ninguém! Era um sábado, 18 de março de 2000.
Sento-me
de modo confortável e, com mãos trêmulas, controlando meu coração acelerado, folheio,
delicadamente, as primeiras páginas. A tinta muito clara e a letra leve,
redonda, formando pequenas curvas mais acentuadas, demonstram ser de mulher.
Realmente, mulher jovem, alegre e apaixonada, percebo logo. Seu nome, Valéria.”
São Paulo,
25 de maio de 1912, 8,00 h.
Hoje,
levantei-me contente, querido diário, meu amigo mais íntimo, de todas as horas.
Dia claro, ensolarado, céu sem nuvens, novidades boas no ar. Soube, ontem, por papai, que meu prometido, Alfredo,
está para chegar da Europa. Acompanhado pela mãe e irmãos, findou seus passeios
e estudos em Paris, após rumores de guerra, principalmente França.
Finalmente,
vou rever meu quase noivo, escolhido por nossas famílias, entre tantos primos e
conhecidos que temos.
Gostei muito
dele, colocando em Alfredo minhas aspirações de felicidade.
O meu dia
hoje será de preparativos, idas a costureiras,
enxoval, muitas coisas que mamãe irá resolver. Sinto-me feliz.
Após
algumas interrupções, voltei à leitura no dia seguinte.
São Paulo,
05 de junho de 1912, 10,00h
Querido
diário. Não tenho escrito muito nesses dias, porque a correria está sendo
grande.
Amanhã,
iremos a Santos esperar Alfredo e família que chegarão no vapor das cinco. Meu
entusiasmo é grande e minha saudade também. Estou muito ansiosa com tantos
preparativos e não vejo a hora de repousar em seus olhos claros, desmaiar no
seu sorriso bonito, seu porte elegante e calmo. Ele é diferente dos rapazes que
conheci até hoje.
Continuo
lendo, bastante interessada, em outro momento.
São Paulo,
20 de junho de 1912, 9,00h
Alfredo
chegou! Sua aristocrática família, também. Alegre, saudoso, gentil, encheu-me
de carinhos e presentes, demonstrando que não me esqueceu, apesar dos anos fora
e tantos conhecimentos adquiridos. Morria de medo que, com o tempo, esquecesse do
seu compromisso aqui, no Brasil. Quanto a mim, bastou um sorriso seu para
voltar todo o meu entusiasmo e amor por esse homem que preenche tudo que penso
em assuntos românticos e sentimentais. Gosto dele e, se não casarmos, não quero
mais ninguém!
“novo
dia, nova leitura.”
São Paulo,
09 de julho de 1912, 9,00h
Querido
diário, sempre apaixonada, espero Alfredo todas as noites. Tem vindo jantar e
passa horas conversando com papai, no escritório. Acho que conversam sobre sua
viagem e estudos realizados. Ambos são
advogados e têm muita coisa em comum. Logo marcaremos uma data para o nosso
noivado que, segundo ele, será rápido, marcando o casamento quase em seguida.
Será mais uma satisfação à sua mãe e à sociedade, amigos que frequentamos.
Vejo-me
envolvida com Valéria.
São Paulo,
01 de agosto de 1912, 10,00h
Hoje o
dia amanheceu lindo. As rosas do jardim parecem mais brilhantes e vivas,
combinando com o meu coração.
Querido
amigo diário! Meu noivado foi ontem, maravilhoso, sentindo-me a mais feliz das
mulheres. Alfredo nunca foi tão amoroso e gentil! Nossa festa deu certo, meu
vestido ficou muito bom, os convidados estavam alegres, participando da nossa
felicidade. Os familiares contentes, confirmando ser a nossa união do agrado
geral.
Nunca
me senti tão segura e certa do passo
sério que é um casamento. Já me sinto
unida a Alfredo como se nunca tivesse separado.
Algumas
amigas que hoje são casadas, não sentiram essa segurança. Pareciam estar
nervosas e indecisas até o grande dia, quando se acalmaram. Marita foi uma
delas, minha melhor amiga, nervosa como só ela. Será minha madrinha. Ela e o
marido Leandro, que é tão bom quanto Alfredo será.
Que
interessante! E agora, o que virá, tantos anos antes?
São Paulo,
04 de setembro de 1912, 9,00h
Meu
casamento foi marcado para 12 de dezembro, dia do aniversário da minha futura
sogra. Os preparativos são muitos, roupas, moradia, móveis, presentes,
convites, escolha da igreja, ensaios, número de convidados. Eu e Alfredo
estamos meio estressados. Mal temos tempo par conversar, namorar como fazíamos antes. Nunca pensei que
um casamento desse tanto trabalho. Ele, coitado, começou a trabalhar, montando
um escritório de advocacia na Rua Direita, em sociedade com um amigo. Seus
momentos de lazer terminaram. Ultimamente, temo-nos visto pouco. Sinto sua
falta e espero que o casamento chegue logo.
Entusiasmada
e emocionada, continuo lendo seus relatos como se fosse um romance.
