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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

FOI POR UM TRIZ – AS AVENTURAS DO LEOZINHO Leon Vagliengo

 

FOI POR UM TRIZ – AS AVENTURAS DO LEOZINHO

Leon Vagliengo

 

Você tem sonhos espontâneos quando dorme; acordado, sonha também quando a sua mente divaga por ideias e pensamentos felizes; tem fantasias, quando se imagina realizando sonhos; é místico, quando crê em Entidades sobrenaturais; e conhece o fantástico quando Elas te socorrem.



Quando eu nasci, alguém me presenteou com uma medalha de prata do Anjo da Guarda. Infelizmente já não me recordo de quem recebi esse carinho, mas lhe sou muito grato e conservo a medalha com muito amor e devoção até hoje, mais de setenta anos depois.

 

Tantos momentos perigosos, dramáticos, que vivenciei e superei incólume ao longo de minha vida, fizeram com que eu desenvolvesse uma grande fé na proteção recebida de meu Anjo da Guarda.  E não apenas isso, muita proteção recebi, também, para superar as minhas limitações e dificuldades, em situações que foram decisivas para o meu destino.

 

Alguns acontecimentos de minha infância e juventude ficaram gravados de forma indelével em minha memória pela gravidade das circunstâncias em que ocorreram, e ainda permanecem vívidos, nunca se apagam, como estes que passo a situar e narrar.


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I – Recordações de uma viagem.






Estive em Mongaguá pela primeira vez em mil novecentos e cinquenta e um, e tive o privilégio de conhecê-la como era então: uma pequena, distante, tranquila, deliciosa localidade à beira da Praia Grande, subordinada ao município de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. É cortada ao meio pelo Rio Mongaguá, o maior dos que cruzam a praia antes de Itanhaém, que impedia a passagem dos veículos que na época transitavam pelas areias da praia. A linha férrea de Santos a Juquiá servia a toda a região, e nessa oportunidade lá chegamos de trem.

 

Dessa minha primeira viagem restaram muitas lembranças.

 

Quase todas as ruas de Mongaguá eram de areia, sem calçamento, mal definidas, com uma rala vegetação rasteira que se espalhava pelo solo, produzindo pequenos ouriços que grudavam dolorosamente espetados nos pés de quem os pisasse descalço. Depois que pisei alguns, os meus pais me compraram um par de alpargatas, daquelas feitas de brim, com aquele estranho solado de corda. A estação ferroviária, o hotel, uma igrejinha do outro lado do rio em relação ao hotel, uma pequena ponte para viabilizar a passagem dos veículos, já longe da praia, mais para dentro da cidade, algumas casas e muitos terrenos vazios, além da praia e do mar, eram os elementos que compunham um cenário silencioso e encantador.

 

O Hotel Club Marinho, em Mongaguá, pertencia a um casal já idoso quando os conheci, muito simpático e carinhoso com seus hóspedes, especialmente, posso dizer, com um menino de apenas quatro anos, que era eu nessa primeira vez em que lá nos hospedamos. A filha deles, a senhora Chiquita, colega do meu pai, trabalhava no setor de pessoal do Banco do Brasil, em São Paulo, e eventualmente intermediava as reservas e hospedagens para os colegas interessados. Foi ela quem tomou algumas das providências e orientou a nossa viagem.

 

Instalado num prédio à beira mar, com dois andares além do térreo, o hotel era muito agradável e acolhedor. Passados setenta anos, lembro-me bem, ainda, de seu agradável cheiro de asseio, de suas escadas com degraus escuros e sonoros, em madeira, e das refeições deliciosas preparadas em sua cozinha, degustadas no refeitório próprio, bem instalado, mesas com toalhas branquinhas e lindos talheres que incluíam as facas especiais para peixes, pouco comuns, que lá conheci.

 

Logo fiz um amigo, um solitário senhor alemão de meia idade, que me dedicava muita paciência e atenção. Conversava comigo num português meio atrapalhado e era hóspede do hotel. Fez amizade com meus pais e ficou algumas vezes conosco na praia, conversando com eles e brincando comigo, me ensinando a manusear a areia molhada para fazer pequenos castelos e estradinhas com túneis, onde passávamos os carrinhos de brinquedo.

 

Gostei de pisar descalço e brincar na areia, mas fiquei muito assustado quando os meus pais me levaram para o primeiro banho de mar. Fugi do mar, desesperado, e chorei com medo das ondas, enquanto meu pai e minha mãe tentavam me convencer a voltar para a água. Medo maior passei, porém, quando, ingenuamente, fui ver de perto uma galinha com ninhada no quintal do hotel e ela avançou para mim, ameaçadora; percebi o perigo, corri, meu pai me socorreu, mas não deu tempo: tomei uma bela bicada no traseiro. Aí doeu, chorei de novo.

 

Mais do que tudo, lembro-me do barulho das ondas no quebra-mar, que ouvíamos durante toda a noite, devido à proximidade e ao silêncio absoluto existente além do som do mar, e que, ao invés de perturbar nosso sono, tornava-o delicioso e relaxante. Para um menino, tudo era novo, simples, encantador, memórias maravilhosas da vida começando...




Muitos anos depois passei por lá e vi, com triste saudade, que o velho prédio que foi a sede do Hotel, reformado e expandido, passou a abrigar a Prefeitura Municipal.

 

E aqui começa a narração da primeira aventura anunciada no início, ocorrida no ano de mil novecentos e cinquenta e cinco, quatro anos depois da primeira ocasião em que lá nos hospedamos:

 

O valente Citroën preto modelo onze ligeiro, ano mil novecentos e cinquenta e um, seguia corajoso, em velocidade apenas moderada devido aos cuidados impostos ao motorista, meu pai, pela forte chuva que caia no litoral de São Paulo naquele fim de tarde. Já havíamos passado a Ponte Pênsil de São Vicente em direção à Praia Grande, que ainda nem era um município, e o destino final seria o Hotel Club Marinho, trinta quilômetros ao sul, que teriam que ser percorridos pelas areias da praia, pois naqueles idos dos anos cinquenta não havia autoestrada que fizesse essa ligação. Não era a primeira ocasião em que fazíamos essa viagem.

 

Nesta vez, porém, a chuva incessante alagava a estradinha estreita, e fortes jatos de água saltavam longe, para os lados, a cada buraco ou depressão do asfalto precário atingido pelas rodas do carro. Enquanto eram vencidos os cinco quilômetros da pequena estrada, da ponte até a praia, a chuva foi aumentando, transformando-se em forte tempestade.

