A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Aqueduto das Águas Livres - Alberto Landi

 




Aqueduto das Águas Livres

Alberto Landi

 

Todos nós sabemos que a água é fundamental para a vida de todos nós.

Atualmente é um ato de irresponsabilidade abrir uma torneira e deixar a água fluir livre ao desperdício.

No passado não foi sempre assim, as águas corriam livres sem nenhum zelo a preservação e estocagem.

Levar água às populações passou a ser uma preocupação contínua. Surgiu a necessidade de uma estrutura na criação de adutoras na captação e no transporte.

O dia 22 de março é o dia mundial da água, o elemento mais importante para o sistema de vida no universo, e que a cada dia se torna mais escasso.

Uma verdadeira obra de engenharia, o Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, um monumento que vai resistindo ao longo dos séculos, uma arte fantástica, onde as águas correm livres, saciando a população lusitana.

Em 1755, quando um terremoto arrasou grande parte da cidade, a notícia se espalhou rapidamente pela Europa toda, causando uma consternação geral.

Essa tragédia resultou numa intensa produção literária e filosófica.

O que mais se destacou foi Voltaire, gostava de imortalizar os aquedutos através de sua obra literária, e Lisboa tornou-se o destino de muitos escritores que fizeram daquele momento o carro chefe de suas obras e relatos.

Naquele cenário de devastação, há um monumento que se destacou intacto, foi esse Aqueduto. Ganhou notabilidade e é uma das mais magníficas obras de construção moderna na Europa. O sentimento de admiração é algo indescritível, creio que nos falta capacidade para descrever com detalhes.

Autêntica obra de arte se igualando com castelos e palácios, diria que é uma engenharia e arquitetura praticada com verdadeira magia, superando monumentos modernos construídos com recursos tecnológicos da atualidade.

Construído durante o reinado de D. João V para fornecer água a Lisboa, viria a ser terminado em 1744, tendo resistido ao terremoto.

Incluía uma passagem para que os habitantes pudessem atravessar o vale de Alcântara, desde Lisboa até Monsanto, chamado Passeio dos Arcos.

Em 1844 foi fechada essa passagem motivada pela presença de um serial killer, de nome Diogo Alves, natural da região de Galícia. Ele roubava quem passasse e lançava suas vitimas do alto do aqueduto, simulando suicídio.  O bandido do aqueduto como foi chamado, em 1840 foi condenado à morte.

Essa ação criminosa lembra o famoso fora da lei, o cangaceiro Lampião, que morreu emboscado pela polícia, depois de aterrorizar o nordeste brasileiro.

Desde o tempo dos romanos que a água potável era bem escassa em Lisboa, mas o problema agravou-se quando esta se tornou a capital de um império.

No século 18, D. João V incluiu na sua política de opulência uma solução monumental para abastecer a cidade, um gigantesco aqueduto inspirado no Tratado de Vetrúvio.

Marco Vetrúvio Pollio, viveu no século 1 a.C., ele foi arquiteto, engenheiro, agrimensor, pesquisador e teórico romano. Ficou conhecido pelo tratado da arquitetura, é o único tratado europeu do período Greco-romano que chegou aos dias atuais, sendo inspiração aos elementos arquitetônicos e estéticos das construções, são 18 volumes.

Essa ambiciosa obra hidráulica teve engenheiros português, italiano, alemão e húngaro, iria ligar 58 nascentes do concelho de Sintra a Lisboa e levaria esse bem à zona ocidental da cidade.

Os romanos foram os maiores especialistas nesse tipo de construção, tinham deixados testemunhos vários espalhados por Portugal.

Desenhos, maquetes e plantas de aquedutos da cidade de Roma, foram consultados para desenhar o de Lisboa. Este se tornou resistente ao grande terremoto, admirado por pintores e viajantes como obra de arte, sobre o vale de Alcântara.

Iniciado em 1732 e terminado em 1799, recebe ainda apontamentos do barroco, e um passeio público ao longo dos grandes arcos, onde se chegava a Monsanto.