São Paulo,
12 de outubro de 1912, 8,00h
Meu
diário, meu companheiro. Escrevo aqui minhas preocupações também. Ando
entristecida porque não tenho visto meu noivo como queria. Como nos víamos
antes. É tanto trabalho, tanta coisa para resolver, que vou acabar ficando
igual às minhas amigas, nervosas até a cerimônia. Marita tem me ajudado vindo várias vezes fazer companhia. De vez em
quando, olha-me assustada, como se quisesse me dizer alguma
coisa. Acho que é preocupação demais. Sempre foi meio cismada. Logo chega
dezembro e tudo se resolve.
Novas
palavras no diário: percebo, preocupada...
Tudo indica alguma modificação no assunto.
São Paulo,
15 de novembro de 1912, 10,00h
Tenho
escrito pouco. Até vontade e tempo de escrever está sumindo. Faz uma semana que
Alfredo não aparece, alegando muito trabalho e pequenas viagens. Parece que a
guerra na Europa está começando mesmo e isto o tem preocupado. Medo que atinja
também o Brasil. Meu pai também anda preocupado e olha-me compadecido. Sinto
algo no ar! Alguma notícia estranha. Desabafo-me com você, coloco minhas
preocupações nessas linhas estreitas, em você, meu diário. É a única maneira
que tenho de falar, sem causar constrangimento.
Entristecida,
prevejo outro final para a linda história de Valéria!
São Paulo,
28 de novembro de 1912, 10,00h
Não
tenho vontade de escrever! Sinto que amadureci ou endureci de repente, querido
diário. Minha angústia e tristeza é tanta que, acredito, seja o dia de hoje,
uma despedida. Deixo aqui gravadas, em você, meu amigo, como se fosse alguém e
não um objeto de expressão.
Após
algum tempo de pequenas frustrações, ausências repetidas e desculpas de Alfredo,
recebo a visita de Marita que, muito reservada, chama-me ao meu quarto para
conversarmos. Com muita delicadeza e mágoa, prepara-me para uma notícia triste.
Soubera, pelo marido, que Alfredo se apaixonara por uma mulher humilde, muito
bonita, com um filho a caminho, querendo desfazer o compromisso de noivado, mas
não tem coragem. Abriu-se com a mãe que, de desgosto, mudou-se para outra
cidade. Não poderá haver mais casamento, nessa situação. Alfredo sempre foi um
homem sentimental, um pouco fraco e
sensível, colocando a beleza e a arte como qualidades principais em sua
vida. Gostou de outra, trocando cultura,
posição e riqueza por simplicidade e beleza de outra pessoa. Uma costureira.
Desfaleci
e Marita me amparou. Nem coragem de vir me contar, teve.
Acho que
vou morrer! Não acredito em mais ninguém!
Após
ler tantas folhas espaçadas e interrompidas por minhas atividades, comovo-me e
choro, percebendo que o diário de Valéria
mexeu comigo, fazendo um diário na minha vida também, levando alguns
meses para sua leitura.
Guardei-o
amorosamente em minha gaveta. E, meses mais tarde, folheei-o, vendo uma página
solta, escrita às pressas, pelas poucas palavras e entusiasmo.
São Paulo,
o2 de abril de 2013, 8,00h
Meu
diário, estou me despedindo, virando sua última página em minha vida. Após o
rompimento com Alfredo, sofri uma grande depressão, pensando em acabar com
tudo. Felizmente, fui salva por meu médico que me encaminhou a um serviço
voluntário com crianças doentes. Conheci Roberto, um médico pediatra. Apaixonamo-nos e devo casar em breve. Minha
lua de mel será nos Estados Unidos! Encontrei novamente a felicidade. Adeus!
O fio. - Amora

O fio.
Amora
Pessoas passam por nossa existência, deixando
vários tipos de marcas! Boas ou más! Prefiro recordar as boas.
Tenho setenta e quatro anos e, acho a vida muito
rápida, percebo agora. É curta demais!
Gostaria de ter feito mais coisas.
Alguns
conhecidos foram importantes, mudaram meus caminhos, outros, deixaram
lembranças, sem muito significado.
Recordo-me
de todos. Não memorizo muito os nomes, mas rostos são difíceis de esquecer.
Uma
colega de escola, no Bairro do Limão, minha primeira classe causou-me profunda
impressão. Dela, lembro-me do rosto simpático e do nome: Claudete Barbosa Hirsh.
Eu
era muito tímida, recém-casada, tive dificuldades de relacionamento. Grande
número de professores e diretor bravo e exigente.
Ela
me procurou com delicadeza, orientou-me, tornando-se grande amiga. Devo-lhe
muita compreensão, bondade e colocação no ambiente escolar.
Mais
tarde, soube que nossos maridos eram colegas de profissão, conheciam-se e, ela,
também professora de evangelização espírita, dizendo sempre que havia um fio
espiritual entre nós. Uma ligação. Eu ria, não acreditava muito, mas respeitava
sua crença.
Quando
pedi demissão dessa escola, despedimos-nos com tristeza. Sem eu saber, continuou
acompanhando minha vida, mesmo sem nos vermos.