 

Dentro do carro crescia um clima de silenciosa tensão, à medida em que nos aproximávamos da praia. Minha mãe, habitualmente medrosa durante as viagens, desta vez estava perceptivelmente apavorada; mas tinha razão quando disse a meu pai que voltasse, que não seria possível chegar a Mongaguá naquelas condições. Eu tinha apenas oito anos e também estava com medo, pois já sabia que teríamos que atravessar os muitos riachos que cortam as areias, os quais estariam transbordando com as águas daquela tempestade. Seriam trinta quilômetros de praia deserta, pois raras eram as casas em toda a praia. Não haveria socorro em caso de uma eventual necessidade, que já se afigurava muito provável. Para completar a situação, alguns trovões começaram a ser ouvidos.

 

Meu pai, porém, aos quarenta anos, era um motorista destemido e adorava desafios ao dirigir. Naquele momento, muito atento ao que fazia, parecia imperturbável.  Ao final da estrada entrou na praia conduzindo o carro vagarosamente, buscando orientar-se para direcionar o carro paralelamente ao mar e seguir viagem em direção ao Sul.

 

À beira-mar o cenário era assustador. O tempo, já bastante escuro pelo entardecer e também devido às pesadas nuvens, pouco nos permitia enxergar; a água, torrencialmente vertida pela tempestade, praticamente encharcava toda a orla, tornando impossível definir onde terminava a faixa de areia e começava o mar. Nesse momento eu tive a exata sensação de que o meu pai não direcionara o carro corretamente, e dirigia-se quase frontalmente em direção ao mar. Felizmente ia muito devagar, devido às dificuldades causadas pela tempestade. Apavorados, eu e minha mãe, mal respirávamos.

 

Creio que a entrada pela praia durou menos de um minuto, mas, na perspectiva de um menino de oito anos, foi o minuto mais longo e sofrido de minha existência. Subitamente não mais suportei a incerteza e, desesperado, gritei para meu pai: “vira mais o carro, estamos indo para o mar!”.

 

Dos Céus, imediatamente, veio o socorro. Inesquecível!

 

Assim que gritei, um raio enorme, absurdo, apareceu sobre o mar, bem próximo à praia, iluminando espetacularmente, por alguns instantes, todo aquele cenário, como se fosse um dia ensolarado, explodindo segundos depois com forte estrondo. Sem nenhum exagero, creio que foi o maior raio que vi em toda a minha vida. O resplendor produzido pelo raio nos permitiu perceber claramente que eu tinha razão:  o carro estava de frente para o mar, apenas um tanto enviesado, e pouco faltava para invadi-lo, já a poucos metros das primeiras ondas; nem o valente Citroën se manteria em funcionamento para sair das águas, se nelas entrasse.

 

Ante a clara visão proporcionada pelo raio, a reação de meu pai foi imediata, esterçando rapidamente a direção para voltar à estrada, em retorno à Ponte Pênsil.

 

Foi por um triz que não entramos no mar com o carro.

 

Voltamos a São Vicente, pernoitamos numa pensão e no dia seguinte seguimos para nossas férias em Mongaguá. Durante o longo percurso pela praia, um belo dia de sol e o cheiro salgado do mar predominavam em nossas sensações.

 

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II – A caminho da escola







Os Citroëns, como o do meu pai, foram carros muito admirados e cobiçados, desde o final dos anos quarenta, pelo menos – e o são até hoje, por alguns colecionadores –, por várias características que os diferenciavam dos demais carros. Praticamente todos pretos com rodas claras amareladas em contraste, eram, naqueles tempos, os únicos carros com as vantagens da tração dianteira; bastante velozes e ágeis, tinham a merecida fama de não capotar, entre outras boas características.

 

Porém, as portas do motorista e do passageiro ao seu lado eram consideradas perigosas porque abriam-se para a frente e, em trânsito, numa eventual falha da fechadura, poderiam escancarar-se repentinamente pela ação do vento, oferecendo grave risco a esses ocupantes, mesmo porque, naquele tempo, os carros não eram equipados com cinto de segurança.

 

Pois é...!

 

Eu ainda era aluno do curso primário, aos dez anos de idade. Num dia de mil novecentos e cinquenta e sete, logo após o almoço, o meu pai me levava para a escola em nosso Citroën. A escola era o Instituto Dom Bosco, no Bom Retiro, bairro central de São Paulo. Na então recém inaugurada avenida Santos Dumont, continuação da Avenida Tiradentes, o asfalto novinho era um paraíso para ele, que deliciava-se dirigindo velozmente, sentindo o carro, como dizia e fazia, sempre que possível, mesmo na cidade. 

 

Na ausência de minha mãe, eu ia sentado no banco da frente. Num dado momento, já próximos da escola, resolvi abrir e bater a minha porta porque a sua primeira trava escapou e ela ficou mal fechada, fazendo algum barulho e ameaçando abrir-se. Muitas vezes eu já fizera isso com a porta traseira, quando sentado no meu lugar habitual de criança, sem nenhum problema, pois a força do vento, com o carro em movimento, até ajudava a bater aquela porta, que abria para trás.

 

No mesmo instante em que eu, ingenuamente, acionei a maçaneta, a porta se abriu de uma vez, me puxando para fora do carro. Meu pai, num rápido e incrível reflexo, me agarrou pelas pernas como pôde, sem soltar o volante, e eu fiquei seguro por ele e pendurado, com a mão segurando na maçaneta, o corpo fora do carro a partir da cintura, vendo o asfalto passar velozmente a uns vinte centímetros do meu nariz, até que ele conseguiu dominar a situação e me trouxe de volta para dentro do carro.

 

Incólume, mas foi por um triz.

 

O Citroën era mesmo um carro emocionante, especialmente quando guiado por meu pai: ousado, mas muito habilidoso e competente na direção. 

 

No Citroën aprendi a dirigir aos doze anos, justamente na Praia Grande, com a orientação de meu pai. Por isso, também, a minha decepção foi profunda quando ele o vendeu, em mil novecentos e sessenta, após dez anos de uso diário e intenso, para substituí-lo por um Volkswagen.

 

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III – A curva fechada e o mistério.





 

Com o advento da era Volkswagen em nossa família, as coisas mudaram. Agora o meu pai trocava o carro a cada um ou dois anos, mas sempre por outro Volkswagen. Carro prático, relativamente barato, econômico, mecânica simples, assistência técnica farta, o Volkswagen logo conquistou o gosto popular.

 

Quando eu me interessei pelo Volkswagen, porém, não foi em razão de suas virtudes técnicas. Já adolescente, sentia mesmo muita vontade de dirigir, mas ainda não tinha idade para isso, e meu pai, corretamente, não o permitia. A única solução era “sair fora da lei” e pegar o carro escondido para dar umas voltas sem destino pelo bairro, aguentando a bronca depois. Vários amigos faziam o mesmo, e alimentávamos, uns aos outros, a nossa ousadia, com o exemplo e o relato envaidecido de cada aventura realizada.

