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quinta-feira, 23 de março de 2017

Um bibelô de madeira - Jany Patricio

                
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Um bibelô de madeira
Jany Patricio

Tenho em minha estante um objeto de madeira, pintado com flores vermelhas e folhas e um verniz dando acabamento. Guardo este bibelô em homenagem a uma mulher à frente do seu tempo.

        É uma singela recordação da minha vó. Uma pessoa amorosa, como todas as avós. Brincalhona e sorridente.

        Em momentos da sua vida, ela precisou romper com tudo. Deixou os quatorze filhos crescidos e marido para ir para a Europa. Não um outro continente. O jardim Europa, na Vila Mariana  que na época  era formado por chácaras, onde havia muito verde. Diferente dos dias de hoje que tem estação de Metrô, prédios, lojas, residências e muito asfalto.

        Imagino que sua vida não foi fácil. Porém só me recordo dela com um sorriso no rosto, contando muitas histórias e amada por todos, apesar da sua rebeldia, para a época.

        Depois de viver alguns anos em São Paulo, ela voltou para Paulo Afonso. Sua casa, próxima a rua principal do centro, era aconchegante e aberta para os amigos, parentes,  filhos e netos,  que passavam por lá todos os dias para almoçar, tomar um café ou simplesmente para lhe dar um bom dia e um beijo.

        Lembro-me dela sentada em sua cadeira de balanço, cercada de gente, rindo muito com alguns dos filhos piadistas.


        Certa vez em que estive em Paulo Afonso, ela me deu uma xícara e pires de porcelana, que infelizmente quebraram e este bibelô que guardo com carinho. Quando olho para ele, me recordo dos momentos alegres que passei em companhia dela, da sua história, da sua leveza e da sua fibra.

ERA MUITO MAIS QUE AMOR - Hirtis Lazarin


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ERA MUITO MAIS QUE AMOR
Hirtis Lazarin

          Eu teria que criar um texto sobre um objeto que me recordasse alguém ou algum momento especial.

          Empreendi uma viagem pelo tempo que já se foi.  Encontrei vários objetos preciosos ao meu coração.  Um crucifixo de rubi que ganhei ao completar quinze anos, uma peça decorativa em Murano que foi de minha avó Virgínia, uma caixa de madeira que meu bisavô fez pra mamãe guardar trecos de costura.

          Nesse percurso de busca acabei chegando quase no início da história da minha vida.  Lembrei-me, então de uma caixinha de papelão envelhecida e bem amassada, tantos foram os acontecimentos que se sobrepuseram a ela.  Estava ali guardada a minha relíquia mais valiosa.   Não era um objeto palpável.  Era um  "SENTIMENTO" que brotou quando eu tinha apenas cinco anos e já frequentava o jardim de infância.  Um sentimento tão intenso que me amparou nos momentos mais difíceis e, podem crer, foram muitos.  Permanece vivo dentro de mim e, após tanto tempo intocável,   compartilho com vocês. 

          Nosso quintal era imenso.  Uma maravilha pra brincar.  Havia laranjeiras, um limoeiro do limão rosa, alguns pessegueiros cujos frutos eram ensacados ainda verdes pra que os passarinhos não os roubassem de nós.  Pra eles cresceram duas goiabeiras que frutificavam o ano inteiro.  Nunca consegui chegar antes deles e só comi goiaba cheia de furinhos.  Havia também um espaço bem grande de grama verdinha, cercado de arame e madeira.  Ali pastava o cavalo mais querido do mundo.  Mas não foi sempre assim.

          Papai era apaixonado por cavalos.  Lia tudo sobre eles.  Trouxe o Tufão de Minas Gerais.  Um cavalo selvagem.  Acostumado à liberdade, era rústico e agressivo.  Porte majestoso e olhar desafiador.  Não podíamos nos aproximar do cercado. Era prepotente, relinchava feito doido e sapateava até arrancar toda grama a sua volta.

          Desde a sua chegada, com papai foi um pouco diferente.  Ele entrou no espaço proibido falando manso, encarando-o nos olhos e sem demonstrar medo. Mas levou patadas e cabeçadas. Tombos e mais tombos.  Teve o joelho enfaixado por semanas.  Não desistiu até conquistar-lhe a confiança e Tufão passou a obedecer todos os seus comandos.   Tornaram-se grandes amigos. Bastava apenas um gesto de papai e ele obedecia. Pudemos, então, ser apresentados a ele.  