Anos
mais tarde, por necessidades financeiras, precisei voltar a trabalhar e, espantada,
recebo um telefonema de Claudete, preocupada, informando-me que haveria um novo
concurso na prefeitura e que eu poderia prestar. Pergunto-lhe como sabia de
minha situação e ela responde rindo: é o fio, lembra-se?
Inscrevi-me,
prestei o concurso, passei, reiniciando como professora em Guaianazes, às sete
horas da manhã. Fui me removendo aos poucos, até a aposentadoria, no Bairro da Casa Verde.
Devo,
atualmente, minha posição, ao trabalho na prefeitura, e, meu retorno à carreira
de professora, a essa amiga que nem sabe o bem que me causou!
Pessoas
passam pela nossa vida e, felizmente, deixam marcas suaves de solidariedade e
amor ao próximo! Nem percebem!
RECORDAÇÕES - Hirtis Lazarin

RECORDAÇÕES
Hirtis
Lazarin
O porão de casa estava abarrotado de
caixas com tudo que você possa imaginar.
Caixas com livros que já li, caixas com livros que pretendo ler, com
fotos que só pararam de crescer por conta da tecnologia que as guarda nas
nuvens. E a maior e a mais pesada de
todas, a que abriga o "GOOGLE"
de antigamente, as famosas enciclopédias.
Mexendo aqui e acolá, descobri no
meio de uma pilha de revistas antigas, encostadas num armário, algo me chamou a
atenção. Era um antigo diário. Lembro-me bem. Comecei a escrever aos treze anos e só parei
aos vinte quando, então, me casei. Confesso, emocionei-me a ponto de não ter
vergonha de chorar. Estava amarelado,
judiado por tantas viagens que já fizera.
Não sei como ainda existia.
Representava um pedacinho da minha vida. Um período em que tínhamos horário pra voltar
pra casa e obedecíamos sem nenhum drama, coisas bobas não nos frustravam, não
precisávamos beber nem se drogar pra vida ter graça e beleza. Alimentação saudável? Comíamos de tudo,
ninguém tinha excesso de peso e nem conhecíamos a palavra celulite.
Ter um diário era o mesmo que ter um
amigo confiabilíssimo. Nele a gente
registrava o que queria, ele ouvia silencioso
e não opinava. Aceitava-nos do jeitinho
que a gente era.
Dei uma folheada cuidadosa pra não
danificá-lo.
Vou ler pra você e pra mim também uma
das páginas iniciais. Já se foram tantos
anos...
"Meu querido diário,
acho que você já se cansou de ouvir sempre as mesmas reclamações: que eu não gosto de ser tão magra, de ter
pernas finas e compridas e que meu corpo franzino dança dentro de uma calça de
cintura baixa e boca de sino. É que eu
me acho bem parecida com a "Olívia Palito namorada do Popeye". Ela teve sorte de arrumar um namorado".
Virei várias folhas e a página dez chamou-me a
atenção. O desenho de dois corações que
se cruzavam pintados de vermelho paixão.
"Meu diário querido, estou
feliz e tenho duas coisas pra contar:
a primeira é que o meu corpo está mudando. Minhas formas estão se
arredondando e já preenchem aquela calça comprida que eu odiava usar. Está na moda e minhas amigas usam... Estou vestindo meu primeiro soutien. É lindo,
branco de rendinhas. Minhas amigas já
se cansaram de tanto usar e eu só tinha no peito duas jabuticabas
insignificantes.
A segunda coisa é um segredo
secretíssimo. Sabe o Celso, aquele
garoto que, às vezes, vem estudar português comigo e que já fizemos algumas
coisas juntos? Tomar sorvete no bar do
Dante, comprar sonho na padaria do Biscaro, andar de bicicleta. Lembra?
Fiz até greve de fome pra ganhar minha Caloi Ceci...
Quando ele vai embora, sinto sua
falta. Gostaria que ficasse mais tempo
comigo. Fecho os olhos, inspiro e até
sinto o cheiro dele. Quando sua mão
toca-me sem querer, vem um friozinho delicioso. Se
conversa com outras meninas, tenho raiva e falta de ar. Ando imaginando cada coisa... Vejo-me abraçada a ele, passando a mão no seu
rosto, sorrindo aquele "sorriso-coração-sai-pulando". Escuto até as batidas descompassadas do meu
coração. E aí vem uma vontade enorme de
juntar minha boca na boca dele, sentir o gosto de sua saliva, esquecer-me de
tudo presa naqueles braços fortes.
Sabe diário, tô atormentada porque
essa coisa tá aumentando a cada dia. Não
sei o que fazer. Será que tô
apaixonada? Só sei que é uma
sensação deliciosa. Quando eu souber, conto pra você. Meu Deus, já é meia-noite. Escutei os passos arrastando chinelos do meu
pai. Ele viu minhas luzes acessas. Vem
bronca na certa. Tchau".
É gente, a vida é uma viagem num trem bala. Curta pra uns, mais longa pra outros. Uma viagem em que almas se encontram, se
esbarram, se unem, se esquecem. A vida é
o nosso maior presente. Ela nos chega em
pequenos pacotes, ora embrulhados com brilho, ora manchados de lágrimas.
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