O
BURRO FALANTE
Henrique Schnaider
Geninho
era um burro que nasceu burro e como todo burro que se preza era teimoso. Quando nasceu, o seu Chico não viu nada demais
naquele burrinho que pinoteava e zurrava solto no campo feliz e contente.
Com
o passar dos dias seu Chico começou a ouvir uma voz tagarelando, mas não
atinava de quem era. Pensou até num fantasma que estivesse perseguindo-o. Até
que um dia para seu assombro ouviu o burro Geninho resmungando.
—
Seu Chico eu falo, falo, e falo, bla, bla, bla, e o senhor não me responde, sou
eu, Geninho. Por acaso o senhor tem alguma coisa contra um burro que fala ? Disse
rindo, quichiii.
Seu
Chico arrepiou-se inteiro como era possível o burro Geninho falar, piscou os
olhos, limpou os ouvidos e Geninho se arrebentando de rir quichiiiii. Seu Chico
olhou para o burro e disse:
— Oh, burro besta metido a falar, e além de
tudo, com essa risada escrachada.
O
caipira custou a acreditar que podia conversar com Geninho e logo pensou, vão
pensar que enlouqueci. A única coisa que o Geninho é, muito teimoso, custa a me
obedecer. Vou levar este burro para minha mulher a Rosinha, espero que o burro
fale com ela e assim terei certeza de que não estou louco.
E
lá se foi seu Chico levando o Geninho pela corda tagarelando como um papagaio.
Chegando
em casa seu Chico gritou:
— Rosinha, mulher, corre até aqui vem ver uma
coisa, você não vai acreditar o nosso burro Geninho fala.
Rosinha
veio correndo pensando, meu Deus meu marido bebeu. Quando ela chegou em frente
ao burro o caipira já quase alucinado disse:
— Vamos lá, Geninho, fale alguma coisa para
minha mulher.
O
burro não se fez de rogado, disse disfarçando para Rosinha não vê-lo falando: —
Patrão, o senhor quer mesmo que eu fale? Olha, o senhor não vai gostar hein.
Seu
Chico já espumando de raiva:
—
Fale de uma vez, seu burro, senão te meto o chicote.
— Está
bom, está bom, então lá vai, e é bom se preparar, pois lá vai uma burrada
daquelas. Disse Geninho à mulher: — Como
o seu Chico, teve coragem de casar-se com uma mulher tão feia como a senhora?
Quichiii!
Dona
Rosinha ficou da cor de um tomate maduro:
—
Chico, seu desgramado! Aposto que foi você que ensinou este burro besta vir até
aqui me insultar dessa maneira.
Dona Rosinha de repente, se deu conta da
situação, arregalou os olhos incrédula:
— O
que é isto? Este burro fala? Chico que brincadeira é essa?
Seu
Chico fuzilando o Geninho com os olhos disse
—
Seu burro miserável, além de só falar besteira, ainda por cima é um mal-educado,
atrevido, mas, corajoso. Acabou falando para a Rosinha aquilo que eu nunca tive
coragem de dizer e agora que a verdade veio à tona, vou desabafar aquilo que
está entalado na minha garganta faz tempo. Eita mulher feia, soh! Louco fui eu
que me casei com ela.
Geninho
ganhou neste dia, além da admiração e amizade, uma bela ração extra de alfafa, e aprendeu que nem sempre em boca aberta entra
mosquito.
A SORTE ÀS VEZES
SORRI
Alberto Landi
Kamal, um menino
angolano, perdeu seus pais durante um conflito ocorrido em Luanda, em meados de
1975. Conflito esse que gerou a independência de Angola, até então sob domínio
de Portugal.
Joao Pedro, um
jornalista português a serviço de um jornal de Lisboa, estava cobrindo
pessoalmente parte desse conflito. O jornalista conseguiu trazer para Lisboa, o
menino Kamal, então órfão e sem parentelas, para viver com sua família.
Aconteceu, que num
período curto, a família não quis mais aceitar a convivência. Então Kamal ficou
à deriva, vagando pelas ruas da cidade, sem rumo, buscando comida e um teto
para viver, pedindo esmola para os transeuntes.
