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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

CALMA, TONHÃO! - Leon Vagliengo

 



CALMA, TONHÃO!

Leon Vagliengo

 

A história de um ‘machão’ arrependido e a revelação do motivo do misterioso desaparecimento de sua amada Marinalva.

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Desde que nasci, até hoje, moro com os meus pais na Vila Nhocuné, na Zona Leste, periferia da cidade de São Paulo. Descobri que esse nome esquisito nasceu com os escravos, que chamavam o fazendeiro de “Senhor Coronel”, mas diziam “Nhô Cuné”, e assim foi batizado o lugar, quando deixou de ser uma fazenda e se tornou um bairro.

A minha mãe, Dona Isabel, é uma branca de muito juízo, que sempre cuidou muito bem de mim, de meu pai e de nossa casa. O Seu Antônio, meu pai, é preto, bem preto mesmo, muito sério e trabalhador. Com muito sacrifício dos dois, há muitos anos compraram um terreninho e construíram uma edícula nos fundos para os primeiros anos da vida de casados. Depois, deixaram a edícula sem acabamento para não gastar muito e nem perder tempo, e já foram construindo, aos poucos, no restante do terreno, a boa casinha onde hoje moram.

Como todos podem ver, morando na Zona Leste e até por uma questão de sangue, eu só poderia ser, e sou, corinthiano, alvinegro. Às vezes, brincando com meus pais, mas sempre com muito respeito e carinho, chamo a minha mãe de “Dona Branquela” e o meu pai de “Seu Negão”. Eles riem e me chamam de “Café-com-leite”, apelido que até acho meio bobo, mas não digo nada, porque eles gostam. Se eu não “apronto” nada, o clima em casa é sempre de muito amor e tranquilidade.

O Seu Antônio nasceu num dia treze de junho, dia de Santo Antônio, e recebeu esse nome em homenagem ao Santo. Por uma incrível, mas interessante coincidência, nasci de parto normal também num dia treze de junho. Filho de Antônio, e nascido no dia de Santo Antônio, não podia dar outra: o meu nome é mesmo Antônio, Antônio Lupércio de Oliveira Filho, e meus pais me chamam de Tonico desde quando eu era criança até hoje; mas todo mundo na Vila me conhece por Tonhão. É porque sempre fui muito forte e briguento, e as pessoas da rua e da academia onde “puxo ferro” me respeitam, como tem mesmo que ser. Aqueles que tiveram a coragem de me encarar, sempre se deram mal.

Quando eu e a minha linda e querida Marinalva resolvemos juntar os trapos e tarecos, os meus pais nos cederam a edícula para termos onde morar, pelo menos por um tempo.

— Serviu para mim e para a sua mãe, “quebra bem o galho”. Vocês ficam aí pelo tempo que quiserem, ninguém vai incomodá-los – disse o meu pai, o “Seu Negão”, todo feliz, com a aprovação da sorridente “Dona Branquela”, ambos irradiando a imensa alegria que sentiam naquele momento tão importante para o seu filho Tonico.

Sim, sempre fui muito forte. Nasci com mais de quatro quilos e quando era menino, na escola, brigava muito e batia nos colegas. Dei muito trabalho para os meus pais, que eram chamados à Diretoria quase todas as semanas. Aos trancos e barrancos frequentei a escola só até o sétimo ano do Ensino Fundamental. Hoje trabalho no depósito de uma grande loja de materiais de construção, onde sou muito útil, principalmente para manusear aqueles artigos pesados, como lajotas e vasos sanitários. Cresci, fiquei adulto, mas nunca mudei os meus modos, sou assim mesmo. E muito, muito desconfiado.

<<< O >>>

 

        — Tonhão!

— ...?

— Ô Tonhão!

        Era um domingo, eu tinha acabado de tomar o café da manhã, quando ouvi a voz esganiçada e inconfundível do Jujuba, o meu amigo Juarez, que ganhou por apelido o nome daquelas balas porque sempre combinava camisas bem azuis ou bem amarelas com bermudas bem verdes ou até bem vermelhas. Sempre foi o cara mais colorido da turma.

        Abri a porta e saí da velha edícula ainda sem acabamento que meus pais construíram nos fundos da casa deles e cederam para eu morar com a minha Marinalva, como já contei, e fui lá no portão para ver qual era o “babado” que trazia o Jujuba tão cedo à minha casa. A gente sempre tem algum programa e eu sou “arroz de festa”, “topo” todos: festas, passeios, futebol, nunca perco um; mas estranhei, porque nesse dia não tinha nada marcado. Cheguei, Jujuba já foi dizendo:

        — “Maluco”, o moço aqui “tava” perguntando lá no bar qual é a casa do senhor Antônio Lupércio de Oliveira Filho, e eu logo “saquei”: só pode ser o Tonhão. Ele quer “bater um papo” com você.

Olhei para o estranho. Ele estava acompanhado de um outro “gajo”, que me apontava uma câmera, daquelas de televisão. Não gostei do atrevimento. Nem um pouco. Que negócio é esse? Quem são esses “caras”? O quê que eles querem comigo?

Mal pensei e o primeiro já foi dizendo:

— Senhor Antônio, eu sou o Rafael, muito prazer. O senhor foi sorteado entre centenas de interessados e eu estou aqui para lhe fazer uma proposta em nome de uma conhecida construtora, que mais tarde lhe será revelada, mas somente depois que todo o processo, que vou lhe apresentar, estiver contratado.

E continuou, me dizendo que eu e minha companheira ganharíamos uma viagem de um mês para o Nordeste, desde que eu lhes confiasse as chaves de minha casa, onde a construtora faria uma reforma completa, com móveis, decoração e tudo o mais. Aí, concluiu:

— Para realizar esse sonho, o senhor só terá que autorizar que as imagens da reforma em sua casa sejam utilizadas pela empresa, para propaganda.

— Claro que não! – Respondi “na lata”.