          Nascia ali o grande herói da minha vida: papai, um homem forte e corajoso, capaz até de dominar uma fera.

          E ao grande amor que eu já sentia por ele, juntaram-se confiança e admiração.  Sentimentos tão intensos que já nem cabiam mais dentro de mim.

          Papai foi meu porto seguro, a quem recorri sempre, enquanto esteve perto de mim.  Um exemplo que segui na sua ausência.

          O encantador de cavalos que me encantou.


          E foi pra sempre...

Que tarde! - Carmen Lucia Raso

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Que tarde!
Carmen Lucia Raso

De longe pude vê-lo abraçado à outra. Pareciam tão íntimos, tão antigos.

Respirei fundo, contei até cem em alguns segundos, sem sequência ou coerência.

Parada quase no meio fio,  sem que me notasse, fiquei escondida atrás de uma árvore de tronco largo e galhos fartos que me dava total cobertura e eu observava com olhos de lince e coração de presa amedrontada.

Não sabia bem o que fazer, se atacava como caçadora ou me mantinha estática para que não me encontrasse.

Os abraços entre eles me arrepiavam de raiva, eles riam muito, ele passava as mãos nos seus cabelos e seus olhos percorriam aquela moça de linda aparência, de cabelos longos, cacheados, se afastavam de mãos dadas e logo vinha mais um abraço.

Tinha a sensação de que o tempo não passava, alguns segundos, uma hora, uma eternidade? Não saberia dizer.

Fiquei triste, brava e ao mesmo tempo decepcionada pelo que via do outro lado da rua.

De repente um vento gelado me acordou daquele transe, daquele turbilhão de sentimentos em que me encontrava.

Que horror! - pensava.

Um homem que passava por ali quis saber sobre uma doceria numa rua que eu não conhecia e lá fui eu desviada da minha espreita.

Onde estão? Perdi os dois de vista! Não acredito que sumiram. Onde foram?

Atravessei a rua em busca do que me aguardava.

De repente bateram de leve em minhas costas e quando virei meus olhos encontraram os daquela moça que ha pouco se abraçava ao meu namorado e me dei conta de que ela se parecia muito com ele. Em seguida ele chega com flores estendidas para mim.

— Pra você, meu amor!

Não entendi mais nada.


   Dois presentes, as flores, e minha irmã gêmea que foi criada na Itália, por nossos avós e acaba de chegar. Como eu vinha me encontrar com você resolvi marcar nosso encontro aqui mesmo em frente a Livraria para tomarmos nosso café. Não foi aqui que marcamos?

quarta-feira, 15 de março de 2017

Crime sem solução - Dinah Ribeiro de Amorim

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Crime sem solução
Dinah Ribeiro de Amorim

O velho conde Howard, solteirão inveterado, envelhece sozinho em pleno casarão da família, na pequena cidade de Yorkshire.

Auxiliado pelo  fiel mordomo Joseph, recebe cuidados especiais desde que  virou cadeirante, após um terrível tombo nas escadas do jardim. Mesmo assim, não desiste! Todas as manhãs, é levado a passear pelas alamedas e trilhas, recebendo os primeiros raios de sol, nos dias quentes ou, a brisa leve do inverno, quando se anuncia.

Sua vida simples e reduzida de alegrias, transforma-se quando o médico da família lhe encaminha Dolly, boa fisioterapeuta, de gênio extrovertido, brincalhona e provocante.

Howard fora um rapaz bonito e atraente, dono de grande fortuna e excelente cultura, conhecedor de vários lugares, em longas viagens.

Dolly se encanta com seu novo paciente. Além das boas possibilidades de uma melhora, admira sua conversa, conhecedor de tantos assuntos.

Substitui logo as tarefas do mordomo, levando-o ela mesma a passear fora do jardim, causando em Joseph ligeiro ciúme do patrão. Servia a família há muito tempo, acostumado a tomar iniciativas e decisões importantes, não admitiria que uma moça estranha, embora trouxesse melhoras, assumisse  seu lugar.

Howard e Dolly se apaixonam e, apesar da deficiência, resolvem se casar. A vida simples e pobre da moça se transforma em dona de uma mansão e herdeira de grande fortuna, com a chegada de um tabelião para o registro, sendo testemunhas Joseph, o mordomo e Vivaldo, o jardineiro da casa.

