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segunda-feira, 27 de setembro de 2021
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
AS FLORES - O PILEQUE - LEON ELIACHAR - Uma pitada de humor
Nos dois textos abaixo, ambos de Leon Eliachar, temos uma pitada de humor no desfecho.
Vejam que o humor oferece ao leitor um tipo de emoção capaz de reter o texto no subconsciente do leitor.
E é sobre esse assunto que falaremos em nosso encontro de 23 de setembro 21. Sugiro que pesquisem sobre o autor e sobre sua literatura.
As flores - Crônica de Leon Eliachar
Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras,
vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe
perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria:
— Deixe de brincadeira, Epitácio.
Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia:
— Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho
mais onde colocar.
Foi aí que ele compreendeu tudo:
— O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas
flores?
Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia
convencê-la de que não era ele.
— Um de nós dois está mentindo — gritou, furioso.
— Então é você — rebateu ela.
No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que
as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio
ninguém:
— Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram Epitácio. É muita
coincidência.
Vai me dizer que não era você.
Ele não tinha por onde escapar. Insinuou muito de leve que a
mulher devia ter conhecido alguém na sua ausência. Ela chegou a chorar e se
trancou no quarto. A discussão entrou pela noite até o dia seguinte. Epitácio
saiu cedo, sem mesmo tomar café. Bateu a porta com força e levou o mistério
para o trabalho.
Meia hora depois, a mulher saiu e foi ao florista.
— Como vai, Dona Iracema? A senhora ontem não veio, hein? Aconteceu alguma
coisa?
À noite, Epitácio viu as flores e não disse uma palavra, mas a mulher não
parou:
— Seu cínico. Bastou você sair para as flores aparecerem e ainda tem
coragem de dizer que não foi você.
Nessa noite ele teve insônia.
Texto extraído do livro "O homem ao zero", Editora Expressão e
Cultura – Rio de Janeiro, 1968, pág. 275.
O Pileque – Crônica de Leon Eliachar
Airton
saiu da boate cambaleando, não viu quando um automóvel quase o pegou. Não viu,
mas ouviu:
–
Sai da frente, ó palhaço!
Riu
sozinho, porque nem levou susto. Olhou para o alto, viu uma porção de janelas
iluminadas, como se fossem manchetes da solidão que domina Copacabana, às
quatro da madrugada. Queria ir pra casa, mas não se lembrava onde morava. Seus
amigos quiseram colocá-lo num táxi:
–
Deixa que sei ir sozinho.
Veio
andando, andando, sem rumo certo, duas moças o abordaram:
–
Está sem sono, meu bem?
Airton
disse um palavrão, ouviu dois, saiu resmungando, esbarrou num guarda:
–
Tem fogo aí, o meu chapa?
O
guarda acendeu seu cigarro, aproveitou pra filar um, tentou puxar um papo, mas
Airton preferiu continuar andando. Agora o dia já estava clareando, o sol
vermelho esticava as sombras de algumas pessoas que começavam a sair e ele
ainda nem tinha voltado. Sentou-se no degrau de um edifício, chegou um homem
pra reclamar, dizendo que era contra o regulamento. Airton achou graça do
regulamento, porque o homem era um lavador de automóveis e estava complemente
nu. Levantou-se, sem discutir, levou de sobra os respingos da mangueira, mas
não perdeu a pose:
–
Quanto é a lavagem?
Continuou
andando, entrou num boteco:
–
Média, pão e manteiga.
Comeu
devagarinho, pagou, misturou-se com a multidão de homens e mulheres apressados
que tentavam condução para o trabalho. Sentiu-se diferente dos outros, quis
ficar com pena deles, mas acabou com pena de si mesmo, quando percebeu que
estava com um dia de atraso: os outros já estavam vivendo o dia seguinte e ele
ainda estava no ontem.
–
Táxi! Táxi!
Saltou
na porta de casa, decidido de que este seria o seu último pileque. Abriu a
porta com cuidado, entrou devagarzinho, sem fazer o menor ruído. A mulher já
estava na cozinha, preparando o café das crianças:
– É
você, Airton?
Não
teve outro jeito:
–
Sou eu. Tive de fazer serão novamente, acabei num bar com os amigos, juro que
foi a última vez, meu bem.
A
mulher não disse uma palavra, deu-lhe um copo de leite:
–
Acho bom você dormir um pouco, deve estar muito cansado.
Ele
passou pelo quarto dos meninos, deu um beijo na testa de cada um. O menorzinho
acordou, bocejando:
–
Você já vai trabalhar, papai?