No final a água era armazenada no reservatório das Amoreiras de onde partiam galerias subterrâneas que serviam os novos chafarizes.

Tem 58 km de extensão, uma obra ambiciosa que nasceu para abastecer a cidade e cumprir a visão de um rei.

São 21 arcos de volta perfeitos e 14 arcos centrais em ogiva. Abastecia 34 chafarizes.

Era o reino mais rico da Europa, até então a água vinha de poços, de fontes e da chuva acumulada em cisternas.

Com ouro e diamantes vindos do Brasil, não foram suficientes para financiar a totalidade do projeto, então, durante mais de 70 anos, é cobrado à população um imposto adicional chamado o Real de água.

Durante 220 anos abasteceu a capital portuguesa, quando foi desativado pela Empresa de Águas Livres.

Uma das mais importantes obras do Brasil colonial, inspirada no de Lisboa, mas apenas com 270 metros de extensão, foi o aqueduto da carioca, ligando o morro de Santa Tereza ao de Santo Antonio, inaugurado em 1750 com o objetivo de levar água à população. A partir de 1896, passou a ser utilizado como viaduto para os novos bondes de ferro.

O vale de Alcântara representa uma importante estrutura sobreposta ao sistema hídrico e um relevante eixo verde, ligando a área planáltica e a frente ribeirinha, na zona de Campolide a Alcântara.

O Aqueduto das Águas Livres continua sendo um dos grandes monumentos e símbolo da capital portuguesa!





AQUELA VOZ MISTERIOSA - Helio Fernando Salema

 



AQUELA VOZ MISTERIOSA

Helio Fernando Salema

 

Cheguei a casa mais tarde do que o normal. Preocupado em responder, sem titubear, ao infalível questionário da Dona Ciumenta.

Por sorte estava dormindo, ou quem sabe, fingindo. Fui até a cozinha para fazer um café e comer um pedaço do pão que ela avisou que faria. Assim, menos suspeita talvez ficasse, ao perceber que o saboreei.

Quando comecei a elaborar o meu impecável lanche, o celular tocou. Saí correndo com receio de que ela acordasse. Uma voz feminina dizia:

— Eu sei de tudo… Eu sei de tudo.

 A voz abafada, com certeza para que não fosse identificada. Desligou rapidamente.

Não imaginei quem poderia ser. Carminha certamente não era, pois pela hora que saí da casa dela já estaria dormindo.

Preparando o lanche e pensando quem poderia ser?  A voz não me ajudava em nada. Será que vai ligar novamente e dar mais detalhes? Comendo meu lanche e pensando. Cada mordida era mais forte ainda, como querendo extrair do pão o que a memória não me revelava.

Durante toda à noite aquela voz martelava meus tímpanos, neurônios e a consciência. Cada vez que acordava vinham nomes de pessoas que ultimamente tiveram algum contato comigo.

Clientes, amigos, amigas íntimas, outras não tão próximas. Tudo em vão.

Depois de um curto sono levantei o mais rápido que pude, antes que a inquisidora acordasse. Temi que ela também tivesse recebido o maldito telefonema, e eu, certamente, não saberia o que dizer.

Quando cheguei ao trabalho, uma luz finalmente surgiu. Vi no meu celular o número da ligação da noite anterior. Anotei num papel e imediatamente fiz a ligação. Tocou o tempo todo sem que ninguém atendesse. Insisti por mais alguns minutos sem êxito.

Minha secretária entra na minha sala e avisa que chegou a Dra Cláudia. Um forte temor apossou-se de mim tão rápido, que só o percebi ao sentir minhas pernas bambas, coração disparando e uma pequena dor no peito.

Dra. Cláudia era minha cliente e ultimamente demonstrava insatisfação com os resultados do meu trabalho.

Ao me recuperar pedi à secretária que a fizesse entrar. Assim que passou pela porta levantei-me e fui em sua direção. Ela com um sorriso me cumprimentou e disse que estava com pressa. Que desejava apenas me pedir desculpas, pessoalmente, pelo que me dissera, pelo telefone no dia anterior.

