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terça-feira, 11 de junho de 2024

MAS, QUE COISA! - lberto Landi

 




Mas, que coisa!

Alberto Landi

 

Catarina era natural de uma pequena cidade do interior do Paraná, Arapongas.

Todos os habitantes tinham o costume de dizer, “Mas, que coisa! ¨, para expressar surpresa, alegria, indignação ou qualquer outra emoção intensa.  Era como se isso fizesse parte do DNA daquela comunidade.

Certo dia, um estranho, procedente de Minas Gerais, chegou à cidade. Ele era um escultor, conhecido naquele Estado por suas obras de arte incomuns e surpreendentes. Ao ouvir as pessoas locais repetindo constantemente a expressão, “mas, que coisa!”, teve uma ideia simplesmente brilhante.

Decidiu criar uma gigantesca escultura utilizando materiais reciclados e muita criatividade, deu vida a uma obra única que retratava a diversidade de emoções e significados por trás da famosa expressão.

A escultura foi colocada na praça central e, quando inaugurada, havia até uma pequena banda homenageando o escultor. Todos ficaram boquiabertos, pois as cores vibrantes, as formas abstratas e a energia pulsante da obra deixaram todos os habitantes sem palavras. Era como se a expressão, “mas que coisa! ”, tivesse sido transformada em algo tangível.

A escultura se tornou orgulho da cidade, atraindo visitantes de todas as partes.  As pessoas passavam horas admirando os detalhes, tentando decifrar os significados ocultos por trás dessa obra de arte.

E assim ganhou um novo significado naquela cidade. Deixou de ser apenas uma frase comum e se transformou em um símbolo de criatividade, surpresa e celebração.

Com o decorrer dos anos, Catarina mudou-se para São Paulo, se instalando próximo ao Horto Florestal.

Diariamente saía com o seu cão Rex, para passear no horto, e devido às traquinagens que fazia, ela com frequência usava essa expressão, lembrando-se dos tempos vividos em Arapongas e principalmente da incrível escultura que tornara aquela pequena cidade conhecida em todo o país.

Certo dia, Rex avistou um coelho e saiu correndo atrás dele, arrastando Catarina pela coleira. ¨Mas, que coisa", exclamou, tentando segurar o cão. Depois de muita confusão, conseguiram continuar o passeio em paz para aproveitar o restante da tarde!

 

 

UMA ESTRANHA AVENTURA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



UMA ESTRANHA AVENTURA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Joãozinho e Cláudia, dois irmãos em idade escolar, estão ansiosos com a chegada das férias. Costumam passar alguns dias no sítio de vovô Alberico, um vovô alegre, cheio de novidades, é quando conhecem muitas histórias e aventuras.

Chega o mês de janeiro e, após os feriados de final de ano, os pais decidem levá-los ao sítio do avô, um lugar afastado, fora da cidade de Ourinhos, onde o velho Alberico, cansado da cidade grande, refugiou-se e acumula livros de histórias e suas tralhas, como ele próprio diz.

As crianças o amam, sendo esse idoso o melhor divertimento, no momento, em suas vidas.

Assim que chegam, após as arrumações costumeiras, já perguntam quais serão as novidades do dia.

Vovô Alberico, com seus olhinhos curiosos e olhar matreiro, senta-se com eles ao redor de uma mesa de tronco, a escrivaninha, e abre um livro de capa dura, cheio de desenhos, mapas e letras.

Curiosos, Joãozinho e Cláudia, já interessados, perguntam o que ele procura.

— Estava esperando vocês chegarem para mostrar um desenho estranho, diferente, que achei por essas bandas, feito há muitos anos, por antigos habitantes dessas terras. Perguntei na cidade se alguém sabia sobre ele, mas ninguém respondeu. Ninguém sabe, ninguém viu.

— Nossa, vovô! O que é? Nas suas terras? Perguntam os meninos.

— Sim, responde vovô, olhem só! Uma enorme caverna, com desenhos feitos de água, tão bem feitos, que parecem esculturas com mãos de homens, atrás da montanha, algumas léguas daqui.

Os meninos observam o desenho e se encantam. “Precisamos conhecer! Quando iremos até lá? ”

Vovô coça um pouco o resto de barba do queixo e responde:

— Talvez amanhã, se acordarem bem cedo. Pode ser.