Sentiu
vergonha de ser marido, de ser pai, de ser chefe de família. Retirou-se para o
seu quarto, vestiu o pijama, cerrou as cortinas, para que a escuridão
envolvesse o seu drama. Ficou pensando em Nina, sua amante, comparou-a com a
mulher. Há três anos que a conhecera e há duas semanas que havia decidido
romper, definitivamente, para salvar o seu lar. Mas não conseguia esquecê-la,
daí ter apelado para a bebida. Saia sozinho, todas as noites, voltava de madrugada,
não sabia sequer se a mulher aceitava suas desculpas ou se o aceitava assim
mesmo como era, porque o amava muito. Não conseguia dormir, não conseguia
trabalhar, não conseguia mais nada. Deitava-se às oito da manhã, levantava-se
as duas. Há quinze dias não almoçava nem jantava em casa e sua família não
merecia isso. No escritório, resistia a tentação de uma reconciliação com “a
outra”:
–
Diz que não estou.
À
noite era um desajustado, um homem incompatibilizado consigo mesmo, tentando
lavar com a bebida um passado ainda recente. Entrava nas boates, juntava o seu
drama a outros dramas semelhantes, na efervescência do álcool. Todos sorriam,
mas ninguém levava o sorriso pra casa. Pior que o cansaço, a insônia.
Levantou-se, trocou novamente de roupa, foi tomar café com a mulher:
–
Você não vai dormir, meu bem?
Sentiu-se
forte com a doçura e a compreensão da mulher:
–
Não tenho sono, preciso decidir um negócio muito importante hoje.
Tomaram
café, ele saiu apressado. À noite, trouxe balas para os filhos e flores para a
mulher. Jantaram juntos, com luz de vela. De madrugada, ao lado de seis
garrafas de champanha vazias, os dois estavam caídos, também vazios. Acordaram
quase juntos, com o primeiro raio de sol. Ela apertou sua mão, com um sorriso
feliz, ele disse, sem virar o rosto do chão:
–
Meu Deus, já é dia claro, tenho de voltar pra casa!
terça-feira, 21 de setembro de 2021
A CARTOMANTE - Alberto Landi
A CARTOMANTE
Alberto
Landi
Caterina,
recém-casada e ainda desfrutando da lua de mel, foi surpreendida com uma notícia
bem triste.
O
casal foi separado quando irrompeu a Segunda Guerra, e ele é enviado para o fronte
de batalha na Sicília. Não havia alternativa para
dizer não diante da convocação.
Ele
se foi entre prantos e soluços.
Caterina,
desesperada saiu à procura de uma cartomante, que por sinal, era muito famosa,
que atende com hora marcada, com pagamento adiantado e de um valor bem
considerável.
Ela
foi cordialmente recepcionada pela mesma numa sala em um ambiente à meia luz.
— O
que deseja saber minha jovem?
— O
meu esposo foi convocado para a guerra no fronte, e eu gostaria de saber se ele
vai retornar! Por favor, veja nas cartas e na quiromancia o que dizem.
A
cartomante começou a fazer seus ensaios, como de praxe fazia com outros clientes.
Jogou as cartas, olhou... analisou...pensou... repensou...
Caterina
continuava apreensiva e desesperada.
— Por
favor, fale logo, pelo amor de Deus!
— Minha
jovem, não é meu hábito falar aos meus clientes o que as cartas e a quiromancia
me dizem. É isso que me difere das outras cartomantes que existem por aí.
—
Você pode aguardar na sala ao lado, que a minha secretária te levará por
escrito o resultado da consulta.
Caterina foi para outra sala, um tanto
angustiada. Recebeu o envelope pela secretária e não se contendo de tanta
curiosidade e desespero leu o conteúdo.
— Graças
ao bom Deus, pelas boas notícias!
A mensagem dizia: Irás
Voltarás Nunca Morrerás
Passou
muito tempo, um ano se foi e a guerra se findou. Passaram-se mais dias e nada
do soldado retornar.
Caterina
voltou à casa da cartomante, furiosa, esbravejando, disposta a tudo.
—
Calma minha jovem, calma.
—
Como calma? Você disse que meu marido voltaria, onde está ele? Paguei um valor
considerável e tudo que foi dito era mentira.
— Calma,
deixe-me ver o papel.
— Olhe
aqui!
Irá
Voltará Nunca Morrerá
A sábia
e matreira cartomante leu e explicou:
— Minha
jovem, não te enganei.
— Como
não?
— A
minha secretária esqueceu de colocar a pontuação no pequeno texto. Veja;
Irá Voltará Nunca Morrerá
O
correto é:
Irá. Voltará? Nunca. Morrerá!