 Silenciosamente suspirei fundo. Disse que ela não precisava se desculpar e que eu entendi tudo o que ela havia dito como um desabafo. Com sorrisos e apertos de mãos nos despedimos.

Assim que ela transpôs a porta, atirei-me na cadeira e elevei as mãos ao céu. Senti que tudo estava resolvido, nada mais a me preocupar.

Até que o celular toca. Era aquele número maldito. Pensei que o problema estivesse sanado e eis que me ressurge, com certeza, ainda pior. Novamente os tremores e a dor no peito.

 Era aquela voz feminina, agora bem nítida:

— Desculpe o que fiz ontem à noite. Foi engano.

COMPORTAMENTOS ESTRANHOS - Leon Vagliengo

 


COMPORTAMENTOS ESTRANHOS.

Leon Vagliengo

Existem hábitos que permanecem desde a infância. Alguns são esquisitos.

___________________________________

 

        Acordou com o toque insistente e distante do telefone. Sábado, quatro horas da manhã! Isso não é hora de alguém telefonar, a não ser que seja algo muito importante, pensou, alarmado, o sonolento e gordinho Waldemar.

        Olhou para a esposa, Luciana continuava a dormir a sono solto. “Dorme, meu amor, você merece, você é muito especial. Só mesmo você para aceitar e ainda achar graça dos meus costumes”, pensou, enquanto vencia a preguiça de sair da cama.

O toque era do telefone fixo, lá embaixo, na sala. Waldemar desceu as escadas apressado, de chinelos, ainda meio adormecido e carregando com alguma dificuldade o excesso de peso acumulado em seus trinta e oito anos de vida, arriscando-se a um tombo.

        ― Alô! – Atendeu, ansioso, mas não a tempo: a ligação caiu. Soltou um palavrão, com raiva e frustração pelo insucesso, mas logo a seguir o telefone tocou outra vez.

        — Alô! — Atendeu, novamente ansioso, agora já completamente desperto. Do outro lado, uma voz desconhecida, meio ameaçadora, e meio zombeteira, lhe disse:

        — Eu sei de tudo! — Disse e desligou.

        De imediato, Waldemar ficou surpreso e preocupado: “Tudo o quê? ”, estremeceu.

Superado, porém, o espanto do primeiro momento, pensou bastante no que ouvira; e quanto mais pensava, mais se convencia de que a misteriosa e sutil ameaça não podia ser verdadeira, não tinha fundamento. Em toda a vida sempre primou pelo bom comportamento, pela seriedade e pelo respeito a todos; por mais que refletisse não encontrava lembrança de ter cometido qualquer irregularidade, social ou profissional, e, com certeza, não haveria nada escuso que alguém pudesse saber dele para poder ameaçá-lo.

        A não ser... a não ser que o interlocutor soubesse de algo de sua vida pessoal e que estivesse querendo explorar a sua privacidade.  Mas o quê? Matutou bastante sobre o que poderia ser, mas também nada lhe veio à cabeça, considerava-se uma pessoa absolutamente normal, como todo mundo.

        — Acho que ligaram para o número errado, não era comigo — concluiu.

        Mais tranquilo após ruminar aquele susto sem nada encontrar que pudesse comprometê-lo, bastante cansado pelo sono interrompido e pela tensão que experimentara, resolveu voltar para a cama; subiu as escadas e voltou para o quarto. Beijou os lábios de Luciana suavemente para não a despertar, colocou novamente a chupeta na boca, ajeitou a camisola, deitou-se e dormiu, abraçado ao ursinho de pelúcia; dormiu profundamente, dormiu o sono tranquilo daqueles que não têm nenhum peso na consciência e não devem nada a ninguém.

