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quarta-feira, 2 de abril de 2025

CURIOSIDADES DE MENINA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 


CURIOSIDADES DE MENINA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Ao viajar em criança, pelas estradas, com seu pai, Celinha sentia muita curiosidade ao observar as casinhas encontradas, ao longe, escondidas entre árvores ou morros. Geralmente pequenos sítios ou chácaras.

De dia, banhadas pelo sol, isoladas, distantes umas das outras. À noite, escuras, fechadas, com pequenas frestas de luz, anunciando pessoas.

A imaginação da menina questionava sempre: como viveriam, seriam mais felizes ou não, assim distantes da cidade grande. Acreditava que sim, em meio à quietude e à natureza. Nunca sentiu-se bem com barulhos. Ficava inventando histórias e contos de fadas, com príncipes que cavalgavam entre as montanhas e princesas que colhiam flores, enquanto seu pai dirigia.

Aconteceu, uma vez, à noite, entrarem numa pequena cidade para pouso e comida. Não guardou o nome, mas era muito escura, quieta, só iluminada por alguns lampiões de rua.

Ruas estreitas, poucas casas, totalmente fechadas, sem barulho de pessoas, denunciavam uma cidade triste, nada acolhedora, ouvindo-se, de quando em quando, uivos de alguns cachorros.

Pararam à frente da maior delas, um sobrado alto, velho e rústico, altivo em meio às outras antigas, pequenas e baixas. Deveria ser o hotel da cidade. Atendeu-os um senhor gordo, idoso, nada hospitaleiro, de cara zangada, parecendo preocupado. Indicou um quarto em cima e nada para comer. A cozinha já estava fechada.

Assustou-os, de repente, enquanto subiam as escadas, o som de um tiro. Pararam, aturdidos, no último degrau e gritaram chamando o dono.

Ele aparece todo atrapalhado, avisando que não houve nada, só o tiro habitual do dono da casa ao lado, incomodado com o barulho dos cachorros.

O pai, intrigado, pergunta-lhe se não seria melhor chamar a polícia, mas ele responde que polícia, àquelas horas, só na cidade próxima e cedo.

O povo da cidade já estava acostumado com esses tiros e assim reagiam, quando eram incomodados.

Que fossem deitar sossegados. No dia seguinte, resolveriam essa questão.

Muito amedrontados, pai e filha fecharam a porta do quarto e mal dormiram, esperando logo o amanhecer.

Na manhã seguinte, ao descerem, encontraram o dono todo amável, hospitaleiro, convidando-os para o café.

O pai, com pressa em sair, agradeceu e rumaram em direção à saída, mas ele, muito insistente, apresentou-os ao administrador da cidade, que queria dar as boas-vindas, um homem de chapéu largo, bigodudo, com cinturão a tiracolo.

Olhando-o, o pai reparou logo que costumava andar armado. Havia um espaço no cinto para uma arma a tiracolo. Achou melhor tratá-lo com gentileza e foram tomar café.

Até que era um homem agradável, sabia improvisar simpatias, iniciando logo um papo agradável sobre a cidade.

Contou ser comum ouvir tiros, ocasionalmente, pois estavam surgindo muitos cães com doença raivosa, um perigo para a população e todos andavam temerosos e armados.

O pai concordou com isso, meio desconfiado, respondendo: “E nem estamos em agosto, não?” “Qual será a causa?”

O administrador respondeu rápido: “Pois é! Isso está nos amedrontando.” “Gostaria de conhecer melhor nossa cidade?”

Tanto insistiu que foram, apesar da pressa. 

Lugar pequeno, casas de quintais largos, cheios de plantações, bonito de se ver. Pessoas sérias, não amáveis ou alegres, antipáticas com estranhos.

Reparando bem nas plantações, acharam um pouco estranhas, mas não falaram nada. Não havia uma flor ou uma verdura. Sem comentários deles. A única coisa que o pai falou foi: “E a matriz? Onde fica? Gostaria de visitá-la.”

— Ah! A matriz! Não existe mais. Foi destruída por uma chuva forte que deu, o ano passado. Estamos pensando em construir logo outra. O povo precisa de uma crença, não?

— Claro, responde o pai. Ainda mais com tantos problemas, no mundo atual. O senhor me desculpe, mas preciso correr, tenho horas para chegar a Ribeirão das Graças e sou esperado. Foi um prazer conhecê-los e pernoitar aqui.