MADAME SORAYA - Leon Vagliengo
MADAME SORAYA
Leon Vagliengo
Mario conheceu Maria em Fátima, Portugal,
num dia treze de maio, na festa de comemoração do dia da aparição de Nossa
Senhora. Ambos muito devotos à Santa e ambos com vinte e cinco anos,
comemorados também naquele dia. Não foram atributos de beleza que os atraíram;
não eram feios nem bonitos, mas a simpatia e a bondade de Maria logo cativaram
Mario, assim como a gentileza e o carinho de Mario logo cativaram Maria.
Aquela amizade resultou em casamento um
ano depois, realizado exatamente no dia treze de maio, data escolhida
simbolicamente por ambos. Não tiveram filhos, mas viveram felizes, muito
felizes, por treze anos, quando Maria, desgraçadamente, veio a falecer, ainda
jovem, aos trinta e oito anos, acometida por um enfarte fulminante.
A perda de sua esposa, companheira e
amiga de todos os momentos, deixou Mario completamente perdido, não sabia mais
como viver sem ela. Sentia-se muito só, frequentemente sonhava com Maria; mas sempre
a via morta, sua imagem imóvel, sua tez muito pálida, seus lábios arroxeados.
Eram pesadelos terríveis, acordava molhado de suor, chorando, em desespero.
Ao longo de quase treze anos esses
pesadelos foram rareando por artes protetoras de sua mente. Mario foi se
conformando, a vida encontrou seus trilhos; mas continuava infeliz, sempre com muitas
saudades da companheira maravilhosa com quem compartilhara uma vida tão
tranquila, com quem vivera tantos bons momentos. Algumas vezes até pensou em procurar
um médium, tentar um contato espiritual com Maria, mas logo descartava isso,
pois não se coadunava com a sua crença.
Pouco faltando para que se completassem
treze anos da morte de Maria, uma noite sonhou com ela novamente; porém, desta
vez ela lhe sorriu e disse que estava bem, embora em outro plano, mas sentia a sua
falta e não queria que ele estivesse tão triste. “Procura uma cartomante para
conhecer a tua sorte” ela o aconselhou no sonho; e esse sonho se repetiu
exatamente igual ainda duas vezes naquela mesma noite, o que não era nada
comum.
Mario acordou e lembrou-se inteiramente
do sonho com ela, como sempre acontecia. Achou muito, muito perturbador aquele
sonho repetido. Embora fosse uma pessoa realista, não conseguia deixar de
pensar que poderia tratar-se de uma recomendação vinda de Maria, vinda do Além.
E imediatamente reagiu, não aceitando a ideia estranha de procurar uma
cartomante em razão de um sonho. E nos dias que se seguiram, tudo acontecia
novamente: admitia tal hipótese, reagia,
negava; admitia, reagia, negava.
Após uma semana incomodado com aquela
cisma que não cessava, Mario voltou a sonhar novamente o mesmo sonho: Maria
dizendo que estava bem e que ele procurasse uma cartomante para conhecer a sua
sorte.
Levantou-se da
cama, ainda aturdido com mais uma repetição daquele sonho. Como fazia em todas
as manhãs, recolheu a correspondência que o zelador do prédio deixou na porta
da entrada de serviço de seu apartamento. Entre elas um folheto, onde leu: “As
cartas não mentem jamais – venha conhecer a sua sorte com Madame Soraya”,
seguido do endereço da cartomante.
— Assim já é demais! – Exclamou em voz alta,
apesar de estar só.
Mario, então, decidiu-se. Resolveria
alguns assuntos pela manhã e iria à cartomante após o almoço. Teria que
deslindar esse assunto que o estava atormentando. Afinal, pensou, “estou com
cinquenta e dois anos, não devo nada a ninguém, o que me impediria de consultar
uma cartomante? Que mal haveria? Seria como atender a uma recomendação póstuma
de minha amada e saudosa Maria”.
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O >>>>
O endereço era no bairro da Bela Vista,
rua Treze de Maio. Mario logo percebeu a coincidência do endereço com aquela
data tão importante para ele. Naquele contexto, parecia até mais do que uma simples
coincidência, mas não quis acreditar nisso. “Estou imaginando coisas demais”,
pensou.
O sobrado era simples,
mas bem conservado. Mario tocou a campainha. Uma senhora de boa aparência, nem
feia e nem bonita, veio abrir a porta, e ele perguntou por Madame Soraya.
— Sou eu mesma – disse ela sorrindo, revelando
dentes brancos e perfeitos.
— Vim para consultá-la sobre minha sorte –
respondeu Mario.
Soraya pediu que ele entrasse e o
encaminhou para uma saleta simples, com apenas uma mesa e duas cadeiras
confortáveis. Convidou-o a sentar-se numa das cadeiras, pegou o baralho e
sentou-se na outra.
— Eu já o esperava. Hoje eu tive um forte pressentimento,
li a minha própria sorte e ela revelou que um senhor viria me consultar e mais
algumas coisas...– deixou a frase no ar, sem concluir.
