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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Renascimento - Adelaide Dittmers

 


Renascimento

Adelaide Dittmers

 

A mulher abriu os olhos lentamente.  Imagens embaçadas turvavam sua visão. Aos poucos foram ficando nítidas.  Aparelhos estavam ligados nela. Um monitor media os batimentos cardíacos.  Onde estava? A confusão atordoou-a.  Tentou levantar um braço e sentiu a picada da agulha, que a alimentava de soro. O movimento acionou a luz, que chamava a equipe médica. Uma enfermeira e um médico apareceram.  Ela os fitou.  Quis perguntar o que estava acontecendo, mas não conseguiu articular as palavras.

Os dois a olhavam com uma expressão de surpresa e entreolharam-se admirados.  Não havia esperança de vê-la voltar.  Apenas se mantinha viva ligada aos aparelhos.  Há três longos anos estava ali depois de uma espécie de síncope após um parto complicado.

O médico colocou a mão no braço da jovem, que fechava e abria os olhos, tentando retomar a consciência. 

— Calma, disse ele com um sorriso comovido.  Está tudo bem!

— Onde estou?

— Você dormiu por um longo tempo.

– Dormi?  Os olhos vagando de um lado para outro para tentar entender o que lhe acontecera.

— Sim. Respondeu, evitando dar mais explicações para não aturdi-la ainda mais. E ficou ao seu lado enquanto a enfermeira saiu apressada para avisar a equipe da UTI e a família.

A notícia incendiou o lugar e se espalhou pelo hospital.

A memória da jovem foi voltando aos poucos de maneira muito confusa. O perigo da eclampsia, o medo do parto, as vozes tentando acordá-la, tudo girava em sua mente. E agora, os médicos a cercavam.  Onde estava a criança? E o marido? Com dificuldade perguntou:

— Meu bebê?

Olhares se cruzaram como flechas.  Tinham que tomar muito cuidado com as respostas.  Um deles disse mansamente:

— Ele está bem! Sua família foi avisada, mas só poderá vê-la amanhã.

— Por quê?

— Será melhor para seu restabelecimento.  Amanhã você estará mais pronta para recebê-los. O seu apagão foi longo.

— Apagão?

— Não se preocupe com isso. O importante é que você está conosco agora.

Ela tentava entender essas meias respostas.  Então o médico perguntou:

— Qual é o seu nome?

— Vera Santos Oliveira.

— Qual é a sua idade?

— Trinta anos.

Ele sorriu.  Tudo estava normalizando. O milagre da vida estava ali diante deles.

No decorrer do dia, foram acompanhando os progressos de Vera e ao fim do dia resolveram contar-lhe o que realmente lhe acontecera. O espanto calou-lhe o rosto e os movimentos.  O médico pousou a mão delicadamente em sua cabeça.

— Parabéns, menina! Bem-vinda de volta à vida!

A voz embargada traia a frieza esperada na profissão. O olhar de Vera sentiu a emoção do homem à sua frente.  Com voz trêmula, sussurrou:

— E meu bebê?

— É uma menina. Tem três anos.

As lágrimas presas encobriram seus olhos e deslizaram suavemente pelas suas faces.

— E meu marido? Meus pais?

— Você os verá, amanhã.

Ela cobriu o rosto com as mãos e os soluços a sacudiram.

O barulho de uma maca a acordou no dia seguinte.  Uma enfermeira anotou seus sinais vitais e desligou os aparelhos que ainda a monitoravam.

— Aonde vocês vão me levar? Perguntou insegura.

— Você passará por uma ressonância e se estiver tudo bem, irá para o quarto.

— Quando vou ver minha família?

— Depois do exame, poderá vê-los.

Eram oito horas, quando foi instalada no quarto. A enfermeira pegou o seu pulso e mediu a pressão. O coração estava acelerado e a pressão tinha subido.  Logo lhe deu uma medicação para baixar sua ansiedade.  Em seguida, levantou a cortina e o sol inundou o lugar.

— O dia está lindo, Vera!

