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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Erico Veríssimo Contador histórias




ÉRICO VERÍSSIMO



Érico Lopes Veríssimo foi um escritor brasileiro. Com uma prosa simples e de fácil leitura, tornou-se um dos escritores mais populares da literatura brasileira. Em 1932, publicou seu primeiro livro, Fantoches, e em 1938 obteve sucesso com o romance Olhai os Lírios do Campo, que lhe deu projeção nacional como escritor. Wikipédia

Nascimento: 17 de dezembro de 1905, Cruz Alta, Rio Grande do Sul

Falecimento: 28 de novembro de 1975, Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Filhos: Luis Fernando VerissimoClarissa Verissimo

Influenciado por: Machado de AssisOscar WildeGeorge Bernard ShawHenrik Ibsen

Irmãos: Ênio FonsecaMaria Fonseca

Cônjuge: Mafalda Halfen Volpe (de 1931 a 1975)

 

Frases de Érico Veríssimo:


  • Todos nós somos um mistério para os outros... e para nós mesmos.”

  • A vida começa todos os dias.”

  • Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.”

  • Na minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.”

  • Nenhum escritor pode criar do nada. Mesmo quando ele não sabe, está usando experiências vividas, lidas ou ouvidas, e até mesmo pressentidas por uma espécie de sexto sentido.”

  • Em geral quando término um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’.”

          CURIOSIDADES

  • Quando tinha 4 anos, Érico quase morreu pela meningite, agravada por uma broncopneumonia.

  • Em meados dos anos 30, Érico Veríssimo criou um programa infantil de auditório chamado, “Clube dos três porquinhos”, na Rádio Farroupilha. Entretanto, decide encerrar o programa por motivo de censura. Isso porque o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo), exigiu que o escritor submetesse previamente àquele órgão as histórias apresentadas no programa de rádio.

  • O romance escrito em 1943, “O resto é silêncio” relata o suicídio de uma mulher que se atira do décimo andar. A escolha do tema foi baseada numa história verídica, do qual ele e seu irmão Ênio foram testemunhas, enquanto conversavam numa praça em Porto Alegre.

  • Em 1969, a casa onde viveu em Cruz Alta tornou-se o “Museu Casa de Érico Veríssimo”.

  • Seu filho, Luís Fernando Veríssimo, seguiu os passos do pai e tornou-se um importante escritor brasileiro, o qual se destaca pelas obras de humor como “O Analista de Bagé” (1981) e “Comédias da Vida Privada” (1994).

  • Algumas de suas obras foram adaptadas para cinema e televisão, por exemplo, sua obra “Olhai os lírios do campo” que sob a direção de Herval Rossano, foi uma novela apresentada pela tevê Globo, em 1980. Ademais, sua trilogia “O tempo e o vento” tornou uma série televisiva, apresentada pela Rede Globo em 1985, sob direção de Paulo José.

  • "Biografia de Erico Verissimo:

  • Erico Verissimo nasceu em 17 de dezembro de 1905, em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. Mais tarde, em 1920, foi para Porto Alegre para estudar no colégio interno Cruzeiro do Sul. No final de 1922, os pais do escritor se separaram. De volta a Cruz Alta, Verissimo passou a trabalhar como balconista no armazém de um tio e, em seguida, no Banco Nacional do Comércio.
  •  
  • Em 1926, tornou-se sócio da Farmácia Central. No ano seguinte, para completar a renda, deu aulas particulares de literatura e inglês. Já em 1929, publicou seus primeiros contos em periódicos, como o Correio do Povo. Em 1930, após a falência da farmácia, o autor se mudou para Porto Alegre.
  •  
  • Nessa cidade, conseguiu trabalho na Revista do Globo como secretário de redação e se tornou diretor da revista em 1932. Antes, porém, em 1931, retornou a Cruz Alta apenas para se casar com Mafalda Halfen Volpe (1913-2003). Em 1933, publicou seu primeiro romance — Clarissa —, nome com o qual batizou sua filha, nascida em 1935.
  •  
  • No ano de 1935, publicou Caminhos cruzados, romance que rendeu ao autor a suspeita de ser simpatizante do comunismo. Assim, ele foi chamado a depor no Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul. Três anos depois, em 1938, publicou seu primeiro grande sucesso de vendas, o livro Olhai os lírios do campo."
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  • "Durante três meses, esteve nos Estados Unidos, em 1941, para dar conferências. Dois anos depois, foi morar nesse lá, com a esposa e os filhos, para trabalhar como professor de literatura brasileira na Universidade da Califórnia. Retornou ao Brasil em 1945.
  •  
  • Contudo, em 1953, ocupou o cargo de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, localizado na capital dos Estados Unidos. Três anos depois, estava de volta ao Brasil. Em 1961, teve um infarto, mas logo se recuperou. Já em 1964, manifestou seu apoio à democracia, em oposição ao golpe militar.
  •  
  • Nos anos que se seguiram, o autor, que também era tradutor, continuou dedicado à escrita de seus livros, viajou a Israel, viu a casa paterna, em Cruz Alta, ser transformada em museu e publicou o primeiro volume da autobiografia. Entretanto, quando faleceu, em 28 de novembro de 1975, em Porto Alegre, deixou inacabado seu segundo volume de memórias."


