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quinta-feira, 22 de abril de 2021

CLÉO, A GUERREIRA - Henrique Schnaider

 

CLÉO, A GUERREIRA

Henrique Schnaider


Cléo era uma menina na época da guerra do Vietnã. Houve uma foto que ficou famosa na imprensa mundial, onde depois de um bombardeio aéreo dos EUA com o terrível gás napalm. Uma menina, Kim Phuc aparece correndo nua com o corpo queimando.

Esta foto começou a persegui-la e depois da guerra, sempre aparecia algum repórter de algum país distante, querendo entrevistar Kim Phuc. Ela sempre repetia a mesma História:

— Eu realmente queria escapar daquela pequena menina. Mas parece que aquela imagem não me deixava ir, disse Kim Phuc.

Passaram-se vários anos e aquela menina se tornou uma mulher muito importante. Casou-se, adotou um novo nome de Cléo. Virou embaixadora da boa vontade das Nações Unidas e de ajuda às vítimas da guerra.

Cléo saiu do Vietnã, pois conseguiu cruzar a fronteira e com ajuda de Ongs humanitárias, foi morar no Canadá. Já que no fim da guerra ela enfrentou muito sofrimento e perseguições do regime comunista. Por trás desta mulher aparentemente frágil, existe uma mulher com alma de leoa.

Cléo começou a atuar de forma silenciosa e em segredo para salvar pessoas perseguidas no Vietnã.  Sempre lutando contra o cruel e sangrento regime comunista. Precisando tomar muito cuidado, já que a ditadura Vietnamita, sempre mandou agentes para tentar assassiná-la, por ser uma inimiga deles.

Cléo dá palestras contando sua história de sofrimento, desde aquela foto famosa em plena guerra. Seu marido Kim Ul além de grande companheiro, a ajuda na missão de auxílio aos refugiados do Vietnã. Cléo está sempre cercada de agentes de segurança para sua proteção.

Mas para conseguir êxito na sua missão e manter-se oculta é muito difícil, pois ela é uma celebridade e reconhecida onde quer que vá e todos se referindo a ela como a menina queimada por napalm.

Ela praticamente não possui vida familiar, já que ela e marido mal conseguem se reunir com os dois filhos.

Ela contratou como babá Jin Su, uma moça Vietnãita que ajudou a fugir dos comunistas. Mas, mal sabe ela que colocou para dentro de sua casa uma cobra naja pronta a injetar seu veneno mortal.

Jin Su foi treinada pelo serviço secreto comunista na arte do envenenamento, e enquanto isso Cléo ingênua, confiando na babá, deixava sempre ela com as crianças. Por sua vez, a agente espera a oportunidade de quando estiver reunida a família, para envenenar a todos.

Num fim de semana Cléo conseguiu um tempo, para reunir a família e Jin Su, finalmente achou que chegara a oportunidade esperada para envenenar a todos.

Jin Su preparou um suco com um veneno mortal, mas antes que alguém bebesse, Cléo recebe uma mensagem no celular de um aliado lá do Vietnã, lhe prevenindo que Jin Su era agente do regime e Cléo grita por puro instinto:

— Não bebam este suco que deve estar envenenado. Kin Su puxa um punhal partindo em direção a Cléo querendo acertar o coração.  O marido Kim Ul se interpõe entre elas e prende o braço da agente tirando-lhe o punhal, e prende os braços por trás dela, e chama os agentes que levaram Kim Su presa.

Cléo vive passando por estes sustos, mas nada e nem ninguém a impedirão de seguir na missão de salvar os perseguidos do Vietnã.

PREMISSAS - DIVERSIFICAÇÃO DE GÊNEROS LITERÁRIOS - Claudionor Dias da Costa

 



PREMISSAS -  DIVERSIFICAÇÃO DE GÊNEROS LITERÁRIOS  

Claudionor Dias da Costa

                        

  PROPOSTA 1 – “A RODA DA VIDA”

 

Tina de seis anos e seu irmão Beto de cinco anos brincam alegremente com os amiguinhos do orfanato onde vivem. Desde bebês vivem aquela realidade sem terem noção exata ainda do porquê estão ali e de quem eram seus pais. Convivem muito mais com disciplina obrigatória do que com amor.

Esquema do Enredo: Ficarão mais tempo no orfanato. Com a idade de oito e seis anos serão adotados por casal de classe média. Terão educação em escola pública, sofrerão “bullying” em várias ocasiões. Seu pai mudará o comportamento ao longo da história. Sua mãe adotiva é carinhosa. Beto fugirá de casa. Conviverá com maus elementos. Ficará viciado em drogas. Depois de muito sofrimento, retornará. Com esforço abandonará o vício. Perdas familiares. Conseguirá superar os problemas e alcançará sucesso.

Gênero: dramático romântico

 

PROPOSTA 2:” A REVOLTA DE GILDA”

 

Naquele escritório de contabilidade o chefe com seu rosto redondo e com ar sempre zangado, cabelos despenteados, bigode espesso e olhos penetrantes realçados num corpanzil avantajado sempre que circulava pelas mesas dos funcionários de forma esbaforida e sem compostura chamava a atenção em voz alta na frente de todos.

Dona Gilda era uma das vítimas favoritas dele. Não media as palavras com ela que se calava resignada.  