À noite, as crianças mal dormem, já curiosas e aflitas, ansiosas para conhecerem o tal lugar.

Saem no escuro, com o frio da madrugada e veem os primeiros raios de sol surgirem, aos poucos, durante a caminhada.

Andam por horas e, um pouco cansado, Joãozinho pergunta ao avô se estão no caminho certo.

Vovô Alberico responde que já avista a montanha, agora é subi-la e descerem o lado oposto.

O menino olha a irmã meio admirado, sem falar nada, mas com um olhar que dizia tudo. Será que iriam aguentar?

Cláudia responde logo: “Se vovô aguenta, nós também! ”

Começam a subir a montanha com o Sol já alto, param lá em cima para descansar, tomam a água do cantil, e mais dispostos, iniciam a descida.

Chegam ao sopé da montanha, uma hora depois, quando descansam novamente, para olharem o mapa e andarem na direção certa. Parece uma mistura de caminhos, meio difícil de localizar. Mas, vovô, experiente e hábil, escolhe o provável. Uma terra meio batida, quase sem grama ou plantação, parecendo antiga passagem de humanos ou bichos.

As crianças, mesmo cansadas, se sentem como os antigos exploradores, entusiasmadas em descobrir algo.  Percorrem matos, vegetação alta, vegetação baixa, atravessam riachos, pulam pedras, até chegarem numa região plana, com pequenos arbustos cheios de flores, cobertos por bromélias coloridas.

Param, extasiados e vovô exclama:

— Estamos perto.

Andam um pouco mais e chegam à entrada de uma grande caverna, incrustada numa rocha. Parecia outra montanha, só que não de terra.

Vovô Alberico entra primeiro e chama os netos para o seguirem. Caminham vagarosos, não sabem o que irão encontrar.

Percebem que do teto caem formas delicadas e coloridas, parecem de vidro, e formam desenhos ou pingos formosos, que impedem a passagem. “São as estalactites, explica vovô, uma maravilha da natureza, existente em algumas cavernas de rocha, quando a água se infiltra e desce formando desenhos que se congelam no ar. Quando sobem do chão, chamamos de estalagmites e vão em direção ao teto. ”

— Que coisa mais linda! Exclamam os netos. Já acham que valeu a pena a viagem. Nunca haviam visto isso, tão de perto. O avô era mesmo uma pessoa extraordinária...

Joãozinho caminha mais um pouco e exclama:

— Olha vovô, uma luz vem lá do fundo! Deve ter uma saída.

— Não sei não, filho. Essas cavernas são geralmente fechadas, mas vamos seguir a luz, responde vovô, também curioso.

Percorrem os três a comprida caverna e percebem que a luz vem de uma lâmpada dourada, tampada, semelhante às lâmpadas das histórias de duendes e fadas.

— Que bonita, exclama Cláudia e corre a pegá-la, acariciando-a levemente.

A lâmpada, num repente, dá um salto e cai ao chão, deixando-os assustados.

Abre-se com estrondo, e salta de dentro dela um ser muito estranho, meio esverdeado, rodeado de fumaça, comprido e magro, com barba e bigodes pretos. Suas orelhas finas e altas, assemelham-se aos coelhos enjaulados.

Um grande cone vermelho sobre a cabeça, esconde o cabelo e a testa, como pontudo chapéu. O olhar preguiçoso e sonolento, dirige-se a eles em interrogação.

Vovô Alberico e os netos, diante dessa visão estupenda, caem ao chão, de boca aberta. Não conseguem emitir nenhum som.

A figura estranha, de voz rouca e língua fina, que sai de uma boca estreita, dirige-se a eles e pergunta o que desejam.

O vovô, refazendo-se do susto, acostumado aos mistérios da vida, pergunta quem é ele? Há quanto tempo está preso naquela lâmpada?

Ele responde, com dificuldades para controlar a língua:

— Sou um ser mágico, habitante de outra galáxia, caí nestas terras e seus habitantes, com medo dos meus poderes, prenderam-me dentro dessa lâmpada. Só seria solto quando alguém, com carinho, viesse me soltar. Isso há mais de mil anos. Aconteceu hoje, nas mãos da menina linda que se agradou da lâmpada.