 

Nessa época morávamos no Jardim São Bento, na Zona Norte de São Paulo, um bairro muito convidativo para essas perigosas travessuras, em razão de suas ruas asfaltadas e dos pouquíssimos veículos que por elas transitavam. Travessuras perigosas porque, apesar da habilidade que muitos do grupo desenvolveram, nas primeiras aventuras não a tinham, mas não resistiam à tentação de fazer manobras arriscadas, estimulados pelos amigos: andar em velocidade, derrapar nas curvas, dar cavalos-de-pau, eram as mais comuns; acelerar forte no meio das curvas para “grudar” o carro no chão, era preceito básico.

Numa tarde de sábado consegui pegar o Volkswagen do meu pai e saí com dois ou três amigos, tão irresponsáveis quanto eu, para dar umas voltas sem destino pelo bairro. Depois de dirigir algum tempo a esmo, subi a Rua Dom Domingo de Silos, entrei na Rua São Mauro e, em seguida, entrei à direita, na Rua Padre Ângelo Siqueira.

 

A Rua Padre Ângelo Siqueira é uma rua relativamente curta, mas sinuosa. Era asfaltada como as outras do bairro, mas com muitos buracos e irregularidades no asfalto em suas curvas e entre elas, o que prejudicava a estabilidade dos carros. Começava com uma descida de uns oitenta metros, vinha uma curva fechada à esquerda e, uns cinquenta metros e vários buracos depois, outra curva, também fechada, à direita, formando um “s” e iniciando uma subida de menor extensão que a descida. Ao lado esquerdo dessa subida, logo além da guia, pois não havia calçada, uma longa e perigosa ribanceira.

 

Desci a rua acelerando o carro, as manobras teriam que ser feitas com rapidez. Fiz a primeira curva, para a esquerda, num instante passei pelos cinquenta metros esburacados, e comecei a esterçar a direção, já acelerando forte no meio da curva para a direita para “grudar” o carro ao chão, quando um forte solavanco provocado por algum buraco fez com que as minhas mãos escapassem do volante, e a força centrífuga gerada pela curva brusca jogou o meu corpo sobre a porta do carro, onde fiquei grudado, por um átimo, devido à pressão sofrida. No meio da curva perdi completamente o controle do carro, que estava acelerado.

 

Num movimento reflexo e desesperado, tão rápido quanto pude, me reequilibrei e retomei a posição ao volante, já certo de que não teria mais como evitar que o carro pulasse a guia e rolasse a ribanceira. Então, não entendi como, mas, inacreditavelmente, vi que o carro estava perfeitamente alinhado com a rua, como se nada de anormal houvesse acontecido.

 

Foi por um triz, o susto foi apavorante. Acabou-se o passeio, voltei mansinho para casa.

 

Mas...ainda no caminho de casa, ainda com o coração disparado, veio a estranheza: Como foi possível o carro ter ficado tão bem alinhado com a rua, naquelas circunstâncias? Quem conduziu o carro naqueles instantes em que estava completamente à solta? Até hoje, para mim, que vivi o momento, é um mistério.

 

Ou não?

 

Mais tarde, já em casa e passado o susto, tentando entender, lembrei e desconfiei, pela primeira vez, do Anjo da minha medalhinha...


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IV – De repente, uma menina.






Já fazia cerca de um ano que eu estava dirigindo habilitado. Menos imaturo e bastante treinado ao volante com as peripécias praticadas, eu sentia que dominava muito bem o carro. Aos dezenove anos, para mim, dirigir era um delicioso prazer, um verdadeiro esporte em que eu me propunha desafios, os mais diversos, que serviam para aperfeiçoar o meu domínio da direção, mas que, agora, deveriam sempre ser realizados em segurança, conforme eu a entendia.

 

Em rotatórias ou curvas mais largas, por exemplo, o desafio era percorrê-las com perfeição, respeitando em todo o contorno uma faixa imaginária, pois na época as pistas da cidade de São Paulo não eram demarcadas. À noite, ao voltar do namoro, me propunha outros desafios: ora tentava fazer o percurso de uns vinte quilômetros, da casa da namorada até a minha, em menor tempo a cada dia, ora tentava fazer todo o percurso sem usar os freios, controlando a velocidade com o câmbio manual. Nunca consegui fazer todo o percurso sem frear nem uma vez, mas adquiri um bom controle do carro e até a calcular os tempos dos semáforos por onde passava habitualmente.

 

Andar em velocidade, porém era a prática mais comum. Não podia deixar que outro carro ultrapassasse o meu, a disputa no trânsito era permanente. Sempre fiel ao preceito de acelerar no meio das curvas para assegurar a estabilidade do carro, princípio básico especialmente para carros de tração traseira, como o Volkswagen, eu dificilmente dirigia devagar, mesmo porque, na época, quase não havia fiscalização para o cumprimento das regras de trânsito.

 

Apesar de tanto empenho, porém, eu ainda tinha muitas coisas para aprender sobre riscos do trânsito; e um dia o perigo se revelou, o susto aconteceu.

 

Eu vinha conduzindo o meu Volkswagen pela avenida Caetano Álvares e entrei com alguma velocidade na Rua Mariquinha Vianna, em direção à Avenida Água Fria, na Zona Norte de São Paulo; essa rua, naquela época, admitia duas mãos de direção e tinha, por calçamento, os escorregadios paralelepípedos, então muito comuns nas vias públicas de São Paulo.

 

Muitos carros estacionados ao lado direito, de entre deles saiu, de repente, uma menina de uns sete ou oito anos, correndo para atravessar a rua. Senti, com certeza, que não haveria tempo para frear o carro.

 

Ela logo percebeu o perigo a que se expusera e, tentando parar a sua corrida, passou a pular de lado, numa perna só, reduzindo um pouco a distância que percorreria, cena que gravei para sempre. Como eu não teria tempo para deter o carro antes do impacto, desviei dela rapidamente, passando muito perto da menina e da guia à minha esquerda, completamente contramão. Meu carro, mesmo com a súbita guinada, incrivelmente não derrapou nos paralelepípedos; e também não vinha nenhum outro no sentido contrário ao meu.

 

 Nada aconteceu, foi por um triz.

 

Sorte ou milagre?

 

Mais uma vez, senti a presença do Anjo da Guarda. Creio que desta vez eram dois.

 

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V – Enxergando ao longe, entendendo muito de perto.







