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quinta-feira, 22 de março de 2018

Início conturbado - Ana Catarina Sant’Anna Maues




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Início conturbado
Ana Catarina Sant’Anna Maues                                      

   O telefone vibra no criado mudo, interrompendo o sono de Marcela:
— Alô!
— Marcela, tá dormindo mulher? O sol está lindo, vamos à praia ?
— Quem é? Pergunta ainda de olhos fechados.
— Laura, quem podia ser! Uma hora dessas pensei já estar cantançando Michael Jackson. Ainda é apaixonada por ele?
 Eternamente! Mas é que cheguei tarde. To só o pó. Visitei sete cidades em dois dias dirigindo sozinha. Estrada complicada, transito agressivo, muitos acidentes.
 Ah! Então já sei, não vai comigo.
 É amiga, fica pra próxima.
   Hora do almoço. Marcela com fome e nada na geladeira. Resolve sair e almoçar num shopping qualquer.
   Já dirigindo nas ruas movimentadas que levam ao mais próximo, percebe o olhar insistente de um belo rapaz no veículo ao lado. Volta o rosto e confirma. Está mesmo fitando-a. Ele dá passagem ao carro dela, ela agradece com a cabeça, ele esboça um sorriso, ela retribui. E assim os dois iniciam uma gostosa azaração. Ambos entram no estacionamento.
    Paulo não sai do carro, mesmo já tendo estacionado, pois fala ao celular.
— Ok! Então a placa confere. Deixa comigo. Essa já está ganha.
   Marcela nem desconfia que é alvo de uma ação policial. Tranca o carro procurando em volta pelo rapaz, sem sucesso. A brincadeira estava gostosa, ansiava quem sabe talvez um romance. Desapontada segue em direção ao restaurante. 
   Paulo, investigador experiente que é, segue-a sem que ela note. Espera que entre no restaurante, acomode-se em uma mesa, certifica-se que estará sozinha.            
    Já quase no final da sobremesa ele entra no ambiente fazendo-se surpreso por tê-la encontrado novamente.  Dos olhos dela saem micro corações pulsantes. Astuto, que nem raposa velha, percebe o interesse e aproxima-se falando com voz sedutora:
— Olá! Nos encontramos de novo.
   Sim! Responde ruborizando.
   Marcela apesar de adulta, é inocente. Moça criada no interior, veio pra capital após a morte dos pais, não adquiriu malícia, tem coração poético. Presa fácil ao engenhoso Paulo, famoso por solucionar os casos mais complexos do departamento..
  Desse encontro outros vieram. Ele foi conquistando a confiança, e a um namoro deram início sem maiores intimidades, pois o romantismo dela inibia-o de ir além, e também esse não era o caso,  afinal  ele estava trabalhando numa investigação.
  Até que numa noite.
 Dois homens conversam ao telefone.
   Chegou um carregamento. Está com a chave?
   Sim. O namorado saiu. Ela já vai dormir. Pode pegar na hora de sempre.
   Um homem chega ao prédio de Marcela. O vigia entrega a chave do carro dela.
   De tocaia está a equipe de Paulo, e segue o veículo, que vai em direção a periferia da cidade. Chegando em local ermo, os ocupantes do carro de Marcela vão até a mata e trazem de lá pesadas caixas. Quando terminam de carregar o automóvel escutam cirenes e luzes piscando. Uma voz grita em alto e bom som, anunciando a prisão deles.
   Nesse mesmo momento no apartamento de Marcela, a polícia chega arrombando a porta, e dando voz de prisão a ela. Confusa, atônita, de algemas nas mãos, assim foi levada até a delegacia.
   O delegado interroga. Ela não sabe nada de nada. Incisivo, quer então que explique, como o veículo de sua propriedade, está abarrotado de armas e drogas. Insiste em explicações sobre as viagens que ela faz, achando que mente quando diz tratar-se de trabalho, e que na verdade ela é a chefe do bando.
   Nesse momento uma ligeira movimentação desperta a atenção dela. Chegam na delegacia o carro, os homens presos, as armas, as drogas, e Paulo.
  O delegado apressa-se na acareação. Coloca frente a frente ela e os dois desconhecidos. Paulo entra na sala pra escutar.
    Quando o vê seca as lágrimas com a mão. Sente como se um príncipe em cavalo branco chegasse para livra-la de todo aquele pesadelo. Mas ele tem comportamento frio e distante. Sem entender, chama com voz miúda seu nome:
   Paulo! Sou eu.
   O delegado resolve explicar como a participação do melhor agente, foi decisiva para aquele desfecho positivo.  Ela não acredita no que escuta.
   Os suspeitos pressionados acabam contando como faziam. Havia também a participação do vigia-manobrista do edifício, ele cedia o carro para o crime. O de Marcela era sempre usado porque ela nunca saia de madrugada, dando tempo de ir e retornar sem que ela dessa falta do carro. Como as vagas na garagem do prédio eram poucas, as chaves dos automóveis ficavam com o vigia.  Imediatamente com esse fato novo, sai uma diligência para buscar o funcionário citado.
   Aos poucos ela vai compreendendo a grande trama de que foi vítima. Pede que chamem a única amiga, Laura.
   O dia amanhece. Marcela é consolada por Laura que chegou com advogado. De tudo que aconteceu ela não para de pensar em Paulo. Verdadeiramente havia entregue o coração ao dissimulado.  Ele a conquistou, pois tinha sido perfeito. Cavalheiro, amável, generoso, respeitador, romântico. Como foi possível fingir tanto tempo! Meditava inconformada. Lembrava das carícias, dos beijos, das gargalhadas, do namoro puro. Tudo orquestrado, meticulosamente planejado. Cruel demais! 
  Chega na delegacia o vigia-manobrista.  Vem algemado. Preso na rodoviária, quando embarcava tentando fugir. Ao olhar para Marcela cai em lágrimas pedindo desculpas.
   Desculpa Marcela. Eu sei, você não merecia. É gente fina pra caramba. Mas eu tenho mulher e filhos, sabe como é né. Ganho pouco. Os meninos dão muita despesa.  Querem tudo do bom e do melhor. Fui tentado. Desculpa. Desculpa mesmo.
   Marcela foi inocentada. Ao deixar a delegacia amparada pela amiga, aproxima-se de Paulo, que não esperava aquela reação dela e sem defesa, recebe um bofetão. 
     Insegurança, medo, síndrome do pânico, depressão, remédios. Degraus que veio galgando em nítido declínio por meses. Mas agora estava melhor.  Trocou de emprego, apartamento, bairro.
   Paulo por sua vez, nunca mais foi o mesmo depois daquele dia. Pediu licença. Viajou.   Emendou com férias. Visitou a mãe noutro Estado. Mudou de setor. Mas o pensamento sempre trazia Marcela. Sentia-se canalha. Como não percebeu as entrelinhas. Ela não podia estar envolvida, era boa demais, pura demais, com virtudes demais.  Aquela moça era especial. O arrependimento o consumia. Pior, o amor aumentava. Tempo de luta sem trégua, resistiu o quanto pode. Mas agora vencido, assumia. Amava Marcela de todo coração.    
    Criou coragem e uma tarde visitou o prédio dela. A notícia foi, que ninguém sabia sobre a antiga moradora.  Inconformado, passou a usar todo recurso dentro do departamento para encontrá-la.
   Mais de um ano sem notícia alguma, era como se tivesse evaporado. Mas o destino tramou um encontro inesperado. Num supermercado, empurrando carrinho, ao virar o corredor, eles se encontram.
     Marcela plenamente recuperada. Paulo diante da oportunidade que pediu a Deus.
Como não tocar no assunto? Ela aceitou o café oferecido por ele.  Sentados um em frente ao outro, olhos nos olhos, encaram-se. Ela quebra o silêncio:
 — Você foi um marco em minha vida. Eu era uma Marcela antes de te conhecer e me tornei outra, após.  Você foi todo mal que eu pude viver. A maior mentira.  A maior traição.  O maior sofrimento. O maior trauma.  Mas não apenas isso, devo a você também o meu amadurecimento, minha malícia, positividade, descomplicarão, frieza e agressividade. Não vivo mais emoções. Sinto-me bem melhor agora.
   Agora Paulo toma a palavra:
   Pois pra mim você foi o que de melhor eu vivi.  Foi um marco em minha vida. Eu era desconfiado, incrédulo, pessimista. Você me ensinou humildade, fidelidade. Conheci paz, alegria, o valor do que é simples, e o maior de todos os sentimentos, o amor.
   As horas passaram rápidas. Eles nem sentiram.
   Deste encontro outros surgiram. E outros e mais outros.
   Marcela e Paulo festejaram bodas de ouro, provando que o amor supera tudo.  
      