Aos poucos, foram vencendo o medo e Joãozinho, ainda trêmulo, pergunta o seu nome.

— Chamo-me Docimedor, o gênio fantástico, e fui incumbido de distribuir favores a todo aquele que me procurasse. Esse era o meu trabalho, no meu mundo, e seria também aqui, onde caí. Faz tanto tempo que fiquei preso que nem sei se ainda tenho poderes.

E continuou dirigindo-se a eles:

— O que gostariam que eu fizesse?

As crianças se entreolharam, admiradas, e vovô coçou novamente a curta barba, espantado e pensativo.

Cláudia e Joãozinho gostariam de voar, percorrer o sítio do vovô com asas, como se fossem pássaros. Vovô Alberico, após algumas hesitações, queria seu terreno todo plantado, muitos pés de café.

Docimedor matutou, matutou e, após grandes esforços, desculpou-se com eles. Achou que perdeu seus poderes, estava muito velho e o melhor seria dormir de novo, dentro da lâmpada.

Cláudia, compadecida, mesmo achando-o repelente, não deixou que fizesse isso. Abraçou-o e o encaminhou para fora da caverna e ele, ao olhar para o céu, num impulso, foi subindo, subindo, até que sumiu entre as nuvens.

Vovô Alberico, Cláudia e Joãozinho, boquiabertos ainda, sem fala, não acreditaram no que tinham visto. Se contassem para alguém, seriam tidos como loucos.

Cabisbaixos, encaminharam para a volta. Sem comentários. Não conseguiam falar.

De repente, as crianças, ao subirem novamente a montanha, abriram os braços e deram, muito espantadas e maravilhadas, um grande voo até chegarem ao sítio.

Vovô Alberico, rápido em caminhadas, ao contornar o pico da montanha, avista suas terras, ao longe, repletas de pés de café, carregados, prontos para a colheita. Avermelhados, os frutos maduros brilham ao sol.

Anoitece, cansados pelo passeio e pela emoção da aventura, encontram-se os três em casa, ao redor da mesa de tronco, com vovô pegando um lápis e dando-lhes uma folha de papel.

— Escrevam, meus netos. Escrevam e contem tudo o que viram e fizeram. É preciso que todos saibam essa história!

 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

A CORRENTE DO BEM! - Dinah Ribeiro de Amorim





 A CORRENTE DO BEM!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Existem pessoas que deixam marcas em nossa vida. Marcas amargas, de tristezas, humilhações e dor. Felizmente, elas acabam logo e são substituídas por outras que nos trazem alegrias e amor.

Como com todos, momentos difíceis me aconteceram, mas, quando os lembro, analiso quanta coisa boa eu tive.

Nasci perfeita, inteligente e sadia. Em família honesta, honrada e culta.

Frequentei escolas que me enriqueceram, com professores que me orientaram a ser alguém útil na vida.

Consegui trabalho fácil, colocações razoáveis, com bom desempenho.

Cresci sem grande fartura, mas nunca senti grandes ausências.

Tive filhos sadios, normais, com preocupações comuns a toda mãe. Cresceram, casaram, tiveram suas famílias.

Atualmente tenho netos que me agradam muito, e espero alcançar ainda alguns bisnetos.

Posso me considerar uma pessoa feliz! Sou grata a Deus por isso e à algumas almas boas que encontrei pelo caminho.

Pessoas fazem parte da nossa vida e, muitas vezes, esquecemos disso.

Lembro-me da madrinha, tia de mamãe, já idosa, que me auxiliou muitas vezes, em momentos difíceis. Fiquei em sua casa por longo tempo, devido ao trabalho dos meus pais. Não teve filhos e cuidou de mim, em criança, como filha. Fazíamos até sapatilhas de seda, com sola grossa, para bailarmos em casa. Com ela, andei, pela primeira vez, de ônibus elétrico, uma novidade. Íamos todas as tardes, passear no centro da cidade, comprar balas de café, na São Paulo ainda considerada calma. Quando passávamos em frente à Catedral, em construção, dizia-me sorrindo: “Você irá passear com sua filha por aqui, e a Catedral ainda não estará pronta! ” Felizmente, isso não aconteceu. Nossa Catedral ficou bem bonita, mas mal cuidada.

Que saudades sinto agora da madrinha, faleceu cedo. Nem alcançou a minha mocidade. Foi importante na infância dos sobrinhos netos.