Biografia de Érico Veríssimo

Érico Veríssimo (1905-1975) foi um escritor brasileiro. "Olhai os Lírio do Campo" é sua obra-prima. Foi um dos melhores romancistas brasileiros. Fez parte do Segundo Tempo Modernista. Recebeu o "Prêmio Machado de Assis" pelo conjunto da obra e o "Prêmio Graça Aranha" com "Caminhos Cruzados".

Érico foi um dos primeiros escritores brasileiros a viver exclusivamente de literatura. Explorou vários gêneros literários, mas foi no romance que mostrou sua grande capacidade de criação.

Infância e Juventude

Érico Lopes Veríssimo nasceu em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, no dia 17 de dezembro de 1905. Era filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e de Abegahy Lopes, uma tradicional família de proprietários de terras, mas que perdeu tudo no começo do século.

Estudou no Colégio Venâncio Alves, em Cruz Alta. Com 13 anos já lia autores nacionais como Aluízio AzevedoJoaquim Manuel de MacedoCoelho Neto, e também autores estrangeiros como Dostoievski e Walter Scott.

Em 1920, Érico Veríssimo foi para Porto Alegre e ingressou no colégio interno Cruzeiro do Sul, mas em 1922, teve que sair da escola, um ano antes de se formar, pois, sua mãe deixou o marido e voltou para a casa de seus pais.

Érico empregou-se no Banco Nacional do Comércio. Com 20 anos começou a trabalhar na farmácia de um parente. Dava aulas de inglês e fazia suas primeiras traduções.

 

Carreira literária

Em 1929, Érico começou a escrever contos. Seu primeiro conto "Chico: um Conto de Natal”, foi publicado no periódico mensal "Cruz Alta em Revista". Em seguida, seus contos foram publicados em importantes revistas e jornais.

Em 1930, mudou-se para Porto Alegre para se dedicar apenas à literatura. No ano seguinte, foi contratado para trabalhar como revisor e tradutor na redação da Revista Globo. Traduzia artigos de jornais e revistas estrangeiras, época em que conviveu com diversos escritores.

Em 1932, Érico Veríssimo estreou na literatura com um livro de contos, Fantoche. Nesse mesmo ano, passou a dirigir a Revista Globo.

Em 1933, publicou o romance Clarissa, obra que marcou o início de sua popularidade. Desde então, passou a exercer intensa atividade literária.

A obra de Érico Veríssimo se destacou nas décadas de 30 e 40, quando o romance, mais do que a poesia e o conto, predominou na literatura brasileira, enveredando-se principalmente pelo regionalismo e pela abordagem psicológica. O marco inicial da Segunda Geração Modernista foi o romance A Bagaceira de José Américo de Almeida.

O romance regionalista ganhou novo impulso com Rachel de Queiroz e o drama da seca no Nordeste, e com José Lins do Rego, cuja ficção retrata a decadência dos engenhos de cana-de-açúcar.

O Rio Grande do Sul também esteve presente na ficção da década de 30, por meio de Érico Veríssimo, que, em uma fase, recriou o cotidiano da cidade grande e, em outra, reconstituiu epicamente os episódios da formação social de seu Estado.

Entre os anos de 1941 e 1945, o escritor proferiu palestras sobre a literatura e a sociedade brasileira e deu aulas, de literatura brasileira, como professor visitante, nas universidades americanas de Berkeley e Oakland

Érico Veríssimo narrou suas impressões dessa época nos livros “Gato Preto em Campo de Neve” (1941) e “A Volta do Gato Preto” (1945).

 


 

Obras de Érico Veríssimo

  • Fantoche, contos, 1932
  • Clarissa, ficção, 1933
  • Caminhos Cruzados, ficção, 1935
  • Música ao Longe, ficção, 1935
  • A Vida de Joana D'Arc, biografia, 1935
  • Um Lugar ao Sol, ficção, 1936
  • As Aventuras do Avião Vermelho, literatura infantil, 1936
  • Rosa Maria no Castelo Encantado, literatura infantil, 1936
  • Os Três Porquinhos, literatura infantil, 1936
  • Meu ABC, literatura infantil, 1936
  • As Aventuras de Tibicuera, romance didático, 1937
  • O Urso com Música na Barriga, 1938
  • Olhai os Lírios do Campo, ficção, 1938
  • A Vida do Elefante Basílio, 1939
  • Outra Vez os Três Porquinhos, 1939
  • Viagem à Aurora do Mundo, 1939
  • Aventuras no Mundo da Higiene, 1939
  • Saga, ficção, 1940
  • Gato Preto em Campo de Neve, impressões de viagem, 1941
  • As Mãos de Meu Filho, contos, 1942
  • O Resto é Silencio, ficção, 1942
  • A Volta do Gato Preto, impressões de viagem, 1946
  • O Tempo e o Vento I, O Continente, 1948
  • O Tempo e o Vento II, O Retrato, 1951
  • Noite, novela, 1954
  • Gente e Bichos, 1956
  • O Ataque, novela, 1959
  • O Tempo e o Vento III, O Arquipélago, 1961
  • O Senhor Embaixador, 1965
  • O Prisioneiro, 1967
  • Israel em Abril, 1969
  • Incidente em Antares, 1971
  • Solo de Clarineta, memórias, vol.I, 1973; Vol.II, 1975






Às avessas dos olhos - Pedro Henrique



Às avessas dos olhos

Pedro Henrique

 

