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quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Padre Gigio - Alberto Landi

 



O Padre Gigio

Alberto Landi


O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se tornado insuportável e até constrangedor.

Decidido a dar um basta, ele subiu ao altar e estabeleceu normas rígidas: as confissões seriam sempre após a missa, com a igreja em sua plenitude. Criou um calendário temático: as segundas-feiras para as fofoqueiras, as terças para as ladras de maridos, as quartas para as hipócritas, as quintas para as beberronas, sextas para as feiticeiras e, por fim, as traidoras seriam atendidas logo após a missa de sexta-feira.

O anúncio causou um rebuliço, mas ninguém notou o sorriso malicioso do canto da boca de Tião, o sacristão. Ele limpava os castiçais com a precisão de um cirurgião, via tudo das sombras da sacristia.

Tião sabia que Clotilde, a beata chefe, não liderava o grupo de oração por pura fé, mas para controlar quem entrava e saía do confessionário.

Ela vigiava as outras com um olhar de águia, como se estivesse peneirando as almas antes mesmo de chegarem ao confessionário.

Naquela fatídica sexta-feira, o ar estava pesado, Clotilde estava impecável, o terço de madeira batendo contra o peito, mantendo a fila das traidoras organizada.

O plano de Gigio tinha uma falha, em sua simplicidade não contava com a vaidade dos homens que jamais havia previsto. O seu Juvenal, marido da beata chefe, cansado de esperá-la para o almoço, foi para a igreja, cruzou o umbral com o chapéu nas mãos. A face marcada pelo sol forte não conseguia esconder a tensão que lhe contraía os músculos do rosto.

— Clotilde! Ele chamou, a voz ecoando pela nave da igreja. O almoço está pronto! O que você está fazendo nessa fila?

O silêncio que se formou foi absoluto. As outras mulheres que esperavam na fila da confissão olharam para Juvenal, depois para Clotilde e, em seguida, para o confessionário.

A máscara da santidade dela começou a desmoronar.

Tião, lá do fundo, deu um sorriso discreto enquanto lustrava os objetos do altar, deixando o metal brilhar sob a luz fraca. Ele guardava a chave do enigma: Juvenal não era apenas um homem tenso, era um homem que sabia de tudo, mas preferia o silêncio para manter a paz no lar. 

— Juvenal, saia daqui, sussurrou Clotilde, tentando manter o tom de voz cristão, mas falhando miseravelmente.

— Não saio! — Retrucou Juvenal, dando um passo à frente. Se você vai se confessar, quero ouvir o que você tem a dizer. Após tantos anos, acho que mereço saber por que você não sustenta o meu olhar?

Gigio abriu a porta do confessionário, não parecia surpreso, mas sim satisfeito. Ele olhou para Tião, que apenas deu de ombros, como quem diz: o espetáculo começou.

A igreja que deveria ser um lugar de silêncio tornou-se um palco.

As outras mulheres, vendo a beata chefe ser confrontada, começaram a cochichar. O segredo de uma era o combustível de outra.

Clotilde, acuada, olhou para o confessionário, depois para o marido e finalmente para as vizinhas que julgavam. Ninguém teve coragem de se confessar.

Gigio, vendo aquele mar de gente se encarando, as traidoras de sexta-feira, as ladras de terça, as fofoqueiras de segunda, todas misturadas, soltou um suspiro de alívio. Ele percebeu que, ao expor os pecados de forma tão organizada, ele havia criado um impasse coletivo.

Naquela noite, a igreja esvaziou-se em um silêncio muito mais respeitoso do que qualquer sermão poderia alcançar. Gigio voltou para a sacristia, serviu-se de um chá de camomila e, pela primeira vez em meses, dormiu com a paz de quem não precisa mais vigiar o amanhã. 

Meses depois, as normas do padre continuavam afixadas na porta do confessionário.

As filas diminuíram, os suspiros também.

Mas, segundo as senhoras da paróquia, havia um novo motivo para frequentar a missa das oito.

Afinal, normas controlavam o confessionário, milagres, nem sempre.  

O assédio não acabou por completo.  Apesar das regras impostas pelo padre Gigio, o fascínio que ele despertava nas fiéis continuava a existir, mas a paróquia nunca foi a mesma, agora todos se olhavam com uma desconfiança saudável e o confessionário ironicamente ficou às moscas! 



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