        Aquele beijo delicado não despertou Luciana, mas o leve sorriso que imediatamente surgiu em seu rosto revelou que ela sentiu profundamente o carinho que tinha recebido. Algumas horas depois ela acordou, esticou todo o corpo espreguiçando longamente, e saiu da cama. Waldemar ainda dormia profundamente, de chupeta e camisola, abraçado a seu ursinho. Luciana olhou para ele divertida e compreensiva, sorriu ternamente e disse, bem devagarinho, para si mesma, em voz baixa:

        — Esse meu marido é uma figura...!


Colosso de Rodes - Alberto Landi

 



Colosso de Rodes

Alberto Landi

 

Considerada uma das sete maravilhas do mundo na Antiguidade, foi erguida em homenagem ao deus Hélios, para comemorar a vitória dos gregos da ilha contra os macedônicos de Demetrio I.

Os macedônios tinham uma descendência direta dos gregos, falava o macedônio antigo, um idioma parecido com o eólico, um dos dialetos.

A estátua totalmente em bronze, levou 12 anos para ser concluída, mas ficou de pé por menos de 60 anos, pois foi destruída por um terremoto em 225 A.C.

Bem mais tarde, os árabes invadiram, levaram as peças, e as venderam. Tinha um tamanho equivalente a um prédio de 10 andares.

Sua construção foi feita sob uma base de mármore, as pernas ocas, tinham por dentro colunas de pedra, para dar sustentação.  Montanhas de terra foram colocadas ao redor, para que os operários pudessem trabalhar na construção e pudessem ir subindo conforme avançavam.

A maior parte do ferro utilizado veio dos armamentos deixados pelos macedônios, as partes ocas foram preenchidas com entulho e pedras.

Ao final, para conclusão da cabeça, o resto do corpo foi totalmente coberto por terra, para que os operários tivessem acesso aos trabalhos na mesma.

Depois de concluída, a terra foi retirada e a mesma pôde ser limpa e polida.

Um terremoto atingiu a ilha, destruindo o colosso.

Localizada próximo ao mar Mediterrâneo, estava posicionada encarando o oceano que banha a costa norte da ilha grega de Dodecaneso, erguida na entrada do porto de Mandraki.

Dodecaneso é um grupo de ilhas gregas na extremidade leste do mar Egeu, junto à costa sudoeste da Turquia. O nome originalmente corresponde às Cyclades, mas foi transferido às presentes ilhas durante o período otomano.

Significa 12 ilhas, mas na verdade são 15.

Seu escultor foi Carés de Lindos.

 

O espaço entre as pernas do colosso seria a entrada para o porto. Numa das mãos, havia uma grande tocha com função de farol, cuja função era de iluminar as embarcações.

Vasco da Gama compara o gigante Adamastor a Rodes, pois estes vigiavam as embarcações que passavam. O Colosso tinha 30 metros de altura, pesava 70 toneladas. Hélios, ficava com os pés apoiados em cada margem do canal que dava entrada para a ilha; nenhuma embarcação no mar Egeu entraria sem passar embaixo de suas pernas. Erguida também como símbolo da vitória sobre os inimigos, e como oferenda ao deus Sol, o principal objetivo da construção.

Atualmente há uma equipe de arquitetos e engenheiros, que já fizeram todo o planejamento da reconstrução, avaliado em 286 milhões de euros, esperando somente patrocinadores para isso.

Haverá biblioteca, museu com relíquias da historia grega, painéis solares, o que a tornará autossuficiente em energia e sistema para protegê-la de terremotos, terá 126 metros de altura.

No topo da cabeça, haverá um farol em forma de coroa.

Essa reconstrução que deverá acontecer muito em breve, deverá fomentar o turismo local e internacional, além da criação de empregos.

O custo da obra não recairá sobre os habitantes locais.

Instituições gregas e internacionais devem financiar a obra, sendo que também empresas e pessoas que contribuírem, terá seus nomes cravados nas colunas do Colosso!     

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Essas festas... - Cida Micossi

 


Essas festas...

Cida Micossi

 

— Eu sei de tudo.

— Tudo o quê?

— Mãe, não me engana.