Enquanto ela falava, Mario ia se
encantando com aquela mulher muito bem conservada, de voz doce e suave, vestida
com simplicidade e bom gosto, aparentando uns cinquenta anos. Bem diferente da
imagem que tinha das cartomantes, que imaginava muito velhas, mal-educadas,
gordas e desleixadas.
Ela continuou a lhe falar, fez várias
perguntas enquanto embaralhava e dispunha cartas sobre a mesa, e tornava a
embaralhar e perguntar. Lendo nas cartas, aos poucos foi confirmando para Mario
coisas que ele já sabia e conquistando a confiança dele nos seus vaticínios.
Descobriu o sentimento de tristeza que o dominava e lhe assegurou: “a partir de
hoje, treze de maio, o senhor será feliz novamente, pois assim dizem as cartas,
e as cartas não mentem jamais”.
E sorriu para ele.
Mario teve a
nítida impressão de que ela sabia mais alguma coisa que não contou.
— Hoje é treze de
maio? – Perguntou, surpreso, ao ouvi-la dizer, mas já lembrando que sim, e que era
a data do seu aniversário e do de Maria.
A simples menção
daquela data, tão significativa para ele, fez desencadear uma sequência de
fatos em sua mente: os sonhos com os conselhos de Maria, os treze anos passados
de sua morte e completados naquele dia, o endereço da cartomante, o
pressentimento de Soraya...
Instantaneamente,
tudo ficou muito claro! Mario sentiu, afinal, que havia compreendido os seus
sonhos repetitivos, que havia compreendido as mensagens de Maria, que havia
compreendido o presente póstumo de amor e carinho que ela lhe dera. O coração
passou a bater muito forte e os olhos encheram-se de lágrimas, enquanto em seu
pensamento dirigiu um profundo agradecimento a Maria.
Sim, para Mario
ficou claro que Soraya, a cartomante, fora destinada para mudar o seu destino. E
como ela disse que havia lido nas cartas a própria sorte, a sua atenção tão
carinhosa deixava evidente que já sabia que seria a sua nova companheira,
presente da sua amada e inesquecível Maria.
Naquele momento, de
tão emocionado, Mario nem pensou na hipótese da reencarnação...
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O >>>>
O Visionário - Adelaide Dittmers
O Visionário
Adelaide
Dittmers
A
lua banhava as pedras da praça com sua luz prateada. O silêncio espalhava-se pela pequena cidade
adormecida. Ao longe, ouvia-se o latido
de um cão.
Atrás
de grossa grade de ferro, um homem olhava a lua, extasiado. Os grandes e doces olhos castanhos refletiam
a inquietação, que lhe pesavam na alma.
Estava
preso há um ano por ter se defendido de um soldado, que o agredira por ele
expor ideias inaceitáveis na época. Seu
crime: acreditar que um dia o homem chegaria à lua.
Era
considerado louco. O clero naqueles
tempos obscuros o considerava herege, mas ele não tinha medo de dizer o que
pensava. O universo o atraia como um
imã. Havia muitos mistérios a descobrir
no mundo, refletia.
Naquela
noite iluminada pela lua cheia, o homem não conseguia tirar os olhos do pequeno
satélite.
Dentro
da cela, três homens conversavam e um deles dirigiu-se ao
— O
que você está olhando, Tomé?
— A
lua! É maravilhosa!
—
Olhe para coisas mais perto, como sair desta infernal prisão.
— Gosto
de pensar que um dia o homem chegará à lua!
Disse com firmeza.
Os
homens caíram na gargalhada e um deles exclamou:
—
Homem, por isso está preso e o chamam de louco.
Pare de dizer asneiras.
Tomé
ignorou as risadas. Estava acostumado com as chacotas de que era alvo por suas
crenças. Não se importava de ser
considerado maluco. Achava que as
pessoas não enxergavam além da ponta do nariz.
Voltou-se
para a janela e os pensamentos voaram para sua difícil vida. Desde menino perguntava-se sobre tudo o que o
rodeava, querendo compreender como as coisas funcionavam. Os pais não sabiam como lidar com aquele
filho esquisito e curioso, que os enchiam de perguntas. Eram modestos lavradores, analfabetos e
supersticiosos. Tinham um pequeno pedaço
de terra, onde plantavam mandioca e a curiosidade do filho os deixava muito
preocupados: por que o tempo influenciava na colheita? Por que as frutas só apareciam em
determinadas épocas? Ao ver os bois
puxarem o arado, dizia que deveria ter outra maneira de se fazer isso sem usar os
pobres animais.
Cresceu
admirando o céu estrelado. Sentava-se
observando o firmamento infinito, que se perdia de vista. Sentia-se minúsculo diante daquela vastidão. Será que havia outros mundos iguais ao que
vivia? Haveria pessoas naqueles mundos? Haveria rios e animais?