Não ter o aconchego
dos pais é terrível. Vendo o menino era uma cena de cortar o coração. Pude
imaginar quantas noites não passara dormindo ao relento, sem um teto para
morar.
Quando estendia a
sua pequena mãozinha aos transeuntes, sentia muita humilhação e só
observava indiferença nas pessoas. Quantos corações endurecidos e
insensíveis, nas pessoas.
Hoje é domingo. A
criança encontra-se à porta da igreja de São Pedro do Estoril, implorando com o
seu semblante triste e amargurado, em receber uma possível esmola.
Algumas pessoas
depositam algum dinheiro em sua mão estendida. Terminada a missa, o seu
semblante está um pouco mais alegre, pois sabe, que nesse dia de domingo, não
passará fome.
Seguem se os dias,
o tempo vai passando, e a caridade fingida dos transeuntes continua omitindo a
solidariedade para com esta pequena criança e aumentando a indiferença das
pessoas.
Aproximei-me de
Kamal, depois de observá-lo por muito tempo, e propus a ele uma morada e comida
em minha casa. Prontamente aceitou. O tempo foi passando e Kamal com 14 anos de
idade já estava na quinta série, mostrando ser um aluno aplicado e com muito
interesse nas disciplinas.
Nas horas de lazer,
após seus estudos, ajudava no expediente de uma livraria, de um amigo meu. E
assim Kamal se afeiçoou aos livros, e após alguns anos, um advogado.
Penso que a solidariedade
e a oportunidade dada às pessoas, fez de Kamal um grande ser humano. Vejam como
a vida é interessante e cheia de alternativas. Atualmente Kamal é um advogado brilhante!
MAL
ACOMPANHADO
HIRTIS LAZARIN
O homem abriu os olhos gemendo de dor. Acabara
de levar um chute no tornozelo. Era assim que o cobrador de ônibus
acordava o último passageiro no ponto final da linha.
Sonolento, Joca saltou do coletivo num pulo de mal
jeito. A coluna vertebral não gostou e respondeu com um "ai"
dolorido.
Além de atravessar a cidade de oeste a leste, ele
tinha que enfrentar uma caminhada de mais de meia hora.
A noite estava gelada, escura e silenciosa.
Até o boteco da esquina, onde, todo dia bebericava algumas doses de cachaça com
conhecidos, quase não pega aberto.
Olha no relógio e já são vinte e duas horas.
Estava mais tarde que de costume. Postura envergada, menos pelos anos já vividos
e muito mais pelos maus tratos da vida difícil. Nordestino, semianalfabeto,
passa os dias misturado e confundido com tijolos e cimento, aturando a
prepotência e indiferença do mestre de obras. Joca já imobilizou dezenas
e mais dezenas de palavrões na garganta porque depende destes tostões
pra sobreviver.
Olhos tristes, passos pausados e monótonos, caminha
solitário. O silêncio é interrompido pelo som de passadas vindas de
trás. Para, olha e procura. Não vê nada. Um breu só. As
luzes dos postes esqueceram que já era noite.
Joca sente um frio gelado e a sensação de que um
vulto passou pertinho de seu corpo. Encolhe-se arrepiado. " Bobagem, sou
cabra macho. Só tô cansado demais. Ou será que é a saudade de
"mainha? Ainda bem que consegui chegar a tempo pra vê-la e
abraçá-la antes da sua partida."
Caminha mais um quarteirão e as
passadas voltam. Antes um plact... plact... vagaroso,
agora um ploct, ploct rápido. Ele muda de calçada. Os sons
acompanham-no. E, ainda, falta um bom pedaço de caminho
pra Joca chegar em casa. A boca seca tem gosto de jiló e um fio
gélido percorre sua espinha.
A rua continua um deserto de gente. De vez em
quando um carro,.. Uma coruja mal agourenta pia estridente escondida nos galhos
do manacá corpulento e florido. Um gato morador de rua abandona o
esconderijo e desaparece enlouquecido. "Que noite é essa, Padim
Ciço"!