Para mim estava na cara que era treta. Eu nunca me inscrevi em concurso nenhum, sempre achei que são uma tremenda enganação. E quem faria uma proposta generosa dessas? Aí tem! Esmola demais, o santo desconfia! Imagine que eu deixaria a chaves da minha casa com um desconhecido e ficaria longe dela por um mês! Só se eu fosse maluco mesmo, como me chamou o Jujuba!

— “Tá” pensando que eu sou otário?! – Exclamei.

Evidentemente surpreso, o tal do Rafael apenas balbuciou:

— Mas...

E nem continuou, não deu tempo. O meu sangue ferveu, subiu à minha cabeça; não admito que tentem me fazer de trouxa. Avancei na hora para o infeliz e cobri ele de pancadas. O amigo dele tentou me segurar, dei-lhe um soco, a câmera voou longe, ele junto. Jujuba tentou me segurar, e eu é que me segurei para não lhe dar também uns cascudos; escapou dessa só porque ele é meu amigo de fé.

Soco daqui e empurrão dali, apareceu uma viatura da polícia, apareceram policiais, apareceram armas, apareceu uma delas quase no meu nariz; tive que ficar quieto e me acalmar, a coisa ficou feia. Resumindo, os visitantes foram para o Pronto Socorro cuidar dos hematomas, e eu para a Delegacia, onde tentei explicar para o Delegado as minhas razões. Acho que não o convenci nem um pouquinho, porque ele mandou que me colocassem numa cela.

Alertados pelo Jujuba, daí a pouco chegaram, muito aflitos, o Seu Antônio e a Dona Isabel, meu pai e minha mãe, que foram tentar amenizar as coisas com o Delegado.

— E a Marinalva? Por que ela não veio? – Perguntei de longe, da cela, mas eles nem me ouviram, passaram direto para falar com o Delegado, que lhes disse, poderoso e irônico, como depois me contou o meu pai:

— O seu filho teve muita sorte. Foi uma briga feia, mas o interessado preferiu não registrar queixa porque entendeu que não seria bom para a imagem da empresa promotora do concurso. Só que o Antônio ficará detido aqui até amanhã, para se acalmar e meditar um pouco sobre o que fez.

No dia seguinte fui liberado e voltei para casa. Cheguei, não encontrei a Marinalva. Queria saber por que ela não tinha ido com eles à Delegacia. Por que não estava me aguardando? Será que não se preocupa mais comigo? Ninguém me compreendeu nessa embrulhada toda, e eu esperava, pelo menos, o apoio dela. Onde foi parar a nossa cumplicidade, de que ela sempre fala tanto?

— “Cadê” a Marinalva? – Perguntei, zangado, bravo mesmo.

A minha mãe ficou calada. O meu pai me olhou, muito sério. Pensou um pouco, acho que foi para estudar como me diria aquilo. Finalmente, falou:

— Você viu como ela estava feliz, ultimamente? Foi porque inscreveu o teu nome no concurso para a reforma da casa, e você deu sorte, ganhou; mas ela não te disse nada porque queria te fazer uma surpresa. A gente sabia, até o Jujuba sabia. Mas você é uma besta, brigou e estragou tudo, jogou fora o prêmio. Agora não sabemos onde ela está, ficou muito chateada, chorou muito, sumiu.

Besta, eu?! Demorei um pouco para entender. Mas, de repente, “caiu a ficha” e vi que só fiz besteiras, mesmo: Perdi a reforma da edícula, perdi a viagem, e perdi a Marinalva...perdi a Marinalva?! ...MEU DEUS! ... A MARINALVA NÃO! ...A MARINALVA NÃO!

Desesperado, já percorri toda a Vila Nhocuné, sem sucesso, perguntando:

— Por favor, é importante: alguém aí sabe onde está a Marinalva?

<<< O >>>

AQUILES, O INCRÉDULO - Leon Vagliengo

 



AQUILES, O INCRÉDULO

Leon Vagliengo


Um conto contado agregando ângulos pessoais de placidez, acomodação, dúvida, desafio, reação e surpresa.

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        Hércules aproveitava o seu descanso de todos os fins de tarde sentado no mesmo banco de sempre, na mesma pequena praça de sempre, que era um recanto tranquilo, meio escondido entre os prédios. Descansava uma meia hora apreciando o movimento da cidade, que acontecia desde uns cinquenta metros adiante, e então tomava o primeiro ônibus rumo a sua residência, depois o segundo para completar a viagem. Fazia isso religiosamente todos os dias, menos nos fins de semana, logicamente.      

        Escriturário competente e imprescindível de um escritório de contabilidade, ali naquela praça realmente sentia-se tranquilo após cada dia de trabalho monótono que havia transcorrido igualzinho a todos os outros anteriores, pelo menos nos últimos dezenove anos.

Ao chegar ao seu pequeno apartamento de solteirão, continuava a rotina. Um banho quente, esquentar a comida que pela manhã transferira do freezer para a geladeira, o jantar, o jornal da noite e a novela na TV e, depois, dormir para recuperar as forças que lhe permitiriam começar tudo novamente no dia seguinte.

Nos fins de semana, era diferente. Ao chegar em casa, começava uma outra rotina. Não envolvia o emprego e os cansativos percursos de ônibus, de ida e volta à cidade, mas Hércules fazia sempre as mesmas coisas, também religiosamente.  Estava acostumado, não lhe passava pela cabeça alterar nada.

No sábado limpava o apartamento, lavava suas roupas, cozinhava e congelava a comida da semana, e via TV. Já no domingo, levantava-se cedo para ir à missa; na volta para casa esticava o percurso numa boa caminhada, almoçava, e à tarde assistia algum jogo de futebol ou filme na TV; à noite jantava, via mais alguma coisa na TV e depois ia dormir, já se preparando para o retorno à rotina dos dias de trabalho.