Ouço emergir do canto os perversos espinhos que penetram minha alma com a fervura de um passado há muito defenestrado.
     A cada nota retorno ao antigo porão onde fui coroada pela amargura de se seguir os dias sentindo o desprazer de ser preenchida com vida.
     Pois quando minha memória é arrastada aquele lugar, não vislumbro se não um desejo hercúleo de beber o cálice da morte.
     Digo a ti caro leitor, que quando criança saia para brincar com meus amigos da rua de todos os piques. Era uma espécie de apogeu da felicidade aqueles momentos que foram, com o tempo, dados para os pássaros comerem.
     Eram tantas e tantas brincadeiras. Pular corda era a minha única preocupação ao chegar à escola. Eu só queria deleitar-me no olhar aprazível e confortável da boca da infância onde jazia o amor e a pureza.
     Porém, ao chegar em casa, o que me esperava era um porão sujo, fedido e escuro.
    Vovó dizia que lá era o lugar onde meninas más deveriam ficar. Perguntava-me se eu detinha em mim o próprio inferno, pois dormir com os ratos não é um castigo, é ser empurrada ao abismo da condenação peremptória de seus atos e tudo isso por um belo dia ou um triste dia ter jogado mamãe do alto do nosso terraço. 

 


Teodora - Hirtis Lazarin

 

 


Teodora   

Hirtis Lazarin 

 

Os galhos do majestoso flamboyant estão  esqueléticos, quase nus. 

O vento se incumbe de espalhar o cheiro suave e melancólico das folhas amarelecidas pelo outono. Num voo preguiçoso e silencioso, elas se acomodam, desordenadamente, pelo jardim da pequena casa construída ao fundo do terreno. E atapetam o piso da varanda pequena que tem samambaias de metro pendentes do teto. Cortina e um verde feliz. 

A casa é antiga, mas o frescor da tinta branca que a reveste, ressalta o primor e o zelo de quem lá morava. 

Era ali, nessa varanda, que Teodora, numa cadeira de balanço, passava seus finais de tarde.

As pernas já não caminhavam mais e os olhos embaçados tentavam ler as poesias que escrevera e preenchiam dezenas e dezenas de folhas do caderno todo enrugado pelo uso e pelo tempo. Com dificuldade trocava os versos de lugar e as rimas não mais rimavam com a perfeição de outrora.

Eu fingia que tudo era tão perfeito só pra vê-la sorrir, um sorriso silencioso, mas que eu entendia vir lá da profundeza de sua alma poética. Ela confiava em mim.

Há dez anos, na biblioteca da faculdade, abaixei-me pra apanhar os óculos que escaparam das mãos de uma senhorinha de cabelos brancos. Estava cercada de tantos livros abertos e esparramados sobre a mesa que não sobrava espaço nem pra uma agulha.  À primeira vista, uma “louquinha” perdida no mundo das letras. 

Mas, algumas palavras cordiais e alguns segundos bastaram pra eu entrar em sintonia com aquela senhora. Inexplicável porque sempre fui tímida, introvertida e muito fechada a novos amigos.

Encontrei uma amiga pra beber cerveja em tardes de verão, apreciar um bom vinho em noites frias e analisar um livro de autor desconhecido. E por que não rabiscar poesias?

Dividíamos também todas as tristezas, sem economia nas palavras de conforto.  Sempre juntas, encontrávamos solução aos problemas.

Ela amou calorosamente, mas não se casou. Seu amor ao estudo era tão grande que não poderia ser substituído por um casamento.

Faz uma semana que Teodora me deixou. O vazio da sua ausência desarranjou minha realidade. Não me preparei pra perdê-la.

Sinto saudades do seu abraço que me acolhia com a calmaria azul das águas, rio abaixo. Era gostoso, tinha gosto de um amanhecer ensolarado.

 

 

No dia do SIM - Alberto Landi

 



No dia do SIM

Alberto Landi

 

Imaginemos o automóvel chegando lentamente à porta da igreja. No dia do casamento, o tempo parece desacelerar por uns instantes.

Lá dentro, o coração da noiva pulsa como se quisesse marcar cada segundo daquele momento.

A porta se abre, ela olha para seu pai, aquele que a embalou nos primeiros passos e a amparou nos eventuais tropeços da vida. Ele estende a mão firme e tremula ao mesmo tempo.  Ela a segura, sentindo a força que sempre esteve ali, mas também a doçura que a vida inteira a protegeu.

Seus olhos se encontram e não é preciso dizer nada. Cada ruga, cada brilho no olhar dele conta história de noites mal dormidas, risos partilhados.

Ele respira fundo, como quem sabe que está prestes a entregar ao mundo o maior tesouro que já guardou.

Ela, com um vestido leve e o coração carregado de lembranças, deixa-se conduzir.

A cada passo é como se um filme passasse na mente de ambos: a menina com laços no cabelo, o diploma erguido com orgulho, as conversas, a mesa de jantar… E agora o corredor que a leva ao altar.

O braço do pai, agora entrelaçado ao dela, é a ponte entre as duas etapas da vida.

E então, nesse momento tão especial, sentimos a presença de nossos pais queridos ao nosso lado, guardando no coração um turbilhão de emoções.

Alguns nos abraçam com a presença física, outros nos envolvem com o calor eterno da lembrança tão viva quanto o amor que um dia nos deram.