— Mas, filho, não tenho nada que enganar a você ou a quem quer que seja.

— Tá. Pensa que acredito? Descobri tanto... descobri tudo. Tudinho!

—  Ah, não... não me venha com insinuações!

— Seja franca, não se omita! Você nos ensinou a agir sempre francamente.

Os olhos ardiam, o suor fazia com que ela se sentisse encharcada, enquanto uma tremedeira lhe dava a sensação de estar fora de seu corpo físico.

Continua:

— Estão dizendo que no encontro de comemoração do aniversário de sua formatura vocês apelaram, saíram do sério e a bagunça rolou solta. Tantos idosos aprontando, querendo agir como jovens, ah, mãe, que vergonha. Nunca imaginei que justamente você fosse me fazer pagar esse mico. Algumas de suas amigas estão desesperadas com a repercussão do evento e não podem voltar atrás. Elas postaram uma mensagem se desculpando. Você, mãe, deveria se lembrar de que, atualmente, a internet é terra de ninguém. Como pôde? Como puderam? Caiu lá, está perdida. Tantas vezes eu avisei...

Ela teve a sensação de estar afundando no solo, parecia que o chão se abria para engoli-la, ao mesmo tempo em que sentia-se levitar. Nenhuma das sensações havia experimentado antes e isso a aterrorizava.

***

Olhos arregalados, cabelos desgrenhados, sentou-se na cama: o filho e a nora, na porta do quarto, perguntavam se ela estava bem, se precisava de algo, pois eles tinham escutado alguns sons estranhos vindos do quarto dela.

Pegou o relógio: seis horas da manhã.

Enxugou o suor. Recompôs-se.

Virou-se para o outro lado e viu, aliviada, sobre a poltrona do quarto, o vestido novo estendido, esperando para ser usado na festa do aniversário de formatura, na tarde do dia que acabara de raiar.

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

BRINCADEIRA

IMPOTÊNCIA - Henrique Schnaider

 



 IMPOTÊNCIA

Henrique Schnaider

 

O automóvel zuniu no asfalto molhado, a alta velocidade desestabilizou o veículo que derrapou na curva, e acelerado ziguezagueou até bater no muro de arrimo.

Alceu era um rico empresário do ramo de autopeças e muito guerreiro. Começou do nada. Teve uma infância pobre. Era filho único e tanto ele como seus pais, batalharam para ter um mísero prato de arroz e feijão na mesa. Carne ou frango eram raridades.

Na juventude Alceu começou a trabalhar como empilhador de autopeças numa grande Empresa do ramo.

Tinha um sonho. Abrir uma lojinha de autopeças, pois entendia tudo do negócio.

Juntou com muito sacrifício, todo salário que ganhava e depois de cinco anos na batalha, finalmente conseguiu abrir na periferia, uma lojinha de autopeças.

O começo foi difícil, mas Alceu era inteligente e corajoso. Entrou de cabeça numa luta sem tréguas. Cresceu no ramo que gostava e daí subiu a montanha rapidamente. Abriu outra nova loja e desta vez, maior e num ponto bem melhor.

Foi de vento em popa e logo já possuía cinco lojas do ramo. Começou a alimentar o sonho maior que era comprar a grande loja onde começou a vida profissional.

O sonho não demorou muito para se tornar realidade e o menino humilde, se tornou o rei do mercado de autopeças.

Conheceu Mirtes, namoraram e logo se casaram com direito a festa de arromba.

A vida mudou para Alceu, pois na medida em que cresceu financeiramente, os problemas cresceram na mesma proporção. Começou a ser visado por uma quadrilha especializada em sequestrar e extorquir enormes quantias para poupar a vida de seus sequestrados.

Alceu passou a andar de carro blindado. Naquele dia saiu para viajar com Mirtes para o interior do Estado. Alceu cometeu uma falha imperdoável, dispensou os seguranças que sempre o acompanhavam.  