Nesse momento, bateram à porta.  Vera segurou a respiração.  Diante dela, os pais surgiram sorrindo e chorando ao mesmo tempo. O abraço triplo foi longo e incontido. Atrás deles, seu marido segurava a filha assustada. O rapaz aproximou-se, mas a menina agarrava-se a ele.  Vera conteve a vontade de apertá-la em seus braços.  Apesar da forte emoção, sentiu que a pequena precisava de tempo. Ao deter os olhos no marido, percebeu um estranho constrangimento na sua expressão. Como se ele estivesse incomodado com a situação.

Dias se passaram e as visitas constantes dos pais a animavam. A menina vinha com eles, mas se mostrava arredia, o que a enchia de tristeza. O marido não apareceu mais e os pais diziam que estava trabalhando muito.

Finalmente, os médicos anunciaram que poderia ir para casa. A felicidade coloriu seu rosto. Quando os pais chegaram para buscá-la, a primeira pergunta foi:

— Cadê o Walter?

A desconfiança e o medo estamparam-se no olhar ansioso da moça.

Os pais se entreolharam e a mãe segurou as mãos da filha e com voz pousada contou que depois de um ano, em que ela ficou em coma, as esperanças de que ela sobrevivesse eram quase zero e o genro começou a namorar uma moça, que estava com ele até hoje.  Fez uma longa pausa para controlar a respiração e acrescentou que o casal tinha um bebê de quatro meses.

Vera se recostou no sofá.  Uma nuvem de tristeza espalhou-se pelo seu rosto. Eles se amavam tanto.  Como era frágil e fugidio o amor de um homem.

— E a minha filha?

— Mora com eles, mas você pode pedir a guarda dela.    

Vera abraçou a mãe e afastando-se disse comovida.

— Tudo a seu tempo, mamãe! Tenho vocês ao meu lado. Primeiro tenho que retomar minha vida.  Fui forte o suficiente para voltar. Serei forte para recomeçar a viver.       

 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

CAPITÃO MENDES - Adelaide Dittmers

 



CAPITÃO MENDES

Adelaide Dittmers

 

O velho aviãozinho soltou um ronco profundo e cansado no esforço de alçar vôo mais uma vez. No comando, um homem também entrado em anos concentrado em guiá-lo para alcançar as alturas. O rosto sério encobria a imensa satisfação que lhe ia na alma.

O céu azul pontilhado por nuvens brancas abraçou-os. Os raios de sol iluminaram as asas azuis e vermelhas do pequeno avião ao dar uma volta para perseguir caminhos incertos.

Capitão Mendes era conhecido e admirado na pequena cidade, em que vivia.  Construíra o pequeno avião e riscava os ares em ousadas manobras.  Voar era sua paixão.

Ia para onde seu coração mandava, deixando ao acaso os rumos a tomar. Sobrevoava montanhas, campos e algumas vezes a orla marítima. Respirava a aventura de estar nas alturas e de ver a vida passar lá embaixo. Aterrissava em lugares inóspitos, sorvendo a felicidade de suas andanças audaciosas.

Enfrentava os perigos com a segurança de que iria superá-los.  Muitos lhe perguntavam se não tinha medo de que o avião sofresse uma pane. Ele dava de ombros e respondia que não tinha medo de morrer e sim de não viver.

Naquela bonita manhã, voando para um destino incerto e se deixando levar para algum lugar, que o surpreendesse, ao passar por um grande pasto, vislumbrou uma cena que o assustou.  Um homem fugia a cavalo, enquanto outro jazia no capinzal.

Com uma brusca manobra, começou a descer e aterrissou perigosamente perto do homem.  Desceu as escadas correndo e alcançou o ferido, cuja camisa estava rubra de sangue.

O pobre homem lançou-lhe um olhar suplicante.

— O que aconteceu? Perguntou, ajoelhando-se ao lado dele.

— Um tiro! Balbuciou e desmaiou.

Mendes levantou a camisa da vítima.  Havia duas perfurações na altura da cintura.   Rápido, tirou a camiseta e a enrolou no ferimento. Bateu levemente no rosto do homem para acordá-lo.  Quando conseguiu, com imenso esforço o levantou e o incentivou a ir ao hospital.  Colocou os braços dele sobre seus ombros e o arrastou até a aeronave.