Joca não controla mais a respiração. Gotas
aflitas escorrem-lhe pelo rosto sem cor. Era uma tremedeira só. O sertanejo,
que não temia nem o diabo, fraqueja e sente vergonha. Não anda nem pra
frente nem pra trás. Cai sentado no meio fio. Flexiona as pernas e
esconde o rosto entre os joelhos. Posição fetal que geme, que busca
proteção. Ouve, então, a respiração ofegante de alguém bem próximo e,
logo em seguida, o tec... tec... de um gatilho. Espera a morte. Era
seu último momento de sobrevivente num chão áspero e sujo. Enche os
pulmões e grita como nunca gritou antes.
Uma caneca de água gelada alivia-o desse
sofrimento. "Vai pra casa, Joca. Toma um banho e
livra-se dessa ressaca!" Grita, o
dono do boteco.
ENCONTROS
E DESENCONTROS
Henrique Schnaider
Rubens era casado com Mirna há dez anos, se
conheceram nos tempos da faculdade. Estudavam na mesma classe do curso de
medicina, era um sonho para ambos aquela carreira, estavam no último ano para conseguir
aquilo que consideravam a missão sagrada de ajudar as pessoas doentes a enfrentarem
seus males e se curarem.
Ainda calouros no curso, ambos trocavam olhares
interessados, depois de algum tempo, Rubens querendo namorar, tomou a
iniciativa de convidá-la para sair. O tempo se fez de cupido, quando viram
estavam completamente apaixonados, a lascívia os dominou, loucura, explosão da
paixão.
Antes mesmo de se formar foram morar juntos, o
carinho e a dedicação eram grandes, tudo se transformava em encantamento no pequeno
apartamento, eram horas de luxúria e amor incandescente.
O tempo passou, não tiveram filhos e a devoção e
dedicação à profissão, esfriou a relação dos dois na mesma proporção que antes crescera,
e agora mal se olhavam, sequer se tocavam eram dois estranhos vivendo no mesmo
teto.
Enquanto isso Roberta médica recém-formada, um
coração doce, carinhosa com seus pacientes, fazia estágio no hospital da cidade
com vida dura e dedicação em tempo integral. Não tinha olhos para mais nada,
daí seu casamento naufragou. Mal via seu marido não tiveram filhos e quando
chegava em casa desmaiava de cansaço e o seu companheiro mergulhado na TV,
ignorava a sua presença.
Rubens e Roberta se conheceram no hospital,
trabalhavam na sessão de queimados, trabalho difícil doloroso e, juntos
procuravam amenizar a dureza daquela vida diária tratando casos de queimaduras
de primeiro, segundo e terceiro graus, o local era dominado pelos gritos
lancinantes de dor, o cheiro ruim de assado era de carne humana.
Ambos estavam com os corações machucados pelo
fracasso no casamento, medo de amar novamente, mas levavam seu relacionamento
profissional de forma muito carinhosa, ficavam confusos com este sentimento novo
que nutriam um pelo outro, ambos não queriam acelerar a relação e assim foi
acontecendo devagar, mas não conseguiram segurar estavam apaixonados.
Rubens achava desculpas para estar perto dela toda
hora. Ela gostando muito. Entraram de cabeça na relação que virou uma mistura
de amor e culpa com sentimento pesado. Mas não resistiram a atração mesmo no
meio de tanto drama de pessoas machucadas, gemidos doloridos, doendo até na
alma.
Tinham que resolver aquela situação e Rubens queria
assumir a relação, abandonar Mirna, pressionava Roberta que titubeava entre ser
feliz se entregar ao amor, jogando tudo para o alto, ou continuar aquela vida
insonsa do seu casamento.
A situação de ambos se tornou uma tortura, até que
Rubens premido pela situação deu um ultimato a Roberta, que amoleceu inteira. Teriam
que largar tudo sem olhar para trás. Ele esperaria no dia marcado, na estação
de trem, partiriam para bem longe e recomeçariam a vida juntos.