O ano de mil novecentos e sessenta e seis veio cheio de novidades para mim. Pela primeira vez, após oito anos de convívio, eu não mais encontraria diariamente os meus colegas do Colégio Estadual Doutor Octávio Mendes - CEDOM, pois havia completado o curso colegial no ano anterior. Era, também, o meu primeiro ano como aluno de faculdade, e eu já pensava em procurar um emprego. Foi nesse ano que o meu pai me avisou que seria realizado o primeiro concurso público para o recém-criado Banco Central da República do Brasil, hoje Banco Central do Brasil.

 

Confirmei que me interessava, sim, ao ler o Edital; fiz a minha inscrição e me preparei como pude para as provas, que foram realizadas exclusivamente na cidade do Rio de Janeiro. A estadia foi uma boa oportunidade para um rápido convívio com os meus tios Magda e Eduardo, que carinhosamente nos acolheram em seu apartamento no Leblon, a mim e a meu pai, que me acompanhou em duas das três oportunidades em que lá estive, quando foram realizadas as provas de conhecimentos, datilografia e aptidão, física e psicológica.

 

Na véspera da prova de datilografia, justamente aquela para a qual eu estava menos preparado, a minha tia me deu um alerta curioso, que foi muito importante: “Ao iniciar a prova os candidatos estarão tensos pela expectativa e vão romper o silêncio de repente, todos ao mesmo tempo, apressados para concluir o teste no prazo; vai fazer um grande barulho. Alguns deles vão se assustar e enfiar os dedos no teclado, enganchando os tipos da máquina e até borrando a folha. Ao sinal, espere alguns segundos e respire fundo antes de começar”.

 

 Foi como ela disse, fiz como ela disse. Deu certo: consegui fazer todo o texto sem erros, inclusive com a margem direita perfeitamente retificada, como era exigido na época. Isso me ajudou muito para conseguir a aprovação no concurso que definiu a minha atividade profissional por mais de quarenta e um anos, a partir de janeiro de mil novecentos e sessenta e sete, quando tomei posse.

 

Minha história poderia ter sido bem mais curta.

 

Naquele ano, a Rodovia Presidente Dutra estava em obras para duplicação de suas pistas. Eu e meu pai retornávamos a São Paulo de uma dessas viagens para o concurso, e eu ia dirigindo o Volkswagen por uma longa reta, ainda na baixada fluminense. À nossa esquerda, separada por um largo canteiro de mato, a pista de mão contrária, poucos carros em trânsito. Ao nosso lado, na faixa da direita, um grande carro preto americano, daqueles antigos, bem alto, por algum tempo atrapalhava a nossa visão de placas de sinalização que porventura houvesse.

 

Bem ao longe vi um grande caminhão que vinha em sentido contrário e comentei com o meu pai que ele parecia estar na mesma pista em que estávamos. A grande distância que ainda nos separava e a pouca probabilidade de que isso estivesse ocorrendo, prejudicavam a minha certeza..., mas...parecia mesmo! Cismado, fixei a vista no caminhão ainda distante, mas nos aproximávamos rapidamente, a cerca de duzentos quilômetros por hora, somadas as velocidades. E tudo aconteceu muito rapidamente.

 

A cada instante mais focado em observar e tentar entender a posição do caminhão, por pouco não percebi a existência de um pequeno acesso para a pista paralela que ele deveria tomar, saindo da mão dupla que percorria; foi apenas com o rabo dos olhos que vi aquela entrada quando passei por ela e imediatamente lembrei-me de que a rodovia estava em obras de duplicação, compreendendo que o caminhão, já bem próximo, estava realmente na mesma pista e faixa que nós; sem contar que eu havia ficado na contramão, depois daquele acesso!

 

Desesperador! O Volkswagen não era potente e o carro preto continuava ao nosso lado.

 

Pisei no acelerador até o fundo para acabar de ultrapassar o carro preto, avançando de frente para o caminhão até o limite possível da segurança, e mudei o carro para a faixa de rolamento da direita sem sequer ter a certeza de que já havia ultrapassado o outro carro. Calculei que sim, mas eu nem poderia olhar porque estava controlando a rápida aproximação do caminhão.

 

Só deu tempo de mudar de faixa. O enorme veículo passou ao nosso lado balançando o Volkswagen com o deslocamento de ar e fazendo um barulho de ferragens duro e ensurdecedor, que retorna martelando os meus ouvidos, por manobras da mente, todas as vezes em que me lembro desse episódio. Acredito que o motorista do carro preto tenha diminuído a velocidade, mas o do caminhão não o fez; talvez nem tenha percebido que eu estava em apuros. E nem conseguiria segurar o seu pesado veículo no último momento. Se o acesso estivesse alguns metros adiante de onde o vi, eu não teria tido tempo para reagir. Apareceu para mim de repente, no momento extremo, como aquele raio...

 

Mais uma vez, foi por um triz. E que triz!

 

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Estas são apenas algumas de minhas histórias, na forma como ocorreram, talvez as mais dramáticas que vivenciei, nas quais precisei de uma proteção instantânea; e ela veio: estranha, invisível, sobrenatural, inesperada.

 

Muitas outras situações aconteceram, no plano pessoal ou profissional, em que também me senti amparado de uma maneira especial. Seriam mesmo intervenções do meu Anjo da Guarda? O que fiz para merecê-las? Deixo essas perguntas aos leitores, para que as interpretem de acordo com a sua crença.

 

        Por tudo o que contei e muito mais, eu sou profundamente agradecido.

 

 



quinta-feira, 19 de agosto de 2021

ZÉ BANANA - Henrique Schnaider

 


ZÉ BANANA

Henrique Schnaider

 

Carlos Gonzaga, apelido de infância (Zé Banana). Hoje grande artista, escultor famoso e pintor e respeitado e admirado. Já realizou várias exposições de suas obras, tanto de esculturas como pintura de quadros da natureza.

Atualmente trabalha em sua obra prima. É a pintura da floresta da Gávea. Para isso resolveu acampar no centro da mata. Ele quer viver e sentir na pele o quadro que está pintando. Ouvir os sons e os piados que vem de lá.

O Zé Banana montou uma barraca e aproveita o que a mata pode oferecer. O vento as vezes assobia nos seus ouvidos e a chuva molha seu corpo em dias chuvosos. A preocupação principal é proteger a sua obra das intempéries.

Um macaquinho visita o Zé Banana todas as manhãs fazendo micagens. Tornou-se um amigo curioso para ver aquilo que ele está tentando pintar e até parece que o símio entende e analisa a obra. Um papagaio tornou-se um frequentador do local, pousa na barraca e taramela, curupaco  papaco,  curupaco, papaco. Parece que ele tenta se comunicar e dar também a sua opinião.

Todos aqueles bichos amigos injetavam energia e inspiração para ele. Mas o Zé Banana não tinha pressa, demorasse o que demorasse, ele iria continuar ali e só iria embora do local, quando terminasse de realizar a sua inspiração.