Arfando com dificuldade, sentou-se na relva para recuperar as forças após ter acomodado o ferido no pequeno espaço do avião.

Levantou ainda ofegante e assumiu o comando de seu companheiro de aventuras. No caminho, já emitiu um SOS para que o homem fosse atendido rapidamente.  Ao aterrissar na curta pista de seu sítio, uma velha ambulância os esperava.

Levado ao hospital, o homem foi atendido com rapidez e foi submetido a uma cirurgia para a retirada dos projéteis, que felizmente não tinham atingido nenhum órgão.  Fora de perigo e se recuperando bem, o fazendeiro contou que seu agressor era um vizinho, que comprara terras naquela região recentemente, e invadira uma grande área de sua fazenda.  Quando foi notificado pelos meios legais de que tinha que devolver o que roubara, ficou furioso.

Naquela manhã, tinha ido ao pasto examinar uma vaca prenhe, que estava próxima de ter um bezerro, quando de repente, o vizinho chegou a galope e atirou.

Mendes foi homenageado pela sua coragem e eficiência no salvamento ao fazendeiro.

E quando o velho avião decolava para novas aventuras, olhares de respeito o seguiam. E sorrisos lembravam da frase preferida do destemido aviador.

“Não tenho medo de morrer e sim de não viver”.

 

O Despertar - Adelaide Dittmers

 



O Despertar

Adelaide Dittmers

 

O rapazinho de treze anos apertou os olhos feridos pela claridade súbita.  Quando conseguiu abri-los maravilhou-se com o que viu.  Muitas descrições, tinha ouvido sobre o lado de fora, mas o que estava vendo a tudo superava.  Era como se acabasse de ter saído do útero materno.  Como se nascesse naquele momento.

Árvores floridas, um céu vestido de um azul intenso, onde nuvens brancas desenhavam diversas formas.  Abaixo, um rio esverdeado e vigoroso correndo pelo seu leito pedregoso.

O jovem sentiu-se aturdido e sentou-se para recuperar o fôlego e as forças.  Lágrimas cristalinas rolaram de seus olhos. Ele perdera tudo isso por tantos anos.  Vivera na obscuridade ouvindo as diversas histórias dos mais velhos.

Um homem estendeu-lhe os óculos escuros.

— Coloque isso! Você precisa se acostumar com a claridade!

O menino o pegou e o colocou, mas o retirou.

Queria sorver toda aquela luz, queria sentir aquele mundo, que estava experimentando pela primeira vez.

O vento que lhe desmanchava o cabelo era uma dádiva inesperada e balançava a cabeça para senti-lo como se fosse uma carícia.

Saíra de uma caverna para outra realidade. E uma pergunta imperiosa surgiu em sua mente. O que lhe reservaria esse novo mundo... Imenso demais. Misterioso demais. Inesperado demais.

Levantou-se e, com passos incertos, começou a descer a encosta da montanha. O rio o atraia como um ímã.  Abaixava ocasionalmente para pegar uma flor e a cheirava como um animalzinho fareja algo delicioso.

Os outros, que com ele haviam saído do frio e triste bunker, pararam e o deixaram seguir.

A água fria do rio molhou os pés descalços e encharcou-lhe a roupa. Um arrepio de prazer percorreu-lhe o corpo. O menino pisava com cuidado no solo de pedras lisas, apreciando cada contato com aquela natureza, que desconhecera até agora.

Uma voz feminina ecoou à distância:

— Venha, filho.  Temos que ir.

Ele voltou-se vagarosamente.

— Posso ficar mais um pouco?

— Seu avô está sendo esperado.  Precisamos partir já.

O jovem saiu devagar da água e dirigiu-se para o grupo de pessoas, que o esperavam mais acima.

Na sua cabecinha fervilhavam lembranças desencontradas.  Os dias em que homens traziam suprimentos para o bunker e reuniam-se com o avô sob as lâmpadas, que espalhavam uma luz tênue no ambiente. Momentos únicos, em que traziam notícias do mundo exterior.