Esquema do Enredo: Dona Gilda que definiremos as características pessoais, profissionais e forma de vida. Próxima da aposentadoria. Cuida da mãe idosa. Auxilia os sobrinhos que moram distante. Começará a alimentar ódio pelo chefe. Com outros percalços na vida que colocaremos elabora plano de vingança. Com vários acontecimentos seus planos fracassarão.

O chefe entrará em desgraça após ser despedido. Recorrerá a antigos funcionários que não tiveram também simpatia por ele. Gilda num processo de desgaste que passou num processo de reverso do destino que se afigurava acaba amparando o chefe. Final a decidir.

Gênero: Suspense e drama

 

PROPOSTA 3 - “O BRILHO DO SOL”

 

História de Nair, viúva, morando sozinha acostumada a caminhar, não hesitou e saiu às cinco da manhã para, conforme dizia: “sentir a natureza”.

Esquema do enredo: Descreveremos algumas características dela como sonhadora, romântica, interessada pelos outros e bem solidária ajudando parentes e amigos. Apontaremos costumes e situações que passava.

Mas, alimentava no íntimo uma tristeza que procurava não revelar. Isso, provocava nela ansiedade e se sentia impotente para resolver a situação.

A ajuda chegará de forma inesperada.

Teremos mais personagens e após passar por perigo e perdas, conseguirá identificar um novo amor maduro e a história acabará bem.

 

Gênero: romântico

 

 

PROPOSTA 4 “A BELA ESPIÔ

 

Num clima conturbado da época da guerra fria com implicações na guerra do Vietnam. Contaremos breve resumo da formação e características da vida da Cléo. Como foi contatada para desvendar o mistério que envolve a primeira-dama. Seu envolvimento em descobrir uma trama internacional e o que pretendiam fazer para seu país.

Esquema do enredo: No desenrolar da história teremos um assassinato misterioso envolvendo espiões de outros países. A motivação maior era política e tentativas de dominação.

Cléo passa por perigos e mesmo encaminhando soluções do caso é obrigada a fugir de seu país. O destino é ignorado pelos inimigos e tem fim enigmático.

Gênero: suspense policial

 

 

PROPOSTA 5 -  “O OUTRO LADO”

 

Venâncio nasceu numa família simples e pobre na cidadezinha mineira de Bueno Brandão. Teve uma infância feliz, brincando com vizinhos amparado por pais trabalhadores e na adolescência além dos namoricos se aventurava pelas cachoeiras em passeios com amigos. Vivia despreocupado e tranquilo aproveitando a calma e beleza daquele lugar como se o mundo fosse muito pequeno longe dali.

Esquema do enredo: Quando terminou o grau de Ensino Médio e já germinando nele alguma ambição de fazer algo diferente de seus pais, resolveu ir para São Paulo. A partir daí desenvolveremos o rumo de sua vida com alguns percalços, profissão escolhida, trabalho e situações de conflitos pessoais etc. que culminou com decisão de largar tudo e partir numa viagem pelo mundo.

Nesse novo destino traçaremos sua aproximação com elementos estranhos que o conduzirão a ser envolvido num turbilhão do mundo das drogas. Sua aventura terá desdobramentos que o obrigarão a fugir. Novamente sua vida deverá ser retomada em outro lugar. Isto, pontuado por intrigas, delações, conhecimento de crimes, busca de sentido para a vida, arrependimento e desejos de mudanças.

O final a ser definido entre a doença, morte ou nova vida.

Gênero: Suspense policial e romântico

 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Dr. Alex. - Dinah Choichit

 



Dr.  Alex.

Dinah Choichit

 

Nunca tinha conversado com um médico tão esclarecedor. Fiz várias perguntas e ele respondeu todas, fazendo questão que eu saísse do seu consultório me sentindo bem.

A princípio fui conhecê-lo para saber o que ele achava da minha mão direita que não fecha, os dedos não dobram.

Contei a ele que tinha levado um tombo e havia batido a cabeça, quebrado a clavícula do lado esquerdo e que eu achava que a mão nada tinha a ver com o tombo. Ele concordou e disse que isso era da idade. Mandou que eu fizesse uma série de exercícios fisioterapêuticos que melhoraria, talvez até voltasse ao normal.

Disse também que reparou que quando eu entrei estava mancando um pouco e que a perna direita estava um pouco lenta e não levantava o joelho como deveria.

Falei que tinha um pouco de dificuldade para andar, mas não tinha nenhuma dor. Só quando levantava para ficar em pé e andar que eu sentia o peso das pernas. Isso também pode ser tratado com exercícios, ele disse.

Mas, não era o momento porque eu estava sem trabalhar e as despesas continuavam.

Não se preocupe com isso porque faz parte da consulta. Eu darei uma série de exercícios e a senhora volte daqui um mês, com o retorno, e não será cobrado nada.

Estou fazendo todos os exercícios e me sentindo muito bem. Estou um pouco cansada, mas isso faz parte.

A secretária disse que ele pergunta sempre quando é o meu retorno e eu conto os dias que faltam. Se estiver apaixonado como eu, logo sairá um casamento.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

DR. ALEX - Alberto Landi

 



DR. ALEX

Alberto Landi

 

Dr. Alex é um dos mais respeitados neurocirurgiões de seu país,  África do Sul.

Cresceu em um lar desfeito em meio à pobreza e ao preconceito, as notas na escola primária eram baixas e de temperamento difícil. Sua mãe teve um papel fundamental na sua vida e, apesar de pouco estudo, ela insistiu para que ele aproveitasse as oportunidades que a vida oferece que ela nunca teve.  Ajudou-o a ser criativo usando a  imaginação, inteligência e crença em si mesmo.

