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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

UMA NOITE APAVORANTE - Leon Alfonsin Vagliengo

 




UMA NOITE APAVORANTE

A Felicidade se constrói, mas sempre será muito vulnerável.

                                                                                                                          Leon Alfonsin Vagliengo                        

 

Tinha sido um dia de trabalho muito pesado na obra onde Edvaldo servia como pedreiro, e o calor abafado de quase quarenta graus havia tornado aquela jornada quase insuportável. Depois de mais de uma hora de ônibus para chegar ao pé do morro onde mora, subiu os cem metros da íngreme trilha de barro, saiu dela pela passagem da direita e ainda andou mais uns cinquenta metros no caminho estreito que o levou até seu barraco, onde a Gilmara, toda cheirosa, sempre o aguardava com um sorriso e um beijo, feijão com arroz quentinho, e um belo ovo frito; às vezes, até um bife. Era o seu jantar diário, que encontraria reproduzido na próxima marmita, na hora do almoço.

Chegou exausto.

Como já era do costume, tomou um belo banho de água fria no chuveiro que ele mesmo havia improvisado e vestiu a roupa de ficar em casa com sua jovem esposa, deixando o macacão de serviço pendurado atrás da porta para usá-lo no trabalho do dia seguinte.

Naquela noite fez tudo igual, mas o cansaço o dominou. Mesmo a resistência própria da juventude tem limites. Já passava das nove horas e teria que se levantar cedo para voltar ao trabalho. Assim, um pouco depois de jantar, beijou Gilmara carinhosamente e desculpou-se por sua fraqueza do momento: estava muito cansado, precisava dormir.

— Nunca senti tanto cansaço. Amanhã a gente namora. Hoje eu não aguento.

Disse isso a ela e provou naturalmente que era verdade, pois mal se deitara entrou num sono profundo, do jeito que a pessoa parece que não vai acordar nunca mais.

— Nossa! Pode cair a casa que esse aí não acorda! — Gilmara resmungou para si mesma, divertida e sorrindo, sem imaginar o que ainda viria.

Ao ver que ele dormia feito pedra, deu graças a Deus, pois não teria coragem de negar-se aos carinhos de seu marido, mas também estava cansada. Deitou-se ao lado de Edvaldo e logo dormiu. Lá fora caia uma chuvinha leve, e o suave ruído da água sobre o telhado embalava o sono do casal.

Pela madrugada o barulho da chuva tornou-se mais forte, e acabou acordando Gilmara, que tinha o sono leve. Preocupada, abriu a janela tosca, sem vidros, para espiar o pé d’água. Estava mesmo muito forte.

Vieram a sua mente os noticiários que ouvia com frequência no radinho de pilha sobre tantas desgraças que a chuva já provocou para moradores de morro. Ficou apreensiva e o sono foi-se embora de uma vez. Olhou para o marido, que continuava a dormir profundamente, preferiu não o acordar, pensando “deixa o Valdo dormir, coitado. Está mesmo cansado. Mais alguns minutos essa chuva passa e eu posso voltar a dormir com ele, sossegada”.

Mas essa consideração não afastou o pressentimento de tragédia, cada vez mais fortalecido pelo crescente barulho da chuva. Maus pensamentos tomaram Gilmara. Começou a imaginar um deslizamento da encosta, o soterramento de sua morada com ela e o Valdo lá dentro, ficou com medo. O tempo passava, seu marido dormia a sono solto, e a chuva não diminuía, era intensa, fazia um barulho forte, muito forte, agora acrescido pelo das lufadas de vento, cada vez mais violentas.

Olhando pela janela, ela via somente aquela escuridão, apenas quebrada por uma fraca iluminação emanada da cidade ao longe, que lhe permitiu perceber quando uma pequena árvore foi arrancada do solo e arrastada pelo vento até desaparecer. Fortes trovões ribombavam de quando em quando. A inquietude de Gilmara crescia, seu medo já se transformara em pavor.

Olhou para Edvaldo, ele dormia. Por um instante sentiu-se desamparada.

A sirene de alerta começou a soar ao longe. Apavorada, passou a sacudir Edvaldo freneticamente, para despertá-lo.

— Acorda, Valdo! Acorda!

No mesmo instante, brilhantes riscos de luz ligaram o céu à terra, iluminando por um momento fugaz todo o cenário, seguidos por um fortíssimo estrondo.

Edvaldo acordou assustado com o impressionante estalido do raio e pela maneira como Gilmara o sacudia. Logo percebeu o terror estampado no rosto da esposa e ouviu também a sirene, compreendendo o perigo. Com a descarga de adrenalina que teve, despertou de vez, e sua reação foi imediata:

— Vamos sair daqui! Já!

Tomou a mão de Gilmara, abriu rapidamente a porta e saíram, mas travaram seus passos logo depois de alguns metros ao presenciar o impressionante deslizamento de toda a ribanceira por onde passava a trilha, vinda desde lá de cima, levando com ela algumas casas e cobrindo outras mais embaixo, quase atingindo o local do barraco. Tiveram muita sorte por não saírem um pouco antes e chegado à trilha, pois teriam sido soterrados.