Alguns tios e avós, com eles morei meus primeiros anos, já citados em livro, influenciaram muito a minha infância e juventude. As brincadeiras, as conversas, como me vestir, pentear, como falar corretamente, o que é bonito, o que fica feio, enfim, muita aprendizagem familiar em um ambiente divertido, numeroso, amigável. Guardo lindas recordações.

Dessa época, uma pessoa deixou marca de bondade. O filho do dono do empório da rua, Amâncio, um moço aleijado, com pesada corcunda.  Atendia-nos sorrindo e dava balas para todos, junto com o troco.

O tempo passou rápido, mas recordações me vêm sempre… como se fosse hoje. Uma colega da antiga Escola Normal, no interior, e um passeio de ônibus. Entre vários assuntos, vem o local de um futuro trabalho, preocupação minha, no momento. Voltar a São Paulo, prestar concurso como Profa. Especial no Ensino de Deficientes Visuais, no Instituto “Caetano de Campos”. Achei uma boa ideia. Fiz isso, ela não, casou-se.  Prestei, passei, trabalhei uns bons anos e gostei. Acho que foi destino ou algum anjo bom na vida. Nem éramos muito amigas.

Conheci meu marido após uma promessa feita a Santo Antônio. Tinha vinte e seis anos e vontade de casar, após alguns namoros desfeitos. Era muito devota. Em seis meses ficamos noivos, em seis meses, casamos. Pouco tempo para nos conhecermos, não deu certo. Fiquei dezesseis anos casada, mas tive dois filhos muito queridos. Deu vontade de colocar minha imagem do santo de cabeça p’ra baixo, mas achei bobagem, o santo não teve culpa.

Aconteceu o mesmo que acontece com toda mulher que fica sozinha, a necessidade de trabalho. Queria voltar a lecionar. O dinheiro mal dava.

Recebo um telefonema de uma colega da primeira escola que trabalhei, Valdete, acho que nem se lembra mais de mim, se ainda existe. Era mesmo uma alma boa, preocupada com todos. Avisa-me de um concurso novo, para professores municipais, e pergunta se não quero prestar? Soube que eu estava precisando. Claro que fui. Fui e passei. Recomecei!

E graças a essa colega, devo minha situação como professora aposentada, até hoje.

Existem mesmo pessoas, alguns sinais aparecem, que Deus coloca em nosso caminho, quando em dificuldades, que nos livram de problemas mais graves. É importante observar isso, para dar valor à existência e respeitar melhor a vida.

Fazer mesmo uma corrente do Bem para um mundo de Paz!


terça-feira, 4 de junho de 2024

PASSADO SOMBRIO - parte 1 - Vanessa Proteu

 



PASSADO SOMBRIO

Vanessa Proteu


Parte 1

 

Era um dia agitado na agência de publicidade “Impulsione”, onde trabalhava o divertido jovem Fernando Maldonado. Apesar de muito ocupado com seus afazeres, não deixou passar despercebida a presença do professor doutor em economia, Henrique Fernandes. Um senhor de 90 anos, bem-sucedido, refinado, porém pesaroso, solitário e com um olhar vazio como se sua essência tivesse sido roubada; um pouco sem vida, um pouco sem brilho, um pouco sem alma.

 Enquanto o observava, Fernando se lembrava de como a morte da importante senhora Laura Soares Fernandes havia sido de causa estranha, pouco esclarecida. O fato havia ocorrido há 30 anos e Fernando nem havia nascido, mas por se tratar de uma família muito conhecida na cidade, era algo muito comentado e isso aguçava a curiosidade desse agente de publicidade cujo hobby era fazer investigações secretas.

Passou a investigar a vida daquele senhor desde a juventude e descobriu que ele nem sempre foi amargo, que gostava de música clássica e que o matrimônio com a poderosa mulher do mercado financeiro, Laura Soares, era o segundo casamento e também a segunda viuvez. Sua primeira esposa havia cometido suicídio, pelo menos era isso que constava do registro médico.

Foram meses de buscas, e Fernando não encontrou nada que ligasse o velho professor à morte de dona Laura. Porém, ao pesquisar uma biografia antiga acerca da vida dela, percebeu que ela tinha sido mãe na juventude, dera à luz a um menino e o chamou de Abílio Soares.