A guerra, na qual o país mergulhara na tentativa de conter a invasão por outro povo. A fuga desesperada do avô, que governava a nação, juntamente com a família e componentes do governo. O esconderijo naquele lugar escuro. A resistência daqueles que queriam libertar a terra nativa dos opressores e a fidelidade ao avô, escondida no coração de cada combatente. Histórias que ouvira e tivera dificuldade de entender.

Mergulhado nesses pensamentos, chegou perto do grupo.  Olhos emocionados pousaram sobre ele.  Um senhor de cabelos prateados aproximou-se e acarinhou-lhe a cabeça.

— Pedro, você tem muito a descobrir.  Vamos até a estrada.  Carros nos esperam.

Umas trinta pessoas começaram a caminhar até a estrada.  Já tinham lhe contado que os rebeldes conseguiram expulsar os invasores após tantos anos de lutas e armadilhas ao inimigo e o país foi liberto. O que aconteceria, agora?

Ao alcançarem a estrada, vários carros os esperavam. Os olhos de Pedro arregalaram-se.  Pela primeira vez, via um carro.  Um “Ahhh”, de surpresa, escapou-lhe da boca e deu uma volta pelos veículos, admirando cada detalhe.  O menino estava admirado diante daquela realidade, que conhecera apenas pelas descrições e fotografias.  Tudo era muito maior, mais impactante.    As longas conversas com os adultos, as perguntas constantes que fizera resultaram em uma pálida ideia do mundo exterior.

Sorrisos estamparam-se nos rostos das pessoas. O jovem tinha sido o filho de todos durante os longos e tenebrosos anos em que viveram naquele lugar inóspito.  Ele foi a única alegria e um dos fortes motivos de manterem a esperança de lá sair.

De repente, parou. A alegria e o espanto diante das descobertas chocavam-se dentro dele.  Correu para perto dos pais e abraçou-os como um bebê que pede colo para se sentir protegido.

O avô derramou um olhar carinhoso sobre o neto, compreendendo os sentimentos contraditórios que o deviam estar sacudindo.

— Vamos, Pedro! Entre no carro.  Precisamos ir para a cidade.  Estão nos esperando.

Todos tomaram seus lugares e seguiram pela estrada estreita de terra.

O menino tinha os olhos pregados na janela, observando a paisagem que desfilava rapidamente. O sacolejar do veículo e as curvas do caminho o nausearam e a comitiva parou para ele pôr para fora todo o espanto e emoção que aquele mundo novo estava lhe causando.

Algumas horas passaram e pequenas habitações surgiram.

— Casas! Estamos chegando?

— Ainda não!  Veja vamos pegar aquela estrada!

Uma estrada asfaltada estendia-se a perder de vista.  Os carros a acessaram, aumentando a velocidade. O mau estado da pista fazia com que desviassem dos inúmeros buracos, mas mesmo assim tudo parecia voar ao lado de Pedro.  Ao longe, plantações de diversas cores passavam por eles simetricamente alinhadas.  Aqui ou ali, viam-se construções em ruínas.

Muitos quilômetros depois, surgiu mais abaixo de uma colina uma grande cidade.

— Agora estamos chegando, não é?

— Sim, Pedro. É a nossa cidade. A capital do país. Respondeu o avô, com os olhos marejados. 

  Nesse momento, seus pensamentos voaram para a companheira de muitos anos, que não resistiu ao longo tempo de confinamento e que não compartilharia com ele a emoção de retornar ao que tinham deixado.

A cidade os recebeu engalanada.  Bandeirinhas agitavam-se nas mãos do povo para receber o chefe da nação, que a maioria julgara que estava morto.

Espantado, o menino encolheu-se no banco do carro.  As surpresas estavam sendo demasiadas para um único dia de sua curta vida. A angústia dele foi percebida pela mãe, que o enlaçou com um dos braços e acalmou-o com palavras ternas.

Edifícios destruídos eram avistados ao longo do trajeto.  Eram os vestígios da guerra e essa triste realidade abalou o jovem mais uma vez.