Sem a trilha não havia saída.

Desesperados, ambos examinaram em volta de onde estavam, não encontrando escapatória. Também não poderiam retornar ao barraco, pois havia ficado bem à beira do abismo que restara após a queda da encosta, podendo despencar a qualquer momento.

Teriam que ficar ali mesmo, esperando socorro e rezando para que o terreno se mantivesse estável. Ambos com muito medo, Edvaldo e Gilmara ficaram abraçados sob a chuva, no aguardo da sorte que o destino lhes reservaria.

Amanheceu, a chuva parou. O sol já brilhava ardente quando o socorro chegou do Céu. Depois de avistados por um agente da Defesa Civil, foram resgatados por um helicóptero da Polícia Militar. Ao ver o helicóptero se aproximando, Edvaldo ainda se arriscou a entrar rapidamente no barraco para pegar seus documentos e a roupa de trabalho.

Em seguida ao resgate, foram levados para um abrigo improvisado na quadra esportiva da escola da comunidade, onde receberam algum alimento, roupas secas e um colchão para descansar, dividindo aquele espaço com outros socorridos.

Naquele dia Edvaldo não pensou duas vezes: nem descansou, nem foi trabalhar na obra. Após ver que Gilmara estava acomodada, mesmo que precariamente, e em total segurança, vestiu sua roupa de trabalho, conseguiu uma pá e juntou-se aos socorristas para ajudar nas escavações. Um trabalho de urgência absoluta, pois havia pessoas nas casas soterradas, e sempre há esperanças de se encontrar e salvar sobreviventes.

Enquanto cavava aquela terra encharcada e pesada, Edvaldo só tinha em seu pensamento que tinham perdido quase tudo, mas ainda ficara o principal: ele e Gilmara, com juventude e saúde. Então, mais tarde procurariam algum lugar seguro para construir um novo ninho e retomar suas vidas.

 


MEDO - Helio Fernando Salema e Vanessa Proteu




MEDO


Helio Fernando Salema

Vanessa Proteu 

Um trabalho conjunto de Helio e Vanessa para trabalhar rimas ricas no poema do Helio

 


Eu me afastava,

Mas ela me seguia.

Minha força já escassa,

Somente o céu era meu guia.

 

Olhei para trás,

O suor já escorria.

Fugir não dava mais,

Precisava de alforria.

 

O céu, então, escureceu.

Raios clareavam o caminho

Findou-se o sonho meu

Acompanhado, porém sozinho.

 

A tempestade corria sem pressa

Vinha de mãos vazias

Estava desesperada à beça

E o meu medo persistia.

 

Ao transpor a realidade

A magia não mais havia.

Hoje lembro acordado

E sinto saudade daquele dia.


A PERFÍDIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 



A PERFÍDIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Prim...Pirim...Pim...Pim...

Olívia debate-se na cama e acorda assustada. Desliga o relógio e percebe que Carlos não veio dormir. Sabia que chegaria tarde, mas não dormir em casa... nunca aconteceu.

Suas dúvidas e ciúmes aumentam. Logo pensa: “Está mesmo apaixonado por outra mulher. Acho que é a nova secretária. Que tristeza! ”

Levanta-se rápido e prepara os filhos pequenos para a escola. Era Carlos quem os levava.

— Estamos atrasados, levantem rápido. Papai não chegou do trabalho.

Deixa os filhos no colégio, às pressas, e pensa em ir até a mãe, aconselhar-se.

No caminho, lembra que esqueceu o celular. Faz meia volta e retorna.

Ao entrar, escuta o som estridente do aparelho e percebe também estranhas mensagens.

Atende e é a secretária do marido, apreensiva, avisando que há uma reunião importante na firma e ele está atrasado.

Olívia, estranha sua voz e pergunta:

— Mas não sabe onde ele está? Não voltou para casa ontem.

Margot, responde, espantada, que Carlos não veio trabalhar no dia anterior, pensou até que estivesse doente.

— Nossa, responde Olívia. Vou ver algumas mensagens que estão aqui. Logo retorno.

Começa a verificar algumas frases de desconhecidos e gravações deixadas. As mãos trêmulas e o remorso pela desconfiança do marido começam a aparecer.

Uma voz baixa e rouca, deixada na tarde do dia anterior, avisa-lhe que o marido está em poder de um grupo, bem guardado e escondido. Querem resgatá-lo por uma quantia em dólar; receberia instruções logo após. Ah! Que não avisasse a polícia e eles poupariam sua vida. Desligam.

Mais umas três chamadas, mais tarde, ameaçam a vida de Carlos, se não responder às ligações.

Olívia estremece apavorada e arrepende-se de ter saído, no dia anterior. Foi ao cinema com Dina, sua prima, e, na verdade, odeia andar com celular. Não o levou. Detesta modernidades.