No começo da viagem tudo seguia normalmente. Porém Alceu notou que estava sendo perseguido por um carro preto. Como o carro de Alceu era potente, ele começou a aumentar cada vez mais a velocidade para poder escapar dos seus perseguidores.

E de fato o carro dos bandidos acabou sumindo do retrovisor, que por precaução continuou em alta velocidade por um bom tempo. De repente Alceu deu de cara com uma curva muito fechada. O tempo não ajudava pois caia uma garoa fina, suficiente para deixar o asfalto escorregadio.

Alceu tentou frear, mas o carro derrapou deslizando sem controle e bateu violentamente em um muro de arrimo, destruindo a frente e prensando o casal dentro do carro.

Mirtes estava presa nas ferragens, gemendo de dor e permanecendo por um tempo desnorteada. Finalmente voltando a si, olhou para o marido ao lado, muito machucado. O sangue escorria da boca e da cabeça.

Alceu mal se mexia gemendo baixinho. Mirtes se sentia impotente pois presa nas ferragens, não conseguia nem cuidar dela mesma. As forças se esvaiam lentamente, e o casal ali preso parecia condenado a uma morte lenta e dolorosa.

A noite caiu, o frio chegou e durante a madrugada Mirtes ouviu os últimos suspiros de Alceu, que pelo menos parou de sofrer. O dia clareou e os primeiros raios de sol surgiram.

Mirtes estava muito mal com dores no corpo todo. Mas, às vezes, a sorte sorri para as pessoas no momento certo. A cachorrinha Laika que estava passeando com o dono do Sítio situado do outro do muro de arrimo, começou a latir e se aproximar do carro acidentado, fazendo com que o senhor Antenor viesse atrás dela para ver o que chamava a atenção da Laika.

Antenor chegou e viu aquele quadro triste do carro destruído e dentro Alceu morto e Mirtes muito ferida. Imediatamente chamou por ajuda lá do sítio. Retiraram com todo cuidado Mirtes das ferragens, levando-a para o hospital mais próximo e também o corpo morto de Alceu.

Mirtes sobreviveu, mas nunca mais foi a mesma depois da perda de Alceu.


INVESTIGAÇÃO CONCLUÍDA - Hirtis Lazarin

 



INVESTIGAÇÃO CONCLUÍDA

Hirtis Lazarin                  

 

O casamento deles entrou em crise. Por mais que Luíza procurasse, não encontrava motivos para o que estava acontecendo.

Beto estava irreconhecível. O homem gentil e bem-humorado sumiu. Andava pela casa, de um lado pro outro, sempre resmungando: era a conta de luz muito alta, a comida salgada; ora era a música irritante, ora era a televisão que não podia ser ligada.

Ficava até de madrugada no computador e não admitia que a esposa se aproximasse. As perguntas ficavam soltas no ar sem resposta. Começou a sair mais cedo para o trabalho e ela falava sozinha à mesa do café.

Luíza e Beto não formavam um casal perfeito. Brigavam, discutiam quando as opiniões eram muito diferentes, ficavam até um tempinho sem falar, cada um querendo ser o dono da verdade. Mas tudo não passava de um joguinho bobo e, por trás da cara fechada e bicos, não se aguentavam de saudade.

Até então, caminhavam juntos, partilhando os mesmos ideais. Beto era advogado numa empresa conceituada e Luíza se especializava em “designer” de interiores. A casa nova e financiada cabia perfeitamente dentro do orçamento e ainda podiam se dar ao luxo de uma viagem internacional no período de férias.  Problema financeiro não existia.

Luíza precisava descobrir o que estava acontecendo.  Um casamento não se joga assim pela janela.  O mais cruel é suportar a primeira ideia que vem à cabeça de toda mulher: TRAIÇÃO.

Teve muita paciência até descobrir a senha do celular do marido.  O mais dolorido foi acessar as redes sociais; a coragem demorou uma semana pra chegar. Mexeu e remexeu o quanto pode e não encontrou nenhuma pista.  Teria ele outro celular?