Hércules nunca soube como encontrar uma companheira para a sua vida. Uma vez um amigo tentou bancar o cupido para ajudá-lo, e lhe apresentou uma moça bem interessante; mas estragou tudo com a sua falta de jeito para levar um namoro adiante. Aos quarenta e dois anos, vivia só.

Mesmo assim, antes de deitar-se Hércules rezava as suas orações da noite, agradecia sinceramente e sempre ficava emocionado, só em pensar como era feliz.

Naquela tarde de sexta-feira estava com a sua atenção focada em como o verde das árvores e plantas que circundavam e preenchiam a praça era mesmo relaxante, confirmando o que um dia lera em algum lugar, há muito tempo. Tentou lembrar onde vira isso, para distrair-se mais um pouco enquanto esperava a hora do ônibus. “Talvez em algum exemplar do Almanaque do Biotônico Fontoura que a vovó ganhava do farmacêutico”, pensou e riu-se, mas não se lembrava ao certo.

Em certo momento, as suas divagações foram interrompidas pelo movimento de um estranho que se sentou no banco ao seu lado e logo puxou conversa. Muito falador, apresentou-se com o nome de Apolo, acrescentando que, tal como o deus grego de quem era homônimo, tinha muito apreço pela música e pelas artes em geral. Hércules o examinou discretamente, viu que era bem-apessoado, não despertava desconfiança, e teve a impressão de que já o tinha visto antes.

Surpreso pela súbita e animada abordagem, manteve-se educadamente quieto, apenas ouvindo o estranho. A cada tanto respondia com um econômico “sei, sei...”, ou um compreensivo “hum, hum...”. Aos poucos, porém, foi se interessando pela animada conversa do confiado Apolo, e passou a interagir com alguns rápidos e moderados comentários.

Lá pelas tantas, depois de muita fala e vendo que conseguira a atenção e a confiança de Hércules, Apolo resolveu abrir o jogo. Disse que tinha uma galeria de arte próxima à praça e que, de lá, o estava observando já havia alguns dias. Pôde perceber como ele era metódico e discreto, apresentável no vestir e tinha muito bons modos, o que havia acabado de confirmar naqueles minutos de conversa. Enfim, disse que Hércules lhe parecia ter as virtudes de que precisava em um agente para o seu serviço, e que já havia pedido as suas referências onde ele trabalhava, que era justamente o escritório responsável pela contabilidade de sua Galeria de Arte.

— Em verdade, o Contador Aquiles, seu patrão, me disse que te conhece bem e duvidou muito que você  aceitasse a proposta que vou te fazer, mas também disse que te libera, por férias de até um mês, se você aceitar. E como é meu amigo de longa data, até por mais uns dias, se for preciso. Mas acho que é porque ele não acreditou que você aceitará – concluiu, desafiador.

Após revelar esses detalhes, esclareceu, enfim, a proposta. Apolo precisava de alguém para um empreendimento que teria que se iniciar numa viagem internacional dentro de um mês, percorrendo alguns países por duas ou três semanas, começando pela Grécia, para comprar quadros de alguns pintores que começavam a se destacar e que seriam expostos em sua Galeria.

— Você viverá uma verdadeira odisseia. Serão doze trabalhos, ninguém melhor do que alguém chamado Hércules para realizá-los. Mas não será nenhum bicho de sete cabeças.

O projeto todo já estava pronto, com todas as indicações necessárias para encontrar essas pessoas, identificar as obras já escolhidas, e ele ensinaria a Hércules a melhor forma de fazer a negociação em alguns dias de treinamento após o expediente. A dificuldade maior seria o idioma, mas iria com as cartas prontas e utilizaria, quando precisasse, programas da internet que fazem traduções instantâneas, viabilizando a comunicação. E a recompensa financeira seria muito boa.

Ao ouvir a proposta, a primeira coisa que passou pela cabeça de Hércules foi “vou perder a sequência da novela”; mas o seu espírito de aventura, há tanto tempo hibernando, voltou com toda a força e deu um verdadeiro rugido nas orelhas de sua vontade, despertando-a daquela letargia que a dominava. Vítima passiva desse processo que ocorria em sua mente, Hércules reagiu de forma inesperada, até para ele mesmo.

— Aceito! – Disse, quase sem pensar.

O ânimo, a expressão, a atitude de Hércules, mudaram de imediato. Já queria saber e foi perguntando como seria tudo, para onde iria, quais as suas garantias, quanto receberia, e tudo mais que lhe veio à cabeça.

Que praça, que ônibus, que nada! A sorte, finalmente, lhe sorria, caiu do céu, um maravilhoso presente. Férias prolongadas e emprego garantido pelo patrão, viagens pagas e ainda uma boa “graninha” extra. Agora viajaria de avião, conheceria gente diferente, situações novas; seria uma oportunidade de quebrar completamente as suas rotinas por um tempo, experimentar uma mudança radical em sua vida. Aventura à vista!

Hércules riu-se enquanto pensava “Só espero que não seja um presente de grego, mas essa história vai pegar o calcanhar do Aquiles. O patrão não vai nem acreditar! Quando souber que aceitei, vai querer me comer o fígado. Também, quem mandou querer agradar a gregos e troianos”?

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Hércules e suas decisões - Hélio Salema

 


 

Hércules e suas decisões

Hélio Salema

  

Após uma discussão com a esposa, Hércules sai de casa aborrecido, muito triste. Não tem a menor ideia de como resolver o problema financeiro. Ela diz que é culpa dele, ele reclama que ela não economiza.

Caminhava na praça à procura de um lugar afastado, uma sombra com uma paisagem agradável para poder sentar e meditar sem perturbação. Ao se aproximar do banco escolhido é abordado por um senhor estranho, que pede licença e se apresenta como um mensageiro de uma boa oportunidade para ele ganhar uma grande quantia.

