A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

domingo, 17 de janeiro de 2021

RAIVA ARDE E NÃO ACABA BEM - Claudionor Dias da Costa

 

                                                 


RAIVA ARDE E NÃO ACABA BEM

Claudionor Dias da Costa            

                  

                    Sentado na varanda de casa naquela tarde quente e tranquila de verão, tomando gostosa cerveja gelada e olhando nuvens de formatos curiosos, as imagens de minha alegre infância vinham à mente aos borbotões. Fiquei matutando com a cara risonha do Zé Pudim, folclórico amigo de infância. Como era bom aquele menino tímido e, por ser um tanto quanto rechonchudo surgiu o apelido, pois quando corria balançava a barriga e era motivo de risadas da turma endiabrada de moleques daqueles bons tempos.

                     A nostalgia me faz cismar sobre a personalidade daquele amigo que sempre procurava ajudar e agradar e não fazia conta do apelido e das gozações. Ele participava de todas as brincadeiras e até no futebol não era tão mau jogador e, quando disputávamos partidas contra a turma da rua de cima aparentava ser forte e nossos adversários até o respeitavam.

                    Ele foi criado por sua tia Lilica, que por sua vez tinha três filhos e uma filha, tendo sido abandonada por seu marido, assumindo a responsabilidade de criar todos. Era uma mulher de fibra, trabalhadora e muito amorosa e conseguia manter a disciplina deles.

                     Assim, aquele garoto tinha a simpatia de nosso grupo e dos vizinhos adultos pela sua educação, amabilidade e sorriso franco. Enfim, o que se denomina “um boa praça”.

                     A seguir, conto o que aconteceu conosco e principalmente com o Zé Pudim.

                   Nesses pensamentos surgiu a aventura vivida por nossa turma num dia em que combinamos de provocar os cães do rabugento velho Menelau Ortega. Nós o apelidamos de Menelau “Urtiga”, aquela planta que arde demais quando tocada, devido ao seu temperamento. Muito raivoso, mal-educado, conservava sempre um olhar ameaçador. Este homem não se dava bem com nenhum vizinho e não tolerava proximidade dos outros. Casado com Dona. Hermengarda, que para variar, apelidamos de “Espingarda”. Formavam um casal perfeito, voltados para tudo que era ruim na nossa avaliação infantil e que se pudéssemos os expulsaríamos do mundo.

                    A antipatia daquele casal era um prato cheio para que em nossas maquinações do que aprontar, tivessem um sentido de vingança que nos dava mais satisfação por aumentarmos aquele rancor naquela pessoa ignorante.

                    Assim, à noite como era nosso costume fomos à rua brincar.

                    Com nosso plano perfeito, sorrateiramente nos dirigimos à casa do velho Urtiga. Nossos corações batiam mais aceleradamente e ficávamos empurrando uns aos outros para ver quem ia na frente. Sobrou para o Zé Pudim.

                     A casa antiga estava situada num terreno bem grande, possuía uma lateral de cada lado que ia ao fundo do quintal. Já sabíamos que do lado esquerdo, poderíamos ter acesso porque possuía um portão gradeado de ferro e os cães não teriam acesso. O muro de entrada na rua era baixo.

                    Desta forma, pulamos facilmente e caminhamos pela lateral até os fundos.

De repente, os cães nos viram e vieram correndo até o gradil latindo muito e rosnando com agressividade. É o que queríamos para provocar.

Aquele ruido agudo fez com que o velho Urtiga olhasse pela janela de cima do sobrado. Se deu conta do que acontecia, urrou como uma fera e principiou a descer ameaçadoramente. Disparamos desabaladamente, saímos à rua e quando olhamos para trás vimos o Urtiga com uma espingarda na mão, soltando muitos palavrões. O medo tomou conta da turma e tratamos de nos safar. O Zé Pudim, coitado ficou para trás e bem mais próximo do perigo. Só escutamos um tiro e vimos nosso amigo cair ao chão, gritando muito. Até paramos e pudemos ver o velho ir embora apressadamente, talvez por medo das consequências.

Nesse momento, o Sr. Álvaro, nosso vizinho se aproximou e fomos todos ver o que havia acontecido com o Zé Pudim. Ele chorava muito e o Sr. Álvaro examinou e viu que ele havia recebido um tiro nas nádegas. Para alívio nosso ele exclamou:

                        — Deve estar doendo muito, mas, foi um tiro de sal. Este era um procedimento usado para espantar intrusos.