Vivem felizes durante certo tempo, transformando-se Howard em nova pessoa. Mais alegre, comunicativo, abrindo a mansão para conhecidos da pequena cidade e realizando notáveis festas e bate-papos, incluindo também os amigos de sua mulher. O fato de ser cadeirante não o importa, aceita melhor sua situação, graças a Dolly.

Ela continua tratando-o com o mesmo amor e carinho do início, preocupada com sua saúde e situação.

E assim  levam a vida, felizes um com o outro, até que num domingo, após voltar da missa, Dolly encontra Howard caído no jardim, com a cadeira por cima. Dá um grito desesperado, atraindo Joseph e moradores da região.

Tenta socorrê-lo, mas percebe que já é tarde. O corpo gelado e marcas de sangue pelo chão. Que teria havido, perguntam todos. Não há indícios de roubo, queda por alguma pedra ou entrave que pudesse virar a cadeira e tombá-lo. Será que tivera algum mal súbito, caindo e batendo sua cabeça no chão. Perguntas e mais perguntas que não sabiam como responder.

Joseph, assustado, chama a ambulância e, consultando Dolly, chama também a polícia.

O corpo de Howard é levado ao hospital, sendo a causa da morte uma batida forte na cabeça, causada por queda ou algum objeto de raspão, fazendo-o tombar, perdendo o controle de sua cadeira.

A situação se torna estarrecedora, com Dolly chorando pelos cantos, Joseph, murcho, calado, sem ação após a morte de seu patrão, a quem servira por tantos anos, obedecendo mecanicamente ordens da patroa que quase não saia do quarto.

Por ordem do inspetor de polícia, John Vincent, ninguém deveria deixar a casa até a solução do caso. Dolly o amava e já era dona de tudo. Joseph não trairia seu patrão, única incumbência de sua vida. Vivaldo, o jardineiro, não ganharia nada com isso. Perderia somente o emprego e o sustento da família.

Alguns amigos são chamados, mas a maioria, num domingo de manhã, possuía álibi, provando estar em casa.

Passa o tempo, muitos aparecem dando condolências durante o funeral, desaparecendo aos poucos, retomando suas vidas.

Somente Dolly e Joseph permanecem na mansão, pouco vistos, fazendo exclusivamente tarefas necessárias. A aparência de Dolly  se transforma. Toda a sua exuberância festiva agora é de uma tristeza profunda e angústia infinita. Envelhece um pouco a cada dia.

O inspetor Vincent, não achando solução para o caso, resolve arquivar o processo como morte natural, libertando os prováveis causadores daquela privacidade. Nem era preciso, pois não se via nem ouvia mais nada naquela casa.

Só Vivaldo, o jardineiro, é chamado para limpar o lixo e aparar a grama do jardim, que há muito não era feito. Acabou-se a beleza dos passeios pelos bosques floridos e trilhas iluminadas de  raios solares.

Subitamente, abaixando-se para aparar um arbusto, Vivaldo percebe um objeto estranho, e se assusta. escondido num canto, havia um pequeno revólver, bem perto de onde o patrão morrera.

Chama depressa sua patroa que, branca como cera, que chama a polícia. Encontrada uma arma na casa. Bem no jardim que Howard tanto gostava.

Novamente o inspetor Vincent vai ao local da morte, aconselhando-os a não tocarem no objeto. Embrulha-o com cuidado para não apagar digitais. Quem sabe poderia desvendar o mistério!

Providências de praxe são tomadas e após muitos dias, descobrem-se na arma as digitais de Howard. Ele tentara se matar, num momento de depressão que ninguém percebera. O único que sabia de seu estado era o médico, que não comentara nada por sigilo profissional. Era essa a causa do raspão na cabeça, seguido de queda. O tiro não acertara o alvo e ele cai batendo a cabeça. A queda causara a morte, mas a causa fora suicídio.

Como não percebera seu estado, pergunta-se Dolly, agora sim, sentindo-se culpada. Afinal, seu marido, continuava sendo seu paciente.


Joseph, mordomo de tantos anos, resolve voltar para sua casa, rever parentes, abandonando a profissão que lhe trouxera alegrias iniciais e tanta tristeza no final.

À Regina, amiga fiel - Dinah Ribeiro de Amorim (Amora)

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À Regina, amiga fiel
Dinah Ribeiro de Amorim (Amora)

Fiquei muito emocionada com o nascimento de minha primeira filha, em 1969.