Desconfiado, se afasta sem dar atenção, mas o desconhecido o segue e lhe mostra um envelope contendo muitas notas de valor máximo. Hércules para, examina o rosto do estranho, olha para o envelope e fixa atentamente nos olhos do homem., que lhe parecem confiáveis. Ameaça pegar o envelope e pensa como seria bom se pudesse agarrá-lo e sair correndo. Balança a cabeça, sai andando. O homem o segue dando lhe mais detalhes:

— São apenas quinze dias.

Hércules senta no banco mais próximo. O insistente também. Continua demonstrando as vantagens. Finalmente Hércules se rende aos argumentos. Pega o envelope lê as primeiras instruções e segue para uma aventura nunca antes imaginada por uma pessoa como ele. Sempre muito criterioso e cauteloso em suas ações.

Entra num carro que já estava ali perto aguardando. O motorista muito educado o cumprimenta e avisa que será uma viagem muito agradável. Pela internet ele recebe a rota que deverá seguir, o tempo estimado e onde deverá fazer as paradas.

Poucas horas depois o motorista fala sobre a expectativa de concluir a viagem, voltar para casa e curtir a família que não vê há mais de um mês. Isso quando Hércules se concentrava na aventura da viagem e o fez lembrar da família. Um princípio de arrependimento bateu em seu coração. Mas o motorista também mencionou alguns bons momentos que desfrutou nas viagens durante esse período.

Ao chegar na primeira cidade, Hércules se espantou, era muito maior e mais bonita do que ele imaginava. No hotel se despede do companheiro de viagem, e entra. Ao se apresentar recebe as chaves número 13. Ao entrar no quarto fica admirado pela aparência e vários objetos sobre a mesa. Mala, caixa com muito dinheiro, roupas para experimentar. Mais tarde receberá instruções dos próximos passos.

À noite vai até uma determinada igreja para assistir ao culto. Em poucos minutos estava conversando com várias pessoas como se fossem amigos há muito tempo. Muito atencioso com as senhoras logo chamou a atenção de uma delas. Concentrado na tarefa de fazer muitas amizades não deu muita importância ao fato.

No dia seguinte foi visitar um orfanato de meninas. Conversou com as funcionárias longamente e ficou sabendo como funcionava. O contato com as crianças foi muito agradável para todos.

À noite foi para o aeroporto e embarcou para uma longa viagem. No dia seguinte novamente templos e casas de abrigados. Assim foram os próximos dias. Visitando e anotando tudo detalhadamente. A noite fazia e enviava o relatório.

Numa manhã ao passar por uma banca de jornais vê pessoas comentando sobre a notícia de que o prêmio da Mega Sena saiu para uma pequena cidade. Trinta milhões. O valor o assustou, mas não tomou sua atenção.

Fez a tarefa, já rotineira, com a sensação de que a cada dia a executava com mais habilidade. Assim ia percebendo o seu progresso, aumentando sua satisfação.

À noite ligou para a tv para saber das notícias, enquanto se preparava para fazer o relatório do dia. No momento em que começava a reportagem, sobre o prêmio da Mega, algo prendeu sua atenção. A rua e a casa onde morava a dona que supostamente, teria sido a ganhadora. A casa estava fechada e a repórter dizia que a dona, provavelmente, teria saído da cidade.

Hércules ficou completamente atordoado. Aquilo não podia ser real. De jeito algum. Logo depois dele ter se ausentado? Provavelmente, por causa de sua ausência, para não ficar só, teria resolvido ir para a casa da única irmã. Sem dúvidas. Procurou se concentrar no relatório, mas a cada momento ficava mais difícil. Depois de ter concluído a tarefa foi dormir.

Assim que deitou toda a reportagem lhe veio à memória, a rua, a casa, não havia dúvidas. Uma lembrança e uma certeza. Sua mulher de vez em quando apostava em jogos na loteria.

Noite longa, pensamentos diversos, corpo cansado sem dormir e o dia começando a clarear. Num pulo só, foi ao banheiro tomar banho e tomar uma decisão. Pegar avião com destino a sua cidade. Casado com a ganhadora sua parte seria de quinze milhões. Nem que tivesse que ir à justiça.

Assim que o avião aterrissou pegou um táxi até a rodoviária. Comprou passagem, o ônibus para sua cidade sairia em 15 minutos, que sorte. Uma viagem muito diferente daquelas que tinha feito nos últimos dias. Porém uma semelhança, não sabia o que o destino lhe reservava.

Quando o ônibus se aproximava da cidade percebeu que começava a escurecer. Poderia chegar em casa sem chamar atenção dos curiosos. Assim aconteceu. A casa estava fechada, como já havia previsto. Foi pelos fundos e constatou que estava totalmente às escuras. Sabia que a porta da cozinha não era muito resistente. Foi ao armário de ferramentas e encontrou o que precisava. Com muito cuidado para não fazer barulho, foi forçando lentamente, até que conseguiu abrir.

Usando apenas a lanterna do celular, quando necessário, para não chamar atenção dos vizinhos. Vistoriou toda a casa e constatou que sua esposa saiu levando poucas roupas. Mas não esqueceu de levar os documentos. Encontrou os seus e os separou. Na cozinha encontrou biscoitos e material suficiente para fazer café.

Ficou meditando no sofá onde ela poderia ter ido. A melhor hipótese seria que foi para casa de sua irmã que morava numa fazenda em outra cidade. Lugar afastado e de difícil acesso.

Antes de clarear o dia, saiu em direção à rodoviária. Conseguiu pegar o ônibus em direção à cidade de sua cunhada. Lá chegando tomou um táxi e foi até a fazenda. Não houve surpresa. Lá estava sua esposa. Que também não se surpreendeu, sabendo que ela era a ganhadora, um dia, certamente ele apareceria.

Ficaram os dois casais conversando por muito tempo, sobre coisas banais, evitando assuntos importantes. Quando ficaram a sós ele não se conteve:

— Vamos para nossa casa?

— Lógico que não. Você sumiu, não deu notícias. Não quero mais voltar pra lá.