                           Zé Pudim foi levado ao médico e tratado voltou para casa.

                           Nos dias que se passaram fomos visitar nosso amigo que nos contou a sensação de dor, precisava dormir de bruços e o bom tratamento que recebia da mãe.

                           Os protestos de todos contra o velho Urtiga foi se tornando intenso por esse fato e outros. Tanta pressão redundou na mudança dele para outra cidade. Trabalhou de meeiro numa fazenda e se meteu em brigas e confusões. Até que soubemos que foi morto numa dessas ocasiões devido ter agredido um outro agricultor.

                           Quanto ao Zé Pudim, teve que aguentar as gozações da turma que passaram a chamá-lo de “Bundão carimbado”. Até ele achava engraçado

                           Éramos felizes e esse personagem de nossa infância bondoso e amigo de todos surpreendeu mais ainda por ter se transformado num grande médico cirurgião.

AMADO, O JACARÉ PROTAGONISTA Versinhos infantis - Leon Vagliengo

 



AMADO, O JACARÉ PROTAGONISTA

Versinhos infantis

Leon Vagliengo

____________________________________________


Olá, meu amiguinho!

Permita que eu me apresente:

Eu sou um jacarezinho,

Mas sou muito diferente.

Não moro numa lagoa,

Nem mesmo moro num rio.

Não fico dormindo à toa,

Pode dizer quem me viu.

Mas onde será que eu moro?

Você vai me perguntar.

Tua paciência eu imploro

Para poder te explicar.

Eu moro nos livros de história,

Trabalho aqui como ator.

Você me terá na memória

Se eu despertar teu amor.

Um jacaré personagem

Parece um pouco esquisito.

Mas te oferece a viagem

A um mundo muito bonito.

Nesse mundo existe ilusão,

E há também muita alegria,

Que aquecem a imaginação

E alimentam a sabedoria.

 

Aqui não existe impossível.

Cada coisa que acontece!

Por mais que pareça incrível,

Você nunca se aborrece.

Onde mais você acharia

Jacaré lambendo sorvete?

Por mais que você sorria,

Saiba que tem no livrete.

Uma vez eu me enganei

E entrei na história errada.

Um esqueleto assustei

Que passava em revoada.

Ele pareceu não gostar

Dessa minha intromissão.

Nem pude me desculpar,

Parecia um avião!

Num guarda-chuva pendurado

E levado pelo vento,

Foi-se embora apressado

Sem nenhum entendimento.

Isso pode acontecer,

Mas não prejudica em nada.

A história dá mais prazer

Quando é assim contada.

 

Espero que tenha gostado

De minha apresentação.

Meu nome é Jacaré Amado,

A sua disposição.


sábado, 16 de janeiro de 2021

O confronto - Adelaide Dittmers

 



O confronto

Adelaide Dittmers

 

As vielas da grande favela estavam vazias.  Os moradores fecharam-se em seus barracos, assustados.  O medo pairava no ar.  Um tiroteio zumbia alto naquela tarde quente de verão.  Dois chefes, que controlavam o tráfico se enfrentavam.

Rato, cognome do maior traficante do local queria manter o seu poder diante de Dodó, um menino, que tinha sido seu aviãozinho e, agora, já um rapaz, desafiava-o para dominar o lugar.

Rato estava no alto de uma laje protegida por um muro de alvenaria.   Seus olhos eram frios, inquietos, atentos. Suas feições contraídas pelo ódio que sentia pelo antigo ajudante, distorciam seu rosto, transformando-o. Era um homem alto e forte.  Impiedoso, tirava com crueldade qualquer um que lhe entravasse o caminho.

De repente, outros tiros foram ouvidos.  A polícia subira o morro para acabar com o embate e tentar prender os traficantes. Dodó desviou sua atenção ao sentir que os policiais se aproximavam e, neste momento, Rato aproveitou para fuzilar o ex-companheiro.  Um sorriso de satisfação aflorou em seu rosto.   Era o chefe supremo daquele lugar.  Em seguida, rapidamente começou a fugir, saltando pelos barracos, desapareceu pelos becos da favela.