Alex nos estudos era ridicularizado pelos colegas de classe por tirar notas muito baixas. A mãe mesmo sendo uma pessoa simples, percebeu que o filho tinha problemas de visão e quando pedia a ele para ler oralmente algum livro, ele tinha necessidade de aproximar o texto próximo dos olhos.  

Corrigido o problema com o uso de óculos, suas notas começaram a melhorar.

Não foi uma criança prodígio e nem eclético como Alan Turing, o brilhante matemático britânico.

Em sua vida escolar gostava de Biologia e Ciências. Mas com o passar do tempo se interessou pela medicina e acabou se formando médico cirurgião se destacando em seu país.

Uma de suas grandes proezas foi a separação de gêmeos unidos pela parte posterior da cabeça; uma cirurgia complexa e delicada para a época, que exigiu alguns meses de estudo e preparação, sendo bem-sucedido e comentado em revistas no meio médico e científico.

Tinha muita empatia com seus clientes, comunicava-se de forma clara, procurando sempre se atualizar e usando a tecnologia a seu favor para melhor desempenho de suas atividades médicas.

Era uma pessoa boa, puxou a mãe e apresentava uma incrível capacidade para superar desafios e transformar algo ruim em um grande aprendizado, fazendo com que os obstáculos se tornassem uma força impulsionadora.

Aceitava diversos convites para dar palestras a universitários sempre apresentando atualidades cientificas e médicas em suas palestras.

Dr. Alex agora já na meia idade, cabelos grisalhos, sempre bem-humorado, serviu de exemplo a muitos formandos na escola de medicina. Não só pelas qualidades profissionais como também das suas qualidades pessoais

Até os dias de hoje, sempre que pode, ajuda em alguma ONG num lugar esquecido, pobre e triste onde ele é admirado como merece.

terça-feira, 13 de abril de 2021

A PROVA DO CRIME Um dia, num condomínio residencial. - Leon Vagliengo

 



A PROVA DO CRIME

Um dia, num condomínio residencial.

 

        Muita coisa pode acontecer num condomínio, na rotina de um dia qualquer.

Naquela segunda-feira, logo cedo,  Ariovaldo, síndico do Condomínio Edifício Oceano Pacífico, chamou o zelador Gregório ao corredor de entrada do prédio para algumas “observações”, conforme disse.

Aos trinta e dois anos de idade, Gregório, um simpático argentino, era o zelador daquele prédio já havia bem uns cinco anos. Cansado da vida rural que tivera em seu país, viera para o Brasil para viver no litoral do Oceano Atlântico, conseguindo esse emprego em Santos. Os condôminos gostavam muito dele porque era atencioso e bem-humorado, e até muito engraçado com as suas atitudes meio latinas.

Pela maneira como foi chamado pelo síndico, a quem já conhecia muito bem, sabia que viria encrenca. E tinha razão. —Ariovaldo ostentava a pose de austero, era um homem muito caprichoso, do signo de Virgem como a esposa deste narrador e – sei bem com é - deixava Gregório quase maluco por não admitir nada errado, sujo ou fora de lugar. Não deu outra: chegando ao local da ocorrência, Gregório viu que o síndico estava mesmo muito irritado.

Quem fez esta sujeira no corredor? – Perguntou a seco. Descubra o responsável para que eu lhe mande uma carta de advertência acompanhada da multa regulamentar. E procure também descobrir de onde vêm uns estranhos balidos ouvidos pelos condôminos durante toda a noite.

Antes mesmo que Gregório pudesse responder que não tinha ouvido nada e nem tinha visto o malcheiroso material até aquele momento, já estava incumbido de investigar sua origem.

Enquanto ele recebia as ordens do síndico, chegou para o seu trabalho a Jurema, a bela faxineira do primeiro andar, uma mulher batalhadora e muito séria, parecendo não perceber o frisson que provocava com o seu andar naturalmente sensual, interrompendo a conversa com a sua passagem e hipnotizando os olhares apaixonados de Gregório, e muito mais do que cobiçosos do síndico.

Vendo aquele mulherão a caminhar, eles ficaram mudos e paralisados por alguns instantes, até que caíram em si e perceberam o papelão que estavam fazendo. Voltaram logo à conversa para disfarçar, mesmo porque sabiam que Jurema não era sopa. Um dia ela havia defendido ferozmente uma criança injustamente acusada de roubo de uma ferramenta numa loja próxima. A sua ferocidade ficara conhecida por aquele episódio e lhe rendera temeroso respeito por parte das pessoas que a viam todos os dias no condomínio.

Para a sorte de Gregório e do síndico, Jurema não percebeu os seus olhares atrevidos; mas a cena não escapou à observação de Sarah, uma romântica jovenzinha de seus quinze anos, ainda com muitos sonhos cor-de-rosa, que a tudo assistia da varanda do primeiro andar.

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Estudante anteriormente muito aplicada, naquele ano Sarah havia se deixado levar pela paquerinha de um colega da escola, o Jonathan, relaxando em seus estudos. Como resultado, ao final do ano escolar acordou de seu mundo de sonhos de adolescente, chocada com o próprio insucesso nos exames, pois ficara em segunda época, uma experiência muito amarga para uma mocinha como ela, que sempre tivera sucesso na escola, orgulhando a seus pais, sua maior e natural referência.