— Vai morar onde?

— Não decidimos!

Ele pergunta em voz alta.

— Como não decidimos?

A cunhada e o marido chegam:

— Nós decidimos. Só estamos esperando passar mais alguns dias. Vamos para um lugar distante, onde ninguém possa nos encontrar. Nem você!

Um silêncio caiu como um raio sem trovões. Hércules percebeu a situação. Depois de muito pensar, olhando para a esposa arriscou:

— Eu tenho direito a metade.

A resposta veio como uma flecha espetando-lhe o peito com um bilhete de aviso:

— Não se atreva! Você sabe que posso acabar com sua vida sem dificuldades.

Sua esposa completa:

— Pode ficar com a casa.

Sem pensar, rapidamente levanta e sai em direção ao táxi que lhe aguardava.

Direto para a rodoviária. Assim que se aproxima do guichê alguém com uma voz bastante suave:

— Tenho uma proposta para o senhor ganhar muito dinheiro.

Em seguida lhe mostra o envelope. Hércules olha atentamente para o envelope que não lhe é estranho. Pega o, e com uma voz forte e decidida:

— Fui…


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O RIO WHARFE - Henrique Schnaider

 




O RIO WHARFE

Henrique Schnaider

 

O Sr. Green nasceu numa casinha senhorial em estilo Tudor às margens do rio Wharfe, perto da Abadia de Bolton. Foi uma criança muito bem-educada já que se tornou filho único, pois o irmão morreu provavelmente afogado nas profundezas das águas do rio. Teve a dedicação total dos pais depois do infausto acontecimento.

Sua mãe ficou tão deprimida com a morte do filho, acabou doando as terras que atravessam o rio, para a construção do mosteiro de Bolton Priory. Dentre as lendas que dominam os moradores ribeirinhos, está história trágica da morte do irmão do Sr. Green, que foi imortalizada por William Wordsworth “A Força da Oração”.

Existem lendas que levam ao fantástico e a pura fantasia que é o caso, pois os moradores dizem se a pessoa puder respirar debaixo d’agua e nadar em direção ao fundo, chegará ao outro lado do mundo. Infelizmente não se sabe se alguém tentou e nem se voltou para contar tal façanha.

Também aprendeu com seu pai a lidar com este rio tão misterioso quanto cruel. As histórias fantásticas que viu e vivenciou, onde o rio é sempre o protagonista. Nunca se aproximava do monstro das águas sem a companhia do pai, conhecedor profundo de tudo que rodeava o rio.

Existem trechos do rio com suas margens tão próximas que muitas pessoas imprudentes no passado foram tentadas a saltar de sobre as pedras ou atravessar sua água, acreditando que ela só chegaria aos joelhos. Acabaram mortas e seus corpos nunca foram encontrados. Green não só sabia destes perigos, como presenciou muitas mortes de pessoas descuidadas. O pior é que cada vez mais o rio atrai pessoas curiosas.

Há placas de avisos por todos os lados para que ninguém se arrisque tentando nadar ou mergulhar. Mas, sempre existem os teimosos e valentões e as mortes continuam acontecendo e as explicações continuam sem nexo. Pois não há pistas daqueles que somem. Se você mergulhar ali nem adianta a família encomendar o caixão pois não vão ter quem enterrar.

Para complicar as coisas tem um trecho do rio Wharfe que desce a montanha em meio de uma floresta com águas serenas e tranquilas, mas é uma verdadeira armadilha da natureza.

O senhor Green pretende escrever um livro sobre tudo que viu e ouviu à beira deste rio misterioso, e a primeira história que vai abrir o livro é do lenhador Oliver. Homem corajoso forte, um touro musculoso que derrubava com poucas machadadas tão profundas que eram, uma árvore de tronco bem grosso, mas que vinha abaixo não resistindo à força bruta.

Dizem as lendas que Oliver se apaixonou por uma bela mulher misteriosa, que aparecia sempre que ele adentrava à floresta e se aproximava dele. A sua beleza deslumbrava o lenhador. O perfume que envolvia todo o ambiente era algo que o homem de origem simples nunca havia sentido.

Esta mulher de nome Laura dizia que habitava a floresta e se encantou com seu corpo másculo e sua alma pura, já que ela tinha poderes para ver coisas além deste mundo. Oliver apaixonou-se por Laura loucamente e ela se deixou envolver. O amor nasceu entre as duas criaturas.

Oliver começou a ficar cada vez mais na companhia de Laura e até parou de derrubar árvores, pois achou que não precisaria mais de lenha para esquentar sua cabana. Então sua amada o convidou para morar no seu reino que ficava do outro lado do rio. Mas para isso ele precisaria atravessá-lo nadando.

Oliver se assustou ao saber que teria que enfrentar o rio traiçoeiro, mas seu amor por Laura foi mais forte do que qualquer temor, e vendo que ela já o esperava do outro lado do rio, mergulhou com toda coragem e começou a nadar em direção da felicidade.

Porém, como esta história vinha sendo contada desde os tempos muito antigos e sendo passada de pai para filho, alguns davam um final feliz para Oliver e Laura. Mas outros moradores contavam de outra maneira e diziam que o rio furioso venceu o corajoso lenhador que morreu afogado. Green resolveu que esta primeira história do seu livro não teria um desfecho.

Cada um que decida como esta história deve terminar. Mas outras histórias virão pois Green sabe um bocado delas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

APOSENTADO SEM ÂNGELA, COM ÂNGELA SEMPRE - Leon Vagliengo





APOSENTADO SEM ÂNGELA, COM ÂNGELA SEMPRE

 

Um conto que conta como e por que ele mesmo foi contado noutro conto.

Também, um conto do amor que ignora as fronteiras da morte.