Pulou á frente de um barraco e com um pontapé abriu a frágil porta, entrando abruptamente na minúscula sala daquela casa pobre.

Uma mulher magra e três crianças soltaram um grito e assustados se agarraram uns aos outros, seus olhos estavam arregalados e tremiam de medo.  A criança menor, que devia ter perto de três anos desatou a chorar, um choro alto e descontrolado.

Rato gritou: ¨

— Faiz esse pirralho parar de berrar já, senão eu atiro.

 A mulher em desespero pegou o menino no colo com mãos trêmulas, abraçou-o fortemente e sem conseguir conter os soluços, cochichava ao seu ouvido, tentando tranqüilizá-lo.

O homem empurrou a mulher e o menino com força e segurou o pescoço da pobre criança.  As duas meninas, um pouco maiores, não se moviam, aterrorizadas.

A pobre mulher, com uma voz fraca, implorou:

— Não faiz mal a nóis!

— A polícia está atrás de mim e se esse filho da mãe não parar de gritar.  Vão me achar. 

— Para de berrar seu diabinho!  Gritou, com os olhos faiscando de ódio.

O menino, no entanto, não parava de chorar.  Então Rato, apertou o  pescocinho  da criança até  sua cabecinha cair  sobre o ombro da mãe.

A mulher despencou no chão da pobre morada.  As meninas se debruçaram e soluçando baixinho, abraçaram a mãe e o irmãozinho.

 Rato olhou a cena com desprezo.  Era um homem cruel demais para sentir piedade por quem quer que seja.  O silêncio era só quebrado pelo choro contido e abafado das crianças. 

Ao longe, os tiros cessaram. Parecia que nada se movia naquele lugar.  Depois de algum tempo, com muito cuidado, o homem abriu a porta e espiou para fora, olhando de um lado para outro.     Apenas um gato passou correndo e se escondeu embaixo de um carrinho de mão.

Sem olhar para trás, o criminoso saiu e correndo sumiu entre os becos da favela.

Dentro do barraco, Joselina começou a voltar a si.  As meninas choravam convulsivamente.  Aturdida, levantou-se com dificuldade e sentou-se no chão, olhou para o menino, que caíra ao seu lado, pegou-o, abraçou-o e desatou a chorar, um choro doído, revoltado, maior que ela, maior que o mundo que a rodeava e com um ódio e uma revolta jamais sentidos, grito então:

— Monstro, monstro, monstro!

Josué era um homem trabalhador, honesto e de bom coração.  Trabalhava como pedreiro em várias obras da cidade e muitas vezes ajudava os vizinhos e amigos, quando queriam melhorar alguma coisa em seus pobres barracos.  Era muito estimado e respeitado por todos que o conheciam.

Seu único objetivo era proteger sua família e fazer tudo ao seu alcance para não faltar o arroz e feijão de cada dia.  Sua companheira, Joselina, era diarista em casas de família.  Assim viviam com muita dificuldade, mas não lhes faltava o essencial.

Naquela tarde, subia o morro, depois de um longo dia de trabalho, quando viu uma aglomeração numa das ruelas da comunidade.  Todos falavam ao mesmo tempo.

— O que aconteceu? Perguntou.

Um rapazinho assustado respondeu:

— Rato e Dodó se enfrentaram e teve um monte de tiros.  Rato matou Dodó.  A polícia chegou e Rato fugiu por ali.  E apontou para a direção em que Rato tinha fugido.

— A polícia tentou caçar ele, mas não deu, completou o rapaz.

Josué estremeceu. Rato tinha ido para o lado de onde morava.  Um mau pressentimento o assaltou e com passos rápidos dirigiu-se para casa.  Odiava e temia aquele homem horroroso e cruel, que tinha matado e torturado tanta gente.  Sempre evitava passar por ele.

Quase correndo chegou ao seu casebre.  A porta estava aberta e várias pessoas estavam lá dentro.  Choros e lamentações eram ouvidos. Seu coração disparou, empalideceu e quase sem forças, com as pernas bambas, entrou. O que aconteceu, perguntou-se.

— Meu Deus! Gritou.  Lá estava Joselina sentada em uma cama, chorando copiosamente e sendo ajudada pelos vizinhos, que a abraçavam e a consolavam.  Tinham tirado o menino de seu colo e o colocado na cama. Uma das vizinhas havia levado as outras duas crianças para sua casa, afastando-as de tudo aquilo.

