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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Eu e os botões - Hirtis Lazarin



Eu e os botões

Hirtis Lazarin


Eu deveria ter suspeitado no dia em que tirei da caixa meu secador novo. Ele tinha um design moderno demais, um acabamento fosco meio sinistro — não era a cor que escolhi, alguns botões que pareciam o painel de controle de um foguete espacial.

Estava atrasada para o trabalho, com o cabelo pingando e sem tempo pra ler todas aquelas instruções que, de tão pequenas, as letras pareciam formiguinhas atrapalhadas.

Meio desconfiada e à frente do espelho, girei o cabo de um lado para o outro e apertei um dos botões — foi no chute. 

No primeiro clique, em vez de um sopro morno e azul, bem reconfortante, ele emitiu um estrondo de turbina de avião. Disparou um jato tão frio que congelou imediatamente a ponta do meu nariz e meu gato despencou da cadeira.

Tentei outro botão e o danado emperrou.

Segundos depois, sem eu mudar meu dedo da posição anterior, ele decidiu viajar do modo “Polo Norte” ao modo “Lavas de Vulcão”. Senti o cheiro de queimado. Arranquei o aparelho da tomada com um puxão violento que quase levou o filtro de linha junto.

Olhei pra caixa recém-aberta no chão, cercada por plástico bolha.  Meu rosto queimava de raiva. Joguei o secador sobre a cama desarrumada e a minha vontade era transformá-lo num amontoado de pecinhas inúteis, mas como sou apenas uma trabalhadora mal remunerada…

“Chega!” Olhei para o relógio. Os ponteiros, parecia que andavam mais rápido que o normal. E o meu cabelo continuava molhado. 

Sem tempo pra decifrar a engenharia aeroespacial do aparelho, amarrei um lenço estampado na cabeça, à la “Carmen Miranda”, peguei a bolsa e saí voando. Eliminei todo pensamento negativo pra que o mau humor não atrapalhasse meu dia. 

O que eu não esperava foi o que aconteceu duas horas depois. O celular vibrou no meio de uma reunião importante. Era uma notificação do aplicativo “Casa Inteligente” integrado ao celular. 

Eu sabia que a mensagem se referia ao secador, mas “turbina”, “autodestruição”, “térmicas” era um conjunto de palavras que não tinham qualquer significado pra mim. Ignorei a informação.

No meio da tarde, entre uma planilha e outra, senti calafrios na minha espinha. Pensei no meu gato e no secador possuído em cima da cama. Se aquele monstro tecnológico, cheio de botões, resolvesse ligar sozinho no modo “turbina espacial”, o coitado do bichinho seria arremessado contra a parede ou, pior, ganharia uma escova progressiva forçada. Não tive dúvidas, inventei para o chefe uma dor de dente terrível e, em menos de cinco minutos, já estava dentro de um táxi.

Encontrei duas vizinhas e o síndico parados à minha porta. Quando entrei no quarto, o secador rodopiava sobre os lençóis e emitia um som verde fantasmagórico.

Encolhido atrás da cortina pesada, meu gatinho assustado parecia tentar se fundir com a parede. Os olhos arregalados e cheios de pânico, o pelo arrepiado e o corpo miúdo e trêmulo revelavam o tamanho do seu medo.

O síndico, mexendo aqui e acolá, descobriu que um botão do secador estava   acionado. A manhã inteira, uma voz feminina e aguda, dando “Bom dia! Tudo bem com você?” atormentou a vizinhança inteira.

No dia seguinte, acordei decidida. Envolvi o secador no plástico bolha, arrumei-o cuidadosamente na mesma caixa — que, por sorte, estava intacta — e fui até a agência de Correio mais próxima. 

Antes de entregar o pacote definitivo ao atendente, olhei pela última vez para a embalagem. Lá estava a modelo, estática e perfeita, ostentando cabelos sedosos flutuando num vento invisível. Tive a absoluta certeza de que o sorriso congelado daquela mulher na caixa não era de simpatia, mas de puro deboche. Era como se a foto estivesse me humilhando e comemorando a vitória da tecnologia contra os mais velhos.

Entreguei o embrulho para o atendente e, via SEDEX, despachei o secador para a loja “Shoppee”.

Caminhei sem olhar para trás. 

 Senti-me derrotada.


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