 

Leon Vagliengo

 

Gustavo sempre foi um executivo de sucesso, graças a seu preparo e competência. Em sua brilhante carreira, desde muito cedo galgou cargos de chefia. Lider inconteste e sempre querido por seus funcionários, após mais de quarenta anos de bons serviços acostumara-se às vitórias, nunca havia sentido a decepção de um fracasso.

As fortes reprimendas que recebera de seu pai, quando não tirava notas altas na escola, ou quando cometia algum erro, foram muito úteis para o seu aprendizado e formação, mas deixaram marcas profundas em sua personalidade. Não suportava errar ou perder.

A aposentadoria lhe trouxe a oportunidade de realizar alguns sonhos, que antes ficavam fora de seu alcance por falta de tempo. Viúvo havia já três anos, sentia muita falta de sua Ângela, com quem desfrutara uma feliz cumplicidade por quase meio século.

Para fugir das recordações que tanto o machucavam e, também, para tornar mais cômoda a sua vida, agora ainda mais solitária, mudou-se para um pequeno apartamento, que mobiliou com muito cuidado para que lhe fosse confortável e de fácil manutenção, próximo ao parque da cidade, onde poderia encontrar distrações, fazer exercícios e, quem sabe, novos amigos.

        Enquanto ainda trabalhava, depois da viuvez, procurava alguma distração no lazer dos fins-de semana ou das férias, que sempre se restringia a distrações convencionais e momentosas por essência, como cinema, TV, espetáculos esportivos, almoços ou jantares em bons restaurantes, eventualmente alguma curta viagem; porém, nada que envolvesse compromisso ou continuidade. E sozinho, tudo ficava muito sem graça. Mas não era mais tempo para encontrar uma nova companheira, e nem queria. Ele e Ângela não tiveram filhos, e o seu coração ainda era todo para ela, que estava sempre presente em seu pensamento.

        Agora, com a aposentadoria, teria que escolher alguma atividade a que pudesse dedicar-se de verdade, em que pudesse colocar um pouco de si mesmo, liberar suas ideias, seu espírito; enfim, buscar alguma ocupação que lhe proporcionasse algum prazer pessoal para preencher o vazio que Ângela deixara. Esta nova condição de aposentado se afigurava para Gustavo um pouco assustadora, pela solidão que já pressentia. Tinha que encontrar o que fazer, como preencher o seu tempo. Com esse propósito, meticulosamente foi avaliando algumas possibilidades para organizar a sua nova vida.

Pensou na prática regular de esportes, por exemplo, mas aos setenta anos já não teria o vigor necessário para isso; em verdade, logo percebeu que seria muito conveniente adotar atividades físicas moderadas, que ajudassem a preservar o seu bem-estar, e, certamente, a idade já o aconselhava a não exagerar. Assim, optou por uma caminhada diária, entremeada por alguns exercícios adequados a suas condições de saúde.

        Viajar, também, seria uma ótima alternativa, especialmente para o início da nova fase. Mas impunha limites, especialmente os financeiros, e não poderia ser realizada em caráter permanente.

Ainda faltava encontrar uma atividade que ocupasse regularmente o longo tempo disponível de que agora dispunha.

Depois de muito cogitar, Gustavo pensou na possibilidade de dedicar-se a escrever. Seria uma maneira de ocupar o seu tempo e uma forma direta de exercer a sua criatividade, expor o seu pensamento, as suas emoções, os seus sentimentos. Um campo vasto, inesgotável, a ser explorado. Encantou-se com a ideia. “Quem sabe, um dia ainda escrevo as minhas memórias, escrevo sobre a saudade que sinto da Ângela, ou até um belo poema para ela”.

        Gustavo nunca havia antes se dedicado a escrever contos, histórias ou memórias, não tinha essa prática. No trabalho que deixara, até escrevia; dominava razoavelmente bem a gramática em suas concordâncias, na coerência de sua sintaxe, na lógica de suas frases e tudo mais, mas eram textos frios, correspondência comercial.

Imaginando que seria fácil a adaptação para a ficção, de início tentou. Tinha boas ideias, mas sentiu a dificuldade quando procurava colocá-las num texto: em suma, demorava muito para conseguir organizá-las numa sequência lógica e no final ficavam sem graça. Analisando os seus escritos, logo percebeu que neles faltava a emoção, faltavam os sentimentos. Eram, praticamente, descrições frias e pouco interessantes, como as cartas comerciais que escrevia quando trabalhava. Não produzia nada parecido com as peças que lia de bons autores. Nem de longe, como se diz. Mas não poderia desistir, isso era muito importante para ele. Precisaria de ajuda.

Após algumas pesquisas, encontrou um grupo que se reunia semanalmente para aulas de orientação sobre escrita literária. “É disso mesmo que eu preciso. Ângela me apoiaria, com certeza”, pensou emocionado.

Fez a inscrição.

Assim, Gustavo passou a frequentar aulas de escrita literária, em busca de noções e dicas que lhe proporcionassem o conhecimento básico para tentar realizar-se como escritor.

Não imaginava, porém, como seria desafiador. Constatou, na prática, que, a cada aula, após algumas boas dicas e orientações, a Professora dava um tema ao aluno e, como exercício de aula, a tarefa de encontrar uma história sobre esse tema em algum lugar do seu cérebro para escrevê-la em cerca de meia hora e apresentá-la, em leitura, à Professora e aos colegas. Esse era o método, que se completava com os contos escritos em casa para a avaliação, crítica e correção pela Professora.

O problema todo, para Gustavo, eram esses exercícios rápidos, em que se expunha no momento da leitura. Aula após aula, a muito custo, Gustavo rabiscava algumas palavras, mas nada que parecesse uma história, por simples que fosse, pelo menos em sua própria e exigente concepção. Ouvia as histórias escritas por seus colegas, algumas muito boas, considerando a exiguidade do tempo em que eram concebidas. Via que os outros conseguiam, ele não. Estava acostumado a vitórias sempre, mas agora sentia-se derrotado. E isso não cabia em sua personalidade.