Josué ficou um momento paralisado e, depois, em desespero, compreendendo o acontecido, lançou-se sobre o corpinho do pequeno, gritando a sua profunda dor.

O rosto daquele bom homem estava transtornado. De repente, levantou-se e com uma voz cheia de ódio falou:

— Eu mato esse miserável!  Eu mato!

Os presentes se entreolharam.  Não podiam acreditar naquele desabafo.  Ele era muito bom para isso.  Acalmaram-no e deram-lhe algo forte para beber.

Quando a noite caiu, os amigos se juntaram.  Sabiam onde Rato costumava se esconder. Silenciosamente seguiram pelos becos, concentrados no seu objetivo.  Um deles levava uma lanterna, outros tinham armas escondidas em seus bolsos.

Chegaram a um lugar em que tinha uma pequena mata. No meio dela havia um casebre. Com muito cuidado, muito quietos aproximaram-se do esconderijo, Entreolharam-se. O lugar estava escuro.  A portinhola estava fechada e nenhum movimento era sentido dentro do lugar. Uma única janela estava entreaberta.  Postaram-se em frente a ela e com um gesto calculado e muito devagar para não serem ouvidos, abriram-na. Da escuridão Rato atirou.  O homem que havia aberto a janela foi atingido no braço. Uma rajada de tiros de ambos os lados ecoou e tudo ficou silencioso.  O homem da lanterna iluminou o interior.  Rato jazia no chão.  Os homens abriram a porta e se aproximaram.  Estava morto.  Satisfeitos, deram-se as mãos. A justiça tinha sido feita.  Tinham ajudado o amigo e evitado que ele sujasse suas mãos com o sangue daquele facínora.

No dia seguinte, uma multidão acompanhou o enterro do inocente menino.  Quando seu caixãozinho desceu a uma simples cova, a tristeza era geral.

Josué, Joselina as meninas abraçavam-se unidos pela mesma dor.  Josué olhou para os amigos, balançou a cabeça tristemente e seu olhar cansado dizia um muito obrigado.


AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ - Henrique Schnaider

 






AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ

Henrique Schnaider

 

Maciel levava uma vida cheia de espinhos, mas dava duro para sobreviver.  Nasceu numa família de pais pobres trabalhadores rurais e quando tinha polenta na única refeição que faziam, era uma festa.

Ele era magrinho, corpo arqueado, e por causa disso ganhou o apelido de Taquara na escola onde estudava.  Os amiguinhos não lhe davam folga, era sempre escolhido para ser alvo das brincadeiras, algumas de muito mau gosto e outras até perversas.

Quando chegava em casa ia para seu quarto, não querendo que a mãe percebesse o drama porque passava. Chorava escondido pelo destino pobre que a vida lhe reservara, e as lágrimas com gosto amargo molhavam seus olhos.

Porém,  Maciel era resiliente,  sonhava com um futuro brilhante,  tinha um coração doce não guardava rancor e nem pensava em vingança.

O rapaz sofreu ainda por alguns anos sendo vítima de troças dos colegas, mas tinha um objetivo e sabia que alcançaria. Sua vontade era determinante e foi em frente nos estudos. Venceu, e por mérito acabou se formando médico cientista especialista nas pesquisas de remédios para cura do câncer.

Conheceu Alice colega nas pesquisas e casou-se com ela. Formou uma boa família tiveram filhos e vivia só no ambiente familiar ou nos laboratórios de pesquisas. Quase não sobrava muito tempo para o lazer.

Nas voltas que a vida dá Maciel e sua equipe estavam próximos de encontrar um remédio revolucionário que poderia curar alguns tipos de câncer, mas precisavam de mais verbas para continuar e indicaram para ele um empresário rico que poderia ajudar com doação.

Maciel agendou uma reunião com o empresário e no dia marcado para o encontro em um prédio de alto luxo, foi conduzido pela secretária até a sala de reuniões.

Entrou cumprimentando o diretor que estava de cabeça baixa e quando se olharam sentiram um choque. Era nem mais nem menos do que Fernando o antigo colega de escola que tantas vezes fez Maciel sofrer.