Senta-se no sofá e espera nova ligação dos sequestradores. Coitado de Carlos, pensa, como aconteceu uma coisa dessa com ele! O que fazer?

Tocam novamente e ela, quase sem voz, atende.

O mesmo som baixo e rouco, avisa-lhe que querem devolver o marido são e salvo, mas precisaria levar cem mil dólares, até um local que determinariam. Sem avisar a polícia.

Olívia pergunta como está o marido? A coragem e a revolta pela situação voltam aos poucos.

Colocam o marido para falar com ela.

— Olívia, estou vivo, sem ferimentos, mas são perigosos. Pelo amor de Deus, livra-me deles. Dá um jeito de fazer o que eles querem.

E acaba a ligação.

A esposa aflita, não acostumada com conflitos, fica de cabeça baixa, pensando...

Estavam em boa situação financeira, com Carlos, advogado de uma firma de Seguros, mas com pouco dinheiro em conta. Não possuíam essa quantia.

Sua mãe, uma senhora viúva, aposentada, vivia modestamente, com despesas pagas e alguns extras para alimentação e remédios.

Os sogros, pessoas simples, de vida modesta, comentavam com orgulho terem conseguido formar o filho advogado. Não, não poderia contar com eles.

Vai ao quarto das crianças e, entristecida, examina os detalhes, os brinquedos, e pousa o olhar num quadro, pintado pela mãe, com a figura de Jesus abraçando uma criança.

Emociona-se, ajoelha-se e ora a Deus, antes de qualquer atitude. Como resolver a situação?

Lágrimas quentes escorrem pelo rosto e seu peito estremece em soluços fortes.

Acalma-se aos poucos e vem à mente a figura do Joel, o presidente da Seguradora e chefe do marido.

Dirige-se a ele, ao entrar na firma, e expõe, trêmula, a situação.

Joel recebe-a amistosamente e, ouvindo-a, endurece o semblante e medita sério no assunto.

Carlos era amigo, bom advogado, já havia resolvido vários problemas financeiros da firma, gostaria muito de ajudá-los. A quantia era grande. Não dispunham dela, no momento. Ainda mais em dólar. Difícil comprar.

— Dona Olívia, não seria melhor avisarmos a polícia? Esses casos de sequestros, geralmente, mandam comunicar à polícia, em primeiro lugar.

Olívia reage com susto e medo.

— Eles ameaçaram matá-lo!

Joel entende bem a gravidade e acha melhor esperar nova ligação dos sequestradores. Queria falar com eles.

Olívia dá um suspiro profundo.

Nova ligação é feita e Joel atende no lugar de Olívia. Afirma ser um amigo da família a combinar a troca. Impossível em dólares, mas talvez conseguisse em real.

É feita a combinação da hora e o local da entrega, fora da cidade, em terreno solitário, indo somente ele e a esposa de Carlos.

Prometiam entregar o refém logo que pegassem o dinheiro. E nada de polícia.

Nesse mesmo dia, à tarde, Olívia pede à mãe para buscar as crianças e ficar com elas. É uma emergência. Depois explicaria.

Acompanhada de Joel, aguarda em casa, o horário combinado: dez horas da noite.

Joel avisa Olívia que irá voltar ao escritório para conversar com o contador.

Como não era esperado, depara-se com Margot falando ao telefone, assunto sigiloso.

Disfarçadamente, procura escutar o que fala e ouve qualquer coisa sobre dinheiro e hora.

Esta, ao vê-lo, encerra rápido a ligação e, branca de susto, pergunta de Carlos.

Joel, desconfiado, acha melhor não dizer nada. Chama às pressas, Fernando, um amigo detetive, experiente, e pede para inquirir a vida dos seus funcionários, principalmente Margot, a nova secretária.

Fernando, sabedor do sequestro, avisa a polícia e descobre dados importantes: Margot tinha passagem pela polícia por roubo, usava um nome falso, embora tivesse diploma superior. Hélio, da Contabilidade, era jogador e, no momento, devia grande soma de dinheiro a agiotas. Márcio, dos Recursos Humanos, sabia bem sobre a situação financeira de todos. Maior ou menor seguro de vida.

Enfim, Fernando, em poucas horas, descobre várias pessoas que poderiam estar ligadas ao sequestro.

Decide pedir à polícia que os interrogue e que também acompanhe Olívia e Joel, no momento do encontro, às escondidas.

Nenhum dos suspeitos têm ordem de deixar o local ou falar ao telefone.

Dez horas da noite, dirigem-se ao encontro dos sequestradores munidos de dinheiro, e percebem que Carlos não se encontra.

A polícia aparece e cerca o local, acompanhados por Margot. Colocam algemas em todos, obrigando-os a falar.

Margot, a maior suspeita, vendo que o sequestro de Carlos não deu certo, leva-os até ele.

Um Carlos amarrotado, dopado e amarrado, encontra-se jogado num colchão sujo e fedorento.