Mais adiante, chegaram a uma grande praça, onde uma bela construção se erguia.  O cortejo parou.  Uma multidão lotava o lugar e o nome do avô era ouvido em altos brados.  Saíram dos carros. O avô subiu as escadas lentamente.  Soldados enfileirados prestavam-lhe continência.  Ao chegar a um patamar, no topo das escadas, um microfone o esperava.  Virou-se devagar para o povo e acenou.  Alto, rosto traçado por vincos profundos e olhar intenso.  Transpirava carisma e integridade por todos os poros. A voz firme, mas emocionada, soou pelo lugar e um grande silêncio apagou o burburinho que reinava.

Em um discurso breve, ele agradeceu a todos pela luta pela liberdade e lealdade ao país e a seus princípios mais profundos.  Ao terminar, uma ovação explodiu.  Ele curvou a cabeça em sinal de agradecimento e respeito à coragem daquele povo sofrido. Acenou mais uma vez e virou-se, entrando no palácio. Os companheiros de exílio e aqueles que o ajudaram a reconquistar o país, o seguiram.

Na grande sala, abraçaram-se emocionados.  Uma mesa posta, com várias iguarias, os esperava. O avô, porém, recusou a refeição. 

— Estou exausto.  Preciso descansar.  Vejo vocês amanhã para traçarmos os próximos passos para reerguer o país.  Há muito trabalho a fazer.

E levantando uma das mãos, cumprimentou a todos com um sorriso e saiu da sala.  Os presentes acompanharam-no com olhares de respeito.  Admiravam a bravura daquele homem, que manteve a nação unida, oculto e preso em um bunker no âmago de uma distante montanha, orientando seus homens a resistir e lutar pela expulsão dos invasores.

Quando toda a população soube que o seu líder estava vivo e, mesmo escondido, ajudou a alcançar a vitória, o orgulho despedaçado pelos anos de submissão acendeu-se em cada homem, em cada mulher, em cada velho, em cada criança.

A refeição transcorreu em um clima festivo, que disfarçava uma certa tensão em cada participante, afinal o desafio de ora em diante seria enorme e já pesava nos ombros dos que ajudariam a levantar o país.

Pedro não escondia a agitação que lhe sacudia o íntimo.  Para os seus verdes anos, tudo era muito desafiador. Olhava de um lado para o outro, sentindo a emoção contraditória de cada um, ao mesmo tempo que se surpreendia com o brilho dos talheres de prata, com a louça de filetes dourados e com a alvura da toalha.

Quando o jantar terminou, já os últimos raios de sol incendiavam a sala de tons avermelhados. O jovem correu para a janela.

— O que está acontecendo no céu?

Os pais aproximaram-se:

— É o pôr-do-sol! Não é maravilhoso? Perguntou o pai e completou: Está anunciando o cair da noite. 

Pedro estremeceu:

— Não quero ver a noite! É muito escura!

Na sua memória, surgiu a imagem negra de uma tempestade que atingiu a montanha e do vendaval que abriu e quase derrubou a porta oculta do bunker.  Pessoas correndo para fechá-la. O susto e o medo que se apoderou de todos. A confusão que lhe permitiu ir até a entrada e presenciar a escuridão, o forte aguaceiro e os raios que riscavam o céu. O pânico que o paralisou e o contato com uma mão que o levou para dentro, onde a avó o acolheu em seus braços.

O pai tirou-o dos seus pensamentos.

— Sei do que você está recordando.  Aquela escuridão foi consequência do temporal.  Hoje o dia foi claro e ensolarado. Você vai ficar surpreso ao apreciar a noite.

 — Vamos subir, exclamou a mãe. Você precisa tomar um banho e descansar. Foram muitas as emoções. Mas antes de ir para a cama, vamos admirar a noite do terraço para afastar a má impressão que ficou daquela tempestade.

E, pegando o filho pela mão, subiram a escada. Mas Pedro virou-se:

— Pai, você sobe depois para vermos a noite juntos.

O medo ainda pairava sobre ele.

As luzes piscantes das estrelas e uma enorme e alaranjada lua cheia enfeitavam o céu quando saíram para o terraço.

— Meu Deus! Quantas estrelas! A lua é linda!  Estou vendo o universo, não é?

— Sim, uma pequena parte dele.  Respondeu o pai.

Um profundo suspiro exalou das mais profundas entranhas do menino.  Um torvelinho de pensamentos tentava processar tudo o que estava vivendo e descobrindo em um único dia.  Sacudiu a cabeça, tentando ordenar o que lhe passava pela mente.