Chegado o dia marcado Rubens deu uma desculpa
esfarrapada à Mirna, dizendo que iria viajar para um Simpósio médico por alguns
dias. Ela deu de ombros não dando a menor importância àquilo que ele iria
fazer.
Rubens chegou cedo à estação Central, coração
desatinado nervoso olhando para o relógio a todo instante, a hora passando e
nada de Roberta. A angústia do fracasso atormentado daquele amor doía na mente e
no coração dele.
O suor da aflição descia vagarosamente pelas costas
em um filete, quinze minutos para a partida, e nada. Dez minutos desespero a
flor da pele. Cinco minutos, Rubens tremia inteiro, pois no fim do longo
corredor avistava uma figura, não tinha certeza se era ela, mas pôr fim, a
confirmação, era sua amada que chegava.
Um abraço forte e carinhoso selou a união. Partiram
para uma nova vida, felizes por estarem juntos e prontos a iniciar um futuro sem
remorsos.
O desencontro de Arminda Rosa e João Gaspar
Leon Alfonsin Vagliengo
Por onde andará Rosinha?
Já deve estar bem velhinha...
Pensava o moreno trigueiro
João Gaspar, o velho tropeiro.
A fumar seu charuto, lembrava
Do tempo em que a procurava
Na Casa de Moças da cidade
O que lhe trazia tanta saudade,
Por onde em viagem passava
E com sua tropa descansava.
Rosinha, a sua preferida,
Entre tantas, a mais querida.
A única que procurava,
A única que o encantava.
Um dia, ao voltar d’viagem,
Iria criar coragem
Para dizer que a queria
Que por ela tudo faria,
Até poupá-la da vida
Por ela não escolhida.
Mas foi tão longa a viagem,
E quando chegou, com coragem,
Quanta infelicidade!
Ela mudou da cidade
Antes de saber da paixão
Que despertara em seu coração.
Naquele mesmo momento,
Em sintonia de pensamento,
Na janela do velho sobrado,
Sem ter ninguém a seu lado
Na vida que agora levava,
Arminda Rosa também lembrava
Do tempo em que era a Rosinha,
Na Casa de Moças, a rainha
Daquele cliente tropeiro,
Um belo moreno trigueiro,
De quem era a preferida.
As poucas vezes daquela vida
Em que a felicidade a dominava,
Era nos braços dele que ela estava.
Mas ele partiu em andanças,
E Rosinha perdeu esperanças.
Mudou-se para a Capital, para esquecer a
ilusão
Que tanto perturbava o seu coração.
Vida ingrata aquela, que não escolhera,
Porém, sem outra saída, a vivera.
E assim termina a história
De Arminda Rosa e João Gaspar,
Deixando para nossa memória
Um desencontro a lamentar.
O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.
Felizmente era solteiro, e o dono da "pensão" onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.
Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.
Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no
Colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontravam na rua.
O negociante ouviu-o, e disse-lhe:
- Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena.
Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...
- Estou às tuas ordens.
- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no Jornal do Comércio, um artigo contra o
Saraiva.
- Que Saraiva?
- O da rua Direita.
- O João Fernandes Saraiva?
- Esse mesmo.
- E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?
- Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.
A essa palavra "cobres", o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:
- Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...
- Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica.
Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade.
Escreves o artigo?
- Mas...
- Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
- Tenho escrúpulos...
- Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.
E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar, um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.
O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil-réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura de lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
- Muito bem! - exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.
- Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!
E, depois de um passeio â burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:
- Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. - A época é difícil, mas há de se arranjar.
O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil-réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!
Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da "pensão" que lhe emprestasse o Jornal do
Comércio, e viu a sua prosa "Eu e o sr. João Fernandes Saraiva" assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.
À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra "urgente".
Ele abriu-a e leu:
"Romualdo. - Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do - João Fernandes Saraiva."
Este bilhete inquietou o ex-jornalista.
Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe...
Mas para que me chamará ele?
O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!
- Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.
O menino foi-se.
O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.
Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:
- Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!
E levou-o para um compartimento reservado.
- Leste o jornal do Comércio de hoje?
- Não - mentiu prontamente o Romualdo. - Raramente leio o Jornal do Comércio.
- Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!
O Romualdo fingiu que leu.
- Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! - bradou o Saraiva. - Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!
- O artigo não está mau... Tem até estilo...
- Preciso responder!
- Eu, no teu caso, não respondia...
- Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio Jornal ao Comércio e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.
- Eu?...
- Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...
- Bem sabes - gaguejou o Romualdo - que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...
- Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!
No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.
Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:
- Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena!
Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...
O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo
Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.
Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não podia sair melhor! - e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil-réis e entregou-a ao prosador.
- Oh! Isto é muito, Saraiva!
- Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!
- Obrigado, mas olha: recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no jornal pode haver alguém que conheça a minha letra.
- Copiá-lo-ei eu mesmo.
- Adeus.
- Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!
- Está dito.
No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o jornal do Comércio na mão.
- O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!
E batendo com as costas da mão no jornal:
- Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas ainda assim, quem escreveu por ele está longe deter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...
E o Romualdo escreveu...
Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.
Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve!
Escreve! Eu quero ser o último!
Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.
E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.
O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo
LEMBRANÇAS
DA INFÂNCIA
Henrique Schnaider
A pequena cidade de São Jose da Barra era um lugarejo
de coração bom, onde havia paz e tranquilidade. Uma igreja matriz, e lá todos
se conheciam, havia algumas lojas em volta da praça, todos estudavam na única escola
inclusive eu, com o nome pomposo de Prudente de Morais, passei pela professora
Alma, figura marcante, que ficou para sempre na memória de nossas vidas.
Passei lá minha gostosa e doce infância, meu pai, homem
rústico, trabalhador do campo, saía com o despontar do sol brilhante, de um amarelo
dourado, voltava suado, cheirando a trabalho duro, no pôr do sol de cores pálidas,
que terminava a lida diária de dar vida ao nosso planeta.
Minha mãe, todos a
chamavam de Ritinha, um doce de criatura. Fomos criados eu e minha irmã Sonia,
por ela, que nos transbordou de tanto amor e carinho, dedicava toda atenção,
para que tivéssemos do bom e do melhor, quando papai voltava da luta diária, lá
ia ela se desmanchar toda para ele, preparar seu banho de água morninha
cheirando a rosas.
Moravam conosco, meus avós, adorávamos ouvir as
longas histórias que ele contava, sempre com final feliz, sentado na cadeira de
balanço. Suas histórias prendiam nossa atenção, e nos enchiam de medo, durante
a narrativa, com seu longo cachimbo preto, do qual saiam longas baforadas de
cheiro forte do fumo trançado.
A vovó cheirava a vovó, que delícia de pessoa, com
seu vestidinho de chitão vermelho rubro, como quem fosse uma pessoa antiga. Durante
as histórias do vovô, ela trazia guloseimas dos deuses, aquele bolo de fubá
cremoso quentinho, um aroma que dominava o ambiente.
À noite, todos com banho tomado, eu e minha irmã,
corríamos para cozinha grande, com fogão cheio de lenhas, que pululavam e
crepitavam barulhentas labaredas, crept, crept, crept, para ver e sentir a
mistura de sabores e aromas que enchiam o ambiente de delícias. A negra Paulina
ajudando mamãe e dando o toque final nas iguarias.
Todos, na sala grande onde havia estofados em
capitonê, tapetes felpudos de tom vermelho maçã, uma cristaleira com muitos
cristais e louça portuguesa, talheres de prata, tudo herança de pai para filho há
muitas gerações. Meus pais e avós eram católicos fervorosos, iam todos os domingos
na missa, rezavam antes da refeição e ao término também. Papai depois do
jantar, deixava eu e Sonia, bebericarmos o licor de jabuticabas, feito em casa,
aroma inconfundível, e sabor inigualável. Nesse momento a conversa rolava
solta, o ar tomado pela fumaça dos cachimbos dos homens da casa, enquanto nós
dois corríamos em volta da mesa numa brincadeira de crianças felizes.