UMA TEMPESTADE! - Dinah Ribeiro de Amorim



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UMA TEMPESTADE!
Dinah Ribeiro de Amorim

ACORDO DE UM SONO PROFUNDO! CUSTO A RECONHECER ONDE ESTOU! DEVO TER CAÍDO E BATIDO A CABEÇA. OLHO AO REDOR E ME LEMBRO. ESTOU EM CASA, ANOITECE, FALO AO TELEFONE COM UMA AMIGA.

DE REPENTE, ELA ME INTERROMPE, PARECENDO OUVIR UM BARULHO EM SUA COZINHA. ENQUANTO ESPERO, OLHO ATRAVÉS DOS VIDROS DO TERRAÇO. O CÉU, DE UM AZUL AVERMELHADO, ESCURECE.   PESADAS NUVENS ESCURAS VÃO SE FORMANDO. APROXIMA-SE UMA TEMPESTADE!

A CALMA DO ANOITECER É INTERROMPIDA POR FORTE VENTANIA. AS PLANTAS, EM PEQUENOS VASOS, MUDAM DE LUGAR. UM ZUMBIDO ATORDOANTE ATINGE MEUS OUVIDOS. É A FORÇA DO VENTO QUE PERCORRE TUDO, FAZENDO BATER PORTAS, JANELAS E CORTINAS.

RAIOS SEGUIDOS DE TROVÕES ILUMINAM O CÉU COM GRANDES ESTRONDOS. GROSSOS PINGOS DE CHUVA CAEM. É A TEMPESTADE!

APAGAM-SE AS LUZES DE MEU APARTAMENTO E DAS CASAS AO REDOR. SINTO ALGO BATER EM MINHA CABEÇA. NÃO VEJO MAIS NADA! ACHO QUE DESFALECI.

AGORA, ACORDADA, PERCEBO UM ABAJUR QUEBRADO NO CHÃO. DEVE SER A CAUSA DE MINHA QUEDA. LEVANTO-ME COM DIFICULDADE, AINDA ATORDOADA,  E VOU AO TERRAÇO.

TUDO QUIETO! CALMO! APÓS A TEMPESTADE.

AS LUZES VOLTAM!  É A BONANÇA APÓS A TORMENTA!

AGORA, VERIFICAR OS ESTRAGOS...

MINHA AMIGA DA DIREITA - Do Carmo



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MINHA AMIGA DA DIREITA
Do Carmo  


A vida é muito extravagante, pois apresenta situações que não sabemos explicar, como certos fatos, não raros, em nosso cotidiano.

Há alguns anos frequento uma oficina, de literatura, com pessoas muito interessantes e totalmente compatíveis com meus objetivos: escrever e escrever bem, textos de diferentes estilos literários.

Afeiçoei-me a diversas companheiras, mas dias passados, tivemos como tarefa em aula, fazer uma descrição da colega que estava do nosso lado direito.

Fiquei espantada com a alegria que senti ao ter que descrever, com olhos sentimentais, minha amiga Ilka, pois não sabia que a admirava tanto.

Vou descrevê-la, tal qual a vejo:

Vejo uma mulher exuberante, de explícita simpatia; com movimentos que demonstram calma de um lago sereno, andar cadenciado de gata dengosa. Sua voz é meiga, um som mavioso de harpa sonora; usa curtos os cabelos de fios de seda que emolduram o rosto de pele morena de avelãs. Os olhos de ágatas bem lapidadas, transmitem lânguido olhar. Sua presença é marcante.

Fiquei alegre com a minha descrição, pois fui carinhosamente sincera.

Espero ter acertado o estilo pedido, mas se não acertei, tentarei outras tantas vezes quanto necessário, mas no momento, demonstrei meu olhar.



A COLEGA ISABEL - Henrique Schnaider


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A COLEGA ISABEL
Henrique Schnaider


Isabel é uma pessoa que se veste e chama atenção por seu cabelo curto, costuma usar roupas muito finas e tem uma história de vida muito bonita.