Foi no sábado quando voltavam do supermercado que a paciência de Luíza se esgotou e a briga ultrapassou os limites do civilizado. Tudo começou com o gasto nas compras. Ela já tinha reduzido todas as despesas e não tinha mais como cortar.

Já à porta de casa, antes do carro entrar na garagem, Luíza soltou o cinto de segurança; queria fugir pra que o pior não acontecesse. Os braços compridos e fortes de Beto impediram-na de qualquer reação.

Ele pisou forte no acelerador e o carro preto zuniu no asfalto molhado. Arrastou cavaletes de uma construção, ultrapassou farol vermelho, entrou na contramão e quase atropelou pessoas que passavam na faixa de segurança. 

Alcançou a rodovia feito um desvairado, ziguezagueando na pista em velocidades que iam de cem a cento e oitenta quilômetros por hora.   Ouvia-se um “buzinaço” dos outros veículos que cruzavam a pista, em alerta aos motoristas.

Luíza sentia o pavor da morte.  Os gritos não tinham mais força; foram reduzidos a grunhidos de desespero.

E, numa curva fechada, Beto perdeu o controle. O carro se desestabilizou, bateu na mureta de arrimo e girou sobre si mesmo em trezentos e sessenta graus. Capotou várias vezes e despencou morro abaixo.

Tudo virou um emaranhado de lata contorcida e dois corpos. Ele morreu no local e a esposa só voltou pra casa após dois meses de internação.

Ainda em recuperação e fazendo fisioterapia, Luíza esperava o momento pra começar uma investigação. Nada fazia sentido. Nada justificava aquele revés na vida...

E, numa tardinha bem fria de inverno, a campainha toca. Era um oficial de justiça e uma intimação judicial de despejo por falta de pagamento das prestações da casa financiada.

Luíza não precisava investigar mais nada.

 

ACIDENTE DO DESTINO - Hélio Fernando Salema

 



ACIDENTE DO DESTINO

Hélio Fernando Salema

 

Antônio Carlos liga para sua esposa Mirtes e avisa que recebeu um convite para uma reunião numa chácara no interior. São colegas que irão se reunir com as famílias.

Pede para ela arrumar as malas, pois partirão hoje à noite e só voltarão no domingo no fim do dia. Passa informações sobre o lugar em que ficarão hospedados temperatura, programação etc.

Na realidade ele lembrou que no sábado fará vinte anos que eles se conheceram numa festa numa pequena cidade. Conseguiu reservar hotel e pretendia fazer-lhe uma surpresa.

Quando chegou à casa Mirtes já estava pronta. Tomou banho e se arrumou. Colocou as malas no carro e saíram, pois, ele sabia que a estrada era perigosa, principalmente à noite. Só não imaginava que pegaria chuva forte.

A empolgação de Antônio Carlos era semelhante à daquele dia em que ele e mais três amigos foram a uma festa de São João numa pequena cidade. Todos foram entusiasmados pela perspectiva de conhecerem belas moças que diziam haver naquela festa tradicional.

Quando chegaram, a alegria dos quatros jovens era a de crianças ganhando doces de Cosme e Damião. Uma festa típica com barracas enfeitadas, fogueira, dança de quadrilhas, pau de sebo, pessoas vestidas à caráter e muita alegria.

Poucos minutos depois Antônio Carlos viu uma linda jovem acompanhada de outras duas que se dirigiam a uma certa barraca de doces, cujo nome era muito sugestivo “BARRACA DO AMOR”. Aquela que lhe chamou a atenção também lhe dirigiu um olhar significativo. Experiente que era em conquistas, logo se dirigiu àquela barraca.

Ao se aproximar viu que a sua jovem predileta se deliciava com uma cocada. Ele olhando os demais doces percebeu um dos seus favoritos, doce de leite com chocolate. Solicitou um à vendedora e foi prontamente atendido.

Ao ver que as outras moças se afastaram, aproximou-se e puxou conversa:

— É o seu doce preferido?