Foi
expulso da catequese por expor suas dúvidas.
O pai então o proibiu de fazer perguntas, que considerava
estúpidas. Tomé tornou-se calado e
taciturno.
Muito
jovem, perdeu os pais. Continuou a
cuidar do pedaço de terra, que lhe dava o sustento, mas não conseguia estancar
da alma a necessidade de expressar a torrente de suposições, que tinha dentro
de si.
Imerso
em suas recordações viu a aurora surgir com os tons rosados e alaranjados, que
anunciam o nascer do sol. O sono
apoderou-se dele. Como um sonâmbulo, foi
trôpego até o catre e adormeceu.
Acordou
sobressaltado sacudido por um guarda, que o chamava:
— Acorda
Tomé! Acorda!
— O
que aconteceu? Perguntou ainda atordoado e confuso.
—
Venha: o juiz autorizou sua liberdade!
Sacudindo
a cabeça para ligar os fios apagados pelo sono, olhou para os companheiros de
cela. Um deles gritou:
—
Vai rapaz e vê se tem juízo e não anda por aí dizendo bobagens.
Tomé
derramou um olhar triste neles. Como
queriam estar em seu lugar. Podiam ser ladrões ou assassinos, mas eram humanos
como ele. Aproximou-se e despediu-se com
um forte aperto de mãos.
Virou-se
e seguiu o guarda. Quando saiu, o sol já
aquecia o lugar com raios dourados. Uma
carroça puxada por um burro passou, fazendo barulho ao se chocar com as pedras
irregulares da praça. Uma negra com uma
cesta na cabeça também passou por ele requebrando as fartas ancas.
¨Pobre
mulher¨ pensou observando-a. Uma
mercadoria nas mãos de homens ignorantes e brutos.
Estava
voltando à vida, mas a mordaça, que abafava sua voz não o deixava ser
completamente livre. Era refém daquilo
que enxergava ao longe, tanto quanto aquela escrava negra era por não se
pertencer.
quinta-feira, 16 de setembro de 2021
Teus lindos olhos - Alberto Landi
Teus lindos olhos
Alberto
Landi
Como
são lindos os olhos teus
São
castanhos como os meus
Falam
somente de amor
Os
teus são de encantar
De
uma beleza invulgar
Ao
amar, mudam de cor
Quando
trocamos olhares
E
falamos de amor
Ficam
mais brilhantes
São
como da cor daquelas conchinhas do mar
Mais
parecem lapidados diamantes
Esses
teus olhos castanhos, meu Deus
São
de um verdadeiro encanto para mim
Um
encanto sem fim
Eles
querem se juntar com os meus
E
sempre falar de amor!
METSOVO, UM ENCANTO DE LUGAR - Alberto Landi
METSOVO, UM ENCANTO DE LUGAR
Alberto
Landi
Metsovo,
é uma pequena cidade turística, situada nas montanhas, ao norte da Grécia.
Era
um dia ensolarado e outonal. O frio aumentava perceptivelmente. A neve
amarelava sob os raios do meio dia, e no amarelidão, com uma precipitação suave
e doce, a densidade alaranjada da noite, chegava mais cedo, nesse belo e
romântico lugar.
O
vento farfalhava a folhagem sedosa e úmida misturada à chuva morna que caía, no
fim de tarde.
As
casinhas de madeira com telhados bruscamente quebrados, hortas gradeadas,
portões com desenhos e alizares entalhados nas janelas.
Uma
casa curiosa e baixa, em antigo estilo russo. Era revestida com azulejos
esmaltados, pirâmides com facetas para fora, parecido com os antigos palácios
moscovitas.
Ela
com aparência sempre linda, o vento esvoaçando seus lindos cabelos, com as
mangas arregaçadas e a barra suspensa e presa na cintura, ela sempre me
surpreendia com seu semblante majestoso e cativante, mais ainda, em cima dos sapatos
altos, num vestido branco aberto com um corte, bem amplo. Ali seu encanto era
maior e mais nobre ainda.
À
noite, no quarto a lenha ardia dentro da imensa lareira. Havia um tapete
estampado, pesadas cortinas de brocado e cores reluzentes e acima da lareira um
quadro grande retratando uma voluptuosa deusa.
O
fogaréu ardia na lareira, ela vestida e envolta em um vistoso casaco de lã
escarlate, todinha forrada com pele, era de tirar o fôlego.
Dizia
à ela: O amor é lindo, e bela são as
pessoas que o tem em mãos e sabem cultivá-lo.
A
luminosidade da lua, entrava pela janela do quarto, fazendo um ambiente
confortável e mais romântico ainda.