A noiva avança em passos lentos, sentindo o coração pulsar a cada olhar de amigos e parentes que a acompanham com ternura.

O buquê, um pequeno relicário, repousa discreto aos olhos, mas imenso no significado. Dentro dele, a lembrança viva de quem, mesmo ausente, caminha com ela nesse instante único.

A todos aqui presentes ou na eternidade, dedicamos hoje e sempre nossa homenagem repleta de gratidão e amor, que atravessa o tempo.

Tejo rio de alma portuguesa - Alberto Landi

 


Tejo rio de alma portuguesa

Alberto Landi

 

Não é apenas um rio, é caminho, memória e poesia que se deita sobre Lisboa ao cair do sol.

Suas águas guardam os segredos dos navegadores que ousaram partir rumo ao desconhecido, levando consigo o fado da saudade e a esperança de novos mundos.

Nas suas margens, a história se fez em pedra e sal. Foi testemunha de reis e poetas, de partidas dolorosas e regressos celebrados.

É espelho de luz que torna Lisboa sui generis, dourando as suas sete colinas e refletindo o coração de um povo.

Chamar o rio é chamar pela essência de Portugal, nasce longe, mas encontra no Atlântico a liberdade que sempre inspirou os portugueses.

Não corre apenas pelas terras, mas pelas veias de quem vive lá, lembrando que o destino se escreve sempre entre partida e regresso.

Além de rio, é casa, abraço e saudade!

A dama da noite - Alberto Landi

 



A dama da noite

Alberto Landi

 

No início dos anos de 1900, Londres adormecia sob o véu úmido da neblina, mas os bairros de Covent Garden e Soho permaneciam acordados.

As ruas de pedra refletiam a luz mortiça dos lampiões a gás, e os cocheiros apressados ainda cruzavam as avenidas ladeadas por bancos e escritórios.

Covent Garden e Soho são centros sensuais e artísticos de Londres, com teatros, lojas e galerias notáveis.

Bem antes das edificações, eram regiões de fazendas e parques pertencentes a diversas ordens religiosas.

São ruas estreitas e cheias de charme, encontram-se museus fantásticos, livrarias e restaurantes e um espírito boêmio que nunca se apaga.

Juntos são um verdadeiro ponto de encontro, de estilo, culturas e artes, tradição e modernidade convivem lado a lado.

Era nesse cenário que surgia a Dama da noite.

Vestida em seda escura, chapéu enfeitado com penas e luvas de couro, caminhava com a postura impecável de uma senhora de alta sociedade.

Aos olhos de qualquer transeunte, parecia mais uma mulher elegante, talvez tarde da noite, voltando de um jantar. Mas sob o tecido refinado escondia-se uma lâmina afiada, fria como sua alma.

Nos últimos meses, comerciantes e banqueiros de reputação duvidosa haviam sido encontrados mortos, suas gargantas cortadas com precisão cirúrgica.

A polícia atribuía os crimes a ladrões de rua, mas os detetives mais atentos sabiam que algo destoava, nenhum bem era levado, apenas vidas ceifadas.

Naquela noite, o alvo era um financista de nome Harold, poderoso que enriquecera arruinando famílias. A dama o seguiu quando ele deixou o clube privado em Aldergate. Ele tinha uma vasta barriga provável de tanto beber cerveja, caminhava confiante. Não notou a figura feminina que o acompanhava a distância, como uma sombra entre as sombras.

Mas, havia um imprevisto. Um jovem policial recém-incorporado de nome Edward, estava de ronda naquelas proximidades. Ele observava aquela mulher distinta demais para caminhar sozinha àquela hora, com passos decididos, quase predatórios, como se a escuridão fosse cúmplice de sua caçada.

A suspeita o fez segui-la discretamente.

Quando Harold entrou num beco para encurtar caminho a dama acelerou o passo. O brilho metálico surgiu sob a luva. Mas antes que pudesse golpear, o policial surgiu com um grito.

— Pare onde está!

A lâmina congelou no ar. Harold cambaleou para trás sem entender o que acontecia. A mulher gritou lentamente e seus olhos azuis faiscavam sob o véu.

— Você não sabe o que faz jovem policial, disse ela com voz firme quase maternal. Esse homem é um parasita. Londres somente suspira porque eu limpo sua sujeira.

Edward hesitou. A autoridade em seu tom era quase hipnótica e parte dele queria acreditar que havia justiça no que ela dizia porem, a lei era clara. A justiça não é feita assim, respondeu, mantendo a mão na arma.

Solte a lâmina! - gritou ele imperativamente, a voz sem margem para réplicas.

Por um instante o beco pareceu suspender o tempo: a nevoa, o cheiro de carvão, o medo e a fascinação. A dama ergueu o queixo como se aceitasse o desafio.

O conflito estava traçado: entre a lei e a vingança, entre o dever e o fascínio, entre um jovem policial aparentemente inexperiente e uma mulher sádica que transforma o crime em ritual.

A lâmina cintilava sob o brilho fraco do lampião. Harold tremulo, encostou-se a parede de tijolos, o suor frio escorrendo pela testa.

A dama deu um passo à frente, os olhos fixos no policial.

— Você é jovem demais para entender. Eu faço o que vocês, policiais não têm coragem de fazer.

Edward engoliu em seco, mas mantinha o dedo firme no gatilho da arma já apontada para a dama.