Casou-se, formou uma família onde ela e seu marido seguindo princípios tanto religiosos quanto de vida exemplares. Hoje compareceu a aula acompanhada de seu filho professor , um rapaz elegante e de uma postura própria de quem recebeu uma educação adequada, seguindo bons princípios.

Vinicius, apresentou-se a classe e sugeriu que nós o acompanhássemos num exercício de relaxamento, fechando os olhos e mentalizando o principio de ser feliz.

Conduziu o relaxamento de maneira correta, com voz pausada e a experiência de quem pratica a muito tempo a arte de trabalhar a mente.
Tive oportunidade por várias vezes, de conversar com Isabel e pude constatar que temos varias opiniões semelhantes sobre os mais variados assuntos.

Considero Isabel uma pessoa inteligente e descontraída e fico relembrando a primeira vez que ela compareceu na aula do Ical, ainda estava um pouco retraída e pouco a vontade.

Com o correr do tempo Isabel, foi se adaptando ao grupo e hoje já nem parece mais aquela mulher tímida que chegou e agora já faz parte totalmente integrada ao grupo.

Isabel chegou ao Ical através da Dra. Christianne que é uma pessoa que tem muita facilidade de criar amizades, tanto que, ela é responsável por trazer várias pessoas que hoje fazem parte do grupo.

Enfim tive o prazer de descrever a colega do grupo Isabel  do pouco que a conheço mas que goza de toda minha simpatia.



UMA MULHER DE FIBRA - Henrique Schnaider


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UMA MULHER DE FIBRA
Henrique Schnaider

Scarlett O’Hara é dessas mulheres, admiráveis que poucos homens conseguem estar no mesmo nível de personalidade .

Criada em berço de ouro com todos os caprichos de alguém extremamente mimada e cercada de todos os carinhos, de tudo que um ser humano pode desejar na vida. Seu pai era um rico proprietário de terras do sul escravagista.
Às vésperas da guerra civil americana, a voluntariosa jovem, mimada se transforma em uma mulher prática e disposta a tudo.  Scarlett nos bons tempos, só pensava em namoros frívolos, já possuía uma coleção de admiradores.

Apesar de tantos namoricos, a bela O’Hara amava um homem, Ashley Wilks que por desventura sua, estava para casar com sua prima Melanie .

Nesse interim, ela conhece Rhett Butler, um charmoso aventureiro, disposto a tudo por uma aventura amorosa, correspondida de uma forma conturbada e triste pela jovem.

A explosão da guerra civil, muda a vida da garota que perde seus luxos e passa de uma menina mimada a uma mulher forte e decidida.

Para recuperar a fazenda da família, arrasada pela guerra, Scarlett se dispõe a tudo, passando por cima das pessoas que com ela convivem.

O inicio da guerra, e o surgir na vida de Scarlett o personagem de Rhett Butler , deixa a vida dela totalmente sem um futuro previsível. Tudo torna dramática para ela, a escravidão já não é um dos pilares da vida sulista.

Scarlett tem uma personalidade forte, manipuladora e também egoísta, paga muito caro pela forma de ser impulsiva, mas apesar de tudo, é uma mulher perseverante.

A ligação de Scarlett com a fazenda de Tara, é extremamente forte, incapaz de viver longe dela, ela está intrinsicamente ligada a terra, como se dela tivesse nascido.

A jovem passa por situações terríveis, tem a fazenda invadida por várias vezes por soldados do Sul e do Norte, passando por humilhações com as quais não estava acostumada, mas em nenhum momento se curvou, enfrentou tudo com destemor e muita coragem.

Finda a guerra, seu caso de amor com Rhett Butler, não se concretiza, mas ela não se deixa abater e juntamente com seus escravos e empregados da fazenda, se dispõe a tarefa de reerguer a querida Tara.

A cena final do filme é realmente emocionante de assistir, quando Scarlett do alto do morro, contempla sua terra arrasada, mas tira forças do fundo da alma, demonstra ser a mulher indomável que recusa a derrota, sempre pronta para recomeçar.