O Zé Banana nasceu num lar pobre. Seu pai saia todas as manhãs com um carrinho de mão cheio de bananas. Que colhia na plantação nos fundos da casa, para vender. Todo mundo já conhecia a sua cantoria “Olha a banana, olha o bananeiro, eu tenho bananas pra vender”. O pai do Zé só voltava no fim da tarde, quando o carrinho ficava vazio.

Como o Zé vivia comendo bananas e estava sempre com uma na mão. Seus amiguinhos lhe deram o apelido carinhoso de Zé Banana. Mas ele era um artista nato. Tinha uma energia desconhecida, que o levava a fazer figuras de argila que ganhava na Escola e folhas de papel para fazer desenhos.

Os pais dele perceberam a vocação do menino e fizeram um esforço com os seus parcos recursos. Matricularam o filho numa Escola de Belas Artes. O menino Carlos não cabia em si de felicidade por estar aprendendo a desenvolver a arte que explodia de forma desordenada dentro de si e só precisava de um professor para pôr as coisas no devido lugar.

Este dom só podia levá-lo à glória de ser um grande artista. O prêmio viria com o tempo. O Zé tinha tudo e como tinha tudo para ser um artista famoso, ele conseguiu chegar lá.

Hoje o dia amanheceu com um sol resplandecente e os bichinhos seus amigos, já estão ali para a visita diária, e o Zé sentiu uma tristeza profunda por estar de saída. Sua obra está terminada e parece que o macaquinho dizendo, uuáá, uuáá, e o papagaio curupaco paco curupaco paco, admirados, estão aprovando a arte.

Nos anos vindouros o Zé Banana, que de banana não tem nada, vai atingir os píncaros da glória e sua obra prima tão valiosa provavelmente valerá milhões de dólares. 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Por um triz - Adelaide Dittmers

 



Por um triz

Adelaide Dittmers

 

O jovem andava apressado. O rosto contraído e sério tinha uma expressão de desespero.  Não enxergava ninguém à sua frente. Esbarrava nas pessoas.  Parecia um autômato movimentando pela multidão. Pensamentos contraditórios chocavam-se em sua mente pela derrota que teve naquele concurso.  Tinha se esforçado tanto.  Atravessou várias madrugadas sem dormir.  Como iria contar isso ao pai, que sempre fora tão exigente e não admitia derrotas. Durante a infância e adolescência era cobrado a todo instante pelo seu desempenho.  Queria que o filho fosse seu espelho.  Um vencedor.

 Nunca quis cursar direito.  Nunca almejou chegar a ser desembargador ou ser, como nos sonhos mais insanos de seu pai, um juiz da Suprema Corte. Estava farto de tudo isso. Perdera a namorada, porque era inseguro e não conseguia tomar decisões.

Com esses sombrios pensamentos, chegou ao edifício da empresa do pai para lhe comunicar o acontecido, mas subitamente, um desejo premente de tomar ar antes de enfrentar a ira dele o levou ao terraço do último andar do prédio.

 Ao chegar lá, olhou a cidade, que se estendia embaixo, pontilhada por altos edifícios.  Quantas vidas atrás das muitas janelas, quantos dramas, quantas ambições, quantos fracassos, quantas vitórias.  A grande metrópole sempre lhe pareceu pulsar como um coração desvairado. 

Um helicóptero, que passou bem perto do terraço, o arrancou de seus pensamentos.  Respirou fundo e, de repente, uma vontade incontrolável de acabar com tudo apoderou-se dele.  Estava exausto da tirania e da vaidade do pai, de quem sempre recebeu minguados carinhos.

Olhou para baixo.  Tudo iria ser muito rápido.  Voaria para a liberdade.

Subiu na mureta e, quando se preparava para saltar, dois braços fortes o agarraram e o puxaram para trás.

— Moço, o que ia fazer?

O rapaz aturdido soltou-se do homem e caiu num choro convulsivo.

— Por que você me segurou?

— Um moço jovem como você, com a vida toda pela frente...

O moço olhou com atenção para o homem, que o impedira de se matar.  Era mais velho, vestia um macacão.  Devia ser um dos faxineiros da empresa.

— Minha vida não tem sentido. É um desfile de fracassos e desilusões. Disse, com as faces molhadas pelas lágrimas.

— Filho, disse o homem, ternamente. Não diga isso.  A vida é uma dádiva.  Um presente.  Você só tem que aprender a desembrulhá-lo.

— Fala isso para meu pai.

— Ah! Então é seu pai a causa do seu desespero. Livre-se da causa. Aprenda a fazer seu caminho.

Uma grande surpresa estampou-se no rosto lívido do jovem.  Como um homem tão simples podia lhe dar conselhos tão sábios.

— Como o senhor pode saber dessas coisas?

— Muitos anos vividos, filho.  Muitas lutas. Mas nunca desisti.  Nasci no sertão nordestino, onde o chão é seco, a gente planta e nada dá.  Menino ainda, andava muito longe para buscar água. Moço, vim para São Paulo, já com mulher e filhos.  A gente casa muito cedo por lá.  Como não conhecia as letras, só pude arranjar serviços muito simples.  Fui pedreiro, mas um dia caí de uma laje e tive sorte de não morrer. Quebrei as pernas.  Demorei a ficar bom e arranjei serviços de limpeza, que faço até hoje.

— Qual é a sua idade?

— Sessenta anos. Tenho muito orgulho que um filho meu fez faculdade e já tenho netos.

O rapaz olhou aquele homem, cuja pele enrugada pelo sol o fazia parecer bem mais velho.

— Quanta coragem! É o que me falta para realizar meus sonhos.  Exclamou mais calmo.

— E quais são os seus sonhos, moço?

— Ser escritor.  Gosto de escrever.  Tenho muita coisa escrita escondida na escrivaninha do meu quarto.

— Escondida! Por quê?

— Meu pai não acha que seja uma profissão séria e que dá dinheiro.

— É que ele não sabe o que a gente sente quando não sabe escrever e ler.  Meu filho, quando era estudante, lia para mim as histórias dos livros da escola. Aprendi muita coisa com ele.  Que coisa mais linda de ver.  Até me ensinou a escrever e a ler alguma coisa.  Foi o maior presente que recebi, conhecer um pouco as letras.

O rapaz comoveu-se e admirou mais ainda aquele homem, que lhe atravessou o caminho para o salvar, não só da morte, como da vida que não tinha.

Em um gesto súbito, pegou as mãos ásperas e calejadas do seu salvador e apertou-as entre as suas.

— Obrigado! O senhor me salvou hoje por duas vezes e nem sei seu nome.

— Sebastião! E o seu?

— Rodrigo!