— Não é coragem o que falta – disse a voz firme do policial. — Inexistência de compaixão, empatia e essência humana.

Ela sorriu um sorriso triste, quase elegante, como se fosse a última vez que permitiria fraquejar. Então, num gesto rápido ergueu a lâmina em direção ao banqueiro.

O disparo ecoou pelo beco.

A dama cambaleou, a seda de seu vestido tingindo-se de vermelho. Ainda de pé, olhou para o policial com uma mistura de desprezo e admiração.

— Talvez você seja o único a me deter. E caiu ao chão, a lâmina escapando de sua mão enluvada.

Harold correu para longe, sem agradecer, tropeçando nas pedras molhadas.

Edward aproximou-se do corpo ofegante. A mulher ainda respirava, mas os olhos se apagavam. Não havia medo neles, apenas a calma de quem cumprira parte de sua missão.

Na manhã seguinte os jornais noticiavam:

“Capturada a assassina que aterrorizava Covent Garden e Soho. Conhecida como dama da noite, era mulher da alta sociedade, cujos motivos permanecem envoltos em mistério”.

Mas, Edward sabia a verdade. Ao lembrar o olhar dela, compreendeu que havia algo além do crime, uma luta silenciosa contra a corrupção dos poderosos, travada por mãos que escolheram o sangue ao invés da lei.

E assim, Londres perdia uma enigmática sombra justiceira!

 


ENC0NTRO COM A NATUREZA - Adelaide Dittmers

 


ENC0NTRO COM A NATUREZA

Adelaide Dittmers

 

A paisagem deslumbrante perfumou meu olhar e naquele momento mágico absorvi com avidez a beleza da natureza selvagem.

Senti o frescor do vento entoando sua canção eterna.

Enquanto andava por entre as árvores, observei um belo pássaro, que encheu meu olhar com seu trinado.

Ao nadar para perto de uma cachoeira, que iluminava o lugar com sua branca espuma, pude beber a pureza daquele lugar e sentir o gelo da água, que me envolvia.

Saboreando a natureza, olhei agradecida para o céu, cujo profundo azul completou com um doce aroma os meus sentidos.

Ouvir os sons da floresta fez meu corpo sentir a vibração de cada folha que caía, e quando o silêncio calou as árvores, a paz acariciou meu olhar, tornando-me parte da vida que fluía daquele paraíso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O SEGREDO DE UMA LÁGRIMA - Pedro Henrique

 



O SEGREDO DE UMA LÁGRIMA

Pedro Henrique

 

     Curioso é pensar na vida e em toda sua construção e forma: medo, terror, desejo, afeto e passado. Tantos elementos e, ainda assim, os mais torturantes insistem em emergir.

     Reflito, talvez seja um fato inerente a esse ecossistema. Assim como existe a verdade, também há a mentira. É inevitável.

     Começamos pensando no vento. Exatamente, o vento; esse elemento que, aos olhos de muitos, é tão banal. A princípio, ele é brando e gentil. Refresca com sutileza a alma daqueles que, pelo sol escaldante do cotidiano, são castigados. 

     Depois, ele aumenta seu impacto, fecundando-se mais forte até chegar em seu estágio de maior prestígio.

     O vento, então, anseia todo o espaço, e penetra cada milímetro que pode até adentrar uma rua um tanto deserta, com uma vegetação calorosa que lhe permite saltos espontâneos e vibrantes.

     Nessa mesma rua, lá… longe, vê-se uma casa: pequena, simples, e sem uma gota minúscula sequer de paz.

     Curioso, o vento se aproxima sorrateiro, chega de fininho, bem na ponta dos pés, atraído pela janela.

     Ele observa calmo e sereno a movimentação. Depois de alguns segundos, o pânico cessa.

     Primeiro, há medo, logo em seguida, subjugação, depois lágrimas. O vento, portanto, decide entrar e fazer daquele ambiente seu mais novo lar. Nunca, até então, havia encontrado uma residência assim: nebulosa.

     Descobriu a origem da lágrima. Seu nome era Vicentina, a menina nascida marcada.

     O vento tinha pena dela, como eu tenho. Coitada, soubera desde muito nova como carregar seu manto de horror e aceitou que era assim mesmo.

     Quando bebê, nascera bela e edênica. Era daqueles cujos indivíduos se entusiasmavam de olhar, com isso, não bastando aos olhos, queriam pegar, apertar, beijar e fazer caretas e vozes pueris.

     Cresceu, como toda criança, com devaneios intocáveis e indeléveis.

     Ela tinha a Via Láctea em suas ínfimas mãos. Queria ser tudo e mais um pouco se assim pudesse ser.

     Também era inteligentíssima. O vento muito gostou disso. No entanto, a lágrima, a bendita lágrima, o perseguia.

     “O porquê daquela garota pulcra, que tinha o QI de poucos, chorar tanto?”

     “Quais segredos, se perguntava o vento, residem debaixo daquele teto?” “Como é possível?” “Eu escutei aquele choro, sei que ele vem das entranhas, da alma, daquele lugar escondido e inabitável que há em cada um de nós.” “O que será que aconteceu?”.

     E querendo saber mais, o vento seguiu. Porque a vida exige de nós o prosseguimento independente “de”.

     Com o tempo, vislumbrou nossa querida Vicentina florescendo para o mundo.