E virando para Celinha: “Vamos, filha, senão chegaremos tarde!”

O administrador perguntou: “São esperados? Que pena! Quando quiserem voltar, teremos prazer em recebê-los. Tomara que essa doença dos cachorros já tenha passado.”

— Com certeza, sim, responde o pai. Precisam chamar a vacinação contra a raiva. É muito triste isso.  Talvez passemos por aqui na volta.

E foram rápidos para o automóvel, após as despedidas obrigatórias.

Assim que iniciaram a estrada, Celinha perguntou ao pai o que eles plantavam? Os quintais eram todos iguais. Não conhecia aquela planta.

Ele respondeu: “Não eram flores nem verduras, filha, parecia maconha, ou outro tipo de erva para fazer tóxico. São drogas que fazem para vender. Deve ser uma cidade clandestina. Que bom que saímos ilesos!”

Ainda avistaram, ao longe, um campo alto, o cemitério da cidade. Estava em movimento, um enterro. Talvez o resultado do tiro na noite anterior.

— Não eram cachorros, pai? Pergunta a menina, intrigada.

 — Acho que não, filha. Foi a desculpa que deram. Escapamos de boa!

Chocada, Celinha aprendeu a não observar mais os lugares escondidos pelas estradas. Pelo menos, a não achar serem mais felizes que ela e ficar inventando histórias.

 

 

A Casa dos Segredos - Alberto Landi

 



A Casa dos Segredos

Alberto Landi

 

Para se chegar à casa de Lazinho, era preciso pegar uma estradinha de terra que subia uma leve colina saindo da estrada principal que ligava Brodósqui ao pequeno vilarejo. Até que era interessante o trajeto, pois era bordejada de capim alto, flores vermelhas e amarelas.

Antes de bater à porta, observei a fachada da casa, alegre e colorida, era de um amarelo vibrante com detalhes em azul e verde, criando uma atmosfera acolhedora, as janelas emolduradas com um branco luminoso e muitas flores complementavam a beleza do lugar.

Havia à porta um Buick preto, reluzente, com rodas brilhantes e pneus com faixa branca. Os bancos eram estofados de couro branco, por trás do volante, dava para ver mostradores redondos de vidro com ponteiros, tudo isso um luxo para a época.

Quando finalmente entrei, me deparei com um labirinto pleno de segredos e mistérios.

Ele era o chefe da família, me recepcionou com um sorriso forçado. Parecia que sua expressão mostrava uma história de desafios e perdas enfrentados no decorrer dos anos.

Seus olhos ofuscados por preocupações, uma pessoa inquieta, talvez pelas dificuldades enfrentadas na vida cotidiana.

Ele guardava um segredo que pulsava como um coração oculto, era algo que o acompanhava desde há algum tempo.

Ele escondia uma doença grave, que não queria revelar para a família.

Sua esposa, Janete, estava cansada de viver uma vida que não era dela, e sonhava em fugir para uma liberdade que nunca conhecera.

À noite, quando a casa estava em silêncio, os segredos começaram a se revelar. Ele se levantava da cama e ia até a janela, onde ficava contemplando a noite, como se buscasse uma resposta para as perguntas que não ousava fazer.

Janete se sentava na cozinha e chorava em silêncio.

Como observador, assistia a tudo isso com uma mistura de tristeza e fascínio.

Pensava quantos outros segredos estavam escondidos por trás das portas fechadas e das janelas cerradas? Outras histórias estavam esperando para serem contadas?

Apesar de sua doença, Lazinho ainda mantinha uma aura de autoridade e controle. No entanto, seus olhos revelavam uma tristeza e uma sensação de perda que ele não conseguia esconder.

Janete tinha uma agitação nervosa, revelava uma ansiedade que não conseguia controlar. Comecei a me perguntar o que havia levado ela a se sentir tão presa e infeliz.

À medida que continuava a observar a família, comecei a perceber que cada um deles estava lutando com seus próprios demônios. Um com a doença e outra com a infelicidade.

Como uma família pode parecer tão normal por fora, mas esconde tantos segredos e problemas por dentro?

Estava determinado a descobrir todos eles.

Continuando a observar, percebi que os segredos e os silêncios estavam começando a se desfazer.

Lazinho confessou finalmente o seu problema à família, e juntos, eles começaram a lidar com as consequências.