— Estou cansado!

— Vamos entrar! Você precisa de um bom sono!

Já deitado, recebeu os beijos dos pais. A cama macia o abraçou e o aconchegou.

— Deixem a porta do terraço aberta!

O luar prateado, salpicado de estrelas, iluminou e embalou os sonhos de Pedro.


A CARTOMANTE - Alberto Landi

 

 



A CARTOMANTE

Alberto Landi

 

Em uma cidade movimentada como São Paulo, onde os edifícios se elevam em direção ao céu, vivia Franco, homem de negócios conhecido por sua determinação e carisma.

Ele era admirado por sua habilidade de conquistar qualquer desafio que surgisse em seu caminho, sempre confiante em seu destino, moldado por suas próprias mãos.

Um dia, estando de férias em um local pitoresco do Caribe, ele soube que havia nos arredores do hotel uma cartomante espanhola de nome Carmem, que diziam ter o poder de ler o futuro nas cartas de tarô.

Curioso e cético, decidiu entrar na tenda colorida para leitura do destino.

Enquanto aguardava ansiosamente para ser atendido, um ar de mistério e incerteza, uma senhora de olhos profundos mergulhou nas cartas velhas e desbotadas, buscando respostas no tecido do tempo.

Com uma expressão séria e concentrada, a vidente começou a revelar as visões que se desdobravam diante dela, descobrindo segredos ocultos e verdades enterradas sob as camadas do passado.

Franco, inicialmente cético, sentiu seu coração se encher de emoção à medida que as palavras de Carmem ecoavam na tenda silenciosa.

— “Vejo um caminho tortuoso que você percorreu cheio de desafios e tribulações” murmurou a vidente com uma voz suave, mas carregada de significado”, e também vejo uma luz brilhante no horizonte, uma oportunidade de renovação que aguarda suas escolhas.

Ele prendeu a respiração, capturado pela intensidade das palavras de Carmem, que pareciam penetrar fundo em sua alma, revelando verdades que ele próprio havia tentado esconder. As lágrimas brotaram em seus olhos enquanto ele reconhecia a sabedoria contida nas cartas misteriosas e no olhar perspicaz da vidente.

— Você carrega consigo o peso do passado, mas também o potencial do futuro. Continuando com seus dedos delicados, desenhava em um papel figuras complexas.

— “Sou seu guia no caminho para iluminação, com sabedoria estou aqui para ajudá-lo a encontrar respostas e alcançar a paz interior.”

A escolha é sua, dizia, aceitar o desafio da mudança ou permanecer estagnado na sombra do que foi.

Com o coração transbordando de emoção e determinação, ele olhou nos olhos da Carmem, vendo não apenas uma leitora de cartas habilidosa, mas sim uma orientadora empática que o convidava a abraçar seu próprio destino com coragem e esperança.

— Tudo na vida é como uma tempestade, mas vou te ajudar a passar por ela.

E assim, naquele momento efêmero entre o passado e o futuro, ele se sentiu renovado pela força das palavras e pelas promessas de um novo começo que aguardava além das sombras do passado!

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A herança não pode tardar - Pedro Henrique

                          


 

A herança não pode tardar

Pedro Henrique

 

Dinheiro, sim, dinheiro, essa palavra que me delicia a boca. Que com cada uma de suas 8 letras e 7 fonemas tem o poder de reger a vida. Não há quem não o queira, não há quem não o deseje, não há quem não o ambicione. Se acham que vim aqui lhes contar algo simplório, convido-os a se retirar. Esta história é perigosa.

Uns dizem que tudo começou devido à vaidade, outros, ou por uma desgraça. Eu, porém, me coloco entre as afirmações e permito a visão macro dos fatos. Trata-se de uma mulher abastada, que teve acesso a todos os privilégios. Seu nome? Magnólia Monteiro dos Santos, filha de Lúcia Monteiro dos Santos e Rafael Vitório dos Santos, um dos empresários mais respeitados da indústria alimentícia, que infelizmente faleceu.