Fernando acabou descobrindo por meio de tecnologias digitais que esse Abílio Soares se tornou Deputado Estadual em São Paulo e que desde cedo seguia a carreira política. Casado e pai de duas filhas, atualmente com 65 anos. A apuração de Fernando não teve o sucesso esperado, mas era isso que o motivava.

Só não motivava mais do que ver a sua paixão, Milena.  Jovem charmosa, de riso fácil, cativante e tão misteriosa quanto ele. Milena não era muito de falar sobre sua família nem de si mesma. Era de São Paulo e estava cursando Direito no Rio. Aliás, foi fazendo um trabalho de pesquisa que ela conheceu o Fernando. Eles se encontraram na empresa de publicidade. Moça de corpo bonito de voz suave. Quando seus olhos verdes encontram os dela, a certeza o domina; ele quer essa menina. Seu coração estremece e é assim que tudo acontece entre os dois.  Mas enquanto ele esconde dela e de todos o seu desejo por investigação, a jovem esconde o mistério sobre o passado de sua família.

Isso a aterroriza há algum tempo.  Às vezes, ela só queria dividir o fardo com alguém, mas Fernando, tão honesto, cheio de atitude, suportaria saber de algo tão terrível? Ela preferia esquecer o passado tenebroso e desfrutar a terrível paz no Rio de Janeiro ao lado do seu amor, cuja risada alta espantava qualquer pesadelo.

Um dia, entre um trabalho e outro, Fernando resolveu pesquisar mais a carreira de Abílio Soares e percebeu que alguns escândalos marcaram sua candidatura, bem como denúncias de lavagem de dinheiro e outros tipos de corrupção. Imprimiu os papéis e levou para casa a fim de esmiuçar tudo aquilo.

Acabou descobrindo que Milena era uma de suas filhas: Milena Soares, filha de Abílio Soares. Isso fez com que Fernando buscasse fosse mais fundo, apesar de estar dividido entre suas duas paixões: o seu amor por Milena e o seu prazer por investigação.

 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

UM VÁCUO NA IMAGINAÇÃO DAS COISAS - Leon Alfonsin Vagliengo

 



UM VÁCUO NA IMAGINAÇÃO DAS COISAS    

 

Ou, quanta coisa maluca passa na cabeça de quem se mete a escrever coisas.

 

 Leon Alfonsin Vagliengo

 

       Naquela noite de instrução literária, tentei, em vão, escrever coisas em que aparecesse a palavra “coisa”, porque era a tarefa a ser realizada em aula. Eu teria só coisa de vinte minutos, mas achei que a coisa seria moleza. Porém, não poderia ser qualquer coisa sobre uma coisa qualquer, porque era um exercício de escrita, a coisa toda tinha que ser bem pensada.

       Mas — que coisa! — Não me vinha à mente coisa alguma, o vazio predominava. Mesmo tentando alguma coisa forçada, nenhum sucesso, e o tempo ia passando.  A coisa estava ficando feia para mim.

Teria que inventar alguma coisa para cumprir a tarefa, mas... qual! Nada! Não aparecia nem uma coisiquinha nas minhas ideias que me permitisse agradar à professora e não terminar a aula em branco, o que seria uma coisa muito chata.

Pensei em usar derivativos da coisa, como o verbo coisar, mas o meu sentimento de censura me fez pensar que poderia dar uma conotação, assim... meio impudica. Não, não ficaria bem. Estimularia o surgimento de coisas impróprias nos pensamentos de quem lesse. Já imaginaram, por exemplo, dizer que alguém estava coisando no Ministério? Ninguém pensaria que se tratava apenas de uma ação burocrática a respeito da coisa pública.

Não, não seria adequado para a coisa que a professora pediu.

Aos poucos fui chegando à conclusão de que desta vez a coisa não seria mesmo tão fácil para mim, mas uma coisa eu botei na cabeça, desde jovem: faço questão de nunca desistir das coisas que me desafiam. Podem até dizer que eu sou um cara cheio das coisas, e que gente fina é outra coisa, mas eu não esmoreço facilmente.

A coisa toda ia seguindo assim, e o tempo passando, até que pensei numa coisa: se não consigo pensar em alguma coisa agora devido à ansiedade que essa coisa toda está me causando, devo relaxar um pouco para que alguma coisa boa possa aparecer.