Ela, por outro lado, encontrou coragem para seguir seus sonhos e começou a construir uma nova vida para si mesma.

A casa que outrora havia sido um labirinto de segredos, agora se tornou um lugar de abertura, honestidade e amor.

Como observador pude ver a transformação da família e entender que às vezes é preciso enfrentar os segredos e silêncios para encontrar a verdadeira felicidade.

E assim, a pequena história chegou ao fim, mas a lição que ela ensinou permanecerá comigo, a verdadeira liberdade e felicidade só podem ser alcançadas quando permitimos ser vulneráveis e honestos uns com os outros.

 

MUDANÇA DE RUMO - Adelaide Dittmers

 

 


MUDANÇA DE RUMO

Adelaide Dittmers

 

O Airbus voava sobre o Pacífico As luzes foram apagadas após o jantar. Alguns passageiros começaram a assistir à filmes ou jogar através das pequenas telas.  Outros tentavam adormecer, acomodando-se nas estreitas poltronas,

Subitamente, um grito foi ouvido e vozes ásperas berravam ordens. Luzes foram acesas e as pessoas aturdidas levantaram para entender o que estava acontecendo.

Homens encapuzados empurravam brutalmente uma comissária de bordo e a ameaçavam com uma arma na cabeça.

O pânico tomou conta dos passageiros. Uns se encolheram nos assentos, outros foram sacudidos por soluços, outros mal respiravam pelo terror que os tolhiam, alguns gritaram.  Os três homens viraram suas armas para eles e aos berros mandaram ficar quietos, senão iriam atirar. Apenas o ruído de soluços contidos espalhou-se pelo lugar.

Os terroristas arrastaram a pobre moça para a cabine dos pilotos e os dominaram.  Pelo microfone, anunciaram o sequestro, desviariam a rota para o Brasil, onde fariam a troca.  explodiriam a aeronave se algo saísse do controle.  

Uma criança começou a chorar alto e um dos homens apontou a arma para ela.  A mãe apavorada, cobriu o filho com seu corpo e implorou para lhe dar tempo de acalmá-lo.

Uma senhora passou mal.  O marido apavorado começou a gritar, pedindo ajuda. Um homem levantou-se silenciosamente e, agachado, foi até o casal. Murmurou que era médico e iria reanimá-la.

O pavor era tão grande que as pessoas mal respiravam.

Mensagens foram enviadas para o aeroporto Tom Jobim. Exigiam que entregassem duzentos companheiros presos na Papuda, em troca dos passageiros.

A movimentação no país de destino foi enorme.  Uma complexa estratégia foi montada para garantir a vida dos reféns.

Amanhecia quando o avião finalmente, pousou no aeroporto.  Agentes do exército, seguranças e policiais, já o aguardava escondidos atrás de ônibus e veículos de socorro espalhados pela pista.

A fila dos duzentos homens estava formada perto do local, em que o avião parou.

O trato foi seguido rigorosamente. Primeiro, os prisioneiros entrariam na aeronave e a seguir os passageiros dela sairiam.

A fila caminhou lentamente e os homens subiram pela escada, que os levava ao avião. Olhos atentos observavam cada movimento da  arriscada operação.

De repente, disparos ecoaram do interior da aeronave. Gritos aterrorizados explodiram.

A reação dos agentes foi imediata.  Cercaram a aeronave e acessaram velozmente a entrada. Lá, agentes disfarçados, tinham  se misturado à fila de prisioneiros e atiraram nos terroristas, que pegos de surpresa, não resistiram ao ataque. Os policiais subjugaram os homens que seriam trocados pelos passageiros. 

No interior, depararam-se com pessoas em estado de choque.  Os corpos endurecidos e os rostos contraídos   pelo horror.

Um oficial anunciou que o perigo tinha passado e todos estavam salvos.

Os aterrorizados passageiros recostaram-se nas poltronas, tentando expulsar a terrível tensão, que os dominara naquelas longas horas em que a morte estivera tão próxima.


quarta-feira, 19 de março de 2025

A VIDA DE LAZINHO - HENRIQUE SCHNAIDER

 






A VIDA DE LAZINHO

HENRIQUE SCHNAIDER

 

A família estava reunida na sala, o silêncio era tão grande que dava para ouvir a respiração sofrida, devido à asma crônica do Lourival, pai de Lazinho.