Essa situação foi deixando Gustavo cada vez mais tenso. Sempre fora um vencedor, agora sentia-se um fracassado. Mesmo com o incentivo da Professora, que tentava tranquilizá-lo dizendo que aos poucos ele conseguiria, que seria só uma questão de dedicação e treino, não adiantava. Intimamente, já estava se considerando um fiasco em sua aspiração a escritor.

E a tensão só foi crescendo, dificultando ainda mais o seu desempenho. Até que, após uma das aulas em que não conseguiu fazer o exercício, chegou ao seu limite: “Que vergonha, todos estão percebendo que eu não consigo. Ângela ficaria decepcionada comigo, se soubesse os vexames que tenho passado”. Em verdade, vexames que só estavam em sua cabeça, mas esse pensamento mexeu profundamente com ele, dormiu muito mal naquela noite.

Em pesadelo, viu-se no palco de um auditório, havia acabado de ler a história que escreveu no exercício de aula. Com insuportável constrangimento via que os seus colegas, alguns de amizades tão antigas, e até a Professora, riam muito, riam sem parar, zombavam dele, porque a sua história era ridícula. Na porta desse auditório surgiram, então, várias pessoas que também riam e faziam coro com aquela monstruosa zombaria. Eram os Deputados... os Deputados!? Sim, os Deputados! Ele, a Professora, seus colegas e essas pessoas estavam todos no prédio da Assembleia Legislativa! Que vergonha!

De repente, fez-se um silêncio sepulcral. Todos se calaram apavorados quando apareceu aquele vulto etéreo, deslizando suavemente no ar. Era a sua Ângela, vestida toda de branco e chorando muito, um choro convulsivo, entrecortado por gemidos que pareciam vir do Além, porque ele, o seu amor eterno, estava sendo humilhado. Nesse momento Gustavo acordou assustado, agitado, com o coração batendo muito e forte, chorando pela vergonha que passara no sonho.

Aos poucos foi se acalmando, retomou vagamente a percepção de que estava em seu quarto, e viu que Ângela não estava lá, tivera um sonho ruim em que ela veio protegê-lo; mas “... será que ela não estava mesmo?...parecia tão real...” pensou, ainda em dúvida.

 Mais acordado, Gustavo levantou-se, foi ao banheiro, lavou o rosto; foi até a cozinha, bebeu um copo de água, acalmou-se de vez; então, já inteiramente consciente, reconheceu o estresse que as aulas provocavam nele, devido ao desafio do exercício. Não era do seu feitio, mas já havia alguns dias que estava pensando em desistir, não estava aguentando mais aquela tensão. Tentava não pensar nisso porque significaria o encerramento de seu sonho de escrever. Mas sofria. Sentia-se em divergência consigo mesmo perante a luta renhida travada entre o razoável, que eram as suas dificuldades como aluno iniciante, e as despóticas exigências de sua personalidade, que não tolerava insucessos. Precisava reagir.

Não era à toa que Gustavo conquistara o prestígio de vencedor. A sua tenacidade, a sua perseverança, a sua garra, sempre o mantiveram em combate até a vitória. Resolveu continuar, enfrentar aquele martírio.

As aulas se sucederam, os temores se sucederam, os exercícios se sucederam, e Gustavo, até em homenagem à memória de Ângela, continuou lá, na luta, mesmo com aquele sofrimento crescente devido a sua sensação de insegurança e incompetência. Em verdade, a batalha não terminara. Cada exercício feito era um grande tormento, mas também era um treino. Um dia esse esforço ainda lhe traria frutos.

Naquela tarde, uma nova aula. Desde algumas horas antes, a tensão já tomava conta de Gustavo. Era uma inquietação incômoda e persistente, um misto de temor, ansiedade e angústia, que ele buscava disfarçar, não poderia revelar. Sentia que não seria compreendido, achava que aquele sentimento era apenas seu, devido ao seu modo de ser.

A aula transcorreu normalmente, como sempre. E quando veio o exercício, inesperadamente veio também uma inspiração. Gustavo resolveu escrever sobre um aluno de escrita literária que tinha um temor crescente pelos exercícios de aula, porque não conseguia fazê-los e ficava, a cada insucesso, com mais vergonha da Professora e dos colegas. Contou tudo, até o pesadelo. Era ele mesmo, era a sua história. Como a conhecia bem e sabia toda a sua sequência, desta vez não foi tão difícil escrevê-la, o que fez rapidamente, no prazo estipulado.

Depois de ler o seu trabalho para a Professora e seus colegas, descobriu, pelos comentários solidários que ouviu, que ele não era o único a temer os exercícios de aula; eles também os temiam e sentiam-se inseguros, a sua história criou uma oportunidade para a revelação.  E a boa receptividade que os seus companheiros tiveram ao escutá-la, foi, para ele, o incentivo definitivo.

No sorriso divertido e carinhoso da Professora, finalmente o atestado de uma vitória.

Gustavo, tal como um menino, sentiu-se aliviado, entusiasmou-se com esse primeiro sucesso, renovou a sua autoconfiança e não teve mais dúvidas em continuar. “Ainda serei, sim, um escritor. Lá no Céu, Ângela, certamente, ficará orgulhosa de mim, como sempre”, pensou, feliz e sonhador.

Ninguém entendeu quando o ouviram dizer, sorrindo, desligado de tudo e absorto em seus pensamentos, sem nem perceber que estava falando sozinho:

Imagine, então, quando eu fizer um poema para ela!

 



Assalto ao Metrô - Adelaide Dittmers

 


Assalto ao Metrô

Adelaide Dittmers

 

As pessoas com ar cansado lotavam a plataforma da estação do metrô.  Depois de um exaustivo dia de trabalho não viam a hora de chegar em casa.    

Na boca do túnel subterrâneo, a luzinha do trem apareceu e todos aglomeraram-se em diversos pontos para conseguirem entrar e talvez arrumar um lugar para sentar.