Uma experiência dura e inesquecível. Quase em desespero ao ver a preocupação deles, Sarah estudou muito para os exames, mergulhando nos livros e cadernos, esquecendo-se de Jonathan, pelo menos por um tempo; e assim conseguiu, finalmente, a duras penas, a recuperação do ano escolar.

Agora sim, já estava em férias e podia fazer o que mais lhe agradava. Além, evidentemente, do namoro com Jonathan, Sarah tinha verdadeira paixão pela leitura. Lia de tudo: jornais, gibis, revistas e, principalmente, livros. Em apenas alguns dias após os exames, já havia tido o prazer de várias leituras, algumas bem interessantes.

Foi num gibi que leu as aventuras de Sycron, um grande robô revestido de aço, dotado de inteligência artificial auto evolutiva, inicialmente programado para o deslinde e o combate ao crime. Invulnerável aos projéteis de armas de fogo graças a seu revestimento de aço, representava um grande obstáculo para os bandidos, era um símbolo do Bem contra o Mal. Sarah riu-se ao pensar que aquele grande herói, de tão pesado, não poderia ser muito ágil e nunca conseguiria nadar. Gibis eram mesmo para crianças...

Numa revista de variedades, dias antes havia lido a história real de Thory, primeiro Super-herói brasileiro, pernambucano de vinte e sete anos, cujo nome verdadeiro e completo é Thoryvanderson Ferreira da Silva, nome esse elaborado com muito carinho por seu pai com base nos de jogadores estrangeiros, durante a Copa Mundial de Futebol de 1994, quando ele nasceu.

O artigo contava que Thory, leitor e releitor obsessivo de velhos e antigos gibis da coleção de seu avô, que encontrou quando ainda era menino, conseguiu a grande façanha de juntar um dinheirinho e migrar do sertão de Pernambuco para a Capital, onde procurava emprego como ator em algum circo, sonhando interpretar preferencialmente o Capitão Marvel, seu maior ídolo, inspirado naqueles gibis. Como não encontrou circos em Recife, estava ainda desempregado, chamando a atenção de quem o via passar pelas ruas com aqueles trajes estranhos.

Sabia que um de seus pontos fracos na interpretação do herói seria a sua incapacidade de voar, ou mesmo de provocar o raio que lhe daria esse poder ao chamar o mago “Shazan”; quando criança tentou tantas vezes, e não entendia porque com ele isso nunca funcionou, se funcionava tão bem com o Capitão Marvel. Ao ver os altos edifícios da cidade grande, até pensou em tentar um voo saltando lá de cima, mas desistiu ao lembrar-se de que não conseguiria o raio de Shazan, conforme disse sincera e candidamente a uma repórter que o entrevistou.

Sarah viu a foto de Thory na revista e logo estranhou a incoerência do rapaz na escolha do seu vestuário. Nem o Billy Batson, repórter que se transformava no Capitão Marvel, se vestiria, sem camisa, com um casacão daqueles, ainda mais no calor de Pernambuco. Esse é mesmo doido de pedra, pensou e riu, mas com pena dele.

Também nos jornais Sarah encontrava coisas assombrosas. Ainda no dia anterior lera a reportagem sobre Nickolas Sheldom, ou o “velho Nick”, como foi chamado pelo jornal. Tratava-se de um norte-americano de seus quarenta e poucos anos, que em sua juventude assistia a muitos filmes de faroeste, sempre identificando-se demais com os personagens dos mocinhos na luta contra os bandidos. Assim, desenvolvera um forte sentimento do dever de lutar pela Justiça a qualquer preço, embora não tivesse a noção necessária do respeito às leis. À medida em que o tempo passava, aquela obsessão pelo combate à injustiça foi dominando a sua mente de forma doentia. Equipou-se de armas e de outros aparatos de ataque e defesa, aproveitando-se da facilidade existente nos Estados Unidos para a compra de armas e munições. Ele sentia, cada vez mais compulsivamente, que tinha que fazer alguma coisa pelo Bem e pela Justiça,  e nada, nem ninguém, poderia impedi-lo. Num momento extremo de seu devaneio doentio, adotou até uma vestimenta de cowboy. Ao final, a sua figura despertava a atenção de quem o via, mas ninguém ousava interpelá-lo ou mesmo seria capaz de imaginar o que ele ainda faria...

A notícia do atentado praticado pelo “velho Nick”, em que algumas pessoas perderam a vida sem nenhuma razão, incomodara profundamente a jovem Sarah. A insegurança que sentiu ao pensar que qualquer maluco ou criminoso poderia dispor facilmente de armas e sair por aí metralhando as pessoas com quem cismasse, lhe pareceu algo muito insano. Isso depõe muito contra o pretenso bom-senso dos adultos, pensou decepcionada.

Essas leituras ficaram para trás.

Era segunda-feira, muito cedo, e Sarah já estava sentada numa confortável poltrona na varanda do apartamento do primeiro andar, lendo empolgada o livro com a história do mestre Ramos, um capitão que, naquele momento da aventura que lia, enfrentava uma violenta tempestade com a sua frágil traineira, preocupado em não perder a carga de peixes que alimentaria a comunidade de sua ilha por algumas semanas e, principalmente, preocupado com a sua própria sobrevivência, dada a violência da tempestade que enfrentava.  No retorno da pescaria, ele e seus companheiros foram surpreendidos por aquela tempestade, que poderia abalar a estrutura da embarcação tornando-a instável. Na tentativa de manter o barco na rota, os marinheiros caíram no mar e sumiram entre as águas. Assustado com o desaparecimento de seus companheiros, o Capitão implorava a Deus que o salvasse. Sozinho diante de um perigo como jamais enfrentara, teria que salvar a própria vida e a carga. Sua família o esperava, tinha que conseguir!