Ela olhou nos olhos dele e disse, sorrindo:

— Sim.

Com este SIM iniciava uma relação que no dia seguinte completaria vinte anos. Antônio Carlos e Florinda continuaram conversando ali perto da barraca por muitos minutos. Até que foi anunciado que iria começar a apresentação da Quadrilha. Ela se entusiasmou e perguntou se não iria ver. Ele concordou, logicamente, e olhando para o balcão da barraca viu algo, pegou e entregou a Florinda:

— Dizem que é a MAÇÃ DO AMOR.

Ela sorrindo aceitou e foram para o local da quadrilha. Ela depois de saborear alguns pedaços ofereceu a ele. Assim ambos apreciaram o fruto.

Ficaram admirando a dança até que o locutor informou que naquele momento iniciaria uma quadrilha para todos. Muitas pessoas correram para dentro da quadra posicionando-se. Florinda pegou a mão de Antônio Carlos e o puxou até junto aos demais. Dançaram e se divertiram como nunca.

Saíram da quadra caminhando alegremente, quando ele viu uma pequena praça com um banco vazio, os demais ocupados por casais. Não teve duvidas, foram rapidamente sentar e descansar.

Assim que readquiriram as forças, ele a abraçou e se inclinou para beijá-la. Sutilmente desviou a boca, de modo que os lábios dele tocaram só no rosto dela. Sem se dar por vencido manteve a posição e sussurrou:

— Gostaria de sentir o sabor da cocada.

No fundo do poço dos sentimentos mais profundos da atração natural, ela sentiu florir a força sublime dos desejos. E só no pensamento: “também gostaria de sentir o sabor do doce de leite”. Em seguida os lábios tornaram-se frutos dos sabores e desejos.

Esse beijo foi lembrado e replicado inúmeras vezes com outros sabores, mas com a mesma intensidade.

 

 

Assim, pela primeira vez, o casal usava o carro novo na estrada. Aquele que Antônio Carlos vinha há muito tempo admirando. Que na semana anterior, ao passar por uma concessionária viu chegando, e era justamente da sua cor preferida, preto.

Logo no inicio da viagem, Antônio Carlos teve algumas dificuldades com tudo de moderno que havia. As vezes se embaraçava com tantos botões e informações apresentadas no painel.

Mirtes perguntou pelas outras famílias. Ele respondeu que já estavam na estrada, saíram mais cedo.

No inicio da viagem tudo transcorria muito bem, como o “sonho” de Antônio Carlos havia sido imaginado.

Repentinamente começou a chover. Cada minuto que passava ficava ainda mais forte. Por estarem num carro novo e moderno, nada parecia preocupá-los, tanto é que não perceberam a alteração da chuva, tornando-se um terrível temporal.

Quando Mirtes avistou uma placa que indicava a próxima cidade, lembrou a festa em eles se conheceram. Com um raio de luz lhe veio à memória a data, justamente a do dia seguinte.

Comentou com o marido. Este apenas deu um sorriu malicioso. Mas foi o suficiente para que ela percebesse a intenção dele. 

Invadida por tanta emoção que não lhe cabia, e a medida que olhava para ele, aumentava sua vontade de correr, pular, gritar e saudar a ocasião.

Sem pensar e nem imaginar o que estava fazendo, soltou-se do cinto de segurança, atirou-se sobre ele e deferiu-lhe um forte abraço e muitos beijos.

O carro que estava em alta velocidade não conseguiu fazer a curva, desgovernou-se e bateu fortemente.

Mirtes foi atirada contra o vidro, sentiu a cabeça doer, depois as pernas, e em seguida sentiu que ficaram presas. Olhou para o lado e viu o marido preso no cinto de segurança, porém inerte.

O estrondo da batida dissipou-se. Sentiu um silêncio que veio lentamente penetrando no seu corpo, tomando-o para si. Percebeu que seu corpo assim ficava mais leve à medida que o silêncio ia aumentando até tornar-se um SILÊNCIO ETERNO.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...