Carregam-no para fora, prendem toda a quadrilha, encabeçada por Margot que, realmente, tentou seduzir Carlos, com má intenção.

O tempo passa. Nos dias seguintes, a casa de Olívia é momento de brindes e reconciliação, animados por Joel e Fernando que, felizes, haviam resolvido o caso.

A esposa, ainda trêmula, beija o marido que se recupera abraçado aos filhos. Agradece ao Joel e Fernando pela solução do sequestro e lembra-se da presença de Deus em suas vidas, quando orou por socorro.

“Quando a gente pensa que Ele está longe, é quando Ele está mais perto! ”

 

 

 

 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

AULA DE 21 DE FEVEREIRO DE 2024 - IN MEDIA RES - COMEÇANDO PELO CONFLITO

 





IN MEDIAS RES: In medias res é uma frase latina que significa “no meio das coisas”. Na escrita, usamos esse termo para descrever uma história que começa no meio da ação, sem o preâmbulo de uma introdução. O impacto imediato no público provoca a emoção que o fará seguir adiante. O narrador colocando o leitor no centro da ação, ele emprega uma sensação de urgência, tornando a narrativa mais imersiva. É uma estratégia poderosa para cativar o público. Muito diferente das histórias que seguem uma sequência linear de cronologia.

Ilíada de Homero, já começa no meio da Guerra de gregos e troianos. Odisseia, o poema começa 10 anos após a Guerra de Troia, com o protagonista, Odisseu, sendo mantido em cativeiro pela deusa Calipso. O resto da história é contada em flashbacks, que exploram os acontecimentos que levaram à cena de abertura.

 

1. Comece pelo meio. Escolha um momento culminante, conflito, discussão, briga, revelação – qualquer coisa que indique que alguma cadeia de eventos ocorreu neste mundo antes do momento crucial.

2. Injete sua história de fundo. Se você começar sua história no meio, o público eventualmente precisará saber quem são esses personagens e o que está acontecendo. Informações relevantes podem ser fornecidas por meio de flashbacks, fluxos de pensamento, alteração da voz do narrador, ou por meio de diálogo - mas há um equilíbrio que todo escritor deve encontrar ao fornecer informações suficientes ao leitor para que ele entenda a situação atual sem despejar um tesouro de conhecimento sobre ele.

3. Torne isso urgente. A cena que você escolher para iniciar deve ser um momento crucial e de alto risco para os personagens principais de sua história e deve fazer parte integrante do enredo. Provoque o leitor, deixe-o ansioso imaginando como e por que aconteceu, e ansioso também para saber se tudo vai dar certo para os protagonistas.

 

TAREFA 1: Uma herança bilionária leva uma família inteira ao desiquilíbrio, à ganância, e ao crime.  

TAREFA 2: Uma pessoa está desaparecida, ela foi sequestrada, e isso gera tumulto familiar e empresarial.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

MEDO - Helio Salema

 




MEDO

Helio Salema

 

 

Eu me afastava,

Mas ela me seguia.

Minhas pernas fraquejavam,

Enquanto ela rugia.

 

Olhei para trás,

Senti o suor que escorria,

Ela se aproximava
E ainda sorria.

 

O céu, subitamente, escureceu,
Trovões clareavam o caminho,
O final não chegava,

Muito mais eu tremia.

 

A tempestade se arrastava,
Em meu coração eu sentia
Que o mundo inteiro se acabava,
Só o meu medo persistia...

 

Em regresso à realidade,
Magia não mais havia

Hoje eu vejo a verdade…

Que saudade daquele dia.

 

 

 

COISAS DE CARNAVAL! - Dinah Ribeiro de Amorim

 





COISAS DE CARNAVAL!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Salão cheio, muita conversa, muito tititi... confusão. “Parece que deixam os arranjos para a última hora”, exclama Conceição, a dona, aflita. São cabelos com caracóis, apliques, sem contar unhas, cílios postiços, maquilagens e colocação das fantasias. Prontos para o desfile.

Nervosismo e animação correm soltos, falam ao mesmo tempo. Nada mexe tanto como o Carnaval. Meses preparando roupas, corpos em regime, ginásticas, claras-batidas, só para a apoteose de uma noite ou brincadeiras de três dias.

A cliente mais assídua é Irene, grande carnavalesca. Todo ano é destaque na escola. Quer ficar deslumbrante! Mulher bonita, morena – jambo, olhos verdes, revela a ascendência mista. De corpo escultural, samba como ninguém. Rodinhas nos pés

Irene e Valério conheceram-se numa noite de Carnaval. Ambos empolgados pelas escolas, defendiam com garra suas exibições.

Apaixonaram-se, sambaram muito, casaram-se. O amor ao Carnaval e às escolas, continuou. Chegavam os ensaios, esqueciam-se de tudo: trabalho, filhos, família, cada um pensando em defender a sua. Até serem marido e mulher, deixam de lado.