Atraída pela conversa do síndico com Gregório e desviando um pouco sua atenção da leitura, Sarah pode observar claramente, daquela posição privilegiada que lhe proporcionava a varanda do primeiro andar, a cena que se passava no momento da entrada de Jurema. E indignou-se: Síndico safado! Grudou os olhos no traseiro dela! Só não vou lhe contar porque é brava, é capaz de brigar com ele e vai dar confusão. Mas, em compensação...olha só o jeito que o Gregório olha para a Jurema! Parece que está gamadinho! Aaah! Isso eu vou contar!

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Enquanto Sarah matutava sobre o que vira, Gregório já examinava a cena do “crime”, ponderando para si mesmo que algumas pessoas não têm, mesmo, noção de higiene, respeito e civilidade. Via-se diante de uma tarefa difícil: como descobrir o responsável por aquela sujeira? Se não fosse a exigência do síndico, bastaria limpar aquilo e estaria tudo resolvido. Mas a situação, praticamente, o investira numa tarefa que seria própria para um detetive. Ao observar o montinho o seu pensamento ia correndo solto, e se divertiu ao imaginar-se vestido como Sherlock Holmes, com capa, cachimbo, chapéu e lupa, para uma importante investigação em busca do misterioso proprietário de um bichinho porcalhão, que não era, evidentemente um gato nem um periquito; certamente seria um cachorro e... um cachorro? Epa! Essas bolinhas eu conheço bem. São cocôs de cabrito! Sim! É claro! Isso explica também os balidos ouvidos durante a noite! Mas... Que absurdo! Quem teria escolhido um cabrito para pet, aqui no condomínio?

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O jovem veterinário doutor Alex vinha retornando da casa de sua noiva, que morava numa cidade próxima. Já era tarde da noite de domingo. De repente, os faróis de seu carro iluminaram um movimento agitado de um vulto branco bem mais adiante, ao lado do acostamento, chamando a sua atenção. Curioso, como a estrada estava sem tráfego pôde reduzir a velocidade enquanto se aproximava do local.

Ao chegar, parou a sua perua no acostamento, desceu do veículo, e viu que um pequeno animal estava se debatendo, preso em alguma coisa. Bondoso e fiel a seu ideal de veterinário, imediatamente se dispôs a acudi-lo; acendeu a sua lanterna e atravessou a pequena faixa de mato rasteiro até o animal, constatando, ao iluminá-lo, que se tratava de um cabrito preso numa cerca de arame farpado, já um pouco machucado e bastante assustado.

Antes de desembaraçá-lo da cerca, tomou o cuidado de prendê-lo com uma guia para que não fugisse, pois ele necessitaria de curativos. Depois, com alguma dificuldade, conduziu o cabrito até a sua perua e o alojou na gaiola que mantinha no veículo para o transporte de animais.

O doutor Alex estava bastante cansado e àquela hora não dispunha de um local adequado para deixar o cabrito. Não encontrando qualquer alternativa, teve a ideia maluca, mas única, de levar o cabrito para o seu próprio apartamento, onde o acomodaria de alguma maneira, apenas até o dia seguinte. Daria um jeito.

Ao chegar, todos no prédio já dormiam, inclusive o porteiro, como sempre acontecia.  

O doutor Alex abriu o portão com o controle remoto, estacionou a perua em sua vaga no pátio do prédio, pegou o cabrito pela guia, passou com ele através do jardim, mas não entrou pela entrada principal; foi até a entrada de serviço e subiu as escadas com o animal até o seu apartamento no terceiro andar. Ninguém os viu.

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Segunda-feira, ainda cedo, Jurema entrou no apartamento para o serviço diário e logo Sarah veio a seu encontro com aquela carinha maliciosa de quem sabe alguma coisa muito particular.

Tenho uma coisa para te contar – disse ela.

E contou mesmo, com detalhes, a cena que presenciara da varanda, descrevendo o olhar apaixonado que o argentino Gregório dedicara a Jurema durante a sua passagem na entrada do prédio. Prudentemente, nada disse sobre os olhares lascivos do síndico.

Ao ouvi-la, Jurema abandonou a sua expressão séria habitual e sorriu feliz com a notícia, sentindo-se envaidecida e agradecendo a Sarah por lhe confirmar aquilo de que já desconfiava. Agora iria pensar uma forma de facilitar as coisas para o Gregório, pois também gostaria de ser cortejada por ele.

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Quem teria um cabrito neste condomínio? Pensava ainda Gregório, exultante com a brilhante dedução que tivera no exame do cocô. Nesse momento, surge a solução, caída dos Céus. Ou melhor, vinda da entrada de serviços, por onde estava passando o Doutor Alex com o cabrito. Ao vê-los, Gregório correu afobado até eles, pisando desastradamente na prova do crime:

- Buenos dias, señor – Disse Gregório.

- Bom dia, Gregório – Disse o Doutor Alex.

- Bé é é é é é! – Disse o cabrito.