O personagem de Scarlett O’Hara, interpretado magistralmente por Vivien Leigh deu uma força incrível a protagonista desta história maravilhosa.

sexta-feira, 9 de março de 2018

O Zorro de Itaoca - Suzana da Cunha Lima





O Zorro de Itaoca
Suzana da Cunha Lima


João Teodoro era seu nome. Pacato, leal, modesto. Não se dava valor nenhum nem sequer cogitava que um dia poderia ser alguém importante ou necessário em sua cidade. Cidade muito pequena, aliás, um lugarejo que conhecera dias melhores. Estava arruinada por dois motivos principais; Resultado do êxodo dos jovens para cidades maiores em  busca de melhores oportunidades, e a ausência de oferta de serviços públicos essenciais: até para casar e enterrar tinham que ir à cidade próxima. Faltava hospital, ambulância, escola e transporte público confiável. Os impostos iam todos para os bolsos do prefeito e sua quadrilha de vereadores vendidos.  Doía-lhe o coração ver o progressivo declínio de sua amada Itaoca. E agora, até o delegado resolvera ir embora!!!

Em pouco tempo a bandidagem começou a agir. Povoada por muito idoso e gente pobre, o dinheiro que circulava por ali era do Bolsa-família, pouco, mas certo. E só havia um caixa eletrônico para atender este pessoal.  Sem gastar um tiro, os marginais roubavam este suado dinheirinho.  É como tirar doce de criança – gabavam-se.

João parecia pobre, mas na verdade era até rico. Ninguém sabia que tinha muito gado nas fazendas vizinhas e uma boa participação em postos de combustíveis. Ficara em Itaoca aquele tempo todo porque gostava da solidão e da vida simples.

Mas agora a situação estava insustentável e ele chegara ao seu limite.  Não quis tomar o lugar do delegado, porque sabia que era um posto de fachada, sob as ordens dos chefões políticos.

Então deu asas à imaginação e resolveu ser o Zorro do local. Lutar contra o mal e devolver à Itaoca a dignidade perdida. Com seu dinheiro, arrumou rotas de fuga, esconderijo seguro e um ajudante de confiança. Como tinha servido no Exercito quando moço, sabia manejar armas e tinha noções de estratégias. Começou a caçar bandidos, tanto os de colarinho branco quanto os de pés descalços. Usava disfarce também, às vezes uma meia enfiada na cabeça, outras vezes máscara ou capuz.  Não queria ser reconhecido.

Um sobrinho distante veio para ser seu ajudante, adorando aquela aventura que durou uns três anos. E não é que ele resolveu mesmo a situação? Pôs para correr os corruptos e as gangues locais, todas compostas de meliantes analfabetos, sem a menor noção de um plano militar.  Teve que matar alguns e dar uns sustos pesados em outros para adquirir respeito. Quanto aos políticos, dava uma prensa e ameaçava denunciar à Lava-Jato.

-Tem gente que só entende violência, dizia para o sobrinho.

Mas sabia que sem educação, o povo ia cair nas mesmas armadilhas, acreditando em tudo quanto era promessa.

- Vamos construir boas escolas e remunerar direito nossos professores, porque a ignorância é a mãe de todos os males.

 E a lenda do Justiceiro cresceu e teve o maior apoio da população. Muitos retornaram e juntos conseguiram colocar Itaoca, outra vez, na rota do progresso e desenvolvimento. Aí João voltou para seu anonimato, atento, no entanto, à qualquer recaída. O segredo do progresso em Itaoca é a eterna vigilância, pontificava ele, replicando um famoso estadista.

 (O segredo da liberdade é a eterna vigilância - Thomas Jefferson)



quinta-feira, 8 de março de 2018

Só podia ser olho gordo - Hirtis Lazarin


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Só podia ser olho gordo
Hirtis Lazarin

Itaoca, uma cidadezinha do sertão maranhense, estava pra sumir do mapa.  Os moradores mudavam-se aos poucos, em busca de estudo e trabalho nos centros mais prósperos.

Depois de conversas e desconversas, João Teodoro aceitou o cargo de delegado.

Não havia homem melhor que ele pra ocupar esse cargo.  Nasceu em Itaoca e sempre se orgulhou de ser honesto, trabalhador e cheio de prosa.

Pensou ele: "Não vou ter tanto pra fazer aqui.  Nossa cidade é pacata, todos se conhecem e há mais de quinze anos não acontece um roubo de doce de padaria".

Os dias foram passando tranquilos.  A única preocupação de João Teodoro era abrir a delegacia bem cedinho e fechá-la às dezoito horas.

Até que, numa segunda-feira como outra qualquer, altas horas da noite quando a cidade dormia, ouviram-se explosões e mais explosões de bombas.