É, eu já estava inquieto e nervoso, mesmo. Parecia até que ia ter uma coisa. E, de repente, experimentei uma forte sensação de estar sendo completamente diminuído pelo insucesso. Me senti um verdadeiro Coisinha.

Com o impacto desse brusco sentimento, abriu-se um parêntese emocional:

— Eu, um Coisinha? — Rosnei baixinho, sentindo-me coisificado e indignado com o meu próprio pensamento. Mas imediatamente reagi, ponderando que não é nada disso: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e é preciso colocar cada coisa no seu devido lugar.

Com esse pronto entendimento, seguiu-se um momento glorioso de recuperação do amor-próprio, em que me envaideci e até me emocionei, por achar que minha rápida reação tinha sido uma coisa linda; e para mim, naquele instante depressivo, a coisa mais linda do mundo.

Superado o parêntese, relaxei, respirei fundo, dei uma nova coisada nos pensamentos e me entusiasmei, pensando. Bom, agora a coisa vai!

Mas a coisa não foi.

Nem assim consegui elaborar coisa com coisa. Que nada! Mesmo estando relaxado, não saiu coisa nenhuma! Que coisa absurda!

Não posso desconsiderar que essa falta de assunto ocasional é uma coisa séria. Alguma coisa acontece ocasionalmente que me dá um vazio na mente, parece coisa do coisa-ruim. Uma coisa medonha, uma coisa de louco. Não é possível, não tem lógica. Acho até que aí tem coisa, mas não sei que coisa é essa.

Enfim, não consegui realizar a tarefa, não escrevi nada com a palavra “coisa”, e acabei chegando à conclusão de que forçar a barra para conseguir tal coisa, no fundo, caracteriza um doentio e esquisito coisicismo. Aí... chegou! Vamos deixar de coisa e reconhecer o insucesso.

Só me consola pensar que pequenos fracassos como esse são coisas da vida.

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sexta-feira, 24 de maio de 2024

O DOTE (COMPORTAMENTOS) - Dinah Ribeiro de Amorim

 




O DOTE

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Grande discussão, vozes alteradas, no escritório da mansão dos Simpsons, em Londres, capital do Império, ano de 1818. Lady Sara, agoniada, aos berros com o marido:

— E agora? Como fica o dote das meninas? Casar três filhas, sem dinheiro, é impossível!

Lord Edward, viciado em jogo, perde toda a fortuna da família numa só noite. Só lhes sobrou a casa!

As filhas, Rose, Mary e Anne, de ouvidos colados atrás da porta, se entreolham, estarrecidas.

Ansiosas para um casamento, vontade de toda moça que se preze. Já tinham sido apresentadas à sociedade como disponíveis e recebendo visitas de pretendentes. Estranha e curiosa essa época. Que coisa!

Anne, a mais talentosa e esperta delas, preocupa-se em auxiliar a mãe. Quer descobrir um modo de resolver a situação. Interessa-se pelo jovem Anderson, futuro herdeiro de Lord Hampton, um Conde afortunado, de grande prestígio social.

Reunidas em seu quarto, as jovens tentam discutir a situação. Casar sem dote é impossível. Mesmo que o noivo aceite, ficariam mal faladas em sociedade. As fofocas, em Londres, são terríveis e inesquecíveis! Uma coisa!

Anne lembra-se logo de um tio de sua mãe, idoso malquisto, não visitado, odiado na família, sem amigos e herdeiros, Sir William. Milionário, dono de minérios de carvão, era agressivo, egoísta, de gênio insuportável por todos que tentaram conviver com ele. Ninguém conseguia agradá-lo, cheio de manias, de temperamento estranho. Uma coisa!

Anne aconselha-se com a mãe e vai visitá-lo, procura fazer amizade, verificar as necessidades do velho, afinal é muito idoso, está vivo, é um ser humano, deve precisar de alguma coisa! Qual seria essa coisa?

Ao tocar a sineta da porta, Anne já estremece, um pânico a surpreende em falar com esse tio que mal conhece. Só ouviu dele coisas muito ruins e, perde a coragem da iniciativa. Lembra-se de Anderson, jovem tão querido, e sente-se mais forte.