Com o tempo, Valério muda, o interesse diminui. As preocupações com trabalho, dinheiro, sustento da família, aumento de posição, deixam-no sério, altivo, não se agrada mais com bailes carnavalescos. Acha perda de tempo e dinheiro, grande desgaste e pouco retorno. Começa a sentir vergonha de aparecer em público e exibir a mulher. Que diriam os amigos!

Irene, ao contrário, com o aumento de responsabilidades, aguarda ansiosamente a chegada do Carnaval, para viver uma ilusão, um momento mágico, mesmo por pouco tempo. Começa a achar que Valério já não é o mesmo.

Iniciam-se as brigas do casal. Valério a proíbe de se desnudar no meio do povo e Irene o acusa de ciumento, agora é madrinha de bateria, lugar de honra na escola.

Contraria o marido, que a olha de modo estranho e vai aos ensaios. Prepara linda fantasia cravejada de lantejoulas e cristais, gasta uma fortuna. Plumas de pavão, verdadeiras, enfeitam sua cabeleira e descem até as costas.

Ajudada por Inês, a vizinha, que ama Carnaval, recebe alguns retoques. Inês não pode sair em escolas de samba. Cuida da mãe doente, mas ajuda Irene. Valério desiste de brigar, mas, no íntimo, condena a mulher, repudia cada brilho da roupa e movimento de dança.

Chega a hora do desfile e Irene, emocionada e nervosa, escuta aplausos e vê olhares de admiração. Entrega-se totalmente ao momento de glória, único, para muitos, durante o ano. Nem repara que, enquanto desfila, graciosa e com muito samba no pé, a acompanha um passista, desconhecido, fantasiado de Pierrô, mascarado e irreconhecível.

Chamam atenção, e ela acha ótimo ter alguém ao lado. Seria sua Colombina.

Suados e cansados, trocam olhares e sorrisos. Após o desfile, procuram lugar para beber e descansar.

Irene, ignora o acompanhante que lhe traz lembranças, aceita seus galanteios, entontecida pelo cansaço, emoção e bebida.

Ele se oferece para levá-la em casa. Escolhe um caminho afastado, meio vazio, longe do batuque das baterias. Irene deixa-se conduzir, certa de que seu par estava apenas sendo gentil.

Qual não foi a surpresa quando o Pierrô, segurando-a bruscamente pelo braço, tira a máscara e ela reconhece Valério. Este, carrancudo e magoado, ciumento da esposa que facilmente o trairia, aperta-lhe forte o pescoço e tira-lhe o ar. Irene desmaia.

Inês, a auxiliar de sempre, estando à janela, avista Valério quando sai fantasiado, logo após a amiga. Desconfiada, sabendo que ambos estavam brigados, chama um policial e vão atrás do Pierrô. Acompanham seus passos. Chegam a tempo de pegar Valério, mas não de salvar Irene das mãos que a sufocaram.

Em plena folia, misturado entre passantes bêbados e risonhos, jaz o corpo de Irene, uma eterna amante do Carnaval que, de tanto amar, acabou dando a vida.

         

FANTASMAS DE CARNAVAL! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



FANTASMAS DE CARNAVAL!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Era Carnaval! Desci até a entrada do prédio, para esperar umas amigas que viriam me buscar. Iríamos a uma festa à fantasia.

Elas estavam atrasadas e eu muito adiantada! Parei para ajeitar um pouco o chapéu, num espelho da parede, que estava incomodando! Minha fantasia era de vovó mesmo, só que do tempo antigo.

Escuto, de repente, uma voz baixinha, falando qualquer coisa como:

— Gostaria de ir junto!  Posso sair com você?  Fui passista de escola de samba!

Olho, assustada, pelo espelho e vejo uma moça, quase menina, sentada no sofá. Não havia percebido sua entrada nem notara sua presença quando desci ao hall! E é um lugar pequeno!

Olhei para ela, um tanto surpresa, não respondi nada e ela me olhou, sacudiu os ombros e se espantou com a minha indiferença...

As amigas chegaram, saímos, brincamos muito, esqueci-me do acontecido!

No dia seguinte, avistei o zelador e entre uma conversa e outra, perguntei quem era a mocinha, morena, com jeito de cabocla, fala macia e baixa, sentada à noite, na entrada do prédio, querendo sair comigo?

Ele, de início, não soube responder, mas olharia no controle automático, para ver quem seria? Qual o andar?

Quando o encontrei, novamente, perguntei:

— E aí? Conseguiu ver quem era, no sábado, à noite, sentada no sofá?

 — Não havia ninguém! Aparece somente a Sra., ajeitando um chapéu, diante do espelho.

Realmente, fiquei muito preocupada com aquela resposta, mas lembrei-me de tantos fatos estranhos que acontecem nessa vida, reais ou imaginários, que achei melhor pedir proteção a Deus e esquecer o caso!

Cada vez que entro ou saio do prédio, sem querer, dou uma olhadinha no sofá! Um certo medo? Talvez!