     A menina ganhou forma rápido e os gaviões, famintos por carne, não demoraram a atacar.

     O vento afirmava que ela, minha bela e doce lírio-do-vale, era muito simplória. Isso porque, caiu na cova do masculino, como mosca que se agarra à teia e dela jamais consegue se soltar. Enfim.

     Cabe ao gentil leitor saber, no entanto, que ele lhe prometera beijos, casa, vestido de noiva, viagens… Tudo aquilo que uma garota mais pode desejar no mundo.

     Entretanto, no final das contas, o que realmente lhe dera foi um lindo presente que carecia de duzentos e setenta dias para vir ao mundo.

     Portanto, o vento soube, soube, pois ouviu “vagabunda”, “Eu sabia que você só ia me trazer desgosto”, “Eu não vou criar”, “Ah, é? Foi mulher pra fazer, agora vai ser mulher pra cuidar”, “Não me chame mais de mãe, eu morri pra você”, “Puta”.

     E assim a lembrança de outrora voltou calma e segura, anunciando que aquela lágrima tinha por nome “família”.

     O vento pode chamar de inocência, eu, porém, digo ser afronta.


O anão de Nova Odessa - Alberto Landi

 

 


 

O anão de Nova Odessa

Alberto Landi

 

Ninguém sabia ao certo quando ele havia chegado à cidade. Apareceu de repente numa tarde bem abafada, caminhando pela Rua dos Patriotas.

Chamava atenção não somente pela baixa estatura, mas pelo jeito de encarar as pessoas, olhos firmes, como se cada olhar fosse um desafio. Tinha o corpo baixo e robusto. A face marcada pelo sol. Pequeno na sua estatura, mas impossível de ignorar. Quando falava, a voz firme impunha respeito maior que seu tamanho.

Na praça central, próximo ao Coreto, abriu uma pequena banca de consertos, relógios, rádios antigos e até brinquedos quebrados, que voltavam a funcionar em suas mãos hábeis.

Rapidamente ganhou freguesia, porém com a admiração vieram os cochichos…

— Esse anão não é daqui da cidade. Tem algo estranho nele, você reparou? As pessoas comentavam.

 

A suspeita cresceu quando começaram a desaparecer objetos de uma feira noturna que havia.

Primeiro frutas, depois ferramentas, até que um feirante jurou ter visto o anão Elói próximo de sua banca.

O boato se espalhou feito pólvora. Uma noite, reunidos em frente à banca, os comerciantes exigiram explicações.

— Olá, baixote, ou você devolve o que roubou, ou vai embora daqui. O açougueiro gritou alisando o facão num gesto ameaçador.

Ele não recuou. Ergueu o queixo, respirou fundo e abriu uma pequena caixa de madeira. Dentro, havia muitos objetos, sim, mas não roubados. Eram peças restauradas, devolvidas à sua forma original. 

Não roubo nada. Devolvo o que vocês esqueceram de valorizar, disse com a voz firme e alto.

O silêncio caiu sobre a praça. Alguns abaixaram os olhos envergonhados, mas o açougueiro avançou um passo, ainda bem desconfiado, e a multidão observava dividida, sem saber se acreditava nele ou não.

Naquele instante, o destino de Elói ficou suspenso como o ponteiro de um relógio que hesita entre dois segundos.

O silêncio pairou sobre a praça. Ele mantinha os olhos fixos no açougueiro que ainda segurava o facão.

— Palavras bonitas, as suas — rosnou o homem.

Mas quem garante que não é truque?

O anão respirou fundo, mergulhou a mão na caixa e retirou um pequeno rádio de pilha que havia restaurado, dando vida a esse objeto.

Colocou-o sobre a banca e girou o botão. De repente, a velha melodia de uma valsa ecoou no ar. Uma senhora na multidão ofegou, levando a mão no peito.

— Esse rádio era do meu marido. Estava quebrado há anos, disse ela, emocionada, aproximando-se.

Ele apenas assentiu.

— Encontrei-o jogado num canto da praça, achei que merecia uma vida nova.

Um burburinho percorreu o local. Outros objetos da caixa foram reconhecidos: uma boneca de pano restaurada, uma caneta antiga polida, um relógio de bolso que voltou a marcar as horas. Aos poucos, a desconfiança se transformou em vergonha.

O açougueiro baixou o facão, desconcertado.

— Então… Você só queria consertar o que estava perdido?

— Não somente objetos, às vezes pessoas também.

Um silêncio respeitoso tomou conta do lugar. A partir daquele dia, ninguém mais ousou acusá-lo. Ele tornou-se guardião silencioso da memória da cidade, não por causa de sua estatura, mas porque enxergava valor onde os outros só viam descartes.

E foi assim que o estranho forasteiro, com mãos pequenas e firmes, consertou não apenas rádios e brinquedos, mas também a confiança de uma comunidade inteira.

 

 

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FURA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FURA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Michele é uma formiguinha muito laboriosa! A mais esperta e trabalhadeira do seu formigueiro. Geralmente, é a preferida da rainha e, quando fala, é a mais atendida.

Moravam numa pequena fresta entre rochas, difícil de escalar, mas sentiam-se protegidas dos bichos e das ondas do mar ao redor, quando eram muito revoltas, devido ao vento, nas marés altas.