Depois de uma boa conversa, íamos para nossos
quartos, onde havia duas camas, com colchões recheados com paina e travesseiros
com pena de ganso, mamãe vestia nossos pijamas coloridos e com desenhos
infantis, contava histórias de duendes, fadas brilhantes e reluzentes, até a
gente pegar no sono, depois saia pé ante pé para não nos acordar.
De manhã lá vinha a Ritinha nos acordar, com a
delicadeza de um veludo, nos ajudava a trocar de roupa, íamos para cozinha
degustar um café da manhã com tudo que gostávamos, depois como íamos para
escola só depois do almoço, dava tempo para que eu e Sonia fôssemos brincar no
jardim encantado de nossa casa, com flores dos mais variados perfumes, horta, árvores
frutíferas, podíamos brincar de pega-pega e esconde-esconde.
Tempo bom que não volta mais, nos mudamos para a
capital, mas meus pais, nos deixaram esta herança preciosa, esta casa
maravilhosa que nos deu um passado que está preso aos nossos corações, sempre
que podemos, voltamos à nossa casa querida, onde ficamos por horas lembrando do
passado.
SIMPLICIDADE
Hirtis Lazarin
Cheguei finalmente ao vilarejo incrustado bem no
alto da montanha. O caminho pedregoso e
escorregadio, cheio de curvas estreitas e serpenteantes, fez o táxi demorar
mais do que o previsto.
A chuva havia cessado e a lua crescente, num
sorriso cheio, apareceu entre nuvens velozes e banhou-nos, instantaneamente,
com sua luz incerta. Algumas estrelas
atreveram-se a aparecer. O céu ouvia e
via tudo calado: os grilos a trinar saltando, às escondidas, entre a vegetação
rasteira; as cigarras irritantes envolvidas numa cantoria monótona, a coruja a
postos fingindo ser a guardiã dos animais.
A pousada onde passaria os dias era toda de madeira
e com um só andar. Rodeada de salgueiros
e hortênsias parecia mais um ateliê de artista.
Adormeci cedo junto com os pássaros. Os lençóis brancos, fios egípcios,
acariciavam-me o sono cheio de pensamentos bons.
Assim que o clarão da manhã primaveril entrou no
meu quarto por um vacilo das cortinas mal ajustadas, saltei da cama. Tinha muito a desfrutar.
À primeira vista, o lugarejo cabia num só
olhar. Mais parecia um quadro pintado ou
um cenário fotográfico.
Uma paisagem pitoresca e cheia de magia como se
tivesse parado no tempo. Conservava o
charme bucólico do passado. As casinhas
seguiam padrão arquitetônico. Todas
pintadas de branco com sacadas suspensas e ornadas com floreiras
ornamentais. Passava-me a impressão de
competição prazerosa entre os moradores.
A Igrejinha... Ah! A igrejinha, não cabiam mais que
trinta pessoas. Na sua lateral leste, a sombra adocicada de uma castanheira em
floração. Atração aos pássaros e
borboletas. Foi construída em estilo
local, tijolos pintados de vermelho e um telhado que descia bem baixo sobre as
janelas como um chapéu a protegê-la do sol.
No final da rua principal, lá embaixo, o mar
espreguiçava em seu momento de sesta para não espantar um bando de gaivotas que
caminhava indiferente ciscando entre as pedras em busca do que comer.
Era início de temporada. Poucos turistas, quase só moradores
transitavam pelas ruas estreitas e calçadas com paralelepípedos. Gente simples e hospitaleira, de fácil
conversa. As pessoas andavam devagar, o
cachorro e o gato também, o dia passava devagar. Não havia pressa. Dava tempo para apreciar o café da manhã,
conversar com hóspedes, brincar com as crianças.
Momentos propícios para se valorizar a
simplicidade. Encontrar alegria no
simples que expõe a beleza crua e o gosto pela vida do jeito que ela é. Ter tempo para ouvir nossa alma.
Uma
borboleta amarela?