Toda sua fortuna recaiu nos braços de Lúcia, e não se importou com inventário nem com a distribuição da parte da Magnólia, afinal a filha ainda era uma criança. Ela, então, desfrutava de uma vida que, aos olhos dos outros, a inveja se fazia inevitável. Falo de jantares, viagens internacionais, roupas do mais fino tecido, uma casa que caberia um bairro inteiro, joias que valiam prédios e todas as coisas boas inerentes à vida daqueles que são agraciados com ouro e prata.

Criou sozinha a filha Magnólia. Claro, teve ajuda da babá e dos outros funcionários da casa, estes não sabiam como lidar com os mandos e desmandos da pequena Magnólia. A menina era autoritária; aí daquele que questionasse uma ordem sua. Se pedisse para você pegar o brinquedo que queria, deveria ir correndo, pois, se assim não o fizesse, se jogaria no chão em prantos e persuadiria, com a mais sofisticada das atuações, Lúcia Monteiro dos Santos, a entregar sua carta de demissão.

Além de tudo, era vaidosa. Não aceitava qualquer sapatilha, queria da Chanel; não gostava de qualquer maquiagem, queria a mais cara. Não lhe importava o preço, importava que era a melhor. Lúcia se deixava levar pelos caprichos da filha, e assim a menina cresceu se sentindo a verdadeira Cleópatra, a verdadeira rainha da terra. Muitos afirmavam que nela residia o próprio diabo. Era má e gostava de ser.

Magnólia cresceu e, como toda menina bonita, foi alvo dos olhares de um homem sedutor: Alberto de Campos Nunes, um grande empresário do ramo imobiliário da cidade de São Paulo.

Não havia uma que não se entregasse ao seu charme. Alberto, para Magnólia, não era senão uma questão de honra. Queria provar para si mesma e para todos que era capaz de seduzir quem quisesse.

Não demorou muito para ambos se casarem e terem sua primeira filha, Emanuela Campos dos Santos. Os anos se passaram e, com eles, a juventude de Lúcia também. Quando chegou aos 70 anos, uma doença bateu à porta. Todavia, não só a doença foi a grande questão entre a família. Havia algo acontecendo; a maldição começou a surgir das sombras e ganhar vida na multidão. A empresa de Alberto estava indo à falência, o assunto foi o mais enfatizado durante semanas na casa da família, não havia solução. Sendo assim, o casal arquitetou um plano para resolver o problema: acelerar a morte de Lúcia.

Pois, desta forma, Magnólia herdaria tudo e poderia ajudar o marido.

Quando Alberto contou o plano para Magnólia, ela nem ao menos se assustou. Pelo contrário, degustou a ideia como quem degusta o prato mais saboroso que já comeu até então. E juntos, estabeleceram uma estratégia para executar Lúcia. Era o seguinte: numa noite de sábado, quando Magnólia voltasse com Lúcia do hospital, deveria ser forjado um assalto em frente à garagem do casarão. O ladrão, no entanto, só teria um alvo, e não era o dinheiro.

E assim se sucedeu. Era uma noite fria quando Lúcia retornou para casa ao lado da filha, depois de sua passagem pelo hospital, como já era de costume devido à sua doença. Magnólia estacionou o carro em um ponto diferente dessa vez. Lúcia achou estranho e questionou a filha.

— Por que estacionou aqui fora?

— Ah, estacionei aqui porque só vou entrar com a senhora e depois vou sair com o carro. Vou encontrar umas amigas no shopping.

— Ah, sim.

Então, quando Lúcia colocou os pés para fora do veículo e foi em direção ao portão, a filha, ciente dos fatos futuros, se precaveu e ficou alguns metros afastada da mãe. Desta forma, como planejado, veio um homem das sombras, do nada, encapuzado como quem queria permanecer no anonimato, sacou uma arma e, em voz de mando, ordenou:

— Passa tudo, passa tudo.

Lúcia olhou assustada para o rapaz e depois levou seu olhar para a filha, percebendo que nela não havia nenhum pouco de desespero. Estranhada, olhou novamente para o rapaz que disparou três tiros. A bolsa permaneceu nas mãos de Lúcia, dinheiro nenhum foi levado, roubo nenhum foi cometido. Estava feito.