Pela manhã, a primeira que saía da casinha era Michele. Ia procurar algum resto de bichinho ou folhinha de árvore que pudesse carregar. Algumas companheiras iam junto, mas, geralmente, ia só. Eram meio preguiçosas e dormiam até tarde, ou se acostumaram com o esforço da coitada.

Numa manhã, Michele percebeu que a água do mar estava mais próxima, batia forte, bem perto delas.

Algumas pedras ao redor da fenda, de tão sovadas e empurradas, escorregaram e caíram.

Michele voltou para a casa muito preocupada e advertiu a rainha. Precisavam mudar de lugar. Com o tempo, mais alguns dias e a toca seria invadida. Poderiam morrer afogadas.

A maioria do grupo começou a rir, comentava ser difícil serem invadidas. A entrada do formigueiro ficava no alto de uma rocha, bastava apenas que colocassem uma pedra na entrada, para impedir a água de entrar.

Michele, espantada, perguntou à rainha:

— Quem de nós consegue empurrar uma pedra para tampar a entrada? Mal conseguimos alcançar a praia para pegar comida! Melhor seria mudar daqui.

As formigas se entreolharam e nenhuma conseguiu responder ou sugerir alguma ideia.

Os dias vão passando e a maré vai subindo. Elas já escutavam o estrondo das ondas ao bater nas pedras, cada vez mais forte.

Michele continuava tentando abastecer o formigueiro, não descansava de suas obrigações, mas tinha muito medo.

Chamou umas amiguinhas, que confiavam muito nela, e tentaram empurrar uma pequena pedra até a entrada da toca. Faziam grande esforço e ufa… ufa… a pedrinha mal se movia. Não saia do lugar.

As outras formigas, diante disso, comovidas, agruparam-se e auxiliaram-nas a empurrar mais a pedra. Até conseguirem fechar a entrada.

Ficam radiantes, receberam elogios da rainha! O medo da invasão das águas vai embora, mas Michele, mais esperta, continua achando melhor irem embora. Água pode ser mais forte que a pedra.

O mar sobe rápido, o barulho das ondas se chocando contra as pedras fica cada vez mais próximo, e a formiguinha experiente, cada vez mais preocupada.

Advertiu novamente a rainha. Dispôs-se a procurar nova moradia. Existiam terrenos atrás das pedras que pareciam bastante calmos e mais seguros.

As outras companheiras agora davam gargalhadas e achavam que Michele era uma medrosa. Que continue seu trabalho, o qual é o que faz de melhor.

Numa tarde, Michele pôs a cabecinha para fora de casa e olhou o céu. O azul límpido se transformou em grossas nuvens escuras. Alguns raios, seguidos de trovões, anunciavam pesada chuva. O uivo do mar, à frente delas, revelava altas ondas, que logo aumentariam o percurso das águas.

Assustada, chamou algumas formigas, pegaram suas mochilinhas e gritaram:

— Não dá mais para esperar, se ficarmos seremos tragadas pelo mar e morreremos afogadas.

As mais humildes a seguiram. Rapidamente, atravessaram por cima das pedras em busca de refúgio num terreno mais elevado e mais seguro, cheio de pequenos orifícios que davam em enormes galerias.

A rainha e a maioria, mal tiveram tempo de caçoar delas. Foram arremessadas para longe, pelas águas que invadiram a toca, preenchendo cada galeria que encontrava.

Morreram afogadas mesmo, como Michele previa.

Quando tudo se acalmou, tentaram voltar ao formigueiro antigo para ver o estrago. Mas, nada mais encontraram. Nem os corpinhos das outras formigas existiam mais.

Michele, entristecida, foi abraçada pela minoria que restou e ficou sendo, agora, a rainha do novo e seguro formigueiro.

E assim, podemos concluir também: “Água mole em pedra dura, tanto bate, até que fura!”

 

 

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

... E ADÃO COMEU A MAÇÃ - Adelaide Dittmers

 

 


... E ADÃO COMEU A MAÇÃ

Adelaide Dittmers

 

Túlio admirava maravilhado o grande rio, cujas margens se perdiam de vista. A exuberância da floresta, que o cercava com suas grandes e imponentes árvores, exalava o aroma da natureza. Nuvens brancas bordavam o céu de um profundo azul.  De repente, um bando de tucanos cruzou o rio.

Seus olhos absorviam tudo com uma satisfação há muito não sentida.  Desejara aquela paz, que sua profissão impedira.  Descobrir crimes e seus autores. A constante convivência com a morte era algo, que estava deixando para trás com a recente aposentadoria.

Planejou essa viagem cuidadosamente e eis que estava no barco, que navegava mansamente, sem pressa, seguindo o ritmo plácido da natureza, para alcançar um hotel flutuante, à beira da mata.

Algum tempo depois, uma bonita construção envidraçada apareceu brilhando à luz do sol intenso.  Ele esticou todo o corpo.  Estava chegando ao paraíso.

O barco aportou e os passageiros desceram.  Os olhos brilhando e um sorriso feliz pela experiência inusitada, que iriam viver.

Depois de depositar sua mala na suíte reservada, Túlio desceu para almoçar.  As mesinhas rústicas distribuíam-se por um terraço aberto, que ladeava uma grande piscina. Sentou-se a uma mesa, onde estava um simpático casal.  A refeição veio farta:  pirarucu com banana da terra frita, farinha e vinagrete encheram seus olhos e ele inspirou o sabor original e delicioso daquelas iguarias, antes mesmo de experimentá-las.