As janelas todas abriram-se simultaneamente.  Os curiosos queriam saber quem eram os autores dessa brincadeira.

Esse seria, até agora, o trabalho mais sério que apareceu pra João Teodoro resolver.

Ele não perdeu tempo, pulou da cama, vestiu a farda, municiou o trinta e oito herdado do pai, fabricado na década de vinte.

Todo imponente apareceu na rua principal de Itaoca.

Foi recebido por rajadas de metralhadora, que só silenciaram, assim que o delegado caiu esparramado no chão.

Sangue escorreu em quantidade suficiente pra colorir o asfalto.

A quadrilha acabara de explodir o único caixa eletrônico da cidade.  Deixaram a cidade acenando para o povo assustado que espiava por trás das janelas entreabertas. 

Hoje João Teodoro ocupa o mausoléu mais" chic" do cemitério.  Um presente dos itaoquenses.  Ninguém se conformava com a morte violenta do ilustre cidadão.

Flores silvestres nasceram ao redor do túmulo, de livre e espontânea vontade.
E Itaoca, finalmente, desapareceu do mapa.  

O delegado - Henrique Schnaider



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O delegado
Henrique Schnaider


João Teodoro aceitou emocionado o cargo de Delegado da pequena Itaoca.

Foi programada a solenidade de posse, com a presença de todas pessoas ilustres da cidade, inclusive o Prefeito.

No dia, pediram ao pobre coitado que fizesse um discurso, deixando o infeliz engasgado, já que era analfabeto e com muitas dificuldades de oralidade, mal conseguiu balbuciar algumas palavras.

O público levado pelo entusiasmo com a nova autoridade da cidade, aplaudiu delirantemente, como se tivessem, acabado de ouvir uma peça oratória de Rui Barbosa.

Assim, prosseguiu a festa da posse daquele João ninguém que se desmanchava em mesuras a todas as pessoas presentes.

No dia seguinte assim que acordou, João Teodoro partiu a procura da Professora Antônia, única mestra de Itaoca.

O recém-nomeado Delegado, muito tímido, queria que a mestra lhe ensinasse o b a bá , mas queria que ela mantivesse sigilo, pois não seria interessante, que Itaoca, soubesse que o novo Delegado da cidade era completamente analfabeto.

Com o correr dos dias, ele foi dominando as letras e ficava cada vez mais sabido, aprendendo tudo sobre a língua e finalmente, acabou alfabetizado.

Nova festa na cidade e chamam João Teodoro para fazer um discurso para a Santa Padroeira, e para assombro de todos cidadãos de Itaoca, ouviram um discurso de um grande orador, com muitas qualidades, a ponto de falar por mais de uma hora.

Assim João Teodoro, se tornou, um respeitado Delegado e uma das pessoas mais ilustres da cidade, a ponto de ter sido convidado, para ser o paraninfo da formatura dos alunos da Professora Antônia, que feliz da vida, sabia que havia mudado a vida daquele homem.


A voz do mar é sedutora e nunca cessa. - Ilka Andrade


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A voz do mar é sedutora e nunca cessa.
Ilka Andrade

Ele é monitorado pela gravidade da lua e do sol

Observando um Mar litorâneo as ondas formadas pelo vento avançam na areia e ao retornar deixam a areia limpa e úmida. Com os pês no chão sentimos a areia macia ou áspera, quente ou fria úmida ou seca, neste contato absorvemos a textura da água do mar a qual nos dá um ar de liberdade! A maré é inconstante muda nas 24 horas. Mesmo sendo de água salgada há momentos em que ela nos transmite calma e doçura! No descer do dia ela se manifesta, ondas volumosas, audaciosas que ao recuar formam buracos com rodomoinhos capazes de engolir um ser humano. Baixando a maré, volta a calmaria.

O volume e a beleza da água transparente nos dão um bem-estar.  A voz do mar fala com a alma e tem um toque sensual que envolve o corpo.

Vamos agradecer a Deus. Somos abençoados por que temos o sol, o céu, e o mar.