Os dois levantaram-se.  Sebastião fixou seus olhos carinhosamente em Rodrigo e disse com um sorriso:

— Vá Rodrigo! Siga a vida que você quer. Não olhe para trás.

— Nunca vou me esquecer do senhor. Mais uma vez obrigado, e o abraçou fortemente, entregando-lhe um cartão de visitas.

— Meu cartão.  Me ligue quando puder, e se precisar de alguma coisa. Vou ficar muito feliz de tornar a vê-lo.

Sebastião acompanhou-o com um olhar feliz, ao vê-lo sair.  Tinha salvado uma vida.

Rodrigo acenou da porta e saiu do terraço.  Desceu diretamente para a rua. Não passou pelo escritório do pai. 

Decidiu que ia sair de casa e seguir um novo caminho. Ia viver, finalmente.

O LÁPIS DE COR - Alberto Landi

 




O LÁPIS DE COR

Alberto Landi

 

Havia uma caixa de lápis, de cores maravilhosas! Mas um deles se sentia muito triste, era o de cor preta.

Ele se sentia o pior de todos. Pois ele era a ausência de outras cores. Às vezes ele estava de bom humor. Ficava até “lúdico” com as crianças que o utilizavam para desenhar. As vezes se mostrava “matreiro”. Deixando sua ponta grossa só para desagradar as crianças.

As pessoas só o escolhiam para desenhar ou pintar coisas sem muita importância. Mas ele fazia tudo para se destacar. Se mostrar útil e “preciso” apesar de suas limitações.

Os outros percebiam que o lápis preto se destacava dando um sombreado mais nítido em tudo, e tentavam agradá-lo.

O Amarelo desenhava caricaturas para que se divertisse.  O Vermelho enchia o papel de corações, mostrando quanto o amava. O Azul o levava às profundezas do mar proporcionando fantástica viagem ao mundo de cores azuladas. O Verde o colocava em uma imensa floresta misteriosa. O Laranja lhe mostrava o brilho do sol com seus raios brilhantes e reluzentes.

Mas, ele continuava triste. Foi então que ele percebeu que lá no fundo da caixa, havia um lápis bem quietinho, totalmente sem uso, abandonado.

Era o Branco.  Curioso ele perguntou:

— Por que você está tão só?

O lápis Branco respondeu:

— Estou aqui pensando que nem sempre a ausência de cor é tão ruim.

— Como assim? Indagou o lápis preto

— Eu só posso ser utilizado em um fundo colorido.

— Tive uma ideia, falou o lápis preto pensativo. Que tal ficarmos juntos?  É simples, eu posso colorir o fundo do papel e você o desenha, assim um ajuda o outro.

Os dois ficaram felizes.  Pois, nunca imaginaram que duas cores tão diferentes, combinariam tão bem. E dessa forma, saíram fazendo arte com as crianças.

Afinal de contas, “é preto no branco”!

A oportunidade - Adelaide Dittmers

 



A oportunidade

Adelaide Dittmers

 

Era uma noite quente e seca.  O menino estava com sede e a fome lhe corroía o estômago.  Desamparado, percorria as ruas, estendendo as mãozinhas, para pedir uns trocados às pessoas, que passavam indiferentes e apressadas.

O rosto exprimia cansaço e desalento.  O olhar refletia um desamparo, que parecia envolver seu corpo frágil. Roupas nada limpas e um par de tênis, que devia ter passado por muitos pés,  mostravam a penúria em que vivia.

Subitamente, reparou que uma senhora estava tirando a carteira da bolsa, em frente a uma banca de jornal.  Um pensamento lhe atravessou a cabeça como um raio e sem resistir, passou por ela correndo e arrancou a carteira de suas mãos,

— Pega ladrão, gritaram as pessoas que viram o roubo.

E o menino, apesar da fraqueza, serpenteou pelos transeuntes, tentando fugir com o que tinha roubado.  Na sua consciência não havia culpa.  A única preocupação era escapar, sentir-se seguro e comprar algo para saciar a fome, que lhe roía as entranhas.

Como um animalzinho que escapa de seu predador, continuou a sua desabalada corrida.  Quando estava longe, parou sob uma árvore, abriu a carteira e contou o dinheiro.  Duzentos reais.  Quanta grana, pensou.  Tivera sorte.  Jogou fora a carteira e enfiou o dinheiro nos bolsos da surrada calça.

Mais adiante, entrou em um boteco e pediu um prato feito.  O dono o olhou com desconfiança, ao que ele lhe mostrou algumas notas, que tirou do bolso.

O homem trouxe, então, um prato cheio de arroz, feijão e carne,  que o menino devorou, como se nunca tivesse comido nada em sua vida.  Pediu um copo de água, que bebeu de um gole só.

Satisfeito e alimentado, continuou sua caminhada pela cidade, que sempre lhe parecia indiferente a sua miséria e solidão.  Depois de muito andar, chegou a um viaduto.  Embaixo, amontoadas, muitas pessoas dividiam um espaço precário.  Fogareiros improvisados, sacolas de alimentos e roupas deixadas por boas almas, que por ali passavam, espalhavam-se pela estreita calçada.  Um mundo diferente e sórdido na cidade rica.

Josué aproximou-se de uma das famílias e logo uma mulher sem os dentes frontais veio ao seu encontro.  Estava barriguda, prenha de mais um filho.

— E aí, você conseguiu alguma coisa?

O menino olhou-a com raiva.  Era sua madrasta, que só pensava em explorá-lo, mandando-o a mendigar nas ruas.  Sua mãe morrera, quando tinha sete anos e há quase quatro anos convivia com ela, irmãos e o pai bêbados.  Os seus onze anos de vida eram marcados por abandono, desesperança e maus-tratos.

— Consegui.  E tirou do bolso trinta reais, que estendeu a ela.

— Só isso? Perguntou a madrasta com uma careta de desprezo.

— Só! Respondeu bruscamente. Virou-se e foi se sentar encostado à parede do hostil viaduto.  Nunca que iria dar mais dinheiro àquela bruxa, pensou,  e um ódio silencioso espalhou-se pelo seu olhar.

Ajeitou a cabeça na parede dura e começou a imaginar o que faria com sua pequena fortuna. Foi a primeira vez que roubou.  Não era o que queria fazer, mas talvez o único caminho. Pedir não lhe rendia quase nada, apenas uns parcos trocados.  Roubar era arriscado, mas não fora difícil tirar a carteira da mulher.  Se conseguisse mais dinheiro, poderia fugir dali, talvez alugar um quarto em uma favela e livrar-se do pai inútil e da madrasta exploradora.