Decepção - Adelaide Dittmers

 




Decepção

Adelaide Dittmers

 

Jussara pegou a bolsa com força.  Piscava para disfarçar as lágrimas que teimavam em desabar pelo rosto contraído.

Saiu abruptamente do escritório.  Com passos rápidos chegou até o carro.  Abriu a porta e se jogou no banco. A bolsa voou para o assento lateral. A cabeça latejava.

Como puderam fazer aquela palhaçada e dar a promoção à Mariana.  Ela é que merecia aquela posição.  Trabalhara como uma louca, dedicara-se totalmente, esquecendo sua vida particular.  Atravessara madrugadas, montando aquele importante projeto. E agora, só porque Mariana era sobrinha do diretor, fora escolhida para tocá-lo. O trabalho dela era mal-elaborado, cheio de falhas, o que prejudicaria a empresa.  Estava inconformada. Era uma grande injustiça.

Ligou o carro. O pé apertou o acelerador. Os pneus guincharam com a arrancada violenta.  Percorreu as ruas automaticamente. Fechou outro carro, cujo motorista buzinou, gritando um xingamento. Passou por um sinal vermelho.

Com sorte, chegou ilesa ao prédio em que morava. Afundou com força o botão do elevador, rezando para estar vazio.  Não queria ver ninguém e ter que fingir que estava tudo bem. Soltou um suspiro profundo ao chegar ao seu andar.

Abriu a porta e se jogou no sofá. “Não vou suportar essa sacanagem.  Amanhã peço minha demissão.”

O celular tocou.  Era Lúcia, sua grande amiga.  Hesitou em atender, mas precisava desabafar com alguém.

Uma voz preocupada soou do outro lado da linha.

— Ju, querida amiga, nem vi você sair.  Já sei o que aconteceu. A notícia está correndo solta por aqui.  Você não merece isso. 

— Vou sair da firma.  Estou decidida. Sei que tenho capacidade para trabalhar em outro lugar, onde reconheçam meu valor.

— Acalme-se!  Não se precipite!

— Estou tentando digerir minha decepção, mas não fico nem mais um dia nessa empresa. Perdi o Fred pela loucura do meu trabalho.  Adiei férias.  Passei fins de semana no computador. Perdi o chão.

— Estou indo aí para tomarmos algo e você espairecer. Ah! O Jorginho está ao meu lado e também quer ir.

Jussara ficou por uns segundos em silêncio e respondeu com uma voz entrecortada pela emoção.

— Venham sim! Estou precisando de boa companhia.

Um pálido sorriso aflorou em seus lábios. Pelo menos tinha amigos.


O Sequestro - Adelaide Dittmers

 



O Sequestro

Adelaide Dittmers

 

Aprisionado em um cubículo, cujas paredes, sem reboque, mostravam tijolos mal assentados, um homem estava sentado em um velho colchão. O rosto entre as mãos e os braços nos joelhos.

Seus pensamentos se atropelavam e tentavam reconstituir o que tinha acontecido.

O encontro com amigos. A saída do restaurante. O caminhar até o carro. O cano do revólver em suas costas. A voz do assaltante, áspera e incisiva.

— Me dá a chave!

O aparecimento de mais um homem, que o empurrou até a porta do passageiro. A surpresa e a impotência que tomou conta dele. A arrancada do veículo. O revólver encostado em sua nuca, na mão do segundo homem, sentado no banco traseiro.

O suor, que escorria pelo seu rosto. A sensação de irrealidade do que estava lhe sucedendo.

— O que vocês querem? Perguntou tentando mostrar uma falsa calma.

— Seu dinheiro! 

— Não consigo sacar dinheiro do banco a esta hora!

— Banco? Você acha que queremos seus trocados? Sabemos quem você é.  Queremos muita grana, ou você já era!

Um arrepio sacudiu o corpo do homem. Apesar do suor, que empapava suas roupas, as mãos estavam geladas.

O longo trajeto, que percorreram até a periferia do sul da cidade. A tapera, onde o colocaram, coberta pela escuridão da noite.  Os empurrões. As ameaças. Os telefonemas para a família. A tristeza pelo sofrimento da esposa e filhos. A incerteza de que mesmo que lhes fosse dado o resgate, ele sairia vivo dessa enrascada. 

A sensação de sufoco o tomou e ele sacudiu a cabeça para espantar a vulnerabilidade de sua situação.

A porta aberta com violência e a entrada dos dois sequestradores tiraram-no de seus pensamentos. O coração disparou.  Lá vinham com mais exigências.  Um deles tinha um celular e disse ameaçadoramente:

— Diga aí pro seu filho que, ou dão dez milhões, ou você vai para as cucuias!

As mãos trêmulas do refém quase não conseguiram segurar o telefone.

— Jorge, você ouviu o que ele disse. O celular estava com a viva voz ligada. 