Maciel se recompôs da decepção de encontrar alguém que ele preferia nunca mais ver na vida e em seguida disse:

— Olá como vai Fernando? Veja você depois de tantos anos nos reencontramos, assim é a vida que nos prega tantas peças.

— Pois é Taquara, verdade. Mas, diga o que você quer de mim?

Maciel explicou sobre as pesquisas de um medicamente que revolucionária a medicina de oncologia, que precisaria de mais verbas para terminar com sucesso e seria uma revolução na Medicina na cura do câncer...

Fernando respondeu com desdém e disse que procurasse outra pessoa porque ele não ajudaria com nenhuma verba, e ainda voltou a chamá-lo de Taquara.

Maciel saiu completamente frustrado e constrangido por ver que seu antigo colega continuava um mal caráter e com o mesmo espírito de quando fazia de sua vida um inferno na escola.

Ele voltou às pesquisas, mas realmente continuou com problemas financeiros. Apesar disso, não desistiu.

Fernando, depois de ter sido inoportuno com Maciel continuou a vida de Empresário do mal até que um dia sua esposa lhe dá uma péssima notícia... de que a filha deles depois de muitos exames feitos constatou-se no laudo um câncer muito agressivo e ela tinha poucas chances de sobreviver.

Fernando desesperado e sem opções, lembrou do encontro com Maciel e tratou de agendar uma reunião urgente com ele. Depois de chamá-lo pela primeira vez na vida de Maciel, explicou o drama da filha e ele estava disposto a financiar o fim das pesquisas e assim o fez.

Maciel depois desta injeção de verbas acelerou o programa para chegar com sucesso aos resultados, e num dia glorioso, o medicamento foi fabricado,

Maciel que já torcia pela reabilitação da filha Fernando, imediatamente ligou para o amigo para iniciar o tratamento da menina, quando o colega lhe informou que no dia anterior a filha havia falecido.

Maciel ficou muito triste com a notícia, mas ao mesmo tempo feliz pois sabia que com o remédio pronto salvaria milhares de vidas.

"NATURALMENTE" - Hirtis Lazarin

 



"NATURALMENTE"

Hirtis Lazarin

 

 

A abelhinha Belita

                       esvoaça

                       perambula

                      à procura da mais apetitosa flor.

 

 

                                                          A abelhinha Belita

                                                          em espaços curtos

                                                          e tempos breves

                                                         satisfaz seu sabor.

 

A abelhinha Belita

poderosa, atrevida

pica forte a borboleta-cor

 

                                                          A borboleta-cor

                                                         meiga, delicada, 

                                                         chora, cheia de pavor.

 

O beija-flor irritado

meia-volta, apressado

justiça vai impor.

 

                                                       O beija-flor conselheiro

                                                       papo-cabeça consciente

                                                      restaura a harmonia.

 

O jardim florido

abre-se colorido.

Uma chuvinha amiga

encerra o dia feito cantiga.

 


Peraltices - Adelaide Dittmers

 



Peraltices

Adelaide Dittmers

 

Era época de Natal.  As ruas já cintilavam, e o riso das pessoas parecia que vinha mais facilmente. Minha mãe conversava com uma grande amiga, que tinha uma loja na rua principal de Bebedouro, cidade do interior de São Paulo. A conversa fluía animada e já entrava no clima da festa tratando de compras e arrumações.

Estava sentada à porta ouvindo-as distraídas com seus planos, enquanto eu e minha amiga Maria Luisa apreciávamos o ¨footing” tradicional movimento de vaivém dos jovens pela rua naquela época.

Tinha nos brações um boneco do qual não me separava.  Devia ter três anos e meio de idade, não tenho certeza.  O ócio logo desmotivou minha amiga que resolveu ir para casa.  Era comum andarmos sozinhas pela cidade que não oferecia perigos, e grande parte dos habitantes nos conhecia.

Havia ainda muito que conversarmos, muitas curiosidades para se ver, então fui com ela até a esquina. Nossos passos curtinhos regados a brincadeiras fez desse trajeto uma alegria. E, quando passamos pelo cinema, eu quis entrar, tinha vontade de ver o que se passava lá dentro, tinha vontade de ver as imagens que traziam os sons até a rua. Mas, logicamente, o porteiro não permitiu. Vai pra casa, garota!