JOÃO VALENTÃO - Henrique Schnaider



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JOÃO VALENTÃO
Henrique Schnaider


Os anos se passaram e João Teodoro, casou-se com uma das mais belas moças de Itaoca, Jussara. Formou uma bela família de três filhos, dois homens e uma linda garota. Tinha como sogro, o prefeito da Ernestinho Veiga, político corrupto, venal e perigoso, pois mandava seus capangas matarem os adversários, não só políticos como, qualquer um que tivesse coragem de se indispor contra ele.

A autoridade de João sobre a cidade era indiscutível, a ponto de os cidadãos de Itaoca passarem a temer a figura do Delegado, e já havia um burburinho, entre as pessoas tramando a demissão da autoridade máxima do Município.

João e Ernestinho se entendiam, cada vez melhor. O Delegado, começou a dar cobertura a todas atividades ilícitas do sogro, desovando cadáveres em valas sem nome, daqueles que eram assassinados pelos capangas do Prefeito.

Certa noite, destas que as pessoas têm medo de sair de casa, escura como breu, com raios cruzando os céus durante a chuva, na calada da noite percebiam-se vários homens de aparência sinistra, caminhando em direção a ponte que cruza o Município de Itaoca, carregando o que parecia ser, vários corpos inertes, possivelmente assassinados pelos capangas de Ernestinho.

Os suspeitos atiraram os corpos de cima da ponte no rio. No dia seguinte, cinco corpos de pessoas barbaramente assassinadas, são encontrados, boiando no rio.
A cidade toda, ficou em polvorosa, o assunto era só esse, todo mundo revoltado com as coisas horríveis que aconteciam, transformando, Itaoca, em lugar sem lei.

Os cidadãos, se uniram em grande número, dirigindo-se a delegacia, estavam furiosos, exigiam que a Justiça fosse feita com a prisão daqueles jagunços, os quais, faziam o que bem entendiam na cidade, como se fossem donos da mesma.

João Teodoro recebeu a multidão enfurecida, na porta da Delegacia, encarou a todos, sem demonstrar nenhum receio, enfrentando-os de peito aberto e de armas nas mãos, acompanhado dos jagunços de seu sogro, que também estava ali, desafiando as pessoas, querendo impor ambos, a lei do silêncio.

A turba enfurecida, também não se intimidou e avançaram sobre João, Ernestinho e os capangas, a confusão foi geral, transformando-se numa tremenda carnificina.

João, furioso atirava para todos os lados. A esta altura, dezenas de pessoas já mortas e outras gravemente feridas.

O Delegado que sempre se mostrou, uma pessoa extremamente decente, agora não passava de um facínora sanguinário, um valentão que a tudo enfrentava, cruel, sem o menor sentimento de culpa com a tragédia acontecida.

João e seu sogro estabeleceram a lei do silencio, de recolher aos habitantes de Itaoca, ninguém podia pcolocar os pés para fora de casa. O horror, o medo tomaram conta da cidade.

As pessoas procuravam conversar, achar alguma solução para aquela situação, já que nem sequer era permitida a entrada ou saída de quem quer que fosse, até as ligações foram cortadas. Assim começaram a faltar os gêneros de primeira necessidade.

João Teodoro parecia possuído, com tamanha crueldade de ser indigno, em que se transformara.

Os dias de horror prosseguiam, até que finalmente, depois de um mês nesta situação de pavor, João Vintém como era conhecido um moleque que vivia abandonado nas praças da cidade, conseguiu furar o cerco sem chamar atenção, se dirigiu até a cidade mais próxima bem maior que Itaoca, foi até a Delegacia de polícia de Inhaúmas, denunciou ao Delegado Gentil, tudo o que estava acontecendo.

O Delegado comunicou os fatos relatados, ao comando da Policia Militar da capital, e ao Governador do Estado.

Tropas chegaram a Itaoca, invadiram o quartel general de João Teodoro e Ernestinho Veiga, ambos, foram presos depois de uma certa resistência, juntamente com seus jagunços. Foram removidos para capital onde pagariam na cadeia por muitos anos por todos os crimes cometidos contra a população.

Todos os cidadãos se reuniram na maior praça da cidade, fizeram um acordo para que o novo Delegado fosse uma pessoa digna e alguém da confiança de todos.

João Vintém se transformou no herói da cidade, foi adotado pela Prefeitura que iria dali para frente, dar moradia, custear seus estudos e educação.

Assim, a paz voltou a reinar naquele fim do mundo, onde Itaoca existia. Logo João Teodoro, bandido e traidor, facínora, foi esquecido por todos.