— Dê um jeito de providenciar o dinheiro.  Aquele dos investimentos no sul.  Fale com Jarbas.  Ele dará o dinheiro a você.

O jovem do outro lado da linha franziu a testa.  Sul...Jarbas... O que o pai estava querendo dizer? Subitamente uma luz acendeu em sua mente.  Era um código.  Jarbas era o procurador da justiça, amigo de seu pai.  Colocaria toda a polícia à sua procura. E sul, sul?  Lógico, o pai deveria estar em algum lugar da zona sul da cidade.

O filho disfarçando respondeu:

— Como podemos saber que vão trocar você pelo dinheiro?

— Deem o dinheiro e seu pai sai com vida. Vamos dar as instruções, onde deixar a grana. E nada de surpresas, senão seu pai morre.

Passaram-se vários dias até o acerto do lugar e do dia em que a quantia seria entregue.

Enquanto isso, um grande esquema policial foi montado.  Na entrega do resgate, policiais à paisana estariam escondidos.  Seriam usados sinais eletrônicos para seguir os bandidos.

No dia e hora combinados, os criminosos foram até o lugar, uma estrada de terra, cercada por um matagal.  Saltaram do veículo, com olhos atentos, que espreitavam os arredores. A mala com o dinheiro estava lá.  Eles a abriram e se abraçaram, dando gargalhadas.

— Quanta grana, meu irmão!

— E agora, que vamos fazer com o homem? Damos conta dele assim mesmo? Perguntou o outro.

— Ele não viu nossas caras. A máscara nos escondeu.  Só que temos que ter atenção, porque podemos sofrer uma emboscada.  Não confio nessa gente.

Entraram no carro e aceleraram, apesar dos buracos da estrada, que os faziam sacudir.  Porém, ao lado do caminho, policiais escondidos acompanhavam o trajeto deles.

Uma hora se passou até alcançarem o casebre.  Entraram e logo apareceu o homem com os olhos vendados. Iriam deixá-lo longe dali.

Entraram no carro e desceram a estrada íngreme. O refém perguntou, forçando uma voz firme, embora seu corpo estivesse gelado:

— Onde estão me levando? O que vão fazer comigo?

— Cala a boca!  Sem perguntas!

O pobre homem se encolheu no banco.

Após rodarem por quilômetros e iam pegar a estrada principal, foram cercados por um forte contingente policial. Não podiam escapar e se matassem o refém, poderiam ser mortos também.

Desceram do veículo com os braços levantados. O homem foi retirado do carro. O corpo inteiro era sacudido por tremores e um choro convulsivo explodiu de seu peito.  Baixou a venda e fitou com ódio os malfeitores. Vencera.  Tinha conseguido escapar.

Conduzido pelos policiais, foi até uma das viaturas com passos trôpegos.  Estava muito fraco e abatido.  Saíra ileso e jamais se esqueceria daqueles dias terríveis em que a morte o espreitou em cada minuto, em cada segundo.

MADAME POMPADOUR - Hirtis Lazarin

 



MADAME POMPADOUR

Hirtis Lazarin

                                             

“Até que enfim a sexta-feira se foi”. Elisa desligou o computador, sem antes pôr ordem na papelada esparramada sobre sua mesa; alguns documentos foram arquivados e outros, apenas rascunhos, descartados. A lixeira tanto quanto Elisa estavam “cheias”. Ela nem se reconheceu no espelho. Nem percebeu que o cabelo revoltado já se soltara da presilha e a maquiagem desbotada escorria pelo rosto. “Um banho demorado, perfumado mais uma cama confortável darão um jeito nisso, não é Elisa”?

O sábado também seria agitado, mas de um jeito prazeroso. Era o casamento da melhor amiga de Elisa. Amiguinhas desde os cinco anos. Da mesma rua, da mesma escola, das mesmas alegrias e tristezas. Irmãs por escolha.

E, ela, a madrinha mais querida, tinha o compromisso de corresponder ao lugar de destaque que ocuparia na cerimônia. Assim como as noivas têm um tratamento especial nesse dia, Elisa reservou também um horário comprido num salão especializado, capaz de transformá-la numa princesa vestida de azul, da cor dos seus olhos.

Elisa desmaiou na cama, sem tempo pra pensar em mais nada. Acordou e no escuro tateou o celular. Tinha plena certeza de que ainda sobrava bastante tempo pra dormir. Levou um susto quando olhou as horas e viu que estava atrasada em uma hora e meia. Deu um pulo desajeitado da cama, escorregou no tapete redondo e só não caiu porque uma almofada exagerada a amparou.  Soltou um palavrão e mais um. Toda atrapalhada e já seminua, ligou à profissional que a atenderia. Recebeu uma pequena bronca. Elisa não gostou, mas trancou a língua antes que tivesse o horário cancelado. O cancelamento era inimaginável. “Prefiro morrer”.