Ganhei do meu marido, na ocasião, um lindo valioso anel de ouro, enfeitado com pequenos brilhantes e um rubi no centro.

Nunca me liguei muito em joias, mas achei-o lindo.

Além da alegria de uma filha saudável, várias manifestações de amigos e um anel valioso de um marido feliz.

Usei-o várias vezes, combinando-o com um par de brincos.

Meu casamento não deu certo, por motivos que nem sei explicar direito, agora.

Separada, com dois filhos, necessitei de dinheiro e vendi o anel a uma grande amiga, solucionando uma dívida contraída na época.

O tempo passou, os problemas também e, qual não foi a minha surpresa quando, de repente, recebo o  anel de volta, da bondosa amiga que, com sinceridade, achou que teria que devolvê-lo. Objeto meu de grande estimação!

Quem gostou disso foi minha filha, a herdeira dele, num futuro próximo ou longínquo, quem sabe?

A compoteira que viu o Imperador. - Dinah Ribeiro de Amorim (Amora)


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A compoteira que viu o Imperador.
Dinah Ribeiro de Amorim (Amora)

Moro em apartamento pequeno, sobrecarregado de coisas. Móveis antigos, quadros de minha autoria, fotos antigas de festas, netos pequenos, filhos, viagens, enfim passagens de minha vida. Todos são valiosos e representam muito para mim, lembranças e saudade.

Olhando-os, começo a imaginar qual seria o mais valioso e importante, continuação na família.

Reparo, então, numa compoteira de cristal que foi de minha bisavó paterna, oriunda de Porto Feliz, estado de São Paulo. Descendente de bandeirantes, serviu um almoço para D.Pedro II, colocando um doce caseiro, nessa compoteira. Nosso imperador passava por lá. Lugar muito importante, na época, rota de comércio para  o interior.

Foi dedicada a mim, após sua morte, mas só chegou às minhas mãos, encaminhada por meu pai, muitos anos depois, com o falecimento de uma tia, que a teve em seu poder, durante vários anos. Coisas de família.

O importante é que está comigo, enfeitando uma estante antiga, junto a outros vasos e licoreiras, mas, pelo desenho, som do cristal emitido, percebe-se logo que seu valor é antigo, histórico e inestimável. Distingue-se dos outros.

Espero ainda contemplá-la por muito tempo, mas encaminharei para alguém, da família, que dê valor à nossa história. Minha filha ou neta, talvez!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Pequena Ilha de coral - Christianne Vieira

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Pequena Ilha de coral
Christianne Vieira


Nogueira se acomodou confortavelmente na cadeira. A sua frente, um monitor cheio de imagens. Estava mergulhado nessa pesquisa há vários meses e, quando parecia ter encontrado um caminho, percebia um erro e retornava ao início. Como era possível existir uma Ilha Fantasma?

Sendo um renomado Oceanógrafo, não podia admitir. Por meses  utilizara informações privilegiadas da Agência Espacial Internacional. Seu chefe o pressionava por respostas, já desperdiçara muito tempo, verba e longas noites de insônia.

Resolveu então checar as mensagens no correio eletrônico, o que seria uma boa forma de relaxar e, para a sua surpresa, havia um e-mail que logo lhe chamou a atenção: “Lenda da Ilha Fantasma”.

Mesmo pensando que estaria desperdiçando seu tempo, abriu a mensagem.  Logo na primeira parte, sua curiosidade foi se aguçando, e, intuitivamente, acreditava ter encontrado uma nova fonte de pesquisa.

Um morador de Vannuatu, chamado Branch, lhe contou que conhecia uma lenda   da ilha fantasma.

Um corsário muito cruel, de nome Creek, havia enterrado um baú cheio de Coroas de ouro, que ele havia saqueado de uma embarcação  holandesa, durante as expedições marítimas .Ele tivera ajuda de uma moradora local, conhecida como feiticeira, e após o enterrarem, lançara uma maldição sobre a ilha.

A ilha ficaria submersa em boa parte do tempo e, só os aborígenes que bem conheciam a região seriam capazes  de encontra-la. Um mapa em pergaminho, muito antigo, desaparecido há muitos anos, continha as as coordenadas de onde este baú teria sido enterrado.

Branch se colocava à disposição e esperava encontrá-lo em breve.

Ao acordar no dia seguinte, tratou logo de esquematizar um pedido de verba, mas sabia que correria o risco de ser negada. A agência estava enxugando os gastos, o ano estava com o orçamento comprometido.