JOÃO TEODORO – O HERÓI - Isabel Conde



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JOÃO TEODORO – O HERÓI
Isabel Conde

João Teodoro, que nunca quis ser nada, começou a pensar sobre aquela inesperada nomeação para delegado da pacata e decadente Itaoca, a cidade se seu coração. Itaoca, onde nada havia para ser feito, especialmente como delegado.

Tinha nascido e crescido lá, viu a cidade definhar a cada dia, mas mesmo assim ele amava tanto o lugar que acabou passando a vida apenas a observá-la e, na verdade, a ruir junto com ela.

Pensou que talvez tivesse sido porque faltou algo de muita importância para a cidade e para ele próprio, só não sabia o que!

Resolveu sair para caminhar pelas ruas de Itaoca, a fim de arejar um pouco a mente e tentar pensar em como a vida da cidade e a de seus moradores tinha ficado tão difícil ali, a ponto de não se manter.

 Viu   as ruas e as casas, quase tudo   desabitado. Um sol forte que tornava o ambiente árido fazendo tudo ficar como que amarelado.

Viu a pequena, mas linda igreja que permanecia em frente ao que tinha sido um dia, a praça da cidade. Hoje mais parecida uma obra de arte coberto por um pó uniforme... Desde os bancos espalhados por ela fazendo um corredor que levava à igreja, até o coreto, já destelhado, bem no centro do largo.

Passou pelo Fórum   que tinha sido muito importante em idos anos. O jardim que o rodeava, agora   com o capim alto e ressecado. Tudo fechado e cheio do mesmo pó que cobria todo o resto.

Em outra rua próxima, fechados, estava o que tinha sido o comércio de itaoca: um armazém, duas quitandas, uma farmácia, que chamavam de botica em sua infância. Tudo coberto daquele por aquele fino pó. Tudo muito só!

 As   casas por onde passou o fizeram lembrar a alegria, da qual tinham sido testemunhas, pois sua infância, junto com todos os que ali moraram, haviam sito muito felizes. Entre pega-pega, pique - esconde e outras brincadeiras, lembrou com saudade das vezes que se sentou nos degraus das casas de seus amigos para brincar as cinco pedrinhas, já à noitinha! Quando as mães chamavam, era hora de dormir. No dia seguinte, tudo começaria muito bem novamente! Todos se reencontrariam logo na primeira hora!

Sim, se encontrariam na Escola, que era um lugar mágico, único! Pensou que ali tinha começado a descobrir a vida... sua vida e a vida de tudo e de todos que estavam à sua volta! As descobertas eram diárias! Aprendeu a ler e a escrever! Podia observar que cada amigo tinha habilidades diferente, que a escola ajudava a aprimorar.

João Teodoro parou alí, em frente à Escola! Ficou alguns minutos olhando-a e ali mesmo resolveu mudar seu destino para sempre, como o de sua querida cidade, mas principalmente o de muitos que ali viveram e que gostariam de ter continuado vivendo.

Teve a certeza de que a coisa mais importante para uma cidade são as pessoas que moram nela. Só as pessoas podem construir um lugar. Mas a questão mais importante que ele descobriu foi que era preciso empoderar as pessoas, e isso não tinha se dado desde muito tempo.

Então, já sabia o que fazer!

Voltou para casa apressado e começou a entrar em contato com os amigos da Escola. Falou com Matilde, Trajano, Carlos, Carmem e Aparecido e como delegado, que agora era, e fazendo uso de todos os benefícios que o cargo lhe concedia, fez propostas de voltarem para Itaoca a fim de reconstruí-la.

Hoje, passados muitos anos, João Teodoro é reconhecido como herói. Ele fez a cidade voltar a se desenvolver por sua atitude de ter conseguido o retorno daqueles antigos amigos, que agora eram profissionais e pessoas de bem, cada qual em áreas diferentes. Muitas outras famílias, ao verem o desenvolvimento de Itaoca ir de vento em polpa, também voltaram a morar e investir na velha Itaoca.

Atualmente a cidade é próspera e as pessoas que lá vivem, muito felizes.
Anos atrás, em frente àquela imagem do o que tinha sido sua escola, ele teve um insight e começou a construção de escolas. Essa foi a decisão que mudou sua vida e a de todos.





Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...