O
bem vem com o tempo, o melhor com a alma, disse.
Pela
Tv assistíamos canções, era como a água de uma represa. Parece que parou, que não
se move, mas, lá no fundo, ela flui continuamente e a calmaria de sua superfície
é aparente.
Nas
montanhas navegavam nuvens baixas de algodão com pontas dependuradas, através
das quais em saltos, precipitavam-se as chuvas cálidas com cheiro de terra e
suor que lavavam da terra os últimos pedaços da blindagem do gelo quebrado.
Foram
essas algumas observações que fiz desse encanto de lugar!
Antonio Moura - Adelaide Dittmers
Antonio Moura
Adelaide
Dittmers
Antonio
Moura desde jovem mostrava habilidade em negociar e vender. Na faculdade, revendia artigos esportivos
para os colegas, amealhando consideráveis quantias de dinheiro, parte das quais
entregava aos pais, que tinham parcos rendimentos e parte usava, frequentando
bons restaurantes, em encontros com belas mulheres, roupas caras: conseguiu até
comprar um carro usado. Muito ambicioso,
seu grande objetivo era vencer na vida e deixar para trás tudo aquilo que lhe
faltara na infância e adolescência.
Após
se formar em administração de empresas, empregou-se em uma grande empresa
varejista, com lojas espalhadas por todo o país. Esperto, eficiente e
trabalhador, foi galgando vários degraus na carreira e depois de alguns anos
chegou à posição de diretor comercial.
Uma
verdadeira raposa nos negócios, conseguia fechar vendas e compras, que deixavam
os que o rodeavam boquiabertos. Muito
respeitado pelos donos da empresa, gozava de livre acesso a todos os
departamentos.
A
alta remuneração que recebia proporcionava-lhe um alto padrão de vida. Usufruía com sofreguidão o sucesso, que
conquistara. Casara-se cinco anos depois
de formado e tinha dois filhos. Dizia a todos que fora amor à primeira vista,
mas os amigos mais próximos, que o conheciam bem, duvidavam dessa afirmação,
porque a esposa era de família muito rica e de projeção na sociedade. Vaidoso, exibia
sua linda mulher, como um troféu nos inúmeros eventos e festas, que frequentavam.
Na
vida profissional, era muito exigente com os subordinados, que precisavam cumprir
suas metas e até superá-las. Não
tolerava erros ou displicência no trabalho.
Entretanto, quando percebia que algo não estava correndo bem com algum
deles, mostrava-se compassivo e interessado em ajudar com palavras de incentivo
e de estímulo. Por isso, era muito
admirado e mesmo querido por eles.
Amoroso
com os pais, dava-lhes uma polpuda mesada para que tivessem uma vida farta e
sem preocupações. Nunca negava esmolas e
se apiedava dos menos favorecidos. Em
casa, os empregados domésticos eram respeitados e alguns deles tinham a escola
dos filhos paga por ele. As pessoas à
sua volta, consideravam-no um homem correto e generoso.
Numa
manhã, Antonio estava em reunião com fornecedores. Lá fora, o vento e a chuva
fustigavam as enormes janelas de vidro, abafando uma discussão acalorada, que
exaltava os ânimos dos participantes. Com uma voz fria e olhos faiscantes e
resolutos Antonio despejava argumentos firmes em cima dos homens, cujos rostos
crispavam-se de irritação.
-
Meus caros, não compro nenhuma peça de seus produtos, que estão acima dos
preços de mercado, se não me entregarem dez por cento da compra.
— É
muito dinheiro. Vamos ter prejuízo.
—
Volto a dizer, o preço que vocês estão cobrando é o mais alto e com certeza não
conseguirão vender a mercadoria a ninguém.
—
Você está exagerando, Antonio, está abocanhando nosso lucro.
—
Não chore, Alberto, você sabe muito bem que sua margem de lucro é alta.
—
Podemos dedurar você à diretoria.
—
Sairiam perdendo, respondeu Antonio, com um sorriso irônico. Com os preços que
vocês têm, nunca mais venderiam nada para esta empresa, o que seria um mau
negócio.
O
outro balançou a cabeça desanimado. A
raiva o consumia, mas manteve o controle.
Aquela venda era muito importante para eles. Engolindo com dificuldade o
desfavorável desdobramento da negociação, exclamou contrariado:
—
Fechado! Damos a você os dez por cento.
Ao dizer isso, desapertou a gravata, como se esta o estivesse sufocando.
Os
outros dois homens, que acompanhavam Alberto, entreolharam-se aturdidos.
Antonio
disfarçou um sorriso de vitória. Mais
uma vez conseguira.
Nesse
momento, seu celular tocou. A voz que
atendeu era completamente diferente, doce e suave.