Todos quietos, ninguém arriscava nem dar um pio para quebrar o silêncio. Lourival olhava angustiado para a mãe de Lazinho, Dona Amanda. Lazinho vermelho como um pimentão, de tanta raiva, olhava desconcertado para o chão.

Voltando esta história para anos atrás. Lourival e Amanda se conheceram num baile da velha guarda e caíram de amores um pelo outro. Depois de dois anos de namoro e mais um de noivado, casaram-se na Igreja da Maculata.

Três anos se passaram e, apesar de tanto esforço para gerarem um filho, não conseguiram e, com tantos exames, acabaram, depois de muita tristeza, que Dona Amanda não podia dar um filho para Lourival. A coitada estava seca, assim como uma bananeira que já deu cacho.

Após discutirem muito sobre o que fazer, resolveram adotar um menino que nasceu numa outra cidade, de uma mãe desnaturada que não queria a criança e assim trouxeram o menino com um mês de vida. Foi uma enorme alegria com a chegada da criança, ao qual deram o nome de Lazinho.

Não houve criança mais amada, a qual deram uma educação a melhor possível e a vida do casal mudou da noite para o dia. A casa se encheu de alegria e felicidade. Lazinho era uma criança de gênio tranquilo e muito boazinha.

Passados cinco anos, Lourival e Amanda resolveram adotar mais um menino bem moreninho e lhe deram o nome de Armando.

A vida do casal foi do bem para melhor, naquela casa só havia muito amor e carinho e assim foram se passando os anos e a vida deles era só festa. O casal não criava coragem para contar aos rapazes, que ambos eram adotados, falharam ao não revelar a verdade.

Lazinho já estava com quinze e Armando com doze anos, e o momento fatal tinha que acontecer para o bem dos rapazes, a verdade tinha que ser revelada nua e crua.

Até que certo dia, aconteceu, o silêncio naquela sala era total, não se ouvia o zumbido de um pernilongo. Qual era o segredo que finalmente iria ser revelado?

Amanda até gaguejou, quando começou a falar e começou finalmente a revelar aquele segredo guardado há tantos anos. Finalmente soltou tudo, uma vez que eles, tanto Lazinho como Armando, não eram seus filhos e que ambos tinham mães diferentes.

Ela pediu para que eles a perdoassem por não revelar o segredo há tanto tempo guardado. Mas que os amava como se tivessem sido filhos legítimos seus. Lazinho deu um grito enorme e Armando permaneceu calado.

Lazinho, em seguida, pediu desculpas pelo grito e agradeceu aos pais por terem o adotado. Armando seguiu o irmão e disse o mesmo.

Um peso enorme saiu de cima daquela família e todos choraram de alegria e de felicidade, reinou naquela casa e assim viveram em paz daquele dia para sempre.

DILEMA - Adelaide Dittmers

 

 

DILEMA

Adelaide Dittmers

 

Muitas pessoas escondem segredos. A dúvida de revelá-los corrói suas almas e suas vidas.

 

Valentina revolvia-se na cama. A escuridão do quarto encobria sentimentos ambíguos, que a desorientavam.  Qual o caminho a seguir? O que era certo?  Haveria o certo ou o errado na situação em que se sentia enredada.

 

Seu pai sempre foi seu ídolo.  Inteligente, ético, carinhoso e compreensivo.  Quando se sentia perdida, era o barco que a levava para um porto seguro. A âncora, que a fazia parar e pensar.  Como poderia julgá-lo? Parceiro presente e amoroso da sua mãe.

 

Levantou-se como se tivesse levado um grande susto, empurrando as cobertas e sentando-se.  Os punhos fechados pressionam o colchão.

 

Precisava sair. Andar sem direção. Colocar a cabeça no lugar.  Vestiu-se rapidamente, ainda atordoada pela noite insone.  Percorreu o corredor com os tênis nas mãos para não acordar o pai e saiu para a rua.

 

O dia começara a empurrar a noite e derramava suavemente a claridade pela cidade, que, sonolenta, começava a acordar pouco a pouco.

 

Vagou pelas ruas sem um rumo certo. A grande praça surgiu à sua frente.  Um vento suave sacudia as folhas das árvores, que exalavam o fresco aroma da natureza.  Um sabiá fazia seu concerto matinal.

 

Ela se jogou em um banco.  Os olhos perdidos e o coração descompassado. A imagem da mãe doente fez com que fechasse seus olhos, espalhando a dor que sentia por todo o corpo, que, involuntariamente, se contraiu.