Depois do almoço, o grupo se reuniu para se conhecer e trocar opiniões sobre aquele belo lugar. As caminhadas pelas trilhas marcaram a tarde quente desse primeiro dia. A emoção de estar andando pela imensa floresta esparramava-se pelas faces extasiadas dos visitantes, que pararam assustados ao se deparar com uma cobra, que cruzou calmamente o caminho.

No dia seguinte, foram conhecer uma tribo indígena e esse contato foi uma experiência marcante.  A dança com os trajes típicos, comer peixes feitos por eles de maneira rústica, mas deliciosos os surpreenderam.

Túlio estava fascinado e saboreava cada momento, cada novidade, que o paradisíaco lugar oferecia.

Na penúltima noite, o gerente do hotel anunciou que uma cantora da região iria brindá-los com as canções típicas da Amazônia. Todos se animaram com a apresentação durante o jantar.

O palco se iluminou e uma bela morena de cabelos lisos, que lhe cobriam os ombros, olhos verdes e amendoados, cujos traços revelavam sua mestiçagem, entrou e cumprimentou todos.  Com graça e leveza, cantou as canções amazonenses, como o carimbó e o rega.

Depois da apresentação, desceu e sentou-se para conversar com os hóspedes. Simpática, contou sobre sua ascendência indígena e portuguesa.  Crescera numa tribo e ainda hoje respeitava os ritos de seus ancestrais. A conversa foi até altas horas, com as pessoas encantadas pela história da jovem, que se dividia entre a aldeia e a cidade.

Na manhã seguinte, um Túlio sonolento, que adorara a noite anterior em que conhecera um pouco do povo da região, surpreendeu-se com o tumulto no restaurante.  As pessoas com expressões assustadas não paravam de falar.  Aproximando-se, ele perguntou o que estava acontecendo e soube que a cantora fora encontrada assassinada no seu quarto.

Ele arregalou os olhos e suspendeu a respiração.  Não era possível.  Veio para aquele paraíso para começar uma vida calma, sem a frequente presença da morte e o  crime o perseguiu.

O gerente do hotel estava nervoso, mas tentava acalmar os hóspedes.  Túlio se aproximou dele e disse em voz baixa:

— Sou detetive. Me aposentei há pouco tempo.  Quer ajuda?

O homem pousou a mão no braço dele e aquiesceu apenas com um balançar de cabeça.

Foram até o quarto.  A pobre jovem jazia no chão.  Túlio fez uma careta. O olhar cheio de piedade.  Vasculhou o quarto e abaixando-se viu uma chave perdida embaixo da cama.  Com cuidado, puxou-a com um pedaço de papel dobrado.  E virando-se para o gerente disse: 

— Vamos entregar essa chave para a polícia para verificar se tem impressões digitais.

Os policiais chegaram uma hora depois e levaram o corpo e a chave.

As pessoas passaram o dia excitadas.  Não conseguiam se desligar do ocorrido.  No fim do dia, três botos apareceram com seu jeito alegre e brincalhão.  Essa visita levantou o ânimo de todos e até Túlio se divertiu com a bagunça, que eles fizeram.

O dia da despedida do lugar amanheceu ensolarado e sem nuvens.  O grupo preparava-se para partir daquela floresta, que marcara suas vidas pela beleza, mas também por terem sido testemunhas daquele crime, quando chegou a polícia com a notícia de que o suspeito havia sido identificado pelas impressões digitais deixadas na chave. O homem tinha sido companheiro da pobre cantora. No entanto, ele afirmara que a chave tinha desaparecido da casa dele e que a tinha procurado por toda a parte.  Além disso, apresentou um álibi, pois na noite do crime, estava em Itacoatiara, cidade próxima a Manaus, onde intermediara uma compra de açaí para ser vendido para outros estados. Lá dormira em uma pousada e provou isso à polícia.

Todos ficaram perplexos. Quem teria matado a pobre moça? E por que?

Os empregados do hotel começaram a ser interrogados, Túlio acompanhou de longe o interrogatório.  Todos estavam nervosos. Ele pousou os olhos experientes em um deles, o garçom, que sereno, respondia às perguntas desviando o olhar do inquiridor.  As mãos inquietas no seu colo.  Seria ele?

Nunca iria saber.  Fora para lá para relaxar.  A polícia local é que teria que desvendar o crime.

O barco, que os levaria para a cidade, já tinha chegado e todos se dirigiram ao pequeno porto para embarcar. O silêncio tomou conta do grupo.

Túlio pensou na pobre jovem, que talvez perdera a vida de maneira tão violenta por não aceitar o assédio de um homem.

Sacudiu a cabeça para expulsar esse pensamento e mergulhou seu olhar no esplendor da natureza, onde tudo era harmônico, a floresta, os pássaros, o rio. Tão diferente do coração do homem, que abriga o inferno e o paraíso, o mal e o bem, o ódio e o amor.

Já na embarcação, olhou as águas azuladas do rio Negro, debruadas pelo verde intenso da mata.  Inspirou fundo o ar puro e deleitou-se mais uma vez com a paisagem exuberante, que se oferecia aos seus olhos. E pensou: ¨A alma do homem abriga o paraíso e o inferno, o bem e o mal, o amor e o ódio.¨

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...