— Te
ligo depois. Estou em reunião.
Após
os acertos da transação, os fornecedores despediram-se. A tensão ainda flutuava pela sala. Antonio, com um sorriso simpático,
despediu-se deles com um forte aperto de mãos e uma batidinha nas costas.
—
Não se zanguem. Estão fazendo um ótimo
negócio e vocês sabem disso.
Quando
ficou só, olhou para a chuva, que continuava a tamborilar na janela. Pegou o
celular e ligou de volta para a pessoa que lhe chamara.
—
Olá querida! Tudo bem? Sua voz era meiga e os olhos pareciam
derramar mel por toda a sala. Era outro
homem. Rendido e apaixonado.
—
Vamos ter que cancelar nosso encontro hoje. Lúcia marcou um jantar e não posso
desagradá-la. Anda muito estranha. Parece desconfiada.
A
voz do outro lado alterou-se, ao que ele respondeu:
—
Nunca te prometi que iria me separar de minha mulher. Nunca te enganei, mas você é a mulher mais
importante da minha vida.
Depois
de um longo diálogo, em que procurou ser o mais amoroso possível, desligou o
celular. Sua expressão era séria. Como
sempre tinha sido convincente, mas nunca poderia explicar à sua amante que o
dinheiro e a posição social eram mais importantes que o amor.
Pegou
o paletó e saiu para o almoço. No
caminho, enviou uma mensagem para a esposa:
— Oi
amor! Pode confirmar o jantar hoje à noite.
Amo muito você.
Mais
adiante, encontrou o presidente da empresa. Abraçados foram almoçar,
conversando e rindo animadamente.
Ela chegou - Alberto Landi
Ela
chegou
Alberto
Landi
Ela
mora no Olimpo
Lá
no azul do céu limpo
Toda
ela é só para mim
Uma
deusa tão linda assim
Que
ela seja sempre bem-vinda
Aqui
em meu jardim
Será
sempre bela assim
Ela
me inspira
E do
seu bojo retira
Lindos
versos de amor
Em
qual templo devo reverenciá-la
A
deusa com que sempre sonhei
E
acabei por descobrir
Que
está bem ao meu lado
Num
abraço bem apertado
Na
manhã que está por vir
Antes
do romper da aurora
A
deusa chegou de onde mora
Toda
de branca e grinalda
Bordada
de Ouro e esmeralda
Para
o seu amado que a adora!
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA - Suzana da Cunha Lima
A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA
Suzana
da Cunha Lima
Cenário
magnífico naquele belo dia de verão em
Copacabana. Porém Elias só tinha olhos para a bela moça ruiva que o seduzia com
o olhar e com seu balanceio indo para o mar. “Se esta ruivinha me quiser,
pensava, caso com ela.” Divagava como todo rapaz novo diante de uma bela
mulher. E embora seus pensamentos voassem em direção a ela, com todas suas
saborosas implicações, sentia-se inquieto com a situação do país e
principalmente com a do mundo, onde a Segunda Guerra já entrava no seu terceiro
ano na Europa. Agora havia um ator novo e de peso naquele cenário: Os Estados
Unidos haviam entrado em cena, furiosos pelo ataque dos japoneses a Pearl Harbour,
em dezembro do ano anterior.
Ele
pressentia que, cedo ou tarde o Brasil ia ser forçado a tomar uma posição neste
conflito, e sair de sua confortável neutralidade, pois um país do continente americano
havia sido atacado por uma nação extracontinental, o que obrigava o Brasil a
cumprir os compromissos assinados na Carta do Atlântico, alinhando-se ao mesmo.
Já
desde fevereiro daquele ano, muitas embarcações brasileiras estavam sendo
torpedeadas por supostos submarinos alemães e italianos e o presidente
Roosevelt iniciara sua política de boa vizinhança, que se resumia a promessas
de incentivos econômicos, temperada com ameaças veladas. Diante das pressões diplomáticas que o
deixariam isolado no continente americano, o Brasil afinal, cedeu e declarou
guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista, em agosto de 1942, permitindo a
instalação de bases aeronavais ao longo de sua costa norte-nordeste e ganhando
o financiamento para construção da Cia Siderúrgica Nacional.
Esta
era a situação naquele ano de 1942, onde tantos e importantes eventos
ocorreram. Mas naquele momento, e naquela bela tarde, onde o sol se punha, tão
linda e lentamente, os pensamentos de Elias se balançavam como um pêndulo,
entre os cabelos chamejantes de Solange e a possibilidade real de ser chamado a
combater. Era radiotelegrafista de profissão, e dos bons.
Optou
para viver aquele momento da conquista e, apesar da timidez, resolveu abordar a
moça, enquanto ainda era dono de seu destino.