Jogou-se debaixo do chuveiro e tomou um banho de “gato”. Já dentro do carro, não encontrou a chave que deveria estar dentro da bolsa, mas, inexplicavelmente, não estava. Na correria derrubou-a no chão da sala. Mais minutos de atraso e mais palavrões. O dia, que deveria ser só de alegria, começou bem mal. Suas mãos e joelhos tremiam. A vista anuviou e todo esse desconforto atrapalhou-a na direção do carro. Distraída, quase atropelou alguém na faixa de pedestres e ao entrar à esquerda, esqueceu-se da seta e levou um buzinaço. Estacionou na primeira oportunidade, desligou o carro e chorou. Um choro inconsolável e raivoso.  Não se conformava com aquilo, pois tudo foi bem-planejado e com antecedência.   

Debruçou-se sobre a direção, respirou profundamente várias vezes e bebeu, pausadamente, vários goles de água. Ligou o rádio numa música suave enquanto secava o suor que escorria do rosto. Pensou mais de uma vez até tomar coragem e ligar novamente ao salão de beleza. Antes que a profissional que estava do outro lado da linha esbravejasse e talvez, até cancelasse o atendimento, Elisa ensaiou as palavras e propôs cancelamento de alguns procedimentos que nem fariam tanta falta assim na composição do belo. O pacote encomendado seria pago em sua totalidade pra que não houvesse prejuízo algum. Ela ouviu uma resposta positiva e emitiu um suspiro aliviado e comprido.

Eram exatamente dezessete horas, quando uma princesa azul da cor do céu deixou o salão “Madame Pompadour”.

 


domingo, 11 de fevereiro de 2024

O pulo do leão - Hirtis Lazarin

 



O pulo do leão

Hirtis Lazarin

O caminhão cambaleava na estradinha de terra escorregadia e esburacada por conta das chuvas que chegaram exageradas após metros e mais metros de orações.  Tião partiu de última hora e não teve tempo de escolher o melhor caminho. Abandonou o prato quase cheio na mesa do almoço, arrancou uma camiseta do varal e quase esmagou o gato que atrapalhou sua passagem. Só após estar dentro do caminhão, percebeu que faltava a chave. O atraso provocou-lhe meia dúzia de palavrões cheios de ódio.  

Arrancou o veículo da garagem descoberta, arrastou a bicicleta do sobrinho e derrubou um balde cheio de água ensaboada. O piso cobriu-se de espumas e ficou escorregadio. Em meia hora, estava longe da cidade.   

Até agora, eu não vi no caminho nenhuma placa de trânsito e, realmente, não sabia se o motorista sabia pra onde estava indo.

Parecia que confrontava a sorte e quem confronta a sorte é muito corajoso ou já desistiu da vida.

Os pneus carecas e a carroceria que já foi envernizada e polida estava carcomida. Das letras garrafais que compunham o nome da família, desenhadas na madeira, só sobravam o “S” e o “A”. O caminhão era tão idoso quanto o pai de Tião, a única herança que o velho lhe deixou.

À medida que anoitecia, a mata que acompanhava a estrada foi ficando cada vez mais densa e fechada. O ruído feliz dos pássaros e o andar cauteloso dos animais acomodaram-se. A natureza é pontual nos seus compromissos.

O motorista acendeu os faróis, mas não funcionou. Desligou o motor, abriu a porta, cautelosamente, e só desceu após conferir todos os lados. Mexeu daqui e dali, mas nada mudou. Fez o que pode intercalando o fazer e o xingar. “Afinal não sou eletricista”. Foi a explicação que confortou seu coração naquele momento.

Se a velocidade do carro já era bem reduzida por conta do mau estado de conservação do caminho, agora, sem farol, a complicação dobrou. Não seguiu em frente.

Tião sentiu sede e fome. Virou e revirou a cabine em busca de uma sobra de alimento esquecido no banco, no meio de peças de roupas e papéis misturados. Nada.

Escuridão, fome, solidão…

A sensação era de perigo e a coragem do homem, que não era uma coragem tão grande assim, ouviu um rugido cada vez mais próximo. A esperança de que o animal não sentisse o cheiro de homem- por- perto foi por água abaixo. Dois olhos brilhantes e uma boca faminta aproximaram-se silenciosamente. 

Tião só conseguiu enxergar quando a fera parou à frente do caminhão. Enorme e cheia de dentes. Ele conferiu a maçaneta das portas. Frouxas, há muito tempo. Amaldiçoou a falta de dinheiro e a falta de zelo, indispensáveis na manutenção de um veículo.

O leão sondou o ambiente, deu um salto espetacular e alcançou o capô. Cheirou demoradamente o para-brisa, grudou o focinho no vidro e prendeu os olhos nos olhos de Tião. Tião não sentiu medo quando ficou responsável por levar o dinheiro roubado num caminhão caindo aos pedaços. Diante da fera desmaiou.

O dia amanheceu e Tião acordou agitado, com as mãos algemadas e rodeado de policiais.

 

O Padre Gigio - Alberto Landi

  O Padre Gigio Alberto Landi O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se torna...