Ou uma flor
seca que se desprendeu e não quis pousar?
A
ESCOLA DA MINHA VIDA
Claudionor Dias da Costa
Nos meus sessenta anos e
carente de sentimentos de resgate de momentos passados, tomei a decisão e fui
para a rodoviária a caminho de minhas memórias.
Após algumas horas de
asfalto irregular, mudei para aquele ônibus sacolejante na poeirenta estrada
para reviver minha juventude feliz.
A cidade onde nasci é
pequena e pacata, bem diferente do tamanho da emoção que senti quando
cheguei. Um turbilhão brotou rapidamente em minha cabeça e procurei
me acalmar , fixando o olhar na igreja
do padre Jerônimo , tão generoso e melhor conselheiro das famílias de lá, que fez história com suas
andanças e amizades .Aquela torre amarelada que na época me parecia tão alta, de repente tornou-se tão pequena como o meu olhar perdido naquele transe ao lembrar o lugar que deixei
um dia.
Entrei num dos bares que rodeiam a praça Florença e enquanto me dedico a
saborear um sorvete de limão, pergunto ao rapaz atendente sobre as
oportunidades de estudo na cidade. E ouço o que parece palavras já de a muito tempo:
- Tem apenas uma escola pública de dois andares, recentemente reformada
antes da eleição, que fica colorida durante o ano letivo pelos uniformes azuis
que sobem a escadaria
Naquele instante, não perdi mais tempo, pedi para guardar minha mala e
caminhei em direção à escola. Passei pela rua lateral da praça, desci a ladeira
passando atrás da igreja e olhei à frente. Surgiu imponente ainda conservando a
fachada antiga.
A escadaria em frente à porta principal é a própria saudade do tempo
vivido ali.
Os amigos com seus apelidos malucos pareciam ainda circular ruidosamente
por aquele prédio e não mais que de repente lembrei dos olhos azuis da Maria
das Graças que causava inveja até para seu uniforme daquela cor.
Entrei nos corredores largos por onde corria tantas vezes, recebendo
broncas da Dona Albina, a severa inspetora de alunos. Acho que esta profissão
de bedel nem existe mais. Ou existe? Bem, segui em frente olhando aquele piso
de cerâmica quadriculada, confuso como boa parte de minha vida. Parei em frente
da sala em que fiz o quarto ano. As carteiras são mais modernas, coloridas e anatômicas,
bem diferente daquelas de nosso tempo de madeira envernizada com vãos nos
assentos e duras. As janelas altas são as mesmas e fiquei olhando para fora
contemplando as arvores e o gramado lateral, como se os anos não tivessem
passado.
Aquelas paisagens não muito diferentes de tantos lugares, mas, que nos
namoricos pelos cantos com a Maria das Graças traziam visões esfumaçadas como
se o paraíso fosse ali.
Com a formação no colegial parti para a cidade grande e com sacrifícios
consegui trabalhar com Contabilidade e prossegui pela vida, conseguindo depois
meu próprio escritório.
Após dois anos, casei-me com a Maria das
Graças e aquela menina dos olhos azuis radiante com alma generosa caminhou pela
vida ao meu lado. Tudo isto parecendo um pequeno instante mesmo após trinta
anos. E um dia de Outono aquele Amor se foi...Era um anjo que voltava para algum
lugar naquele imenso céu.
Nossos dois filhos que nos deram muitas alegrias partiram como águias em
suas asas de aventura para tentar a vida no exterior. Eu me aposentei.
E agora, estou aqui refletindo na escola que parece
parou no tempo e eu junto com ela. Conclui que é o cenário de fundo da minha
vida.
De repente parece que acordei. Caminhei apressado pensando em pegar
minha mala no bar e chegar à casa de meu primo que me acolheria.
Na rua, não resisti e olhei para aquele prédio onde
ainda parecia morar a felicidade como se quisesse fixar na memória e voltar a
viver aquelas grandes emoções novamente. E falei sozinho com a garganta engasgada:
- É... foi a escola da minha vida.
Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...