 

Enquanto Gregório explicava a situação para o Doutor Alex, aproximou-se deles o síndico Ariovaldo, que se espantara com a inusitada presença de um cabrito em seu condomínio.

Bé é é é é é! – Cumprimentou-o o cabrito.

 Isso deu ao Doutor Alex a oportunidade de lhe contar as dificuldades por que havia passado na noite anterior para acudir o animal, do qual já se afeiçoara bastante.

Ouvindo a história e compadecido com a dedicação e a bondade do veterinário, Ariovaldo abriu mão de seus princípios de virginiano e resolveu perdoar a multa, além de não fazer a carta de advertência. Deu ordens a Gregório para providenciar uma limpeza completa do ambiente e dar o caso por encerrado, declarando solenemente, ao vento:

A grandeza e a paz devem sempre prevalecer no Condomínio Oceano Pacífico.

 

Bé é é é é é é! – Agradeceu e aplaudiu o cabrito.

 

Avaliando bem as circunstâncias, o Doutor Alex achou melhor não abusar da boa vontade do senhor Ariovaldo e deixou para solicitar em outro momento a autorização para manter permanentemente o cabrito em seu apartamento, como animal de estimação.

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Na tarde daquele mesmo dia, ao sair do serviço, uma sedutora e perfumada Jurema, distraidamente, como quem não quer nada, deixou cair um pacote quando passava bem pertinho do apaixonado Gregório...

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A fuga - Hirtis Lazarin

 


A fuga

Hirtis Lazarin

 

O convento dormia tranquilamente.  As freiras e as iniciantes acomodavam-se bem cedo.  Acordar às cinco horas da manhã exigia disposição para assistir à santa missa que durava horas de orações, a primeira obrigação do dia, mesmo antes do substancioso café da manhã.  Muitas religiosas dedicavam-se ao aprimoramento culinário, único prazer permitido entre aquelas silenciosas paredes coniventes, cercadas por altos muros cinzentos.

Havia dias em que Claire andava bem estranha.   Às vezes esboçava um sorriso maroto disfarçado de felicidade, outras fazia caretas de preocupação.  A madre superiora, vivida e ranzinza, já notara e estava de olho.

Claire nasceu no ano de 1866 em Paris numa família aristocrática, extremamente religiosa.  Religião e poder andavam de mãos dadas.

Ao completar dezoito anos, eram apresentadas às jovens três opções de vida: casar-se com alguém escolhido pela família, fazer votos religiosos ou permanecer solteira com o dever de cuidar dos pais e sobrinhos.

Claire era sensível e inteligente o suficiente para não ser aprisionada num destino programado.  Tinha ideias avançadas para sua época.  Tocava piano desde os cinco anos e seus desenhos gritavam criatividade e sensibilidade estética.  Mas tais qualidades não eram valorizadas no mundo feminino.  As mulheres eram preparadas para cuidar da vida privada da família e aos homens cabia o sustento.

"Constituir família com um desconhecido, nem pensar".  Se escolhesse o convento, teria tempo para pensar em outra saída.  E foi o que fez.

Claire consultou o relógio escondido embaixo do travesseiro.  Eram quase duas horas da manhã.  Certificou-se de que suas colegas de quarto dormiam profundamente, tirou a camisola branca de algodão cru que escondia um vestido reto e sem babados, usado debaixo do hábito.  Carregou uma mochila com poucas peças de roupa e saiu do quarto.

Pé ante pé, caminhou pelos imensos corredores familiares, atravessou salas e entrou na capela.  Apenas a lamparina do Santíssimo Sacramento acesa.  Orou poucas palavras,  pediu perdão a Deus. "A gente só vive uma vez".

Tão silenciosa quanto uma folha seca que se desprende do galho, andou até a porta principal.  Girou a chave pesada tão delicadamente que ela não teve coragem de ranger.  Olhou para todos os lados e desceu as escadas saltitando.  Atravessou o jardim florido chegando  ao depósito das ferramentas e apetrechos de jardinagem.  A escada estava onde deveria estar.  Era pesada, mas não mais que a vontade de fugir.

Subiu cada degrau pacientemente.  Uma queda quebraria todos os seus ossos.  Chegou à borda do muro e lá embaixo na calçada estava o amontoado de lixo que seria recolhido de manhã.

Ela nunca ouvira falar em super-heróis, mas, naquele momento, seria a primeira.  Num salto voador, viu-se misturada aos restos de comida que se soltaram de um saco furado.  O mal cheiro era forte.  Deu uma chacoalhada, sentiu-se livre e solta.

Nesse exato momento, lá na esquina, apontou uma carruagem num trote lento e compassado.

Claire postou-se no meio da rua estreita e gritou por socorro.  O condutor não teve outra saída senão frear os cavalos.  Assustados, relincharam alto.  Ela não pensou duas vezes.  Abriu a portinhola e pulou para dentro do coche.  Ela precisava fugir dali.

Jeremias aguardou um instante e como os passageiros não esboçaram qualquer reação, tocou em frente.

Então a fugitiva se deu conta de que não estava sozinha.  Dois homens bem vestidos e uma mulher exuberante com seios volumosos  pressionados pelo espartilho, riam  e bebiam champanhe.  Bêbados, descontrolados e felizes depois de uma noite prazerosa no cabaré ”Chat Noir" da rua Montmartre, não davam conta do que se passava ao redor.  Logo em seguida, todos adormeceram.   Só acordaram quando a carruagem estremeceu e uma das rodas se soltou.  O "coupê" perdeu o controle da direção e os cavalos assustados arrastaram todos, num zigue-zague, até parar no acostamento.