Aos poucos, dormiu embalado pelo sonho de se libertar daquela miséria e pelo menos ter o que comer e uma cama, mesmo que tosca, onde descansar.  Um sorriso puro de criança aflorou em seu rosto adormecido.  Talvez o último sorriso inocente da triste e perdida infância, porque, quando acordasse no outro dia seria um outro menino, que seguiria por um caminho tortuoso e perigoso.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

CATEDRAL NOTRE DAME DE PARIS - Alberto Landi

 



CATEDRAL NOTRE DAME DE PARIS

Alberto Landi

 

Tive oportunidade de visitar essa Catedral por algumas vezes, mas desta vez me emocionei ao apreciar os detalhes de sua beleza.

É uma das edificações góticas mais belas do mundo. Muitos acontecimentos marcaram toda sua existência: Cenário de romances. O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo. Ali Napoleão coroou-se imperador da França em 1804...

A relíquia mais valiosa é a Santa Coroa que os católicos acreditam que foi usada por Jesus pouco antes de ser crucificado. Conserva ainda outras duas relíquias da Paixão de Cristo; um pedaço da cruz e um cravo.

Era um dia invernal de 6 de janeiro de 2014, havia muita neve nas margens do Sena e finas camadas de gelo se formavam na água. As gaivotas esfomeadas devido ao rigoroso inverno voavam em círculos no céu.

Nesse dia estava sendo celebrada pelo bispo de Paris, a Solenidade da Epifania do Senhor. Era a manifestação divina em Jesus, como sendo o escolhido Filho de Deus. O momento de revelação dele ao mundo. Tive o privilégio de assistir, e ao mesmo tempo de apreciar detalhes da Notre Dame, como a sua beleza e a sublimidade das cores etéreas de seus vitrais brilhantes e reluzentes e de sua calma gelada. Há 3 rosáceas que representam flores do paraíso. Nelas estão profetas, anjos, reis, cenas da vida dos santos. No centro das rosáceas figuram as imagens de Maria, o Menino Jesus e da Ascensão de Cristo. No centro, ao fundo, um grande órgão com 5 teclados e cerca de 8.000 tubos por onde saem ondas sonoras belíssimas. É o espetacular destaque da Catedral!

Interessante, também, é o sagrado ritual das pessoas em oração e a emoção das palavras pronunciadas na liturgia, como se fosse uma elevação de uma grande poesia.

A catedral é alma. Com suas torres, vitrais, sinos, órgãos, e espaços silenciosos. Não são meras edificações medievais, mas sim, é onde nos sentimos em casa. Nos encontramos com Deus em uma celebração conjunta dos seus seguidores.

Que mistério pode se esconder além das portas fechadas, luzes apagadas, e liturgias abreviadas?

Penso que é tempo de estarmos unidos e darmos as mãos pela construção de um mundo melhor e mais fraternal.

Nos meus sonhos vejo uma Catedral que representa por igual valor o mundo, o ser humano, as famílias e as raças de um modo geral como um todo, e a união entre nações.

E assim, a Catedral de Notre Dame em Paris, grande símbolo do cristianismo, me deslumbra sempre que a vejo, por sua magia, grandiosidade e encantamento.

O LÁPIS E SUAS QUALIDADES - Henrique Schnaider

 




O LÁPIS E SUAS QUALIDADES

Henrique Schnaider

 

O lápis tinha um papel muito importante naquela casa. “Maldoso” às vezes ficava sem ponta deixando todos, que precisavam dele para escrever, sem poder fazer o que precisavam. Ou seja, escrever uma carta, uma lição de casa ou algum desenho.

Quando estava de bom humor, podia ser “lúdico”, possibilitando através da escrita, umas brincadeiras legais. Ele estava sempre “faminto”, precisando do apontador para satisfazer suas vontades e ficar com uma bela ponta. Mas o apontador cobrava um preço caro para lhe apontar. Ele tinha que dar a cada apontada, a sua própria composição de madeira.

“Injusto”, às vezes, resolvia quebrar a ponta no meio de qualquer tarefa.  E pronto, lá vinha o salvador da pátria, o belo apontador com suas lâminas bem afiadas para apontar e deixar uma bela ponta novamente, alegrando quem estivesse usando o lápis.

“Matreiro”, de vez em quando, ficava com a ponta grossa só para se divertir e brincar com quem estivesse fazendo um desenho que acabava ficando muito feio.

O apontador também gostava de fazer das suas com o lápis e resolvia não apontar ele direito. Pois tinha que ser “preciso” para apontar e ficar uma bela ponta. O lápis ficava bravo com seu parceiro, pois sabia que sem o apontador, não teria como realizar suas funções.

As pessoas da casa gostavam muito do lápis, pois se divertiam através dele, escrevendo ou desenhando. Eles o achavam de extrema utilidade e cuidavam dele com o maior carinho.

Mas a vida do lápis foi relativamente curta. Com o passar dos dias, quanto mais ele era usado, pior para ele. E ele foi ficando aflito. Foi vendo sua vida encurtar cada vez mais e até que um dia, ele ficou tão pequeno que o seu triste destino foi a lata do lixo.

O MACACO SIMÃO - Henrique Schnaider

 




O MACACO SIMÃO

Henrique Schnaider

 

O macaco Simão era o “maldoso” do bando, mas também muito “matreiro”. Sempre era o primeiro a pegar as comidas que o bando “faminto” achava para comer.

Ele tinha a liderança do barulhento bando de macacos e não admitia que ninguém o desafiasse. Assim, de vez em quando, algum macho jovem empolgado, resolvia desafiar o líder Simão, o circo pegava fogo, mas na luta para manter a liderança ele era “preciso” nos seus golpes e punha para correr o desafiante.

Havia momentos em que ele era “injusto”, e que nem sequer tinha pena dos filhotes do bando, alguns dos quais eram seus filhos. Os pobres que ficavam aguardando os pais para poderem ser alimentados.

Sabia defender o bando como um verdadeiro líder tem que ser. Quando eram atacados por inimigos. Desta forma, era cada vez mais acatado e admirado. As fêmeas da turma se encantavam com ele e ficavam sedentas apenas por um olhar de interesse por uma delas.

Ele sabia escolher muito bem as preferidas. As macacas mais bonitas e aquelas que procriavam bem para lhe dar muitos filhotes. Mas tinha uma macaca jovem ainda, a Pimba que era a sua preferida e Simão se desmanchava todo por ela, lhe dando presentes de frutas madurinhas deliciosas.

Quando o bando era rodeado e atacado por grandes felinos como leões, leopardos e panteras, o líder Simão tratava de atrair as feras para proteger o resto do bando. “Preciso” e “matreiro”, sabia como enganar os atacantes que acabavam se cansando e desistindo da caça pelas estratégias de fuga do líder.

Assim, os anos foram passando e Simão continuava liderando e protegendo o seu bando. Mas, o tempo não perdoa nenhum ser vivo e o  macaco, começou a dar sinais de velhice e de fraqueza.