Um mordomo, ríspido, pergunta-lhe o que deseja.

Anne avisa-lhe que é sobrinha de Sir William, filha de Sara, que veio conversar com ele.

Espantado, o mordomo John olha-a de cima a baixo e responde que não poderá atendê-la, está ocupado com documentos. Anne insiste, dizendo-lhe que o assunto é grave e ele corre a atendê-la.

Faz com que Anne entre e fique horas esperando o tio, sentada numa cadeira dura. Quando já está quase a desistir, aparece Sir William, com passos arrastados e barulhentos, de bengala, mancando de uma perna.

Seu valete quer ajudar, mas o velho dispensa com estupidez. Ao avistar Anne, pergunta logo:

— Com que então você é filha de Sara, uma irmã que nem sabia que ainda vivia. O que será que a fez lembrar-se desse velho? Só pode ser uma coisa, dinheiro!

Anne, envergonhada, corada até os ossos, responde-lhe que estão bem, sim, lembrando sua mãe de saber da saúde dele, e com saudades do irmão que há muito não via.

— Quem sabe o senhor precisa de alguma coisa? Algum cuidado especial, já está idoso, seria bom ter a família por perto, argumenta, corajosa.

— Uhm...Uhm... Sir William dá uma risada alta, acompanhada de um ataque de tosse tão forte, que seu empregado corre a dar-lhe um copo d’água, com umas gotas dentro.

Anne, assustada, ajuda a colocá-lo em uma cadeira.

Sir William nem agradece, mas fica olhando-a com olhinhos astutos e inteligentes. Acha-a graciosa e lembra-se, involuntariamente, de sua mãe. Talvez a única pessoa que gostou na vida.

— E seu pai, aquele malandro jogador? Como anda? Coitada de sua mãe. Deve passar mal bocados com aquele homem. Bem que a avisamos para não se casar com ele! Pergunta o tio.

Anne, sem pensar, responde rápido:

— Está difícil mesmo, mas vamos indo… Não é por causa dele que estou aqui.

— Ah! Não! Retruca o velho, rindo novamente. Então, por quê?

Anne, nervosa e trêmula, pergunta-lhe se não precisa de nada? Sabe um pouco de enfermagem, gosta muito de ler em voz alta, organiza as despesas e orienta empregados, vem oferecer-lhe seus préstimos.

Sir William, ainda rindo, soube que o pai dela perdeu a casa no jogo e não deixa de admirar a coragem dessa sobrinha esperta, que precisa de dinheiro e vem oferecer trabalho. Foi assim que ele começou sua fortuna.

Os jornais de Londres também faziam fofocas e sobre eles o comentário corria solto. Coisa grave, coisa feia! Que coisa! Mexer assim com o nome deles.

No íntimo, Sir William começa a admirá-la, mas, sem perder a estupidez costumeira, pergunta-lhe se gostaria de ajudá-lo na contabilidade de sua mina de carvão. O contador cometeu uma falha e dispensou-o, na hora. Se ela quisesse substituí-lo, seria bom. Os ganhos seriam poucos e estudaria primeiro o seu desempenho.

Anne não acredita no que está ouvindo e, apesar de tê-lo detestado, sai dali feliz e corre a contar a novidade à mãe e às irmãs.

Inicia logo o trabalho no escritório do tio, que pela idade e desconfiança de todos, está uma bagunça. Trabalhada a fazer. Que coisa!

Sir William, apesar de velho rabugento, anda meio adoentado e, satisfeito pela sobrinha ir diariamente a sua casa, pretende recompensá-la. Só não fala como e quanto.

O tempo passa e a família de Anne, pais e irmãs, ficam impacientes ao saber do baixo ordenado de Anne e o muito trabalho que faz.

A jovem habitua-se, aos poucos, com o velho impaciente e nervoso, o tio que, pelo menos, recompensa-a de alguma forma. É incomum uma moça de sua idade, na sociedade, trabalhar fora e não estar ainda casada, mas conformada, cumpre suas obrigações e, quando pode, guarda um pouco de suas economias num pequeno cofre.

Dedicada ao trabalho com o tio e entendendo um pouco de seus lucros e pagamentos, descobre que existe um grupo de funcionários insatisfeitos, formando uma greve na região das minas.

