... E ADÃO COMEU A MAÇÃ
Adelaide
Dittmers
Túlio admirava
maravilhado o grande rio, cujas margens se perdiam de vista. A exuberância da
floresta, que o cercava com suas grandes e imponentes árvores, exalava o aroma
da natureza. Nuvens brancas bordavam o céu de um profundo azul. De repente, um bando de tucanos cruzou o rio.
Seus olhos
absorviam tudo com uma satisfação há muito não sentida. Desejara aquela paz, que sua profissão
impedira. Descobrir crimes e seus
autores. A constante convivência com a morte era algo, que estava deixando para
trás com a recente aposentadoria.
Planejou essa
viagem cuidadosamente e eis que estava no barco, que navegava mansamente, sem
pressa, seguindo o ritmo plácido da natureza, para alcançar um hotel flutuante,
à beira da mata.
Algum tempo depois,
uma bonita construção envidraçada apareceu brilhando à luz do sol intenso. Ele esticou todo o corpo. Estava chegando ao paraíso.
O barco aportou e
os passageiros desceram. Os olhos
brilhando e um sorriso feliz pela experiência inusitada, que iriam viver.
Depois de depositar
sua mala na suíte reservada, Túlio desceu para almoçar. As mesinhas rústicas distribuíam-se por um
terraço aberto, que ladeava uma grande piscina. Sentou-se a uma mesa, onde
estava um simpático casal. A refeição
veio farta: pirarucu com banana da terra
frita, farinha e vinagrete encheram seus olhos e ele inspirou o sabor original
e delicioso daquelas iguarias, antes mesmo de experimentá-las.
Depois do almoço, o
grupo se reuniu para se conhecer e trocar opiniões sobre aquele belo lugar. As
caminhadas pelas trilhas marcaram a tarde quente desse primeiro dia. A emoção
de estar andando pela imensa floresta esparramava-se pelas faces extasiadas dos
visitantes, que pararam assustados ao se deparar com uma cobra, que cruzou
calmamente o caminho.
No dia seguinte,
foram conhecer uma tribo indígena e esse contato foi uma experiência
marcante. A dança com os trajes típicos,
comer peixes feitos por eles de maneira rústica, mas deliciosos os
surpreenderam.
Túlio estava
fascinado e saboreava cada momento, cada novidade, que o paradisíaco lugar
oferecia.
Na penúltima noite,
o gerente do hotel anunciou que uma cantora da região iria brindá-los com as
canções típicas da Amazônia. Todos se animaram com a apresentação durante o
jantar.
O palco se iluminou
e uma bela morena de cabelos lisos, que lhe cobriam os ombros, olhos verdes e
amendoados, cujos traços revelavam sua mestiçagem, entrou e cumprimentou
todos. Com graça e leveza, cantou as
canções amazonenses, como o carimbó e o rega.
Depois da
apresentação, desceu e sentou-se para conversar com os hóspedes. Simpática,
contou sobre sua ascendência indígena e portuguesa. Crescera numa tribo e ainda hoje respeitava
os ritos de seus ancestrais. A conversa foi até altas horas, com as pessoas
encantadas pela história da jovem, que se dividia entre a aldeia e a cidade.
Na manhã seguinte,
um Túlio sonolento, que adorara a noite anterior em que conhecera um pouco do
povo da região, surpreendeu-se com o tumulto no restaurante. As pessoas com expressões assustadas não
paravam de falar. Aproximando-se, ele
perguntou o que estava acontecendo e soube que a cantora fora encontrada
assassinada no seu quarto.
Ele arregalou os
olhos e suspendeu a respiração. Não era
possível. Veio para aquele paraíso para
começar uma vida calma, sem a frequente presença da morte e o crime o perseguiu.
O gerente do hotel
estava nervoso, mas tentava acalmar os hóspedes. Túlio se aproximou dele e disse em voz baixa:
— Sou detetive. Me
aposentei há pouco tempo. Quer ajuda?
O homem pousou a
mão no braço dele e aquiesceu apenas com um balançar de cabeça.
Foram até o
quarto. A pobre jovem jazia no
chão. Túlio fez uma careta. O olhar
cheio de piedade. Vasculhou o quarto e
abaixando-se viu uma chave perdida embaixo da cama. Com cuidado, puxou-a com um pedaço de papel
dobrado. E virando-se para o gerente
disse:
— Vamos entregar
essa chave para a polícia para verificar se tem impressões digitais.
Os policiais
chegaram uma hora depois e levaram o corpo e a chave.
As pessoas passaram
o dia excitadas. Não conseguiam se
desligar do ocorrido. No fim do dia,
três botos apareceram com seu jeito alegre e brincalhão. Essa visita levantou o ânimo de todos e até
Túlio se divertiu com a bagunça, que eles fizeram.
O dia da despedida
do lugar amanheceu ensolarado e sem nuvens.
O grupo preparava-se para partir daquela floresta, que marcara suas
vidas pela beleza, mas também por terem sido testemunhas daquele crime, quando
chegou a polícia com a notícia de que o suspeito havia sido identificado pelas
impressões digitais deixadas na chave. O homem tinha sido companheiro da pobre
cantora. No entanto, ele afirmara que a chave tinha desaparecido da casa dele e
que a tinha procurado por toda a parte.
Além disso, apresentou um álibi, pois na noite do crime, estava em
Itacoatiara, cidade próxima a Manaus, onde intermediara uma compra de açaí para
ser vendido para outros estados. Lá dormira em uma pousada e provou isso à
polícia.
Todos ficaram
perplexos. Quem teria matado a pobre moça? E por que?
Os empregados do
hotel começaram a ser interrogados, Túlio acompanhou de longe o
interrogatório. Todos estavam nervosos.
Ele pousou os olhos experientes em um deles, o garçom, que sereno, respondia às
perguntas desviando o olhar do inquiridor.
As mãos inquietas no seu colo.
Seria ele?
Nunca iria
saber. Fora para lá para relaxar. A polícia local é que teria que desvendar o
crime.
O barco, que os
levaria para a cidade, já tinha chegado e todos se dirigiram ao pequeno porto
para embarcar. O silêncio tomou conta do grupo.
Túlio
pensou na pobre jovem, que talvez perdera a vida de maneira tão violenta por
não aceitar o assédio de um homem.
Sacudiu a cabeça
para expulsar esse pensamento e mergulhou seu olhar no esplendor da natureza,
onde tudo era harmônico, a floresta, os pássaros, o rio. Tão diferente do
coração do homem, que abriga o inferno e o paraíso, o mal e o bem, o ódio e o
amor.
Já na embarcação, olhou
as águas azuladas do rio Negro, debruadas pelo verde intenso da mata. Inspirou fundo o ar puro e deleitou-se mais
uma vez com a paisagem exuberante, que se oferecia aos seus olhos. E pensou: ¨A
alma do homem abriga o paraíso e o inferno, o bem e o mal, o amor e o ódio.¨