Todos desceram e só então a "intrusa" foi descoberta.  "De onde veio essa assombração"?  Antes que fosse atacada, em resumidas palavras, Claire deu-lhes uma explicação razoável.  

Já estavam a muitos quilômetros de Paris e era o momento necessário e oportuno para uma pausa.  Acomodaram-se debaixo de árvores corpulentas às margens de um riacho de águas rasas transparentes.  Fartaram-se de alimentos e frutas que carregavam.  Os cavalos, também famintos, perderam-se no descampado de grama verdinha.

Claire contou detalhes da sua história e teve apoio do grupo.  Gente boa e rica que sabia aproveitar a vida.  Eles pretendiam chegar à Florença, onde acontecia uma exposição com pinturas renascentistas.  Era tudo o que a ex-freira mais queria: contatar o mundo das artes, fugir da França e se esquecer da família que, certamente, a amaldiçoaria todos os dias de sua vida.

O calor estava intenso e as águas convidavam todos ao banho.  Os rapazes não se entusiasmaram em se desfazer de botas e tantas peças de roupa, mas as duas mulheres, desinibidas e sem pudor, despiram-se e não perderam tempo.

A carruagem estava consertada e os cavalos descansados e tranquilos.   Hora de partir.  O caminho à frente era longo.

O pescador e o mar - Adelaide Dittmers

 


O pescador e o mar

Adelaide Dittmers

 

Há dois dias que aqueles homens estavam no mar. Capitão Ramos olhou para o céu coberto de pesadas nuvens escuras, que eram empurradas por um vento cada vez mais forte. Conhecedor profundo do mar e das intempéries, coçou a cabeça preocupado e se perguntou se aquele velho barco aguentaria a fúria da tempestade que se anunciava.   Decidiu que era hora de voltar.  A pesca tinha sido boa e o caminho até a costa era longo. Chamou os dois homens, que o acompanhavam e comunicou-lhes que estavam retornando.   Direcionou o barco para a terra firme e iniciaram a viagem para casa.

Nesse momento, raios começaram a riscar o céu, seguidos pelos fortes estrondos de trovões.  Ondas enormes levantaram-se no mar revolto, batendo com violência na frágil embarcação, que subia e descia pelas grandes e assustadoras vagas.

Os três homens se esforçaram para manter o barco estável e no rumo certo.  Uma chuva forte começou a despencar com uma fúria descontrolada. A visibilidade era nula. O aguaceiro se confundia com as tenebrosas águas do oceano.

Capitão Ramos tentava acalmar os dois homens, que estavam aterrorizados, mas um turbilhão de pensamentos ocupava sua cabeça.  Como conseguiria levar o velho barco e aqueles homens, que tinham plena confiança nele, para a terra firme.  Um medo nunca sentido por aquele homem corajoso tomou conta de seu corpo e de sua alma.

De repente, uma onda gigantesca impulsionada pela ventania levantou o pequeno barco, jogando-o de um lado para outro.  Os dois homens que acompanhavam o marinheiro foram bruscamente lançados ao mar.

O velho lobo do mar, acostumado a várias situações difíceis, agarrado a um pequeno mastro, soltou um grito desumano, como um animal ferido, e um choro incontido e singular irrompeu naquele homem tão forte como as ondas desvairadas à sua volta. Era responsável por aquelas vidas.

Com grande dificuldade, ele se arrastou até o leme e o segurou firmemente e apesar do desespero e do terror de ver os homens, tentando se manter à tona das águas, dirigiu o barco para o mais perto deles, que   pode conseguir, lançando uma corda para tentar resgatá-los.  Um deles conseguiu chegar até a corda e segurou-a com firmeza.  Ramos tentava trazê-lo para o barco, mas a força do mar tornava aquele salvamento quase impossível, quando uma imensa vaga jogou o homem à beira do costado do pesqueiro e o capitão, reunindo toda a energia, que ainda lhe restava, puxou-o para dentro.  O pobre homem, que tossia e respirava com dificuldade, estendeu-se no chão para se recuperar.

Ramos olhou para fora, apreensivo, tentando divisar o outro pescador entre as grandes ondulações das águas, que se elevavam violentamente.  Ele desaparecera.  Um sentimento de impotência e de desalento tomou conta dele.  Tião era um companheiro de muitos anos, amigo fiel de muitas empreitadas e com quem compartilhou muitos momentos felizes. Não era jovem e por isso não tinha a vitalidade necessária para lutar contra aquele gigante e tempestuoso mar.

 Como se voltasse à realidade voltou sua atenção ao homem salvo, incentivando-o a reagir e ajudá-lo no difícil desafio de conduzir o barco à terra firme, com segurança.  Movido por uma força interior, muito peculiar à sua personalidade, bradou:

— Temporal dos infernos, você não vai vencer nóis.  Vamo consegui! Deixa de choradera, Quim e vem me ajudá!

Com destreza e a experiência acumulada durante muitos anos de pescaria, procurou manter o barco, o mais estável possível, levando-o a favor das ondas e quando não era possível, cortava-as de lado, com a velocidade reduzida e elevando a proa para não entrar água na embarcação.