Depois, quem sabe, perguntava a si mesmo, guerra era o imponderável,
tanto se podia sair vivo como morto.
Portanto, não ia perder a menina sem antes tentar conquistá-la.
Não
foi tão difícil como lhe parecera à primeira vista. Solange já estava
interessada nele e juntos iniciaram um romance fora dos padrões da época. Ela
morava com tios bem idosos e a família dele havia se dispersado no interior de
Mato Grosso, para onde ele nunca mais voltou.
Foi
um amor tórrido e inconsequente, sem os freios da família para mostrar as
consequências deste procedimento, principalmente diante da ameaça real de uma
guerra. Como era fácil de prever, Solange engravidou em poucos meses. Ela lhe deu a notícia no dia mesmo em que ele
foi convocado. Olharam-se atônitos nessa
hora e lastimaram aquela guerra distante que haveria de separá-los. Foi uma
despedida difícil e dolorosa para ambos. Talvez apenas naquele instante eles
tomaram consciência do tamanho do sentimento que os unia e quão pesada ia ser a
separação.
Enquanto
muitos convocados faziam seu treinamento no Brasil, Elias foi enviado
imediatamente para a Inglaterra, para treinamento especial em criptografia. Tornou-se um dos melhores nesta área e,
portanto, muito valioso. Enquanto era promovido e muito prestigiado, era ao
mesmo tempo um prisioneiro, pois não podia sair daquele feio prédio cinzento às
margens do Tâmisa. Parece que seu trabalho era não apenas sigiloso, mas muito
importante para o desfecho do conflito. E os ingleses não queriam se arriscar a
que descobrissem onde ele estava.
Enquanto
isso Solange teve sua criança, uma menina ruivinha como ela. Seus tios morreram num acidente de ônibus, e
ela ficou só, naquela casa grande sem calor e amor e, distante do homem que
amava.
Elias
enviava muitas cartas para ela, porém passavam por uma severa censura tanto na
quantidade quanto no teor e ainda tinham a trabalheira de enviá-las com carimbo
da Espanha ou Portugal, países neutros.
Da mesma maneira acontecia o que vinha do Brasil. Só após muitos crivos
de segurança é que ele as recebia.
Isso o deixava muito nervoso e estava a pique
de fugir dali. Mas sabia que o dinheiro
que ganhava ia ser importante para criação de sua filha e possivelmente não
chegaria com vida nem na primeira esquina. Seus conhecimentos eram valiosos
demais para caírem em outras mãos.
No
entanto, ele não desistia da ideia de voltar para o Brasil e usou de muitos
estratagemas, nem todos razoáveis. Sabia que os combatentes feridos voltavam às
pátrias de origem e imaginou um meio de entrar na linha de frente e se ferir de
modo que o recambiassem para sua pátria. Que doce ilusão! Foi falando com um e outro oficial mais
graduado até que conseguiu autorização para ir para a França, ajudar a
Resistência francesa na decodificação das mensagens nazistas, desesperadas
diante da iminência da perda da França com severas perdas em todas as frentes.
Quem sabe lá, conseguiria quebrar uma perna ou braço, algo que o invalidasse
para a guerra? E assim viu-se saltando de paraquedas na Normandia, no dia D,
seis de junho de 1944.
Não
foi nem simples nem fácil, na verdade foi uma péssima decisão. Na descida quebrou um braço e foi, aos
trancos e barrancos, buscar socorro com alguma patrulha que por ali
estivesse. Procurou primeiro seu grupo,
mas ele tinha sido disperso pelos ventos e não estava interessado num
brasileiro que não sabia sequer empunhar um fuzil. Foi engatinhando pelos matos, se escondendo
como podia, gemendo de dor e de frio, lamentando a enorme tolice que fizera.
Nunca
tinha visto uma guerra de perto e ficou horrorizado com tanto sangue, gritos,
mutilações e pelo barulho infernal das bombas e canhões.
Bateu
o medo. O medo horrível de acabar morrendo em terra estrangeira, sem nem saber
bem por que estava lutando. Pior, morrer
sem ver sua filhinha e conseguir voltar para sua pátria e seu amor.
Os
jornais noticiaram aquele desembarque como uma incursão ao inferno. Milhares de homens se esgueirando pelas
praias, as casamatas alemãs cuspindo fogo e morte, o céu pontilhado das luzes
mortíferas das bombas.
Porém
Solange, em sua casinha abrigada no Brasil, só tomou conhecimento do horror
daquele dia, ao receber uma carta do Comando Militar, aquela temida carta que
as mulheres dos combatentes se aterrorizavam só em pensar e que começava sempre
com “Lamentamos...
Sua
contribuição para o esforço de guerra, como se dizia, foi ter que criar sua
filha e enfrentar a vida sozinha.
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