Lúcia tombou no chão. Sufocando, olhou para a filha e, com o pouco de voz que tinha, rogou-a:

— Me ajuda.

Magnólia se aproximou da mãe, abaixou-se ao seu lado direito e pegou sua mão.

— Ah, mamãe, eu queria tanto lhe ajudar, mas não posso. A senhora vai ficar bem, eu juro.

— Só me ajuda, por favor.

Magnólia levou a mão aos cabelos grisalhos da mãe, e Lúcia, como quem já foi graduada nas malandragens da vida, soube o que acabara de ocorrer. Olhava com espanto e medo, com terror, para a própria filha. Não reconhecia o ser humano que estava à sua frente, não reconhecia a menininha que tinha criado, dando-lhe de tudo. Se perguntava: "Onde foi que eu errei?" Pensava, como há muito tempo, que a vida era um local onde as crueldades fazem parte do ecossistema.

Era assim e sempre foi. O culpado? Bom, lhes digo: o dinheiro.

Lúcia, entretanto, em todos aqueles devaneios rápidos que passavam como um carro em alta velocidade por sua mente, só teve a capacidade de verbalizar uma única sentença, da qual precisava mais do que tudo dá resposta.

— Por quê?

— Ah, mamãe, a herança não pode tardar.

 



quarta-feira, 31 de julho de 2024

BOCA DE BEIJO - HIRTIS LAZARIN


     

Poema dedicado a Eny Cezarino, a menina de Bauru

 

Boca de beijo

 

 

          Garota menina, cheia de graça

          passa e rebola

          aos homens da praça.

                                De raça morena

                                de raça sacana.

 

                                           De boca vermelha, molhada

                                            provoca, desloca,

                                             enlouquece.

                                                      Dá calor

                                                       sem amor.

 

         É  boca de beijo

         ardente desejo.

         É boca de sexo

                        sem medo

                        nem nexo.

                                                   Garota menina

                                                   não sonha

                                                   nem ama.

                                                          Chora baixinho

                                                          jogada na cama.

                   

INVERNO EM PARIS. - Alberto Landi

 

(Guia do Estrangeiro)


INVERNO EM PARIS.

Alberto Landi

 

Visitando Paris em uma manhã de domingo de inverno, me surpreendi encantado, pois Paris se vestiu de branco como um cenário de conto de fadas.

A linda cidade coberta por uma camada de neve criava uma atmosfera mágica e romântica.

A neve caía suavemente, cobrindo o chão e as árvores com um manto gelado e branco. Os bancos dos jardins, normalmente ocupados, agora permaneciam vazios, cobertos pela neve fresca.

Nem mesmo a majestosa Torre Eiffel escapou da transformação, ficando envolta em um manto branco que a fazia parecer ainda mais imponente. Os monumentos icônicos ganharam um charme especial.

O reflexo das luzes na branca neve deixava as ruas ainda mais encantadoras e românticas.

Mesmo com o frio, mantém sua elegância e sofisticação, tornando-se um destino muito procurado por turistas e amantes da natureza.

 O ar gelado mordia meu rosto e o vapor da minha respiração se dissipava rapidamente, mas mesmo assim encontrei beleza na solidão e na nostalgia que ecoava em todos os flocos gelados.

 

O cenário era deslumbrante.

Mesmo diante dessa paisagem, havia uma serenidade na quietude da cidade adormecida sob o manto branco.

Era como se a neve tivesse congelado o tempo, permitindo um momento de reflexão e contemplação em meio à correria do mundo moderno.

E assim, entre passos silenciosos na neve fofa, encontrei encanto naquela manhã parisiense, onde a frieza do inverno se misturava com a suavidade dos flocos de neve, criando um cenário único e efêmero que tocava a alma e congelava o coração.  

Exausto após caminhar sob a neve fofa até Champs-Élysées e o Arco do Triunfo, finalmente um momento de descanso num pequeno e aconchegante café ao som da música de Édith Piaf, que revigorou minhas energias criando uma atmosfera bem parisiense como sempre me faz a música francesa com toda aquela carga emotiva e histórica e assim contribuiu para completar esse fantástico domingo invernal!

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