Seus pensamentos estavam concentrados na luta contra aquele poderoso adversário.  Quim, por sua vez, tentava ficar de pé e auxiliá-lo a divisar alguma coisa em meio aquele aguaceiro.

Com ímpeto e segurança, conduzia o velho e alquebrado barco em direção à costa e, como um filme, que se ia desenrolando, lembrava-se de sua juventude cheia de dificuldades e do demorado aprendizado como marinheiro e pescador.  Suas memórias reviveram as adversidades vividas por ele, seus inúmeros irmãos e seus pais na luta constante pela sobrevivência.  Esta era mais uma delas e ele iria vencê-la.

Seus pensamentos voaram para as famílias que dependiam da pesca para ter o pão em suas mesas e para sua companheira de vida, que o esperava a cada pescaria, rezando por sua volta.  E essas reflexões lhe davam alento para continuar enfrentando a terrível tempestade.

Depois de algum tempo, a chuva e o vento começaram, aos poucos, a diminuir de intensidade e o oceano, súdito que era da natureza, foi se acalmando devagar.

Os dois homens se abraçaram aliviados.  Tinham superado o pior. Sem pressa e com muito cuidado foram se aproximando da costa, que já era visível, mas ainda muito distante.

Aos poucos, foram chegando mais perto da terra e começaram a avistar os morros verdejantes, que circundavam a bela e agreste praia em que viviam.  Uma enorme tartaruga passou pelo barco e eles soltaram uma gargalhada, descarregando parte da tensão, que tinham contido em seu interior. A visão do animal foi para eles um sinal da vida, que retornava.

Ao se aproximarem da praia, avistaram um grande número de pessoas, que se aglomerava à beira do mar, parecendo que a pequena vila de pescadores comparecera em peso para esperá-los. 

Vários homens e mulheres entraram no mar para recebê-los. Extenuados pela grande batalha contra a natureza bravia, desceram da pequena embarcação e foram ao encontro deles.

Suas emoções eram contraditórias.  Estavam felizes por estarem vivos e trazerem os peixes para aquelas pessoas pobres, e tristes pela perda do companheiro.

Uma mulher adiantou-se no grupo.  Era sua mulher.  Agarrou-se a ele, chorando convulsivamente e quase gritando dizia:

— Nossa Senhora me ouviu!  Nossa Senhora me ouviu!

A mulher e os pequenos filhos de Quim também o abraçaram chorando.

Era uma comoção geral.  Dentre o grupo, outra mulher afastava com os braços as pessoas e tentava chegar perto de Ramos.  Quando finalmente conseguiu se aproximar dele exclamou:

— Cadê Tião? Cadê Tião?

O velho marinheiro balançou a cabeça, impotente e com uma voz fraca, disse:

— Ah! Desculpa Joana! Ele caiu no mar! Não consegui salvá ele!

A pobre senhora ajoelhou-se na areia molhada e caiu num pranto sentido e desesperado.

Ramos ergueu-a e a abraçou, sem ser capaz de proferir uma palavra de consolo.  Estava desolado. Depois de alguns instantes, recuperou-se da emoção, fitou-a com compaixão e ternura e disse:

— É o destino! Não podemos fugir dele, minha amiga!

E olhando para as ondas brancas, que lambiam a areia delicadamente, exclamou:

— É a vida! O mar dá muito pra nóis, mais tira também!

Com a cabeça baixa e abraçando as duas mulheres, gritou para todos:

— O barco tá cheio de peixes. Descarreguem!

E seguiu para a vila.

GREGÓRIO - O DETETIVE - Alberto Landi

 


GREGÓRIO - O DETETIVE    

Alberto Landi

 

Gregório é um detetive argentino, que vive em Luján, nos arredores de Buenos Aires, aventureiro no ramo da investigação, engraçado, desastrado, atrapalhado, analisando uma cena de crime, a solução vem por acaso, às vezes com muita sorte!

Ele é um personagem mais forte que o criminoso, por ser mais inteligente, competente e ágil. O papel do detetive é impedir a ação do criminoso descobrindo a sua identidade e com isso pôr fim ao mistério.

Até o momento em que o criminoso consegue esconder a identidade, ele é o protagonista da narrativa, mas quando é encontrado, torna-se um personagem secundário, fazendo do detetive o herói do conto policial. Herói porque encarna os valores da sociedade e luta por eles.

A história se passa num dia chuvoso e frio em Luján, em uma quinta feira do mês de julho.

Gregório foi encarregado de resolver uma série de crimes onde alguns homens eram seduzidos por uma bela mulher, e depois eram encontrados esfaqueados de forma cruel.

O detetive foi chamado pela chefia da polícia local, onde o Sr. Julián dono de uma sapataria foi encontrado estirado no chão, com marcas de facadas, só que dessa vez havia algo diferente.... Uma testemunha!

Era Juan um vizinho, assustado e desconfiado, mas com um enorme desejo de ajudar, contou ao detetive que pela madrugada viu Julián acompanhado por uma mulher loira, estatura mediana, cor de pele marfim, contrastando com a roupa de enfermeira que estava usando, usava cabelos cacheados até os ombros.

Gregório animado com a perspectiva de agarrar a psicopata, voltou para casa e contou os detalhes para a sua adorável esposa Perla. Sem notar que ela batia exatamente com a descrição de Juan e sua esposa exatamente trabalhava à noite num hospital da região do crime!

Estava desvendado o crime.  Sorte ou azar?


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...