Leu diversas vezes seu projeto e se encaminhou para a sala de seu chefe.
Ao término da leitura, fez  perguntas sobre o tempo que essa aventura poderia levar e, as razões para tantos investimentos.

Nogueira explicou tudo detalhadamente e ficou na torcida aguardando respostas. Pela sua experiência, sabia que demoraria até uma semana para ser analisada pelo comitê.

Enquanto aguardava, foi estabelecendo um contato mais estreito com Branch que lhe enviava mensagens com perguntas pesquisando todo e qualquer fato que se relacionasse a Grande Barreira de Corais.  Descobriu fatos interessantes sobre o Mar de Coral, e as batalhas travadas  durante a segunda guerra mundial. Sempre se interessou pelo assunto, pois lembrava de sua visita ao porta aviões Midway na baia de San Diego acompanhado de seu pai. Essa era uma das razões de ter escolhido  sua profissão: o fascínio que o mar lhe causava.

Branch, muito solícito, lhe enviara fotos e recortes de jornais locais para contribuir com a pesquisa.

Tinha interesse ainda  maior sobre a curandeira e a sua possível feitiçaria. Um pesquisador nunca poderia acreditar em tais sandices. Mas, para o povo local esse comportamento era muito normal.

Nessas ilhas tão isoladas do mundo globalizado, a  cultura e o folclore eram seguidos por gerações.

Após sete dias, de muita angústia, chegou a confirmação, e já poderia voar para a aventura.

Foram dois dias e muitas escalas até conseguir pousar em Brisbane na Austrália. Dalí partiria para Nova Caledônia.

Branch o aguardaria em Vannuatu. Ao chegar à ilha se dirigiu ao escritório, que tinha uma atmosfera rústica e acolhedora, bem típico dessa região. A porta em madeira de construção, envelhecida, nas paredes várias fotos de barcos de pesca e mergulho. O seu negócio era o mais importante da ilha.

Tudo estava claro,  Branch  também tinha interesses nessas lendas, o mistério o ajudaria a vender seus passeios.

Conversaram durante algumas horas sobre o tema, Nogueira levou uma pasta contendo informações sobre as ilhas.

Cansado da maratona da viagem, foi dormir cedo. Acordou revigorado e, como haviam combinado, foi ao escritório de Branch.

Partiram para as ilhas, todas de uma beleza inigualável, pediu que parassem na ilha mais próxima da considerada  fantasma.

Primeira parada: Willis Islets, em busca de pistas ou relatos sobre as lendas ou de informações à respeito.  Das ilhas do arquipélago, somente nesta havia uma base meteorológicas, as outras desabitadas. Ouviu tantas estórias diferentes, que sua mente embaralhava. Seguiram pelas outras pequenas ilhas próximas: Magdelaine Cays, Coringa Islets, Tregrosse Islets e nenhuma nova informação se acrescentou. 

Cansado, retornou a Vannuatu no dia seguinte, pois  voltariam a visitar a Grande Barreira de Corais. Os aborígenes residentes destas ilhas são muito envolvidos com suas crenças e a comunicação com eles é dificultada devido a tantos dialetos. Conheceu Venalu, um homem de aproximadamente 80 anos, quase todos dedicados à pesca.

Ele fazia parte de uma cooperativa e todos viviam no mar e de atividades ligadas a ele.

Era um líder local  e seus conhecimentos tinham muito valor. Para eles, aborígenes, não há diferença entre o mundo espiritual e físico.  Existem almas ou espíritos, não só em seres humanos, mas também em animais, plantas, rochas, características geográficas, entidades do meio natural, como o trovão, o vento ou as sombras.

Parecia que uma cortina se abria diante seus olhos, pois a partir disto poderia encontrar alguma resposta.

Esse povo indígena, cheio de superstições, carregava as crenças, durante toda a sua vida.

Nogueira perguntou a Branch como poderia se encontrar com esse pajé?
Os homens das aldeias caçavam animais e pescavam. A  arte era a forma  de comunicação, e seus instrumentos de trabalho, cheio de pinturas e inscrições, contavam as histórias do povo e a relação com as divindades.
A mãe serpente era representada pelo yidaki, um instrumento cujo som era puro encantamento.

Venalu recebeu Nogueira e não se surpreendeu com as perguntas feitas, todas pertinentes ao sumiço, ou da existência da Ilha Fantasma.