Aquilo não me saiu da cabeça. Involuntariamente me aguçavam pensamentos e a vontade de conhecer o cinema, aumentava em mim. Na volta, percebi que o porteiro não estava no seu lugar. É fácil entrar agora, pensei. Então entrei, empurrei uma porta e adentrei no escuro da sala. A luz que permiti entrar ao abrir a porta, fez com que alguns me olhassem. O som alto me atraía mais do que a escuridão que amedrontava. Sentei-me o mais perto possível da entrada.  Os olhos vidrados na telona na tentativa de adivinhar o que se passava ali. Lembro-me de mais olhares na minha direção. Não havia cor na tela, apenas imagens em movimento.  

Depois de algum tempo sem identificar o que faziam na tela, cansei, e decidi ir embora. Lembrei de pronto do porteiro que agora devia estar de volta ao seu posto, então, com muito cuidado, sai carregando meu boneco.

Voltei para a loja, e encontrei minha mãe já aflita me procurando. Tinha pouco mais de três anos, e levei uma tremenda bronca, daquelas que não se esquecem jamais.

A HISTÓRIA DA VIDA DE UM PROFISSIONAL - Henrique Schnaider

 


A HISTÓRIA DA VIDA DE UM PROFISSIONAL

Henrique Schnaider

Cecilia  batalhou muito na vida e venceu. Só que as custas do suor dos outros, menos do seu.

Era empresária, tinha uma indústria de embalagens plásticas que abastecia sua própria loja montada no bairro central da capital.

Cecilia era muito dura nos negócios, não possuía a suavidade própria das mulheres. Era terrivelmente centralizadora e chegava a ser cruel com  funcionários. Ela dirigia a loja, e seu filho a fábrica.

 O departamento de telemarketing  era composto por uma equipe de dez vendedoras, dirigida pela proprietária de maneira precária e desumana.   Controlada por Cecilia, as pobres coitadas eram exigidas ao máximo, mal tinham tempo para a refeição.

Na parte de baixo do prédio ficava o caixa e o estoque de material e havia um balcão atendido por vários funcionários para suprir as peruas das Empresas que vinham buscar os pedidos feitos no telemarketing.

Na parte de cima junto com as vendas ficava o departamento pessoal e sala de Cecilia. Ela possuía duas TVs de circuito fechado de onde ficava o tempo todo fiscalizando os seus funcionários, e qualquer coisa, a mínima que fosse, lá vinha ela descendo as escadas para chamar a atenção pelos mais variados motivos, constrangendo a todos pois fazia questão de falar para todos ouvirem.

Ela fazia essa fiscalização durante toda a jornada de trabalho, criando um ambiente de terror na Empresa. Ainda tinha o Merval, que gerenciava da parte de baixo. Ele era puxa-saco de primeira da Cecilia, pessoa amarga que não dava um único sorriso nem por favor. Levava a ferro e fogo os coitados sob seu comando, num verdadeiro campo de concentração em plena cidade.

Arnaldo nem imaginava no ninho de cobras que estava prestes a entrar, era formado em Administração, mas nunca exerceu a profissão foi comerciante, chegou a ter quatro lojas do ramo de moveis e eletrodomésticos por muitos anos, mas os novos tempos não facilitaram nada para ele. O surgimento dos grandes magazines não deixou outra opção a ele senão fechar as lojas.

Trabalhou no Consulado da Áustria por doze anos, arrumou muitos inimigos e teve que ir embora. Desta feita foi trabalhar com amigos Advogados por mais doze anos. Mas sempre tem um dia, e Arnaldo ficou desempregado.

Foi parar na sala de Cecilia para uma entrevista, mal sabia ele na fria que estava entrando. Num primeiro momento a patroa,  toda solícita agradando ao máximo, escondeu as garras e Arnaldo foi contratado achando que tinha entrado na casa de amigos.

Com o tempo as desavenças começaram. O pobre do Arnaldo ficou no caixa e mal ele se mexia lá vinha a víbora chamar a sua atenção. Era vigiado o tempo todo e a convivência com o Merval era a pior possível. O ambiente era desagradável.  

Arnaldo tolerou toda essa situação por três anos apenas trabalhando e baixando a cabeça, fez de tudo para que as coisas melhorassem, tentou dialogar com a naja, mas tudo em vão e ela cada vez pior. Até que um dia ele se encheu e pediu demissão.