 

A descoberta que fizera de que o pai, um conceituado médico, havia escondido uma droga, que pretendia dar à mãe, que estava sofrendo terrivelmente, acometida por um câncer, que estava devorando seu corpo e empalidecendo sua alma, atingiu-a como um raio.

 

Ele estava agindo por amor, mas teria esse direito? Não poderia ter escolhido tirar os medicamentos e antecipar o desenlace.

 

O choro a sacudiu.  Tinha que agir e impedi-lo de cometer esse crime. Sentiu-se no meio de um furacão de emoções contraditórias.

 

Entregar o pai querido ou calar?

 

Levantou-se resoluta.  Iria confrontá-lo.

 

Entrou em casa com passos firmes, o coração aos saltos.

 

Ouviu um choro convulso, vindo do quarto.  Correu para lá. O pai soluçava abraçado à mãe, que acabara de partir. O frasco da droga vazio jazia na mesinha de cabeceira.

 

Estacou à porta, a respiração suspensa.  Correu até a cama e os abraçou.  Sabia agora o que fazer. A decisão estava tomada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VERDADE, ACONTECEU MESMO! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



 





VERDADE, ACONTECEU MESMO!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Dia lindo em Cosópolis, céu azul, nuvens suaves e brancas, sol radiante e luminoso, que irradia raios de luz pela região colorida de verde.

Crianças brincam calmamente de pega no quintal das casas e senhoras idosas e gordas, conversam risonhas as fofocas do dia.

De repente, uma estranha escuridão acontece. Raios e trovões se espalham pelo céu, pingos grossos de chuva espantam e afugentam os moradores para suas casas. Arrebenta uma grande tempestade que amedronta, principalmente, a criançada.

“Será que São Pedro está bravo conosco?” Comentam as crianças.

“O que será que acontece nos céus?” Exclamam as mulheres, acendendo velas para Santa Clara. A luz do povoado se apaga.

Cosópolis, a cidade calma, está apavorada.

Essa escuridão e a tempestade já duram algumas horas.

“Que coisa estranha!”, exclamam todos. Algo aconteceu.

No céu, os anjos e os santos, atormentados pelo barulho feito por Margot, recém-falecida, estão à volta de São Pedro, sem saber o que fazer.

A mulher, muito brava e enérgica, reclama que não podia morrer. Xinga e desrespeita o porteiro do céu, bate pés e braços às portas do Paraíso, faz um escândalo, não quer entrar.

São Pedro, calmo e paciente, vai até ela e a orienta que, agora que morreu, tem que ficar lá em cima. Não tem como voltar. Não existe mais nova vida.

Margot, muito enraivecida, responde-lhe que não pode morrer. Tem que voltar.

Mas como, responde-lhe o mestre. Ninguém mais volta depois que morre. Afinal, aqui é melhor do que a Terra, por que deseja tanto voltar?

A mulher, preocupada, afirma-lhe que o seu marido, o querido e amado Mário, ficou sozinho e não pode deixá-lo. As mulheres locais são invejosas, gostam muito dele, querem sempre o roubar e, sem ela, ele cairá rápido nos braços de outra.

São Pedro sorri e percebe o quanto essa mulher foi ciumenta e possessiva.

Deve ter feito da vida do pobre Mário, um inferno, mesmo.

Margot, sem querer escutá-lo, continua se debatendo e não se deixa conduzir ao céu, ou ao mundo dos mortos.

Tentam levá-la à força, no meio de outros recém-falecidos, quando a mulher escuta que outra mulher, uma idosa, teve um mal-súbito, pareceu morta, mas reviveu, voltou à vida.

Mais que depressa, Margot acompanha esse relato e responde para São Pedro que, se a outra voltou, ela também poderá voltar. Tanto insiste, tanto grita, também amedronta e ameaça a todos de empurrá-los ao inferno, que até São Pedro, cansado e sem mais argumentos, mandou jogá-la à Terra. E Margot é colocada novamente em seu quarto, sua cama, abrindo os olhos.

Mário, a família, poucos amigos, ainda a velavam, não entristecidos, mas pareciam aliviados.

Quando Margot abre os olhos e respira, quase mata todos os presentes de susto. Alguns fogem, amedrontados, só permanecendo o marido e a mãe.

Ela abre os olhos e afirma que não morreu, foi um leve surto, já voltando ao normal.