Um dos seus filhos King, já adulto, se tornou um vigoroso macaco temido por todos. Simão percebeu que seu filho qualquer dia, iria desafiá-lo, tomar o poder dele e assumir a liderança do bando.

O macaco Simão, demonstrando que tinha sabedoria e maturidade, antes que seu filho lhe tirasse o poder através de um combate, o chamou e deu-lhe o cetro do poder. Resolveu se aposentar daquela vida agitada e foi viver bem no alto de uma gigantesca árvore ao lado da sua amada Pimba.

O MACACO KING - Alberto Landi

 






O MACACO KING

Alberto Landi

 

Alguns animais tomavam sol à beira do rio. Mas estavam preocupados com o aparecimento de um leão ali nas redondezas, que ameaçava a tranquilidade deles.

O felino parecia idoso, mas era muito lúcido para perseguir os animais. Mas, o macaco, ele era do chifre furado. Pendurava frutas no pescoço da girafa, dava nó na tromba do elefante, aprontava muito.

Os bichos se reuniram para planejar um meio de se livrar do leão. King, o macaco, era lúdico e matreiro e se deliciava comendo bananas nos galhos da árvore. Rindo e ouvindo o que os bichos estavam tramando.

— De que você está rindo? Perguntaram. 

— Estou rindo porque todos vocês têm medo do leão, mas eu não!

— Vou fazê-lo trabalhar para mim!

Eles deram muitas gargalhadas do macaco quando disse isso.

— Vocês vão ver!  Isso é só a ponta do iceberg!

O leão se aproximou dos animais e perguntou com ar de austeridade:

— De que vocês estão rindo?

Informaram ao leão, o que King, o macaco matreiro, havia dito!

— Ah é! E, onde está ele? Perguntou o leão já furioso.

Apontam todos para a árvore onde ele estava sentado.

Quando o leão viu o símio, correu até ele:

— Você aí! Disseram que não tem medo de mim e que eu trabalharia para você. É verdade?

O símio muito dissimulado argumentou que não era bem assim:

— Eu disse que “gostaria” de poder trabalhar para você. 

— Ah! Disse o leão, agora entendi.

Se estabeleceu uma amizade entre o leão e o macaco e foram juntos em direção ao rio.

De repente King parou, chorando, suas lágrimas que lógico, eram como uma cascata, escorrendo pelas bochechas.

— O que há de errado com você? Perguntou o leão.

— Estou com dor no pé e receio de não poder te acompanhar.

— Você precisa dizer para aqueles bichos que realmente tem medo de mim, disse o leão.

Vamos fazer o seguinte disse o macaco matreiro:

— Você me deixa andar em suas costas?

Prontamente o leão concordou, e assim prosseguiram no caminho.

De repente o macaco gritou, espantado e com olhos como se fossem duas jabuticabas:

— As suas costas são muito irregulares. Ajudaria muito se tivesse uma espécie de sela para que eu pudesse ficar mais confortável.

O felino gentilmente pegou folhas de palmeira e colocou a sela.

— Agora sim, está confortável, disse o macaco. E assim continuaram caminhando.

Mais uma vez o dissimulado King gritou:

— Eu tenho medo de cair da sela, se eu tivesse algo para me segurar seria o ideal. O leão concordou e amarrou algumas videiras no seu pescoço. Passado algum tempo eis que o macaco grita novamente.

— O que está errado agora? Diz o felino, já bem irritado e feroz.

— Há muitas moscas por aqui, preciso de algo para espantá-las.

 Eis que o felino pegou um grande galho e deu ao símio.

— Isso vai ajudar, vamos em frente, diz King.

Quando estavam quase chegando, o macaco sentou-se no alto da sela, agarrou as videiras e golpeou o felino com as folhas e gritou:

— Vamos lá...

O felino surpreso disparou, e correu tão rápido que passou na frente dos animais que estavam reunidos. Todos eles começaram a rir quando viram o macaco saltar das costas do felino e pular de volta para as árvores.

Os risos foram tão altos que chegaram aos ouvidos do leão, e este envergonhado nunca mais voltou naquele lugar.

O macaco rindo disse:

Eu dominei a fera, e como falei, ele iria trabalhar para mim. Fazendo todas as minhas vontades...

FREDERICO - Henrique Schnaider

 





FREDERICO

Henrique Schnaider

 

Frederico tinha fama de ser um sujeito “faminto”, morto de fome. Casou-se com Sônia uma mulher rica e vaidosa que gostava de se cuidar, possuía uma bela silhueta, um corpo muito bem cuidado através de idas frequentes ao cabeleireiro e plásticas e aplicações de Botox.

A tristeza da vida dela, era que o Fred, como ela o chamava, era totalmente o contrário. Sujeito totalmente relaxado consigo mesmo. Não era chegado num banho, usava roupas desgrenhadas e raramente trocava de roupa. Sônia tinha que ficar pegando pesado para conseguir alguma coisa boa dele.

Não que ele fosse “maldoso”, mas ele amolava a esposa que tinha acabado de fazer as unhas. Dizia o “matreiro”, que estava com muita fome e ficava pedindo que ela fizesse aquela comidinha que ele gostava. Lá ia Sônia para o fogão satisfazer as vontades do marido.

Fred não ficou satisfeito e queria uma sobremesa daquelas superdifíceis de preparar e que só engordava o guloso do marido. Sônia, paciente, fazia todas as suas vontades. Porém, a paciência ia se esgotando.

Fred era “injusto” com a esposa, pois não era capaz de fazer um único elogio para ela, apesar de ela merecer muitos.

O Fred só tinha olhos para as guloseimas e usava e abusava da esposa que já estava com a chaleira fervendo.

Certo dia, Fred depois de se empanturrar de comidas feitas pela Sônia. Comeu tanto, mas tanto que começou a passar mal. Foi parar no hospital e acabou numa UTI com diverticulite, pois o estômago e os intestinos não resistiram a tamanha comilança.

O guloso teve que passar vários dias internado no hospital e quando teve alta, Sônia o fez prometer que iria se controlar na comida, e ele jurou que faria isso.

Passados alguns dias e a promessa estava sendo cumprida.

Mas, assim como diz o ditado que “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”, Fred voltou ao vício e “para comer um leão, mas para trabalhar só nos empurrões”.

Sônia não aguentava mais aquela vida de servir ao glutão. Um dia sem mais nem menos, fez as malas e foi embora para a casa da mãe e deixou a fominha sozinho, morrendo de fome já que ele não sabia cozinhar, preguiçoso como era. Iria precisar trabalhar se quisesse comer. Dessa forma acabou a boa vida de Fred, o faminto.

 

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...