Depois de ficar seis meses em casa. A patroa maléfica chamou o Arnaldo de volta, prometendo mudar algumas coisas e inclusive nomear ele para Gerente da parte de baixo.

Tudo balela, pois, na verdade o lobo perde pelo, mas não perde o vício, e Cecilia estava pior do que antes, Arnaldo era um Gerente de araque pois Cecilia desceu outra funcionária para a parte de baixo que disse que a patroa falou para ela, que seria a nova Gerente e isso com o capitão do mato o Merval lutando para não perder o poder, o inferno de Dante.

Arnaldo ficou ainda mais dois anos sofrendo calado até que um dia deu o seu grito de liberdade, foi à sala da Cecilia e soltou os cachorros e disse que estava indo embora desta vez para sempre.

Cecilia nunca mudou sua maneira de ser, até que um dia morreu corroída por um câncer. Quanto a Arnaldo vive uma vida tranquila, aposentado e nunca mais quis saber da vida de Cecilia.      

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

UMA GRANDE LIÇÃO DE VIDA - Alberto Landi

 

 



UMA GRANDE LIÇÃO DE VIDA

Alberto Landi

 

 

Michel era um marciano que vivia num planeta bem distante. Era um pequeno ser de cabeça cônica e grandes olhos de cor violeta. Seus braços eram longos se alargavam ainda mais quando tinha que alcançar algo.

Um dia, entrou  na nave espacial e saiu numa longa viagem, queria explorar um pouco o Universo e passar por dezenas de Planetas em inúmeras aventuras até chegar  á lua.

Em poucas horas algo imprevisto acontece, teve um acidente de percurso e teve que aterrissar  em um planeta desconhecido. Não podia sair dali sem ajuda de outra nave.  Pensou como poderia fazê-lo, até que teve uma ideia:

Conectou-se com alguns animaizinhos amistosos desse planeta, eram de várias espécies, pediu para que o ajudassem. Os pequenos amigos se reuniram e decidiram fazer uma grande montanha, subindo uns em cima dos outros até chegar à Michel.

Foi muito difícil a escalada, mas finalmente conseguiram chegar e resgatar o amigo marciano. Quando já estavam descendo a escada, um desastre acontece, e um dos animaizinhos não pode evitar o espirro e toda a escada veio abaixo.

Michel pensou que os seus amigos haviam se chateado com ele, com o desabamento da escada e por ele ter pedido a ajuda deles.  Mas foi justamente o contrário. Quando os animais se recuperaram do desabamento, todos começaram a saltitar e dar palmas por ter conseguido salvar o amigo marciano.

Os animais estavam super orgulhosos pelo grande feito. O marciano Michel despediu-se afetuosamente deles e partiu de volta ao seu planeta ansioso para contar aos seus amigos e familiares o ocorrido no início de sua viagem.

Como aqueles persistentes amigos desprendidos se empenharam em ajudá-lo sem pedir nada em troca? Os marcianos depois de ouvirem  todo o relato de Michel entenderam a importância de um trabalho em equipe, e da boa vontade e a solidariedade dos pequenos animais.

Desde então, nenhum marciano quis viajar só em suas naves e continuaram a explorar o Universo indo sempre em dois, indo aos mais longínquos rincões do Universo.

Aprenderam uma grande lição de vida: 

A importância do que é a solidariedade e a ajuda nem que seja com sacrifício para protegerem uns aos outros, quando necessário!   

 

O COMPUTADOR TEIMOSO E VINGATIVO - Leon Vagliengo

 

 



O COMPUTADOR TEIMOSO E VINGATIVO

Leon Vagliengo

Todas as tardes das quintas-feiras, pouco antes das quinze horas, Leon transfere o seu Computador para um local com melhor recepção da internet, porque se iniciará, de forma virtual, a aula de escrita que muito aprecia. Os instantes da transferência são a única situação em que o velho Computador, que já não dispõe de bateria, fica totalmente desligado, pois outras razões, que não vêm ao caso, exigem que permaneça permanentemente ligado. Naturalmente, após a transferência de local, precisa ser novamente ligado para a aula.

E foi aí que tudo se complicou.