Ele disse que uma curandeira, de outro clã,  fora rendida por piratas e fizera um acordo, para ser  libertada, deveria ajudar Creek a esconder seu mapa com as indicações de um baú enterrado repleto de coroas de ouro.

Ela o fizera a contragosto e, se utilizara de um ritual muito poderoso dos seus antepassados. A ilha  ficaria submersa  nove luas e depois permaneceria com sua maré baixa durante uma semana. Ao entrar a décima segunda lua, voltaria a ficar submersa novamente. Esse ritual deveria ser cíclico, até  o dia que, um novo pajé, o quebrasse. Tinha que ser do mesmo clã, e possuir mesmos dons de vidência.

Desde esse fato, todos os seus descendentes nasceram mulheres e, não apresentavam  capacidades de vidência.

A ilha fora visualizada e catalogada na décima primeira lua, por uma foto de satélite e, essa seria a razão de ser catalogada, depois ter desaparecido.

Nogueira se sentia ao mesmo tempo confuso e decepcionado. O que faria a partir de então?!

Suas pesquisas e seu tempo foram desperdiçados. Um cientista não poderia crer em rituais ou bruxaria.  Iria esclarecer seus superiores, abandonar a pesquisa e enterrar de uma vez, todos os meses que buscara em vão pela Ilha. Branch se encontrava da mesma forma, antes via esse mistério como uma boa fonte de renda.

Enviou seu relatório, fez as malas, mas agora levava consigo um novo mundo, rico em cultura e crenças, o qual nunca imaginou acreditar.


Coisas da vida - Hirtis Lazarin


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Coisas da vida
Hirtis Lazarin

          EU só tinha quinze anos...

          Cheguei ao mundo em meio a uma grande festa.  Mamãe já tinha perdido a esperança de ter o segundo filho.  Dez anos me separam do meu irmão Leonardo.

          Confesso.  Fui privilegiada pelos deuses.  Uma família completa, repleta de amor.

          Cresci respirando livros e telas pintadas.

          Meu pai era um pouco dos livros que leu e muito dos textos que escreveu.  Culto e sistemático.  Não dispensava terno, gravata e sapatos de croco.

          Herdou dos meus avôs a mais completa livraria da nossa cidade.  Tornou-se um mecenas literário.  Todo ano realizava dois concursos.  Um júri escolhia o melhor texto, papai editava e lançava no mercado.  Oportunidade de ouro aos novos talentos.

          Mamãe, artista plástica.  Simples e linda numa calça jeans desbotada e camiseta.  Generosa e sensível.  Sentia além dos sentidos, enxergava além do horizonte, voava além de suas asas   Era o equilíbrio entre a sofisticação e a simplicidade.

          Conjugava o verbo pintar tão bem quanto outros, até incompatíveis: limpar, passar roupa, organizar.

          Administrava nossa casa de um jeito só dela.  Sabia onde estava guardada aquela tesourinha que foi da vovó, sabia que o estoque de arroz estava no fim, que na camisa de linho branca do papai faltava um botão, que a torneira da pia pingava sem parar, e assim vai...

          Se percebesse uma nuvem negra e pesada ameaçando a paz da família, colocava na vitrola de estimação o "long play" das valsas vienenses, laçava o seu homem até a sala espaçosa e ali rodopiavam até cansar.

          Mamãe tinha seu ateliê no imenso quintal de casa, projetado entre flores e árvores frutíferas.  O vento cobria o chão com pétalas e frutos maduros.  Um paraíso às borboletas e passarinhos.  Um silêncio perfumado, fresco, transgredido  só pelo canto dos bem-te-vis.

          Com facilidade e muita arte, reproduzia em telas sutilezas da alma feminina.  Não se importava se a modelo era magra ou gorda, alta ou baixa, bonita ou feia.  Você olhava pra tela e aquele rosto, aqueles olhos já lhe contavam se era tristeza ou esperança, frustração ou felicidade, solidão ou sabedoria o que sentiam.

          As coisas lá em casa começaram a mudar...E de uma hora pra outra já não tínhamos mais um lar.

          E eu só tinha quinze anos...

          Já havia dias que o ateliê estava fechado.  Mamãe acordava cada dia mais tarde e papai saía cada dia mais cedo.