Quando o metrô parou e as portas automáticas abriram-se  foi aquele avanço.  A gentileza e a educação jogada no lixo.  Os vagões ficaram cheios.  O trem saiu da estação na disparada costumeira e entrou pelo escuro túnel.  Alguns passageiros de pé, deitavam a cabeça sobre os ombros, outros empunhavam com uma das mãos os celulares.  O balanço do trem desequilibrava alguns mais desprevenidos.

De repente, um homem gritou:

— Isto é um assalto.  Joguem os celulares e carteiras no chão e nem pensem em se mexer.  Qualquer movimento, atiramos.

Muito assustados, deixaram cair os celulares e as carteiras no chão.  Ao procurar de onde vinha a voz, depararam-se com cinco homens com armas apontadas para eles.  Um estava em uma extremidade do vagão, dois no meio deles e outros dois na outra extremidade.

O medo tomou conta de todos. Ficaram tão imóveis, que nem pareciam respirar.  As faces empalideceram e os  olhos cheios de terror.   Uma mulher, com uma criança no colo, apertou-a contra o peito.

O homem gritou novamente:

— Quando o trem parar na próxima estação.  Fiquem bem quietos.  Ninguém sai.

Dois dos assaltantes começaram a recolher os objetos do chão e colocá-los em grandes sacolas de plástico. 

A composição chegou à estação e como o vagão estava lotado, só um homem forçou a entrada e logo foi rendido. Seguindo caminho, o trem pegou sua velocidade normal.

Rapidamente, os assaltantes colocaram o resto dos objetos roubados nas sacolas.

Os passageiros pareciam congelados pelo pavor. Apenas olhavam uns para os outros, como se procurassem, em silêncio, apoio mútuo.

Na estação seguinte, os ladrões desceram e caminharam calmamente para não despertar suspeitas.

Um homem então gritou:

— Não entreguei meu celular.  Disfarcei e coloquei ele dentro da calça, caso eles revistassem meus bolsos.  Estou ligando para a polícia, informando a estação em que desceram.  Esses bandidos vão pagar!

As pessoas começaram a falar todas ao mesmo tempo.  A revolta explodiu pelo vagão. Uma mulher chorava: o salário de doméstica estava na carteira.  A criança percebeu a tensão e também começou a chorar alto. A confusão se espalhou por todo o lado.  O homem do celular então gritou:

— Calma pessoal! Vamos descer na próxima estação, vamos ficar juntos.  Vou avisar a polícia onde estamos!

Enquanto isso, os assaltantes subiam pelas escadas rolantes da grande estação, que tinha três andares.  A satisfação pelo sucesso do roubo brilhava em seus olhares.  Estavam tranqüilos.  Ao chegar ao andar, que os conduziria à saída, tiveram que percorrer um corredor comprido, com várias lojinhas ao redor.  Um deles parou para comprar cigarros.  Devagar seguiram seu caminho, conversando com naturalidade.

No entanto, quando chegaram próximos a escadaria que dava para fora foram surpreendidos por um grande número de policiais, que olhavam atentamente para a multidão que se encaminhava para a saída.  Um deles viu as grandes sacolas e chamou a atenção dos outros.

 Os ladrões perceberam o movimento e sentindo o perigo correram na direção oposta. Os policiais correram atrás deles. Uma grande e perigosa caçada começou.  As pessoas, ao ver isso, encolhiam-se pelo corredor. 

Um dos assaltantes olhou para trás e atirou.  Os policiais reagiram e um perigoso tiroteio ecoou pelo lugar.  As pessoas refugiaram-se nas pequenas lojas e os policiais gritaram para elas:

— Abaixem, um policial gritou,

Aturdidas e confusas, encolhiam-se, não acreditando no que estava acontecendo.

Um dos bandidos foi atingido e caiu morto.  Um policial foi ferido.

A polícia desceu pelas escadas, numa corrida desabalada e conseguiu cercar os quatro homens.  Um dos policiais saltou por cima da mureta e caiu de pé na escada rolante, alcançando-os por trás.   Encostou o revólver nas costas de um dos ladrões.

— Levantem as mãos e larguem as armas!  Ordenou.

Os homens muito nervosos obedeceram.

Ao pé da escada, os outros policiais estavam esperando. 

— Mãos na cabeça.  Gritaram e os agarraram.

Muita gente curiosa parou para ver a rendição dos bandidos.  Os guardas, porém, os dispersavam, mandando seguirem seus caminhos.

Os criminosos, então, foram levados para a delegacia.  Lá foram revistados, interrogados e depois de várias verificações, o delegado chocado descobriu que dois deles faziam parte da corporação.

Honesto e sério, sempre ficava furioso ao se deparar com esse lado podre da polícia.  Não se conformava de que homens que tinham o dever de proteger os cidadãos, passassem para o lado do crime.

Cansado pela longa jornada, levantou-se, vestiu o casaco e foi para casa.  Mais um dia tempestuoso vencido, pensou.  Como seria o dia seguinte.  A grande cidade era imprevisível e desafiadora.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS - PRAZO 10 DE NOVEMBRO DE 21




A MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS 

Convocação geral para os alunos desta oficina


 Desafio: criar um romance curtinho, uma escrita mais longa que o tradicional conto, com mais vertentes, com mais conflitos.

Você tem apenas 30 dias.

O prazo: 10 de Novembro de 21.

Prepare seu texto, estruture sua história

Investigue, pesquise, namore sua história, e só envie no dia 10.


OBS.:

O tema, não há nenhuma exigência.

O tamanho do texto, não há nenhuma exigência


Todas as histórias que chegarem no e-mail e-mail abaixo na data do dia 10 de novembro, serão considerados válidos para o "concurso" de MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS. Todas serão lidas, analisadas e comentadas:

E-mail para envio: contosdoical@gmail.com


A melhor história será premiada.


CAPRICHE PARA QUE SEJA A SUA.

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...