Percebe, espantada, o desespero do marido, ao invés de alegria. Sente, espantada, que a sua morte trouxe alívio e paz a todos. Por que seria?

Levanta-se, calmamente, e o micróbio do ciúme retorna, tentaria descobrir. Mário já deveria ter outra mulher, uma nova esposa à vista.

D. Ferdinando, o pároco, é chamado para fazer verificação do seu retorno à vida e dar-lhe as boas-vindas. A notícia de que ela não morreu, de verdade, logo se espalha e alegam todos que foi isso que causou a tempestade.

A pobre Margot não é bem recebida e logo corre o boato de que virou uma bruxa viva. Nem a morte a quis.

Mário e a mãe tentam abraçá-la, demonstrar a felicidade que realmente não sentem, foi mesmo uma mulher insuportável.

Margot empurra-os para o lado e se levanta, muito brava.

“Então, pensam que morri, de verdade? Nunca os deixarei livre”, exclama em voz alta. Até o vigário se estremece e pensa em chamar outros padres para fazer um exorcismo. Mário, então, faz em sua testa o sinal da cruz, pedindo auxílio à Divindade.

Margot chama a atenção de toda a população que, devagarinho, vai chegando à sua porta. Os vidros das janelas ficam cheios de olhos estranhos, curiosos, a espiar o acontecido.

A mulher aparece na entrada e, gritando, afugenta todos, imediatamente.

“Ela virou uma bruxa! Cruz credo! Corram todos…”

Margot afirma estar com fome, obrigando a mãe a ir para a cozinha e o marido, entontecido, à padaria.

Mário sente que seu inferno será em vida mesmo, com os constantes ciúmes da mulher. A mãe, desanimada, pensa em sair da cidade, voltar a morar com uma irmã, para se livrar da filha arrogante e mandona.

Os dias vão passando e Margot sempre à espreita do marido, com quem conversa, que horas sai, que horas chega.

Não se dá conta de que Mário mal conversa, mal age, permanece sentado num canto da sala, entristecido. Só responde às suas perguntas e permanece calado. Sua vida é sair ao trabalho, comer e dormir.

A mãe, muito emburrada, ajuda-a nas tarefas da casa, só sabe murmurar que logo irá embora, para a casa da tia.

Margot, ainda cheia de vida, sente vontade de sair, encontrar amigas, jogar conversa fora, mas quando sai à rua, todos somem, com medo dela e, as crianças, a xingá-la de bruxa, correm desesperadas.

Com o tempo, começa a aborrecer-se, ficar mais quieta, parar de dar gritos estridentes com as pessoas, a sentir vontade de conversar com o marido e trocar ideias com sua mãe.

Muito orgulhosa e de gênio difícil, não percebe suas culpas e não sabe modificar a situação.

Não conseguiu viver bem na outra vida, mas também é infeliz agora. O isolamento atual de familiares e amigas, que sentem medo dos seus ciúmes e mau gênio, a faz cada vez mais triste.

Refugia-se no quintal, senta-se por horas num banco, debaixo da mangueira. Aceita somente a companhia de um gato cinza, enroscado aos seus pés.

Às vezes, também o chuta, com raiva e impaciência, mas ele sempre volta.

Uma tarde, fica mais tempo no quintal e, observa, pela primeira vez, o pôr do sol. Chama sua atenção aquele brilho dourado que se estende pelas nuvens, como se fosse palha ao vento. Lembra-se do céu e que quase permaneceu nele.

Desce os olhos para o gato que lhe acaricia os pés e confunde-o, confusamente, com a figura de um anjo prateado, a olhá-la, calmamente.

Assustada, levanta-se rápido e derruba o banco, que bate na árvore e espalha muitas mangas pelo chão. Algumas frutas lhe batem na cabeça, atordoando-a. Sente leve desmaio. Quando abre os olhos, a figura do gato ainda é um anjo, de grande brilho prateado, que lhe fala, docemente:

— Quer voltar à morte, Margot, deixar novamente este mundo? Não está mais feliz?

A mulher, entre temor, espanto e dúvida, lhe responde:

— Pensei em voltar para cuidar melhor do que é meu, mas sinto que não sou mais necessária. Ninguém me quer por perto e ainda acham que sou malévola, uma bruxa, como me chamam.