          Aos poucos foi rareando o nosso café da manhã cheio de bom dia, de pãezinhos quentes saídos do forno, de sorrisos, de língua queimada com o leite quente além da conta, dos conselhos, da conversa fiada.  Até o dia em que cada um fazia tudo do seu jeito.

          Que saudade daquela mesa cheia de nós.

          Eu e o Leonardo não sabíamos porque estava acontecendo aquilo.  Nunca vi os dois discutindo nem brigando.  Nenhuma ofensa. Nenhuma frase em tom mais alto.  Apenas poucas palavras.  Tentei conversar com a mamãe várias vezes.  Não deu.

          Lembro-me bem como se fosse agora.  Acordei disposta e abri a cortina.  Lá fora o sol já estava bem aceso.  Vi mamãe com o esguicho na mão,  parada junto às rosas príncipe negro, preciosidade do seu jardim.  São rosas com pétalas aveludadas num tom vinho tinto seco.

          Espreitei-a por um bom tempo.  A calça jeans, agora desengonçada, escondia um corpo franzino.  Ela não saía do lugar.  A terra já não mais absorvia tanta água.  Transbordou,  invadiu o corredor de piso frio, ultrapassou a calçada e escorria junto ao meio fio.  As roseiras, hastes frágeis,  curvaram-se lentamente até desfalecer sobre a terra encharcada.

          Ouvi o ranger da porta se abrindo.  Papai apareceu impecável como sempre.  Carregava duas malas.  Passou pelas costas de mamãe, fingiu não vê-la e esquivou-se da água empossada.  Saiu a passos largos e rápidos, sem olhar pra trás.

          Naquele momento entendi a letra da música de John Lennon:  "A vida é fácil de olhos fechados".


          E eu só tinha quinze anos...

LEMBRO-ME AINDA! - Dinah ribeiro de Amorim


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LEMBRO-ME AINDA!
Dinah ribeiro de Amorim

É como se fosse hoje. Não consigo apagar da memória. Lembro-me ainda daquela casa, do jardim maravilhoso, de tantas brincadeiras engraçadas! Eu, meus irmãos, nosso cachorro, dias claros de sol. Papai e mamãe juntos!

Tinha apenas cinco anos e não entendia muito bem as coisas. Meus irmãos eram mais velhos e pareciam muito tristes. Mamãe, chorosa, cabeça baixa, mas convicção e objetividade no olhar.

Papai, avistei pela fresta da janela, proibida de sair ao jardim, naquele dia. Não era castigo. Algo muito sério estava acontecendo. Vi-o abrindo o portão, carregando uma simples maleta, olhando lentamente para a janela do meu quarto, beijando meus irmãos e saindo em direção ao carro. Ele e mamãe não se falaram nem se despediram com um beijo, como faziam sempre.

Não sei por que, alguma intuição infantil, talvez, senti que não mais o veria. Iria embora para sempre.

Realmente, nunca mais o vi, nem soube dele. Minha tristeza foi tão grande que, não sei explicar como: as rosas vermelhas do meu jardim murcharam, parecendo gotas de sangue que caiam ao chão. As outras flores também se fecharam, como se estivéssemos num rigoroso inverno, o inverno do meu coração.

Não brinquei mais! Minhas idas ao jardim, tão felizes antes, limitaram-se a idas e vindas ao portão, saídas para a escola e, ainda ansiosa, esperar sua volta.

Meu pai! Nunca soube realmente o que aconteceu. Suas brigas com mamãe, seu choro às escondidas, suas desculpas às minhas interrogações. Até hoje o espero! Já adulta, com filhos e netos. Nem sabe a falta que fez!

Suas brincadeiras comigo, suas histórias engraçadas, nossas corridas pelo jardim, minha ajuda ao plantio de algumas flores. Sentia-me sua predileta. Única filha mulher entre quatro irmãos. Queixavam-se, às vezes, dizendo que eu, quando entrava, parecia um sol em sua vida. Talvez fosse mesmo.

Mamãe faleceu cedo, após dura vida de trabalho para nosso sustento.  Devemos a ela o que somos hoje! Mas, meu pai, quando o lembro, uma saudade triste, uma dor aguda no peito, uma sensação de vazio, ainda me invade.


Nunca mais admirei jardins. Quando viajo, visito vários lugares, observo tudo e escuto amigos dizendo: “Nossa, que jardim lindo!” “Que flores maravilhosas!” Passo rápido, procurando outros caminhos, outras histórias, interesso-me por gente!

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...