Ele recebe a notícia com pragas e xingamentos, ameaçando seus empregados com polícia e dispensas, caso não voltem ao trabalho. “Uma corja de vagabundos! ”, exclama. " Coisa de preguiçosos! ”

Anne consegue descobrir uma falha nas suas contas. Realmente, não ganhavam o suficiente para viver, sendo a parte reservada a eles, alterada por um gerente que fica com uma parte dos lucros.

Sir William, devido à idade, andou menos preocupado com as finanças que o fizeram enriquecer. Satisfeito com o trabalho da sobrinha e querendo que continue ao seu lado, expulsa o gerente, readmite os empregados e recompensa Anne com uma soma de dinheiro suficiente para adquirirem a casa da família, novamente.

Chama-a ao seu escritório, abre uma gaveta fechada com a chave e oferece-lhe preciosa gema, uma joia de família, com brilhantes e esmeraldas, o presente de seu futuro casamento com Anderson.

Anne, encantada, mal sabia da existência dessa joia e, agradecida, convida-o como padrinho do casamento, que o tio, meio a contragosto, aceita, aborrecido, de aparecer em público. Coisa chata, mas, para agradar à sobrinha, demonstra afeto.

E assim os dotes das meninas ficaram também salvos, com a garantia do tio que Anne conseguiu transformar.

Essa história repercutiu bem na sociedade londrina, com o casamento legal de Anne, Rose e Mary. 

Que coisa legal, de boa!

 

 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Tanta Coisa… - Hirtis Lazarin

 

Tanta Coisa…

Hirtis Lazarin

 

No caminho da vida

Deparamos com pessoas e coisas

Pessoas que não são grandes coisas

E outras que nos trazem muitas coisas boas.

Mas uma coisa é certa:

Muita, muita coisa vamos descartar.

Por isso e outras coisas

É preciso saber “coisar”.

Coloque cada coisa no devido lugar

Uma coisa de cada vez

Afinal uma coisa é uma coisa

Outra coisa é outra coisa.

Se alguém é cheio de coisas chatas

Coisa chata a gente manda embora.

Logo atrás vem gente fina

Cheiinha de coisas boas

É… gente fina é outra coisa

E gente boa é coisa boa.

E é nesse vaivém da vida

Driblando coisas boas e coisas ruins

Encontraremos, quem sabe,

Essa tal coisa que chamam de felicidade.

           
Entendeu
o espírito da coisa?

 

terça-feira, 21 de maio de 2024

QUE COISA!!! - Helio Fernando Salema

 




 QUE COISA!!!

Helio Fernando Salema

 

 

Numa reunião entre amigos, sempre ocorria nos fins de semana, depois de uma partida de futebol, também conhecida como pelada dos veios. Eles começaram a falar de coisas estranhas que aconteceram. Algumas verídicas e outras, certamente, criadas pelo teor alcoólico e impulsionadas pelo interesse em participar.

 

Houve histórias das mais variadas, alguns mencionaram coisas acontecidas na própria família ou na dos vizinhos. Também de colegas de serviço, amigos e, como não podia faltar, coisas dos inimigos.

 

Depois que quase todos haviam matraqueado, Justino Leal, com a cabeça cheia das coisas ditas pelos companheiros, decidiu falar das coisas de seus parentes. Contou que na sua família todos haviam conseguido ganhar nessas coisas de apostas. Ele era o único que nunca acertou em coisa alguma.

 

Numa noite, seu tio sonhou com um cavalo branco, em disparada. Dias depois foi ao jóquei pela primeira vez. Mesmo sabendo que o cavalo branco, que iria correr naquele dia, era o menos cotado, hesitou por um momento, mas cedeu à voz do sonho e acabou apostando tudo que tinha. Ganhou e trocou o fusca 69 novinho, de cor azul, por outro fusca 69, porém branco… Que coisa! Só porque era o branco da sorte.

 

O irmão, mais velho, várias vezes acertou na coisa da quina. Numa dessas, ganhou tanto que deu uma festa para os amigos e familiares. Foi uma coisa fantástica.

Alguém, então, o interrompeu:

— Você aposta em qual coisa?

— Não, eu não credito nessas coisas!

Todos riram, acabou a reunião e ficaram sem saber se as histórias, eram ou não, coisas verdadeiras.

 


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...