O Computador, sem compreender as razões de seu dono, não estava gostando nada do tratamento recebido. Foi acumulando a sua raiva, semana a semana, e finalmente, naquela quinta-feira, perdeu completamente a paciência:

QUEM ELE PENSA QUE É?” – ruminou, referindo-se a seu dono já com intenções vingativas. E continuou, a cada momento mais descontrolado, justificando para si mesmo as razões de sua revolta: “Me deixa ligado durante o dia todo e a noite toda, nem posso descansar, não respeita a minha idade. E de repente me liga e desliga sem mais nem menos e quer que eu funcione como e quando bem entende. HOJE ELE VAI SE ARREPENDER!”.

Se bem pensou, melhor o fez.

Leon foi ficando aflito. Sua aula virtual de escrita começara às quinze horas e ele já vinha tentando ativar o Google Chrome desde bem antes disso, e nada. E sem o Chrome não haveria o acesso ao aplicativo da reunião, o Zoom. Sem contar o deboche que o Computador lhe impunha! Funcionavam os outros programas, mas aquele de que ele precisava, nada. Aquele Computador ingrato, que ele mantinha em uso por razões que poderiam ser consideradas apenas afetivas, sabia bem como irritá-lo.

Quanto mais o Leon tentava, mais exultava o seu Computador, aquele ser inanimado que agora, todo animado, comemorava aquelas suas pequenas e mesquinhas vitórias: “Ele já me reiniciou duas vezes, me fiz de morto. Só porque é meu dono, pensa que pode tudo? POIS SIM! Vou lhe dar uma bela canseira”.

Vinte e cinco minutos se passaram desde que se iniciara a aula, Leon tentando de tudo, sem sucesso. Pobre aluno frustrado! E o Computador continuava a comemorar, agora mais calmo, mas em tom maquiavélico:

Veja só o desespero dele. Está perdendo a aula, bem feito! Novamente me desligou e teve que esperar, porque eu sou lento mesmo, até para desligar. Vai ligar outra vez, com certeza, esse cara é insistente. Azar dele, eu também me demoro em religar. E tão cedo não vou funcionar naqueles programas que ele quer”.

Meia hora de aula perdida. Nova tentativa, novo desligamento, nova espera, novo ligamento, nova espera. Leon já não estava apenas aflito. Estava bravo, no limite! Subitamente deu um grunhido nervoso, seguido de um tapa na mesa, e exclamou, quase gritando:

FUNCIONA, COMPUTADOR MISERÁVEL! OS TEUS DIAS ESTÃO CONTADOS!

Foi então que o Computador se deu conta de que havia exagerado e a coisa tinha ficado feia. Embora já bem desatualizado em razão de sua idade e mesmo sem contar com modernos recursos de inteligência emocional, fez valer a alta tecnologia de seu gênero, conseguindo captar e processar os novos dados emanados por Leon, que traziam sinais inequívocos da tragédia que se delineava para o Dispositivo, traduzidos pela forma nervosa como estavam sendo teclados, repetidamente, os mesmos comandos. Sua raiva dos primeiros momentos já passara, e resolveu, então, arrazoar que o castigo que proporcionara a seu dono já tinha sido o bastante. Estava satisfeito, seria melhor mudar de atitude:

Pensando bem, o Leon, nervoso, pode se tornar um perigo. Estamos no décimo sexto andar, e eu estou perto da janela, que está aberta! Acho que já foi o suficiente, me vinguei. Mas, quem sabe? Se ele não me cuidar melhor, talvez eu repita a dose na próxima quinta feira”.

A partir desse momento Leon sentiu o sabor do triunfo. Aquela rodelinha girando de forma irritante, que indicava que o comando estava num processamento interminável, finalmente parou, e eis que, enfim, o Chrome assumiu completamente a tela. Acionado o Zoom, a seguir tudo aconteceu muito rápido, surgindo na tela do seu Computador as vozes e as telinhas com as imagens dos seus amigos e da professora, que logo saudaram a sua chegada.

Leon ficou tão feliz e aliviado ao ouvi-los e revê-los, que até se esqueceu das dificuldades por que passara. Mergulhou nos assuntos da aula e já nem pensava mais em trocar o seu querido companheiro e velho amigo Computador.

Querido companheiro e velho amigo...?

Provavelmente Leon voltaria a pensar nisso na quinta-feira da semana seguinte, por volta das quinze horas...

 


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...