O anjo sorri com compreensão e tenta explicar-lhe que suas ações, neste mundo, são más, não causam bem a ninguém. É muito egoísta e ciumenta. Nunca tentou agradar a ninguém, nem ao marido que tanto ama. Se quiser continuar a viver, terá que mudar, provar que nasceu de novo para fazer o bem. Ser útil a todos, principalmente aos que a chamam de bruxa.

Margot, impressionada, revolta-se com as palavras do anjo. Fazer o bem a quem lhe faz o mal, é absurdo. Principalmente aos que menos gosta.

O anjo, com a mão em sua cabeça, responde:

— Você é a sua maior inimiga. Todos a temem porque você também os teme, considera-os inimigos. Não percebe o bem que cada um pode oferecer. Vou lhe dar um prazo, três meses, para mudar de vida. Se continuar como está, voltarei para buscá-la.

E dizendo isso, desapareceu, deixando Margot boquiaberta, a sentir novamente o gato a seus pés.

Sente um desejo enorme de chutá-lo, mas, lembrando-se do anjo, acaricia seu pelo.

Decisão difícil, pensou Margot ao entrar em casa. Abandonar as coisas da Terra, que gosto, pelo mundo dos mortos, que nem conheço?

Na cozinha, a mãe termina a sopa do jantar, feita às pressas, sem muita vontade. Margot sente, pela primeira vez, o cheirinho gostoso do tempero da mãe, um misto de alho e cebola frita, a lembrança de sua infância.

“Que saudade!” pensa e tem vontade de tomá-la logo, mas se controla. Lembra-se das palavras do anjo e exclama:

— Hum, que cheiro gostoso é esse, mãe? Sua comida sempre foi boa, mas, hoje, deve estar mais.

A mãe, admirada, coloca um prato na mesa e a serve rápido, aproveitando o momento.

Mais admirada ficou quando a filha se ofereceu para lavar a louça do jantar e mandou-a descansar. Já trabalhou muito nesse dia.

Mário, quando chega, apático e tristonho, sem fome, resolve lavar-se e dormir. Nega-se a jantar.

Margot, achando que não está bem, lembra-se do anjo e leva-lhe um prato de sopa. Sente vontade de agradá-lo, e afirma que está muito gostosa.

O marido, espantado e sem vontade, resolve tomar o caldo e acha-o bom.  Agradece e pergunta quem o fez?

A mulher responde que foi a mãe, mas no dia seguinte, fará o jantar para ele com a comida de que mais gosta.

Mário pergunta se ela ainda sabe o que gosta. Faz tanto tempo que não cozinha!

— Bifes à milanesa, responde ela, sorrindo.

Mário adormece sorrindo, há anos não sorria para a mulher.

Gradualmente, Margot tenta corrigir suas atitudes em casa, fazer agrados nas pequenas coisas, modificando a mãe e o marido em relação a ela.

Lava bem as roupas da casa, deixando-as cheirosas e limpas, encera o assoalho rústico, grosso e feio, deixando-o corado de brilho. Não lhe sobra mais tempo para ficar no quintal, substitui a mãe nas tarefas de casa e, quando Mário chega, tenta conversar sobre o seu trabalho e servi-lo.

Tenta agora fazer as compras da casa e vai à quitanda e à padaria. Teme um pouco a reação dos vizinhos. Vai ouvir bruxa e outras coisinhas mais…

Mas vai… e causa assombro em todos que a veem, ninguém tem coragem de enfrentá-la, diante de sua postura. Tornou-se uma mulher segura e imbatível. Não mais se atemoriza com os outros.

Com o tempo, o povo da cidade, o seu povo, o lugar em que nasceu, vai se acostumando com ela e se aproximando.

Amigas antigas aparecem, tentam puxar conversa, acaba recebendo convites para aniversários e fazer parte do grupo de mulheres que se dedicam a obras de caridade.

Margot acaba, com o tempo, a chefiar o voluntariado que presta assistência à Santa Casa de Misericórdia, da cidade. Seu trabalho é tão digno que recebe até uma comenda do Prefeito, mudando completamente a opinião popular, que, de bruxa, acha-a uma santa.

É, pensa Margot, sorrindo e meditando sozinha, a voz do povo, nem sempre, é a voz de Deus!

O anjo tinha razão. Estranho, três meses se passaram e ele nunca mais apareceu. Olha para o gato que ronca pesado atrás da porta, está tão gordo e velho que jamais pareceria um anjo. Acho que sonhou mesmo…

 

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...